(Ficção baseada em factos reais)
…
- Ele acaba por se habituar…e olhe que para mim também não vai ser fácil estar sem ele umas horas. Sei que ao princípio me vai custar, mas tem que ser! – acrescentou Anita, resolutamente.
E continuou:
-O que eu pretendo é ir dar aulas no colégio. A mãe podia vir comigo falar com a directora…que acha? Ou parece-lhe melhor eu ir com o pai?
- Não me importo de ir contigo, e não vejo interesse em que seja o teu pai a acompanhar-te. Afinal, num primeiro contacto, apenas vais informar-te da possibilidade de lá dares aulas, não é? Pode não haver vaga…sei lá!
Anita sentiu-se invadir por um certo desânimo. No meio de todo o seu entusiasmo nem se lembrara da hipótese de não haver vaga no colégio.
Ao ver o seu ar decepcionado, Eulália acrescentou, rapidamente:
- Mas de qualquer modo vamos lá. Não se perde nada por isso. E, se não houver vaga, podes lá deixar a indicação de que pretendes leccionar, e no próximo ano lectivo talvez já consigas…
Deixa-me ir calçar uns sapatos, e vamos lá já. Até porque quero passar primeiro pela Igreja, para entregar umas roupas ao padre. Amanhã é dia de distribuição aos pobres, e ele, coitado, nunca tem que chegue para as necessidades…
Alguns minutos depois estavam a caminho da igreja.
O padre recebeu-as com um sorriso, cumprimentou-as, e logo se voltou para a cadeirinha de Tiago, ao qual fez uma festa no rosto.
- Como este menino é bonito! E como cresceu desde o baptizado!...
- É verdade, padre. Tem-se desenvolvido muito bem, e felizmente é muito saudável…- respondeu Anita.
Eulália, olhando enternecida para o neto, acrescentou:
- Com a graça de Deus, este meu netinho não tem dado preocupações à mãe. Tem tido sempre saúde, sempre comeu muito bem, e tem sempre um sorrisinho nesta carinha bonita…
Mas, padre, falemos doutra coisa. Trouxe aqui estas roupas para os seus pobrezinhos, e deixei separadas, em casa, umas mercearias, que mais logo a empregada vem cá trazer.
Mas diga-me: como vai o projecto da sua creche?
- Vai devagarinho, dona Eulália, vai devagarinho. As dificuldades são muitas…O espaço eu já consegui arranjar, e material também já tenho prometida uma grande parte. Estou a contar com a boa vontade de muitas paroquianas para fornecerem o leite, o pão, umas bolachas…enfim, o que for necessário para alimentar as crianças enquanto cá estiverem.
O senhor António, da mercearia, prometeu dar uma ajuda diária, e o senhor Francisco, da pastelaria, também...logo que a creche comece a funcionar.
- Então, padre, o que lhe falta para abrir essa bendita creche? Olhe que é uma grande melhoria para a cidade, e as mães não vêem a hora de trazerem para cá os seus meninos…
- O que falta, dona Eulália? Falta quem prepare o espaço, porque precisa ser tudo pintado, madeiras arranjadas, alguns vidros estão partidos…
- Ora, padre, isso não vai custar nenhuma fortuna. Vou falar com o meu marido, a Anita fala com o marido dela, e com mais algumas ajudas depressa se junta o dinheiro para fazer esses arranjos.
- Ó dona Eulália, eu nem sei como lhe agradecer.
Sendo assim, depois só fica a faltar arranjar alguém que queira vir tomar conta das crianças. É porque a dona Teresinha, que é a única que pode vir para cá, não consegue, sozinha, tomar conta de tantas crianças.
- Mas são assim tantas, padre?
- As mães que se mostraram interessadas, já passam de vinte, é capaz até de chegar às trinta. Para elas a creche é uma coisa muito boa, podem ir trabalhar descansadas…Há muitas senhoras que não gostam que elas levem as crianças para o trabalho…
Já vê, uma pessoa só, não dá…e o problema para arranjar mais pessoas é que o ordenado não poder ser muito grande…a paróquia tem poucos recursos…
Anita assistia à conversa, em silêncio, com um ar pensativo.
Imaginava uma sala bem arejada, limpa, com muita luz e cores bem alegres, cheia de crianças de tenra idade, algumas ainda bebés, outras gatinhando, outras ainda, cambaleantes, ensaiando os primeiros passos…
Era uma visão enternecedora.
Voltando-se para o padre, disse:
- Padre, o senhor já esteve noutras paróquias onde havia creches. Deve ter uma ideia de quantas pessoas são precisas para pôr a funcionar esta que vai abrir…


























