18º. ANIVERSÁRIO
Toda a gente sabe que Aniversário
é coisa de criança.
Faz-se 1 ano = Aniversário com
bonita festa - para os papás, os amigos dos papás, os filhinhos dos papás…
E o Aniversariante, sem perceber
nada do que se passa, lá vai comendo uma ou outra guloseima, e está feita a
festa.
De seguida, fazem-se os 2 anos,
os 3, os 4… e por aí fora, até à pré-adolescência.
A partir daí a coisa complica-se.
A menina e o menino já são “grandes”, quase adultos. Festa??? Por favor! Já não
sou nenhuma criança! Nem pensar!
‘Depois de jantar vou para a
“night” com a malta. Só preciso que me
abones “algum”… a vida está cada dia mais cara… temos de rever a mesada que
vocês me dão… não chega para nada!!!’
Toda esta conversa para chegar a
esta conclusão:
Hoje faço 18 anos. Festa?
Nem pensar! Já me deixei disso. Talvez, quando eu for velhinho, com uns 80, 90
anos… aceite que me façam uma festa.
Até lá… esqueçam! Quem me deu
vida que se desunhe! Ela, a Mariazita, que foi quem me pôs neste mundo, que
resolva o problema. Eu não tô nem aí!!!
Minhas queridas amigas e meus queridos amigos.
Nem sequer vou comentar o que
este blogue ingrato acabou de expressar. Vocês sabem que não foi esta a
educação que eu lhe dei…
Mas enfim… os filhos crescem, eu
estive algum tempo ausente, e o resultado é este que vêem. Perdoem-me por tanta
desfaçatez da parte dele.
Como, para mim, o mais importante
é a Amizade, para vos compensar partilho aqui um conto que escrevi, e que, para
mim, representa o valor da Amizade.
Dedico-o a todos, em geral, mas em particular a:
Roselia Bezerra; chica; Graça Pires; Os olhares da Gracinha!;Tais Luso de Carvalho; manuela barroso; Maria Rodrigues; Jaime Portela; Beatriz Bragança; Flávio Cruz; Alécio Souza; Kasioles; Táxi Pluvioso; Olinda Melo; O Árabe; Lúcia Silva Poetisa do Sertão; Larissa Pereira dos Santos; lis;
E agora, o conto:
SALVADOR E SEVERINO
O dia amanhecera com sol e a temperatura
estava muito amena.
Severino caminhava devagar ,
ligeiramente curvado, apoiado a uma bengala.
Os sapatos pretos pisavam lentamente a
calçada. As calças, também de cor preta, e a camisa num tom de cinza bem
escuro, emprestavam-lhe um ar tristonho. Um boné de fazenda aos quadrados
pretos e cinzentos rematavam a indumentária, demasiado pesada para aquele dia
primaveril. A máscara preta no rosto tornava a sua figura ainda mais lúgubre.
Percorreu os trezentos metros que o
separavam da farmácia, onde entrou.
Lá dentro pairava um leve e fresco aroma
a desodorizante de ambiente. Encontravam-se ali umas dez pessoas, ordenadas em
duas filas.
Severino colocou-se na que ficava mais
próxima da porta, resmungando:
- É sempre a mesma coisa! Para onde quer
que se vá temos sempre de esperar.
No final da outra fila, com menos
pessoas à espera de serem atendidas, encontrava-se Salvador. Com um sorriso
dirigiu-se a Severino:
- Quer trocar de lugar comigo? Tem menos
pessoas à frente, e eu não tenho pressa, não me importo de esperar…
- Não preciso de favores – resmungou.
Mas acrescentou, de imediato, tentando remediar a má impressão que pudesse ter
causado: - Obrigado, eu posso aguardar a minha vez.
Salvador voltou-se para a frente e ficou
em silêncio. Alto e magro, vestido com roupa desportiva, em tom de beije claro,
nos pés uns ténis do mesmo tom da roupa, e na mão um boné a condizer com o
restante, era o oposto de Severino. A máscara, num tom azulado, deixava
vislumbrar uns olhos risonhos.
Os clientes eram atendidos a bom ritmo.
Rapidamente chegou a vez de Salvador que, ao aproximar-se do balcão, deixou
perceber que coxeava ligeiramente.
A empregada que o atendeu deu-lhe os
bons dias num tom alegre, deixando adivinhar um largo sorriso por detrás da sua
máscara cirúrgica. Depois de lhe fornecer os medicamentos requisitados, saiu do
seu lugar atrás do balcão e, segurando-lhe no cotovelo, disse amavelmente:
- Venha, senhor Salvador, eu acompanho-o
até à porta.
- Agradeço muito, mas não era
necessário. Tenho a minha bengala ali à entrada.
- Não me custa nada – acrescentou a
empregada.
- E eu não posso negar que esta bengala
que me conduz até à porta é muito mais agradável do que a que está à entrada –
respondeu ele, alegremente.
Entretanto, no interior da farmácia,
Severino já chegara ao balcão e fora atendido. À saída encontrou Salvador que
estivera à conversa com alguém que passara. Olhando-o, fez-lhe um leve aceno,
como que em despedida e talvez uma espécie de agradecimento pela atenção da
oferta do lugar na fila.
Salvador olhou-o com um sorriso e
disse-lhe:
- Desejo-lhe um bom dia!
- Bom dia? – resmungou o outro. Onde é
que isso já vai! Nesta idade já não há dias bons.
Parara no passeio, encarando o recém
conhecido com um misto de espanto e incredulidade.
Salvador aproximou-se, colocando-lhe, ao
de leve, uma mão no braço.
- Não diga isso, meu amigo. Há sempre
dias bons. Às vezes acontecem coisas aborrecidas, mas, no fim, todos têm algo
agradável.
Severino olhou com atenção para o
interlocutor, como se estivesse observando algo raro.
- Admiro-me como o amigo pode dizer
essas coisas. Afinal, deve ser pouco mais novo do que eu. Com esta minha idade,
81 anos, já vivi tudo o que tinha a viver. E agora para aqui ando, esperando
que o tempo passe depressa, mas ele anda tão devagar…
- O tempo anda ao ritmo que nós lhe
imprimimos. E eu, meu amigo, não sou mais novo, eu tenho 85 anos, e espero
andar por cá mais alguns; ainda não cumpri a minha missão por completo. Mas,
como esta conversa me está a agradar muito, e a si também não parece
desagradar, o que me diz a irmos ali à esplanada tomar um cafezinho e trocarmos
mais umas ideias?
O rosto de Severino como que se
iluminou. Há tanto tempo que ninguém se mostrava interessado na sua pessoa!
Esforçando-se para colocar um tom agradável na sua voz, respondeu:
- Não tenho esse hábito, mas como dizem
que para tudo há sempre uma primeira vez…
- É mesmo assim, meu amigo. Quando eu
era mais jovem dizíamos, por brincadeira: temos de experimentar tudo, para não
morrermos estúpidos – e riu alegremente.
Sentados na esplanada, Severino
sentiu-se leve como há muitos anos não acontecia. O seu aspecto, normalmente
severo, parecia irradiar uma luz que lhe emprestava um ar quase simpático.
Começou a sentir a amenidade da temperatura, o que o levou a tirar o boné da
cabeça.
Salvador, reparando no gesto, comentou:
- Sabe que esse boné lhe dá um ar
pesado? Fica muito melhor sem ele. Até parece mais novo!
- Quando eu saí de casa estava uma brisa
bastante fresca. Até senti um arrepio ao chegar à rua. E soube-me muito bem o
boné na cabeça. Mas, entretanto, o tempo aqueceu bastante. Ninguém diria, mas
começo a sentir um certo calor.
Salvador sorriu interiormente. O que
faltava ao seu novo amigo era exactamente calor humano.
Mantiveram-se ali por uma boa meia hora,
tempo que Severino aproveitou para desfiar as suas mágoas e Salvador para o
confortar o melhor que pôde.
A caminho de casa Severino ia pensando:
“Quem diria que uma ida à farmácia me iria render um amigo, coisa já tão rara?
A minha Severina, onde quer que esteja, deve ficar feliz ao ver o que está
acontecendo. Tenho a certeza de que ela gosta dele!”
Coisa que há muito tempo não lhe
acontecia, sentia calor. E só o receio do que pudessem pensar os vizinhos o
impediu de pôr o casaco pelas costas.
Inconscientemente sorriu muito
levemente, ao lembrar-se das últimas palavras que trocara com o seu novo amigo:
- Vamos combinar encontrar-nos aqui
todos os dias? Tomamos um cafezinho e damos dois dedos de conversa… Que lhe
parece? – perguntara Salvador.
- Vamos, sim. Será um prazer para mim.
Há muito tempo que não fazia assim uma extravagância. E quase sorriu.
E assim nasceu uma linda Amizade que os
uniu por alguns anos, “ainda”.
(Mariazita Caiano)
Maria Caiano Azevedo


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A SI, QUE VEIO VISITAR-ME, UM GRANDE
BEM HAJA!
BEIJINHOS
MARIAZITA