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quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO

NOITE DE NATAL


 Natal de Paz iluminado pelo Amor

Nesta santa noite brilhante de Alegria!

No coração, pleno de cor e Harmonia,

Oremos aos céus pela Paz, com muito ardor.

 

Que haja magia nesta noite de Natal.

E os corações estejam plenos de esperança.

Que as almas permaneçam em doce aliança.

E que o Amor ilumine a todos, por igual.

  


FESTAS NATALÍCIAS MUITO FELIZES PARA TODOS! 

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

É NATAL

 É NATAL

Os problemas particulares relacionados com a minha mudança de casa estão, por agora, em “standby”, devendo manter-se neste estado por mais uns 6 meses, mais ou menos.

E como “um mal nunca vem só” – como diz o povo 😊 – adoeci ,há cerca de três semanas, com alguma gravidade – uma das minhas crónicas infecções pulmonares que, de tão “brava” me levou a partir uma costela, tal a intensidade e violência da tosse. Mas, enfim, o pior já passou, e com mais alguns dias (ou semanas?) estarei completamente recuperada.

Apesar de tudo não poderia deixar passar esta época natalícia sem vir dar-vos um abraço e desejar um santo e muito feliz Natal. E, se não nos “virmos” antes, que o Ano Novo nos traga Paz, acima de tudo e, se possível, alguma prosperidade.

Deixo-vos um conto que escrevi há uns anos, esperando que vos agrade.

O PINHEIRO

- Com tantos anos de vida ainda não consegui perceber porque me apelidaram de “manso”, Pinheiro Manso – murmurou o frondoso Pinheiro, voltando as verdes e finas agulhas na direcção de uma raquítica árvore que se encontrava a pequena distância.

- Ora, porquê! – respondeu a enfezada. Já tivemos esta conversa tantas vezes! Está muito bom de ver. Deram-te esse nome porque não tens a braveza dos teus primos, esses altivos pinheiros-bravos, que não se dão com os baixotes, só querem viver nas alturas…

- Acho essa explicação demasiado simplista…

- Sabes qual é o teu problema? – continuou a enfezadita – é quereres sempre saber a razão de tudo. As coisas são porque são, e pronto. Põe os olhos em mim: és capaz de me dizer porque é que eu sou assim tão raquítica? Não és, pois não? Eu também não sei, e vê lá se me preocupo…

- Xiu! – advertiu o Pinheiro. Aproximam-se pessoas. A conversa tem de ficar para mais logo. Agora cala-te, que eu faço o mesmo.

E ficaram em silêncio.

Um grupo de jovens caminhava alegremente em direcção ao Pinheiro.

Um deles, o mais alto, loiro e de olhos da cor do céu, aparentando ser o líder, abriu os braços ao alto e exclamou:

- Eu não vos dizia? Este Pinheiro não é um espectáculo?

- Sim – responderam em uníssono os outros jovens. Tu és o maior!

- Claro que sou. Por isso sou o chefe. E é como chefe que vos digo:

- Abram os braços, respirem fundo este ar puro, aspirem este delicioso cheiro a pinheiro…

E falando assim ele próprio executava os movimentos que convidava os companheiros a fazerem.

Por breves momentos só se ouvia o seu respirar profundo. Mas logo de seguida recomeçou a algazarra, rindo e falando muito alto, como se todos fossem surdos.

Um dos rapazes tinha levado um “Tablet” e em breve o silêncio da mata se encheu com os sons, em tom altíssimo, de uma canção em voga. A maior parte deles acompanhou a música em altos berros. Até os insectos fugiam espavoridos.

Pouco depois o líder disse:

- E se tratássemos das barriguinhas? a minha já está a roncar…

- Excelente ideia! – responderam em coro.

E todos, rapazes e raparigas, abriram as mochilas e retiraram de lá comida, copos de plástico, garrafas de refrigerantes e até uma toalha de papel, que estenderam cuidadosamente no chão e nela colocaram o lanche.

Sentaram-se todos em círculo debaixo da copa densa, arredondada, em forma de guarda-sol, do Pinheiro, e iniciaram o lanche alegremente.

Eram já cinco horas da tarde, tinham feito uma grande caminhada para lá chegar, e o almoço há muito tempo tinha sido digerido. Todos comeram com grande apetite.

Como estava muito calor e a sede era bastante, rapidamente esvaziaram as garrafas dos refrigerantes.

Saciados o apetite e a sede, colocaram junto ao tronco do Pinheiro as garrafas vazias, copos, guardanapos… e até restos de sandes mordiscadas. Estenderam-se no chão, à sombra. Uns conversando outros dormitando nem deram pelo tempo passar, de tal modo se sentiam satisfeitos.

O sol começava a esconder-se quando o líder exclamou:

- Ei, malta! Temos de nos pôr a milhas! Não se esqueçam de que nos espera uma boa caminhada. Já vamos chegar a casa de noite…

Puseram-se todos de pé e, sem mais demoras, iniciaram a descida. Ninguém se lembrou de recolher o lixo que tinham colocado junto ao Pinheiro.

Ouviu-se um profundo suspiro. O Pinheiro murmurou, tristemente:

- Já viste, vizinha? Respiraram o nosso ar puro, sorveram o nosso belo aroma, aproveitaram a minha sombra, nem sequer respeitaram a paz e o silêncio de todos estes seres que aqui vivem e, como agradecimento, foram-se todos embora deixando para trás o lixo que trouxeram com eles…

- Já devias estar habituado, Pinheiro. É sempre assim…

 Algum tempo depois podiam ver-se numerosas gotas transparentes pendendo das agora escuras agulhas.


- Orvalho – dizia quem passava.

Não, não era orvalho, eram lágrimas de tristeza.

Lágrimas, sim, que as árvores também têm sentimentos.

 

Um grupo de crianças que passava saltitando alegremente, parou de repente olhando atentamente para o Pinheiro.

- Olhem, olhem, o Pinheiro está a chorar! Com certeza não vai receber prendas de Natal, e por isso está triste.

A mais velhinha teve uma ideia:

- Vamos levar-lhe estas bolinhas e fitas. Talvez ele fique contente!

Correram para o Pinheiro e enfeitaram-no com tudo o que levavam para as suas festas.

O tecido das fitas coloridas absorveu a humidade das carumas e o pinheiro deixou de chorar.

E os olhos inocentes das crianças viram o brilho de reconhecimento e gratidão nos olhos do Pinheiro.

Todas as crianças convidaram os pais para irem ver o Pinheiro que, de tão feliz, irradiava uma luz especial que iluminava a noite escura.

Os pais olhavam, encantados e ao mesmo tempo surpresos por nunca terem notado a presença daquela magnífica árvore.

O amor das crianças operara o milagre.

E assim o Pinheiro triste  transformou-se na Árvore de Natal da aldeia.

Maria Caiano Azevedo 

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

CONTO DE NATAL



 Para lerem aos vossos netos (ou filhos) ou para simples prazer da criança que há dentro de vós.

 BENVINDA e BALTAZAR


Numa aldeia distante morava um casal de velhinhos: A Benvinda e o Baltazar.

Embora fossem muito velhinhos e as forças já não fossem muitas, como eram muito pobres tinham de tratar das suas tarefas. 

Benvinda ocupava-se da lida da casa. Baltazar era chapeleiro, fabricava chapéus.

Naquele Natal não tinham nada para celebrar a consoada, nem dinheiro para comprar algo com que pudessem festejar a data do nascimento do Menino Jesus.

Baltazar lembrou-se de que talvez com a venda dos seus chapéus conseguisse algum dinheiro. Deslocou-se à cidade, pensando que, no regresso, poderia já trazer algumas guloseimas para se deliciarem à ceia.

Pegou em cinco chapéus que tinha feitos e tomou o caminho da cidade, que ficava bastante longe.

Depois de, com bastante dificuldade, atravessar vários campos, chegou, por fim, ao seu destino.

Sentia-se muito cansado mas, com a sua fé inabalável, pôs-se imediatamente a apregoar os chapéus:

- Olha o chapéu!  O lindo chapéu! Quem o comprar ganha o céu!

A cidade fervilhava de gente, que corria apressada de um lado para outro, fazendo as últimas compras para o Natal.

Todos voltavam para casa carregados de embrulhos, doces… garrafas de bebidas. Mas ninguém se interessava pelos chapéus.

Baltazar pensou:

- Não foi uma grande ideia, a que eu tive. Neste dia quem é que vai pensar em comprar um chapéu?

Mas não desistiu. Todo o dia palmilhou a cidade, apregoando a sua mercadoria. Pensava em Benvinda, que em casa o aguardava, e só isso lhe dava forças para continuar, apesar do enorme cansaço.

Mas não conseguiu vender um único chapéu.

A noite aproximava-se rapidamente e Baltazar, convencido de que não valia a pena insistir mais, guardou os chapéus e iniciou o caminho de regresso.

Quando saía da cidade começou a nevar. O frio entrava-lhe através da roupa, mas ele continuou a caminhar pelo campo coberto de neve.

De repente avistou seis duendes, todos encostados uns aos outros, tremendo. Já havia neve nas suas cabeças, que lhes respingava para os rostos.

Condoído, Baltazar não hesitou um momento. Passou a mão na cabeça dos duendes para retirar a neve, e em seguida cobriu-os com os chapéus, que não havia vendido.

Mas só tinha cinco chapéus, e os duendes eram seis…

Tirou o que ele próprio usava e com ele tapou a cabeça do sexto duende.

- É um chapéu velho e sujo… mas não tenho outro… - comentou Baltazar.

Não obteve qualquer resposta pois os duendes não falam com pessoas.

O velhinho retomou o seu caminho.

Ao chegar a casa a sua cabeça estava de tal modo branca com a neve que caíra, que Benvinda se assustou ao vê-lo:

- Mas o que aconteceu, Baltazar? Pregaste-me um susto! – disse, com voz trémula.

- A verdade é que não consegui vender nenhum chapéu. Quando regressava encontrei seis duendes e imaginei que estivessem com frio. Por isso cobri-os com os chapéus. Mas como faltava um… tapei-o com o meu.

Benvinda ficou emocionada com a atitude do marido, e apenas comentou:

- Foi um gesto muito nobre!

Comeram uns restos que ainda havia na despensa e foram-se deitar. A roupa da cama era pouca para noite tão fria. Encostaram-se o melhor possível, tentando transmitir um ao outro o calor dos seus velhos corpos cansados.

Pouco depois ouviram vozes lá fora:

- “Entrega de Natal! Onde é a casa do vendedor de chapéus? Abra a porta, vendedor!”

Levantaram-se ambos e abriram a porta, assustados.

Na frente da casa havia muita comida, doces, vinho, cobertores quentinhos…

Pensaram que estavam sonhando.

Olharam em volta e não viram ninguém. Fixando o olhar em frente, divisaram seis duendes afastando-se da casa.

Pareceu-lhes ouvir ao longe: - FELIZ NATAL!

Mas foi impressão, porque os duendes não falam com as pessoas.

Puseram a comida na mesa e festejaram, felizes.

No fim da refeição ajoelharam-se junto à lareira, puseram pelas costas um dos cobertores recebidos e, de mãos dadas, entoaram louvores ao Menino Deus que, ainda mal nascido, já fizera um tão grande milagre!

 

Maria Caiano Azevedo

 



domingo, 18 de dezembro de 2011

NATAL CHINÊS

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A senhora Tung chegava dois dias antes da consoada. Costumava vê-la logo de manhã, com a irmã jardineira, no pátio maior, a admirar as laranjeiras anãs nos vasos de loiça. Via-a, casualmente, a contemplar, embevecida, o presépio do convento.
Encontrava-a por fim à mesa.
A senhora Tung viajava todos os anos da Formosa para Macau, na época do Natal, a fim de festejar o nascimento de Cristo na companhia da sua primogénita, a irmã Chen-Mou.
Nesses dias, com as meninas em férias, o refeitório do colégio parecia maior e mais desconfortável: só eu e Miss Lu nos sentávamos à mesa comprida das professoras. Daí a presença da senhora Tung, que noutra ocasião passaria talvez despercebida (estirada a sala entre pátios de cimento e plantas verdes) , se tornar nessa altura notável.
Baixa, seca de carnes, de olhos atenciosos, pensativos, a senhora Tung sorria constantemente, falava inglês, gostava de comer, de fumar, de jogar ma-jong. As criadas cortejavam-na nos corredores, preparavam-lhe pratos especiais, levavam-lhe chá ao quarto. Além de ser mãe da subdirectora, tinha fama de rica e distribuía moedas de prata a todo o pessoal na noite de festa.
Nessa noite assistiam três freiras ao nosso jantar (a regra não lhes permitia comer connosco): a directora, a subdirectora e a mestra dos estudos. E muito empertigada, segurando com ambas as mãos um tabuleiro de laca coberto com um pano de seda, a senhora Tung recebia-as à porta do refeitório, entregando cerimoniosamente o presente à filha, que por sua vez o oferecia à directora. Eram bolos de farinha fina de arroz amassada com óleo de sésamo. Toda de vermelho, de sapatos bordados e ganchos de jade no cabelo, a senhora Tung, quando a superiora colocava o tabuleiro dos bolos na mesa, dobrava-se quase até ao chão. Rezava-se, depois. Para lá dos pátios, à porta da cozinha, as criadas espreitavam, curiosas.
Nem no primeiro, nem no segundo, nem no terceiro Natal que passei em Macau, a senhora Tung era cristã, mas todos os anos se nomeava catecúmena. A seguir ao jantar falava-se nisso. A directora, uma francesa de mãos engelhadas que noutros tempos frequentara a Universidade de Pequim, perguntava em chinês formal quando era o baptizado. Inclinando a cabeça para o peito, a senhora Tung balbuciava, indicando a irmã Chen-Mou. A filha... a filha sabia. Talvez se pudesse chamar cristã pelo espírito, mas o coração atraiçoava-a. O coração continuava apegado a antigas devoções... Todavia, vestira-se de gala para a festividade da meia-noite, tinha no quarto o Menino Jesus cercado de flores, e a alma transbordava-lhe de alegria como se cristã verdadeiramente fosse.
Com um sorriso meio complacente meio contrariado, a irmã Chen-Mou desconversava, passando a bandeja dos bolos à superiora, que separava uns tantos para o convento. Os restantes comê-los-iamos nós, ao fim da Missa do Galo, com chocolate quente.
O chocolate era a esperada surpresa da directora. A senhora Tung chamava-lhe, em ar de gracejo, «chá de Paris». No fim das três missas vinham outra vez as três freiras ao refeitório do colégio para trocarem connosco o beijo da paz e nos oferecerem a tigela fumegante do chocolate. Vinham e partiam logo (tarde de mais para se demorarem), e Miss Lu, fanática terceira-franciscana, sempre atenta aos passos das monjas, sorvia à pressa o líquido escaldante, como quem cumprisse um dever, e saía atrás delas.
Ficávamos, assim, a senhora Tung e eu, uma em frente da outra. À luz das velas olorosas do centro de mesa, os seus olhos eram dois riscos tremulantes. Sorríamos. Finalmente, o reposteiro ao fundo da sala apartava-se. Uma das criadas entrava, silenciosa. Servia-se vinho de arroz.
Creio que o vinho de arroz figurava entre as bebidas proibidas no colégio e que chegava ali por portas travessas. O certo, contudo, é que ambas o bebíamos, a acompanhar os bolos de sésamo, no grande e deserto refeitório, na noite de Natal.
O vinho de arroz queimava-me a garganta e fazia-me vir lágrimas aos olhos. Quanto à senhora Tung, saboreava-o devagar, molhando nele o bolo, e, como mal provara o «chá de Paris», bebia dois cálices.
Entretanto, Aldegundes, a criada macaense mais antiga do colégio, aparecia com as especialidades da terra: aluares, fartes e coscorões, dizendo que aluá era o colchão do Minino Jesus, farte almofada, coscorão lençol. E eu traduzia em inglês para a senhora Tung, que achava isto enternecedor e gratificava a velha generosamente.
Quando por fim atravessávamos a cerca a caminho de casa, sob uma lua branca, espantada, anunciadora do Inverno para a madrugada, a senhora Tung abria-se em confidências.
A menina sabia... ― a «menina» era a irmã Chen-Mou, a subdirectora do colégio ―, sabia que ela continuava a venerar a Deusa da Fecundidade. Tratava-se de uma pequena divindade, toda nua e toda de oiro. Fora ela quem lhe dera filhos. Estéril durante sete anos, a senhora Tung recorrera à sua intercessão divina quando o marido já se preparava para receber nova esposa. Não podia portanto deixar de a amar. Toda a felicidade lhe provinha daí, dessa afortunada hora em que a deusa a escutara.
Parava a meio do largo átrio enluarado, de olhar meditabundo, mãos cruzadas no colo. E as palavras saíam-lhe lentas e soltas, como se falasse sozinha.
... E aquele mistério da virgindade de Nossa Senhora! Virgem e mãe ao mesmo tempo... Não se lia no Génesis: «O homem deixará o pai e a mãe para se unir a sua mulher e os dois serão uma só carne?» Não era essa a lei do Senhor? Porquê então a Mãe de Cristo diferente das outras, num mundo de homens e de mulheres onde o Filho havia de vir pregar o amor? A Deusa da Fecundidade, patrona dos lares, operava milagres, sim, mas racionalmente, atraindo a vontade do homem à da sua companheira e exaltando essa atracção. Como o Céu alagando a Terra na estação própria.
Retomávamos a marcha em direcção aos nossos aposentos. Difícil para mim responder às dúvidas da senhora Tung, nem ela parecia esperar resposta. Mudava, rápida, de assunto, aludindo ao tempo, à viagem de regresso, às saborosas guloseimas da criada macaísta.
Já em casa, convidava-me a ir ver o seu presépio. O quarto cheirava fortemente a incenso. Em cima da cómoda, entre flores, lá estava o Menino Jesus, de cabaia de seda encarnada, sapatinhos de veludo preto, feições chinesas.
Depois, timidamente, a senhora Tung abria a gaveta... e surgia a deusa.
O Menino Jesus era de marfim. A Deusa da Fecundidade era de oiro. O Menino, de pé, de um palmo de altura, trajando ricamente. A deusa, sentada, pequenina, nua.
Os olhos da senhora Tung atentavam nos meus, como se à procura de compreensão, mas as suas palavras prontas (a deter as minhas?) eram de autocensura. Não, não devia fazer aquilo. A filha asseverara que o Menino Jesus entristecia, em cima da cómoda, por causa da deusa, na gaveta. E quem sabia mais do que a filha ?
Eu já sentia frio, apesar da aguardente de arroz. O Inverno, ali, chegava de repente. A senhora Tung, no entanto, tinha as mãos quentes e as faces afogueadas.
Despedíamo-nos. Eu sempre me apetecia dizer-lhe que estivesse sossegada, que de certeza o Menino Jesus não havia de se entristecer, em cima da cómoda, por causa da deusa, na gaveta. Mas nunca lho disse nos três anos que passei o Natal com ela. Palpitava-me que a senhora Tung se enervava com o assunto. E que, de qualquer jeito, não me acreditaria. 

Maria Ondina Braga, A China Fica ao Lado,
Lisboa, Panorama, 1968

Maria Ondina Braga


MARIA ONDINA BRAGA

Maria Ondina Braga nasceu em 1932, em Braga. Deixou esta cidade nos anos 50. Em Paris, cursou a Alliance Française e em Londres a Royal Society of Arts. Viajou, aprendeu e ensinou. Foi professora do ensino secundário em Luanda, Goa e Macau, desenvolvendo também actividade no domínio da tradução. De todas estas viagens resultaram páginas de escrita onde se combinam memória, conto, novela, romance e crónica, sem nunca esquecer as raízes minhotas.
É autora de vários contos, novelas e romances.



BOAS FESTAS,  FELIZ NATAL

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

NATAL : JESUS OU PAPAI NOEL?

Aproxima-se o Natal. Curioso como, numa sociedade tão laicizada como a nossa, na qual predomina a tendência de escantear a religião para a esfera privada, uma festa religiosa ainda possa constituir um marco no calendário dos países do Ocidente.
Há nisso uma questão de fundo: o ser humano é, por natureza, lúdico e sociável, o que o induz a ritualizar seus mais atávicos gestos, como alimentar-se ou se relacionar sexualmente. Além de elaborar, condimentar e enfeitar sua comida, o que nenhum outro animal faz, o ser humano exige mesa e protocolo, como talheres e a sequência prato forte e sobremesa.
No sexo, não se restringe ao acasalamento associado à procriação. Faz dele expressão de amor e o reveste de erotismo e liturgia, embora o pratique também como degradação (prostituição, pornografia e pedofilia) e violência (jogo de poder entre parceiros).
O Carnaval, como o Natal, era originariamente uma festa religiosa. Nos três dias que antecedem a Quaresma, período de jejum e abstinência recomendados pela Igreja, os cristãos se fartavam de carnes – daí o termo Carnaval, festival da carne. Resume-se, hoje, a uma festa meramente profana, onde a carne predomina em outro sentido...
Essa transmutação ocorre também com o Natal. Por ser festa de origem cristã, para celebrar o nascimento de Jesus, a sociedade laica e religiosamente plural a descaracteriza pela introdução da figura consumista de Papai Noel. O que deveria ser memória da presença de Deus na história humana, passa a ser mero período de miniférias centrada em muita comilança e troca compulsiva e compulsória de presentes.
Daí o desconforto que todo Natal nos traz. Como se o nosso inconsciente denunciasse o blefe. Sonegamos a espiritualidade e realçamos o consumismo. Ótimo para o mercado. Mas o será também para as crianças que crescem sem referências espirituais e valores subjetivos, sem ritos de passagem e senso de celebração?
Longe de mim pretender restaurar a religiosidade repressiva do passado. Mas se há algo tão inerente à condição humana, como a manutenção (comer) e a procriação (sexo) da vida, é a espiritualidade. Ela existe há cerca de um milhão de anos, desde que o símio deu o salto para o homo sapiens. As religiões são recentes, surgiram há menos de dez mil anos.
Se a espiritualidade não é fomentada na linha da interiorização subjetiva e da expressão de conexão com o Transcendente, ela corre o sério risco de, apropriada e redirecionada pelo sistema, cair na idolatria de bens materiais (patrimônio) e de bens simbólicos (prestígio, poder, estética pessoal etc). Talvez isso explique por que a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas similares a catedrais pós-modernas...
Já não são princípios religiosos que norteiam a nossa vida. Desestimulados ao altruísmo e à solidariedade, centramos a existência no próprio umbigo – o que certamente explica, na expressão de Freud, “o mal-estar da civilização”, hoje acrescido desse vazio interior que gera tanta angústia, ansiedade e depressão.
Com certeza o Natal é ocasião propícia para, como propôs Jesus a Nicodemos, nascer de novo...



Frei Betto.
Natal de 2010




quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

COMO ERA A PESSOA DE JESUS CRISTO


COMO ERA A PESSOA DE JESUS CRISTO

Gravura pintada pelo próprio Públios Lentulus

(Conforme Documento existente em Roma)



O governador da Judeia, Públios Lentulus, ao César Romano:

- Soube, ó César, que desejavas informações acerca desse homem virtuoso que se chama Jesus, que o povo considera um profeta, e seus discípulos o filho de Deus, criador do céu e da terra.
Com efeito, César, todos os dias se ouvem contar dele coisas maravilhosas.
Numa palavra, ele ressuscita os mortos e cura os enfermos.
É um homem de estatura regular, em cuja fisionomia se reflete tal doçura e tal dignidade que a gente se sente obrigado a amá-lo e temê-lo ao mesmo tempo.
A sua cabeleira tem, até às orelhas, a cor das nozes maduras e, daí aos ombros, tingem-se de um louro claro e brilhante; divide-se numa risca ao meio, á moda nazarena.
A sua barba, da mesma cor da cabeleira, é encaracolada, não longa e também repartida ao meio.
Os seus olhos severos têm o brilho de um raio de sol; ninguém o pode olhar em face. Quando ele acusa ou verbera, inspira o temor, mas logo se põe a chorar.
Até nos rigores é afável e benévolo.
Diz-se que nunca ninguém o viu rir, mas muitas vezes foi visto chorando. As suas mãos são belas como seus braços, toda a gente acha sua conversação agradável e sedutora.
Não é visto amiúde em público e, quando aparece, apresenta-se modestissimamente vestido. O seu porte é muito distinto. É belo.
Sua mãe, aliás, é a mais bela das mulheres que já se viu neste país…

Maria, Mãe de Jesus

Se o queres conhecer, ó César, como uma vez me escreveste, repete a tua ordem e eu te o mandarei.
Se bem que nunca houvesse estudado, esse homem conhece todas as ciências.
Anda descalço e de cabeça descoberta.
Muitos riem, quando ao longe o enxergam; desde que, porém, se encontram face a face com ele, tremem-no e admiram-no.
Dizem os hebreus que nunca viram um homem semelhante, nem doutrinas iguais às suas. Muitos crêem que ele seja Deus, outros afirmam que é teu inimigo, ó César.
Diz-se ainda que ele nunca desgostou ninguém, antes se esforça para fazer toda a gente venturosa.

OBS 1

A descrição acima foi traduzida de uma carta de Públius Lentulus a César Augusto, Imperador de Roma.
Públius Lentulus foi predecessor de Pôncio Pilatos como governador da Judeia,
na época em que Jesus Cristo iniciou seu ministério. O texto original encontra- se na biblioteca do Vaticano. Comprovada sua autenticidade, tornou-se, fora da
Bíblia, o documento mais importante sobre a pessoa do Senhor Jesus.

OBS 2

Sabemos também que, após a crucificação de Cristo, Públius Lentulus tornou-se seu seguidor e, juntamente com sua filha Lívia, levava a palavra de Deus aos povos da época.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

PRESENTES DE NATAL

Há dois ou três anos ( ou quatro? ), quando começavam a sentir-se mais vivos os sinais da crise que se avizinhava, e que nos tem acompanhado desde então – e sabe-se lá quanto tempo mais irá ser nossa fiel companheira! – encontrei, por alturas do Natal, uma senhora que conheço há algum tempo.
É uma pessoa que considero muito pelo exemplo de vida que tem dado, e é motivo para, pelo menos, meditarmos.
Viúva há anos, sem filhos, reformada de uma entidade bancária, vive da sua modesta reforma, sempre com um sorriso no rosto.
Habita uma casa pequena, sem luxos, mas que possui um quintal de razoáveis dimensões.
A necessidade que sente de ser útil e praticar o bem ajudando o próximo levou-a a arquitectar um plano que mantém até hoje.
É a dona Emília.

Como os poucos familiares conhecidos se encontram no estrangeiro, satisfaz essa necessidade auxiliando os que precisam, logo que disso tem conhecimento.
Para o efeito desloca-se a uma vila próxima à procura de crianças abandonadas. A sua atenção recai, essencialmente, sobre crianças de tenra idade, que encontra sozinhas, estendendo a mão à caridade pública, e lhes confessam dormir na rua por não terem casa nem família.
Traz consigo essas crianças, limpa-as, alimenta-as e cuida-as até à idade escolar.
Nessa altura encaminha-as para a Segurança Social, já que o ir para a escola acarreta despesas acrescidas a que ela não pode fazer face. Muitas dessas crianças, depois de encaminhadas, vêm visitá-la, o que lhe dá grande alegria.

Chega a ter ao seu cuidado cinco e seis crianças ao mesmo tempo.

Como a casa onde habita é pequena não pode albergar tantas crianças. Conseguiu que lhe oferecessem uma velha roulotte, que ela própria limpou, pintou, tornou habitável; aí acomoda, para dormir, as crianças de mais idade que não cabem dentro da casa.
Tem tido muitas ajudas; a sua magra reforma não chegaria para tanto.

Conheci-a num dia em que a vi passar com uns sacos de roupa que a minha filha tinha depositado, momentos antes, junto ao contentor do lixo. Eram roupas dos meus netos, que já não serviam por serem pequenas, mas ainda se encontravam em bom estado.
Na falta de haver a quem as dar, costumávamos colocá-las em sacos, encostados ao contentor do lixo, esperando que alguém pudesse aproveitá-las.
Reparando que a senhora transportava os ditos sacos dirigi-me a ela, especialmente porque o seu aspecto não era o de uma pessoa necessitada.
Apresentei-me como a pessoa que colocara os sacos da roupa junto ao contentor. Sem me deixar entrar em mais considerações, com um largo sorriso disse-me:
- Ai sim? Que bom! Há aqui roupas muito boas, que vão fazer muito felizes os meus meninos. E, se não se importar, vou pedir-lhe um favor.
Admiradíssima por ouvi-la falar em “meus meninos”, pois não tinha idade para ter filhos pequenos (as roupas que levava eram de crianças de dois anos) respondi-lhe que sim, podia pedir o que quisesse.
Foi então que ela contou, em largos traços, o fim a que se destinavam as roupas, pedindo-me que, de futuro, não as colocasse junto ao contentor do lixo, mas as guardasse, que ela passaria lá por casa a recolhê-las.
Foi o que passámos a fazer, tanto com as roupinhas como com brinquedos, aos quais juntamos, por vezes, uma ou outra guloseima e alguns alimentos.
De vez em quando vemo-la passar, para fazer as suas recolhas – felizmente há muita gente boa que lhe dá ajuda – e trocamos dois dedos de conversa.
Conhecemos, porque nos convidou para o fazer, a casa onde vive e o quintal que se transforma em paraíso para tantas crianças que por lá passam.
Não sei se por causa do muito amor que se respira naquele local o ar é perfumado, as flores que nascem aqui e ali no chão são frescas e brilhantes, as crianças que correm naquele espaço perfeitamente limpo têm um ar extremamente feliz. Ali sentimo-nos em paz.

Chegada a altura do Natal recebe imensos presentes para os “seus” meninos.
Como forma de retribuição costumava oferecer uma pequena lembrança a todas as pessoas que tão generosamente lhe enchiam a casa, quer para a ceia de Natal, quer para os “sapatinhos” na árvore.

Disse, no início, que a encontrei há dois ou três anos. Contra o costume apresentava um ar triste. Perguntei-lhe se havia algum problema. Respondeu-me:
- Sim, até certo ponto. Estamos no Natal e, ao contrário de todos os outros anos, não pude comprar lembrancinhas para as pessoas, tão bondosas, que me ajudam a criar os meus meninos.

E enquanto uma pequena lágrima assomava aos seus lindos olhos, acrescentou:
- Este ano vou apenas distribuir Amor, muito Amor e Carinho por todos.

Não resisti a dar-lhe um abraço. Também eu tinha uma lágrima entalada na garganta.

Mariazita – Dezembro 2009

PARA TODOS UM BOM NATAL

Sugestões de presentes para o Natal:
Para seu inimigo, perdão.
Para um oponente, tolerância.
Para um amigo, seu coração.
Para um cliente, serviço.
Para tudo, caridade.
Para toda criança, um exemplo bom.
Para você, respeito.
Oren Arnold

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

MENSAGENS NATALÍCIAS

Com o post de hoje encerro o ciclo de mensagens natalícias de 2008.
O ano está a terminar, falta apenas uma semana para aparecer o Ano Novo – precisamente de hoje a uma semana.
Falaremos sobre isso ao longo destes dias que restam de 2008.
Entretanto, para despedida do Natal, partilho convosco um conto de Natal, da autoria de Isar Maria Silveira..
E para terminar em verdadeira beleza, aprecie, no final, a belíssima canção de Natal “ O Holy Night”

UM CONTO DE NATAL

Texto de Isar Maria Silveira

Há muitos anos Neimar de Barros (*) visitou minha terra natal, Sant’Ana do Livramento.
Fez uma palestra na Igreja Nossa Senhora do Rosário, a qual minha família frequentava.
Na fria noite, um sábado de Agosto, os bancos todos estavam lotados, e ainda havia gente em pé no fundo do vasto templo.
Todos queriam ouvir o homem que escrevera o livro “Deus Negro”.
E lá estávamos nós: meu pai, minha mãe e eu.

Ao entrar, sob acalorados aplausos, Neimar pediu silêncio, e, antes de iniciar o que iria falar naquela noite, disse:
- Senhores, ao chegar aqui, encontrei um casal muito humilde.
Eles são do interior, não têm parentes na cidade, e vieram em busca de um emprego que foi prometido ao marido.
Ela está grávida e eles não têm dinheiro para pagar um hotel. Precisam ficar na casa de alguém até segunda-feira. Qualquer espaço serve.
Quem de vocês poderia recebê-los?

Fez-se um silêncio profundo.

Lembro do olhar trocado entre meus pais.
Meu pai ergueu a mão e disse que poderiam ficar em nossa casa.

Neimar olhava ao redor como se não tivesse visto o gesto, e ainda esperasse pela manifestação de outra família.

Ninguém mais levantou a mão.

Então o palestrante virou-se para onde estávamos sentados e disse:
- Após a conversa que terei hoje aqui, por favor venham falar comigo.

Neimar discorreu sobre solidariedade, fé, amor ao próximo, e muitos outros assuntos que aqueciam nosso coração e nos faziam pensar em como podíamos ser melhores.
Sensibilizou com suas palavras até os corações mais duros.

Antes do final da palestra chamou-nos até onde estava, abraçou-nos longamente e colocou-se entre nós.
Por fim falou a todos os presentes:
- O casal de que lhes falei são Maria e José.
Apenas esta família, entre tantas aqui presentes, acolheria o Menino Jesus.


Nunca esqueci desse fato.

Hoje me pergunto se eu seria capaz do gesto de meus pais.



*Neimar de Barros era um conhecido produtor de televisão que, na década de 1970, após ter participado num encontro religioso, se tornou pregador e escritor de livros religiosos.
Deixou o trabalho na televisão e, junto com outras pessoas do meio artístico, criou um instituto de missionários leigos católicos que faziam palestras em todo o país.
Os seus livros tiveram grande aceitação, especialmente o beste-seller “Deus Negro”.


Isair Maria Siveira diz, de si própria
- Meu nome: Isar Maria da Fontoura Silveira , gaúcha, mora em Canoas, no RS.
Sou: mãe, profissional, estudante, amante, amiga…são tantas!
Na verdade sou artista, sempre representando um papel.
Visto máscaras conforme a situação e faço da vida um grande palco.
De todos os meus papéis o que me dá mais satisfação é escrever…



Luciano Pavarotti & Placido Domingo - O Holy Night

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

MENSAGENS NATALÍCIAS

Missa do Galo

Frei Betto

Natal é festa polissêmica. De certo modo, desconfortável. Para os cristãos, comemoração do nascimento de Jesus, Deus feito homem. Para a indústria e o comércio, ocasião de promissoras vendas. Para uns tantos, miniférias de fim de ano. Para o peru, dia de finados.

O desconforto resulta da obrigatoriedade de dar presentes a quem não amamos, mal conhecemos ou fingimos amizade. Transferido o presépio de Belém para o balcão das lojas, substituído Jesus por Papai Noel, a festa perde progressivamente o caráter religioso. O Menino da manjedoura, que evoca o sentido da existência, cede lugar ao velho barbudo e barrigudo, símbolo do fetiche da mercadoria.

O olhar desavisado diria que o consumismo hedonista despe-nos da religiosidade. A Missa do Galo, outrora à meia-noite de 24 de dezembro, reduz-se ao galeto das celebrações, às oito ou nove da noite, antecipando-se à madrugada na qual impera a violência urbana. O apetite da ceia e a curiosidade em abrir presentes falam mais alto que bons e velhos costumes: oração em família, cânticos litúrgicos, narrativas bíblicas, memória dos eventos paradigmáticos de Belém da Judéia.

Uma atualização dos eventos bíblicos permite-nos imaginar, a partir do contexto brasileiro, o leitor do Diário de Belém, edição de 26 de dezembro de 1, frente à seguinte notícia: "Família de sem-terra ocupou ontem a fazenda Estrela de Davi, em cujo pasto uma tal Maria, esposa do carpinteiro José, deu à luz o filho Jesus. A polícia de Herodes está no encalço dos sem-terra, que se encontram foragidos."

A abstração da linguagem, contudo, faz do pseudolirismo natalino o inverso do fato histórico. O Verbo encarnado perde contundência e cede lugar ao presépio descontextualizado, mero adorno à festa papainoélica.

Vivemos hoje assolados por fortes ventos esotéricos, nessa época epifânica em que religiões tendem a ocupar o lugar deixado pelas ideologias messiânicas. Assistimos à crise das Igrejas tradicionais, encerradas num monólogo ininteligível para o contexto de pluralismo e tolerância com o diferente. A perplexidade assemelha-se à da professora de piano clássico que vê seus alunos aplaudirem os metaleiros.

Proliferam novas modalidades de aspirar ao Transcendente, da aeróbica litúrgica às meditações orientais. Nunca houve, na expressão de Rimbaud, tanta "gula de Deus". I Ching, astrologia, búzios, tarô etc., são vias pelas quais se tenta encontrar segurança diante do futuro imprevisível. Agora, já não há tanto interesse pelas religiões das grandes narrativas bíblicas, da santidade ascética, da autoridade sacralizada, da moral coercitiva, da escatologia que nos faz trafegar, titubeantes, sobre o fio invisível que liga o Céu ao Inferno.

Predominam as religiões do consolo subjetivo, da alegria d'alma, da cura imediata, dos fenômenos paranormais, da comunidade que se sente resgatada do anonimato, de bênçãos e graças que jorram quais juros de quem acredita na versão pós-moderna do dilema "a bolsa ou a vida". Vigora a religiosidade prêt-à-porter, sem culpas, macroecumênica, fundada na crença em um Deus que dispensa hierarquias, manifesta-se pelas regras de ouro do marketing e tolera todas as nossas incoerências.

Talvez não haja na literatura brasileira quem melhor tenha captado o sentido do Natal que Machado de Assis, no clássico conto Missa do Galo. Não há propriamente missa, apenas a espera ansiosa num serão que progressivamente transmuta a anfitriã Conceição, que atingira os 30 anos, aos olhos de Nogueira, rapaz de 17. Machado faz do coração do jovem narrador um profundo e aquiescente presépio, onde a vida renasce no sutil milagre do amor desinteressado. Um gosto de eternidade. De eterna idade. No entanto, quebrado pelo tempo que flui incoercível ao ritmo implacável das horas. Na sala, a missa em torno da musa antecede e realiza a comunhão, eclodindo na beleza de um singelo encontro entre duas pessoas.

Isso é Natal, festa rara no mais profundo de si mesmo, na qual as pessoas se fazem presentes umas às outras e entre as quais o amor refulge como estrela. Essa festa não tem data e é celebrada sempre que há encontro em clima de afeto e sabor de comunhão. Ali, as palavras são como barbante de presente em mãos de uma criança: a cada nó desfeito, uma expectativa de surpreendente revelação.
JF 07/12/08


Aprecie o vídeo que escolhi para hoje.
“O menino” é uma canção de Natal tradicional portuguesa..


Nem Truz Nem Muz na televisão Alemã Bayerscher Rundfunk

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

MENSAGENS NATALÍCIAS

Quando, no passado Domingo, informei que iria postar diariamente até ao dia 25, não me lembrei de que ainda havia uma terça-feira, dia em que, normalmente, posto no SEMPRE JOVENS/a>.
Entretanto, para me redimir da minha falta de lembrança…deixo-vos um poema de Vinícius de Morais, esperando que, com este presente, me perdoem…


Poema de Natal

Vinícius de Morais

Para isso fomos feitos: Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida: Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva... Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar....Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer: Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai — Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos: Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte — De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


Extraído do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960.


Penso que gostará de ver o vídeo que escolhi para esta noite.


Celine Dion - Blue Christmas






segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

MENSAGENS NATALÍCIAS

ENTRAI, PASTORES, ENTRAI
(Cantilena de Natal)
PARA CANTAR COM A MÚSICA DO
WE WISH YOU A MERRY CHRISTMAS


Se quiser comece por ligar o video (link no final do post) e acompanhe o poema, cantando. Desligue, antes, o som de fundo.


ENTRAI, PASTORES, ENTRAI

Entrai pastores, entrai
Trazei a ovelha
da Paz
Vede que o Mundo se esvai
Deixai a guerra para trás

Vede que o Mundo se esvai
À míngua de mai
s ternura
Entrai pastores, entrai
Trazei leite de doçura


Entrai pastores, entrai
Trazei mel, trazei pão

Vede que o M
undo se esvai
Morrendo de inanição



Vede que o Mundo se esvai
Em meio de tanto horror
Entrai pastores, entrai
Trazei nas mãos o Amor

Entrai pastores, entrai
Fechai as portas ao mal
Vede que o Mundo se esva
i
Trazei um "Sempre Natal"

Autora: Carmo Vasconcelos

Obrigada, Carminho, por me permitires a publicação do teu poema.


Carmo Vasconcelos, nome literário de Maria do Carmo Fernandes de Vasconcelos Figueiredo, é natural de Lisboa.
É autora do livro de poemas “Geometrias Intemporais”, publicado em 2000, e de outros, de poemas – “Memorandum de Fogo”, “Despida de Segredos” e “Ecos do Infinito” - assim como do romance “O Vértice luminoso da Pirâmide” - aguardando publicação.
Pela sua participação em vários Jogos Florais teve o privilégio de ganhar numerosos prémios e menções honrosas.




Helmut Lotti - We Wish You A Merry Christmas






domingo, 21 de dezembro de 2008

MENSAGENS NATALÍCIAS

Se é certo que o Natal pode e dever ser todos os dias do ano, a verdade é que a chamada “época natalícia” ocorre apenas uma vez por ano, em Dezembro, precisamente a altura do ano em que estamos agora.

E se, ao longo do ano, podemos e devemos difundir mensagens que apelem à solidariedade, ao Amor entre a humanidade, aos procedimentos correctos para com os indivíduos, a Natureza, o meio ambiente…as mensagens tipicamente natalícias divulgam-se nesta época, e depois guardam-se na gaveta.

Dado que este período, relativamente curto, está a aproximar-se do fim, decidi publicar, DIARIAMENTE, até ao dia 25, uma série de posts alusivos ao Natal.
Gostaria de poder contar com a vossa companhia, nesses dias, para uma breve leitura.

Eis o primeiro:

Prezado Papai Noel:

Este ano estou escrevendo com antecedência, pois percebi que organização não é seu forte e quero que o senhor tenha tempo de preparar tudo certinho.

Este ano não tenho a menor intenção de ser humilde, pensar no próximo, ser caridosa, etc. Vou pedir sem miséria, estou de saco cheio de ser delicada em meus pedidos e receber migalhas.

Segue minha lista, posso assegurar que muitas outras mulheres irão gostar, de modo que o senhor pode produzir tudo no atacado para baratear os custos.

Desejo que não haja limite nos cartões de crédito, e que exista um código especial para fazer compras, de maneira que a fatura seja automaticamente zerada.

Quero um homem de verdade, mas, fala sério, Papai Noel, não me traga imitações ! Diga NÃO à pirataria! Chega de genéricos!

Quero um dispositivo instalado no umbigo que jogue fora toda a gordura consumida, desinflando os pneuzinhos automaticamente.

Quero uma manicure e pedicure definitiva, que dure para sempre como se tivesse acabado de fazer.

Meu marido, noivo, namorado, ou rolo, deve adivinhar todos os meus desejos, e toda vez que se aproximar de mim deve dizer o quanto sou linda, inteligente e especial. Que me traga presentes e trate bem minha família, e também adivinhe quando for hora de sumir, quando eu estiver sensível ou com TPM

Um presente ideal seria uma gravidez que durasse apenas dois dias e um parto indolor.

Para o ciclo menstrual, vou ser camarada, pedir que dure 2 horas. Também gostaria de um botãozinho que eu apertasse se e quando quiser estar fértil.

Quero roupas que sofram uma metamorfose de acordo com as tendências e as estações, com tecidos auto-limpantes e auto-passantes.

Se um homem se atrever a me trair, ou estiver mentindo, que uma luz vermelha se acenda em seu nariz, como aquela sua rena, e que logo em seguida ele confesse tudo o que fez.

Em caso da mais remota chance de infidelidade, faça com que ele não consiga uma ereção naquele momento. Mas, atenção, não quero uma brochada definitiva, pois também não me seria conveniente.

Quero uns comprimidos que alterem automaticamente cor, comprimento e textura do cabelo, permitindo os mais variados penteados, que voltarão ao normal no momento em que eu assim desejar.

Vou pedir novamente um suprimento infinito de sapatos, bolsas, cosméticos e jóias, visto que minha solicitação anterior foi esquecida. E quero também um espaço auto-organizante que acomode tudo.

Também vou pedir DE NOVO: me mande um robozinho que limpe, lave, passe, cozinhe e toque música, que não falte, não peça aumento e não acabe com o sabão em pó em uma semana.

Bumbum, peitos e coxas, tudo com botõezinhos que inflem e desinflem segundo a ocasião, situação e minhas intenções.

Que abdominais sejam coisas que possamos comprar prontas, no supermercado.

Quero 150 de QI e 50 de cintura, NÃO O CONTRÁRIO !!

PAPAI NOEL, MEU FOFO !!!
Espero que não seja muito complicado atender minha listinha.
Nos vemos em dezembro, mas se conseguir terminar tudo antes, ficarei imensamente grata.

Com carinho,
Uma mulher como todas...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O SIGNIFICADO DO NATAL

O SIGNIFICADO DO NATAL

Hei, você, aonde vai com tanta pressa?


Eu sei que você tem pouco tempo...
Mas será que poderia me dar uns minutos da sua atenção?

Percebo que há muita gente nas ruas, correndo como você.
Para onde vão todos?

Os shoppings estão lotados...

Crianças são arrastadas por pais apressados, no meio do torvelinho...

Há uma correria generalizada...

Alimentos e bebidas são armazenados...
E os presentes, então? São tantos a providenciar...

Entendo que você tenha pouco tempo.
Mas qual é o motivo dessa correria?

Percebo, também, luzes enfeitando vitrinas, ruas, casas, árvores...
Mas confesso que vejo pouco brilho nos olhares...
Poucos sorrisos afáveis, pouca paciência para uma conversa fraternal...

É bonito ver luzes, cores, fartura...

Mas seria tão belo ver sorrisos francos...
Apertos de mãos demorados...
Abraços de ternura...
Mais gratidão...
Mais carinho...
Mais compaixão...

Talvez você nunca tenha notado que há pessoas que oferecem presentes por mero interesse...

Que há abraços frios e calculistas...
Que familiares se odeiam, sem a mínima disposição para a reconciliação.

Mas já que você me emprestou uns minutos do seu precioso tempo, gostaria de lhe perguntar novamente: para quê tanta correria?

No meio de toda a agitação, sentado no passeio, um mendigo, ébrio, grita bem alto:
"Viva Jesus, feliz Natal"!

E os sóbrios comentam:
"É louco!”.

E a cidade se prepara... Será Natal.

Mas, para você que ainda tem tempo de meditar sobre o verdadeiro significado do Natal, ouso dizer:
O Natal não é apenas uma data festiva, é um modo de viver.

O Natal é a expressão da caridade...
E quem vive sem caridade desconhece o encanto do mar que incessantemente acaricia a praia, num vaivém constante...

Natal é fraternidade...
E a vida sem fraternidade é como um rio sem leito, uma noite sem luar, uma criança sem sorriso, uma estrela sem luz.

Mas o Natal também é união...
E a vida sem união é como um barco rachado, um pássaro de asas quebradas, um navegante perdido no oceano sem fim.

E, finalmente, o Natal é pura expressão do amor...
E a vida sem amor é desabilitada para a paz, porque na sua intimidade não sopra a brisa suave do amanhecer, nem se percebe o cenário multicolorido do crepúsculo.

Viver sem a paz é como navegar sem bússola em noite escura...
É desconhecer os caminhos que enaltecem a alma e dão sentido à vida.
Enfim, a vida sem amor... Bem, a vida sem amor é mera ilusão.

Que este Natal seja mais que festas e troca de presentes...

Que possa ser um marco definitivo no seu modo de viver, conforme o modelo trazido pelo notável Mestre, cuja passagem pela Terra deu origem ao Natal...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

CARTA AO PAI NATAL

Guida Linhares, poetisa, diz de si mesma:

“ Sou uma pessoa simples, apreciadora da natureza e das boas coisas que a vida nos oferece. Gosto de prosear, poetar, brincar, dançar, pintar, desenhar, fotografar, sonhar e me encantar com as cores do arco-íris depois da tempestade.
Primeiro foram as Ciências Contábeis, depois as Artes Plásticas, a seguir veio a Psicologia e os grupos da Net, e assim a Prosa e a Poesia passaram a fazer parte do meu universo em expansão.
Grata a Deus pela saúde, entusiasmo e alegria, pelo linda família que tenho, e aos amigos e amigas do coração por me fazerem companhia.”

CARTINHA PARA NOEL


Querido Noel
Venho te pedir a paz
em todos os quadrantes
do planeta azul.

Que possas trazer a boa vontade
aos homens inconscientes,
que atuam apenas em causa própria,
surdos aos bons propósitos.

Que sopres nos ouvidos moucos,
que todos tem direito
à dignidade e à justiça,
e que o mundo precisa
de amor e fraternidade.

Cuides dos corações
endurecidos pelo ódio,
pelo domínio de territórios,
pela sanha de sangue derramado.

Plantes a igualdade
sem estereótipos nem preconceitos.

Aconselhes a todos os governantes,
a darem o exemplo de
honestidade, retidão e coragem,
digno de ser copiado pelas futuras gerações.

Mostres que a estrela da Natividade
não ostentou seu brilho em vão.

Que a paz se instale na Terra
e todos possam se irmanar
cantando a uma só voz
Aleluias ao Menino Deus.

Autora: Guida Linhares
Santos - SP