quarta-feira, 1 de maio de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS IX


SEGREDOS – CAPÍTULO IX

 
“- Realmente, não se compreende que uma pessoa, com formação superior, especialmente na área de gestão financeira, tenha tanta dificuldade em arranjar trabalho…
Foi ao ouvir isto que eu pensei:
- Ora aí está a pessoa que eu procuro! “

SEGREDOS – CAPÍTULO IX

“Como eu não disse nada, ele continuou:
- O que se passa é que eu regressei há pouco do estrangeiro onde tenho vivido. E, como tive a sorte de a vida me correr bem, consegui fazer umas economias que pensei aplicar na terra onde fui criado, ou seja, esta onde nos encontramos.
Tenho feito várias diligências no sentido de abrir um negócio. Para isso, obviamente, vou precisar de pessoas que colaborem comigo. Uma, pelo menos, terá que ser bem qualificada para poder ficar à frente do negócio sempre que eu tiver que me ausentar, o que, em princípio, acontecerá, pelo menos, uma vez por mês.
- E o Sr. Engenheiro já tem alguma coisa em vista? Algum negócio… quero eu dizer…
-Antes de mais nada, por favor, acabe com esse tratamento de Sr. Engenheiro… - disse ele rapidamente.
- Mas… - eu ia justificar-me, mas ele interrompeu:
- A não ser que exija que eu a trate por Sr.ª Doutora… o que, noutras circunstâncias, seria perfeitamente justo até porque, tanto quanto me apercebi, as suas qualificações são maiores do que as minhas…
- Isso eu não sei… Mas não, de modo algum, não gosto que me tratem por doutora. Eu até me esqueço que tenho um canudo – respondi com um meio sorriso, involuntário.
- Eu compreendo-a, mas olhe que às vezes é bom não o esquecer. Infelizmente há pessoas com quem contactamos que têm tendência para abusar, e é preciso pô-las no seu lugar – dizia isto com um ar meio ausente, como se estivesse a lembrar-se de algo acontecido. Depois continuou, com toda a naturalidade:
- Então… esse pormenor da “doutora” e do “engenheiro” já está ultrapassado. Tratamo-nos por você, e apenas pelo nome. Concorda?
- Não vejo inconveniente…
- Sendo assim, Nanda, - posso trata-la assim ou prefere Fernanda?
- Nanda está perfeito. São tão poucas as pessoas me tratam por Fernanda que até me esqueço que é esse o meu nome… - respondi eu, meio a sorrir.
- Então… Nanda, podemos falar de negócios? – agora o seu tom era cem por cento profissional.
- Podemos, sim, embora eu tenha que analisar muito bem a sua proposta – que o senhor ainda não fez – e só depois disso lhe darei uma resposta – respondi eu, na defensiva.
- Ai, ai, ai… “o senhor”? Então não combinámos tratarmo-nos pelo nome? Trate-me por Araújo. O meu nome é Fernando Manuel Carvalho Araújo, mas gosto que me tratem simplesmente por Araújo.
- Tudo bem, Araújo. Posso então saber qual é a sua proposta? – perguntei, também em tom completamente profissional.
- Bom, Nanda, por enquanto não posso adiantar muito. Eu quis contactá-la já apenas para a pôr de sobreaviso, não fosse aparecer-lhe alguma oportunidade de trabalho, e eu perder a sua colaboração. O que posso dizer para já – e peço-lhe que não faça uso desta informação, pois, como sabe, o segredo é a alma do negócio – acrescentou com um meio sorriso – eu estou em negociações com o dono da ourivesaria do Centro Comercial, a “Orvalho de Ouro”, no sentido de ele me vender tudo, isto é, o espaço (a loja é dele) e o recheio. A dificuldade de acerto está em que ele é também dono da outra ourivesaria, a “Orvalho de Prata”, e não quer desfazer-se de uma separadamente da outra…
Como a Nanda pode calcular desse modo o investimento seria enorme, e eu tenho um certo receio de que não compense… Está em jogo um valor bastante avultado… e em negócios é preciso ter os pés bem assentes na terra…
- Tem toda a razão, é preciso ponderar bem e não se atirar de olhos fechados – respondi.
- No meio de tudo isto a certeza que eu tenho é que, se a Nanda aceitar trabalhar comigo, terá uma remuneração condigna. Mas como eu não faço caridade – acrescentou, meio a sorrir - as suas responsabilidades também serão grandes… Eu pago bem mas exijo… - frisou
Eu apenas respondi:
- Parece-me justo. Nem eu me sentiria bem a receber o que não merecesse…
- Eu tinha razão quando pensei em apostar em si. Algo me dizia que a Nanda era a pessoa certa para tomar conta do meu empreendimento.
De qualquer modo, se o negócio da ourivesaria não se concretizar, já tenho outra coisa debaixo de olho…
E rematou:
- Por agora ficamos assim. A Nanda vai pensando na hipótese de que lhe falei, vai amadurecendo a ideia, e logo que eu tenha algo de concreto – que espero não demore muitos dias – voltamos a contactar. “
- E pronto. Cumprimentou-me e foi-se embora. Ah! – acrescentou Nanda com um sorriso – e pagou os cafés…
Bela, fazendo o gesto de bater palmas, aplaudiu, em silêncio, muito séria. Depois disse, tentando disfarçar o tom manifestamente ciumento:
- Aplausos para a doutora Fernanda, que conseguiu conquistar um desconhecido!
- Porque é que eu vejo nas tuas palavras um mal disfarçado ciúme? – perguntou Nanda, em jeito de comentário.
- Ciúmes, eu? Estás a precisar de pôr óculos! – Bela falava num tom meio desabrido – O que me espanta é como uma mulher com quase cinquenta anos (e acentuou o “cinquenta), mãe de filhos e agora com um neto, com tanta experiência de vida, ainda vai em cantigas…
- Oh minha menina (Bela tremia cada vez que a amiga se lhe dirigia tratando-a por “minha menina”, pois isso só acontecia quando ela estava verdadeiramente zangada) em primeiro lugar eu não tenho cinquenta anos – e ninguém me dá os quarenta e sete que tenho, essa é que é a verdade. Depois… tu não estavas lá, não conheces o Araújo, não assististe à conversa… portanto, não vejo com que fundamente falas em “cantigas”…
Bela emudeceu. Acabava de receber uma reprimenda da sua melhor amiga, e o pior é que o raspanete era mais que justo. Nanda agira com toda a correcção – nada havia a censurar no que lhe contara da conversa com o engenheiro. Sentia-se aborrecida consigo mesma por ter dito aquelas barbaridades. Tinha que reconhecer que fora apenas o ciúme que a levara a falar assim. A verdade é que, no fundo, nunca perdera a esperança de que Nanda fosse trabalhar na empresa do seu pai, e assim passassem a maior parte do tempo juntas. E agora esse sonho começava a esfumar-se e perder-se no horizonte.
Bela não tinha muitas amigas, e nenhuma se comparava a Nanda, desde sempre a sua melhor amiga. Juntas na escola primária, assim tinham continuado no liceu e depois na universidade.
Tinham muitos pontos em comum. Ambas eram filhas únicas; gostavam imensos das mães, mas… adoravam os pais. Preferiam a praia ao campo; o seu ideal de lazer era passado à beira mar. Nas férias, enquanto os pais de Bela não iam para a quinta, passavam as tardes deitadas na areia, a bronzearam os belos corpos juvenis, dando mergulhos de vez em quando para se refrescarem. Até tinham tirado o mesmo curso, de tal modo os seus gostos eram comuns. Só no trabalho é que sempre tinham estado separadas.
Logo que se formaram Bela foi trabalhar para a empresa do pai, não tendo conseguido convencer a sua amiga a seguir-lhe o exemplo. Nanda recusou.
Naquela altura até compreendeu e não insistiu. Quando acabaram o curso a amiga já estava casada e tinha um bebé de três anos, o Miguel. Casara quase em segredo com o Tó Zé, uma decisão repentina que ela não entendera muito bem… É certo que eles eram grandes amigos mas Bela nunca sentira que entre eles houvesse mais do que amizade – pelo menos por parte da Nanda.
Tó Zé e Nanda conheciam-se quase desde que tinham nascido, viviam na mesma rua, brincavam juntos, foram colegas na Primária, e aí separaram-se. Ele não era muito dado a estudos; preferiu seguir um curso profissional, qualquer coisa relacionada com química, o que o levou a afastar-se um pouco da amiga de ambos, Bela. Contudo continuou a conviver com Nanda, com quem falava praticamente todos os dias. 
Apesar disso aquele casamento inesperado surpreendera-a bastante. É certo que às vezes Nanda lhe contava que o Tó Zé lhe dissera que a amava, que nunca iria encontrar ninguém que gostasse dela como ele… e coisas desse género. Mas ela levava tudo isso à conta de brincadeira, não lhe atribuindo qualquer importância. Até porque ele dizia essas coisas mas nunca tivera qualquer gesto tentando uma maior aproximação.
Afinal… um dia, por telefone, Nanda comunicara-lhe a sua decisão de se casar com o Tó Zé. E, apesar do seu espanto perante tal notícia e pedido de justificações, Bela não obteve da amiga qualquer resposta que a elucidasse. Apenas soube que tudo estava decidido e que o casamento se realizaria dentro de poucos dias.
Soube, depois, que fora uma cerimónia simples, apenas no Cartório, com a presença dos pais e testemunhas. Ela própria, a sua melhor amiga, não tinha estado presente. É certo que, na altura, encontrava-se com os pais na quinta, onde eles passavam sempre dois meses, de meados de Agosto a meados de Outubro. E de nada valeu Bela insistir para que Nanda aguardasse o seu regresso à cidade. Ela mostrava-se decidida a casar-se o mais rapidamente possível, como se disso dependesse a salvação do mundo.
Já passaram muitos anos, mas ainda me lembro que, da única vez que lhe perguntei o porquê daquele casamento, Nanda me respondeu: Por favor não me faças perguntas a que não posso responder-te”
Agora Bela olhava para a amiga que mostrava um rosto fechado, verdadeiramente aborrecida com as suas palavras. Raramente se zangavam, e eram sempre arrufos “de pouca dura” (1). Mas desta vez Bela ultrapassara os limites e Nanda não parecia disposta a perdoar facilmente.
- Sinto-me tão mal com o que te disse… Sei que é difícil perdoares-me… mas, por favor, não fiques zangada comigo. Sabes que não o suporto… - havia lágrimas na voz de Bela.
Nanda também não se sentia bem por ter levado tanto a peito o que a amiga dissera. Ela própria não entendia o porquê do seu desagrado. Afinal… a sua amiga não dissera nada assim tão grave. Sentia-se mesquinha, e isso incomodava-a. A verdade é que andava com os nervos à flor da pele. Eram coisas a mais a acontecerem ao mesmo tempo. Mas não podia deixar que isso interferisse na sua amizade. Respirou fundo e, com um sorriso contristado, respondeu:
- Vamos passar uma borracha sobre tudo isto. Eu também reagi exageradamente. No fundo eu sei que não falaste por mal…
Apertaram as mãos por cima da mesa e, mais sorridentes, sentiram-se, de repente, esfomeadas.
- Vamos a um restaurante ou comemos aqui mesmo? – perguntou Bela
- Sabes que para mim uma salada é suficiente. E eles aqui têm-nas muito boas… - respondeu Nanda.
- Tu e as saladas… Sempre a preocupação com a linha… Como se precisasses, com esse teu corpinho escultural – Bela falava com carinho e admiração.
- Se não fosse a minha preocupação onde é que já ia este corpinho escultural!, como tu dizes – riu Nanda.
- Digo eu e diz qualquer pessoa que olhe para ti com olhos de ver. Garanto-te que ninguém adivinha que já foste mãe duas vezes… -insistiu Bela.
- Nem que tenho quase cinquenta anos? – Nanda brincou com a anterior frase da amiga, mostrando assim que não estava nada ressentida.
- Não me faças envergonhar mais… Como pude ser tão parva e injusta contigo? – Bela mostrava-se verdadeiramente contrita.
- Vamos pedir e comer em paz? – propôs Nanda.
- Boa ideia! – Bela chama o empregado e encomendam o almoço.
Enquanto comem vão conversando amenamente. Por fim é chegado o momento de se separarem. Despedem-se com um abraço apertado, como é habitual entre elas. No abraço de hoje sentem que não há entre elas o menor ressentimento pelo que aconteceu, o que constitui para ambas um enorme alívio. Amigas há tanto tempo só muito raramente tiveram discussões com verdadeiro azedume, como hoje.
- Ainda vou passar pelo escritório para assinar uns documentos que deixei com a minha secretária – informa Bela, à laia de despedida.
- E eu tenho o meu secretário Tejo à minha espera para ir dar um passeio – respondeu Nanda, rindo.
Afastaram-se seguindo direcções opostas.
Bela, rememorando o que acontecera nessa manhã e pensando como fora desagradável com a sua amiga, sentia-se mal consigo mesma.
“Conhecemo-nos há tanto tempo que cenas destas são inconcebíveis. A minha reacção não tem desculpa. A Nanda é para mim como uma irmã, a irmã que tanto desejei e nunca tive. A vida dela é para mim como um livro aberto. Bem… totalmente aberto não será… Até hoje ela não me contou o que a levou a casar-se com o Tó Zé, demais a mais com aquela urgência toda. A mim ninguém me convence que ali havia amor, pelo menos da parte da Nanda; já ele sempre viveu apaixonado por ela, desce criança. Mas isso não justifica um casamento.
É certo que ela engravidou logo a seguir… mas até isso me pareceu estranho. Era tão nova… Cheguei a pensar que já tinham tido “alguma coisa” antes do casamento… Isso explicaria toda aquela pressa… Mas se fosse isso ela não me contava? Sempre achei tudo muito misterioso.
É a única coisa em que sinto que Nanda não foi totalmente franca comigo. Mas a verdade é que isso nunca interferiu na nossa amizade.
Enfim… quem é que não guarda algum segredo da sua vida qua não revela a ninguém?”
Embrenhada nestes pensamentos, sem se aperceber, tinha chegado à porta da empresa.

Nanda caminhava apressadamente. Já passava das três horas e o pobre Tejo devia estar aflito para ir dar o seu passeio higiénico. Entretanto veio-lhe à ideia o acontecido no café onde passara a manhã com a sua amiga.
“Que reacção tão intempestiva, a da Bela! Eu sei que o sonho dela era que trabalhássemos juntas, e Deus sabe que era também o que eu mais gostaria. Mas, onde ela trabalha, na empresa do pai, é que nunca! Claro que ela nem sonha qual o motivo que me tem feito sempre recusar os seus convites … E por mim jamais o saberá.
Afinal… conhecemo-nos há tantos anos! - Quarenta? Sim… mais coisa menos coisa… - somos como duas irmãs (que há irmãs que se dão pior do que nós…) e no entanto nunca consegui contar-lhe esse segredo.
A verdade é que eu também tenho vivido há mais de vinte anos, com a sensação de que a Bela guarda um segredo que nunca me quis contar. Aquela ausência tão prolongada… na altura do meu casamento, sempre me deixou desconfiada. E não me convenceu a conversa de que estava a acompanhar a mãe que, por desavenças conjugais, resolvera fazer umas férias no estrangeiro.
Ná! (2) Pareceu-me uma desculpa muito esfarrapada.
Mas enfim, ela lá terá tido as suas razões para guardar segredo.
E… quem é que não guarda algum segredo da sua vida qua não revela a ninguém? Infelizmente sei-o bem, por experiência própria…”
Ruminando estes pensamentos acercou-se do prédio onde morava. O Tejo, pressentindo-a, começou logo a raspar o chão por detrás da porta.
(1) - Que acaba muito depressa.
(2) – Ná = Não

Maria Caiano Azevedo

segunda-feira, 1 de abril de 2019

FÉRIAS PASSADAS NÃO MOVEM MOINHOS

Amigas e amigos
Trago um recado da Nanda. Ela pediu-me para vos dizer que anda muito cansada (coitada, as preocupações são mais que muitas…) e por esse motivo resolveu ir descansar.
Claro que não vai poder demorar-se muito porque precisa receber o filho Luís que não tarda nada está a regressar do Alentejo. Mas enfim… o que lhe desejo é que descanse bem e volte renovada.
Assim sendo, como não há Nanda… resolvi partilhar convosco a última parte das minhas férias do ano passado. Daqui a pouco chegam as férias deste ano (2019) e o 2018 ainda por terminar!!!
Espero que gostem…

sexta-feira, 1 de março de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS VIII

SEGREDOS – CAPÍTULO VIII


 “…Horrorizada e ao mesmo tempo incrédula, começou a afastá-lo suavemente, não querendo dar a entender as suas suspeitas. Ele reagiu, encostando-a a si com mais força, procurando beijar-lhe o pescoço e murmurando palavras doces:
- Gosto tanto de ti! Não. Não me afastes, eu sei que tu também gostas de mim. Deixa-me fazer-te feliz…”

SEGREDOS – CAPÍTULO VIII

Nanda deixara-se de pruridos e não escondia o esforço enorme que fazia para o afastar de si. Aquela respiração ofegante junto ao seu rosto era uma verdadeira tortura. Só o horror que sentia lhe dava ainda forças para continuar a lutar.
A sua cabeça estava num torvelinho, recusando aceitar o que lhe estava a acontecer.
Sentindo as forças a fraquejar tentou convencê-lo a parar dizendo, arfante, com a voz entrecortada:
- Se não me larga já, vou contar tudo à Bela.
- Não, tu não vais fazer isso porque tu gostas muito dela. E de mim também gostas, eu sei muito bem… Porque tentas resistir a uma coisa que pode ser tão boa para nós?
O som da chave dando volta à fechadura da porta salvou Nanda daquela situação que começava a tornar-se insustentável.
O homem largou-a imediatamente e desapareceu no corredor. Nanda deixou-se cair no sofá com a cabeça entre os joelhos. Tremia dos pés à cabeça.
A criada, que acabara de entrar com uns sacos de compras nas mãos, olhou para ela com espanto e preocupação.
- A menina não se sente bem? Está tão abatida…
Nanda levantou a cabeça, respondendo:
- Não me sinto nada bem, não. Estou muito nauseada…
Reparando mais atentamente, a criada comentou:
- Credo, menina, está tão pálida! Parece um defunto… Vou-lhe fazer um chazinho, a ver se melhora, enquanto espera pela menina Belinha.
- Obrigada, não é preciso. Eu vou para casa deitar-me um bocado. Comi qualquer coisa que me fez mal, com certeza. Por favor avise a Bela… Eu depois telefono-lhe.
E fazendo um último apelo às suas fracas forças, voou em direcção à porta. Na rua encostou-se à parede e não conseguiu conter os vómitos.
Fazendo um esforço enorme para se acalmar dirigiu-se rapidamente para sua casa. Sabia que àquela hora não encontraria lá ninguém, e o que mais desejava naquele momento era ficar sozinha. Atirou-se para cima da cama e aí deixou que as lágrimas lhe inundassem o rosto ao mesmo tempo que soluçava convulsivamente. Não se apercebeu de quantas horas passaram. Deixou-se vencer pelo cansaço e adormeceu. Anoitecia quando a mãe, que se dedicava ao voluntariado visitando pessoas que viviam sozinhas, chegou a casa. Por qualquer motivo inexplicável dirigiu-se ao quarto da filha, encontrando-a estendida sobre a cama. Como Nanda não respondeu ao seu chamamento, aproximou-se, preocupada, pondo-lhe a mão, suavemente, no rosto, para a acordar. Sentiu que a sua menina estava a arder em febre. Imediatamente fez dois telefonemas – para o marido e para o médico amigo, a quem recorria sempre em caso de aflição. Poucos minutos depois chegou o pai, numa ânsia enorme, pois a sua mulher não entrara em pormenores. Sentando-se na cama da filha, aninhou-a de encontro a si, como se fora um bebé. Tal gesto foi o bastante para que Nanda retomasse o choro, agora bem mansinho, deixando as lágrimas correrem-lhe pelo rosto, em silêncio. A mãe entrou no quarto acompanhada do médico que imediatamente começou a observá-la, ignorando as suas lágrimas, atento ao seu estado físico. Para além do pulso acelerado nada mais notou. Receitou antipirético e calmante, e não a questionou sobre o motivo do choro. Na sala aconselhou a mãe a não insistir muito no sentido de saber o motivo do desgosto.
- É preciso dar-lhe espaço e tempo para se recompor do que quer que tenha acontecido. Penso que esta febre se deve mais ao seu estado emocional do que a qualquer problema físico. Vejamos como ela se sente amanhã.
Nos dias que se seguiram Nanda não saiu do quarto. A febre baixou mas continuava muito deprimida, chorando frequentemente. Não conseguia abstrair-se do que lhe tinha acontecido. Dava voltas e voltas à cabeça tentando encontrar uma justificação para a atitude daquele homem que ela tanto estimava, o pai da sua melhor amiga. Considerava-o quase como um segundo pai; sentia por ele uma enorme ternura pois que o conhecia desde que era criança e andava na escola primária. Com seis anos apenas, coleguinha de Bela, que se tornara a sua melhor amiga, andavam sempre juntas, ora na casa de uma ora na casa da outra.
Sempre embrenhada nestes pensamentos quase não comia, apesar de a Mãe lhe fazer os petiscos de que ela mais gostava. Passava todo o tempo no quarto, de onde apenas saía para ir tomar banho, o que fazia duas e três vezes por dia. Sentia uma necessidade premente de se lavar, como se quisesse, assim, libertar-se do cheiro do homem que a atacara, e que a perseguia o tempo todo.
Bela telefonava várias vezes ao dia, preocupadíssima. Como Nanda se recusava a falar fosse com quem fosse, D. Lucinda, sua mãe, inventou uma doença contagiosa que proibia visitas. Bela teve que se conformar e não “voar” para junto da sua amiga.
O médico, que passava lá em casa todos os dias, aventurou…
- Eu não encontro nenhum mal físico na Nanda. Toda esta tristeza não será motivada por alguma zanga com o namorado?
- A minha filha não tem namorado. É muito nova para isso – respondeu D. Lucinda com mal disfarçada aspereza.
- Os jovens têm os seus segredos que por vezes não partilham nem com amigos, e muito menos com os pais… - insistiu o médico.
- A minha filha não é assim – afirmou D. Lucinda, peremptória.
- Desculpe, mas eu não consigo entender o que se passa… Nem vejo qualquer vantagem em eu vir cá todos os dias… Ela está medicada com antidepressivo, vitaminas… suplementos alimentares. Para além disto não vejo mais o que se possa fazer, a não ser esperar que o tempo cure o que quer que a aflige… Só me resta aconselhar o acompanhamento psicológico…
- Muito obrigada, doutor, mas a minha filha é muito sã de espírito. O acompanhamento dos Pais vai ser suficiente para ela se recompor – respondeu D. Lucinda, em tom que não admitia réplica...]
***
- Nanda, Nanda! Que se passa? – ouviu, ao longe, a voz de Bela.
Nanda soltou um profundo suspiro.
- Desculpa, minha querida, distraí-me completamente…
- Pregaste-me um susto enorme. Parecia que estavas catatónica… Pálida, com o olhar ausente, sem pestanejar… certamente nem me ouvias…
- Desculpa, mais uma vez. De facto não estava a ouvir-te, mas apenas porque o meu pensamento estava longe.
- Não estava longe… estava a léguas de distância! Por favor, não voltes a ausentar-te assim… Não imaginas como fiquei assustada… - na voz de Bela ainda se percebia a aflição por que passara.
- Pronto, querida, já passou, já voltei… - e acrescentou, sorrindo: Não me estás a ver? Foi uma coisa passageira… Senti um zumbido forte nos ouvidos e, de seguida fiquei meio tonta… Deve ter sido uma quebra de tensão… Tenho que passar no posto médico… Nanda tentava sossegar a amiga, com uma mentirinha piedosa.
Bela não conseguiu conter-se e, debruçando-se sobre a mesa, estendeu-lhe os braços, enlaçando-a.
Nanda ainda pensou, rapidamente:
Ninguém conhece esta passagem da minha vida que tanto me marcou, especialmente por se tratar do pai da minha melhor amiga, que eu estimava e admirava… É um segredo que guardei para mim mesma ao longo de todos estes anos. Não o confidenciei nunca a ninguém. Enfim, todos nós temos segredos, suponho eu…”
Bela interrompeu-lhe o pensamento perguntando:
- Já te sentes capaz de falar? É que estou ansiosa por saber a novidade que tens para me contar
- Vou já satisfazer a tua curiosidade. Eu estava dizendo que tu sabes como ando preocupada por não arranjar trabalho…
- Sim, claro que sei. Eu até…
- Por favor não me interrompas – apressou-se Nanda a pedir. Não queria desviar-se de novo do assunto.
- Tudo bem, conta lá então. Não digo mais nada!
Nanda sorriu e acrescentou:
- Só para veres como anda a minha cabeça… imagina que até comecei a pensar na hipótese de ir trabalhar com o Tó, aquele traste!
- Bem, na verdade isso mostra que a tua cabeça anda à razão de juros. Espero bem que tenha sido apenas um pensamento passageiro, e que não leves isso a sério…
- Não, claro que não; nem que o Tó fosse o último homem no mundo eu quereria estar perto dele!
Nanda sabia que não estava a ser sincera com a sua amiga ao fazer esta última afirmação.
A verdade é que há muito tempo não estava perto dele, mas notava-lhe a falta quando passava um dia sem ele lhe telefonar. Sentia um prazer inexplicável ao ouvir aquela voz que, ao dirigir-se a ela se tornava doce como mel.
- E se fosse trabalhar com ele teria que, forçosamente, suportar a sua presença – acrescentou. Mas nem vale a pena falar nessa hipótese, que está completamente fora de questão.
- Ainda bem que pensas assim. Mas diz-me, então, qual é essa novidade? Estou cheia de curiosidade – Bela mostrava-se ansiosa por saber de que se tratava.
-Lembras-te que, da última vez que fui ao Centro de Saúde, houve um homem que me abordou à saída…?
- Sim, lembro-me muito bem, tu contaste-me – respondeu Bela
- Pois bem, esse senhor ontem voltou a interpelar-me…
- Tu foste ao Centro de Saúde e não me disseste nada? O que se passa? Não te sentes bem? O que te disse o médico? – interrompeu-a Bela,  aflita.
- Calma! Eu não estou doente, nem disse que fui ao Centro de Saúde! Precisas de te acalmar, estás muito ansiosa… Pronto, vou continuar. O tal senhor, que agora sei que se chama Carvalho Araújo e é engenheiro, encontrou-me naquele restaurantezito perto da minha casa, onde vou muitas vezes, tu sabes qual é…
- Sei, sim, mas foi lá que o tal homem te abordou? E o que é que ele queria? – Bela mostrava-se desconfiada.
- Ontem passei por lá depois do almoço para tomar café. O sujeito aproximou-se da mesa onde eu estava sentada preparando-me para ligar ao Luís. Delicadamente perguntou-me se podia sentar-se porque gostaria de falar comigo. Acenei que sim, e ele acrescentou, antes mesmo de se sentar:
- "Permita que me apresente: Carvalho Araújo – e fazendo uma ligeira inclinação de cabeça estendeu-me a mão."
Eu respondi: "Muito gosto "– ao mesmo tempo que lhe dava a minha mão para o cumprimentar. E acrescentei:
- "Faça o favor de se sentar."
Frente a frente, ele olhou-me fixamente e começou a falar.
- "Não sei se a senhora se recorda de mim… Há uns meses abordei-a quando a senhora vinha a sair do Centro de Saúde…"
Fiz um gesto de aquiescência e ele continuou.
- "Tenho que lhe confessar que o que primeiro me atraiu foi a sua figura…"
Devo ter feito algum esgar de descontentamento que o levou a acrescentar, rapidamente:
 -" Não me interprete mal, mas uma pessoa com o seu bom aspecto, elegantemente vestida e calçada, não se vê todos os dias num Centro de Saúde… Provavelmente será mais normal frequentar uma clínica particular…"
Bela interrompeu:
-Desculpa, querida, mas o fulaninho estava a “dar-te música” (1). Não concordas?
- Pelo que se seguiu percebi que não. Aliás, naquele momento, ao ouvi-lo referir “elegantemente vestida e calçada” veio-me logo à ideia o tormento que passei com aqueles saltos altíssimos que tive a infeliz ideia de calçar nesse dia – Nanda soltou uma ligeira risada.
- Eu lembro-me, tu falaste-me nisso. Mas continua – desculpa, estou sempre a interromper-te – Bela pôs um ar contristado.
- Pois então, continuando, o engenheiro acrescentou:
- "O meu interesse por si começou porque, dentro do Centro, eu ouvi-a confidenciar à pessoa que estava ao seu lado, que estava desempregada e precisava arranjar trabalho com urgência. Depois a conversa derivou para a dificuldade de arranjar emprego e a pessoa que falava consigo, imagino que sua conhecida, comentou:
- Realmente, não se compreende que uma pessoa, com formação superior, especialmente na área de gestão financeira, tenha tanta dificuldade em arranjar trabalho…
Foi ao ouvir isto que eu pensei:
- Ora aí está a pessoa que eu procuro!"

1 – Dar música = Insinuar-se; Espalhar charme; Mostrar-se encantador, sedutor.

Maria Caiano Azevedo 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

DIA DE ANIVERSÁRIO

FESTEJAR OU NÃO FESTEJAR O (11º.) ANIVERSÁRIO


No meio de todo o stress do dia-a-dia nada mais justo do que festejar o  Aniversário não fazendo nada.
Isso foi o que REALMENTE pensei. Mas… como conseguir isso?
Fácil – ir até à praia e aí esquecer tudo e todos. Levar o computador – afinal o aniversariante, o blogue, está dentro dele – estender a toalha na areia e deitar-me (com ele, computador, ao lado) e simplesmente ignorar o mundo que nos rodeia…
 Mas… nesta altura do ano, no nosso país, a praia é pouco convidativa.
Posta de parte a ideia da praia… que tal ir conhecer uma maravilha da Natureza? As Cataratas do Iguaçu, por exemplo (sempre foi o meu sonho).
Ná… é muito longe, e um dia só não chega para ir e vir, quanto mais para conhecer.
Não fazer nada é tão difícil! Não me ocorre nada sobre como não fazer nada… Ou antes, as ideias que me vêm à cabeça são totalmente impraticáveis.

E, pensando bem,  a verdade é que festejar Aniversário até é bom. É o mesmo que celebrar a própria vida,  além de contribuir para o nosso equilíbrio emocional.
Isto não são palavras vãs. Quantas vezes, ao longo destes onze anos, esta “CASA” me serviu de refúgio, ajudando a pôr em segundo plano preocupações, arrelias, pequenas depressões, situações difíceis que me pareciam insuportáveis…enfim, aborrecimentos com que a vida se encarrega de nos presentear de vez em quando?

Por falar em presentear… tenho que arranjar alguma coisa para dar de presente aos convidados. Eu não vou convidar ninguém, é claro, mas todos nós sabemos como é, aparecem mesmo sem ser convidados! E depois, não ter nada para oferecer… é uma vergonha, convenhamos.
Sabem que mais? Vou já para a cozinha, para não ser apanhada desprevenida. Vejam o que vou preparar…
Aperitivos, salgadinhos,  petit fours, alguma fruta… que sabe sempre bem...


E, para terminar… TCHAM, TCHAM, TCHAM, TCHAM,!


Uma fatia de bolo e… Tchim, tchim… 


Escolham a língua em que mais gostarem de brindar e... brindem comigo!

Saúde! ; Salud! ;  Santé! ;  Cheers! ;  Prost! ;  Proost! ;  Cin Cin! ;  Za Zdorovye! ;   Skål! ;  Şerefe! ;  Yamas! ; Na zdorowie! ;  Kanpai!
(Portugal, Espanha, França, Estados Unidos / Inglaterra, Alemanha, Holanda, Itália, Rússia, Dinamarca/ Noruega / Suíça, Turquia, Grécia, Polónia, Japão)

OBRIGADA A TODA/OS PELA VOSSA PRESENÇA!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS VII

SEGREDOS - CAPÍTULO VII                                       


Mas, de facto está a fazer-se tarde, também tenho que ir buscar os gémeos ao colégio…
- Ah! Mas que indelicadeza a minha! Com o entusiasmo da conversa esqueci-me de perguntar pelos meninos… Eles estão bem?
- Sim, estão. A semana passada o Tiago pregou-me um susto, tive que o levar ao hospital, mas não foi nada de grave. Não vejo é a hora de poderem ser operados…
- Pois… sabemos como é a saúde em Portugal… respondeu Nanda, levantando-se. Eu vou também tratar do “meu bebé” Tejo, antes que aconteça alguma fatalidade líquida lá em casa…

SEGREDOS – CAPÍTULO VII

Como seria de esperar o Tejo estava ansioso por ir à rua. Fora lá de manhã, mas numa saída muito rápida, que nem lhe deixara cheiriscar as árvores habituais. Quantos amigos seus não teriam já marcado o território que a ele pertencia!? E a dona que não vinha! Isto é mesmo vida de cão!
Quando a viu aparecer saltou, dançou à sua volta, ladrando alegremente numa ruidosa manifestação de júbilo.
Na rua corria de árvore para árvore, rapidamente, como se tivesse receio de que o passeio terminasse antes que ele tivesse tempo de verificar todos os locais e não pudesse assinalar a sua passagem.
Aos poucos foi-se acalmando, dando algum sossego a Nanda, que não o largava da trela, e que entretanto ia pensando na sua conversa com Carla.
“Que mulher simpática! O marido, Diogo, o engenheiro informático, também é muito educado. E que grandes corações têm aquelas duas almas! Adoptarem dois gémeos quase recém-nascidos com aquele problema de saúde… lábio leporino... E logo os dois! Imagine-se o dinheirão que vai ser preciso para as duas cirurgias…
Não há dúvida, poucas pessoas adoptariam crianças assim. Se não fossem estes pais, que destino estaria reservado a estes meninos? Andarem eternamente de instituição em instituição… Apesar do azar de terem nascido ambos com esse defeito, tiveram uma sorte enorme em lhes aparecerem estes pais…”
O passeio já ia longo, o Tejo olhava os troncos das árvores com indiferença, e Nanda deu a volta por terminada.
A noite descia a passos largos. Sentada no sofá da sala, com o Tejo, exausto da longa passeata, a seus pés, ligou a televisão. E enquanto as imagens passavam quase sem as ver ia pensando em tudo o que acontecera nesse dia.
Agora, calmamente, podia “dissecar” todas as informações que António lhe dera acerca do Carvalho Araújo. “Onde terei posto o cartão que ele me deu? Afinal, devo ter feito bem em não o deitar ao lixo…”
Quando voltou a si, a sala encontrava-se às escuras. Tejo aproveitava para dormir a sono solto. Estava na altura de acender as luzes.
***
Nanda levantou-se cedo. Dormiu bem e estava bem-disposta.
Tomou um pequeno-almoço com baixas calorias, pois a sua preocupação com a figura que todos elogiavam não a deixava cometer loucuras alimentares. Tinha consciência de que, com os seus 47 anos, não podia facilitar. E como presentemente não podia – ou, pelo menos, não devia… - dar-se ao luxo de frequentar o ginásio, era muito rigorosa com a alimentação e as caminhadas.
Tinha combinado encontrar-se com Bela exactamente para isso – caminhar.
Depois de levar o Tejo a satisfazer as suas necessidades matinais, passou por casa para vestir uma roupa de desporto e foi ao encontro da amiga. Esta encontrava-se sentada à mesa do café, com uma chávena vazia sobre a mesa e, à sua frente, o tablet aberto.
Depois dos cumprimentos que, entre elas, eram sempre de tal modo efusivos que, quem as observasse, iria pensar que não se viam “há séculos”, Bela perguntou, abruptamente:
- Sabes o que é um “count down”?
- Sim, sei… é uma contagem regressiva. Mas por que perguntas?
- E sabes quantas pessoas em Portugal sabem o que isso significa?
- Não faço a menor ideia… Calculo que muitas não saberão…
- E sabes quantas palavras portuguesas - frisou o “portuguesas” - são usadas nas televisões dos países cuja língua é o inglês… ou o francês, ou o japonês…? – insistia Bela
- Também não faço ideia… mas calculo que nenhuma. Mas porquê tantas perguntas?
- É porque, enquanto esperava por ti, pus-me aqui a assistir a um desses programas da manhã que passam metade do tempo a anunciar que dão dinheiro…
- Sim, há vários programas desses…
- Pois… só que desconhecem que a língua portuguesa é composta por cerca de 400.000 vocábulos e por isso não há necessidade de recorrer a palavras estrangeiras. Para além do mais, estes programas são dirigidos essencialmente a um público não muito letrado, portanto deveria haver o cuidado de falar de forma a que todos entendessem. Tenho a certeza que muitos dos ouvintes não sabem o que significa count down… - Bela não disfarçava a irritação.
- Desculpa, querida, mas tu és muito exigente, e estás sempre pronta para uma alfinetadazinha… – comentou Nanda, com um sorriso.
- Por acaso achas que não tenho razão? – Bela estava bastante irritada.
- Não é que não tenhas razão, mas a verdade é que em Portugal, não sei se devido ao crescimento acelerado do turismo, usa-se muito intervalar palavras inglesas nas conversas. Até nas novelas se vê isso… - Nanda tentava contemporizar
- Tu chamas-lhe turismo, já eu chamar-lhe-ia… servilismo – ripostou Bela, que continuava de mau humor.
- O que acontece, minha querida, é que tu és uma purista da língua portuguesa, e por isso estas modernices causam-te brotoejas… - Nanda tentava levantar o ânimo da amiga que, quando se tratava de assuntos deste género, ficava sempre abalado.
Mas afinal – continuou – vamos ou não vamos caminhar?
- Queres que eu seja mesmo sincera? Só te desafiei para a caminhada para te obrigar a vires para ao pé de mim… - sorriu Bela, já mais bem-disposta. Há tanto tempo que não passamos um tempinho simplesmente a conversar… - e fez um arzinho de amuo, que a fazia parecer-se com uma criança mimada.
- Tu sabes muito… - sorriu Nanda, que não conseguia resistir quando a amiga punha aquele ar a que ela chamava de “cachorrinho abandonado”. Pois muito bem, aqui me tens ao teu dispor. Mas não precisavas de usar de subterfúgios… Sabes que basta um gesto teu para eu vir a correr – ambas riram alegremente.
- Por acaso até tenho uma novidade para te contar – continuou Nanda.
- Pois conta, que eu gosto muito de novidades. Mas antes deixa-me fazer-te uma pergunta.
- Faz lá, perguntadeira – riu Nanda.
-Na conversa que tiveste com a tua amiga Carla acerca do Natal falaste-lhe nas janeiras? Tendo vivido sempre em Lisboa certamente não sabe o que isso é…
- Claro que falei, mas só agora de manhã. Encontrei-a à saída de casa.
- Não sei se estou a gostar de tantos encontros… - Bela fingiu-se amuada.
- Não sejas pateta! – Nanda riu com vontade. Tu és e sempre serás a minha melhor amiga.
- Pois é bom que não o esqueças… - ameaçou Bela, continuando a fingir-se despeitada.
- E se falássemos como pessoas crescidinhas? Voltemos ao assunto. Falei à Carla não só nas Janeiras mas também nos Reis Magos. De facto ela sabia de tudo isso duma forma muito vaga. Fiquei com a impressão de que a família dela não liga muito para essas coisas.
- E achas que ela gostou? Explicaste tudo bem? – Bela interessava-se muito por estes assuntos, e era de um grande preciosismo nos pormenores.
- Sim e sim. Sim, ela gostou e sim eu expliquei tudo! – Nanda respondeu num tom meio enfadado.
- Não precisas de te abespinhar, eu só queria saber se tinhas contado tudo direitinho, sem te esqueceres de nada… Lembraste-te da romã? – perguntou Bela, num tom duvidoso.
- Estou feita contigo! Olha, não queres ir lá falar com a Carla e fazeres-lhe um exame para comprovar que sou boa professora?
- Calma, tu sabes como é importante o pormenor da romã. Imagina que ela quer seguir esse ritual e não sabe bem as regras… As coisas, quando se fazem, têm que ser bem feitas.
- Eu sei, dona Perfeição!
Nanda optou por não ligar grande importância às dúvidas de Bela. Ela sabia que a amiga era uma perfeccionista em tudo, e quando transmitia algo que ela considerava importante, ia atá aos mais ínfimos pormenores.
- Para que não fiques para aí a ruminar no assunto – que eu sei muito bem como tu és… - vou-te contar tudo. RESUMIDAMENTE, é claro. Presta bem atenção para depois não vires para cá com perguntas.
- Sou toda ouvidos… murmurou Bela.
- Então… acerca das Janeiras eu disse o seguinte:
- “Cantar as Janeiras” era uma tradição, não só em Portugal mas também na maior parte dos países europeus (desconheço o que, a este respeito, se passa fora da Europa). Consistia na formação de grupos de homens e mulheres que, no início do ano, andavam cantando de porta em porta, geralmente cânticos de cariz religioso, para desejarem feliz ano novo. Os donos das casas ofereciam aos cantantes frutos secos, nozes e castanhas, vinho, e até dinheiro.
No final, as guloseimas eram consumidas num jantar em que todos participavam, e o dinheiro era para as almas do Purgatório – “as alminhas” - ou seja, era entregue na igreja.
Nalgumas localidades as Janeiras prolongavam-se até ao final do mês de Janeiro; noutras, terminavam no Dia de Reis.
Actualmente esta tradição está quase em desuso, mantendo-se, apenas, nalgumas regiões da província.”
- Muito bem – aplaudiu Bela.
- Quanto ao Dia de Reis a explicação foi mais simples porque… quem não sabe o que é o Dia de Reis?
“Toda a gente sabe que é neste dia que se celebra a chegada dos três Reis Magos ao presépio onde se encontrava Jesus, e as prendas que levavam para oferecer ao Menino.
O que talvez poucos saibam é o significado dessas ofertas, que é o seguinte:
- O OURO simbolizava a Realeza. Era, à época, o metal mais valioso que existia.
- O INCENSO significava a Fé. Quando é queimado exala um perfume muito agradável.
- A MIRRA representava a Pureza. Trata-se de uma resina rara, extraída da casca da árvore com o mesmo nome. É perfumada e valiosa pelas suas propriedades medicinais e curativas.
Todos os presentes eram, portanto, dignos de um rei – o Rei dos Judeus – tal como os três Reis Magos consideravam o Menino. “
Nanda calou-se, olhando para Bela, que estava verdadeiramente emocionada.
- Perfeito! – murmurou. E acrescentou logo de seguida, tentando disfarçar a emoção: Eu não teria feito melhor. É claro que não te esqueceste da romã – disse como que a medo, temendo a reacção de Nanda.
É claro! … – respondeu Nanda, já com uma pontinha de irritação. Queres que te diga também o que contei à Carla a esse respeito? Pois então ouve:
“Em tempos idos acreditava-se – e ainda hoje há quem creia – que os pedidos feitos aos três Reis Magos no dia 6 de Janeiro seriam atendidos, e que o ano decorreria próspero, com muita sorte, e que não faltaria dinheiro. Mas… para que isso acontecesse, os pedidos teriam que ser acompanhados pela ingestão de bagos de romã. Contudo, não era qualquer fruta que servia; a romã tinha que ter intactos os “sete bicos”. O fruto tem no topo como que uma coroa formada por sete pontas. Essas pontas não podiam ter nada quebrado, tinham que estar perfeitas. Era a chamada “romã de sete bicos”.
- Ufa! Estou cansada de tanto falar. E tu estás satisfeita? – disse Nanda, querendo dar o assunto por encerrado.
- Desculpa! – Bela apresentava um ar verdadeiramente contrito. Sei que fui demasiado insistente, mas tu conheces-me… Sabes como gosto de todas estas coisas e desejaria que estas tradições – e tantas outras – se transmitissem de pais a filhos e netos, e não se perdessem no esquecimento.
- Sim, eu sei, não te preocupes. Eu própria aprecio todos estes costumes antigos, que tenho bem presentes porque os praticávamos na casa dos meus avós. E continuei com a tradição, tanto quanto possível, enquanto os meus filhos estiveram em casa… - respondeu Nanda, com um ar meio ausente.
Bela tinha ficado muito bem-disposta. A sua amiga tinha prestado uma informação perfeita a Carla, que assim aumentara os seus conhecimentos. Propôs mudarem de assunto.
- Nanda, minha amiga preferida – disse, rindo – vamos mudar de assunto? Disseste que tinhas uma novidade para me contar e eu interrompi-te… Desculpa!
- Sim, chega de falarmos de costumes e tradições. Eu tenho, de facto, uma coisa para te contar. Tu sabes como tenho andado apoquentada por não conseguir trabalho – começou Nanda.
- Se sei! E tu sabes como me aflige ver-te assim – respondeu Bela, aparentando verdadeira preocupação. E continuou:
- E, pela milionésima vez volto a dizer-te que não consigo entender o motivo por que não queres vir trabalhar comigo lá na empresa do meu pai… Não tem conta o número de vezes em que te falei neste assunto…
Já pensaste como seria bom trabalharmos juntas? Olha que o meu pai paga bem e é um patrão óptimo. Põe os olhos em mim. Hoje é dia de trabalho, e aqui estou eu, perfeitamente à vontade, sem sequer ter posto os pés no escritório. É certo que o meu pai me dá toda a liberdade de horários porque sabe que eu sou cumpridora, nunca falho com compromissos… e que respeito muito o trabalho que faço. E tenho a certeza que contigo não seria diferente…
Querida, deixa-me falar com o meu pai. Pai, pai, pai…
A palavra “pai” ficou ecoando na cabeça de Nanda…
Num relance lembrou o que acontecera há tantos anos, e que a marcara tão profundamente.   
*
 [Era um dia de Verão radioso que acabou por se transformar num dia cinzento e triste.
Com os seus irrequietos 15 anos, amigas inseparáveis, Nanda e Bela andavam sempre juntas. Naquele dia tinham combinado que Nanda passaria pela casa de Bela para esta lhe mostrar umas roupas que a mãe lhe comprara, e de seguida irem à praia.
Depois de tocar à campainha, Nanda estranhou ser o pai de Bela a abrir-lhe a porta. O normal seria que, àquela hora, ele estivesse na sua empresa. Teria acontecido algo que o tivesse obrigado a vir a casa? Mas rapidamente a estranheza desapareceu, ao ver o seu ar perfeitamente normal.
Como tantas vezes fazia o pai de Bela abraçou-a, gesto que Nanda retribuiu, pois gostava muito dele, sempre atencioso e bem-disposto. Este abraço prolongou-se um pouco mais do que o habitual, sem que Nanda lhe atribuísse qualquer significado especial. Só sentiu um certo desconforto quando a mão dele deslisou até às suas nádegas, comprimindo-lhe o corpo contra o seu. Nanda, apesar de bastante jovem, pôde perceber, pelo contacto com o seu corpo, que ele estava muito excitado. Horrorizada e ao mesmo tempo incrédula, começou a afastá-lo suavemente, não querendo dar-lhe a entender do que se tinha apercebido. Sentindo a pressão dela para o afastar ele reagiu, encostando-a a si com mais força, procurando beijar-lhe o pescoço e murmurando palavras doces:
- Gosto tanto de ti! Não. Não me afastes, eu sei que tu também gostas de mim. Deixa-me fazer-te feliz.
Nunca houve na sua atitude a mínima agressividade. Mas a força com que a segurava não deixava lugar para dúvidas: queria violentá-la. Nanda estava literalmente siderada. Sentia faltarem-lhe as forças para afastar de si aquele verdadeiro rochedo que, a cada gesto seu, a prendia mais fortemente, como que a querer mostrar-lhe que ela não tinha outra hipótese senão ceder à sua vontade.
Nanda pensou em gritar mas sabia que a enorme casa se encontrava vazia; doutro modo, inteligente como era, o homem não se teria atrevido a tomar tal atitude.
Continuava mantendo-a fortemente encostada a si, apertando-a com um braço que parecia de ferro. Com a mão liberta afagava-lhe delicadamente o rosto, alisando-lhe os longos cabelos, ao mesmo tempo que murmurava palavras de uma doçura enorme.
Queria satisfazer os seus desejos libidinosos mas sem hostilizar a vítima. Ardilosamente pensava consigo mesmo que, deste modo, futuramente ela cederia aos seus desejos sem opor resistência.

Maria Caiano Azevedo