segunda-feira, 1 de outubro de 2018

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS IV

SEGREDOS – CAPÍTULO IV

"... - Estava a abrir a porta da rua quando o telemóvel tocou. Viu que era o Luís e resolveu não atender. Logo de seguida ouviu uma mensagem em alta voz:
- Mãe! Porque não atendes o telefone? Já te liguei hoje não sei quantas vezes! Preciso falar contigo com a máxima urgência! Liga-me, por favor!
A voz do filho denotava urgência e ansiedade..."

SEGREDOS – CAPÍTULO IV

Depois de ouvir a mensagem de Luis, Nanda ficou uns momentos indecisa, sem saber bem o que havia de fazer. Por um lado, Bela já devia estar no local de encontro; por outro lado o tom de voz do filho “dizia-lhe” que devia ligar-lhe sem demora. E coração de mãe não se engana.
Saindo de casa ao encontro de Bela foi ligando para o filho.
- Até que enfim, mãe! Estou farto de te ligar e tu não me respondes…
- Tens razão, filho, mas pensei que querias saber novidades da conversa com o teu pai, e só há muito pouco tempo é que consegui falar com ele… - desculpou-se Nanda. E acrescentou rapidamente:
- Mas tenho boas notícias para te dar…
- Já dás, mãe – interrompeu-a Luis. Deixa-me primeiro falar…
- Diz lá então o que se passa.
- Tenho uma notícia muito boa para te dar, que penso que te vai deixar muito feliz – informou Luis, alegremente.
- Diz, filho, diz! – Nanda agora estava ansiosa por ouvir.
- Pois então prepara-te: - já és avó!
- O quê? A voz de Nanda denotava enorme espanto. Mas não é ainda muito cedo?
- A isso não te sei responder, mãe. Sabes como é, com o pouco dinheiro que temos a Catarina não ia ao médico e deve ter feito mal as contas…
Ao mesmo tempo que ia falando com o filho Nanda ia caminhando e em breve estava junto de Bela. Fez-lhe sinal para aguardar e continuou conversando.
- Mas diz-me, como está o bebé? E a Catarina? Como correu o parto? Onde é que eles estão agora? – Nanda estava excitadíssima, fazendo perguntas uma atrás da outra, sem esperar resposta.
- Acalma-te, mãe, até pareces eu quando soube que o bebé estava a nascer – riu-se Luis. E respondeu:
- Sim, estão bem…
- Espera! Nem perguntei se é menino ou menina. Afinal, tenho um neto ou uma neta? – interrompeu Nanda, que continuava agitadíssima, querendo saber tudo ao mesmo tempo.
- E se eu te dissesse que eram dois? – Luis denotava na voz uma alegria fora do comum.
- O quê? Tu não me digas que sou bisavó – riu Nanda, com um leve acento de preocupação.
Luis deu uma forte gargalhada.
- Não, mãe, és só avó. E do menino mais lindo do mundo!
-Ah! Assim é melhor… - Nanda respirou aliviada - Dois ao mesmo tempo são mais difíceis de criar, não só pelo trabalho como também pela despesa… E acrescentou:
- Que seja o menino mais lindo do mundo não duvido… não nega as suas origens. Afinal, o pai é um bonito rapaz, e a avó, apesar de velhota, ainda não é de deitar fora – riu alegremente.
Continuaram conversando neste tom até que Nanda olhou para Bela e vendo-lhe um ar resignado, resolveu pôr termo à conversa.
- Olha, meu filho, vamos falar de coisas práticas. O melhor será eu ir para aí amanhã, para ajudar no que for preciso. Hoje já é um bocado tarde e não tenho nada preparado…
- Não penses nisso, mãe, não é preciso. A mãe da Catarina levou-a lá para casa, vai dormir no quarto de solteira dela. Eu fico a dormir no nosso palácio (deu uma curta risada) mas vou lá vê-la todos os dias, depois da jorna. Ao trabalho não posso faltar, sabes como é, quem não trabalha não recebe… e não estamos em condições de dispensar nem um cêntimo…
- Se sei, meu filho, se sei… Desempregada há tanto tempo preciso de contar os tostões… Mas não te dei uma notícia muito importante. Já falei com o teu pai…
- Ah sim? E o que foi que ele disse? – perguntou Luís, ansiosamente.
- Começou com as tretas do costume, mas quando lhe disse que ia ser avô mudou como da água para o vinho. Ficou todo excitado, a querer saber mais do que eu… e acabou dizendo que “para o neto nem que tivesse que ficar ele sem comer”.
- Muito me contas, minha mãe. Então o velhote ficou contente com a ideia de ter um neto? Antes assim; sabes que eu gosto do pai, embora não concorde com a maioria das cenas dele… Mas… concretamente, o que é que ele está disposto a fazer?
- Prometeu arranjar um sítio para vocês morarem, o que é óptimo, e depois ajudar em tudo o que puder, como seja arranjar-te trabalho e coisas assim… E ficou ansioso para vocês virem para cima.
Dando o assunto por terminado despediram-se com as recomendações habituais de “beijos para a Catarina e mil beijos para ti”, agora acrescentados dos carinhos para o netinho.
Desligado o telemóvel voltou-se finalmente para Bela, que aguardava pacientemente. Explicou-lhe tudo o que estava acontecendo, que Bela tinha mais ou menos depreendido pelo que ouvira.
Concordaram que já era um pouco tarde para a caminhada que tinham combinado, para além de que Nanda teria ainda que fazer alguns telefonemas para avisar que já era avó. Bela riu-se do ar “babado” com que ela pronunciava “avó”. Como boa amiga que era – aliás, as melhores amigas desde que eram quase crianças – congratulou-se com a alegria da recente vovó, dizendo-lhe que combinariam a caminhada para outro dia.
- Amanhã, talvez… - concordaram ambas. E despediram-se.
Encaminhando-se para casa Nanda resolveu parar no café para beber uma água e tentar acalmar-se antes de fazer os telefonemas a dar a boa nova.
Rememorando a conversa com o filho pôs-se a imaginar a felicidade que ele estaria a sentir por ser pai. Provavelmente a mesma que ela própria sentira quando nascera o seu primeiro filho, Miguel. O pensamento recuou quase trinta anos. E reviveu a cena…
“Caminhava distraidamente pela rua, com a descontracção própria dos seus 17 anos, muito próximo dos 18.
Ia encontrar-se com a sua melhor amiga, Bela, que fora à universidade colher informações acerca dos cursos que ambas pensavam ir frequentar no próximo ano, agora que estavam prestes a terminar o 12º. Ano. Depois iriam almoçar juntas para combinar os pormenores da festa de anos de Nanda, que completaria os 18 anos dentro de 3 meses.
Numa rua muito próxima da cidade universitária, ao dobrar a esquina, Nanda sentiu um forte encontrão que a fez voltar-se, furiosa, pronta a interpelar severamente a pessoa que assim a tinha “abalroado”.
À sua frente estava um jovem aparentando vinte e poucos anos que, com um ar compungido, murmurava numa voz doce e ao mesmo tempo lastimosa:
- “Scusa! Mi dispiace! …”
Nanda levantou a cabeça para ver o rosto de quem pronunciava tais palavras que, apesar de serem em italiano, ela percebeu perfeitamente.
O jovem era bastante mais alto do que ela e, logicamente, deveria ser italiano. A sua fúria inicial quase desaparecera ao ouvir aquela voz tão doce, desvanecendo-se por completo ao observar aqueles olhos de um azul tão profundo como ela nunca tinha visto.
O estranho parara no passeio observando-a atentamente.
- Poderásperdonarmi”? – perguntou.  E, continuando com um forte sotaque italiano:
- A culpa foi toda minha, eu sei, e a única justificação que tenho é a grande preocupação que ocupa ‘la mia mente’. Eu vinha completamente distraído com tantas dúvidas ‘nella mia testaque nem sabia por onde vinha…
Tudo isto foi dito com palavras portuguesas e italianas à mistura. Nanda estava emudecida. Ela, que habitualmente tinha a resposta na ponta da língua, não conseguia articular uma só palavra. Nada lhe ocorria…”

- Desculpe, senhora, mas deseja mais alguma coisa? Era a voz do empregado, trazendo-a à realidade.
- Não, muito obrigada, não preciso de mais nada. Quero apenas pagar.

E terminou o pensamento em que estivera embrenhada:
“Ai, Alessandro Adari!”

Ao chegar ao prédio onde morava Nanda meteu a chave à porta e, no patamar, encontrou o seu vizinho do andar de cima, Jorge, que a cumprimentou com aquele ar respeitoso que usa para com todas as pessoas, especialmente as senhoras.
- Boa tarde, Dona Nanda, como vai a senhora?
- Eu estou muito bem, obrigada, Jorge. E muito feliz, porque soube há pouco que já sou avó.
- Avó? Mas não é possível! A senhora tão jovem já tem netos? Foi mãe aos 10 anos… é isso? – Jorge adoptara um ar brincalhão mas ao mesmo tempo admirado.
- Não, não foi aos 10 anos – riu Nanda. Fui mãe aos 18 anos… uma criança, diga-se em abono da verdade.
- Seja como for, a senhora não tem aspecto de avó. Parece irmã dos seus filhos… - Jorge falava com sinceridade.
- São os seus lindos olhos, Jorge, sempre gentil…
Depois de mais uma pequena troca de piropos, despediram-se. Jorge ia passar pelo coro, onde cantava como tenor, para saber quando seria o próximo ensaio. De lá seguiria para o bar onde trabalhava.
Nanda subiu os degraus até ao primeiro andar onde morava, abriu a porta de casa e entrou. Lá dentro, sozinha, esboçou um sorriso e murmurou:
“Ai este Jorge, sempre tão gentil e simpático! E depois… aqueles olhos azuis… dão-me volta à cabeça! Como diz a Bela, parafraseando não sei quem… - Que pedaço de mau caminho!
Mas…para o que lhe havia de dar… Se não fosse aquele ‘pequeno defeito’ eu até era capaz de dar umas voltinhas com ele no carrocel! Noutras circunstâncias não me escapava – continuou o seu raciocínio, bem-humorada.
Que desperdício, santo Deus!” – e riu baixinho. 

Maria Caiano Azevedo

sábado, 1 de setembro de 2018

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS III


“ … - Mas que raio de nome o homem havia de arranjar: Carvalho Araújo!
“Carvalho Araújo”, tanto quanto sei, é nome de navio. Querem lá ver que ele é marinheiro? Tinha graça agora aparecer-me pela frente um capitão-de-mar-e-guerra… Ou…melhor ainda, um sócio da CNN (3). – e o seu rosto iluminou-se com um largo sorriso.
Como que a chamá-la à realidade, o telefone tocou…”

SEGREDOS – CAPÍTULO III

Contrariada, Nanda levantou-se para ir buscar o telemóvel à carteira que deixara sobre a mesinha de entrada.
A chamada era do filho Luís, do Alentejo. Resolveu não atender. Podia adivinhar o que ele queria – dinheiro. O problema é que agora, desempregada, a situação também não estava famosa. Não podia pôr-se a mexer nas reservas que conseguira amealhar, e que podiam vir a fazer-lhe falta. Não sabia quanto tempo ainda estaria sem trabalho… O negócio das “farturas” era muito incerto…
- Bem, já que me levantei, vou tratar do assunto deste filho, que tanto me preocupa.
Com o telemóvel na mão foi sentar-se no sofá da sala e, aí instalada, marcou o número do seu ex, o Tó Zé. Apenas dois ou três toques depois, atenderam.
- Tintas e Vernizes de Todos os Matizes…bom dia! Em que posso ser útil? – era a voz do ex-marido.
- Bom dia, Tó Zé. Daqui é a Nanda.
- Reconheci logo a tua voz mal pronunciaste “Bom dia”…
- Que bom! Vá lá, lembras-te de alguma coisa, já não é mau de todo – ripostou Nanda, com voz trocista.
- Não sejas assim, mulher! Tu sabes muito bem que não foi só da voz que eu não me esqueci. Lembro-me de cada pormenor do teu corpo, que nunca deixei de amar – a voz era doce como mel.
- Sim, eu sei, amavas-me tanto que nem querias gastar-me. Por isso ias usando outras, para me poupares… Se calhar era para veres se eu durava até aos cem anos… - Nanda continuava, sarcástica.
- Podes crer que nunca nenhuma mulher me fez feliz como tu. O que se passava é que eu queria ter a certeza do meu amor por ti, por isso experimentava outras para ver a diferença. Ai, Nanda, Nanda, tu nunca me compreendeste, esse é que foi o mal.
Mas diz-me, telefonaste para me dizer que, finalmente, resolveste vir trabalhar comigo?
- Tu estás cada vez mais doido! Já te disse mais de mil vezes que nem que eu estivesse a passar fome iria trabalhar contigo.
- Por acaso até estás enganada. Não foram mais de mil vezes, foram apenas 993. Parece que afinal não te serve de grande coisa esse curso que andaste a tirar no ISCAL (1). Ninguém diria que tens o mestrado em Contabilidade e Gestão – Tó Zé falava em tom de voz alegre, folgazão.
Nanda sorriu, mas guardou silêncio. Não queria que ele percebesse que lhe tinha achado graça. Preferia manter sempre aquela posição de “eterna ofendida” que não queria dar-lhe confiança. A verdade é que, apesar de tudo o que ele tinha aprontado, no fundo ainda sentia por ele um grande carinho.
Respirou fundo e, já com voz calma, continuou:
- Não sei porque estamos para aqui a deitar conversa fora… O que tenho para te dizer é muito sério, e é bom que prestes bem atenção.
- Sou todo ouvidos, mulher. Fala!
- Mais uma vez te venho falar do teu filho…
- Do meu filho? Do meu ou do nosso? Ou será do teu? – Tó Zé imprimira um tom sério à voz. Já não brincava.
- Não precisas ser desagradável! Sabes muito bem que estou a falar do Luís – Nanda adoptara um tom magoado.
- Desculpa, não queria aborrecer-te. Mas então o que me queres dizer? É novamente a situação em que ele vive?
- Exactamente! Não sabes quanto me dói saber que um filho meu está passando tantas dificuldades. Demais a mais agora…
- Que queres dizer com isso? Ele está doente? – Tó Zé mostrava-se preocupado.
- Não, felizmente está de boa saúde.
- Então o que se passa, mulher? Desembucha duma vez!
- Prepara-te, Tó Zé! Vais ser avô…
Do outro lado… profundo silêncio. Não se ouvia o mais leve som. Nanda pensou que a chamada tivesse caído.
- Tó Zé, estás aí?
- Estou, sim – ouviu, por fim.
- Ficaste tão calado…
- Pois… Sabes, Nanda, há muito tempo que não recebia uma notícia que me fizesse tão feliz – a voz era verdadeiramente emocionada.
Nanda sentiu um aperto no coração. Afinal, o seu ex-marido ainda tinha sentimentos. Era um “estabanado” (2), mas agora mostrava que sentia verdadeiro amor pelo filho.
Ficou sem saber bem o que lhe responder. Permaneceu uns momentos calada. Por fim, disse:
- Pois a melhor forma de demonstrares o que dizes é ajudando o Luís, como tantas vezes te pedi.
- Fica descansada. Podes dizer-lhe que trate das coisas para vir para cima, que não vai viver debaixo da ponte, nem lhe há-de faltar o pão para a boca. Para o meu neto… nem que eu tivesse que ficar sem comer! A propósito, já se sabe se é menino ou menina?
- Não, eu não sei, e penso que eles também não sabem., senão o Luís já me teria dito. Com as dificuldades com que vivem… nem dinheiro têm para ir ao médico. Logo que eles venham para cima quero levá-la ao obstetra.
- Tu sabes que os negócios não andam muito bem, e por isso é que eu ainda não tinha pensado verdadeiramente em ajudá-lo. Mas agora nem penso duas vezes. Eu vivo numa casa muito pequena, só tem dois quartos, um para nós e outro para o rapaz… Não tenho espaço para eles lá em casa, é claro, mas não te aflijas que eu vou arranjar uma solução. Na rua não vão ficar.
Nanda sentiu-se ligeiramente incomodada. Sabia que o ex-marido tinha refeito a sua vida. Casara, ou acasalara – ela não sabia nem queria saber – com uma das galdérias com quem andava quando ainda era casado com ela, e que tinha um filho dessa união, um rapaz dois ou três anos mais novo que o Luís, agora com 26 anos.
Sabia-o desde sempre, já que o contacto entre ambos se foi mantendo, aparentemente por causa dos filhos, embora, na verdade, sentissem necessidade de saberem um do outro, o que os levava a telefonarem de vez em quando. Mas ouvi-lo falar assim, com todo o à-vontade, na sua situação actual, causava-lhe uma dor fininha que lhe custava suportar.
Foi, por isso, com voz sacudida, que lhe respondeu:
- Sim, eu entendo, mas a minha casa também não é grande, tem apenas dois quartos, como a tua. Mas, como sabes, não posso dispensar o quarto de hóspedes, que é onde fica o Miguel quando cá vem. Aliás, não deve tardar muito a vir de férias…
Como já dissemos tudo o que havia para dizer… vai à tua vida que eu vou à minha.
-Está bem, minha querida. Diz então ao Luis que prepare tudo, que hoje mesmo eu vou tratar de arranjar uma solução pra o alojamento deles.
Nanda sentiu de novo aquele “apertozinho” no peito ao ouvi-lo trata-la por “querida”. Dando à voz o tom mais desprendido que conseguiu, respondeu:
- Tudo bem, vou informá-los já de seguida. Até logo, um beijo.
- Até logo. Mil beijos.
Com um sorriso estampado no rosto, Nanda desligou o telemóvel e dirigiu-se à cozinha. A conversa abrira-lhe o apetite.
Preparou uma salada de legumes com salmão fumado. Tinha muito cuidado com a alimentação pois não queria deixar-se engordar. Com os seus 47 anos era ainda uma mulher muito elegante e bastante atraente. Como fora mãe com apenas 18 anos, agora, ao lado dos filhos, o Miguel com 29 e o Luís com 26, muitas vezes passava por irmã deles. Eles ficavam todos orgulhosos da mãe que tinham, e ela… ela ficava toda vaidosa!
Depois de arrumar a pouca louça que utilizara, foi dar uma limpeza à casa. Noutros tempos, mais abonados, tinha uma empregada que ia todas as manhãs fazer esse serviço; mas agora tem que economizar o mais possível, já que está desempregada há bastante tempo, e o pouco que o Fundo de Desemprego lhe paga não dá para luxos, como o de ter empregada diariamente.
A verdade é que o trabalho nunca lhe meteu medo, e faz o que for preciso mesmo fora da sua área. Nunca teve qualquer prurido em relação a isso. Já esteve a chefiar uma secção de contabilidade numa grande empresa, e aí, sim, aplicou todos os seus conhecimentos académicos. Infelizmente depois de três anos de trabalho a empresa foi à falência, e Nanda ficou desempregada.
Mas também já trabalhou como “pseudo-secretária” na EILA, contratada como tal pelo Doutor Santos Costa, e onde fez de tudo menos o trabalho de secretária, propriamente dito. Também este emprego durou pouco tempo, não chegou a um ano, e igualmente a empresa foi à falência, mas desta vez fraudulenta. O “atraente” Doutor Santos Costa fez um enorme desfalque e depois “deu às de Vila Diogo”, deixando os empregados com “uma mão à frente e outra atrás”, que é como quem diz – sem nada!
Depois de terminados os seus afazeres telefonou para a sua melhor amiga, Bela, desafiando-a para uma caminhada, o que faziam com muita frequência.
Como de costume Bela aceitou o convite. Combinaram encontrar-se na esquina – já que Bela morava numa rua paralela à de Nanda - dali por meia hora.
Deu comida e água fresca ao Tejo, que, com o calor, se esparramara no chão da cozinha, onde se sentia mais fresco.
Foi vestir o fato de treino e calçar os ténis, e, entretanto lembrou-se de que tinha de telefonar ao filho. Olhou para o relógio. Estava a fazer-se tarde para o encontro marcado com Bela.
- Também não é uma urgência assim tão grande – pensou. Ligo-lhe quando regressar.
Estava a abrir a porta da rua quando o telemóvel tocou. Viu que era o Luís e resolveu não atender. Logo de seguida ouviu uma mensagem em alta voz:
- Mãe! Porque não atendes o telefone? Já te liguei hoje não sei quantas vezes! Preciso falar contigo com a máxima urgência! Liga-me, por favor!
A voz do filho denotava, realmente, urgência. E ansiedade.


(1) – ISCAL – Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa
(2) "Estabanado"- Alteração de estavanado
1. Que tem pouco juízo ou pensa pouco nas consequências. = DOIDIVANAS, ESTOUVADO, LEVIANO
In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa
(3) A expressão “dar às de Vila Diogo” significa FUGIR
Embora a origem desta expressão não esteja comprovada, diz-se que, por ordem de Fernando III de Castela, na localidade espanhola de Villadiego, que em português deu Vila Diogo, os judeus podiam circular livremente sem serem perseguidos.
Os judeus de outras localidades, para escapar à perseguição, fugiam para Villadiego.


Maria Caiano Azevedo


Tal como informei no Post anterior estarei de regresso em finais de Setembro, e visitarei todos.
Até lá… que tudo corra à medida dos vossos desejos.

Beijinhos

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

LIVRO EM CONSTRUÇÃO – SEGREDOS II



“…- Não, isso não tenho, mas estou a falar-lhe a sério. Por favor guarde este cartão com o meu nome e telefone-me, se assim o entender, daqui a duas ou três semanas. Talvez tenha boas notícias para si, mas agora não posso dizer-lhe mais nada Meteu-lhe o papel nas mãos, despediu-se e virou-lhe as costas…”

 SEGREDOS – CAPÍTULO II
Nanda ficou segurando o cartão entre os dedos, a olhar para o homem que se afastava, sem ter tido tempo para reagir. O primeiro impulso foi atirar o cartão para o primeiro caixote do lixo que encontrasse, mas acabou por guardá-lo no bolso, ficando a pensar:
- Que estranho tipo de abordagem! Será alguma nova técnica de engate ou estará o homem a falar mesmo a sério? Lá bom aspecto não lhe falta, justiça lhe seja feita!
Mas quando o lobo se veste de cordeiro também parece muito fofinho e inofensivo, e olha lá! Foi o que aconteceu com o Tó Zé… e até mesmo o Dr. Santos Costa, lá da EILA. Era todo simpático, todo jeitoso, e deu no que deu!
E como quem se lixa é sempre o mexilhão… lá ficaste tu, Nanda, sem marido e sem patrão, ou seja, duplamente desempregada.
Sim, porque para o Tó Zé, nos últimos tempos, não passavas de uma empregada!
Servias para lhe lavar as meias e as cuecas, mas para o “bem bom” lá estava a ucraniana.
Como a vida muda! Ao princípio de casados era tudo tão diferente! Mas enfim, cada um é para o que nasce.
Deixa-te de pensamentos sombrios, Nanda, e vai mas é para casa, que estes sapatos estão a moer-te os calcanhares…  
Retomou a caminhada e foi já muito cansada, com os pés doridos e com dificuldade em dar um passo, que chegou à entrada da rua onde morava.
E aí teve outra surpresa: a carrinha do senhor Francisco estava estacionada num lugar que não era habitual. E ainda mais estranho por ser àquela hora, ao fim da manhã.
- Que se passará? – interrogou-se à medida que se aproximava do local de estacionamento. E a admiração passou a espanto quando viu o senhor Francisco, seu vizinho, e mais conhecido por “Chico das Farturas ”- que era exactamente o que estava escrito em letras garrafais nos taipais da carrinha - com a cabeça apoiada sobre o volante.
Nanda bateu com os nós dos dedos na porta da carrinha e ele levantou a cabeça. Chorava.
- Que se passa, Sr. Francisco?
- Ah! É a D. Nanda! Não se passa nada, não se passa nada – respondeu enquanto passava a manga da camisa pelos olhos, a esconder as lágrimas.
- Então não se passa nada e o senhor está aqui a esta hora, dentro da carrinha, a chorar?
- A chorar, eu? Não, não é nada, foi um mosquito que me entrou para um olho, e eu estava à espera que isto passasse.
- Ah, sim? Então está tudo bem?
- Tudo bem… até nem está D. Nanda, mas deixe-me arrumar melhor a carrinha, que eu acompanho-a até casa e já lhe conto o que se passa.
Assim fez. Arrumou a carrinha no lugar habitual, fechou-a, e pôs-se a andar ao lado de Nanda. Moravam lá para o meio da comprida rua, a duas ou três casas um do outro, o que deu tempo para ele lhe contar o problema em que estava metido.
- Sabe, D. Nanda, de há uns tempos a esta parte, de vez em quando tenho tido dificuldade em fazer força; já aconteceu algumas vezes ter de pedir ajuda para abrir e fechar os taipais da carrinha e, quando o faço sozinho, sinto fortes dores nas costas. Como isto se tem vindo a agravar resolvi ir ao médico, fiz umas radiografias e essas coisas que eles costumam mandar fazer e hoje o doutor leu-me a sentença. E olhe que para mim foi quase sentença de morte.
- Então Sr. Francisco, que se passa? Que lhe disse o médico? – perguntou Nanda, já preocupada.
- Disse-me que se eu não deixasse de fazer o que sempre fiz, andar com a carrinha de um lado para o outro, tinha muitas probabilidades de brevemente ficar paralisado, por causa de problemas na coluna. Ou mudava de vida ou o melhor era comprar já uma cadeira de rodas. Já viu a minha vida?
- Tenha calma Sr. Francisco, pode não ser tanto assim – disse Nanda. Os médicos às vezes enganam-se. O melhor que o senhor tem a fazer é ir consultar outro médico. Quem sabe se ele não tem uma opinião diferente, ou até talvez conheça algum tratamento para as suas costas…? Sabe que isto, hoje em dia, estão sempre a aparecer coisas novas. Não fique já nesse desespero, homem!
- Obrigado por me tentar animar, mas acho que o médico tem razão. Agora eu, sozinho e já com esta idade, sem poder trabalhar, como vou resolver a minha vida? Já viu D. Nanda? É que nem tenho ninguém para amanhã me empurrar a cadeira de rodas…
- Não seja assim tão pessimista… E o que está a pensar fazer?
- Era nisto tudo que eu pensava quando estava ali na carrinha…
- E o tal mosquito o atacou… já estou a perceber – disse Nanda a sorrir, para aliviar o ambiente.
- A D. Nanda não deixa escapar nada – e Francisco sorriu também e continuou a contar o que estava a pensar:
Estava a matutar nisto tudo e cheguei à conclusão que só tenho duas coisas por onde escolher: ou vendo a carrinha, ou arranjo um sócio.
- Está a ver? Afinal tudo tem remédio - e de repente passou uma ideia pela cabeça de Nanda, que perguntou:
- E o negócio dará para duas pessoas, senhor Francisco? Para si e para o sócio, que, suponho, será o trabalhador da sociedade?
Tinham chegado junto à casa dele; desviaram-se um pouco para a sombra de uma árvore, e ele respondeu:
- Olhe D. Nanda, nós conhecemo-nos há tantos anos, a senhora sempre foi tão simpática comigo, que eu quase a considero como de família. Por isso vou dizer-lhe aqui uma coisa, que fica cá entre nós. O negócio das farturas até não é nada mau. Sabe o que costuma dizer o Sr. Gomes que é o toque (1) que me trata dos papéis para as Finanças? Que nem lhe passava pela cabeça que este pequeno negócio pudesse gerar um caixafló (2) tão jeitoso.
- Ah sim? – Nanda sorriu, e o Sr. Francisco nem por sombras adivinhou qual a razão daquele sorriso. Nanda continuou:
- Olhe lá Sr. Francisco, o que achava se eu lhe propusesse ser sua sócia?
- O quê? A D. Nanda andar com a carrinha dum lado para o outro a vender farturas? Não acredito que esteja a falar a sério.
- Olhe Sr. Manuel, estou desempregada como certamente já sabe, não gosto de estar sem fazer nada e os parentes não me caiem na lama por andar a vender farturas ou seja lá o que for. O meu problema é outro, ou melhor, até são dois em vez de um…
O primeiro é saber se eu serei capaz de fazer o que é preciso, isto é, andar de feira em feira, guiar a carrinha, armar a tenda, fazer a massa, fritar as farturas, enfim, tudo aquilo que é preciso fazer.
O segundo problema é saber se a parte que me tocaria como sócia trabalhadora seria compensadora…
Ficaram a falar sobre o assunto durante mais uns bons minutos e acabaram por concluir que o melhor seria a Nanda fazer a experiência aí umas duas semanas a ver se lhe agradava o trabalho e a contrapartida financeira.
Ela garantiu-lhe que se concluísse que não gostava ou que não tinha jeito, lho diria, mas que, fosse como fosse, o ajudaria sempre a resolver o problema.
Ao entrar em casa o Tejo veio logo ao seu encontro, com o ar mais feliz do mundo, abanando o rabo, e encostando o focinho húmido aos seus joelhos descobertos. Olhava-a com aqueles olhos líquidos vertendo amor, esperando assim convencê-la a levá-lo à rua. Estava sempre pronto para uma saidinha…
Nanda fez-lhe uma festa na cabeça, murmurando:
- Agora não, Tejo. Já foste à rua de manhã, e eu estou arrasada. Preciso descansar, senão ficas sem dona…
Dito isto dirigiu-se ao quarto. Talvez por saberem que iam ficar libertos daquela prisão que os torturava, os pés “reclamaram” urgência. Nanda atirou os sapatos para um canto e atirou-se ela para cima da cama, sem se importar com a roupa que tinha vestida, e que iria ficar toda amarrotada.
De manhã vestira-se com esmero, como, de resto, gostava de fazer. Dava-lhe prazer sentir os olhos postos nela quando passava na rua, e pensar que, embora não sendo já uma menina, com dois filhos adultos e prestes a ser avó, ainda atraía os olhares de quem com ela se cruzava.
Completamente descontraída em cima da cama, os pés finalmente sem dores, começou a pensar na conversa que tivera com o “Chico das Farturas” (uma marca com prestígio no mercado, garantira-lhe ele).
Como se tivesse necessidade de se convencer a si mesma, disse em voz alta:
 - Espero bem que o “toque” não esteja enganado sobre o “caixafló” que as farturas geram, que eu bem preciso – e soltou uma gargalhada como há bastante tempo não fazia.
- “Ai Nanda, Nanda, o teu cheiro a fritos até tresanda!” – riu alegremente. Acho que já nem preciso de ir à farmácia aviar a receita do antidepressivo.
E com uma alegria que há muito tempo não sentia, espreguiçou-se e, de repente, veio-lhe à ideia o caso do tal Carvalho Araújo.
- Mas que raio de nome o homem havia de arranjar: Carvalho Araújo!
“Carvalho Araújo”, tanto quanto sei, é nome de navio. Querem lá ver que ele é marinheiro? Tinha graça agora aparecer-me pela frente um capitão-de-mar-e-guerra… Ou…melhor ainda, um sócio da CNN (3). – e o seu rosto iluminou-se com um largo sorriso.
Como que a chamá-la à realidade, o telefone tocou.

1 – Toque = TOC – Técnico Oficial de Contas
2 – Caixafló = Cash flow – Fluxo de Caixa/Fundo de maneio
3 – Companhia Nacional de Navegação

Maria Caiano Azevedo

Dentro de poucos dias vou de férias. Parto no próximo sábado rumo à Europa, começando por Praga, República Checa, e depois… se verá, mas não dispenso Budapeste e Viena de Áustria!
Este mês de Agosto será dedicado à Europa; em Setembro será a vez de África. Partirei no dia 1/9 para Cabo Verde. Entre os dois continentes estarei cá no dia 29 de Agosto para fazer a terceira (e espero que última) injecção intra-vítreo.
Deixo programada a postagem do dia 1 de Setembro. Conto convosco. Retribuirei, agradecendo, todas as visitas entretanto recebidas. 
Bem hajam!

domingo, 1 de julho de 2018

LIVRO EM CONSTRUÇÃO – SEGREDOS I


SEGREDOS – Capítulo I

Nanda começa a sentir-se cansada depois de tanto caminhar. Já está arrependida da decisão de voltar para casa a pé, tanto mais que os saltos altos não são nada confortáveis para caminhadas. Só a necessidade de pôr em ordem as suas ideias a levou a tomar tal decisão.
Vai de tal modo absorta nos seus pensamentos, que já ouviu algumas buzinadelas ao atravessar as ruas sem os devidos cuidados.
O seu pensamento viaja na direcção dos filhos, que estão longe.
 - O mais velho, Miguel, casado com uma italiana de nome Farida, a viver na Bélgica, com quem fala amiudadas vezes por telefone;
- O mais novo, Luís, presentemente a viver no Alentejo, agora de “casa e pucarinho” com uma alentejana, chamada Catarina. Este telefona uma vez por outra, sobretudo quando precisa de dinheiro: mudança de emprego, patrão que não paga a tempo e horas, uns exames para a Catarina, enfim motivos não faltam para justificar o pedido.
- Ao contrário de Miguel, Luís não perdeu tempo, e Catarina já está “de barriga”. - pensa Nanda.
E agora como irá ser? É impensável continuarem naquelas condições, lá longe, a viverem num barracão qualquer…
- Vou ter que pensar numa solução – decide Nanda, resoluta.
Vem-lhe à lembrança os tempos em que os dois filhos estavam ainda na sua casa.
Miguel estudara na universidade tirando o curso de física nuclear e fora para a Bélgica fazer uma especialização. E assim conhecera Farida.
Ao contrário, Luis nunca passara da mediania nos estudos. Depois de completar a escolaridade mínima obrigatória (12º.ano) começou a trabalhar. Mas, sem quaisquer habilitações, não arranjava nada de jeito; apenas lhe apareciam uns biscates de vez em quando. Por fim Nanda convencera-o a fazer um curso profissional. Escolheu electromecânica, tornando-se num excelente mecânico.
Enquanto não arranjava trabalho na sua especialidade resolveu ir até ao Alentejo para a apanha da azeitona. Aí conheceu Catarina, com a qual começou a namorar, acabando por viver juntos.

Por associação com o filho mais novo lembrou-se do seu ex-marido, Tó Zé. Raramente pensava nele, e cada vez mais o queria longe do seu pensamento.
A maior parte do tempo andava metido em complicações; troca-tintas profissional - já que era fornecedor de tintas e vernizes – sempre que podia vendia “gato por lebre”. Comprava tintas por atacado que misturava com água e outros ingredientes que só ele sabia, metia-a em latas pequenas com marcas de renome, e entregava-as a distribuidores tão “honestos” como ele, que as colocavam no mercado.
Mas nem sempre os negócios corriam bem - de vez em quando aparecia um ou outro que o metia em sarilhos e lá lhe saltava o verniz.
Acumulava o negócio das tintas com o de treinador de futebol da equipa feminina do Ramalhal  Futebol Clube e um belo dia trocou-a a ela, Nanda, pela guarda-redes da equipa, uma ucraniana com 1, 80 mt que nem precisava de levantar os pés do chão para desviar as bolas para canto. Para um canto do balneário, ao que lhe contaram mais tarde, desviou ele a loira e nunca mais pôs os pés em casa.
- Melhor só que mal acompanhada – pensara Nanda na altura.
- Para quê ter em casa um homem que só serve para me dar arrelias e preocupações? Que fique com a loira altarrona, que eu fico muito bem só com os meus filhos.
Mulher a quem nunca o trabalho meteu medo, Nanda tratou dos filhos, ainda pequenos nessa altura e tocou a vida para a frente. Mudou algumas vezes de emprego, até que lhe apareceu a oportunidade de entrar para a empresa EILA - Export & Import, Lda.  
A sua função era a de secretária da administração, nome pomposo que o Dr. Santos Costa   lhe arranjara, mas que ao fim e ao cabo melhor fora ter o título de “Faztudo”, pois era mesmo isso que fazia. Há  relativamente pouco tempo o Dr. Santos Costa   deixou o “Import” e exportou-se a ele mesmo para algures no estrangeiro; a empresa entrou em falência e fechou.
Agora ela estava no desemprego e andava mal disposta e adoentada. Isso a levara ao Centro de Saúde nesse dia, para pedir ao médico que lhe mandasse fazer umas análises e exames e lhe receitasse qualquer coisa que a fizesse andar mais descontraída. Precisava de arranjar emprego, não era mulher para ficar parada.

Enquanto esperava que o semáforo abrisse para os peões, Nanda levou a mão ao bolso e tirou um papel que leu pela 3ª vez: um nome e um número de telemóvel. Alfredo Araújo! Por causa dele é que agora já estava arrependida de ter metido pés ao caminho para regressar a casa.
- D. Fernanda? – ouviu chamar, mal tinha dado meia dúzia de passos depois de sair do Centro de Saúde. Um sujeito, também a sair do Centro, chamava-a.
 - Sim, que deseja? – perguntou admirada, pois não o conhecia. Pensou que se teria esquecido de qualquer coisa no Centro de Saúde, que lhe viessem entregar.
 - A senhora vai desculpar-me, mas eu ouvi a sua conversa com a D. Raquel do guichet ali do Centro, e gostaria de lhe dizer uma coisa.
Nanda ficou admirada e desconfiada; farta de conversas semelhantes estava ela. Resmungou mal-humorada:
- Não sabe que é feio ouvir as conversas dos outros,? Não o conheço de parte nenhuma. E ia a voltar-lhe as costas mas ele insistiu.
- A senhora com certeza não reparou, mas eu comecei por pedir desculpa… Acontece que o que tenho para lhe dizer pode ser bom para a senhora. Pareceu-me ouvir dizer que procura um emprego e apercebi-me que tem umas certas habilitações…
 - Sim, e depois? Tem algum emprego para administradora de um banco, para me oferecer? – interrogou com ar trocista.
- Não, isso não tenho, mas estou a falar-lhe a sério. Por favor guarde este cartão com o meu nome e telefone-me, se assim o entender, daqui a duas ou três semanas. Talvez tenha boas notícias para si, mas agora não posso dizer-lhe mais nada.
Meteu-lhe o papel nas mãos, despediu-se e virou-lhe as costas.
  
Este é o I Capítulo (sujeito a alterações) do livro que estou escrevendo, e que tem o título (provisório…) “SEGREDOS”.
Maria Caiano Azevedo

quarta-feira, 6 de junho de 2018

"IN MEMORIAM"

Esta postagem constitui uma espécie de “memorial” em homenagem a quem partiu, faz hoje, DIA 6 DE JUNHO, seis anos, mas permanece vivo na minha memória e no meu coração – o meu Marido.


ENCONTRO MEDIÚNICO

Despidos de roupas e preconceitos, frente a frente, olhamo-nos em silêncio.
Vejo nos teus olhos, envolto numa enorme ternura, um desejo sem fim.
Lentamente dirijo-me para ti.
Colocando-me a teu lado, pressiono o meu corpo, seios e ventre, contra o teu lado esquerdo.
Não te moves. Apenas um ligeiro arrepio denuncia que notaste a minha presença, o meu contacto.
Avanço a mão esquerda em direcção ao teu peito. Suavemente acaricio-te, primeiro do lado esquerdo e de seguida do lado direito, lenta e demoradamente, como quem tem todo o tempo do mundo.
Ao mesmo tempo a minha mão direita, colocada na parte de trás do teu pescoço, faz uma ligeira pressão desde a base dos teus cabelos, deslizando pelas costas, ao longo da coluna.
Com as pontas dos dedos contorno, suavemente, cada uma das tuas vértebras.
Sem pressas, as minhas mãos vão descendo, divagando, ao longo do teu corpo.
Alcançado o baixo-ventre dirigem-se, lentamente, para a parte interna da tua coxa esquerda, desviando-se da tua fonte da vida, que tocam, muito ao de leve, com a sua parte exterior. Um frémito percorre todo o teu corpo.
Docemente coloco-me à tua frente, elevando as minhas mãos até aos teus quadris. Uno o meu corpo ao teu e deslizo para o lado direito.
Os meus movimentos são lentos, suaves, quase diáfanos, como se nos encontrássemos em "slow motion".

Não me deixas prosseguir.
Levantas o braço, passa-lo por cima do meu ombro, bem junto ao meu pescoço, e comprimes o meu corpo contra o teu flanco.
Inclinas-te para o meu lado e, profundamente conhecedor, beijas-me o pescoço.
Sinto o desejo irromper dentro de ti como um vulcão subitamente desperto do seu sono.
A lava incandescente do teu corpo invade-me; no meu ventre surgem labaredas, qual sarça-ardente.
Murmuro-te ao ouvido palavras meigas e sensuais:
- Não resistas, meu amor; deixa-te invadir por estas ondas de fogo que ateiam o nosso desejo.
Procurando, como só eu sei, os teus pontos mais sensíveis, levanto a minha mão direita e acaricio a tua orelha, continuando a murmurar palavras inflamadas, que te provocam arrepios:
- Quero fundir o meu corpo no teu, em comunhão total.
- Quero ser tua, para toda a eternidade…
Correspondes com ansiedade redobrada:
- Quero receber o teu corpo como num altar do Amor.
- Quero que os nossos corpos se unam para sempre.
Prosseguimos com frases que só os amantes conhecem e entendem.

Passou-se um minuto, um ano, um século… O tempo não conta. Pararam todos os relógios do Universo.
Agora sabemos que a dança da sedução está prestes a terminar. Lentamente, caminhamos para um final sem retorno.

Abraçamos o céu com as mãos. Somos únicos à face da Terra.
No clímax que nos atinge, inesperadamente violento, miríades de fogos-fátuos enfeitam os nossos corpos.


Exaustos, olhamo-nos ainda: tu, lá tão longe… eu aqui, tão longe! Separa-nos a distância de um profundo céu negro, polvilhado de estrelas brilhantes.
Ao meu lado, a cama vazia. No ar, o perfume da tua presença.

A morte não é um impedimento intransponível para a comunicação entre aqueles que se amam verdadeiramente.
Texto de Mariazita