terça-feira, 3 de setembro de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XII

SEGREDOS – CAPÍTULO XII

Regressei de férias ontem e um dos meus primeiros contactos foi com a Nanda.
Achei-a bastante melancólica, o que não me causou estranheza, pois regressar de férias provoca sempre uma certa nostalgia.
Comentando isso mesmo com ela respondeu-me que não ia a pensar em férias, mas sim a lembrar-se do seu passado e eu interrompera-a.
Murmurei uma desculpa rápida, e mais rápido ainda, afastei-me, deixando-a entregue às suas recordações…

CAPÍTULO XI
“… Nanda olhou para o visor onde estava a indicação de “número desconhecido”. Pensou:
“Será ele? Ou algum daqueles chatos a fazer publicidade que não interessa a ninguém?”
Decidiu atender. O seu coração teve um sobressalto quando reconheceu a voz do desconhecido dessa manhã.
- Alô! – ouviu do outro lado. Como estás, cara mia?
Nanda ficou tão emocionada que nem conseguia falar. Afinal, ele tinha ligado…”

CAPÍTULO XII
Depois de vários “alôs” do outro lado Nanda conseguiu acalmar-se e, tentando não deixar transparecer a sua perturbação, respondeu, com uma inocente mentira:
- Alô! Desculpa a demora em atender, mas estava tão absorvida pelos estudos, que demorei um pouco a desligar do que estava a ler.
- Não tem importância – a voz de Alessandro denotava grande alívio.  E continuou: Avevo solo paura che non mi avresti parlato – e acrescentou rapidamente – Oh, scusa, eu quis dizer que apenas estava com medo de que não quisesses falar comigo.
Nanda continuava muito agitada. Ela que, normalmente, “tinha a resposta na ponta da
língua”, agora não lhe ocorria nada para dizer. Por sorte ele continuou a conversar, dispensando-a de ter de responder.
Contou-lhe que desde o encontro dessa manhã não deixara de pensar nela, que tinha absoluta necessidade de voltar a vê-la, que se isso não acontecesse ele iria … “perdi la testa, entendes, perder a cabeça, enlouquecer, como vocês dizem…”.
E continuou verbalizando, no seu português um tanto arrevesado, a atracção irresistível que sentia por ela. Nanda limitava-se a ouvir, pensando que com ela se estava passando o mesmo, o que a deixava desorientada.
“Eu sou uma pessoa com os pés bem assentes na terra, não me deixo influenciar facilmente, não sou dada a namoricos como a maior parte das raparigas da minha idade…  não compreendo o que me está a acontecer…”
Acabou cedendo àquela voz que tanto a transtornava, dizendo-lhe que amanhã o informaria  da sua disponibilidade. “O final do ano está à porta e todo o tempo é pouco para estudar. Mas vou arranjar um tempinho para ti” – e rematou assim a conversa.
A mãe já viera duas vezes perguntar-lhe se queria um chá e umas bolachas, e vira que ela estava a conversar ao telemóvel. Não podia prolongar muito mais tempo o telefonema sem correr o risco de ter de dar explicações à Mãe – o que ela não queria, de modo algum, fazer.
Teve grande dificuldade em voltar a concentrar-se nos livros. Só a sua enorme força de vontade e o pensar que dos bons resultados escolares dependia a sua festa de anos a ajudou.
Depois de uma noite agitadíssima, em que acordou imensas vezes e sempre com os olhos no relógio, a madrugada acabou por chegar. Rapidamente se preparou para sair, mal tocando no pequeno almoço. Foi bastante difícil, nas aulas, não deixar o pensamento voar para Alessandro, com quem combinara almoçar. Como chegou bastante cedo à escola teve tempo para lhe mandar uma mensagem marcando o encontro num “snack” não muito perto, para não correr o risco de ser vista por Bela ou qualquer outra colega.
Esse primeiro encontro não foi exactamente como eles esperavam. Ambos estavam bastante tensos; parecia que nenhum tinha nada para dizer, mas quando Nanda ia falar Alessandro começava também a pronunciar uma palavra, atropelando-se um ao outro, acabando a rir nervosamente.
Ele ainda conseguiu dizer-lhe que se encontrava em Lisboa a colher elementos para uma investigação que se estava a realizar num laboratório situado nos arredores de Milão, na qual ele colaborava.  Com a mesma finalidade fora inicialmente para o Porto, onde se mantivera por cerca de um ano, e donde regressara havia apenas duas semanas.
De pouco mais conversaram, até porque não dispunham de muito tempo. Talvez por isso - mas não só - a vontade de voltarem a ver-se apresentava-se premente, urgente, como algo que os subjugava.
Nanda tinha noção de que não podia perder tempo, todos os minutos contavam para os seus estudos, agora que se encontrava na recta final; Alessandro não podia descurar o seu trabalho, pois o seu director, lá de Itália, não lhe dava tréguas.
Apesar disso… passaram a encontrar-se todos os dias. Como seria de esperar aquela ligação ia criando laços muito fortes que, a cada dia que passava, mais os uniam.
Bela estranhava que a amiga, ultimamente, andasse sempre ocupada, com “n” afazeres nos intervalos das aulas, e que sempre que a interrogava, Nanda arranjasse desculpas esfarrapadas, assumindo um ar comprometido. Até que um dia acabou por confessar que conhecera “alguém” que a atraía mas, não querendo precipitar-se, preferia manter segredo até ter formado uma opinião.
Bela mostrou-se felicíssima com a notícia, mas não deixou de lhe fazer sentir que lamentava que não tivesse confiado nela.
- Afinal, parece que não sou a tua melhor amiga – murmurou, fazendo beicinho.
- Não sejas parva! Quantas vezes preciso repetir que és, sim, a minha melhor amiga? Só que, neste caso, como não tenho ainda certezas de nada, achei preferível aguardar…
- Tu e a tua eterna prudência! Alguma vez irás “atirar-te de olhos fechados” seja para o que for? Vive o amor, minha querida, as consequências não podem ser assim tão más…
- Eu com a minha prudência – que tu consideras excessiva – e tu com a tua alegre leviandade – respondeu Nanda, a rir.
- Os extremos tocam-se – Bela entrou na brincadeira, bem-disposta, já esquecido o amuo anterior. A tua prudência e a minha leviandade complementam-se, e é por isso que nos damos tão bem… Mas… não podes dar-me só uma dica acerca dele?
- A única coisa que posso dizer-te é que se trata daquele rapaz que quase me deitou ao chão no dia em que fomos falar sobre a minha festa de anos – disse Nanda, querendo pôr um ponto final no assunto.
 - O tal dos olhos incandescentes? – brincou Bela. Eu sabia que ele tinha mexido contigo…Ah! mas tens de mo apresentar…
- Claro que sim, se tudo der certo. Por enquanto estamos apenas a conhecer-nos. Depois, estou a pensar convidá-lo para o meu aniversário…
- Ah! Assim está bem, não vou ter de esperar muito. Na próxima semana acabam as aulas, e logo de seguida é a tua festa de anos.     
Desde o final do ano e a perspectiva da entrada na Faculdade até o aniversário decorreram apenas três semanas, que as duas amigas dedicaram à preparação da festa de anos.
Finalmente chegou o grande dia! No meio de toda aquela agitação Nanda foi apresentando Alessandro como o seu mais recente amigo. Quando chegou a vez de o apresentar à sua amiga Bela, esta mal pode olhá-lo e pronunciar um rápido “olá, tudo bem?”, pois foi imediatamente arrebatada pelo seu último admirador, que não queria perder um minuto da sua atenção.
Quando, por fim, terminou a parte “obrigatória” de festejar com a família e puderam seguir para a praia onde o dono de um bar conhecido de Bela reservara o espaço para a festa, Nanda sentia-se nas nuvens. Finalmente podia estar bem perto de Alessandro, com os corpos colados a pretexto de dançarem.
Foi uma noite inolvidável que terminou com o primeiro beijo. Até aí, embora muitas vezes o desejo de o fazer fosse quase incontrolável, tinham conseguido evitar grandes intimidades. Nanda não era de facilitar as coisas…
Os tempos que se seguiram foram de verdadeira euforia. Nanda, com boas perspectivas de entrar na Faculdade, dado os bons resultados que obtivera na escola, de férias e já com os seus 18 anos completos, sentia da parte dos pais uma grande complacência.
Tinham conhecido Alessandro, na festa de aniversário, como amigo. Agora Nanda achou que era altura de lhes confessar que eram namorados. Saíam juntos, iam à praia, ao cinema, enfim, viviam intensamente o seu amor.
Com esta necessidade quase obsessiva de se encontrarem Alessandro estava descurando um pouco a investigação para a qual tinha sido destacado, o que lhe estava a valer algumas chamadas de atenção por parte da sede, em Milão.
No início do namoro Bela acompanhava-os; mas cerca de três semanas depois teve de partir com os pais para a quinta, onde se demorou muito mais tempo do que o habitual.
Nanda lembrava-se que, na altura, Bela alegara uma qualquer doença da mãe, qualquer coisa a nível psicológico, e que ela tinha de a acompanhar. Pelo que conseguia recordar – “mas já passaram tantos anos que a memória pode estar a atraiçoar-me… “- teria havido problemas entre o casal e a mãe achara melhor estarem um tempo afastados, pelo que foram, mãe e filha, para o estrangeiro.

***
Imersa nestes pensamentos Nanda nem se tinha apercebido de que já chegara ao supermercado.  Só quando a voz do “segurança” disse, alegremente – Bom dia, dona Nanda! – é que ela “desceu à terra” e apressou-se a ir fazer as compras.
Quando regressava, com um saco em cada mão, ouviu o telefone tocar. Como era complicado, com os sacos das compras, atender, deixou-o tocar, pensando:
- “Quando chegar a casa vejo quem ligou e retorno a chamada”.

Maria Caiano Azevedo

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

UM CONTO

O AMOR É ETERNO
 

Como não tive oportunidade de ouvir as confidências da Nanda (e que, como boa coscuvilheira que sou, logo venho partilhar convosco…) fui procurar no meu baú e descobri um conto que escrevi há pouco tempo, e de que gosto particularmente.
Para substituir as ditas confidências (ou inconfidências, melhor dizendo) submeto-o à vossa apreciação.
Espero não vos defraudar com a troca.
O AMOR É ETERNO
Marta caminhava lentamente em direcção à sala. Parou à entrada, olhando tristemente para o sofá de dois lugares, agora vazio. Quantas horas felizes ali passara, ao lado do grande amor da sua vida, que a acompanhara por mais de quarenta anos…
Não pôde deixar de lembrar o que acontecia neste dia, o do seu aniversário. Quando ali chegava já encontrava, sobre a sua cadeira, um lindo ramo de rosas vermelhas. Este ritual cumpriu-se, ano após ano, ao longo da sua vida de casada. Luís, o marido, estava escondido atrás da porta, mostrando-se apenas quando ela pegava nas flores. Pé ante pé aproximava-se por detrás, enlaçando-a pela cintura. Ela voltava-se e, com um terno beijo, agradecia-lhe aquele gesto de carinho. Só depois de as rosas terem sido depositada s numa linda jarra de cristal, enchendo a sala com o seu intenso perfume, é que Luís lhe entregava a prenda de anos. E o cuidado com que ele a escolhia! Sabia adivinhar-lhe os desejos, que ela nunca revelava; ele parecia ter um sexto sentido que lhe indicava as coisas que ela mais desejava.
Este era o seu primeiro aniversário em que o lugar dele no sofá estava vazio. Partira há cinco meses, deixando um vazio impossível de preencher. Sentia uma saudade enorme dos serões que ali haviam passado, de mãos dadas, conversando sobre os acontecimentos do dia, ouvindo música ou vendo televisão.
Cerca das dez horas cumpria-se o ritual do chá. Ela levantava-se e, sem nada dizer, dirigia-se à cozinha. Pouco depois sentia-se no ar um agradável aroma a hortelã, ou erva príncipe, ou limão… por vezes camomila.
Voltava da cozinha com um tabuleiro onde colocara uma pequena taça com saborosos biscoitos de canela, ou de manteiga… às vezes de amêndoa…  que fizera à tarde, o bule do chá e duas chávenas de porcelana. A sala ficava impregnada do odor que saía pelo bico do bule.
Invariavelmente Luís comentava, fosse qual fosse o chá que ela tivesse feito:
- Como foi que adivinhaste que era exactamente esse o chá que me estava a apetecer hoje?
Ela sorria e, invariavelmente também, respondia, interiormente feliz pela subtileza com que ele sabia agradecer:
- Tu sabes que eu tenho um dedo que adivinha…
E sorriam ambos, felizes.
Não tiveram filhos. Não sabiam se a dificuldade dela em engravidar se devia a algum problema seu ou dele. Nunca o quiseram saber. Deixavam o tempo passar, sempre com a esperança de que um dia acontecesse serem surpreendidos com a vinda de um bebé. Tal não aconteceu. E à medida que o tempo foi passando aceitaram esse facto sem amargura ou desconforto. Viviam um para o outro; ele trabalhando num escritório de advocacia, ela cuidando do lar e do pequeno jardim em frente à casa onde moravam.
Tinham amigos com quem conviviam sempre que se proporcionava, embora gostassem muito de estar os dois sozinhos. Tinham-se dedicado inteiramente um ao outro…
Interrompendo os seus pensamentos o toque da campainha da porta fê-la estremecer.
Levemente contrariada dirigiu-se ao hall de entrada. À porta encontravam-se dois estafetas. Um deles empunhava uma caixa de cartão rectangular, com cerca de 40 centímetros de lado e furos na parte superior; o outro segurava cuidadosamente um ramo de perfumadas rosas vermelhas.
Marta sentiu um aperto no coração. Não, não era possível As rosas vermelhas sempre lhe tinham sido oferecidas pelo marido, ao longo dos seus 43 anos de casada.
Fazendo um esforço enorme para disfarçar a sua consternação, disse:
- Com certeza os senhores enganaram-se na morada… Eu não encomendei nada, e não existe qualquer outra pessoa cá em casa…
- Não, não há engano, é mesmo esta a direcção – responderam, quase em uníssono, os dois estafetas.
- Desculpem, mas isto só pode ser uma brincadeira de mau gosto… - insistiu ela.
- Não, minha senhora, não é nenhuma brincadeira – respondeu o rapaz que empunhava as rosas, estendendo-lhas. E continuou:
- Estas rosas foram encomendadas por um senhor há seis meses, com a indicação expressa de que deveriam ser entregues neste dia, sem falta. Repare que até tem um cartãozinho escrito, que o senhor lá deixou, recomendando que o juntássemos às flores…
Marta, dominando a sua enorme comoção, segurou as flores e abriu o pequeno envelope, retirando dele um cartão onde, reconhecendo a letra de Luís,  pôde ler:
- Com o meu eterno Amor.
Dificilmente conseguia controlar-se. Foi a vez do outro estafeta se lhe dirigir:
- Connosco passou-se exactamente o mesmo, minha senhora. Há seis meses foi à nossa loja um senhor fazer esta encomenda, com a mesma recomendação: “Que fosse entregue hoje, sem falta”. E também deixou um cartão…
Marta sentia que o coração ia explodir-lhe no peito. O que poderia estar dentro daquela caixa? Começou por ler o cartão, que dizia:
- Com todo o meu Amor, para te fazer companhia nas longas noites de Inverno.
Tremendo, foi colocar as rosas na sala, voltando para receber a caixa. Segurando-a com cuidado percebeu que, no seu interior, alguma coisa se mexia. Abriu-a sem demora. Lá de dentro saltou uma pequena bola de pêlo branco que imediatamente correu para a sala, indo sentar-se no sofá, no lugar que sempre fora ocupado pelo marido.
Marta ficou paralisada. Mesmo encontrando-se do outro lado da vida, Luís adivinhara o que ela teria desejado que ele lhe oferecesse naquele aniversário – um cãozinho!
Dirigindo-se ao sofá sentou-se ao lado da prenda acabada de receber. Fez-lhe uma festinha na cabeça. O pequeno animal agradeceu lambendo-lhe a mão.
Marta sentiu o coração apaziguado como há muito tempo não acreditava ser possível…
E dirigindo-se ao seu novo amigo, murmurou, pensativamente:
- Como havemos de te chamar? Talvez… Luisinho… Gostas?

Maria Caiano Azevedo
 25/03/20019

terça-feira, 2 de julho de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XI

ADENDA
Queridas Amigas e queridos Amigos
Por lapso não incluí, no final deste Capítulo, a seguinte informação:
NO DIA 10 DESTE MÊS DE JULHO VOU AUSENTAR-ME DO PAÍS, POR DUAS SEMANAS, PARA O MEU PRIMEIRO PERÍODO DE FÉRIAS (O SEGUNDO SERÁ NA SEGUNDA QUINZENA DE AGOSTO).
POR ESSE MOTIVO SÓ QUANDO REGRESSAR PODEREI RETRIBUIR AS VISITAS QUE ME FIZEREM, E QUE DESDE JÁ AGRADEÇO.

Beijinhos e abraços a toda(o)s.

SEGREDOS – CAPÍTULO XI


 CAPÍTULO X
“…O toque do telefone interrompeu os seus pensamentos. Contrariada, Nanda levantou-se e viu, no visor, que a chamada era do Tó Zé. Naquele momento teria preferido continuar a recordar o passado tão distante. Já haviam decorrido 30 anos! Mas na sua memória tudo continuava muito nítido, como se o estivesse vivendo de novo…
Clicou no “atender” e ouviu do outro lado a voz inconfundível do seu ex-marido:
- Por onde anda a flor mais linda do meu jardim, que demorou tanto tempo a atender?
Nanda sentiu um friozinho na barriga ao ouvir aquela voz carregada de mel…”

CAPÍTULO XI
Tentando controlar-se para não deixar transparecer o quanto aquela voz mexia consigo, Nanda respondeu, no tom mais indiferente que lhe foi possível:
- O teu jardim continua repleto de flores?
- Tem algumas, sim, mas nenhuma tão bonita como tu…
- Conversa não te falta… Mas afinal, foi para falar de flores que me ligaste?
- E se fosse? Não é uma conversa bonita? E perfumada – acrescentou, bem-disposto. Mas não, não foi para falar de flores, mas dum botão de rosa – o nosso neto.
- O que tem o nosso neto? – a voz de Nanda denotava preocupação. Aconteceu alguma coisa que eu não sei?
- Não fiques aflita, minha querida – Nanda estremeceu. Aquele “minha querida” era sempre dito num tom que lhe fazia lembrar que houve um tempo em que eles tinham conseguido ser felizes, apesar de tudo.
O que acontece é que, finalmente, consegui arrumar acomodações para o nosso filho. E como tu gostas sempre de lhe dar este tipo de novidades… não sou eu que te vou roubar esse prazer… Quando quiseres liga-lhe a dar a notícia, e aproveita para lhe perguntar se precisa que eu vá lá abaixo buscá-los. Posso ir com a carrinha e trazer tudo o que for preciso.
- Ora aí está uma excelente notícia! – respondeu Nanda, encantada. E não queres contar-me como conseguiste esse milagre?
- Evidentemente que sim. Sabes que para ti não tenho segredos – Tó Zé falou com o tom mais doce possível.
- Eu vou fazer de conta que acredito – respondeu Nanda, tentando falar rispidamente, mas com o coração acelerado.
- Acredita que é verdade. Lembras-te daquele armazém enorme que em tempos aluguei, com vista a diversificar o negócio? – continuou ele. Acabou por ficar para ali, sem qualquer utilidade. Mantive-o porque o aluguer era baixo, quase de graça. E foi o melhor que fiz. Com a ajuda de uns amigos construí lá, numa parte do espaço, um belíssimo apartamento. Só tem um quarto, mas para já não é preciso mais. Depois, com tempo, posso construir outro.
- E o nosso neto vai ficar confinado a um quarto? – perguntou Nanda, com espanto.
- Que disparate! Claro que não. Tem um quarto, uma sala – não muito grande, é certo – uma cozinha e instalações sanitárias. Quando quiseres podes ir lá ver. Tenho a certeza que vais gostar. Já está pronto há três ou quatro dias, mas não te disse nada porque era preciso deixar sair o cheiro das tintas.
- Estou espantada, e deveras satisfeita. Vamos fazer assim: Eu telefono ao Luís a dar-lhe a novidade. Sei que vai ficar radiante porque todos os dias me tem falado no assunto.
- Todos os dias? – perguntou Tó Zé, admirado.
- Sim, todos os dias, qual é o espanto? Sabes que nós falamos todos os dias…
- Pois… - Nanda notou um certo tom de tristeza na voz do ex-marido – tu e eu também falamos todos os dias – ou quase… - e tu não me dizes tudo…
- Isso agora não interessa para nada! Vamos aos planos. Daqui a pouco ligo ao Luís e vejo como havemos de fazer para eles virem para cima. E fica descansado que vou dizer-lhe que te ofereceste para os ires buscar – acrescentou, sorridente.
- Obrigado, minha querida. Tu consegues ser sempre atenciosa, seja em que circunstância for…
Nanda engoliu em seco, sem palavras para responder. E de novo aquele “minha querida”…
Não sabia explicar porque é que essas duas palavras, ditas naquele tom, a sobressaltavam tanto.
A verdade é que ela nunca fora apaixonada pelo Tó Zé. Ele, sim, ele adorava-a, e ela… deixava-se amar.
Passados quase trinta anos ainda se lembrava bem de como eram as suas conversas. Viam-se e falavam todos os dias. Depois de jantar ela ia até ao portão do jardim da sua casa e aí se encontravam. O que chegasse primeiro esperava pelo outro. E as conversas entre eles pareciam não ter fim. Algumas vezes a Mãe tinha de a chamar para ir deitar-se, porque eles perdiam a noção do tempo.
Nanda considerava Tó Zé como o seu melhor amigo, tal como Bela era a sua melhor amiga. Entre eles quase não havia segredos. Nanda guardava consigo o segredo do assédio de que fora vítima por parte do pai de Bela, e nunca o revelou a ninguém, até ao fim da sua vida. Mas esse segredo era a única excepção…  

Foi com enorme alegria e excitação que Nanda ligou para Luís a dar-lhe a novidade. Como era de esperar, o filho ficou em grande alvoroço e, em altos brados, transmitiu a notícia a Catarina. Combinaram que Luís falaria com o sogro, que já se oferecera para os vir trazer a Lisboa, e não queria magoá-lo.
Enquanto se dirigia ao supermercado para fazer umas pequenas compras – como eram coisas de pouco peso decidiu não levar o carro e ir a pé – voltou-lhe ao pensamento o assunto em que pensava quando fora interrompida pelo telefonema de Tó Zé…
***
[Depois do encontro (ou encontrão…) de Nanda e Alessandro, as duas amigas, conversando alegremente e caminhando num passo estugado, em breve chegaram ao restaurante. Sentaram-se, fizeram o pedido, e começaram logo a falar do assunto que as levara a almoçar juntas...
- Então conta-me lá, que espécie de festa estás a pensar fazer? – perguntou Bela.
- Eu estava a pensar numa coisa simples, para reunir as amigas e os amigos, nada do género da que tu fizeste quando completaste os teus 18 anos, claro! Que te parece?
- Por mim acho a ideia excelente. E como ainda faltam três meses, não vais ter dificuldade em reservar um local para a noite … concordou Bela.
- Pois por isso mesmo é que eu quis tratar das coisas com antecedência e poder escolher um espaço que não seja muito caro.
- Tenho a certeza que vais conseguir. Bem basta o que aconteceu comigo… - Bela mostrava-se meio tristonha ao recordar a sua festa de anos.
- Sim, mas tu sabes bem porque é que as coisas não correram como tu querias e imaginavas… Essa ideia dos teus pais de irem fazer a festa na quinta… - murmurou Nanda.
- Uma ideia completamente disparatada. Como sempre, estavam a pensar mais em exibir-se do que em festejarem os meus 18 anos – Bela falava com irritação. – Sendo assim, como foram eles a organizar tudo, a maioria das minhas amigas e amigos não estariam presentes. Só os riquinhos lá iriam pôr os pés. Olha tu, por exemplo: afirmaste logo, a pés juntos, que não irias… Logo tu, a minha melhor amiga!
- Não vale a pena estarmos a falar nisso agora – Nanda esquivava-se ao assunto. Nem queria pensar no verdadeiro motivo que a levara a recusar o convite da sua melhor amiga. Desde aquele dia fatídico evitava ao máximo qualquer contacto mais próximo com aquela família.
- Tens razão, querida. Não vale a pena continuar a lamentar o que se passou. Mas a verdade é que eu pensava que iria recordar para sempre, com saudades, a minha festa dos 18 anos. Afinal, é um marco na nossa vida… - comentou Bela, com ar tristemente pensativo.
E lembrou-se da ansiedade com que esperara pela sua festa de aniversário dos 18 anos. Imaginara tudo tão diferente do que acontecera… Os pais disseram-lhe que não queriam contar-lhe nada, porque iam fazer-lhe uma grande surpresa. E nisso não se enganaram. Foi mesmo uma surpresa enorme!
Nesse dia, logo a seguir ao almoço, meteram-na no carro e, entre risadas de boa disposição, vendaram-lhe os olhos, dizendo-lhe que não valia a pena ela fazer perguntas pois só quando chegassem ao destino veria a surpresa. A Mãe aconselhou-a a recostar-se e tentar fazer um pequeno sono de beleza, para estar linda para a sua festa…
Cerca de uma hora depois o pai parou o carro, ajudaram-na a sair e a venda foi retirada. Com espanto, Bela verificou que se encontrava na quinta, onde era aguardada por um número enorme de convidados, amigos dos seus pais e os seus descendentes, todos vestidos como para uma festa de gala.
Não, decididamente não era nada disto que Bela imaginara.  Na verdade, os pais não a conheciam, não sabiam os seus verdadeiros gostos, para além de só pensarem em si mesmos e                               na imagem que queriam transmitir, de pessoas da alta sociedade.
A Mãe levou Bela para o seu quarto, onde a esperava um magnífico vestido que ela usaria para a festa – por sua vontade vestiria apenas umas jeans e uma t-shirt. Fez a vontade à Mãe, pois sabia que de nada valeria tentar contrariá-la.
Como não viu entre os convidados a sua melhor amiga perguntou à Mãe se não se tinha lembrado de convidar Nanda. Ela respondeu que não se esquecera – de maneira nenhuma! – mas que, apesar da muita insistência, a amiga lhe repondera que não podia ir.
Bela correu para o telefone e ligou a Nanda. Entre lágrimas descreveu-lhe, resumidamente, a “surpresa” que os pais lhe haviam preparado, e implorou à amiga que fosse para a quinta, que mandaria o motorista buscá-la.  Nanda recusou, meiga mas firmemente:
- “Sabes que te amo como a uma irmã, mas não me peças o impossível. A minha Mãe está com uma fortíssima crise de enxaqueca e não tenho coragem de a deixar sozinha nestas condições. Sabes como ela fica quando tem estas crises…”
Depois de todos os convidados terem partido, os pais disseram-lhe que no dia seguinte iriam levar a casa a tia Natércia – irmã da mãe, que vivia no Porto e viera à festa do seu aniversário – e que Bela poderia ficar lá uns dias, se quisesse.  Tinham-se apercebido de que a surpresa que haviam preparado para a filha em nada lhe tinha agradado, e pensavam compensá-la concedendo-lhe uns dias de liberdade.
Foi a melhor notícia que Bela recebeu nesse dia. A perspectiva de ir passar uns dias com a prima Filipa, filha da tia Natércia, de quem gostava muito, deu-lhe um novo ânimo.
Foram uns dias inesquecíveis.
No dia da chegada, Filipa convidou umas amigas para jantarem lá em casa. Foi uma reunião muito agradável e alegre. As amigas da prima eram muito simpáticas e acolhedoras, e logo ali combinaram fazer uma festa no dia seguinte na casa de uma delas, cujos pais se encontravam no Algarve.
Na noite seguinte lá estavam elas na casa da amiga, prontas para uma noite de farra. A casa, situada nos arredores, era enorme, com muitos quartos, salas, salinhas e saletas… Notava-se, à distância, que os donos da casa eram pessoas bem colocadas na vida, nada abaixo do nível dos pais de Bela.
Amigas e amigos começaram a chegar e em breve a sala estava repleta de jovens. Dançaram, cantaram, saltaram, comeram – havia, numa das salas, uma mesa posta com sandes e bolos, onde não faltavam bebidas alcoólicas.
A noite ia avançada quando alguém começou a distribuir uns “charros”, a que se seguiram outras drogas leves. Bela nunca tinha experimentado e não estava nada interessada. Na escola, desde os doze anos, sempre aparecia alguém a querer influenciá-la e iniciá-la nesse mundo que ela temia acima de tudo. Sempre resistira, e até àquela noite sempre tinha conseguido manter-se afastada.
Agora… a tentação era maior que nunca. Toda a gente eufórica, fumando e “cheirando”, com álcool à mistura… e ela ali, isolada, a sentir-se um ET. Filipa insistia:
- Vá lá, Bela, não sejas desmancha prazeres, é só hoje. Olha para mim, pensas que eu faço isto todos os dias? Nem pensar, é só muito raramente. Assim não se corre o risco de ficar viciado…
Bela acabou por ceder… e de pouco mais se lembra nitidamente. Recorda-se que todos acabaram espalhados pelos vários quartos. Ela própria acordou de madrugada ao lado de um jovem de que mal recorda as feições porque, ao reparar na cama desfeita, não teve dúvidas do que acontecera entre eles. E sentiu-se tão envergonhada que mal conseguiu balbuciar o seu nome – Bela – quando ele quis apresentar-se dizendo:
- Io sono Alessandro. E tu?...
Todos começaram a levantar-se e retirar-se, e em breve as duas primas ficaram sozinhas com a dona da casa, grande amiga de Filipa. Passaram o dia as três juntas. Bela não se sentia muito bem – as drogas que consumira, ainda que leves, provocaram-lhe um mal-estar geral. Acharam preferível só regressar a casa mais tarde, dando tempo a que se dissipassem os efeitos da noitada, e evitar preocupar a prima Natércia.
Mas as verdadeiras consequências de toda a irresponsabilidade dessa noite não se fizeram esperar. Pouco tempo depois…

Nanda reparou no ar ausente da amiga e perguntou:
- Vamos tratar da minha festa ou não?
- Claro que vamos. Portanto… fazes um lanche ajantarado… - sugeriu Bela
-Sim, mas uma coisa bem simples, e tem de ser em casa. Sabes que os meus pais não são ricos… não quero fazê-los gastar muito dinheiro. – apressou-se a esclarecer Nanda.
- Se tu não fosses teimosa… aceitavas que eu te oferecesse a festa como prenda de anos… - aventurou Bela – Gostava tanto!
- Não venhas de novo com essa conversa. Eu nem sequer me atreveria a dizer tal coisa aos meus pais. Acho que eles me mandavam internar – respondeu Nanda em tom alegre, tentando desviar o assunto.
- Eu entendo, por isso não vou insistir – respondeu Bela.
-Fazemos assim: um lanche ajantarado lá na garagem, com a presença dos amigos dos meus pais; a seguir a juventude segue para a discoteca, e os cotas continuam a festejar na garagem – disse Nanda com uma gargalhada. - Agora só falta pensar no que se há-de servir para o lanche. Como sabes a minha Mãe não tem prática dessas coisasna cabeça dela o que mais importa é o voluntariado. Não que eu tenha alguma coisa contra, nem pensar; mas às vezes até parece que para ela são mais importantes as pessoas a quem presta apoio do que eu ou o meu Pai… murmurou Nanda

- Não penses assim, querida. A tua Mãe é uma excelente pessoa, bondosa como poucas. É só olhar para as pessoas que ela visita, pessoas de condição muito baixa, verdadeiramente necessitadas. Algumas amigas da minha Mãe enchem a boca com essa cena do voluntariado, e vais ver quem elas visitam…  A tal da pobreza envergonhada, pessoas que já estiveram muito bem na vida e agora estão na mó de baixo… Mas diz-lhes para irem dar apoio a pessoas de condição mais humilde e logo vês a resposta que te dão – “não têm tempo”, “já visitam muita gente”, “não podem chegar a todo o lado”…
Digo-te, honestamente, gosto muito mais da acção da tua Mãe. – rematou Bela
- Eu sei, eu sei, só que às vezes nós sentimos um pouco a falta dela, entendes?
Bom, mas nós não viemos aqui para falar das boas acções das nossas Mães, certo? Então, continuemos…
- Claro! - Apressou-se Bela a concordar.
– Tu já sabes que podes contar comigo para tudo. Portanto, com o lanche não te preocupes. Entre nós todas, e com a ajuda da criada lá de casa (tu sabes que ela te adora…) não vai haver problemas.  Depois é só conseguir que o dono da discoteca reserve um espaço para nós. Afinal, ainda somos bastantes… talvez uns vinte, não?
- Ah, sim, à volta disso. Entre colegas e amigos lá da rua… deve ser mais ou menos esse número. A propósito, não me posso esquecer do Tó Zé, ainda não lhe falei no assunto… Sabes o que eu gostava mesmo? É que fosse num bar de praia… mas não sei se vamos conseguir…
- Vais ver que sim. Lembra-te que ainda faltam três meses, portanto temos tempo bastante para tratar do assunto. E talvez até seja mais fácil do que um espaço reservado numa discoteca… E… muito mais giro! Só pensar em estar a ouvir o barulho das ondas já me faz gostar da ideia. E depois… são os teus 18 anos, tem de correr tudo muito bem! – disse Bela, em tom confiante.
- É uma data histórica – riu Nanda. É já o princípio da maioridade.
E riram ambas alegremente.
Terminado o almoço combinaram encontrar-se brevemente e separaram-se com um apertado abraço.
A caminho de casa Nanda não parava de pensar no desconhecido com quem se cruzara.
“Que lindos olhos ele tem! Aliás… todo ele tem boa figura; mas os olhos chamam logo a atenção. Será que ele vai telefonar? O mais certo é que não o faça. Afinal, foi apenas um simples encontro… Um encontrão, melhor dizendo…Para além da “agressão física” - sorriu a este pensamento - nada mais houve digno de registo…”
Chegando a casa, depois de pôr a Mãe ao corrente do que tinha combinada com a Bela, foi agarrar-se aos livros. O fim do ano estava à porta e não queria dar à Mãe o menor motivo para que ela pusesse entraves à sua festa de aniversário.
Porém, não conseguia concentrar-se. O desconhecido de olhos azuis interpunha-se aos estudos, levando-a a olhar constantemente para o telemóvel, que se mantinha mudo.
Às cinco horas e cinco minutos Nanda deu um salto na cadeira ao ouvir o toque que já tinha desesperado de escutar.
Ficou paralisada, a olhar para o aparelho sem se mover, ouvindo-o tocar. Passados uns momentos o toque parou. Pouco depois tocou de novo.
Nanda olhou para o visor onde estava a indicação de “número desconhecido”. Pensou:
“Será ele? Ou algum daqueles chatos a fazer publicidade que não interessa a ninguém?”
Decidiu atender. O seu coração teve um sobressalto quando reconheceu a voz do desconhecido dessa manhã.
- Alô! – ouviu do outro lado. Como estás, cara mia?
Nanda ficou tão emocionada que nem conseguia falar. Afinal, ele tinha ligado…


Maria Caiano Azevedo 

sábado, 1 de junho de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS X


SEGREDOS – CAPÍTULO X



SEGREDOS – CAPÍTULO X

CAPÍTULO IX
“…Mas enfim, ela lá terá tido as suas razões para guardar segredo.
E… quem é que não guarda algum segredo da sua vida qua não revela a ninguém? Infelizmente sei-o bem, por experiência própria…”
Ruminando estes pensamentos acercou-se do prédio onde morava. O Tejo, pressentindo-a, começou logo a raspar o chão por detrás da porta… “

CAPÍTULO X
Nanda teve alguma dificuldade em abrir a porta tal era a ansiedade do Tejo do lado de dentro. Quando por fim conseguiu entrar quase era derrubada por ele. À manifestação de alegria juntava-se a necessidade de ir aliviar a bexiga; Nanda não perdeu tempo – foi de imediato buscar a trela e saiu rapidamente.
Tejo conhece perfeitamente o caminho para o parque. A pressa de lá chegar leva-o a quase arrastar Nanda, tal é a força que exerce sobre a trela. Não há como resistir. O melhor é deixar-se levar…
A verdade é que o pobre cão estava tão aflito que, mal se apanhou na rua, alçou a perna no arbusto mais próximo, não tendo já capacidade vesical para aguentar até à árvore que normalmente regava com os seus fluídos urinários. Agora, aliviado do mais urgente, continua com pressa de chegar ao parque. Ele lá sabe porquê… O seu faro não o engana, e emite-lhe sinais a longa distância.
Arrastada pelo animal, Nanda acabou por quase chocar com a vizinha do 1º.esquerdo, Adelaide, também ela dona de um canídeo, mas do sexo oposto.
A Diana era uma cadelinha que vivia apaixonada pelo Tejo, o qual correspondia, com fidelidade canina, a esse amor.
Feitos os cumprimentos, das donas e principalmente dos seus estimados animais, estes, com encostos de focinhos e outras expressões de afecto, preparavam-se para ir mais longe nas suas manifestações, mas foram severamente interrompidos pelas respectivas donas que, de momento, não estavam com disposição para lhes permitir grandes efusões.
Puxando-os com força pelas trelas conseguiram que se afastassem. Os pobres animais, contrariados, tiveram que obedecer, mas ficaram mirando-se um ao outro, com um ar muito desconsolado e infeliz.
Conversando animadamente Nanda e Adelaide tentam pôr a conversa em dia, pois, apesar de viverem no mesmo prédio há muitos anos, não se encontram com muita frequência.
Adelaide trabalha como recepcionista num consultório médico, das 13 às 21 horas, o que a faz regressar bastante tarde, com a maioria dos vizinhos já recolhidos em suas casas.
Dá-se bem com toda a vizinhança. É uma mulher muito simpática e gentil por natureza, e talvez o facto de ser bombeira voluntária, a faça ser ainda mais atenciosas com toda a gente.
Gosta muito de Nanda e não perde nenhuma oportunidade de conversar com ela. Por isso ficou muito contente quando a viu aparecer no parque “conduzida” pelo Tejo…
Caminhando lado a lado, cada uma com o seu animal firmemente preso pela trela, começam por falar do netinho da Nanda, que esta espera ter junto de si muito em breve.
Afastam-se para o lado para darem passagem a um grupo de crianças pequenas, em idade pré escolar, que seguem duas a duas, precedidas por uma educadora, que leva, segura pela mão, uma mais pequenina. A fila de meninos e meninas termina com a presença de uma outra adulta, que, na retaguarda, presta atenção para que nenhuma se desvie. Parecem um bando de pardais, nos seus bibes coloridos, chapelinhos a condizer, falando alto e rindo alegremente.
Nanda olha-os, extasiada, e comenta:
- Adoro crianças! Não me importaria nada de trabalhar numa Escola Infantil…
- São realmente encantadoras. Eu também gosto muito. – responde Adelaide - Mas não estou a ver a Nanda, com a sua formação escolar, enfiada numa escolinha… Penso que depois de algum tempo sentiria a falta de algo mais desafiante…
- Pois fique sabendo que, quando fiz a Faculdade, ainda hesitei entre “Gestão e Administração”, que foi o que segui, e o “Ensino”. Sempre tive esta paixão, desde muito nova.
- Não fazia a mínima ideia… Sempre a vi como uma mulher de negócios – comentou Adelaide com um sorriso.
- Na vida temos que fazer opções… e eu, para o bem e para o mal, decidi-me pela parte dos negócios. Mas pode haver alguma coisa mais importante do que ver desabrochar a mente de uma criança? – respondeu Nanda, com um ar de encantamento.
- Bem, visto por esse prisma… até parece bastante aliciante… - Adelaide olha para Nanda como se a visse pela primeira vez.
- Pode acreditar que é. Uma criança é um projecto de vida, no qual o professor pode ter - e tem! - uma importância enorme!
- Sim, sem dúvida. Embora eu seja uma leiga no assunto, penso que ao professor cabe a tarefa de moldar esse projecto… - adiantou Adelaide.
- Não concordo, minha amiga. Isso seria muito fácil. Já Bernard Shaw, que faleceu em 1950, com 94 anos de idade, deixou escrito: - O mais vil deformador é aquele, que tenta moldar o carácter de uma criança.   
Uma criança é um ser muito importante, ainda em desenvolvimento. Cabe ao professor, não moldar o projecto que a criança representa, mas sim fornecer, a cada uma, todos os meios necessários para que ela própria consiga moldar-se a si mesma, e construir o seu caminho.
- Nanda, minha amiga, isso não me parece nada fácil…
- Não, não é fácil, mas para que a criança possa vir a ser uma pessoa livre, com capacidade para escolher o que quer fazer na vida, que saiba dizer sim e dizer não… é preciso que o professor lhe forneça as ferramentas necessárias. Porque não há duas crianças iguais, não há um molde que sirva a todas… - Nanda falava com um ar sonhador.
- Deixe-me dizer-lhe uma coisa: a Nanda sabe que eu gosto muito de falar consigo, e nunca perco uma oportunidade de o fazer. Mas… hoje, particularmente, estou a adorar ouvi-la. Está a fazer-me ver as coisas duma maneira nova, que me agrada muito. Até parece que estou sentadinha na escola lá da minha aldeia onde passei a infância, e onde a professora era uma senhora que respeitávamos muito – Adelaide ostentava um sorriso de satisfação.
- Fico muito contente por ouvir isso, Adelaide. Antigamente havia pelos professores um respeito muito grande. Hoje as coisas são muito diferentes.
No tempo da minha Mãe, por exemplo – segundo ela me contava – as crianças só iam para a escola quando tinham sete anos. Muito excepcionalmente poderiam ir – se o professor concordasse – quando tinham seis anos, se completassem os sete até ao dia 31 de Dezembro. Aos poucos foi-se encurtando a idade; quando eu fui para a escola primária já o fiz com seis anos; presentemente os encarregados de educação podem requerer a matrícula no primeiro ano, para as crianças que completem os seis anos até ao fim do ano, ou seja, podem entrar para a escola com cinco anos.
Isto parece-me um absurdo. Quando é que as crianças têm tempo para ser crianças? Aliás, elas vão para os infantários quase que acabadas de nascer…
Eu percebo que a vida que se vive actualmente exige que os dois pais trabalhem para sustentar a casa. Isso reverte em desfavor dos filhos que não podem ter, da parte dos pais, o acompanhamento que tão necessário é, especialmente durante o período de formação das crianças. Essa tarefa, tão importante, e que deveria ser exercida pelos pais – volto a frisar – é relegada para os professores. Estes, por sua vez, não têm, normalmente, condições para ensinar, educar, e formar. Turmas com um número exagerado de alunos, horários demasiado carregados – tanto para alunos como professores – resultam em completa exaustão para os professores e saturação para os alunos. E, claro, o aproveitamento escolar não é, muitas vezes, o mais desejável.
 Nanda foi interrompida por Adelaide:
- É fantástico o ar sonhador com que a Nanda fala…
- Talvez porque, enquanto lhe enchi a cabeça com tanta conversa – respondeu, sorridente – eu estava a imaginar-me no papel de professora. E, para além de um profissional competente, independentemente da matéria que ensina, o professor tem que ser um sonhador.
- Um sonhador? – estranhou Adelaide
- Sim, A educação sem sonho nunca será satisfatória para nenhum dos intervenientes. A escola, logo de início, é invadida pelos sonhos das crianças, os alunos. E o professor que não saiba acompanhá-los nesses sonhos… jamais será um verdadeiro professor…
Embaladas pela conversa nem se aperceberam que já tinham percorrido a distância entre o parque e a casa onde moravam.  
Despedindo-se, Adelaide subiu para o 1º.andar e Nanda entrou no rés-do-chão, de novo puxada pelo Tejo, desta vez ansioso por matar a sede.
Ainda no hall de entrada pareceu-lhe ouvir a voz do vizinho do 2º.andar esquerdo, o Joaquim, um viúvo dos seus 60 anos, que adora implicar com Adelaide, e até parece estar sempre de tocaia, esperando que ela apareça.
Nanda sorri pensando, como sempre, que ali anda paixão encoberta…
Seguindo o exemplo do Tejo também ela vai saciar a sede e, cansada do longo passeio, sentou-se no sofá da sala, rememorando a conversa que tivera com Adelaide. Como consequência lógica, lembrou-se de Alessandro e das vezes que com trocara impressões sobre o mesmo assunto. Mas isso só aconteceu algum tempo depois de se conhecerem…
***
[Depois do “encontrão” que lhes permitiu o primeiro contacto, Alessandro insistira com Nanda para que fosse jantar com ele…
- Por quem me tomas tu? Achas que eu ia aceitar jantar com uma pessoa que acabei de conhecer, que, além do mais, me ia quase matando?
- Mas que exagerada! Apenas te dei um lieve tocco, e tu já falas em mortos e feridos? Mamma mia! - Alessandro falava com o seu forte sotaque italiano, agora com um misto de espanto e indignação.
- Ligeiro encosto? Tu tens cá uma lata! Imagina tu a deitares-me ao chão com o encontrão que me deste… Eu podia ter caído, e esse teu corpanzil em cima desta frágil criatura… esborrachavas-me, tenho a certeza. – Nanda parecia querer esticar a conversa, sem ela própria entender bem porquê. Alguma coisa a fazia reter naquele lugar…
- Mais um exagero teu- Essa tua fragilidade é só aparente, pois pareces-me uma pessoa até muito forte. – respondeu Alessandro, continuando: Mas não respondeste ao meu convite… Aceitas jantar comigo? Se não quiseres jantar… pode ser almoço. Vá lá! Será uma forma de me redimir de qualquer dano que te possa ter causado.
Nanda não respondeu de imediato. Se a razão lhe dizia que não devia aceitar… qualquer coisa a impulsionava a dizer sim. Para desviar o assunto declarou:
- Eu vou encontrar-me com uma amiga, que foi à Universidade, para irmos almoçar. E ela já se aproxima… portanto, adeus!
- Addio no! Per favore! Acabo de ter uma ideia: Porque não almoçamos os três? – sugeriu, rapidamente, Alessandro.
- Mas tu és sempre assim, tão persistente? Não, não podemos almoçar os três. Tenho assuntos particulares a tratar com a minha amiga.
- Claro! Desculpa o meu atrevimento – disse ele, com ar contrito.      Mas não me afasto de ti enquanto não prometeres jantar comigo – acrescentou, adoptando um ar suplicante.
Nanda sentia grande dificuldade em resistir-lhe. Resolutamente arrancou uma folha do bloco de notas que trazia consigo, e escreveu o seu número de telefone. Entregou-lha, dizendo:
- Telefona-me!
E afastou-se rapidamente, sem olhar para trás, mas pensando: “Será que ele vai telefonar?”
Bela aproximava-se em passo ligeiro, pelo que, em poucos minutos, estavam juntas.
- Tenho todas as informações de que precisamos – disse Bela, depois de se terem abraçado e beijado efusivamente, como era habitual nelas.
- E anotaste tudo para eu ver, espero…
- Não, não anotei nada, e já me esqueci de tudo – respondeu Bela, com uma gargalhada.
- Que engraçadinha! Só não levas já um tabefe porque estou muito bem-disposta…
- Na verdade estás muito sorridente. O que te aconteceu? Ganhaste na lotaria? – perguntou Bela.
- Mais ou menos – respondeu Nanda, com um sorriso de orelha a orelha. Conheci um príncipe encantado…
- E isso aconteceu-te enquanto vinhas ao meu encontro? Não sabia que os príncipes encantados andavam por aí “à fartazana”… Onde foi que o encontraste? – perguntou Bela. Quero ir já a esse sítio para ver se encontro algum para mim…
- Ao virar da esquina. Deu-me um encontrão que quase me derrubou… - informou Nanda, sorridente.
- Imagina se em vez de um príncipe fosse um “ gigante encantado” – comentou Bela, com uma gargalhada.
- Não, não era um gigante, mas era bastante alto. Foi a mais linda visão que já tive… Uns olhos azuis do outro mundo – respondeu Nanda, com um ar sonhador.
- Muito me contas… E, pelos vistos, o senhor Cupido andava pelas redondezas…
- És completamente parva! Achas que o “VER-TE E AMAR-TE FOI OBRA DE UM MOMENTO” liga comigo? – perguntou Nanda.
- Realmente… não é costume… Tu até és muito esquisitinha, bem difícil de contentar … Mas, como para tudo há uma primeira vez, quem sabe se a tua “primeira vez” não é esta? - Bela continuava a rir.
- Vai gozando, que logo ajustamos contas – Nanda aderiu à brincadeira.
Conversando alegremente e caminhando num passo estugado, em breve chegaram ao restaurante. Sentaram-se, fizeram o pedido, e começaram logo a falar do assunto que as levara a almoçar juntas.]
***
O toque do telefone interrompeu os seus pensamentos. Contrariada, Nanda levantou-se e viu, no visor, que a chamada era do Tó Zé. Naquele momento teria preferido continuar a recordar o passado tão distante. Já haviam decorrido 30 anos! Mas na sua memória tudo continuava muito nítido, como se o estivesse vivendo de novo…
Clicou no “atender” e ouviu do outro lado a voz inconfundível do seu ex-marido:
- Por onde anda a flor mais linda do meu jardim, que demorou tanto tempo a atender?
Nanda sentiu um friozinho na barriga ao ouvir aquela voz carregada de mel…

Maria Caiano Azevedo