sábado, 1 de maio de 2021

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XXIX

 SEGREDOS – CAPÍTULO XXIXPENÚLTIMO CAPÍTLO

 
 

SEGREDOS – CAPÍTULO XXVIII

 - Só falei nisto porque não estou a ver-te ficares sem fazer nada, armada em dondoca. Olha, e se tu viesses trabalhar aqui para o centro? Penso que não terias dificuldade em arranjar qualquer coisa, nem que fosse um part-time, apenas para te distraíres.

- Só a ideia de ficar perto de ti já me agrada – respondeu Bela, finalmente com um grande sorriso a iluminar-lhe o rosto.

- Vou pôr-me em campo, a ver se descubro alguma coisa – Nanda esboçou um sorriso misterioso.


 CAPÍTULO XXIX – PENÚLTIMO CAPÍTLO

 Quando, a meio da manhã, o Araújo apareceu na Loja, Nanda perguntou-lhe se tinha alguns planos ou se poderiam almoçar juntos. Ele, embora admirado, já que era a primeira vez que tal acontecia - normalmente era ele que sugeria isso - sentiu-se estranhamente feliz com esse facto. Disse logo que sim. Mas ficou intrigado, e, inexplicavelmente alvoroçado, pensando no motivo que a levara a tomar tal atitude.

Um pouco antes da hora normal da saída o engenheiro apareceu, levando-a para o restaurante.

- É melhor irmos um pouco mais cedo para podermos escolher a mesa à nossa vontade – justificou ele, disfarçando a ansiedade.

Logo que encomendaram o almoço, Nanda, sem mais delongas, foi directa ao assunto.

- Araújo… – gaguejou, sem bem saber como iniciar a conversa.

Notando a sua hesitação, ele incentivou-a:

- Nanda, fale à vontade. Diga tudo o que tem a dizer – encorajou-a, mas um pouco receoso.

- O melhor é pôr as cartas na mesa. O que acontece é que eu ando muito cansada. Ele interrompeu-a, pressentindo o pior:

- Mas qual é a admiração? A Nanda trabalha como uma escrava; nestes anos todos em que está na Ourivesaria nunca tirou férias, apesar de eu tanto ter insistido nisso.

- Não, o problema não está aí. O que acontece, e você sabe melhor que eu, é que o negócio progrediu como ninguém poderia imaginar, e há dias em que eu não tenho mãos a medir – são fornecedores para atender, são as atendedoras constantemente a porem-me dúvidas, é a contabilidade propriamente dita… enfim, há alturas em que eu penso que o dia devia ter 48 horas!

Araújo deixou-a falar sem a interromper, unindo as sobrancelhas com ar de preocupação. Manteve-se uns momentos em silêncio, e por fim disse:

- Sinto-me extremamente culpado por nunca ter pensado nisso! Relativamente ao tempo que passou, nada posso fazer. Mas, daqui em diante, vou obrigá-la a ter férias. Nem que tenha de a impedir, fisicamente, de entrar na Ourivesaria – terminou, com um meio sorriso.

Nanda ficou calada, procurando as palavras para o que lhe queria dizer.

- Não será preciso chegarmos a esse extremo – começou, sorrindo. E nem é bem isso que está em causa. Eu tenho uma ideia melhor. Que tal arranjarmos uma pessoa para me ajudar no dia a dia?

Araújo olhou para ela, pensativo. Interiormente sentiu um enorme alívio – chegou a recear que ela quisesse despedir-se. Depois murmurou:

- É interessante como, tantas vezes, os nossos pensamentos coincidem!

Ela olhou-o, com ar interrogativo.

- Já várias vezes pensei nisso, mas nunca falei no assunto por dois motivos: Primeiro, acho que seria muito difícil arranjar alguém em quem eu pudesse confiar totalmente como acontece consigo – a Nanda sabe que me merece total confiança,  confio em si cegamente. Em segundo lugar, sempre receei que interpretasse isso como uma falta de confiança nas suas capacidades, nas suas qualidades de trabalho, na sua fidelidade – como se estivesse a vigiá-la -  enfim… Sorriu timidamente e rematou a meia voz, como se falasse consigo mesmo:   o mais certo é ser insegurança minha

Nanda respirou fundo, aliviada. Agora já podia avançar com a sua ideia.

- Então, deixe-me dizer-lhe que estou em condições de terminar com todas essas inseguranças. Conheço uma pessoa com as qualidades necessárias para ocupar o lugar. Responsabilizo-me inteiramente por ela.

- Se é assim… nada mais me resta do que aceitar. E eu conheço-a?

- Não, mas vai conhecer. É a minha melhor amiga, quase posso dizer a minha alma gémea.

E Nanda contou, resumidamente, a história de Bela, focando-se, especialmente, no aspecto profissional, nas suas habilitações e competências, e no motivo que a levava a estar desempregada. Não entrou em grandes pormenores, deixando isso para a sua amiga fazer quando e se quisesse.

Araújo ficou agradavelmente convencido, deixando ao critério de Nanda o dia em que Bela lhe seria apresentada.

- Muito brevemente – informou Nanda, dando o assunto por terminado.

 

Na semana seguinte Bela estava sentada ao lado de Nanda, no escritório da Ourivesaria, tomando o primeiro contacto com o trabalho. Nunca, em toda a sua vida profissional, se sentira tão feliz como agora, ao lado da sua melhor amiga.

 

Miguel e Farida regressaram do Algarve onde tinham passado uma semana. Ela vinha encantada com a beleza das inúmeras praias que visitaram.

Os dias voavam. Com Bela no escritório da Ourivesaria Nanda passou a estar lá menos horas, disfrutando a companhia do filho e da nora. Tinha pensado meter férias nestes dias em que eles se encontravam cá, aproveitando o facto de Bela a poder substituir, mas um motivo forte  a levou a protelar a ideia.

Um dia em que os três foram almoçar a um restaurante, a certa altura Miguel, olhando para Farida com um sorriso, disse à mãe:

- Mãezita, temos um presente para ti.

- Um presente? Ainda mais? Achas que vocês não me deram já presentes bastantes? Para além de que, não pode haver presente melhor do que a vossa presença aqui. – estendeu as mãos tocando nos braços de ambos.

- Tu é que és o melhor presente que eu recebi ao nascer – respondeu Miguel, emocionado.

- Vamos deixar-nos de salamaleques, senão ainda me ponho a chorar e estrago a maquilhagem – cortou Nanda.

- Tens razão, Mãezita, vamos ao que interessa – o nosso presente para ti.

E, metendo a mão no bolso do blazer retirou de lá um envelope que entregou à mãe. Farida olhava-os em silêncio, com um sorriso.

Intrigada, Nanda abriu o envelope e de dentro retirou um bilhete de avião para a Bélgica.

Abriu a boca , não querendo acreditar no que via.

- Mas o que é isto? O seu espanto era enorme.

- Não me digas que não sabes o que isso é -  Miguel e Farida olhavam-na,  sorrindo.

- Claro que sei que é um bilhete de avião. Para a Bélgica.  O que não percebo é a que propósito vocês mo estão a oferecer – a incredibilidade dela era autêntica.

- Eu explico, Mãezita. Tu sabes que a Farida está grávida. E também sabes que o seguimento lógico, se tudo correr bem, será nascer um bebé, daqui por uns seis meses.  E, tanto ela como eu queremos – mas queremos mesmo! – que tu assistas ao nascimento do teu segundo neto.

Nanda estava de tal modo comovida que nem se deu ao trabalho de esconder uma lágrima que rolou na sua face. A custo conseguiu dizer:

- Meus queridos filhos, essas palavras são as mais lindas que vocês me disseram desde que cá estão. O gesto de me oferecerem o bilhete foi muito bonito, mas nada me faria mais feliz do que vocês quererem que eu assista ao nascimento do vosso primeiro filho. Tenho de urgentemente falar com o Araújo para tomar as necessárias providências para a minha ausência.

- Faça isso, sim – dirigiu-se-lhe Farida – e resolvam tudo o que houver para resolver. Mas não se esqueça duma coisa: eu recuso-me a dar à luz o seu neto se a Nanda não estiver presente.

Neste ponto Nanda não se conteve. Levantou-se e dirigiu-se à nora, que logo se pôs de pé.  O abraço apertado demonstrava um verdadeiro amor de mãe e filha.

Miguel, também ele bastante comovido, murmurou:

- Então, meninas, não se esqueçam que estão no restaurante. Tenham maneiras! Ora esta!

Separaram-se limpando os olhos disfarçadamente.

Nanda, já recomposta, começou a raciocinar. “Fazendo as contas ao tempo que falta para o parto, e contando com mais duas ou três semanas que eu lá passe depois de o bebé nascer, isso vem a dar uns seis meses…”

Miguel interrompeu-lhe os pensamentos:

- O que tanto pensas, Mãe? Não me digas que te estamos a criar problemas.

- Nada disso, só estava aqui a fazer contas para dizer ao Araújo quanto tempo vou ter de me ausentar. Devem ser aí uns seis meses.

- Eu acho que o melhor é não lhe falares em tempo. Diz-lhe quando vais; quanto a regressares, depois se verá. Penso que é melhor assim, Mãezita, para não ficares amarrada a datas.

 

Na conversa com Araújo Nanda falou-lhe, efectivamente, na data em que queria embarcar – daí a cerca de um mês, sensivelmente. Mas não se referiu ao regresso.

Ele ouviu-a em silêncio, sentindo, antecipadamente, as saudades que iria ter dela. A verdade é que a amava profundamente, mas nunca sentira coragem para se declarar e nem sequer para, com um ou outro gesto, lho dar a entender.

Sendo uma pessoa tão desinibida nos contactos sociais e profissionais, era, no entanto, extremamente tímido em assuntos de amor. Nunca ninguém lhe conhecera uma namorada, nem sequer um simples flirt. E, no entanto, como  homem tão bem sucedido na vida, com boa aparência e com aquela idade, não lhe faltavam pretendentes. Quantas clientes iam à Ourivesaria com o pretexto de comprar qualquer coisa, mas, no fundo, apenas para o verem!?

Este amor por Nanda, verdadeiro mas nunca confessado, era o seu segredo; acompanhá-lo-ia, até ao fim dos seus dias, sem nunca ser revelado.   O único sentimento que demonstrava era uma grande amizade, consolidada ao longo dos anos, e uma enorme cumplicidade, fruto da total concordância entre eles sempre que apreciavam algum negócio.

Nunca imaginou que ela poderia ausentar-se da sua vida por muitos dias, o que era suficiente para viver feliz, conformado e em paz com os seus sentimentos. Agora, perante a ideia de não poder vê-la por bastante tempo – calculava que uma viagem daquelas seria demorada – começava a deixar-se invadir por enorme tristeza.

Manteve-se em silêncio por alguns momentos, o que levou Nanda a supor que ele iria pôr algum entrave à sua ida.

Mas tal não aconteceu. Com um ar muito sério, com o qual pretendia esconder os seus verdadeiros sentimentos, respondeu-lhe:

- Evidentemente que eu acho que a Nanda tem todo o direito a férias. E tem muitos dias  acumulados – esboçou um ligeiro sorriso -  Ainda há pouco tempo falámos sobre isso. O que me preocupa é que, uma viagem dessas não se faz numa semana, e receio que a sua amiga não consiga substituí-la convenientemente – mentiu, ocultando o verdadeiro motivo.

- Quanto a isso não precisa preocupar-se, Araújo. Na empresa do pai, onde ela sempre trabalhou, geria uma secção das de maior responsabilidade, na qual tinha total autonomia. E sei que o pai, pessoa muito exigente em questões de trabalho, nunca teve nada a apontar-lhe. Pode confiar nela como em mim.

- Isso é que não sei se  será possível – respondeu ele, sorrindo. A verdade é que eu confio mais em si do que em mim mesmo.

Nanda deu uma gargalhada, como forma de esconder o embaraço que essa declaração lhe causava, pois detestava ser alvo de elogios.

- E agora, meu querido chefe, se me dá licença vou trabalhar. Este intervalo para um cafezinho está a prolongar-se demais, e arrisco-me a apanhar um raspanete da nova gerente.

Aquele “querido chefe”, caiu como mel no coração de Araújo mas, ao mesmo tempo, deixou-o triste por saber que ela o dizia por simples brincadeira.

 

Rapidamente chegaram ao fim as férias de Miguel. Farida, com três meses e meio de gravidez, estica a barriga para mostrar o seu estado, que ainda mal se nota. Magra como é, tem apenas uma ligeira saliência no ventre, de que ela muito se orgulha.

Giuliana acabou as suas investigações na Torre do Tombo, e aprecia a semana que falta para o regresso para conhecer Lisboa.

Chega a azáfama de fazer as malas. Os visitantes, com o dobro da bagagem que trouxeram, tal foi a vontade de comprar presentes para levar para os amigos;  Nanda,  a encher as malas de roupa porque “três meses não são três dias”. O filho bem lhe diz que, para onde vai, há muitas lojas onde comprar roupas, mas ela responde-lhe sempre que “mais vale prevenir do que remediar”.

Finalmente no aeroporto, cumprem as formalidades de embarque, e umas horas depois desembarcam em Antuérpia. Metem-se numa Van/táxi , que fica a abarrotar, e dirigem-se para a zona da Universidade, onde Miguel e Farida têm um amplo apartamento.

Nanda sente-se como num sonho. Nascida e criada em Lisboa, tudo o que conhecia de “estrangeiro” era Espanha, onde foi várias vezes. Quando os filhos eram pequenos ela e Tó iam, todos os anos, passar duas semanas no sul de Espanha, onde há excelentes praias de águas cálidas. Alugavam “una casa con dos habitaciones” não muito longe do mar e, comendo em casa, conseguiam fazer férias bastante económicas. Quando  os filhos eram crescidos e já podiam ficar sozinhos, iam ambos a Madrid e outras cidades espanholas, fazendo fins de semana prolongados.

“Naquele tempo ainda o Tó Zé não tinha arranjado as galdérias com quem depois se enrolou. Fizemos lindos passeios, diga-se em abono da verdade” - pensava Nanda enquanto passeava, sozinha, pelas ruas da cidade, apreciando a arquitectura das casas, tão diferentes de Lisboa.

Miguel e Farida já haviam regressado ao trabalho. Giuliana, que tinha ainda uma semana de férias, vinha sempre juntar-se a Nanda para almoçar e depois passavam a tarde juntas. Giuliana adorava fazer de cicerone, mostrando-lhe o que considerava mais bonito.

Sentadas, tomando um café e uma água, Nanda ouviu a  sua jovem amiga dizer:

- Quando falei ontem com o meu pai pelo telefone – a Nanda sabe que falo com ele todos os dias -  pedi-lhe para vir passar um tempinho connosco. Gostava muito que o conhecesse.

Ela estava precisamente naquele momento a levar a chávena do café à boca. Engasgou-se de tal modo que parecia asfixiar. Tossiu fortemente, até que um empregado se acercou e, ajudando-a a levantar-se, aplicou-lhe a chamada  manobra de Heimlick. Rapidamente ela se recompôs.

Já a respirar normalmente, limpando as lágrimas que, involuntariamente, escorreram dos seus olhos, sentia o coração a cavalgar-lhe no peito.

“Encontrar-me com Alessandro estava completamente fora dos meus planos” – pensava, excitadíssima.

 

Maria Caiano Azevedo

quinta-feira, 1 de abril de 2021

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XXVIII

 SEGREDOS – CAPÍTULO XXVIII

 

 SEGREDOS – CAPÍTULO XXVII

 “… Miguel tocou à campainha e Sara veio abrir a porta. Ali mesmo lhe apresentou a mãe, após o que se dirigiram à sala, onde se encontravam a Farida, e o amigo, André.

A nora abraçou-a com ternura e voltou-se para lhe apresentar André.

Ao vê-lo Nanda sentiu-se desfalecer. Com uma enorme vertigem só a cadeira onde se apoiou impediu que  tombasse no chão…”

 

CAPÍTULO XXVIII

Aqueles olhos azuis, dum azul tão profundo como nunca vira outros! Perfeitamente iguais aos de Miguel e de Juliana…

Como num flash, rapidamente as imagens perpassam pela mente de Nanda

Alessandro a começar a sua estadia em Portugal passando um tempo no Porto, antes de se mudar para Lisboa, onde continuou o seu trabalho de investigação…  André dado para adopção à nascença… Agora entendia tudo!

Voltou a fitar André, pensando:

- Aqueles olhos azuis que nunca pude esquecer…

Avançando para ela rapidamente, Miguel impediu que Nanda caísse desamparada no chão.

Tentando recompor-se, pediu desculpas pelo incidente que, mais uma vez, atribuiu a uma quebra de tensão.

O filho, verdadeiramente preocupado, declarou:

- Desculpa, Mãe, mas já são quebras de tensão a mais. Tu tens de ser vista por um médico, urgentemente. O André, com certeza, conhece algum de confiança, e na segunda feira vais consultá-lo.

- Meu filho, acredita que a minha saúde está óptima Não preciso de médico nenhum. Para além de que, na segunda feira já temos de estar em Lisboa, eu e a Giuliana. Agora quero é falar com o teu amigo.

E voltando-se para André:

- Eu não queria vir incomodar com a nossa presença, mas o Miguel disse que ficarias aborrecido se fôssemos para um hotel… por isso aqui tens mais duas hóspedes – e dirigiu-lhe um sorriso luminoso.

- Pois o Miguel falou muito acertado! Eu não ia gostar nada de saber que a encantadora mãe do meu melhor amigo ia hospedar-se num hotel tendo aqui uma casa tão grande à sua disposição. – dizendo isto sentou-se junto de Nanda como se a conhecesse de há longo tempo.

- Até o charme e o tom de voz são iguais aos do Alessandro, apesar do seu ligeiro sotaque nortenho – pensou Nanda.

- E agora que as coisas estão esclarecidas vamos ao que interessa. O que é que a senhora quer para o jantar? Carne ou peixe?

- Antes de mais nada, por favor, manda embora a senhora – disse, rindo. Eu sou a Nanda, e é assim que quero que me trates.

- Pois que seja. A senhora que saia e que entre a Nanda! – respondeu André, bem disposto. Mas a empregada está à espera de saber o que fazer para o jantar…

- Queres saber a verdade? Geralmente, o meu jantar são umas torradas com um chá… por isso manda preparar o que os outros preferirem, pode ser?

Miguel interveio:

- Tu não sabes o que aí está, com a mania das dietas. Não pode sentir um grama a mais sobre este lindo corpinho…

- Pois não vejo que haja razão para preocupações. A Nanda tem um corpo perfeito, exactamente como a minha mãe. E olhe que ela só come alface, como eu lhe digo, por brincadeira.

- Ah! A tua mãe também tem cuidado com a alimentação? Pois faz ela muito bem!

- A Nanda nem imagina. Agora os meus pais foram passar um mês ao Algarve – como têm lá um apartamento vão todos os anos. Pois um mês antes de irem a minha mãe andou em dieta rigorosa “para poder caber no biquíni” – dizia ela – e deu uma sonora gargalhada.

Depois, em tom sério:

- A Nanda sabe que eu sou adoptado… o Miguel deve ter-lhe dito…

Nanda tartamudeou, sem saber bem como reagir:

- Sim, tenho uma vaga ideia de ele me ter dito qualquer coisa…

- Eu sempre soube, desde pequenino; os meus pais nunca me esconderam nada. Na verdade são uns pais maravilhosos, não poderiam ser melhores. De tal modo que não tenho, nem nunca tive, curiosidade em saber quem são os meus pais biológicos.

-É muito bom que te sintas assim; é sinal de que te deram muito amor.

- Ah sim, sempre se esforçaram para que eu não sentisse que não era do seu sangue. Vou-lhe dizer uma coisa que a minha mãe me contou e que, sempre que penso nisso, sinto por ela uma ternura indescritível.

Quando eles me receberam eu era um bebé de poucos dias, praticamente recém nascido. Como a Nanda certamente sabe a minha mãe é bióloga, trabalha num laboratório de análises clínicas. Pois ela meteu uma licença sem vencimento de seis meses, para poder estar em casa comigo 24 horas por dia. Durante o primeiro mês da minha vida, a minha mãe passava horas e horas deitada na cama comigo sobre o seu peito, aconchegando-me, como se quisesse fazer-me sentir que eu tinha vindo de dentro dela – parou, visivelmente emocionado.

Nanda não resistiu e segurou entre as suas a mão que ele tinha pousado no sofá, entre ambos. Sentiram como que uma força a uni-los. Depois André continuou:

- Penso que foi esse procedimento que criou entre nós uns laços tão fortes que nem mesmo a morte poderá quebrar. E creio que também contribuiu para que eu não queira outros pais. Os meus pais são os que me criaram e sempre amaram, e ninguém mais os pode substituir.

O momento era muito emotivo. Nanda sentia um nó na garganta, pensando que, na verdade, mãe é aquela que cria e dá amor, e não a que dá à luz. Não gostava de julgar ninguém, mas não pôde impedir-se de imaginar como fora possível a mãe do André abandoná-lo à nascença. Mas, de imediato, corrigiu o seu pensamento: “Quem sabe as razões que a obrigaram a tal procedimento? E a dor que terá sentido? Nanda – ralhou consigo própria – não faças juízos temerários! E, abanando imperceptivelmente a cabeça, procurou afastar esses pensamentos.

Quando se retiraram para os quartos Nanda telefonou a Bela, dando-lhe conta de como decorrera o seu dia. A amiga mostrava-se triste, inconsolável, e inconformada com a decisão do tribunal respeitante a seu pai. As palavras de Nanda para tentar consolá-la de pouco valiam:

- Minha querida, tu tens de compreender que o que o teu pai fez foi muito grave, não podias esperar que ele fosse absolvido.

- Eu sei tudo isso, e nem imaginas como me sinto cada vez que penso nas suas atitudes. Mas… que posso eu fazer? O sangue fala mais alto. E se, por um lado, eu entendo que ele merecia castigo, ao mesmo tempo sinto uma enorme revolta contra a minha mãe, que originou tudo isto.

- Desculpa, minha querida, mas não posso concordar contigo. A tua mãe não tem culpa nenhuma das más acções do teu pai. Mas não penses que não te compreendo… Tu sempre foste a “menina do papá”. Ele adorava-te e tu correspondias-lhe de igual forma. Já com a tua mãe as coisas eram diferentes.

- Concordo. A minha relação com o meu pai sempre foi muito mais forte do que com a minha mãe. Os nossos feitios eram muito diferentes, maneiras de pensar perfeitamente antagónicas, frequentemente entrávamos em conflito. Principalmente quando eu era solteira a vontade dela era soberana, punha e dispunha da minha vida como lhe aprazia. Ao contrário do meu pai, que me satisfazia todas as vontades. Talvez por isso me custe tanto aceitar a condição em que ele agora se encontra.

- Eu entendo-te perfeitamente – respondeu Nanda. Mas não podes esquecer que, até certo ponto, o juiz foi bastante benevolente. Com os crimes de que o teu pai era acusado a sentença podia ser muito pior. Ele teve em atenção a idade e a doença de coração de que o teu pai sofre e que, de um momento para o outro, pode pôr-lhe fim à existência.

- Eu sei, mas já viste o que é passar o resto da vida em prisão domiciliária? E logo o meu pai, que não parava em casa…

- É certo que não vai ser nada agradável, mas pior seria ver-se enfiado numa prisão – Nanda tentava aligeirar o assunto, ao mesmo tempo que não podia evitar sentir que “Deus não dorme”. Rematou:

- Olha, meu amor, vai descansar. Se for preciso toma qualquer coisa para ajudar-te a dormir. Em momentos assim não faz mal um comprimidinho. Dentro de dois dias já estou aí novamente e vamos almoçar juntas. Amo-te!

 

Foram de tal modo bons os dois dias que passaram no Porto que, mal se aperceberam, estava na hora de regressar.

Depois dos habituais abraços e  promessas de que em brave voltariam a ver-se, Nanda e Giuliana puseram-se a caminho, rumo a Lisboa. Na viagem de regresso ambas se sentiam bastante melancólicas, com pouca vontade de voltar à rotina habitual. 

Chegaram a casa bastante tarde já que tinham atrasado ao máximo a saída do Porto. Apetecia-lhes ficar por lá mais tempo, mas o dever chamava-as.

No dia seguinte voltaram à rotina normal: Giuliana à Torre do Tombo e Nanda à ourivesaria.

A meio da manhã Nanda telefonou a Bela. Combinaram almoçar juntas, lá mesmo no centro comercial, para não perderem muito tempo.

Bela foi pontualíssima. Nanda, saindo da loja, abraçou demoradamente a amiga, que se desfez em lágrimas. Desde que o pai tinha recebido a sentença elas ainda não se tinham encontrado.

Encaminharam-se para a zona da restauração e, depois de sentadas e feito o pedido, puderam iniciar a conversa.

- Olha, minha querida, tu tens de reagir. Sei que o momento que atravessas é extremamente doloroso, mas tens de pensar que a vida continua.

O teu pai pôde viver sempre como quis, e a verdade é que tudo lhe correu sempre de feição. A vida nunca lhe foi madrasta. Sempre ganhou muito dinheiro, o que lhe permitiu um nível de vida muito acima da média, proporcionando, tanto a ele como à família, todo o conforto que desejassem.

- Claro que sim. Na nossa casa não faltava nada, a minha mãe nunca soube o que eram dificuldades, nunca precisou de trabalhar, dedicava-se a obras de caridade, no que era acompanhada pela tua mãe, lembras-te?

- Sim, lembro-me muito bem – respondeu Nanda, ao mesmo tempo que pensava que não havia comparação possível entre as mordomias de que gozavam as duas famílias. O pai de Bela era dono de uma empresa muito rentável, e tinha uma fortuna considerável, enquanto o seu próprio pai tinha um excelente ordenado, sim, mas era apenas um funcionário superior de uma grande empresa, e não dono dela. E continuou: Elas eram bastante amigas, e lá faziam a sua caridade.

- Ora, a tua mãe sim, era genuinamente boa e caridosa; a minha andava naquelas andanças só por vaidade – Bela respondeu num tom mordaz.

- Talvez tenhas um bocadinho de razão, mas, no meio em que a tua mãe se movia, todas as senhoras se dedicavam à caridade – e acrescentou, com um sorriso: Pelo menos, aos chás de caridade.

Bela não pode deixar de sorrir com vontade com a observação da amiga, que retratava bem a realidade. Nanda continuou:

- E agora, o que tencionas fazer? Voltas para a empresa?

- Para já meti férias para poder pensar bem no assunto. Mas o mais certo é não voltar para lá, até porque a minha mão tenciona vender tudo. E, agora que está divorciada, quer fazer partilhas e ir viver com a irmã, a minha tia Clotilde, a que vive perto do Porto. Elas sempre se deram muito bem, é natural que queiram viver juntas.

- A mim parece-me uma excelente ideia. E até percebo que te custe voltar a trabalhar na empresa que era do teu pai, agora que ele não está lá. Por outro lado, se a tua mãe fizer as partilhas, tu certamente ficas com dinheiro suficiente para abrires uma empresa…

- De modo algum! – respondeu apressadamente Bela.

- Só falei nisto porque não estou a ver-te ficares sem fazer nada, armada em dondoca. Olha, e se tu viesses trabalhar aqui para o centro? Penso que não terias dificuldade em arranjar qualquer coisa, nem que fosse um part-time, só para te distraíres.

- Só a ideia de ficar perto de ti já me agrada – respondeu Bela, finalmente com um grande sorriso a iluminar-lhe o rosto.

- Vou pôr-me em campo, a ver se descubro alguma coisa – Nanda esboçou um sorriso misterioso.


Maria Caiano Azevedo

segunda-feira, 1 de março de 2021

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XXVII

 Começo por agradecer a todas as pessoas que, durante a minha ausência, gentilmente se interessaram pela minha saúde e apresentaram votos de melhoras.

Agradeço igualmente a quem parabenizou esta minha/vossa “CASA” pela passagem do seu 13º. Aniversário. Infelizmente não pude estar presente, mas a minha querida amiga Líria representou-me (e penso que muito bem) fazendo-me a surpresa de uma postagem nessa data – 14 de Fevereiro.

Peço, por isso, que me permitam agradecer-lhe aqui, publicamente, por todas as provas de grande amizade que me deu nestes tempos complicados por que passei. Obrigada, minha querida amiga irmã!

 

Posto isto… vou partilhar convosco as últimas confidências da Nanda, cuja história se aproxima da recta final.

Quando chegar o FIM – mais 2 ou 3 capítulos – veremos se é também chegado o FIM da CASA DA MARIQUINHAS.  Treze anos é muito tempo e “é preciso dar lugar aos novos”.

VEREMOS!

 

 

SEGREDOS – CAPÍTULO XXVI


  "- Resolvi ligar-te eu porque vou já deitar-me – respondeu Bela, com voz desgostosa. Amanhã tenho de levantar-me cedo. O meu pai vai ser julgado, e eu quero ir ao tribunal.

- Tem calma, meu anjo. O que tiver de ser… será. Nada podes fazer para o evitar. E não te apresentes lá com um ar muito preocupado, para não o afligires ainda mais…

- Vou tentar. Até amanhã, querida. Depois falamos.”

 SEGREDOS – CAPÍTULO XXVII  

 Depois de uma noite reparadora no confortável quarto de hóspedes e de um revigorante duche, Giuliana saiu de casa e foi até à pastelaria tomar o pequeno-almoço. Não quisera servir-se do que havia no frigorífico para não estar a abusar…

De seguida apanhou um táxi e dirigiu-se para a Torre do Tombo onde iria efectuar consultas para a investigação que tinha entre mãos. Pelo caminho ia pensando que precisava informar-se acerca dos autocarros, pois não podia ir e vir todos os dias de táxi. A mesada que o pai lhe dava era razoável, mas não podia pôr-se a gastar “à grande e à francesa”, senão num instante ficava arruinada.

Tinha combinado com Nanda encontrarem-se ao meio dia para almoçarem juntas. Esta primeira manhã não iria render-lhe muito nas averiguações já que se levantara mais tarde do que lhe era habitual; mas o seu corpo tinha reclamado descanso, e ela fizera-lhe a vontade.

À hora aprazada chegou à ourivesaria. Cumprimentaram-se com um sorriso, e foram almoçar.

Trocaram impressões acerca de como tinham decorrido as suas manhãs. No meio da conversa Giuliana gabou o croissant que tinha comido ao pequeno almoço no café perto de casa. Logo Nanda ficou alerta, perguntando se no frigorífico não encontrara nada que lhe agradasse. A resposta da sua recente amiga – “que não quisera abusar” - indignou-a.

- Afinal, somos amigas ou não? Achas que eu ia receber-te em minha casa, quase como uma filha, e não queria que tomasses lá o pequeno almoço?

O tom em que falara e o rosto sombrio assustaram Giuliana.

- Mas, Nanda, eu não fiz por mal, acredite, só que não me senti à vontade para estar a mexer nas suas coisas.

- Pois eu te digo, se não queres que a nossa amizade termine aqui e agora, vais me prometer que não voltas a fazer tal coisa. Tens de te sentir na minha casa como se ela fosse tua – disse em tom mais ameno.

Giuliana não se conteve: levantou-se e, colocando-se atrás da cadeira, deu-lhe um forte abraço. Nanda ficou logo de bom humor.

Continuaram conversando até que a jovem fez referência à gravidez de Farida. Nanda, com ar espantado, respondeu que pensava que esse assunto era segredo, pois fora isso que Miguel lhe dera a entender. E recorda a conversa do dia anterior, que tivera com o filho e a nora:  

“- Mãezita, vamos-te contar um segredo. Porque pensas que viemos cá?

- Então não foi para fazerem o passeio ao Norte?

- Sim, também,  mas viemos essencialmente porque queríamos dar-te a novidade de viva voz.

- Mas…?

- Sim, tu não sabias de nada, claro, como poderias saber?!

- Mas tu…

O olhar de Nanda saltita entre Miguel e Farida.

O seu André, o seu menino, pai?

E fica sem jeito, e fica num sobressalto, e…?

E lança-se ao pescoço do filho. E beija-o, e abraça-o, e chora numa imensa alegria, tal como teria feito há uns anos.

- Então mãe, não é caso para chorar!

Nanda seca as lágrimas, ergue a cabeça, ensaia um sorriso.

Farida assiste, quieta, orgulhosa. E é a sua vez de receber beijos e abraços efusivos da sogra.»

- Sim, Farida não quer que a notícia se espalhe enquanto não completar os três meses – esclareceu a jovem - mas entre nós não há qualquer segredo. Tal como consigo – acrescentou.

De repente, Giuliana teve uma ideia que verbalizou:

- Nanda, estava aqui a pensar que podíamos ir até ao Norte, fazer uma surpresa ao Miguel e à Farida…

- É uma ideia atraente, não digo que não… mas sabes que eu não posso ausentar-me assim sem mais nem menos…

- Sim, eu sei, mas se fôssemos no sábado de madrugada,  conseguíamos passar lá  quase três dias, já que na segunda-feira é feriado… Podíamos regressar só à tardinha, para aproveitarmos bem o dia…

- Pois, mas sábado é dia de trabalho…

- E será que não consegue uma dispensa? Afinal… o seu filho não vem cá todos os dias… merecem estar juntos algum tempo… Que lhe parece?

- Parece-me que tu és um verdadeiro demónio tentador – riu Nanda. Mas acho que tens razão. Vou ver se consigo falar com o engenheiro.

- TEM mesmo de falar! – acrescentou Giuliana em tom firme.

Nanda sorriu, lembrando-se que Alessandro tinha esta mesma expressão quando lhe pedia alguma coisa.

Abanou a cabeça, como que para afastar os pensamentos, e prometeu fazer o que ela lhe pedia.

Claro que para cumprir aquele projecto teriam de ir de carro, não poderiam estar sujeitas a horários de comboios.

Afinal… parece que fora melhor que o Miguel não tivesse levado o carro. Seria isto algum sinal? Ela não era nada supersticiosa, mas ultimamente andavam a acontecer-lhe coisas muito estranhas…

Os dois dias que faltavam para o fim-de-semana passaram a correr, Giuliana nas suas consultas na Torre do Tombo e Nanda preparando-se para a viagem. Teria de levar roupas menos frescas, as temperaturas no Norte eram um pouco mais baixas do que cá e não queria constipar-se. O melhor era fazer uma lista das coisas que precisava levar, não fosse esquecer-se de alguma coisa importante. Andava tão excitada como uma adolescente que vai ter o primeiro encontro.

Finalmente chegou o sábado!

Levantaram-se com o céu ainda escuro, carregaram o carro, e puseram-se a caminho. Como queriam fazer surpresa ao Miguel nada lhe tinham contado dos seus planos, embora tanto ele como Farida lhe ligassem todos os dias pelo telemóvel.

Quando estivessem próximo do Porto então lhe diriam, para saber onde ele estava e combinarem o local de encontro.

Pararam duas vezes pelo caminho para ir à casa de banho e tomar café.

A viagem estava a decorrer muito bem. Apesar de ser sábado, dia em que muitas pessoas aproveitam para passear, como era muito cedo havia pouco trânsito. Assim, pouco depois das dez horas estavam já nos Carvalhos, a cerca de 15 quilómetros do Porto.

Fizeram uma breve paragem, para que Nanda telefonasse a Miguel. Este ficou espantadíssimo, mas também radiante, quando a mãe lhe disse onde ela e Giuliana estavam. De imediato combinaram encontrar-se no Café Magestic, um dos poucos lugares de que ela se lembrava por ter lá estado uma vez com os pais, há muitos anos, numa passagem muito breve pelo Porto.

Meia hora depois já Miguel abraçava calorosamente a mãe e a sua amiga Giuliana. Aproveitaram para tomar mais um café e descansarem um pouco da viagem. Nanda perguntou:

- E onde está a minha querida nora? -  Agora que está grávida, mais querida ainda?

- A Farida ficou a descansar, não se sentia muito bem. Foi até por isso que viemos passar o fim-de-semana aqui no Porto. Na segunda-feira ainda vamos até Amarante e ao Marão, para ela conhecer. Dormimos lá na Pousada e na quarta ou na quinta-feira vamos para baixo, e depois até ao Algarve. O André e a Sara, a mulher, vão connosco. Os pais dele estão lá, têm uma casa em Armação de Pêra.

- Mas há algum problema com a Farida? Ou é só a indisposição normal do seu estado?

- Penso que é apenas isso. Ela não se queixa de nada, a não ser dos enjoos, especialmente de manhã, ao levantar. De qualquer modo achei melhor que fosse vista por uma médica amiga do André, que se prontificou logo a observá-la. Disse que está tudo lindamente.

- Sendo assim… não há motivos para preocupação. Normalmente, ao fim de dois ou três meses os enjoos passam.

- Esperemos que sim. E agora, se já se recompuseram, podemos ir andando, não?

 - Claro que sim, mas, se não te importas, podíamos passar antes por um hotel que não seja muito caro para marcarmos quarto. Até podemos deixar lá as malas…

- Nem pensar – respondeu prontamente Miguel. Trago ordens expressas do André para as levar para casa dele. Dele, é como quem diz, dos pais… pais adoptivos, é claro.

- Ai o Miguel é filho de pais adoptivos? - Perguntaram ambas ao mesmo tempo.

Nanda olhou para Giuliana com um ar interrogativo, e esta esclareceu-a:

- Eu conheci o André há muito pouco tempo, quando ele foi com a mulher lá à Bélgica. Apenas sei que é casado, português… e pouco mais. Mas posso garantir-lhe que é muito simpático. Estive com ele apenas algumas vezes, mas temos muitas afinidades.

Engraçado, agora que penso nisso… é como se o conhecesse há anos!

- Acredito que seja simpático, mas não me parece muito boa ideia irmos para casa duma pessoa que eu não conheço…

- O André não me perdoaria se não vos levasse comigo. Os pais, adoptivos ou não - disse Miguel com um sorriso – estão no Algarve, e a casa é enorme! São pessoas de muito dinheiro que, para seu grande desgosto, nunca puderam ter filhos. Inscreveram-se num desses locais para adopção e tiveram a sorte de lhes “calhar na rifa” um bebé recém-nascido – como diz, por brincadeira, o André.

Foi muita sorte tanto para ele, que é uma pessoa óptima, como para os pais, que realizaram o sonho de ter um filho, demais a mais com poucos dias de vida.

E agora vamos embora, que eles estão à nossa espera. Podemos ir no carro porque a casa tem garagem.

Encaminharam-se para a Avenida da Boavista e, a certa altura, cortaram à direita, na Rua S. João de Brito, estacionando o carro em frente a uma bela mansão.

Miguel saiu rapidamente do carro e, com um sorriso, abriu a porta para a mãe sair, estendendo a mão como que à espera de gorjeta.

Nanda deu-lhe um piparote na cara e os três soltaram uma gargalhada. Foi a forma que ele arranjou para descontrair a mãe, que sabia estar um pouco tensa.

Miguel tocou à campainha e Sara veio abrir a porta. Ali mesmo lhe apresentou a mãe, após o que se dirigiram à sala, onde se encontravam a Farida, e o amigo, André.

A nora abraçou-a com ternura e voltou-se para lhe apresentar André.

Ao vê-lo Nanda sentiu-se desfalecer. Com uma enorme vertigem só a cadeira onde se apoiou impediu que tombasse no chão.

 

Maria Caiano Azevedo

domingo, 14 de fevereiro de 2021

DÉCIMO TERCEIRO ANIVERSÁRIO

Olá. Sou, de novo, a Líria.

A nossa querida Mariazita, que se encontra em franca recuperação (mas é isso mesmo, “em recuperação") ainda não se sente com forças bastantes para tratar do blogue.

Decidi fazer-lhe uma surpresa e lembrar-vos que hoje  A CASA DA MARIQUINHAS completa treze anos. (conto convosco para me defenderem no caso de ela “me dar na cabeça” 😊)

Mas eu não tenho grande jeito para estas coisas – haja em vista o “OLHAI OS LÍRIOS DO MACUÁ” que foi, na sua quase totalidade, gerido pela minha amiga.

Então fui revirar o seu baú e descobri um poema que ela compôs e publicou num outro Aniversário do blogue. Como gosto muito dele transcrevi-o para aqui. Espero que gostem de recordar.

Com a esperança de que no próximo post, no dia 1 de Março, já não me ponham a vista em cima 😊, e a nossa Mariazita já possa estar presente, deixo um beijinho.

Líria

Antes do poema, convido-vos a fazer um brinde a esta “CASA” e à sua progenitora. (Como me encontro no campo, devido à Covid, o brinde é feito no meio ambiente, ao ar livre 😊)


 

SE EU PUDESSE FALAR COM ESTA «CASA»

Se eu pudesse falar com esta «casa»

Há vários anos nascida,

Iria lembrar-lhe os dias,

As horas, e até os meses,

Feitos de alegres momentos,

Também de alguns revezes,

E coragem desmedida,

 

Enganos, desenganos,

Amores e desamores

Juntos amadurecemos.

As ilusões da vida,

Os caminhos que trilhou,

Atrevido, sem temores,

Acompanhei, enternecida.



Começa a sentir cansaço,

Dos anos já nota o peso.

As têmporas embranquecidas,

E o vigor enfraquecido,

Fazem-lhe sentir que os dias

Se revezam com as noites,

Num vaivém enlouquecido.

 

Eis que se aproxima a hora

De o espírito descansar.

Vê, feliz, à sua volta

O grande amor e carinho

Dos que o vêm saudar.

Agradece, retribui,

E, sorrindo, vai sonhar.


Mariazita