A PRÓXIMA POSTAGEM SERÁ NO DIA 16 DE DEZEMBRO
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quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

MOMENTO DE POESIA - AFINAL A VIDA É BELA


 AFINAL, A VIDA É BELA

Dias longos, sem sentido,

Difíceis de preencher.

Este que agora amanhece é mais um,

Igual a tantos outros.

Como dói a solidão!

Quem virá ver-me?

O telefone soará?

 

Sem vontade me levanto.

Forço-me a olhar para o espelho.

Vejo, reflectidos,  uns olhos assustados.

Examino as minhas rugas, uma a uma.

Tanta vida elas encerram!

Umas de felicidade - os sorrisos deixam marcas.

Outras de dor, dos momentos que sofri,

Da vida que não vivi.

Olho agora os meus cabelos,

Com lindos fios de prata.

Há uma saudade que mata,

Duma cabeleira farta,

Longa, brilhante, dourada.

Volto às rugas, curiosa.

Esta aqui, ontem não estava.

É a lembrança vivida

De toda a minha vivência.

 

Mais eis que um raio de sol

Atravessa, risonho, a vidraça da janela.

Beija-me o rosto,

Aquece-me o coração.

 

Afinal,

As minhas rugas são lindas,

As rugas da minha vida!

Memórias marcadas no meu rosto.

Sacudo os ombros.

Tomo café,

Visto um fato de treino.

Coloco a máscara no rosto,

E, por baixo,

Um mal disfarçado sorriso.

Saio para a rua, o sol brilha!

Caminho, quase saltitante.

E os ténis, confortáveis,

Pisando as pedras da calçada,

Dizem-me baixinho:

VAI EM FRENTE! A VIDA É BELA!

 

Maria Caiano Azevedo




segunda-feira, 1 de novembro de 2021

UM CONTO - MATILDE

 

MATILDE
OU
DAS MATERIALIDADES DA LITERATURA

 Entrou no escritório, fechando a porta atrás de si.

Dirigiu-se à secretária, estrategicamente colocada junto a uma das duas janelas, sentou-se e, com o olhar, varreu todo o espaço. Deu um leve suspiro, de satisfação. Sentia-se ali muito bem.

Romualdo Benevides não era um escritor famoso, mas tinha uma vasta obra publicada, e era reconhecido em todos os meios literários. Recebera alguns prémios, que guardava numa das estantes do escritório. Além dos romances escrevia também muitos artigos para vários jornais com quem colaborava. Tinha o tempo bastante preenchido.

Adquirira o hábito de ir imprimindo os seus escritos e, nas folhas , fazer as correcções que entendia. Não gostava de escrever em papel - sentia bastante dificuldade em que as ideias afluíssem ao seu pensamento.  Fazia-o no teclado do computador e, à medida que ia escrevendo, ia revendo. As últimas páginas escritas num dia deixava-as sempre para ver no dia seguinte. Era, de resto, a primeira coisa que fazia quando, de manhã, se sentava à secretária.

Naquele dia sentia-se particularmente bem. Foi, pois, com toda a boa disposição, que pegou nas folhas escritas, endireitando-as com calma; e, recostando-se na cadeira, preparava-se para começar a ler quando ouviu uma voz muito suave, dizer:

- Olá, Romualdo. Como te sentes hoje?

Admirado, olhou para a porta, na expectativa  de ver quem tinha entrado. Não estava lá ninguém, e aquela mantinha-se fechada. Intrigado, olhou em todas as direcções, mas não havia ninguém no aposento além dele mesmo.

- Certamente foi alguém a falar lá fora e eu fiz confusão… -  pensou.

De novo, a voz:

- Então? Não queres falar comigo? Estás aborrecido? Pareceu-me que estavas muito bem disposto…

Havia qualquer coisa naquela voz tão suave que lhe parecia familiar.

Assombrado, atreveu-se a perguntar:

- Mas… quem és tu?

- Quem sou eu? Então não me reconheces? Tu, que me deste a vida, não sabes quem eu sou?

Completamente aturdido olhou de novo em redor, confirmando que se encontrava sozinho.

- Uma filha? – pensou. Se eu é que lhe dei vida… só pode ser minha filha. Mas eu nunca soube que tinha filhos…

Romualdo Benevides era um homem de meia estatura, boa aparência, que rondava os cinquenta anos. Solteirão inveterado, eram inúmeros os namoricos que lhe atribuíam – geralmente com fundamento. Mas nunca quisera nenhum compromisso sério.

Dedicado ao seu trabalho, muito organizado em tudo o que fazia, vivia sozinho na velha casa que fora de seus pais, há alguns anos falecidos, e onde ele próprio nascera, fora criado, e sempre vivera, excepto nos anos que passara em Coimbra, onde fizera o doutoramento em Materialidades da Literatura.

Apesar de ser uma pessoa com uma mente muito sã e aberta, naquele momento sentia-se alucinado. Só assim se justificava estar a ouvir aquela voz – que, insistia, lhe era vagamente familiar – e, para cúmulo, responder-lhe, estabelecendo assim comunicação com “o invisível”.

Decidido a ver até onde ia a sua loucura, murmurou:

- Se eu te dei vida, significa que sou teu pai…

- Pode-se dizer que sim, em certo sentido.

Resolveu ir mais longe. Tinha de esclarecer aquele mistério, desse por onde desse.

- Mas onde te meteste, que não te vejo?

- Estou nas tuas mãos. Não me sentes?

A medo, olhou para as folhas de papel que escrevera no dia anterior. Tremiam. As folhas e as mãos

- Mas eu enlouqueci! – pensou, quando ouviu baterem à porta do escritório. Depois de ter dito – Entre! – viu assomar a cabeça da criada, Ludovina.

- Desculpe, senhor Doutor, era só para avisar que a senhora dona Elisa já chegou.

- Tão cedo? – admirou-se.  E só quando a criada lhe lembrou que já passava do meio dia, o que ele confirmou no relógio de pêndulo, é que tomou consciência de que passara toda a manhã em “devaneios”, não corrigira o trabalho do dia anterior, e muito menos escrevera uma única linha no seu romance.

Colocou as folhas em cima da secretária, com todo o cuidado, como se de um ser vivo se tratasse. Levantando-se quase com reverência, dirigiu-se à porta e dali à sala, onde dona Elisa o aguardava.

- Bom dia, minha Tia! Peço imensa desculpa de não estar aqui a aguardá-la, como é habitual, mas distraí-me completamente e nem dei pelo tempo passar – dizendo isto dava um caloroso abraço à senhora, elegantemente vestida, que o aguardava.

- Meu querido sobrinho – disse, retribuindo o abraço - não precisas de te desculpar. De resto, foram apenas uns minutinhos. A verdade é que nunca te vi tão entusiasmado com um romance como com este que agora estás escrevendo.

- Tem toda a razão, Tia. Este novo livro está a prender-me como nenhum outro.

Entrando na sala a criada interrompeu a conversa:

- Posso servir, senhor doutor?

- Claro que sim, Ludovina. Sirva, por favor.

Terminado o almoço passaram para a saleta onde Ludovina lhes serviu o café e um licor. Deram então início à habitual conversa. Os laços que os uniam eram muito fortes. Filho único de um irmão de dona Elisa, quando este falecera juntamente com a mulher num acidente de automóvel, tia e sobrinho ampararam-se mutuamente, conseguindo assim ultrapassar a profunda  dor da perda.

Ambos apreciavam muito estas  conversas de terça-feira. Levantando-se para se retirar, dona Elisa recomentou, pela milionésima vez:

- Romualdo, meu querido, vou mais uma vez insistir – tens de arranjar uma secretária. Tu trabalhas demais, sempre enfiado naquele escritório. Precisas de uma pessoa que te ajude.

- Obrigado por me lembrar, minha querida Tia. Mas tenho uma surpresa para si: já pus um anúncio e, dentro de muito pouco tempo, devo começar a entrevistar candidatas.

Logo que a tia Elisa se retirou, Romualdo entrou no escritório, dirigindo-se de imediato à secretária. Olhou, meio receoso, para as folhas que de manhã não corrigira e que se encontravam, muito direitas, à esquerda do teclado.

Tinha de continuar a trabalhar. Pressentia que aquele era “o romance da sua vida”. A história estava toda na sua cabeça, era só passá-la para o papel. Mas não podia ser de qualquer maneira, não. Os personagens exigiam-lhe respeito. E como eram exigentes! Parecia que os ouvia reclamar cada vez que aligeirava o tom.

Primeiro como que a medo, depois com ar decidido, segurou as folhas, preparando-se para corrigir qualquer falha que pudesse detectar. Nada aconteceu. Começou a ler, fazendo pequenas correcções. Uma a uma percorreu todas as folhas, sem qualquer incidente.

Pensou:

- Esperavas que acontecesse o quê? Decididamente, de manhã estavas com alucinações. Alguma coisa que comeste ao pequeno almoço…. Tens de falar com a Ludovina e perguntar-lhe quais os temperos que pôs nos ovos mexidos. Pensando bem… tenho a impressão de que o sabor não era o habitual. Alguma erva que comprou na feira provocou-me aquele estado de demência…

Pondo as folhas de parte, começou a escrever. As palavras surgiam escritas antes que ele tivesse tempo de teclar, a uma velocidade vertiginosa. Mal pensava num vocábulo e ele aparecia logo escrito. Quase não conseguia pensar.

Aturdido, parou. As teclas estacaram, de repente.

- Mas o que é isto? O que é que me está a acontecer? Será que eu estou a sonhar? Ah! A Ludovina, hoje, fez de novo ovos mexidos para o pequeno almoço! Ou foi ontem? Mas hoje eu já comi, tenho a certeza. Hoje é hoje, não é ontem. E eram ovos. Não estou a sonhar.

Começou a sentir-se assustado.

– Será melhor falar com um médico? Mas qual? O indicado é um psiquiatra. Mas eu não estou maluco! Tem de haver uma explicação para tudo isto!

Levantou-se, foi até à janela, abriu-a, deixando entrar o ar fresco. Respirou fundo.

- Eu ando é muito stressado com este livro. Preciso acalmar-me e, de certeza, estas fantasias desaparecem.

Fechou a janela e voltou para a secretária. Viu que já tinha bastantes páginas escritas e imprimiu-as. Endireitou-as e recostou-se na cadeira para as corrigir.

Sentia-se receoso e, ao mesmo tempo, expectante. Uma folha, duas folhas, e à terceira, de novo ouviu a voz. Não se assustou, pelo contrário, era como se já soubesse que “a voz” iria fazer-se ouvir.

Olá! Boa tarde – disse ela, alegremente. Já estava a sentir a tua falta. Foste-te embora sem sequer te despedires – acrescentou em tom lastimoso. 

- Boa tarde – respondeu Romualdo, quase que involuntariamente. Sentia que uma força qualquer o impelia a estabelecer ligação com aquela voz tão suave, que continuava a parecer-lhe familiar. – Tenho de  te fazer uma pergunta – continuou.

- Podes perguntar tudo o que quiseres, mas o mais certo é saberes as respostas às tuas perguntas – respondeu com um risinho.

- O que eu quero saber é quem és tu, como te chamas…. Tu começaste por me chamar Romualdo, mas eu não sei o teu nome…

- Como assim? Eu sou a Matilde! Foste tu que me criaste e me baptizaste.

- Matilde? A heroína do meu livro? Bem me parecia que reconhecia a tua voz…

- Caro que tinhas de reconhecer, foste tu que ma deste… Mas sabes? Eu resolvi falar contigo porque não estou a gostar muito do papel que me estás a fazer representar. As minhas atitudes anteriores eram muito mais sensatas. Agora estás a querer que eu seja uma cabeça de vento?

- Não é bem assim… só estou a pôr-te um pouco mais moderna. As meninas muito bem comportadas, como tu eras, já estão fora de moda…

- Pois deixa-me que te diga: se insistires nesse caminho… eu fujo, e nunca mais me vês!

Romualdo sobressaltou-se.

- Como poderei continuar e terminar o meu romance se a personagem principal desaparece?

Olhou ansioso para a folha com quem estivera falando, que se mantinha estática.

- Ainda estás aí, Matilde? – perguntou, a medo.

Não obteve qualquer resposta. A folha, que enquanto falavam se agitava levemente, mantinha-se firme, sem dar qualquer sinal.

O coração disparara-lhe no peito, acelerado. 

- Não me digam que ela se foi mesmo embora! – pensou, angustiado. Não, isso não pode acontecer. Como vou continuar a minha escrita se ela desaparecer? O meu romance já vai muito adiantado para eu agora estar a criar uma nova personagem   . - Matilde! Por favor, não desapareças!

E olhava para a folha, ansioso, esperando qualquer reacção. Mas tal não aconteceu. Ela manteve-se inerte.

Sem saber o que fazer, continuou a virar as páginas, dando-lhes uma rápida vista de olhos, até que houve uma que o fez parar e olhar com mais atenção. Aí estava de novo Matilde, agora conversando com um vizinho que pretendia conquistar. Leu e releu, atentamente, até que a folha começou a agitar-se ligeiramente.

- Matilde, estás aí, não estás? Eu sei que sim! Por favor, fala comigo!

Desta vez a voz não se fez rogada.

- Estou aqui, sim, e já viste que ridícula? Toda dengosa, fazendo olhinhos para o vizinho, que nem sequer me interessa, a não ser para fazer ciúmes ao meu noivo…. Achas isso bonito? Eu não era assim. Estás a transformar-me numa depravada. Não gosto da nova Matilde em que me estás a tornar.

- Desculpa, não pensei que te desagradasse tanto – respondeu ele, em tom pesaroso. Eu volto a pôr-te como tu eras, prometo. Só preciso que me digas que não te vais embora.

Rapidamente rasgou as folhas impressas e, num frenesim, atacou as teclas refazendo completamente a história, na parte que dizia respeito à heroína.

Depois de imprimir a nova versão, pôs-se a olhar para as letras. O que viu agradou-lhe.

Desta vez não foi preciso chamar por Matilde pois ela de imediato se fez ouvir:

- Então, não achas que assim está muito melhor?

- Sim, mas o que interessa é que te agrade.

- Pois, mas para eu ficar completamente feliz… gostava que me levasses contigo quando fores fazer a tua corrida, logo à tarde.

Ele deu uma gargalhada.

- E tu achas que consegues acompanhar a minha pedalada? Duvido…

- Põe-me à prova. Até logo.

E não emitiu nem mais um som.

À tarde terminou o trabalho mais cedo, de tal modo estava ansioso por levar a sua heroína a passear. Meteu as folhas onde figurava o nome dela num dossier e saiu.

Caminhava devagar pois não queria cansá-la. Quando chegaram ao jardim, Matilde, que até ali se mantivera em silêncio, exclamou, extasiada:

- Que bonito! Nunca me falaste nestas coisas tão lindas, com tantas cores! E como são perfumadas!

- São flores. De facto, nunca te falei nelas porque não veio a propósito. O meu romance não é nenhum livro de botânica – riu-se, alto, feliz.

Duas senhoras que passavam olharam para ele de lado, meio desconfiadas. Caiu em si.

- As pessoas vão pensar que sou doido, a falar sozinho. Isto não pode ser assim. Não vou andar aqui a passear sem poder comunicar com ela. Já sei. Vou experimentar só pensar. Afinal, deve ser o que ela faz comigo, porque parece que as outras pessoas não a ouvem.

As horas voaram. Conversaram de tudo o que a espantava. Ele, pacientemente, respondia a todas as suas perguntas. Começava a anoitecer quando ele lhe disse que tinham de regressar – eram quase horas de jantar.

Ludovina já o estava esperando.

- O senhor doutor distraiu-se com as horas – comentou ela, com um sorriso.

- Pois foi, está um tempo tão bonito que apetece caminhar horas a fio! Mas pode servir o jantar. Desculpe tê-la atrasado. Vou só lavar as mãos.

Foi rapidamente ao escritório pousar o dossier, pensando:

- Até amanhã. Dorme bem.

E sorriu feliz, convicto de que ela o ouvira.

Dormiu um sono tranquilo e acordou bem disposto. Não tardou muito a entrar no escritório, mais cedo do que habitualmente.

- Vou já agarrar-me ao trabalho. Ontem acabei por adiantar muito pouco a escrita.

Sentou-se ao computador e começou a teclar a toda a velocidade. Sentia que o dia lhe ia correr muito bem; conseguiria adiantar bastante o seu romance. E, sem se aperceber, passaram duas horas. No escritório reinaria um silêncio absoluto não fosse o som do teclado deslizando sob os seus dedos. Estava completamente imerso no que escrevia.

Interrompeu os seus pensamentos um leve toque na porta, que se entreabriu, deixando ver a cabeça da Ludovina.

- Desculpe, senhor doutor, mas está aqui uma menina que vem para a entrevista do emprego…

- Ah, sim, sim, está na hora.

A jovem manteve-se à entrada da porta, nitidamente à espera de ser convidada a entrar. Romualdo, levantando-se,  olhou na sua direcção e ficou estupefacto. Sem conseguir pronunciar uma palavra, olhava-a, apenas. A jovem era uma cópia perfeita da heroína do seu romance. Com os longos cabelos loiros caídos pelas costas, os olhos azuis esplendorosos, e um meio sorriso que lhe provocava uma covinha na bochecha esquerda… parecia saída do romance do escritor.

Manteve-se imóvel por uns momentos. Vendo que Romualdo não tinha qualquer reacção, atreveu-se a perguntar:

- Posso entrar?

A voz! Era exactamente a mesma voz! Mas como era possível? Forçando-se a reagir, respondeu :

- Claro! Entre, entre! Desculpe, eu estava completamente alheado. Sente-se aqui à minha frente, por favor. Vou começar por preencher esta pequena ficha com alguns dados seus. Diga-me o seu nome…

- Matilde, senhor.

 

 Romualdo Benevides nunca publicou este seu romance. Mandou fazer apenas um exemplar, encadernado em pele, que guardava, religiosamente fechado à chave, numa das estantes do seu escritório. Às vezes retirava-o do seu lugar e segurava-o entre as mãos como se de uma relíquia se tratasse, afagando-o suavemente, com um sorriso misterioso.

FIM

Maria Caiano Azevedo

  

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

MOMENTO DE POESIA - AMAR O AMOR

 


AMAR O AMOR

Eu quero amar o Amor

Fazer dele meu amante

Sentir todo o seu calor

Com um carinho constante


Quero cantar o Amor

Com a voz do rouxinol

Aspirar o seu odor

Num lindo dia de sol

 

Quero elevar o Amor

Ao mais fino dos altares

E entoar com primor

Os seus mais belos cantares

 

Quero fazer ao Amor

Tudo o que ele merece

Exaltá-lo com fervor

Como se fosse uma prece

 

E depois de tanto Amor

A coisa mais importante:

Eu quero amar o Amor

Fazer dele meu amante!

 

Mariazita

03/10/2019

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

UM CONTO - O COLO DA MÃE

                                                 O COLO DA MÃE


 Depois de bem instalado no quarto que lhe havia sido reservado, as roupas meticulosamente guardadas nas gavetas, sentou-se na cadeira com tampo estofado que se encontrava junto à janela.          

Abrindo as portadas dispunha-se a apreciar a vista lá de fora, donde emanava um agradável cheiro a flor de laranjeira. Mas os seus olhos eram irresistivelmente atraídos para a cómoda antiga, em raiz de nogueira, uma madeira rara, que, na sua cor castanho avelã, se destacava na parede branca.

O médico tinha-lhe recomendado repouso absoluto, sob pena de sofrer alguma lesão grave se insistisse no ritmo acelerado em que se transformara a sua vida. Com uma carteira de clientes enorme não tinha tempo para descansar. Para além disso, a recente morte do pai deixara-o profundamente abalado. Não lhe saíam da cabeça as últimas palavras que ele proferira, com dificuldade, mas revelando a urgência de quem está prestes a partir.

- Meu filho, escuta-me com atenção. Há na tua vida um segredo muito importante… Procura uma cómoda antiga… lá na nossa terra…

Um forte ataque de tosse interrompeu a confidência. Alguns minutos depois o pai iniciou a Grande Viagem, sem mais explicações.

Decidiu seguir o conselho do médico – até porque aquela forte dormência o assustara a valer.

A sua ida para aquela aldeia não era inocente, pelo contrário, tinha um propósito muito firme – descobrir algo sobre o passado que o seu pai, com quem mantivera relações frias e distantes ao longo da vida, nunca lhe contara. Só quando sentira o fim aproximar-se, finalmente o resolvera fazer.

Tomou conhecimento de que perto da aldeia onde passara a sua meninice havia uma casa, outrora apalaçada, que recebia hóspedes, poucos, e só com recomendação. Não lhe foi difícil obtê-la, e por isso ali se encontrava.

A D. Augusta informara-o de que o jantar era servido a partir das sete e meia. Tinha tempo para um passeio.

Pôs pelos ombros um blusão leve, pois lembrava-se que na serra o tempo arrefecia mal o sol começava a descer.

Atravessando o laranjal, onde o aroma era intenso, continuou por um estreito caminho ladeado de árvores de fruto até um pequeno portão em ripas de madeira que se encontrava apenas encostado. Ultrapassando-o seguiu por uma estrada de gravilha, no meio de um pinhal, donde descortinava uma paisagem deveras encantadora.

Caminhando lentamente, embrenhado nos seus pensamentos, nem se apercebeu da distância percorrida. Encontrava-se, agora, no início doutra aldeia serrana. Cumprimentando algumas pessoas com quem se cruzava, sem dúvida moradores locais, acabou por avistar os extensos muros brancos de uma enorme propriedade. A cada passo que dava maior era a sensação de que pisava terreno conhecido. Aos poucos surgiam, em pequenos flashes, cenas da sua infância. Quase podia ver que por detrás daqueles muros brancos havia uma casa senhorial onde ele brincara muitas vezes.

Metendo conversa com uma velhota que estava sentada à porta de casa fazendo festas ao cão, perguntou-lhe

a quem pertencia aquela propriedade. A mulher respondeu:

- O senhor está a falar da Quinta do Freixo? Há muitos anos que a casa está fechada, e os terrenos arrendados. Ali moraram, desde sempre, os fidalgos. A última pessoa que lá viveu, que também já morreu há muito tempo, não sei o nome dela; só sei que era conhecida pela “fidalga da Quinta do Freixo”. Agora os herdeiros vêm aí às vezes, mas é raro. Falam com o caseiro, fazem as contas e lá vão eles à sua vida!

Agradecendo à simpática velhota toda a informação, o Sr. Dr. sentiu, de repente, uma vontade urgente de regressar. Fazendo o caminho inverso, desta vez em passo acelerado, em pouco tempo chegou ao seu quarto.

Sentando-se de novo na cadeira junto à janela, pôs-se a observar, atentamente, a cómoda que tanto o atraíra à chegada. Com o pensamento “transportou-a” para a Quinta do Freixo onde – agora tinha a certeza – passara muitos dias da sua meninice. As recordações começavam a fluir em catadupa. “Aquela” cómoda estava no quarto de hóspedes, onde a sua mãe por vezes dormia. O seu pai era motorista do fidalgo e, quando havia festas que envolviam grandes jantaradas, ele tinha de ir levar alguns convidados a suas casas, às vezes até ao Porto; e a sua mãe ficava no solar até mais tarde para ajudar a arrumar as louças e a prataria – que a senhora fidalga não confiava nas criadas para fazerem esse trabalho, pois podiam partir alguma peça. Era nessas noites que a sua mãe dormia no tal quarto de hóspedes.

Pensando em tudo isto não conseguia despregar os olhos da cómoda. Cada vez sentia mais a certeza de que aquela era a “cómoda” de que o pai lhe falara. Precisava de a abrir. Ali estavam guardados pormenores acerca do seu passado – cada vez lhe restavam menos dúvidas.

Levantou-se e acercou-se dela, examinando-a com a maior atenção. Tentou abrir as gavetas mas depressa se convenceu que não seria possível, a não ser que usasse alguma ferramenta; mas corria o risco de a danificar…

A D. Augusta dissera-lhe que não sabia das chaves, portanto não valia a pena pedir-lhas.

De repente surgiu-lhe uma ideia:

- Já sei, vou propor à senhora que ma venda, e depois, em casa, chamo um carpinteiro para a abrir com todo o cuidado. Claro que tenho de contar com o espanto dela; vai, por certo, ficar surpreendida… E também tenho de pensar na hipótese de ela não querer vender…

Uma pequena mancha na perna do móvel, junto ao chão, despertou-lhe a atenção. Baixou-se para a examinar mas os seus olhos já não tinham a acuidade visual de outrora. Intrigado pôs-se de joelhos, baixando a cabeça quase até ao soalho. Foi quando os seus olhos foram atraídos para qualquer coisa que sobressaía do fundo da gaveta. Estendeu a mão e, com uma leve pressão, soltou o que verificou tratar-se de um envelope amarelecido pelo tempo.

Com a maior excitação abriu-o retirando de dentro um documento. Tratava-se de uma certidão de nascimento onde constava o seu nome, seguido dos nomes dos pais:

“Idalina de Jesus Silva” e “Don Francisco Sebastião de Saldanha, Conde de Alpedrinha”.

Abriu a boca de espanto!

Então ele, um brilhante advogado que tivera de vencer, “a pulso”, as maiores dificuldades para atingir o seu actual estatuto, era herdeiro da Quinta do Freixo!

E aquela cómoda era o espírito da sua Mãe!

Sem saber bem o que fazia, abraçou-a, depositou um beijo no seu tampo de mármore, e exclamou, em altos brados:

- D. Augusta! Eu quero esta cómoda!

Baixinho, murmurou: Preciso do colo da minha mãe.


 Maria Caiano Azevedo

1º. Prémio - “PROSA”

USFCR /ARPE – JOGOS FLORAIS IV - TORRES VEDRAS