quinta-feira, 1 de outubro de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XXIV

SEGREDOS – CAPÍTULO XXIII

“… E, a pensar no Miguel e em como deveria estar prestes a vir de férias, tranquilamente entregou-se aos braços de Morfeu.

Uma ou duas horas mais tarde, quem passasse por perto ouviria o respirar profundo do prédio adormecido…”

 

SEGREDOS – CAPÍTULO XXIV

Domingo é o dia dedicado à família em que vai almoçar com o Luís, a Catarina e o netinho. Às vezes, bastantes, Tó zé junta-se-lhes, levando sempre uma apetitosa sobremesa.

Passa a manhã levando o Tejo a passear – o que só faz aos fins de semana, e lhe dá um enorme prazer – e depois entretém-se a arrumar pequenas coisas que não deixa ao cuidado da empregada, enquanto ouve música suave que lhe transmite uma enorme calma e serenidade.

Ao escolher a roupa para vestir fá-lo com todo o cuidado, pois gosta de se apresentar sempre muito bem arranjada – no fundo, apesar de não o querer reconhecer, ainda quer impressionar o ex-marido.

E assim se passam, habitualmente, as manhãs de Domingo.

Naquele dia, o toque do telefone fê-la sobressaltar-se, embrenhada que estava nos seus pensamentos, antevendo a vinda de férias do filho Miguel.

Com espanto verificou tratar-se de Bela, o que não era usual – normalmente falavam, diariamente, à noite, antes de irem para a cama.

Foi com alguma apreensão que atendeu, e, com angústia, ouviu a amiga soluçar do outro lado da linha. Ficou aflita.

- Minha querida, mas o que é que se passa? Porque estás nesse estado?

Bela soluçava convulsivamente, e Nanda não conseguia perceber nada do que ela dizia, entre os soluços. Passaram-lhe pela cabeça mil e uma coisas, mas tudo suposições sem qualquer fundamento. Ainda no dia anterior tinham falado pelo telefone e estava tudo bem…

A custo conseguiu, por fim, entender:

- O meu pai… - e o choro não deixava perceber mais nada.

“Será que está doente? Ou pior, terá morrido? Para uma aflição tão grande, só uma coisa desse género…” - pensou

- Mas o teu pai… o quê? Por favor, tenta acalmar-te, doutro modo fico sem saber o que se passa…

Finalmente a voz de Nanda transmitiu-lhe um pouco de calma, e ela conseguiu articular:

- O meu pai foi preso! – e os soluços recomeçaram.

- Meu amor, procura acalmar-te um bocadinho. Eu vou já ter contigo. Só tens de me dar tempo para me arranjar. Em meia hora estou ao pé de ti. Mas, por favor, não fiques nesse estado.

Nanda preparou-se em tempo record e voou para junto da amiga. Encontrou-a irreconhecível, os olhos inchados de tanto chorar, ainda de pijama e sem qualquer make-up… Nanda sentiu uma dor enorme ao vê-la.

Abraçou-a com toda a força e começou a acarinhá-la como se fosse um bebé, fazendo-lhe festas e mimos, e deixando que as suas próprias lágrimas se juntassem às dela.

Sentaram-se no sofá da sala – Bela vivia num apartamento de apenas um quarto, já que, desde que se divorciara, há bastantes anos, nunca mais tivera nenhum relacionamento sério.

Aos poucos os soluços foram rareando e,   sentindo todo o carinho de Nanda, encostou a cabeça ao seu ombro e começou a falar.

- Ai! O meu coração parece que vai rebentar! - queixou-se.

- Tem calma e diz-me o que aconteceu – pediu Nanda.

- Olha, nem sei por onde começar… é tanta coisa!

- Começa pelo princípio, que é o melhor.

- Pois, só que eu nem sei qual é o princípio.

- Vejamos – ponderou Nanda. Tu disseste-me que o teu pai foi preso… certo? Então começa por me dizer os motivos que levaram a essa situação…

- Tu não vais acreditar! A minha mãe apresentou queixa do meu pai porque, segundo ela, ele molestava jovens, raparigas menores, entendes?

Nanda sentiu-se invadida por um turbilhão de sentimentos contraditórios – pena, pelo enorme desgosto da amiga, alegria incontida por se ver justiçada ao fim de tantos anos… em que tanto sofrera em silêncio, sozinha.

Estava como que paralisada, sem saber o que fazer ou dizer. Fazia um esforço sobre humano para não deixar transparecer a verdadeira euforia que começava a invadi-la. Dominando-se, perguntou:

- Mas como é que a tua mãe soube tal coisa? Para conseguir que o teu pai fosse preso deve ter reunido provas muito fortes…

Bela mostrava-se muito mais calma. Percebia-se que o facto de poder falar no assunto a aliviava bastante, pois foi em tom mais contido, que continuou:

- Na verdade, este assunto não é recente. Há muitos anos que a minha mãe sabia que o meu pai tinha casos extra conjugais, mas sempre pensou que seriam aventuras vulgares, com outras mulheres, nunca imaginou que houvesse meninas metidas no assunto. Por isso fingia  ignorar, fazendo por manter a situação aparentemente normal. Ele nunca desconfiou que ela sabia, o que o levou a começar a tornar-se menos cuidadoso. Isso facilitou muito o trabalho do detective que a minha mãe contratou.

- Dizes que a tua mãe há muito tempo tinha conhecimento da situação… E sabes há quantos anos isso já acontecia? – Nanda fez a pergunta a medo, ansiando e ao mesmo tempo receando a resposta.

- Não sei exactamente há quanto tempo, a minha mãe só me disse que o caso não é recente, que ele faz isso há vários anos.

- Ah! Agora estou a lembrar-me duma vez que tu acompanhaste a tua mãe durante meses, e me disseste que eles se tinham desentendido e a tua mãe decidira afastar-se por um tempo… Lembras-te?

- Sim, tenho uma vaga ideia – tartamudeou Bela.

- Pois olha que eu lembro-me muito bem. Foi por isso que não pudeste assistir ao meu casamento. Andavas lá pelo estrangeiro com a tua mãe… – insistiu Nanda.

Bela ficou em silêncio. Por momentos manteve os olhos baixos. Depois retomou a conversa apressadamente, como se não quisesse falar nesse assunto do passado.

Nanda sentiu uma espécie de arrepio – o que já lhe acontecera anteriormente –ao pensar  que a amiga guardava qualquer segredo daquela época, que nunca quisera contar-lhe.

Bela retomara a palavra:

- Mas, como se isto não bastasse, a minha mãe arranjou forma de correr com o meu pai da empresa. Como é sócia, não lhe foi difícil, com a ajuda do advogado, descobrir documentos altamente comprometedores, como contas offshore de que ela não tinha conhecimento… e coisas deste género, pouco claras…        

E agora aqui estou eu, entre os dois, sem saber o que fazer. O meu pai foi detido e vai ser presente ao juiz. O mais certo é não se safar, porque as provas que a minha mãe conseguiu comprometem-no até à raiz dos cabelos.

Sabes? eu não consigo entender como é que o meu pai, uma pessoa tão respeitável, que eu admirava tanto – eu tinha-o num pedestal! - foi capaz de rondar uma escola para aliciar uma miúda, metê-la no carro e levá-la para um desses hotéis que se prestam a este tipo de encontros. E o pior é que ele o fazia com alguma regularidade…

Bolas! Há tantas mulheres profissionais do sexo, porque é que ele havia de se interessar por miúdas menores?

Nanda sentia o coração bater aceleradamente, ao lembrar-se de que também ela fora vítima do assédio desse homem de quem estavam falando, e do qual se livrara apenas com a chegada da empregada. Passados mais de  trinta anos parecia-lhe ainda sentir contra si aquele corpo que a queria dominar, e ao qual ela, uma jovem de apenas quinze anos,  já mal tinha forças para resistir.

Teve de abanar a cabeça com força para expulsar estes pensamentos.

- Infelizmente há muitos homens que têm essa tara – conseguiu responder. Eu lamento aquilo por que estás a passar, minha querida, mas se tentares pôr-te no lugar dessas miúdas, vais ver que passas a encarar o eventual castigo que o teu pai venha a sofrer como uma questão de justiça…

- Eu sei… mas… é o meu pai. Não percebes que custa muito?

- Claro que custa muito! Mas nós temos de ser responsabilizados pelos nossos actos. Se assim não fosse viveríamos num caos – respondeu Nanda, com dureza.

- Eu sei que estás coberta de razão, Nanda, meu amor, mas não me peças para ser racional neste caso. Não hoje, pelo menos. É tudo ainda muito recente…

- Claro, meu anjo, desculpa se te pareço insensível. – e Nanda voltou a acariciar-lhe os cabelos beijando-a no rosto como se quisesse secar as já raras lágrimas.

Mantiveram-se em silêncio por alguns momentos. Foi Nanda que o interrompeu para dizer:

- Sabes o que estou aqui a pensar? É que tu vais almoçar comigo!

- Nem penses nisso! Hoje é o teu “dia da família”. Já foi mau bastante ter-te “alugado” para curtir as minhas mágoas – respondeu Bela com um meio sorriso.

- Tens toda a razão, é o meu “dia de família”. E tu não és da família? Tu és a minha irmã muito querida, que eu amo mais do que se fosses irmã biológica…

Bela abraçou-a com mais força e as lágrimas voltaram a assomar aos seus olhos. Nanda afastou-a docemente e disse, em tom peremptório:

- Vais tomar um belo banho e pôr-te linda como és sempre. Entretanto eu vou a casa para fazer o mesmo… Não queres que eu me apresente para o almoço com este fato de treino que enfiei à pressa para vir ter contigo… É ou não é? Depois passo por cá para te levar.

- Estás a tentar-me… A verdade é que hoje não sinto vontade de ir almoçar com a minha mãe, como é costume. Bem… na verdade costumava almoçar com os dois… - e o seu rosto ensombrou-se de novo.

Nanda levantou-se como que a dar o assunto por encerrado. Dirigindo-se à porta, disse, no tom mais alegre possível:

- Trata de te arranjar! E livra-te de me fazeres esperar!

Logo que se apanhou sentada ao volante sentiu uma vontade enorme de gritar bem alto : “Estou vingada! A justiça de Deus pode demorar mas não falha!”

De repente sentiu-se estranhamente leve, como se uma montanha lhe tivesse saído dos ombros.

O tempo que demorou até chegar a sua casa passou-o a cantarolar. De vez em quando lembrava-se de Bela e do seu enorme desgosto e murmurava: “Perdoa-me, meu amor, mas não posso evitar que esta enorme alegria inunde o meu peito!”

O almoço decorreu alegremente como acontecia sempre que se reuniam. Nani, o netinho, já se sentava à mesa, na sua cadeirinha alta, contribuindo em grande parte para o barulho que se instalava, batendo constantemente com a colher na mesa a reclamar comida. Tudo lhe agradava; mesmo a alimentos desconhecidos não torcia o nariz. Por isso estava forte e bem desenvolvido.

Terminada a refeição Nanda disse a Bela:

- Vamos para minha casa!

Ali chegadas Nanda fez todos os possíveis para evitar o assunto do pai de Bela.

Passaram a tarde falando de tudo, vendo fotos antigas, recordando os tempos em que eram umas jovens cheias de ilusões, depois o casamento da Nanda e o nascimento dos filhos, até que Bela comentou:

- Minha querida, o teu ex ainda continua apaixonado por ti.

Nanda deu uma gargalhada.

- Tu lembras-te de cada coisa! Onde vai essa paixão! Tenho de reconhecer que, durante alguns anos, fomos muito felizes. Depois… ele começou a andar com outras mulheres… e acabámos por nos separar.  Agora somos apenas bons amigos…

- Sim, bons amigos unidos por dois filhos e um neto… Digo-te uma coisa, eu estive a reparar na maneira como ele olha para ti. Ainda há ali muito amor… E, por falar em amor, nunca mais soubeste nada do Alessandro?   

 

Maria Caiano Azevedo  

terça-feira, 1 de setembro de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XXIII

Quase cedia ao impulso de me dar um abraço… mas deteve-se a tempo:
- Há tanto tempo que não te via! Que pena não poder abraçar-te, querida. Não imaginas as saudades que senti, Mariazita!
- Mas que exagerada, minha querida Nanda. Não passou assim tanto tempo como isso…
- Talvez tenhas razão. Mas, sabes? É que gosto muito de falar contigo, desabafar… Diz-me: com quem mais posso fazê-lo? Só contigo! E não ter  contado o resto da festa do Carlos faz-me sentir formigueiros…
E naquele rosto bonito aparece o esplendoroso sorriso!
- Vamos lá então ouvir o resto – respondo, complacente.
*
SEGREDOS - CAPÍTULO XXII

                        

“… Sentiu-se como se estivesse vivendo uma história das “Mil e uma noites”, com uma sedutora odalisca movendo-se lenta e sensualmente à sua frente.
Levantou-se a custo e abraçando Rui, emocionado, puxando-o por um braço em direcção ao quarto, murmurou-lhe ao ouvido:
SEGREDOS – CAPÍTULO XXIII
Ao regressar do trabalho, perto da meia noite,  Diogo verifica, com alguma preocupação, que a sua mulher, Carla, e os gémeos, não se encontram em casa. De repente lembra-se da festa do Carlos e galga os degraus até ao 2º. Andar.
Recebido afavelmente por Carlos, beija a mulher ao mesmo tempo que pergunta pelos filhos.
- Estão na cama do Carlos. Mantiveram-se acordados e  bem dispostos até tarde, mas acabaram sendo vencidos pelo sono – respondeu Carla.
- Ainda bem! Mas agora, querida, se não te importas, é só acabar esta bebida que o Carlos me ofereceu e vamos embora. Estou a morrer de cansaço!
- Nem outra coisa seria de esperar, depois de tantas horas seguidas a trabalhar. Mas vamos embora, sim. Aliás, já estava a preparar-me para o fazer. A Nanda ia ajudar-me com os meninos… -  sorriu para Nanda.
Feitas as despedidas prepararam-se para sair. Nanda foi com eles, assim como Margarida, a amiga mais velha de Carlos, que recusou a oferta dele para a acompanhar.
- Eu já sou grande, não se nota? - disse, com um sorriso. Além disso moro ao virar da esquina. Demoro menos tempo a chegar a casa do que tu a desceres as escadas…
Saíram. Restavam, na festa, Amélia e António, e Lara, a amiga mais nova de Carlos, que nutria por ele uma paixoneta não correspondida.
A festa estava a chegar ao fim. Amélia, contristada por não poder prolongar por mais tempo aquela noite que acabara por se revelar tão agradável, fez o gesto de se levantar, no que foi secundada por António.
- Bom, a festa foi muito agradável, Carlos. Há muito tempo que não passava momentos tão bons. Mas vão sendo horas de me retirar…
- Fico muito feliz por saber que se divertiu, Amélia. Brevemente havemos de pensar noutra reunião.
- Pode contar sempre comigo, Carlos. Até amanhã. – e, baixita como era, esticou-se para dar um beijo ao anfitrião.
- Se me dá licença, Carlos, eu aproveito a boleia – disse António, sorridente – e vou também retirar-me.
Carlos agradeceu a presença dos dois e acabou por ficar a sós com Lara.
- Bem, minha menina, vai buscar o teu casaco para eu te acompanhar a casa. É muito tarde para andares por aí sozinha.
- Por favor, Carlos, é cedíssimo! Estás a pôr-me fora da tua casa? – Lara falava num tom mimado
- Não é nada disso, mas já toda a gente se foi embora …
- Mas eu não sou toda a gente, eu sou a tua amiga especial, ou não?
- Claro que és, mas isso não significa que eu te faça todas as vontadinhas.
Lara, com todo o ardor dos seus 17 anos,  sentia-se completamente apaixonada por Carlos, embora ele nunca tivesse para com ela qualquer gesto que a incentivasse. Apenas nutria por ela uma grande amizade e sentido de protecção, pois que ela vivia sozinha num quarto alugado,  e a família, que ele conhecia, morava na província.
Lara resolveu mudar de táctica:
- Olha, podíamos dar uma arrumadela a esta bagunça e a seguir víamos um filme.
Normalmente, nos dias a seguir às festas a Nanda e a Amélia iam ajudá-lo  a pôr tudo em ordem.
Mas, perante a perspectiva de ter ajuda para arrumar a casa  antes de se deitar, convenceu-o.
- De acordo. Vamos lá então arrumar as coisas e depois vemos um vídeo. Mas aviso-te já de que logo que o filme termine vou levar-te a casa!
- Ok, chefe – brincou Lara. E começou a levar os copos e pratos para a cozinha.
Com o vídeo preparado para arrancar sentou-se no sofá enquanto Carlos foi fazer pipocas, vindo, depois, sentar-se a seu lado.
Começaram a ver o filme. A certa altura ela acariciou o braço de Carlos, murmurando:
- Tens a pele tão macia!
- É próprio da raça negra, não sabias?
- Não, não sabia, mas a tua pele parece veludo…
- Os negros são todos assim. Mas, não te distraias, o filme está numa parte muito emocionante – advertiu-a Carlos.
Quando o filme chegou ao fim ele disse:
- Vou-te levar a casa.
- Para quê? É muito mais simples eu ficar cá… - Lara adoçou a voz.
- Não venhas de novo com essa conversa…
- Porquê? Não gostas de mim? – ela pôs um ar de amuo.
- Já te disse mil vezes o que penso do assunto! Cresce, e quando fores uma mulher adulta, falamos sobre isso – respondeu Carlos, ligeiramente irritado.
Ele tinha muitas amigas jovens, com quem gostava de conviver. Algumas eram menores, tal como Lara, mas a todas respeitava sem o mais leve atrevimento.
Segurando-a por um braço, quase a arrastou para a porta. Desceram as escadas com muito cuidado, até porque alguns degraus, de madeira e com mais de trinta anos, já se ressentiam da idade.
Lara mora relativamente perto pelo que, pouco depois, Carlos voltou. Adormeceu tranquilamente.
Entretanto, quando Amélia e António saíram da casa de Carlos, ele, timidamente, perguntou-lhe se podia acompanhá-la a casa.
Amélia reprimiu uma gargalhada.
- Ó António, até parece que eu moro muito longe! Mas por mim tudo bem, até tenho muito gosto em que me acompanhe. Mas olhe que depois tem de regressar sozinho… - ambos riram , baixinho.
- Um dia destes convido-a para conhecer a minha casa – se a Amélia quiser, evidentemente – apressou-se a acrescentar.
- E porque não? Afinal, somos vizinhos há tantos anos, e mal nos conhecemos – respondeu Amélia.
Vagarosamente, iam descendo as escadas.
Chegados ao patamar, António, olhando-a fixamente,  começou a entoar, a meia voz, no seu belo tom de barítono:
“Amélia dos olhos doces
“Quem é que te trouxe grávida de esperança?
“Um gosto de flor na boca
“Na pele e na roupa, perfumes de França”
Fez uma breve pausa. Acercou-se de Amélia e, segurando-lhe suavemente na mão, continuou:
“ Amélia gaivota, amante, poeta
“Rosa de café
“Amélia gaiata do bairro da lata
“Do Cais do Sodré”
Instintivamente Amélia colocou-lhe um dedo sobre os lábios, murmurando:
- Xiu! Vai acordar o prédio todo!
- Desculpe, mas não consegui resistir, Amélia. Os seus olhos são tão doces que foram eles, por certo, que inspiraram o poeta que produziu tão lindos versos…
- O Joaquim Pessoa, autor desse poema, nunca me viu mais gorda – riu Amélia, baixinho.
Completamente rendida, pensava: “A Nanda tinha razão. É amor, mesmo”.
Numa última resistência, disse, baixinho:
- António, adoro ouvi-lo cantar. Mas aqui, e agora, não é o local. Os vizinhos estão todos a descansar, não podemos acordá-los…
- Por favor, Amélia, não me mande embora; não agora, que sinto que não posso separar-me de si.
- Para isso temos um bom remédio – respondeu ela, afoitamente. E abrindo a porta, segurou-lhe a mão e puxou-o para dentro.
António mal podia acreditar no que lhe estava acontecendo. “Há, apenas, vinte e quatro horas ainda estávamos tentando agredir-nos - no fundo só para chamarmos a atenção um do outro, é certo – e, num repente, a situação altera-se por completo…” “Abençoada festa do Carlos!”
Amélia sugeriu:
- Podemos tratar-nos por tu? Então deixa-me mostrar-te o motivo das tuas questiúnculas…
- Não me recordes como fui estúpido… Eu só queria que reparasses em mim, e fazia-o da maneira mais errada possível, reconheço-o agora – respondeu, em tom contrito.
- Vamos esquecer isso. Vem conhecer o que te servia de pretexto para resmungares – um sorriso luminoso iluminava-lhe a face.
Puxando-o por um braço quase o arrasta para o pequeno estúdio onde dá as suas aulas. Comprimindo-lhe as costas contra o varão, prende-lhe as mãos atrás das costas e murmura, excitada:
- Agora vou ensinar-te a dança do varão! Vais ver como é bonita.
- Vais sequestrar-me? Olha que eu grito! – tentou brincar, enquanto a sua voz reflectia uma excitação incontrolável.
- Podes gritar à vontade. Ninguém sabe que estás aqui. E, para além disso, sei que morres de curiosidade para conhecer esta misteriosa dança – Amélia continuava a comprimi-lo contra o varão.
- Tens toda a razão. Mas, do mesmo modo que não posso cantar, também não podes fazer barulho com danças…
Soltando-se repentinamente das mãos frouxas de Amélia, agarrou-a fortemente pela cintura, murmurando num tom de voz apaixonado:
- Vamos ver quem é que ensina o quê a quem!
Tomou-a nos braços encaminhando-se para o que lhe parecia ser o quarto.
Pára, por segundos, e olhando-a nos olhos, diz, enlevado:
- Para que andámos a perder tanto tempo?

Nanda ajudara Carla a deitar os gémeos nas suas caminhas.
Os amigos agradeceram a ajuda:
- Com eles a dormir a tarefa torna-se um pouco mais complicada. Parece que os corpos ficam mais pesados – comentou Diogo.
- Eles já têm dois anos e alguns meses… - justificou Carla.
- E estão muito bem desenvolvidos, diga-se em abono da verdade. Vão ser uns rapagões, altos como o pai – sorriu Nanda. E imediatamente se calou, meio embaraçada, lembrando-se de que os meninos eram adoptados.
- Não fique assim, minha amiga – apressou-se Carla a tranquilizá-la. Eles sabem que são adoptados. Claro que ainda são muito pequeninos para entenderem isso, mas já se vão habituando à ideia.
- Na minha opinião é o melhor a fazer. Assim, quando forem crescidos, não têm surpresas desagradáveis. – concordou Nanada
Em casa, enquanto se preparava para se deitar, revia os corpinhos dos gémeos a dormir, o que lhe trouxe à memória os seus próprios filhos quando pequeninos.
“O Miguel tinha dois aninhos quando nasceu o Luís. Meu Deus! Como o tempo voa! Parece que foi ontem…
Tenho de reconhecer que, apesar de todas as dificuldades e aflições por que passei, a vida acabou por me compensar, e vivi momentos muito felizes com o Tó Zé. E agora voltaram tempos muito bons com o meu netinho… Quando será que o Miguel contribui para o crescimento da família? “
E, a pensar no Miguel e em como deveria estar prestes a vir de férias, tranquilamente entregou-se aos braços de Morfeu.
Uma ou duas horas mais tarde, quem passasse por perto ouviria o respirar profundo do prédio adormecido.

Maria Caiano Azevedo

sábado, 1 de agosto de 2020

EM TEMPOS DE PANDEMIA

EM TEMPOS DE PANDEMIA

Com pandemia ou sem ela o tempo decorre sem interrupções – os dias sucedem-se um ao outro e os meses seguem-lhe o exemplo.
Toda a gente sabe que, pelo menos em Portugal, o mês de Agosto é considerado como preferencial e/ou obrigatório para férias – vejamos o exemplo dos professores que só podem ter férias nesse mês.
Seguindo esta linha de pensamento… a Nanda resolveu ausentar-se para férias – espero que seguindo as regras de segurança!!!
Como ela me pregou esta partida e não me fez as suas habituais confidências (que eu partilho sempre convosco) tive de me socorrer de… férias. E, como este ano “vou para fora cá dentro”, recorri às do ano passado, que foram maravilhosas.
Vejam se não tenho razão, e tenham BOAS FÉRIAS!


quarta-feira, 1 de julho de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XXII


SEGREDOS – CAPÍTULO XXI
 “… Entretanto já trocara de roupa e, pronta para se deitar, olhou enternecida, como todas as noites fazia, para a foto dos seus dois filhos, bebés, que tinha sobre a cómoda.
Pensou no neto, no seu filho Miguel, nos tempos idos de recém casada, e adormeceu. …”

SEGREDOS – CAPÍTULO XXII
A noite foi agitada. Dormiu mal e pouco, e custou-lhe levantar-se. Só pensava “é só mais um bocadinho…” e ia retardando a hora de sair da cama.
O despertador não parava de tocar. Só lhe apetecia atirá-lo contra a parede. Mas para o fazer teria de movimentar o braço, e nem para isso sentia forças. “Não quero ir trabalhar hoje”- pensou. “Apetece-me ficar em casa, ir para a cozinha fazer um belo petisco, que não faço há tanto tempo, ouvir música, levar o Tejo a passear – também não faço isso há tanto tempo! – apanhar o vento fresco da manhã no rosto, sentir o sol a beijar-me a pele…”
“Mas porque é que aquela imbecil, nos princípios do século passado,  teve a ideia de reivindicar os direitos da mulher, a igualdade… essas tretas todas que nos obrigam a sair da cama quando a vontade é ficar aqui no quentinho? As nossas avós – as avós talvez não… mais as bisavós… -é que tinham sorte! Quais direitos da Mulher quais quê? Passavam o dia a bordar, a trocar receitas de cozinhados com as amigas, a ler bons livros, tratando das flores, educando os filhos… enfim, umas fadas do lar.
E as atenções que recebiam dos homens? “Faça favor de passar, minha senhora” – diziam, segurando a porta, ou  então, afastando a cadeira para elas se sentarem. Ofereciam flores e faziam serenatas à janela.
Que românticos, aqueles tempos!... “
De repente deu um salto na cama, olhou para o relógio e começou a barafustar. “Mas o que é que se passa comigo? A pensar disparates a estas horas da manhã? É certo que dormi muito mal de noite, mas isso não serve de desculpa para ficar na cama a pensar na morte da bezerra! Ora esta! Estou a ficar velha, é o que é. Preciso arranjar um namorado urgentemente, a ver se rejuvenesço…” – e sorriu à ideia.
À medida que se ia preparando para sair ia recuperando o habitual bom humor.
Estava a tomar o iogurte magro com granola quando a empregada chegou, sinal de que começava a estar atrasada. Depois de um cumprimento rápido saiu em passo acelerado, pois detestava chegar atrasada.
À saída encontrou no hall de entrada a sua amiga Carla, a vizinha da frente, que ia ao centro comercial fazer umas compras. Seguiram juntas.
- Então, Carla, está preparada para a festa do Carlos? – perguntou Nanda.
- A festa do Carlos? Não sei a que se refere…
- O Carlos vai dar uma festinha no próximo sábado, e convida sempre todos os vizinhos… A Carla nunca lá foi?
- Não, nunca. Mas não foi por falta de convite – respondeu Carla, rapidamente. As duas últimas festas que ele deu e para as quais me convidou, não pude ir porque, por azar, o meu marido teve de fazer serão. Como a Nanda sabe ele trabalha muito, não só na empresa mas também porque dá uma ajudinha, a nível informático, lá na Polícia. E agora que estão a informatizar tudo… não tem mãos a medir.
- Bem, eu espero que desta vez consiga ir… Mesmo que tenha de ir sozinha, é melhor que nada. Os gémeos já estão crescidinhos, pode levá-los, e, se lhes der o sono, pode pôr as cadeirinhas no quarto do Carlos. Tenho a certeza de que ele não se importa. E a Carla aproveita para se distrair um pouco…
- É tentador… Vou fazer os possíveis por ir.
Chegadas ao centro comercial separam-se. Nanda segue para a Ourivesaria e Carla para as suas compras. Estas excedem a lista que trazia daquilo que precisava, o que acontece frequentemente. Vendo que não é fácil transportar, a pé, todos os sacos, acaba por apanhar um táxi.
 Ao entrar em casa encontra o vizinho do segundo andar esquerdo, Carlos Manuel, que se apressa a ajudá-la com os sacos, saudando-a com um largo sorriso:
- Boa tarde, doutora Carla. Como está a senhora e os seus meninos?
Carla responde-lhe também com um sorriso:
- Eu estou bem, obrigada. E os meninos, traquinas como sempre… E você, bem-disposto, como é habitual…
- É verdade, doutora, é muito raro eu estar mal disposto. A vida tem de ser levada assim, não podemos deixar-nos ir abaixo, nem ter pensamentos negativos. Precisamos de ter muita energia positiva para dar apoio a quem tanto precisa de nós.
- Essa maneira de pensar é muito boa, e o resultado está à vista – o Carlos tem ocupações muito meritórias, exactamente por pôr em prática essa linha de pensamento – comentou Carla, com um misto de admiração e respeito.
- Ora, doutora, eu não faço nada que não me tenham feito a mim, noutras circunstâncias. Mas… deixemos isso de lado. Ainda bem que a encontrei, pois assim evita-me o constrangimento de lhe ir bater à porta – e o seu rosto abriu-se num sorriso luminoso.
- Não estou a ver por que isso possa ser constrangedor, mas parece que assim, cara a cara,  as coisas estão facilitadas…
- É isso, doutora, é que eu queria convidá-la para a festinha que vou dar no próximo sábado…
- Ah! A Nanda já me falou nisso, e a verdade é que fiquei cheia de vontade de ir… O problema são os gémeos.
- Mas não seja por isso. Se lhes der o sono podemos pô-los no meu quarto. Se quiser até pode pô-los na minha cama, que é muito larga, não correm o risco de cair. Então está combinado, conto consigo! E acrescenta, despedindo-se:
- Bom, tenho de ir andando, que o trabalho espera-me. Gostei de a ver, doutora.
- Eu também, Carlos. Tenha um bom resto de dia – e Carla entrou na sua casa, não se esquecendo de agradecer a ajuda que o vizinho lhe prestara com os sacos das compras.
Os dois dias que faltavam para sábado decorreram da forma habitual.
Nesse dia, de manhã, Nanda bateu à porta de Carla.
- Bom dia, Carla. Desculpe mas, quando,  há dias, falámos na festinha do Carlos, esqueci-me de referir um pormenor que, com certeza, a minha amiga desconhece…
- Sim? Pois então diga, Nanda. Os gémeos tinham chegado à porta, com as caritas lambuzadas do pequeno almoço, e olhavam para Nanda com toda a atenção. Já viu isto? Aparecerem assim à porta com estas caras todas sujas? Não têm vergonha, seus safadinhos? – repreendeu a mãe.
Nanda, fazendo-lhes uma festa nas cabecitas, respondeu:
- Com caras sujas ou com caras lavadas são sempre lindos! E acrescentou: Mas o motivo que me trouxe cá, a estas horas da manhã, é um pequeno esclarecimento acerca da festa do Carlos…
- Pois claro! Diga, diga, Nanda.
- Com certeza a amiga não sabe, mas, para estas festas, nós costumamos contribuir com qualquer coisa para petiscar… doce ou salgado, tanto faz. Bebidas é que não, pois dessa parte encarrega-se o Carlos, que tem sempre bebidas alcoólicas e sem álcool.
- Agradeço-lhe imenso ter-me avisado. Com os gémeos em casa não me é muito fácil cozinhar, mas vou ali ao Estrela comprar qualquer coisa…
- Pois, mas não esteja com a preocupação de levar coisa muito… sofisticada… É uma festinha caseira, só com os vizinhos e, normalmente, duas miúdas amigas do Carlos.
No ar reinava um agradável e  pouco usual cheiro a comida em todo o prédio, em que sobressaía o aroma a limão e canela, que se sentia vir por debaixo da porta da casa da Nanda. Ela levava sempre o seu arroz doce, uma especialidade que mais parecia um doce de ovos.
Por volta das sete da tarde todos os vizinhos se encaminharam para a  casa do Carlos, onde já se encontravam as duas amigas dele. Amélia foi das primeiras a chegar, logo seguida de Carla e Nanda, que ajudou a levar os gémeos.
Uma música suave tornava o ambiente muito acolhedor. Dispostas as comidas na mesa da cozinha, juntaram-se todos na sala.
Jorge e Rui estavam sentados em almofadas, no chão, ao lado um do outro, mas tão discretos que ninguém diria que tinham um relacionamento e viviam juntos há tantos anos.
A conversa decorria fluída, e todos participavam dando a sua opinião. As amigas de Carlos é que se mantinham mais caladas, o que era natural pois, sendo as mais novas do grupo, preferiam ouvir os mais velhos. Os gémeos circulavam pela sala, calmamente, confraternizando especialmente com as duas miúdas, Lara, de 17 anos, e Margarida, de 20. No meio da conversa ouve-se o toque da campainha.
Carlos, com um rápido e cúmplice olhar para Nanda, foi abrir a porta.
Como calculavam era António, o vizinho da frente, empunhando uma caixa com um bolo.
Cumprimentou todos com um ligeiro aceno de cabeça e um sorridente. “boa noite!”. Notava-se que se esmerara na roupa que vestia, um estilo ligeiro mas elegante, e ostentava no rosto um sorriso que não lhe era muito usual.
Ao vê-lo, Amélia deu um salto na cadeira. Mas, recompondo-se rapidamente, exclamou, olhando para Nanda:
- Acho que me esqueci de pôr o gelado no frigorífico! Quando fôssemos comê-lo estava líquido - E dirigiu-se apressadamente para a cozinha, tentando esconder o rubor que lhe coloria o rosto.
A festa decorreu animadamente. Depois de saborearem os petiscos na cozinha, Carlos colocou música de dança, e alguns começaram a mostrar as suas habilidades, enquanto outros preferiam continuar a conversar.
Amélia e António tinham decidido “dar uma trégua” e conversavam civilizadamente, sentados lado a lado no sofá. Ambos sorriam um para o outro com frequência, como pôde constatar Nanda, que os espiava pelo canto do olho.
A determinada altura Jorge e Rui pareciam estar a altercar em voz baixa. Carlos, apercebendo-se, aproximou-se e perguntou:
- Está tudo bem?
- Bem, bem, não está – apressou-se a responder Jorge. O Rui está a exagerar na bebida, mas, casmurro como é, não aceita que eu lhe chame a atenção. Vê lá se tem jeito este disparate. Lembrou-se agora que é mais velho do que eu e por isso não tenho o direito de lhe estar a pregar sermões. É o álcool a falar…
- Não vale a pena zangarem-se por tão pouco. Há tantos anos que vocês vivem juntos e nunca ninguém vos viu uma zanga… Não é agora que vão começar, com certeza. Não acredito que escolham a minha festa para o fazerem pela primeira vez…
Tudo isto se passava em tom tão baixo que, com o som da música, ninguém se tinha apercebido.
- De maneira nenhuma, Carlos. Desculpa. O Rui tem razão. Tu sabes que eu não sou de beber demais, mas o dia correu-me tão mal lá no bar que me descontrolei um pouco – Jorge falava em tom pesaroso.
_ Sem problema – respondeu Carlos. Respirem fundo que tudo passa… - colocou a mão no ombro de Jorge, num gesto amistoso.
- Se não te importas… vamos andando – acrescentou Rui. O Jorge teve um dia muito cansativo e precisa de descansar.
- Tudo bem! Vemo-nos amanhã – nem que seja só na escada – riu o anfitrião.
- Levantaram-se das almofadas, fizeram um aceno de despedida a todos os presentes e, com um afável “até amanhã” retiraram-se e desceram as escadas até ao 1º. Andar esquerdo, onde moram.
Rui meteu a chave na fechadura mas teve alguma dificuldade em fazê-la funcionar. Resmungou:
- Há muito tempo que esta fechadura devia ter sido mudada. Parece o portão de uma quinta abandonada. Range por tudo quanto é sítio.
- Não te ponhas p’r’aí com indirectas. A casa é tanto minha como tua. Tens a mania que eu é que tenho de tratar de tudo – defendeu-se Jorge.
- Não é nada disso, não sejas parvo. Mas a verdade é que tu passas muito mais tempo em casa do que eu. “Tás” te a esquecer que tenho de estar às oito no salão? E olha que, quando lá chego, muitas vezes já tenho senhoras à minha espera, pois só gostam que seja eu a penteá-las. E não te esqueças que só saio às sete da tarde… – lamuriou Rui.
- E tu “tás” te a esquecer que eu é que faço tudo cá em casa, é ou não é? – Jorge começava a ficar amuado.
- Ouve lá, e se deixássemos os dois de ser parvos? - Rui aproxima-se de Jorge e abraça-o. Lembras-te que eu te prometi uma surpresa para hoje?
- Lembro, sim, não me esqueci, mas “tava” a ver que já não havia nada p’ra ninguém – respondeu Jorge, em tom magoado.
- E alguma vez eu faltei às minhas promessas? Senta-te aí no sofá, põe-te à vontade, relaxa… e aguarda-me – disse Rui, com ar misterioso.
Foi à cozinha, abriu o frigorífico, tirou uma caixa de bombons e uma garrafa de champanhe. Colocou tudo na mesinha ao lado do sofá e foi ao louceiro buscar dois flutes.
- Sim senhor! – comentou Jorge. Isto promete…
- Ainda não viste nada – e dizendo isto Rui dirigiu-se ao quarto.
Passados alguns minutos entreabriu a porta, murmurando:
- Fecha os olhos e não os abras enquanto eu não mandar – e entrando na sala pôs o CD a tocar baixinho. Colocou-se então em frente do companheiro:
- Já podes abrir os olhos e dizer o que achas…
Jorge obedeceu, mas, mudo de espanto, encantado com a visão que lhe parecia um sonho, não conseguiu pronunciar uma palavra.
Sentiu-se como se estivesse vivendo uma história das “Mil e uma noites”, com uma sedutora odalisca movendo-se lenta e sensualmente à sua frente, causando-lhe sensações inconfessáveis...
Levantou-se a custo e abraçando Rui, emocionado, puxou-o por um braço em direcção ao quarto, murmurando-lhe ao ouvido:
- Vamos comemorar!  



Maria Caiano Azevedo