sábado, 23 de setembro de 2023

DOENÇA

 Queridas amigas e queridos amigos.

Tenho estado MUITO doente, o que me tem mantido afastada de todos os meus contactos.
No dia 29/06 fui operada a um adenocarcinoma (vulgo câncer) do colon ascendente. A cirurgia correu lindamente, de tal modo que o médico tencionava dar-me alta após três ou quatro dias. Mas... surgiu uma grave infecção que obrigou a nova cirurgia 10 dias depois da primeira.
A partir daí foram problemas atrás de problemas, inclusive apanhei uma bactéria multi resistente que provocou um "incidente" que podia rer sido fatal. Mais tarde o médico confessou-me que na altura chegou a pensar que "me tinha perdido" . Eu respondi-lhe: Também eu pensei que tinha chegado o meu fim. Foram momentos de grande aflição.
Não vou alongar-me mais nestes pormenores que me obrigaram a 2 meses de internamento no Hospital Cuf Tejo.
Desde que tive alta tenho feito fisioterapia, mas a recuperação tem sido bastante difícil, pois quando cheguei a casa parecia um bebé, nem sequer “sabia” andar. Agora já consigo caminhar sozinha, apenas apoiada na mão do filho ou da filha. A minha alimentação obedece a uma dieta bastante rigorosa, porque o trânsito intestinal está difícil de controlar. Enfim. com o tempo tudo se há-de resolver.
Quero agradecer a todos o carinho e o apoio manifestados pela minha saúde.
OBRIGADA!
odas as reações:

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Amigas e Amigos

 Minhas queridas e meus queridos amigos

Continuo internada no hospital, onde dei entrada e fui operada pela primeira vez no dia 29.06. Não tenho ainda data prevista para alta, mas nessa altura darei noticias. Pelo telemóvel custa-me muito escrever.

Toda a minha gratidão, meu carinho e meu amor fraternal para todos que me dirigiram apoio. 

Beijinhos

quinta-feira, 27 de abril de 2023

(Foto na Clínica CUF, em 26/04/2023)

 Minhas queridas amigas e meus queridos amigos

Lamento muito mas, durante algum tempo, vou estar ausente deste espaço.

Encontro-me bastante doente, e os próximos tempos vão ser passados entre consultas médicas e exames.

Mas… não desistam de mim, porque EU VOU VOLTAR!

Tudo de bom para todos vós.

Abraço apertado e beijinhos.

PS – Peço desculpa a quem me visitou e eu não agradeci, retribuindo a visita. Já há um certo tempo que não me tenho sentido bem.

Hei-de visitar TODOS, assim espero.

sábado, 1 de abril de 2023

MOMENTO DE POESIA - REENCONTRO

 


REENCONTRO

De repente surgiu o desejo,
de te fazer um poema.
Dizer-te, por palavras,
Neste nosso reencontro,
O que um simples olhar
Não teria força para expressar.

Quisera, haver em mim, beleza
Para te dar.
Mas a imagem, pelo espelho reflectida,
Mostra que o tempo passou
E não parou.
E como passou!

Para este nosso reencontro
Insinuaste um sinal,
Temendo estragos que o tempo tenha feito.

“Talvez de flor ao peito”…
Gracejaste, recordando tempos idos,
em que fingíamos ser desconhecidos.

Havia ironia na tua voz,
Brincavas.

Ironia maior a do destino,
Que nas marcas deixadas pelo tempo,
Não guardou espaço para o esquecimento.

 

Mariazita

Maria Caiano Azevedo



quarta-feira, 1 de março de 2023

A CARRANCA MISTERIOSA

 Para quem não sabe, CARRANCA (em Náutica) é a figura ornamental esculpida em madeira, geralmente representando formas femininas ou de animais, com que era decorada a proa dos navios, entre os séculos XVI e XIX.

 

A CARRANCA MISTERIOSA

(Conto fantástico)

Em pleno alto mar, quando havia luar o chamamento era ainda mais forte, a ponto de se tornar irresistível. Corria o ano de 1522.

Naquela noite a lua cintilava excepcionalmente, com uma luz clara e brilhante.

Enrique caminhava cautelosamente, evitando fazer o mínimo ruído. Dirigia-se para a proa da embarcação, onde se encontrava a figura da deusa, senhora dos seus pensamentos.

Esculpida em madeira, integrada na proa da nau, a deusa rebrilhava na escuridão.

Como acontecia todas as noites, ao sentir a aproximação do marinheiro, ela voltou a cabeça, mantendo o corpo firmemente agarrado ao seu suporte de madeira. Sorriu, com o seu ar luminoso.

Ele soergueu-se o mais possível e depositou um beijo nos lábios entreabertos da sua amada.

Com as mãos presas ao poste que a sustinha, a deusa apenas podia oferecer-lhe o rosto que ele, afagando meigamente, cobria de beijos.

Soprava uma leve brisa que fazia ondular docemente as águas do mar, trazendo consigo um agradável cheiro a maresia.

As noites eram passadas num suave enlevo, entre carícias e juras de amor. Só quando a aurora começava a surgir no horizonte é que ele, depois de um prolongado beijo, se retirava tão silenciosamente como chegara. Não podia atrair as atenções dos outros marinheiros e muito menos revelar o seu segredo amoroso.

Esta paixão tinha surgido havia um mês, numa noite em que o marujo, incomodado com o calor, deixara o beliche de madeira sem colchão em que tentava adormecer e se dirigira para o convés, a fim de se refrescar com o ar nocturno e a brisa marítima.

Caminhando ao longo do barco, avistou, à proa, uma sombra que movia a cabeça na sua direcção.

Intrigado, dirigiu-se, cautelosamente, para o local. Foi quando ouviu uma voz sussurrar meigamente o seu nome. Aproximando-se mais confiante, constatou que a deusa esculpida na proa do barco estava movendo a cabeça e olhando-o nos olhos, com um sorriso que lhe iluminava o rosto.

Inicialmente petrificado, como que deslizou para junto dela. Estendeu a mão, tocando-lhe nos cabelos. Completamente subjugado pelo seu encanto, apenas murmurava:

- Minha deusa!

Manteve-se ali a noite toda, embriagado de felicidade.

O dia seguinte foi interminável. Meio adormecido ia desempenhando as suas funções que, por aquela altura, não eram muito trabalhosas. Ansiava pela noite para poder confirmar se o que vivera na noite anterior não passara de um sonho.

Quando anoiteceu e o barco caiu num silêncio profundo, Enrique, com todo o cuidado, levantou-se e dirigiu-se, sem hesitar, à proa, onde a deusa já o esperava.

Trinta noites se passaram sem que de tal se apercebesse.

Estavam os dois enamorados conversando mais uma vez quando começou a levantar-se um vento manso, que em breve se tornou forte, passando a furioso.

Soprava de Barlavento com tal violência que a caravela rodopiava. O balanço era assustador. O barco oscilava de bombordo para estibordo; as ondas, altíssimas, varriam o convés. O comandante andava como louco, dum lado para outro, vociferando ordens, sem saber bem o que fazer, já que a tempestade o apanhara de surpresa.

A acostagem estava fora de questão. Encontravam-se em alto mar, sem qualquer porto à vista. As anteparas ameaçavam ruir de um momento para o outro.

Bastante contrariado o comandante viu-se obrigado a tomar uma medida que se revelou não surtir qualquer efeito – alijar a carga. Nada se mantinha no seu lugar, tudo se movia numa dança frenética, no meio do barulho ensurdecedor da tempestade.

O timoneiro esforçava-se, em vão, por manter o leme firme. A bússola girava em todos os sentidos, descontrolada, semelhando um catavento.

Um balanço mais forte fez o barco inclinar-se todo para estibordo, ao mesmo tempo que ondas alterosas levantavam os marinheiros ao ar, arremessando-os para o mar. No meio das águas fortemente batidas pelo vento, na noite profundamente negra, os homens esbracejavam tentando manter-se à tona de água.

Enrique, passado o atordoamento causado pelo embate das ondas no seu corpo, tentou manter a calma no meio daquele inferno. Cortando as ondas agitadas foi nadando devagar, lutando com todas as forças, na direcção da proa. Uma onda fortíssima fez afundar a frente do barco no preciso momento em que Enrique estava a chegar lá. Mergulhada na água, a deusa, pela primeira vez, desprendeu os braços do poste em que se encontrava presa, puxando para si o marinheiro, levando-o, suspenso no ar, quando a embarcação voltou à posição normal.

Tão inesperadamente como surgira, o vento acalmou, as ondas desapareceram, e o mar entrou em calmaria.

O marinheiro continuava preso à sua amada que, agora com os braços soltos, o apertava carinhosamente contra o peito. Subitamente, um raio de luz fortíssimo desceu do céu, incidindo sobre o corpo da deusa, desprendendo-a do mastro que a aprisionava. Libertos e abraçados, ambos caminharam pela embarcação deserta. Ele segurou firme o leme e o barco desapareceu na noite rumando ao desconhecido.

Momentos depois foram avistados por um barco que navegava em alto mar, cujos marinheiros juraram ter visto, a sobrevoar o barco dos enamorados, um ser alado duma beleza resplandecente, brilhando mais que mil sóis, que os guiava na noite escura.

 Maria Caiano Azevedo

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

15º. ANIVERSÁRIO

 15º. ANIVERSÁRIO

Minhas querida amigas e meus queridos amigos

Como o meu estado de saúde ainda não é famoso, a disposição ressente-se, e a vontade de escrever assim como a própria inspiração… desaparecem.

Mas como o calendário mostra que hoje é o dia 14 de Fevereiro – para além do Dia dos Namorados é dia de Aniversário desta minha/vossa CASA – e eu não preparei nada de especial para esta data…com a vossa permissão vou repor aqui o texto de um dos muitos Aniversários que já por cá passaram.

Obrigada pela vossa compreensão.

 

FESTEJAR OU NÃO FESTEJAR O ANIVERSÁRIO

No meio de todo o stress do dia-a-dia nada mais justo do que festejar o  Aniversário não fazendo nada.

Isso foi o que REALMENTE pensei. Mas… como conseguir isso?

Fácil – ir até à praia e aí esquecer tudo e todos. Levar o computador – afinal o aniversariante, o blogue, está dentro dele – estender a toalha na areia e deitar-me (com ele, computador, ao lado) e simplesmente ignorar o mundo que nos rodeia…

 Mas… nesta altura do ano, no nosso país, a praia é pouco convidativa.

Posta de parte a ideia da praia… que tal ir conhecer uma maravilha da Natureza? As Cataratas do Iguaçu, por exemplo (sempre foi o meu sonho).

Ná… é muito longe, e um dia só não chega para ir e vir, quanto mais para conhecer.

Não fazer nada é tão difícil! Não me ocorre nada sobre como não fazer nada… Ou antes, as ideias que me vêm à cabeça são totalmente impraticáveis.


E, pensando bem,  a verdade é que festejar Aniversário até é bom. É o mesmo que celebrar a própria vida,  além de contribuir para o nosso equilíbrio emocional.

Isto não são palavras vãs. Quantas vezes, ao longo destes onze anos, esta “CASA” me serviu de refúgio, ajudando a pôr em segundo plano preocupações, arrelias, pequenas depressões, situações difíceis que me pareciam insuportáveis…enfim, aborrecimentos com que a vida se encarrega de nos presentear de vez em quando?

Por falar em presentear… tenho que arranjar alguma coisa para dar de presente aos convidados. Eu não vou convidar ninguém, é claro, mas todos nós sabemos como é, aparecem mesmo sem ser convidados! E depois, não ter nada para oferecer… é uma vergonha, convenhamos.

Sabem que mais? Vou já para a cozinha, para não ser apanhada desprevenida. Vejam o que vou preparar…

Aperitivos, salgadinhos,  petit fours, alguma fruta… que sabe sempre bem...


E, para terminar… TCHAM, TCHAM, TCHAM, TCHAM,!

Uma fatia de bolo e… Tchim, tchim… 

Escolham a língua em que mais gostarem de brindar e... brindem comigo!

Saúde! ; Salud! ;  Santé! ;  Cheers! ;  Prost! ;  Proost! ;  Cin Cin! ;  Za Zdorovye! ;   Skål! ;  Şerefe! ;  Yamas! ; Na zdorowie! ;  Kanpai!

(Portugal, Espanha, França, Estados Unidos / Inglaterra, Alemanha, Holanda, Itália, Rússia, Dinamarca/ Noruega / Suíça, Turquia, Grécia, Polónia, Japão)

 OBRIGADA A TODA/OS PELA VOSSA PRESENÇA! 

domingo, 29 de janeiro de 2023

MOMENTO DE POESIA - E DEPOIS DO AMOR

 

E DEPOIS DO AMOR

 De mãos dadas

Nos olhámos em silêncio

E sem palavras

Dissemos tudo


Dedos entrelaçados

Bocas unidas

 Corpos frementes

 Viajámos no espaço

 

À nossa volta

A quietude da noite

 

Repousamos agora

Lado a lado

Exaustos

Tranquilos

Ainda unidos.

Para sempre unidos.


Mariazita



Maria Caiano Azevedo 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

FELIZ ANO 2023

 


FELIZ ANO 2023

Eis que se aproximam, a passos rápidos, as doze badaladas da meia-noite do dia 31 de Dezembro de 2022.

No ano que vai nascer unamos as mãos e os corações para pedir, acima de tudo, PAZ. Os tempos que temos vivido têm sido tão conturbados que nos levam a desejá-la mais do que tudo.

“Paz na Terra aos Homens de boa vontade” – Vamos todos orar para que a “boa vontade” surja sem demora nos homens que detêm o poder de modificar o mundo.

Feliz Ano Novo, Feliz 2023!


terça-feira, 20 de dezembro de 2022

É NATAL

 É NATAL

Os problemas particulares relacionados com a minha mudança de casa estão, por agora, em “standby”, devendo manter-se neste estado por mais uns 6 meses, mais ou menos.

E como “um mal nunca vem só” – como diz o povo 😊 – adoeci ,há cerca de três semanas, com alguma gravidade – uma das minhas crónicas infecções pulmonares que, de tão “brava” me levou a partir uma costela, tal a intensidade e violência da tosse. Mas, enfim, o pior já passou, e com mais alguns dias (ou semanas?) estarei completamente recuperada.

Apesar de tudo não poderia deixar passar esta época natalícia sem vir dar-vos um abraço e desejar um santo e muito feliz Natal. E, se não nos “virmos” antes, que o Ano Novo nos traga Paz, acima de tudo e, se possível, alguma prosperidade.

Deixo-vos um conto que escrevi há uns anos, esperando que vos agrade.

O PINHEIRO

- Com tantos anos de vida ainda não consegui perceber porque me apelidaram de “manso”, Pinheiro Manso – murmurou o frondoso Pinheiro, voltando as verdes e finas agulhas na direcção de uma raquítica árvore que se encontrava a pequena distância.

- Ora, porquê! – respondeu a enfezada. Já tivemos esta conversa tantas vezes! Está muito bom de ver. Deram-te esse nome porque não tens a braveza dos teus primos, esses altivos pinheiros-bravos, que não se dão com os baixotes, só querem viver nas alturas…

- Acho essa explicação demasiado simplista…

- Sabes qual é o teu problema? – continuou a enfezadita – é quereres sempre saber a razão de tudo. As coisas são porque são, e pronto. Põe os olhos em mim: és capaz de me dizer porque é que eu sou assim tão raquítica? Não és, pois não? Eu também não sei, e vê lá se me preocupo…

- Xiu! – advertiu o Pinheiro. Aproximam-se pessoas. A conversa tem de ficar para mais logo. Agora cala-te, que eu faço o mesmo.

E ficaram em silêncio.

Um grupo de jovens caminhava alegremente em direcção ao Pinheiro.

Um deles, o mais alto, loiro e de olhos da cor do céu, aparentando ser o líder, abriu os braços ao alto e exclamou:

- Eu não vos dizia? Este Pinheiro não é um espectáculo?

- Sim – responderam em uníssono os outros jovens. Tu és o maior!

- Claro que sou. Por isso sou o chefe. E é como chefe que vos digo:

- Abram os braços, respirem fundo este ar puro, aspirem este delicioso cheiro a pinheiro…

E falando assim ele próprio executava os movimentos que convidava os companheiros a fazerem.

Por breves momentos só se ouvia o seu respirar profundo. Mas logo de seguida recomeçou a algazarra, rindo e falando muito alto, como se todos fossem surdos.

Um dos rapazes tinha levado um “Tablet” e em breve o silêncio da mata se encheu com os sons, em tom altíssimo, de uma canção em voga. A maior parte deles acompanhou a música em altos berros. Até os insectos fugiam espavoridos.

Pouco depois o líder disse:

- E se tratássemos das barriguinhas? a minha já está a roncar…

- Excelente ideia! – responderam em coro.

E todos, rapazes e raparigas, abriram as mochilas e retiraram de lá comida, copos de plástico, garrafas de refrigerantes e até uma toalha de papel, que estenderam cuidadosamente no chão e nela colocaram o lanche.

Sentaram-se todos em círculo debaixo da copa densa, arredondada, em forma de guarda-sol, do Pinheiro, e iniciaram o lanche alegremente.

Eram já cinco horas da tarde, tinham feito uma grande caminhada para lá chegar, e o almoço há muito tempo tinha sido digerido. Todos comeram com grande apetite.

Como estava muito calor e a sede era bastante, rapidamente esvaziaram as garrafas dos refrigerantes.

Saciados o apetite e a sede, colocaram junto ao tronco do Pinheiro as garrafas vazias, copos, guardanapos… e até restos de sandes mordiscadas. Estenderam-se no chão, à sombra. Uns conversando outros dormitando nem deram pelo tempo passar, de tal modo se sentiam satisfeitos.

O sol começava a esconder-se quando o líder exclamou:

- Ei, malta! Temos de nos pôr a milhas! Não se esqueçam de que nos espera uma boa caminhada. Já vamos chegar a casa de noite…

Puseram-se todos de pé e, sem mais demoras, iniciaram a descida. Ninguém se lembrou de recolher o lixo que tinham colocado junto ao Pinheiro.

Ouviu-se um profundo suspiro. O Pinheiro murmurou, tristemente:

- Já viste, vizinha? Respiraram o nosso ar puro, sorveram o nosso belo aroma, aproveitaram a minha sombra, nem sequer respeitaram a paz e o silêncio de todos estes seres que aqui vivem e, como agradecimento, foram-se todos embora deixando para trás o lixo que trouxeram com eles…

- Já devias estar habituado, Pinheiro. É sempre assim…

 Algum tempo depois podiam ver-se numerosas gotas transparentes pendendo das agora escuras agulhas.


- Orvalho – dizia quem passava.

Não, não era orvalho, eram lágrimas de tristeza.

Lágrimas, sim, que as árvores também têm sentimentos.

 

Um grupo de crianças que passava saltitando alegremente, parou de repente olhando atentamente para o Pinheiro.

- Olhem, olhem, o Pinheiro está a chorar! Com certeza não vai receber prendas de Natal, e por isso está triste.

A mais velhinha teve uma ideia:

- Vamos levar-lhe estas bolinhas e fitas. Talvez ele fique contente!

Correram para o Pinheiro e enfeitaram-no com tudo o que levavam para as suas festas.

O tecido das fitas coloridas absorveu a humidade das carumas e o pinheiro deixou de chorar.

E os olhos inocentes das crianças viram o brilho de reconhecimento e gratidão nos olhos do Pinheiro.

Todas as crianças convidaram os pais para irem ver o Pinheiro que, de tão feliz, irradiava uma luz especial que iluminava a noite escura.

Os pais olhavam, encantados e ao mesmo tempo surpresos por nunca terem notado a presença daquela magnífica árvore.

O amor das crianças operara o milagre.

E assim o Pinheiro triste  transformou-se na Árvore de Natal da aldeia.

Maria Caiano Azevedo 

sexta-feira, 1 de julho de 2022

TEXTO DRAMÁTICO


AS MÃOS DO AMOR

No meio do palco um homem aparentando 70 anos, levemente curvado, olha para as mãos que tremem muito ligeiramente.

SALVADOR – Como estão diferentes as minhas mãos!

(Olhando para o público) – Estão a ver estas mãos? Nem sempre foram assim. Não, não adianta quererem ser simpáticos; alguns de vós conhecem-me bem, e gostam de me agradar. Porém… eu sei que elas tremem um pouco. Mas já foram muito firmes.

Todas as vezes que seguravam um bisturi não podiam ter maior firmeza! Eram fortes, estas mãos…

Com toda a precisão cortavam apenas o essencial, procurando causar o menor dano. Sim, que as cicatrizes que resultavam das cirurgias que eu fazia pareciam um fiozinho de teia de aranha.

As senhoras ficavam todas felizes quando viam o resultado do meu trabalho. Aquelas carnes bonitas, depois de passarem pelas minhas mãos, pareciam mais encantadoras.

(Dá uma risadinha, e continua) – Algumas até ficavam com mais graça; aqueles risquinhos, muito fininhos, davam-lhes um certo charme. Que algumas, coitaditas, bem precisavam … (Sorri, com ar matreiro)

– Quando iam para a praia com os seus lindos biquínis, muitas vezes ouviam piropos… E como elas gostavam de ouvir:  “Olha, ali vai mais uma barriguinha do doutor SALVADOR! “

(Levanta a cabeça, mostra um ar orgulhoso) Sim, que as barrigas do doutor SALVADOR não eram de se deitar fora… eram perfeitas! Acreditem! Algumas das minhas clientes até mandavam tatuar uma borboleta, ou uma rosa, ou o que lhes apetecesse… bem junto da cicatriz, para chamar a atenção.

(Olha para as mãos) – Posso dizer com orgulho que estas mãos espalharam muito Amor ao longo dos meus longos anos…

(Põe um ar meio tristonho) – Alguma dor, também… Quando o parto era mal sucedido e mais um anjinho ia para o céu… Não foram muitos, por Deus! Podem contar-se pelos dedos de uma destas mãos (levanta uma mão, abrindo os dedos). Mas foram os suficientes para me fazer sofrer muito…

Ainda me lembro (olha de frente para o público com ar interrogativo) e como poderia esquecer? Quando tive nas mãos aquele corpinho inocente, o pequeno coração a vacilar… sem saber se havia de continuar a bater ou dar-se por vencido… Também o meu corpo cansado teve vontade de curvar-se, abatido, perante uma batalha que me parecia perdida… Mas aquele pequenino coração mostrou-me que não se podem baixar os braços, é preciso lutar para viver… E começou a bater forte. Parecia querer dizer-me: Tenho uma estrada comprida para percorrer, e neste momento preciso da tua ajuda. E, com a força do Amor, juntos vencemos! (Num aparte, em tom orgulhoso) – Hoje está um homem! Forte! Com um coração de ferro!

(Suspira profundamente e volta  ao tom normal) – Não nos deixemos abater pela tristeza! A verdade é que a vida me proporcionou momentos muito felizes… e concedeu-me o dom de, com estas mãos (baixa os olhos para as mãos) poder fazer muita gente feliz. (Olha directamente para o público, estendendo as mãos) – Já repararam que são gémeas? Gémeas verdadeiras, monozigóticas. Desenvolveram-se a partir de duas metades da mesma pessoa, que sou eu, e formaram-se a esquerda e a direita. Por isso são do mesmo sexo, são iguais (junta as palmas das mãos) Vêem? São mesmo iguais. (Separa as mãos) - Quando uma sofre… a outra chora; quando uma ri… a outra bate palmas de contente. Mas… no momento em que se erguem em acção de graças por tantas bênçãos que recebi (junta as mãos) … aí encostam-se, bem juntinhas, com as pontas dos dedos voltados para o alto.

(Com um sorriso sonhador, mantém a posição das mãos) – Lembro-me quando a minha filha se casou… No altar, quando aquelas duas vidas se uniram, também as minhas mãos fizeram o mesmo, orando para que o Amor os acompanhasse ao longo da vida… e se mantivesse sempre acesa a sua luz.

(Estende as mãos em frente, as palmas voltadas para cima, e com um ar meio triste, continua) – E quando o meu filho partiu à procura de vida melhor … foi com estas mãos que o abençoei e, com Amor e lágrimas, lhe desejei breve regresso.

(Faz uma breve pausa. Volta as palmas das mãos para baixo e, olhando-as, continua)

Hoje as minhas mãos tremem um pouco, sim. Tremem porque esta manhã receberam uma notícia triste. Abriram uma carta onde estava escrito: Vimos por este meio comunicar que, a partir desta data, os seus serviços nesta clínica estão dispensados.

Dispensados! Ouviram bem? (repete a palavra, soletrando pausadamente) DIS PEN SA DOS!

Como quem deita fora um trapo velho sem qualquer utilidade, dizem que já não precisam de mim!

Mas estão muito enganados, porque, ainda que o SALVADOR estivesse vendado, estas mãos saberiam (soletra a palavra) PER FEI TA MEN TE como trazer um bebé ao mundo. Não foi em vão que o fizeram anos a fio…

(Descai os ombros, em sinal de desalento e tristeza) – Vivemos numa sociedade muito injusta. E estas mãos que tinham ainda tanto Amor para dar…

(Remata com ar conformado)

Quando um dia eu tiver de fazer a Grande Viagem… alguém irá colocar estas minhas mãos, amorosamente, sobre o meu peito (coloca as mãos uma sobre a outra, na horizontal, junto ao peito) e eu partirei feliz porque, com Amor, fiz muita gente feliz.

E termina:

Sinto-me realizado porque toda a minha vida espalhei(Faz uma pausa, mete a mão ao bolso e retira um papel que desdobra, esticando-o com as mãos. Nele está escrito em letras grandes a palavra “Amor”, que mostra ao público)

SALVADOR (num grito) - AMOR!

 CAI O PANO

Maria Caiano Azevedo

Para quem, eventualmente não saiba. TEXTO DRAMÁTICO  é, em Escrita Criativa, o nome que se dá a um texto destinado a ser representado. Há quem opte por chamar-lhe Texto Teatral, embora haja características diferentes entre ambos.

Como, por motivos particulares, vou ter de fazer uma pausa indeterminada (dois, três , quatro meses…) decidi partilhar convosco este “TEXTO DRAMÁTICO” que recebeu  o 1º prémio num concurso a que concorri.

Durante o tempo que vou estar ausente, desejo a todos, amigas e amigos, tudo de bom.

Um abraço, já com saudades…

Aproveito a oportunidade para informar que já foi publicado o meu último livro, “SEGREDOS”.

Se alguém estiver interessado em adquiri-lo pode pedir-mo directamente por email; ainda tenho alguns exemplares disponíveis.

Obrigada. 


quarta-feira, 1 de junho de 2022

MOMENTO DE POESIA - QUANDO VOLTAS ?

Junho, mês de tristes recordações...


QUANDO VOLTAS?

Subo ao ponto mais alto do Universo

Onde apenas o pensamento me pode levar.

Sento-me numa pedra branca, macia, acolhedora,

E sossego a alma.

Lanço um olhar penetrante sobre o longínquo horizonte,

E não vislumbro vivalma.

Na imensidão de silêncio que me rodeia,

Lanço um grito profundo:

Quando voltas?

Apenas o eco me responde:

Voltas… voltas… voltas…

E tudo ao meu redor retoma a calma.

Um pássaro errante, talvez uma pomba,

Vem pousar no tronco seco que à minha frente repousa.

Não traz no bico o raminho de oliveira,

Nem é branco como as lonjuras que o meu olhar alcança.

Mas traz a paz que se junta à tanta paz que aqui se vive…

Quando voltas?

O meu pensamento repete a pergunta

Que o coração não quer calar.

Mas não vislumbro resposta…

Quando voltas?

 

Maria Caiano Azevedo