sexta-feira, 1 de julho de 2022

TEXTO DRAMÁTICO


AS MÃOS DO AMOR

No meio do palco um homem aparentando 70 anos, levemente curvado, olha para as mãos que tremem muito ligeiramente.

SALVADOR – Como estão diferentes as minhas mãos!

(Olhando para o público) – Estão a ver estas mãos? Nem sempre foram assim. Não, não adianta quererem ser simpáticos; alguns de vós conhecem-me bem, e gostam de me agradar. Porém… eu sei que elas tremem um pouco. Mas já foram muito firmes.

Todas as vezes que seguravam um bisturi não podiam ter maior firmeza! Eram fortes, estas mãos…

Com toda a precisão cortavam apenas o essencial, procurando causar o menor dano. Sim, que as cicatrizes que resultavam das cirurgias que eu fazia pareciam um fiozinho de teia de aranha.

As senhoras ficavam todas felizes quando viam o resultado do meu trabalho. Aquelas carnes bonitas, depois de passarem pelas minhas mãos, pareciam mais encantadoras.

(Dá uma risadinha, e continua) – Algumas até ficavam com mais graça; aqueles risquinhos, muito fininhos, davam-lhes um certo charme. Que algumas, coitaditas, bem precisavam … (Sorri, com ar matreiro)

– Quando iam para a praia com os seus lindos biquínis, muitas vezes ouviam piropos… E como elas gostavam de ouvir:  “Olha, ali vai mais uma barriguinha do doutor SALVADOR! “

(Levanta a cabeça, mostra um ar orgulhoso) Sim, que as barrigas do doutor SALVADOR não eram de se deitar fora… eram perfeitas! Acreditem! Algumas das minhas clientes até mandavam tatuar uma borboleta, ou uma rosa, ou o que lhes apetecesse… bem junto da cicatriz, para chamar a atenção.

(Olha para as mãos) – Posso dizer com orgulho que estas mãos espalharam muito Amor ao longo dos meus longos anos…

(Põe um ar meio tristonho) – Alguma dor, também… Quando o parto era mal sucedido e mais um anjinho ia para o céu… Não foram muitos, por Deus! Podem contar-se pelos dedos de uma destas mãos (levanta uma mão, abrindo os dedos). Mas foram os suficientes para me fazer sofrer muito…

Ainda me lembro (olha de frente para o público com ar interrogativo) e como poderia esquecer? Quando tive nas mãos aquele corpinho inocente, o pequeno coração a vacilar… sem saber se havia de continuar a bater ou dar-se por vencido… Também o meu corpo cansado teve vontade de curvar-se, abatido, perante uma batalha que me parecia perdida… Mas aquele pequenino coração mostrou-me que não se podem baixar os braços, é preciso lutar para viver… E começou a bater forte. Parecia querer dizer-me: Tenho uma estrada comprida para percorrer, e neste momento preciso da tua ajuda. E, com a força do Amor, juntos vencemos! (Num aparte, em tom orgulhoso) – Hoje está um homem! Forte! Com um coração de ferro!

(Suspira profundamente e volta  ao tom normal) – Não nos deixemos abater pela tristeza! A verdade é que a vida me proporcionou momentos muito felizes… e concedeu-me o dom de, com estas mãos (baixa os olhos para as mãos) poder fazer muita gente feliz. (Olha directamente para o público, estendendo as mãos) – Já repararam que são gémeas? Gémeas verdadeiras, monozigóticas. Desenvolveram-se a partir de duas metades da mesma pessoa, que sou eu, e formaram-se a esquerda e a direita. Por isso são do mesmo sexo, são iguais (junta as palmas das mãos) Vêem? São mesmo iguais. (Separa as mãos) - Quando uma sofre… a outra chora; quando uma ri… a outra bate palmas de contente. Mas… no momento em que se erguem em acção de graças por tantas bênçãos que recebi (junta as mãos) … aí encostam-se, bem juntinhas, com as pontas dos dedos voltados para o alto.

(Com um sorriso sonhador, mantém a posição das mãos) – Lembro-me quando a minha filha se casou… No altar, quando aquelas duas vidas se uniram, também as minhas mãos fizeram o mesmo, orando para que o Amor os acompanhasse ao longo da vida… e se mantivesse sempre acesa a sua luz.

(Estende as mãos em frente, as palmas voltadas para cima, e com um ar meio triste, continua) – E quando o meu filho partiu à procura de vida melhor … foi com estas mãos que o abençoei e, com Amor e lágrimas, lhe desejei breve regresso.

(Faz uma breve pausa. Volta as palmas das mãos para baixo e, olhando-as, continua)

Hoje as minhas mãos tremem um pouco, sim. Tremem porque esta manhã receberam uma notícia triste. Abriram uma carta onde estava escrito: Vimos por este meio comunicar que, a partir desta data, os seus serviços nesta clínica estão dispensados.

Dispensados! Ouviram bem? (repete a palavra, soletrando pausadamente) DIS PEN SA DOS!

Como quem deita fora um trapo velho sem qualquer utilidade, dizem que já não precisam de mim!

Mas estão muito enganados, porque, ainda que o SALVADOR estivesse vendado, estas mãos saberiam (soletra a palavra) PER FEI TA MEN TE como trazer um bebé ao mundo. Não foi em vão que o fizeram anos a fio…

(Descai os ombros, em sinal de desalento e tristeza) – Vivemos numa sociedade muito injusta. E estas mãos que tinham ainda tanto Amor para dar…

(Remata com ar conformado)

Quando um dia eu tiver de fazer a Grande Viagem… alguém irá colocar estas minhas mãos, amorosamente, sobre o meu peito (coloca as mãos uma sobre a outra, na horizontal, junto ao peito) e eu partirei feliz porque, com Amor, fiz muita gente feliz.

E termina:

Sinto-me realizado porque toda a minha vida espalhei(Faz uma pausa, mete a mão ao bolso e retira um papel que desdobra, esticando-o com as mãos. Nele está escrito em letras grandes a palavra “Amor”, que mostra ao público)

SALVADOR (num grito) - AMOR!

 CAI O PANO

Maria Caiano Azevedo

Para quem, eventualmente não saiba. TEXTO DRAMÁTICO  é, em Escrita Criativa, o nome que se dá a um texto destinado a ser representado. Há quem opte por chamar-lhe Texto Teatral, embora haja características diferentes entre ambos.

Como, por motivos particulares, vou ter de fazer uma pausa indeterminada (dois, três , quatro meses…) decidi partilhar convosco este “TEXTO DRAMÁTICO” que recebeu  o 1º prémio num concurso a que concorri.

Durante o tempo que vou estar ausente, desejo a todos, amigas e amigos, tudo de bom.

Um abraço, já com saudades…

Aproveito a oportunidade para informar que já foi publicado o meu último livro, “SEGREDOS”.

Se alguém estiver interessado em adquiri-lo pode pedir-mo directamente por email; ainda tenho alguns exemplares disponíveis.

Obrigada. 


quarta-feira, 1 de junho de 2022

MOMENTO DE POESIA - QUANDO VOLTAS ?

Junho, mês de tristes recordações...


QUANDO VOLTAS?

Subo ao ponto mais alto do Universo

Onde apenas o pensamento me pode levar.

Sento-me numa pedra branca, macia, acolhedora,

E sossego a alma.

Lanço um olhar penetrante sobre o longínquo horizonte,

E não vislumbro vivalma.

Na imensidão de silêncio que me rodeia,

Lanço um grito profundo:

Quando voltas?

Apenas o eco me responde:

Voltas… voltas… voltas…

E tudo ao meu redor retoma a calma.

Um pássaro errante, talvez uma pomba,

Vem pousar no tronco seco que à minha frente repousa.

Não traz no bico o raminho de oliveira,

Nem é branco como as lonjuras que o meu olhar alcança.

Mas traz a paz que se junta à tanta paz que aqui se vive…

Quando voltas?

O meu pensamento repete a pergunta

Que o coração não quer calar.

Mas não vislumbro resposta…

Quando voltas?

 

Maria Caiano Azevedo

domingo, 1 de maio de 2022

DIA DA MÃE - CARTA A MINHA MÃE

 Hoje, dia 1 de Maio, comemora-se m Portugal o “DIA DA MÃE” – como sempre, desde há muitos anos, no primeiro Domingo de Maio.

Para homenagear a minha Mãe, que há tanto tempo me deixou,  decidi escrever-lhe uma carta, que partilho convosco.

CARTA À MINHA MÃE

Mamã,

Hoje vou elevar para ti um pensamento muito especial, mais intenso.

Sabes que te recordo todos os dias.

Deixaste-me há tantos anos, mas na minha memória, que já não tem a vivacidade de outros tempos, continuas tão nítida como nos dias em que eu te tinha junto de mim.

 Não há um só pormenor que eu não recorde dos últimos momentos que passámos juntas.

Depois de tratar da tua higiene (ficaste tão linda, tão fresca!) recostei-te na almofada para te dar o pequeno-almoço.

Como de costume não quiseste comer nada, apenas bebeste um pouco de leite. Ainda insisti, sabendo, de antemão, que irias recusar:

- Por favor, mamã, come só uma torradinha pequenina, faço-ta num instante.

Com aquele sorriso lindo que conservaste até ao fim, respondeste-me:

- Não, minha filha, não consigo.

Sentias calor. Com a minha mão esquerda segurando a tua mão esquerda, apanhei o leque que estava sempre em cima da mesinha, e, suavemente, comecei a agitá-lo, para te refrescar.

Não sei quanto tempo estivemos assim. Esse é o único pormenor que esqueci: quanto tempo estive segurando a tua mão.

Estavas tão frágil! Parecias transparente. Como uma flor murchando lentamente, uma vela perdendo a intensidade do seu brilho, a qual um ligeiro sopro faria apagar.

Assim te vinhas mantendo nos últimos tempos: quase sem te alimentares, a voz cada dia mais fraca, os gestos mais lentos, os cabelos embranquecendo até ficarem alvos de neve…

Naquele dia, recostada na almofada, de olhos semicerrados, parecias irradiar uma luz especial.

Numa comunhão perfeita entre nós duas, abriste os olhos, olhaste-me com um ligeiro sorriso e um carinho imenso que me inundou o coração, ao mesmo tempo que me provocava um estranho estremecimento.

Depois, lentamente, muito lentamente, levantaste a mão direita e esboçaste um ligeiro aceno, que mais tarde interpretei como um adeus.

Pousei o leque e segurei a tua mão entre as minhas. Um suspiro profundo indicou-me que acabavas de partir.

Continuei assim não sei por quanto tempo, sem um grito, um lamento… apenas deixando as lágrimas deslisarem-me pelo rosto.

Partiste tão serena como viveste, pelo menos o último ano da tua vida.

Sei que estás num lugar especial, que foste merecendo ao longo dos teus dias neste mundo, por onde passaste praticando sempre o bem.

Foi este pensamento que me fez aceitar a tua partida com resignação, e me leva a pensar em ti todos os dias com um imenso carinho.

Até um dia, mamã. Sei que voltaremos a ver-nos.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

MOMENTO DE POESIA - ESTÁTUAS CAÍDAS

 Homenagem às mulheres e homens que, durante o longo e penoso período, autoritário e antiliberal do Estado Novo, tombaram na luta pela defesa dos seus ideais.


ESTÁTUAS CAÍDAS

Comtemplo a tua face pálida,

Caída, como uma estátua morta.

Ouço, a custo, o silvo do teu respirar.

Tombadas, entre os escombros,

Num verdadeiro caos,

Todas as outras que, tal como tu,

Sonharam o sonho lindo da Liberdade.

 

Soltaram-se, por fim, as grilhetas.

Os corpos descansam, exangues,

Cobertos por miríades de borboletas

Que, elevando-se nos ares,

Formam, contra o céu azul de Abril,

A palavra LIBERDADE.

 

Maria Caiano Azevedo

terça-feira, 8 de março de 2022

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Para comemorar o Dia Internacional da Mulher, que hoje se celebra, vou repor um poema que intitulei “DA MULHER”. Se quiser pode ouvir a gravação do mesmo dita por mim, e seguir as palavras abaixo.







DA MULHER

Ó avô

- Será verdade o que da Mulher se diz?

- Que queres saber, meu petiz?

- Dizem que em era passada

A Mulher foi maltratada, desprezada,

Humilhada,

E até violentada…

- É verdade, sim, meu neto.

- Mas porquê? Isso não parece certo…

- És ainda muito novo, para entenderes o povo.

- Podes-me contar, avô, como tudo começou?

- Escuta com atenção. Vou tentar contar-te, então.

Defendem alguns, com grande convicção,

Que nos primórdios do mundo

A Mulher iniciou a Criação.

Nasceu um culto à Deusa Mãe, venerando Gaia,

A Mãe Terra.

Como da Mulher nasciam filhos,

 dela nascia vida, calor, água e pão.

- Isso é tão bonito, avô! Mas porque é que se alterou?

- Há várias opiniões. Dizem que houve invasões,

de homens indo-europeus, só ódio nos corações.

Altos, fortes, audazes, com armas

e dominando cavalos,

destroçaram pacíficas civilizações.

Impuseram seus deuses guerreiros, ferozes:

Deus da tempestade, com o raio e o trovão…

O deus solar, Deus Sol, com a adaga e a espada…

Transportando-se num carro, numa ou noutra ocasião.

A Deusa foi dominada, pelos deuses suplantada,

E a Mulher escravizada.

- Mas isso aconteceu há muito tempo, avô…

- Sim, há muitos milhares de anos.

Mas a história ainda não acabou.

- Ainda há mais, avô? Conta, conta, por favor…

- Ouve, então, com atenção, esta outra versão:

Reza história muito antiga

Que Eva, a Mulher primeira,

Veio ao mundo para gerar

no seu ventre,

e à luz dar, acarinhar, amar…

E após tanta canseira

por seu filho a vida dar.

- Mas tudo isso, avô, é bem digno de louvor.

Porquê, então, o rancor

Que o homem mostra sentir,

e o levou a infligir

tanta dor?

- Para isso, querido neto, o avô não tem resposta.

Uns dizem que foi castigo, só porque Eva pecou

 e o Adão arrastou.

Outros dizem que é sina, que à Mulher foi imposta.

Mas com o passar do tempo tudo se modificou.

- Hoje tudo está diferente, não é verdade, avô?

A Mulher tem liberdade, pode dispor de si mesma,

Sem ao homem consultar e sem dele depender…

- Nem tudo foi corrigido, ainda há muito a fazer.

Há mulheres escravizadas,

maltratadas, torturadas,

e isso tem de acabar.

Para o mundo melhorar, e a injustiça terminar,

O Homem tem de entender:

Com toda a tecnologia e avanço da ciência,

fertilizando ou clonando,

com a maior sapiência,

é da Mulher que o Homem

continuará a nascer.

 Deus, que é Deus, para humano se tornar

 e o mundo tentar salvar,

o corpo da Mulher teve de usar.

 

Mariazita


terça-feira, 1 de março de 2022

DIA DA MULHER

 DESTAQUE PARA UMA MULHER


Como é habitual, no mês de Março, que hoje se inicia, celebra-se, o “Dia Internacional da Mulher”, precisamente no dia 08. Esta celebração, que ocorre a nível mundial,  destina-se a enaltecer o papel da Mulher na sociedade, e a sua eterna luta pelos seus direitos, tantas vezes desprezados.

É comum as mulheres serem presenteadas com flores ou outros mimos, e, nalguns lugares, haver mesmo eventos dedicados a enaltecer o seu valor.

Toda a gente, dum modo geral, já ouviu falar numa ou noutra mulher que teve lugar de relevo na luta pelos seus direitos – lembremos as mulheres que, em Nova Iorque, no dia 25 de Março de 1911, foram vítimas dessa mesma luta, tendo visto, como represália,  serem queimadas as fábricas onde trabalhavam e onde mais de uma centena  pereceu no meio das chamas.

Hoje ocorre-me falar-vos de uma Mulher, não muito conhecida, mas que, a seu modo, lutou bravamente pelos direitos das mulheres.

Nascida em 5 de Maio de 1864, na Pensilvânia, Elizabeth Cochran cedo se revelou contrária às regras à data em vigor , no que se referia à condição feminina.

Discordando da ideia de que as mulheres só poderiam contribuir para a sociedade trabalhando em casa, e num tempo em que se dizia que Jornal “não era lugar para mulher",  aos 18 anos ela já trabalhava como jornalista, usando o pseudónimo de Nellie Bly.

Contrariamente ao que era habitual na época, ela escreveu sobre questões feministas, chamando a atenção para os pouquíssimos  direitos das mulheres.

Com o desejo de crescer dentro do jornalismo mudou-se para Nova Iorque, conseguindo, de imediato,  emprego no jornal New York World.

Como prova de fogo, logo de início foi-lhe destinada uma reportagem num hospital psiquiátrico, acerca do qual corriam boatos de que os internados eram vítimas de abusos praticados pelos funcionários. Até à data ninguém tivera a coragem de investigar a veracidade do que se dizia.

Com a promessa de que a fariam ter alta em dez dias, Elizabeth aceitou o maior desafio da sua vida. Mas nunca poderia imaginar como seria difícil.

Nellie Bly (Elizabeth Cochran) teve de se disfarçar, fingindo-se de demente, para poder introduzir-se no hospital .

Bastaram-lhe as primeiras impressões lá dentro para ficar horrorizada.

O número de pacientes era, seguramente, o dobro do que o hospital deveria abrigar. A alimentação era miserável – pão velho, carne meio podre, e água suja. A higiene era inexistente, e viam-se ratos por todo o lado.

A doença mental de Nellie era fingida, mas as condições do hospital bastariam para levar qualquer um à loucura.

Ela conheceu lá várias mulheres que não tinham nada de loucas, estavam lá apenas porque eram pobres ou não sabiam falar inglês (imigrantes). Enfiavam-nas no manicómio considerando-as indesejáveis.

As mulheres que realmente tinham problemas mentais não recebiam o tratamento adequado. Em vez disso eram submetidas a experiências violentas, abusivas, eram amarradas e sujeitas a métodos que só poderiam ser descritos como tortura.

Cumprindo a promessa que lhe havia sido feita, dez dias depois um advogado foi libertá-la.

As experiências, algumas traumatizantes, vividas no manicómio, deram origem ao impressionante livro “ Dez dias num manicómio”.

Esta publicação e o alvoroço que suscitou, obrigou o governo a implementar mudanças para melhorar a condição dos pacientes.

Com uma força interior incrível, Elizabeth continuou a escrever sobre política, assunto quase exclusivo dos homens. Lutou sempre pelos mais desprotegidos. Denunciou preconceitos.

Prova do seu carácter indomável, da sua sede de saber e conhecer novas terras, novos povos, seus hábitos e costumes, cometeu a proeza de dar a volta ao mundo em 72 dias.

Com as suas acções, exemplo e espírito inquebrantável, Nellie inspirou muitas jovens em todo o país.

Dois anos antes de morrer teve a felicidade de ver as mulheres conquistarem o Direito de Voto.

Elizabeth ficou famosa no país inteiro.

Acabou por falecer em 1922, com 57 anos, vítima de derrame cerebral.

NO PRÓXIMO DIA 08 DE MARÇO FAREI A REPOSIÇÃO DE UM POEMA QUE ESCREVI, DEDICADO À MULHER.

CONTO CONTIGO!!!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

14º.ANIVERSÁRIO

 DÉCIMO QUARTO ANIVERSÁRIO

Ultimamente não está sendo fácil. Todo o ambiente de pandemia em que temos vivido não nos deixa ânimo para grandes alegrias. A somar a esse factor, a dolorosa perda dum familiar (um genro quase como um filho) ainda vem agravar mais a situação.

Eu sei, todos sabemos, que o tempo é o melhor remédio para curar as maiores feridas. Deixemo-lo então passar, porque tudo é ainda muito recente.

Entretanto, não posso ignorar que esta minha/vossa CASA completa hoje 14 anos. Como não posso esquecer que tem sido a vossa amizade constante, as vossas palavras de carinho… enfim, todo o vosso apoio, que têm ajudado a mantê-la activa. Aliás, sem a vossa presença, há muito tempo ela teria deixado de existir.

Por tudo isto, a minha gratidão para convosco não tem fim.

Não vou alongar-me muito (conto com a vossa compreensão). E embora não haja festa, convido-vos para uma taça de champanhe e um bocadinho de bolo.

OBRIGADA! BEM HAJAM!!!



terça-feira, 1 de fevereiro de 2022


Reza a História que…

“Quando se abandonou a forma de contagem regressiva, típica do calendário romano, e se passou a usar a contagem contínua dos dias do mês, do primeiro ao último dia, o dia a diminuir passou a ser intercalado depois do último dia do mês de Fevereiro, antes do mês de Março, como ainda hoje usamos”.

E foi então que isto aconteceu, num qualquer desses anos longínquos, no mês de Fevereiro - este mês ficou com menos um dia.

Decorria o mês de Fevereiro do ano da graça de 45 a.C.

 

Não acreditem!!! Os historiadores às vezes também gostam de fazer as suas brincadeiras.

A verdade verdadeira é esta:

 

O TEMPO E O RELÓGIO

O relógio disse ao tempo:

Hoje não vou trabalhar!

Isso é um grande contratempo

Responde o tempo a chorar.

 

Pára o relógio no tempo

Minutos vão descansar

Inventam um passatempo:

Com as horas vão bailar.

 

Tão contentes na folia

Esqueceram os segundos.

Nem uma folha bulia.

Era o melhor dos mundos!

 

O sol de ouro, no ocaso,

Lua de prata no céu

O dia, sem fazer caso,

A seu tempo amanheceu.

 

O relógio, admirado

Com o tempo assim falou:

Um dia não foi contado

O meu sistema falhou!

 

Tu quiseste a independência

Responde o tempo, mordaz.

Vais pagar a indolência:

O tempo não volta atrás.

 

E foi assim que Fevereiro ficou com menos dias do que os outros meses.

Maria Caiano Azevedo

sábado, 1 de janeiro de 2022

ANO NOVO

  ANO NOVO

 Começo por agradecer a todas as pessoas que estiveram comigo em 2021, apoiando-me, dedicando-me carinho e algum do seu precioso tempo, apesar dos dias difíceis que atravessámos.

Que 2022 chegue repleto de boas energias, felicidade, saúde e de muito Amor.

Que este novo ano seja mágico e nos ajude a vencer os problemas e a superar todos os desafios.

FELIZ ANO NOVO!!!

 O PINHEIRO

- Com tantos anos de vida ainda não consegui perceber porque me apelidaram de “manso”, Pinheiro Manso – murmurou o frondoso Pinheiro, voltando as verdes e finas agulhas na direcção de uma raquítica árvore que se encontrava a pequena distância.

- Ora, porquê! – respondeu a enfezada. Já tivemos esta conversa tantas vezes! Está muito bom de ver. Deram-te esse nome porque não tens a braveza dos teus primos, esses altivos pinheiros bravos, que não se dão com os baixotes, só querem viver nas alturas…

- Acho essa explicação demasiado simplista…

- Sabes qual é o teu problema? – continuou a enfezadita – é quereres sempre saber a razão de tudo. As coisas são porque são, e pronto. Põe os olhos em mim: és capaz de me dizer porque é que eu sou assim tão raquítica? Não és, pois não? Eu também não sei, e vê lá se me preocupo…

- Xiu! – advertiu o Pinheiro. Aproximam-se pessoas. A conversa tem de ficar para mais logo. Agora cala-te, que eu faço o mesmo.

E ficaram em silêncio.

Um grupo de jovens caminhava alegremente em direcção ao Pinheiro.

Um deles, o mais alto, loiro e de olhos da cor do céu, aparentando ser o líder, abriu os braços ao alto e exclamou:

- Eu não vos dizia? Este Pinheiro não é um espectáculo?

- Sim – responderam em uníssono os outros jovens. Tu és o maior!

- Claro que sou. Por isso sou o chefe. E é como chefe que vos digo:

- Abram os braços, respirem fundo este ar puro, aspirem este delicioso cheiro a pinheiro…

E falando assim ele próprio executava os movimentos que convidava os companheiros a fazerem.

Por breves momentos só se ouvia o seu respirar profundo. Mas logo de seguida recomeçou a algazarra, rindo e falando muito alto, como se todos fossem surdos.

Um dos rapazes tinha levado um “Tablet” e em breve o silêncio da mata se encheu com os sons, em tom altíssimo, de uma canção em voga. A maior parte deles acompanhou a música em altos berros. Até os insectos fugiam espavoridos.

Pouco depois o líder disse:

- E se tratássemos das barriguinhas? a minha já está a roncar…

- Excelente ideia! – responderam em coro.

E todos, rapazes e raparigas, abriram as mochilas e retiraram de lá comida, copos de plástico, garrafas de refrigerantes e até uma toalha de papel, que estenderam cuidadosamente no chão e nela colocaram o lanche.

Sentaram-se todos em círculo debaixo da copa densa, arredondada, em forma de guarda-sol, do Pinheiro, e iniciaram o lanche alegremente.

Eram já cinco horas da tarde, tinham feito uma grande caminhada para lá chegar, e o almoço há muito tempo tinha sido digerido. Todos comeram com grande apetite.

Como estava muito calor e a sede era bastante, rapidamente esvaziaram as garrafas dos refrigerantes.

Saciados o apetite e a sede, colocaram junto ao tronco do Pinheiro as garrafas vazias, copos, guardanapos… e até restos de sandes mordiscadas. Estenderam-se no chão, à sombra. Uns conversando outros dormitando nem deram pelo tempo passar, de tal modo se sentiam satisfeitos.

O sol começava a esconder-se quando o líder exclamou:

- Ei, malta! Temos de nos pôr a milhas! Não se esqueçam de que nos espera uma boa caminhada. Já vamos chegar a casa de noite…

Puseram-se todos de pé e, sem mais demoras, iniciaram a descida. Ninguém se lembrou de recolher o lixo que tinham colocado junto ao Pinheiro.

Ouviu-se um profundo suspiro. O Pinheiro murmurou, tristemente:

- Já viste, vizinha? Respiraram o nosso ar puro, sorveram o nosso belo aroma, aproveitaram a minha sombra, nem sequer respeitaram a paz e o silêncio de todos estes seres que aqui vivem e, como agradecimento, foram-se todos embora deixando para trás o lixo que trouxeram com eles…

- Já devias estar habituado, Pinheiro. É sempre assim…

 

Algum tempo depois podiam ver-se numerosas gotas transparentes pendendo das agora escuras agulhas.

 


- Orvalho – dizia quem passava.

Não, não era orvalho, eram lágrimas de tristeza.

Lágrimas, sim, que as árvores também têm sentimentos.

 

Um grupo de crianças que passava saltitando alegremente, parou de repente olhando atentamente para o Pinheiro.

- Olhem, olhem, o Pinheiro está a chorar! Com certeza não vai receber prendas de Natal, e por isso está triste.

A mais velhinha teve uma ideia:

- Vamos levar-lhe estas bolinhas e fitas que fomos comprar para as nossas árvores. Talvez ele fique contente!

Correram para o Pinheiro e enfeitaram-no com tudo o que levavam para a festa delas.

O tecido das fitas coloridas absorveu a humidade das carumas e o Pinheiro deixou de chorar.

Excitadas, as crianças exclamaram:

- Vejam! Vejam! O Pinheiro deixou de chorar.

Radiantes, deram as mãos fazendo uma roda à volta do Pinheiro, cantando alegremente.

Recolheram os papéis que vinham a embrulhar as bolas e as fitas,  juntaram-lhes o lixo que os jovens haviam abandonado junto ao Pinheiro, deixando tudo impecavelmente limpo.

Ao afastarem-se  os olhos inocentes das crianças viram o brilho de reconhecimento e gratidão nos olhos da árvore.

E assim o Pinheiro triste  transformou-se na Árvore de Natal da aldeia.

 Maria Caiano Azevedo

FELIZ ANO NOVO