terça-feira, 2 de julho de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XI

ADENDA
Queridas Amigas e queridos Amigos
Por lapso não incluí, no final deste Capítulo, a seguinte informação:
NO DIA 10 DESTE MÊS DE JULHO VOU AUSENTAR-ME DO PAÍS, POR DUAS SEMANAS, PARA O MEU PRIMEIRO PERÍODO DE FÉRIAS (O SEGUNDO SERÁ NA SEGUNDA QUINZENA DE AGOSTO).
POR ESSE MOTIVO SÓ QUANDO REGRESSAR PODEREI RETRIBUIR AS VISITAS QUE ME FIZEREM, E QUE DESDE JÁ AGRADEÇO.

Beijinhos e abraços a toda(o)s.

SEGREDOS – CAPÍTULO XI


 CAPÍTULO X
“…O toque do telefone interrompeu os seus pensamentos. Contrariada, Nanda levantou-se e viu, no visor, que a chamada era do Tó Zé. Naquele momento teria preferido continuar a recordar o passado tão distante. Já haviam decorrido 30 anos! Mas na sua memória tudo continuava muito nítido, como se o estivesse vivendo de novo…
Clicou no “atender” e ouviu do outro lado a voz inconfundível do seu ex-marido:
- Por onde anda a flor mais linda do meu jardim, que demorou tanto tempo a atender?
Nanda sentiu um friozinho na barriga ao ouvir aquela voz carregada de mel…”

CAPÍTULO XI
Tentando controlar-se para não deixar transparecer o quanto aquela voz mexia consigo, Nanda respondeu, no tom mais indiferente que lhe foi possível:
- O teu jardim continua repleto de flores?
- Tem algumas, sim, mas nenhuma tão bonita como tu…
- Conversa não te falta… Mas afinal, foi para falar de flores que me ligaste?
- E se fosse? Não é uma conversa bonita? E perfumada – acrescentou, bem-disposto. Mas não, não foi para falar de flores, mas dum botão de rosa – o nosso neto.
- O que tem o nosso neto? – a voz de Nanda denotava preocupação. Aconteceu alguma coisa que eu não sei?
- Não fiques aflita, minha querida – Nanda estremeceu. Aquele “minha querida” era sempre dito num tom que lhe fazia lembrar que houve um tempo em que eles tinham conseguido ser felizes, apesar de tudo.
O que acontece é que, finalmente, consegui arrumar acomodações para o nosso filho. E como tu gostas sempre de lhe dar este tipo de novidades… não sou eu que te vou roubar esse prazer… Quando quiseres liga-lhe a dar a notícia, e aproveita para lhe perguntar se precisa que eu vá lá abaixo buscá-los. Posso ir com a carrinha e trazer tudo o que for preciso.
- Ora aí está uma excelente notícia! – respondeu Nanda, encantada. E não queres contar-me como conseguiste esse milagre?
- Evidentemente que sim. Sabes que para ti não tenho segredos – Tó Zé falou com o tom mais doce possível.
- Eu vou fazer de conta que acredito – respondeu Nanda, tentando falar rispidamente, mas com o coração acelerado.
- Acredita que é verdade. Lembras-te daquele armazém enorme que em tempos aluguei, com vista a diversificar o negócio? – continuou ele. Acabou por ficar para ali, sem qualquer utilidade. Mantive-o porque o aluguer era baixo, quase de graça. E foi o melhor que fiz. Com a ajuda de uns amigos construí lá, numa parte do espaço, um belíssimo apartamento. Só tem um quarto, mas para já não é preciso mais. Depois, com tempo, posso construir outro.
- E o nosso neto vai ficar confinado a um quarto? – perguntou Nanda, com espanto.
- Que disparate! Claro que não. Tem um quarto, uma sala – não muito grande, é certo – uma cozinha e instalações sanitárias. Quando quiseres podes ir lá ver. Tenho a certeza que vais gostar. Já está pronto há três ou quatro dias, mas não te disse nada porque era preciso deixar sair o cheiro das tintas.
- Estou espantada, e deveras satisfeita. Vamos fazer assim: Eu telefono ao Luís a dar-lhe a novidade. Sei que vai ficar radiante porque todos os dias me tem falado no assunto.
- Todos os dias? – perguntou Tó Zé, admirado.
- Sim, todos os dias, qual é o espanto? Sabes que nós falamos todos os dias…
- Pois… - Nanda notou um certo tom de tristeza na voz do ex-marido – tu e eu também falamos todos os dias – ou quase… - e tu não me dizes tudo…
- Isso agora não interessa para nada! Vamos aos planos. Daqui a pouco ligo ao Luís e vejo como havemos de fazer para eles virem para cima. E fica descansado que vou dizer-lhe que te ofereceste para os ires buscar – acrescentou, sorridente.
- Obrigado, minha querida. Tu consegues ser sempre atenciosa, seja em que circunstância for…
Nanda engoliu em seco, sem palavras para responder. E de novo aquele “minha querida”…
Não sabia explicar porque é que essas duas palavras, ditas naquele tom, a sobressaltavam tanto.
A verdade é que ela nunca fora apaixonada pelo Tó Zé. Ele, sim, ele adorava-a, e ela… deixava-se amar.
Passados quase trinta anos ainda se lembrava bem de como eram as suas conversas. Viam-se e falavam todos os dias. Depois de jantar ela ia até ao portão do jardim da sua casa e aí se encontravam. O que chegasse primeiro esperava pelo outro. E as conversas entre eles pareciam não ter fim. Algumas vezes a Mãe tinha de a chamar para ir deitar-se, porque eles perdiam a noção do tempo.
Nanda considerava Tó Zé como o seu melhor amigo, tal como Bela era a sua melhor amiga. Entre eles quase não havia segredos. Nanda guardava consigo o segredo do assédio de que fora vítima por parte do pai de Bela, e nunca o revelou a ninguém, até ao fim da sua vida. Mas esse segredo era a única excepção…  

Foi com enorme alegria e excitação que Nanda ligou para Luís a dar-lhe a novidade. Como era de esperar, o filho ficou em grande alvoroço e, em altos brados, transmitiu a notícia a Catarina. Combinaram que Luís falaria com o sogro, que já se oferecera para os vir trazer a Lisboa, e não queria magoá-lo.
Enquanto se dirigia ao supermercado para fazer umas pequenas compras – como eram coisas de pouco peso decidiu não levar o carro e ir a pé – voltou-lhe ao pensamento o assunto em que pensava quando fora interrompida pelo telefonema de Tó Zé…
***
[Depois do encontro (ou encontrão…) de Nanda e Alessandro, as duas amigas, conversando alegremente e caminhando num passo estugado, em breve chegaram ao restaurante. Sentaram-se, fizeram o pedido, e começaram logo a falar do assunto que as levara a almoçar juntas...
- Então conta-me lá, que espécie de festa estás a pensar fazer? – perguntou Bela.
- Eu estava a pensar numa coisa simples, para reunir as amigas e os amigos, nada do género da que tu fizeste quando completaste os teus 18 anos, claro! Que te parece?
- Por mim acho a ideia excelente. E como ainda faltam três meses, não vais ter dificuldade em reservar um local para a noite … concordou Bela.
- Pois por isso mesmo é que eu quis tratar das coisas com antecedência e poder escolher um espaço que não seja muito caro.
- Tenho a certeza que vais conseguir. Bem basta o que aconteceu comigo… - Bela mostrava-se meio tristonha ao recordar a sua festa de anos.
- Sim, mas tu sabes bem porque é que as coisas não correram como tu querias e imaginavas… Essa ideia dos teus pais de irem fazer a festa na quinta… - murmurou Nanda.
- Uma ideia completamente disparatada. Como sempre, estavam a pensar mais em exibir-se do que em festejarem os meus 18 anos – Bela falava com irritação. – Sendo assim, como foram eles a organizar tudo, a maioria das minhas amigas e amigos não estariam presentes. Só os riquinhos lá iriam pôr os pés. Olha tu, por exemplo: afirmaste logo, a pés juntos, que não irias… Logo tu, a minha melhor amiga!
- Não vale a pena estarmos a falar nisso agora – Nanda esquivava-se ao assunto. Nem queria pensar no verdadeiro motivo que a levara a recusar o convite da sua melhor amiga. Desde aquele dia fatídico evitava ao máximo qualquer contacto mais próximo com aquela família.
- Tens razão, querida. Não vale a pena continuar a lamentar o que se passou. Mas a verdade é que eu pensava que iria recordar para sempre, com saudades, a minha festa dos 18 anos. Afinal, é um marco na nossa vida… - comentou Bela, com ar tristemente pensativo.
E lembrou-se da ansiedade com que esperara pela sua festa de aniversário dos 18 anos. Imaginara tudo tão diferente do que acontecera… Os pais disseram-lhe que não queriam contar-lhe nada, porque iam fazer-lhe uma grande surpresa. E nisso não se enganaram. Foi mesmo uma surpresa enorme!
Nesse dia, logo a seguir ao almoço, meteram-na no carro e, entre risadas de boa disposição, vendaram-lhe os olhos, dizendo-lhe que não valia a pena ela fazer perguntas pois só quando chegassem ao destino veria a surpresa. A Mãe aconselhou-a a recostar-se e tentar fazer um pequeno sono de beleza, para estar linda para a sua festa…
Cerca de uma hora depois o pai parou o carro, ajudaram-na a sair e a venda foi retirada. Com espanto, Bela verificou que se encontrava na quinta, onde era aguardada por um número enorme de convidados, amigos dos seus pais e os seus descendentes, todos vestidos como para uma festa de gala.
Não, decididamente não era nada disto que Bela imaginara.  Na verdade, os pais não a conheciam, não sabiam os seus verdadeiros gostos, para além de só pensarem em si mesmos e                               na imagem que queriam transmitir, de pessoas da alta sociedade.
A Mãe levou Bela para o seu quarto, onde a esperava um magnífico vestido que ela usaria para a festa – por sua vontade vestiria apenas umas jeans e uma t-shirt. Fez a vontade à Mãe, pois sabia que de nada valeria tentar contrariá-la.
Como não viu entre os convidados a sua melhor amiga perguntou à Mãe se não se tinha lembrado de convidar Nanda. Ela respondeu que não se esquecera – de maneira nenhuma! – mas que, apesar da muita insistência, a amiga lhe repondera que não podia ir.
Bela correu para o telefone e ligou a Nanda. Entre lágrimas descreveu-lhe, resumidamente, a “surpresa” que os pais lhe haviam preparado, e implorou à amiga que fosse para a quinta, que mandaria o motorista buscá-la.  Nanda recusou, meiga mas firmemente:
- “Sabes que te amo como a uma irmã, mas não me peças o impossível. A minha Mãe está com uma fortíssima crise de enxaqueca e não tenho coragem de a deixar sozinha nestas condições. Sabes como ela fica quando tem estas crises…”
Depois de todos os convidados terem partido, os pais disseram-lhe que no dia seguinte iriam levar a casa a tia Natércia – irmã da mãe, que vivia no Porto e viera à festa do seu aniversário – e que Bela poderia ficar lá uns dias, se quisesse.  Tinham-se apercebido de que a surpresa que haviam preparado para a filha em nada lhe tinha agradado, e pensavam compensá-la concedendo-lhe uns dias de liberdade.
Foi a melhor notícia que Bela recebeu nesse dia. A perspectiva de ir passar uns dias com a prima Filipa, filha da tia Natércia, de quem gostava muito, deu-lhe um novo ânimo.
Foram uns dias inesquecíveis.
No dia da chegada, Filipa convidou umas amigas para jantarem lá em casa. Foi uma reunião muito agradável e alegre. As amigas da prima eram muito simpáticas e acolhedoras, e logo ali combinaram fazer uma festa no dia seguinte na casa de uma delas, cujos pais se encontravam no Algarve.
Na noite seguinte lá estavam elas na casa da amiga, prontas para uma noite de farra. A casa, situada nos arredores, era enorme, com muitos quartos, salas, salinhas e saletas… Notava-se, à distância, que os donos da casa eram pessoas bem colocadas na vida, nada abaixo do nível dos pais de Bela.
Amigas e amigos começaram a chegar e em breve a sala estava repleta de jovens. Dançaram, cantaram, saltaram, comeram – havia, numa das salas, uma mesa posta com sandes e bolos, onde não faltavam bebidas alcoólicas.
A noite ia avançada quando alguém começou a distribuir uns “charros”, a que se seguiram outras drogas leves. Bela nunca tinha experimentado e não estava nada interessada. Na escola, desde os doze anos, sempre aparecia alguém a querer influenciá-la e iniciá-la nesse mundo que ela temia acima de tudo. Sempre resistira, e até àquela noite sempre tinha conseguido manter-se afastada.
Agora… a tentação era maior que nunca. Toda a gente eufórica, fumando e “cheirando”, com álcool à mistura… e ela ali, isolada, a sentir-se um ET. Filipa insistia:
- Vá lá, Bela, não sejas desmancha prazeres, é só hoje. Olha para mim, pensas que eu faço isto todos os dias? Nem pensar, é só muito raramente. Assim não se corre o risco de ficar viciado…
Bela acabou por ceder… e de pouco mais se lembra nitidamente. Recorda-se que todos acabaram espalhados pelos vários quartos. Ela própria acordou de madrugada ao lado de um jovem de que mal recorda as feições porque, ao reparar na cama desfeita, não teve dúvidas do que acontecera entre eles. E sentiu-se tão envergonhada que mal conseguiu balbuciar o seu nome – Bela – quando ele quis apresentar-se dizendo:
- Io sono Alessandro. E tu?...
Todos começaram a levantar-se e retirar-se, e em breve as duas primas ficaram sozinhas com a dona da casa, grande amiga de Filipa. Passaram o dia as três juntas. Bela não se sentia muito bem – as drogas que consumira, ainda que leves, provocaram-lhe um mal-estar geral. Acharam preferível só regressar a casa mais tarde, dando tempo a que se dissipassem os efeitos da noitada, e evitar preocupar a prima Natércia.
Mas as verdadeiras consequências de toda a irresponsabilidade dessa noite não se fizeram esperar. Pouco tempo depois…

Nanda reparou no ar ausente da amiga e perguntou:
- Vamos tratar da minha festa ou não?
- Claro que vamos. Portanto… fazes um lanche ajantarado… - sugeriu Bela
-Sim, mas uma coisa bem simples, e tem de ser em casa. Sabes que os meus pais não são ricos… não quero fazê-los gastar muito dinheiro. – apressou-se a esclarecer Nanda.
- Se tu não fosses teimosa… aceitavas que eu te oferecesse a festa como prenda de anos… - aventurou Bela – Gostava tanto!
- Não venhas de novo com essa conversa. Eu nem sequer me atreveria a dizer tal coisa aos meus pais. Acho que eles me mandavam internar – respondeu Nanda em tom alegre, tentando desviar o assunto.
- Eu entendo, por isso não vou insistir – respondeu Bela.
-Fazemos assim: um lanche ajantarado lá na garagem, com a presença dos amigos dos meus pais; a seguir a juventude segue para a discoteca, e os cotas continuam a festejar na garagem – disse Nanda com uma gargalhada. - Agora só falta pensar no que se há-de servir para o lanche. Como sabes a minha Mãe não tem prática dessas coisasna cabeça dela o que mais importa é o voluntariado. Não que eu tenha alguma coisa contra, nem pensar; mas às vezes até parece que para ela são mais importantes as pessoas a quem presta apoio do que eu ou o meu Pai… murmurou Nanda

- Não penses assim, querida. A tua Mãe é uma excelente pessoa, bondosa como poucas. É só olhar para as pessoas que ela visita, pessoas de condição muito baixa, verdadeiramente necessitadas. Algumas amigas da minha Mãe enchem a boca com essa cena do voluntariado, e vais ver quem elas visitam…  A tal da pobreza envergonhada, pessoas que já estiveram muito bem na vida e agora estão na mó de baixo… Mas diz-lhes para irem dar apoio a pessoas de condição mais humilde e logo vês a resposta que te dão – “não têm tempo”, “já visitam muita gente”, “não podem chegar a todo o lado”…
Digo-te, honestamente, gosto muito mais da acção da tua Mãe. – rematou Bela
- Eu sei, eu sei, só que às vezes nós sentimos um pouco a falta dela, entendes?
Bom, mas nós não viemos aqui para falar das boas acções das nossas Mães, certo? Então, continuemos…
- Claro! - Apressou-se Bela a concordar.
– Tu já sabes que podes contar comigo para tudo. Portanto, com o lanche não te preocupes. Entre nós todas, e com a ajuda da criada lá de casa (tu sabes que ela te adora…) não vai haver problemas.  Depois é só conseguir que o dono da discoteca reserve um espaço para nós. Afinal, ainda somos bastantes… talvez uns vinte, não?
- Ah, sim, à volta disso. Entre colegas e amigos lá da rua… deve ser mais ou menos esse número. A propósito, não me posso esquecer do Tó Zé, ainda não lhe falei no assunto… Sabes o que eu gostava mesmo? É que fosse num bar de praia… mas não sei se vamos conseguir…
- Vais ver que sim. Lembra-te que ainda faltam três meses, portanto temos tempo bastante para tratar do assunto. E talvez até seja mais fácil do que um espaço reservado numa discoteca… E… muito mais giro! Só pensar em estar a ouvir o barulho das ondas já me faz gostar da ideia. E depois… são os teus 18 anos, tem de correr tudo muito bem! – disse Bela, em tom confiante.
- É uma data histórica – riu Nanda. É já o princípio da maioridade.
E riram ambas alegremente.
Terminado o almoço combinaram encontrar-se brevemente e separaram-se com um apertado abraço.
A caminho de casa Nanda não parava de pensar no desconhecido com quem se cruzara.
“Que lindos olhos ele tem! Aliás… todo ele tem boa figura; mas os olhos chamam logo a atenção. Será que ele vai telefonar? O mais certo é que não o faça. Afinal, foi apenas um simples encontro… Um encontrão, melhor dizendo…Para além da “agressão física” - sorriu a este pensamento - nada mais houve digno de registo…”
Chegando a casa, depois de pôr a Mãe ao corrente do que tinha combinada com a Bela, foi agarrar-se aos livros. O fim do ano estava à porta e não queria dar à Mãe o menor motivo para que ela pusesse entraves à sua festa de aniversário.
Porém, não conseguia concentrar-se. O desconhecido de olhos azuis interpunha-se aos estudos, levando-a a olhar constantemente para o telemóvel, que se mantinha mudo.
Às cinco horas e cinco minutos Nanda deu um salto na cadeira ao ouvir o toque que já tinha desesperado de escutar.
Ficou paralisada, a olhar para o aparelho sem se mover, ouvindo-o tocar. Passados uns momentos o toque parou. Pouco depois tocou de novo.
Nanda olhou para o visor onde estava a indicação de “número desconhecido”. Pensou:
“Será ele? Ou algum daqueles chatos a fazer publicidade que não interessa a ninguém?”
Decidiu atender. O seu coração teve um sobressalto quando reconheceu a voz do desconhecido dessa manhã.
- Alô! – ouviu do outro lado. Como estás, cara mia?
Nanda ficou tão emocionada que nem conseguia falar. Afinal, ele tinha ligado…


Maria Caiano Azevedo 

sábado, 1 de junho de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS X


SEGREDOS – CAPÍTULO X



SEGREDOS – CAPÍTULO X

CAPÍTULO IX
“…Mas enfim, ela lá terá tido as suas razões para guardar segredo.
E… quem é que não guarda algum segredo da sua vida qua não revela a ninguém? Infelizmente sei-o bem, por experiência própria…”
Ruminando estes pensamentos acercou-se do prédio onde morava. O Tejo, pressentindo-a, começou logo a raspar o chão por detrás da porta… “

CAPÍTULO X
Nanda teve alguma dificuldade em abrir a porta tal era a ansiedade do Tejo do lado de dentro. Quando por fim conseguiu entrar quase era derrubada por ele. À manifestação de alegria juntava-se a necessidade de ir aliviar a bexiga; Nanda não perdeu tempo – foi de imediato buscar a trela e saiu rapidamente.
Tejo conhece perfeitamente o caminho para o parque. A pressa de lá chegar leva-o a quase arrastar Nanda, tal é a força que exerce sobre a trela. Não há como resistir. O melhor é deixar-se levar…
A verdade é que o pobre cão estava tão aflito que, mal se apanhou na rua, alçou a perna no arbusto mais próximo, não tendo já capacidade vesical para aguentar até à árvore que normalmente regava com os seus fluídos urinários. Agora, aliviado do mais urgente, continua com pressa de chegar ao parque. Ele lá sabe porquê… O seu faro não o engana, e emite-lhe sinais a longa distância.
Arrastada pelo animal, Nanda acabou por quase chocar com a vizinha do 1º.esquerdo, Adelaide, também ela dona de um canídeo, mas do sexo oposto.
A Diana era uma cadelinha que vivia apaixonada pelo Tejo, o qual correspondia, com fidelidade canina, a esse amor.
Feitos os cumprimentos, das donas e principalmente dos seus estimados animais, estes, com encostos de focinhos e outras expressões de afecto, preparavam-se para ir mais longe nas suas manifestações, mas foram severamente interrompidos pelas respectivas donas que, de momento, não estavam com disposição para lhes permitir grandes efusões.
Puxando-os com força pelas trelas conseguiram que se afastassem. Os pobres animais, contrariados, tiveram que obedecer, mas ficaram mirando-se um ao outro, com um ar muito desconsolado e infeliz.
Conversando animadamente Nanda e Adelaide tentam pôr a conversa em dia, pois, apesar de viverem no mesmo prédio há muitos anos, não se encontram com muita frequência.
Adelaide trabalha como recepcionista num consultório médico, das 13 às 21 horas, o que a faz regressar bastante tarde, com a maioria dos vizinhos já recolhidos em suas casas.
Dá-se bem com toda a vizinhança. É uma mulher muito simpática e gentil por natureza, e talvez o facto de ser bombeira voluntária, a faça ser ainda mais atenciosas com toda a gente.
Gosta muito de Nanda e não perde nenhuma oportunidade de conversar com ela. Por isso ficou muito contente quando a viu aparecer no parque “conduzida” pelo Tejo…
Caminhando lado a lado, cada uma com o seu animal firmemente preso pela trela, começam por falar do netinho da Nanda, que esta espera ter junto de si muito em breve.
Afastam-se para o lado para darem passagem a um grupo de crianças pequenas, em idade pré escolar, que seguem duas a duas, precedidas por uma educadora, que leva, segura pela mão, uma mais pequenina. A fila de meninos e meninas termina com a presença de uma outra adulta, que, na retaguarda, presta atenção para que nenhuma se desvie. Parecem um bando de pardais, nos seus bibes coloridos, chapelinhos a condizer, falando alto e rindo alegremente.
Nanda olha-os, extasiada, e comenta:
- Adoro crianças! Não me importaria nada de trabalhar numa Escola Infantil…
- São realmente encantadoras. Eu também gosto muito. – responde Adelaide - Mas não estou a ver a Nanda, com a sua formação escolar, enfiada numa escolinha… Penso que depois de algum tempo sentiria a falta de algo mais desafiante…
- Pois fique sabendo que, quando fiz a Faculdade, ainda hesitei entre “Gestão e Administração”, que foi o que segui, e o “Ensino”. Sempre tive esta paixão, desde muito nova.
- Não fazia a mínima ideia… Sempre a vi como uma mulher de negócios – comentou Adelaide com um sorriso.
- Na vida temos que fazer opções… e eu, para o bem e para o mal, decidi-me pela parte dos negócios. Mas pode haver alguma coisa mais importante do que ver desabrochar a mente de uma criança? – respondeu Nanda, com um ar de encantamento.
- Bem, visto por esse prisma… até parece bastante aliciante… - Adelaide olha para Nanda como se a visse pela primeira vez.
- Pode acreditar que é. Uma criança é um projecto de vida, no qual o professor pode ter - e tem! - uma importância enorme!
- Sim, sem dúvida. Embora eu seja uma leiga no assunto, penso que ao professor cabe a tarefa de moldar esse projecto… - adiantou Adelaide.
- Não concordo, minha amiga. Isso seria muito fácil. Já Bernard Shaw, que faleceu em 1950, com 94 anos de idade, deixou escrito: - O mais vil deformador é aquele, que tenta moldar o carácter de uma criança.   
Uma criança é um ser muito importante, ainda em desenvolvimento. Cabe ao professor, não moldar o projecto que a criança representa, mas sim fornecer, a cada uma, todos os meios necessários para que ela própria consiga moldar-se a si mesma, e construir o seu caminho.
- Nanda, minha amiga, isso não me parece nada fácil…
- Não, não é fácil, mas para que a criança possa vir a ser uma pessoa livre, com capacidade para escolher o que quer fazer na vida, que saiba dizer sim e dizer não… é preciso que o professor lhe forneça as ferramentas necessárias. Porque não há duas crianças iguais, não há um molde que sirva a todas… - Nanda falava com um ar sonhador.
- Deixe-me dizer-lhe uma coisa: a Nanda sabe que eu gosto muito de falar consigo, e nunca perco uma oportunidade de o fazer. Mas… hoje, particularmente, estou a adorar ouvi-la. Está a fazer-me ver as coisas duma maneira nova, que me agrada muito. Até parece que estou sentadinha na escola lá da minha aldeia onde passei a infância, e onde a professora era uma senhora que respeitávamos muito – Adelaide ostentava um sorriso de satisfação.
- Fico muito contente por ouvir isso, Adelaide. Antigamente havia pelos professores um respeito muito grande. Hoje as coisas são muito diferentes.
No tempo da minha Mãe, por exemplo – segundo ela me contava – as crianças só iam para a escola quando tinham sete anos. Muito excepcionalmente poderiam ir – se o professor concordasse – quando tinham seis anos, se completassem os sete até ao dia 31 de Dezembro. Aos poucos foi-se encurtando a idade; quando eu fui para a escola primária já o fiz com seis anos; presentemente os encarregados de educação podem requerer a matrícula no primeiro ano, para as crianças que completem os seis anos até ao fim do ano, ou seja, podem entrar para a escola com cinco anos.
Isto parece-me um absurdo. Quando é que as crianças têm tempo para ser crianças? Aliás, elas vão para os infantários quase que acabadas de nascer…
Eu percebo que a vida que se vive actualmente exige que os dois pais trabalhem para sustentar a casa. Isso reverte em desfavor dos filhos que não podem ter, da parte dos pais, o acompanhamento que tão necessário é, especialmente durante o período de formação das crianças. Essa tarefa, tão importante, e que deveria ser exercida pelos pais – volto a frisar – é relegada para os professores. Estes, por sua vez, não têm, normalmente, condições para ensinar, educar, e formar. Turmas com um número exagerado de alunos, horários demasiado carregados – tanto para alunos como professores – resultam em completa exaustão para os professores e saturação para os alunos. E, claro, o aproveitamento escolar não é, muitas vezes, o mais desejável.
 Nanda foi interrompida por Adelaide:
- É fantástico o ar sonhador com que a Nanda fala…
- Talvez porque, enquanto lhe enchi a cabeça com tanta conversa – respondeu, sorridente – eu estava a imaginar-me no papel de professora. E, para além de um profissional competente, independentemente da matéria que ensina, o professor tem que ser um sonhador.
- Um sonhador? – estranhou Adelaide
- Sim, A educação sem sonho nunca será satisfatória para nenhum dos intervenientes. A escola, logo de início, é invadida pelos sonhos das crianças, os alunos. E o professor que não saiba acompanhá-los nesses sonhos… jamais será um verdadeiro professor…
Embaladas pela conversa nem se aperceberam que já tinham percorrido a distância entre o parque e a casa onde moravam.  
Despedindo-se, Adelaide subiu para o 1º.andar e Nanda entrou no rés-do-chão, de novo puxada pelo Tejo, desta vez ansioso por matar a sede.
Ainda no hall de entrada pareceu-lhe ouvir a voz do vizinho do 2º.andar esquerdo, o Joaquim, um viúvo dos seus 60 anos, que adora implicar com Adelaide, e até parece estar sempre de tocaia, esperando que ela apareça.
Nanda sorri pensando, como sempre, que ali anda paixão encoberta…
Seguindo o exemplo do Tejo também ela vai saciar a sede e, cansada do longo passeio, sentou-se no sofá da sala, rememorando a conversa que tivera com Adelaide. Como consequência lógica, lembrou-se de Alessandro e das vezes que com trocara impressões sobre o mesmo assunto. Mas isso só aconteceu algum tempo depois de se conhecerem…
***
[Depois do “encontrão” que lhes permitiu o primeiro contacto, Alessandro insistira com Nanda para que fosse jantar com ele…
- Por quem me tomas tu? Achas que eu ia aceitar jantar com uma pessoa que acabei de conhecer, que, além do mais, me ia quase matando?
- Mas que exagerada! Apenas te dei um lieve tocco, e tu já falas em mortos e feridos? Mamma mia! - Alessandro falava com o seu forte sotaque italiano, agora com um misto de espanto e indignação.
- Ligeiro encosto? Tu tens cá uma lata! Imagina tu a deitares-me ao chão com o encontrão que me deste… Eu podia ter caído, e esse teu corpanzil em cima desta frágil criatura… esborrachavas-me, tenho a certeza. – Nanda parecia querer esticar a conversa, sem ela própria entender bem porquê. Alguma coisa a fazia reter naquele lugar…
- Mais um exagero teu- Essa tua fragilidade é só aparente, pois pareces-me uma pessoa até muito forte. – respondeu Alessandro, continuando: Mas não respondeste ao meu convite… Aceitas jantar comigo? Se não quiseres jantar… pode ser almoço. Vá lá! Será uma forma de me redimir de qualquer dano que te possa ter causado.
Nanda não respondeu de imediato. Se a razão lhe dizia que não devia aceitar… qualquer coisa a impulsionava a dizer sim. Para desviar o assunto declarou:
- Eu vou encontrar-me com uma amiga, que foi à Universidade, para irmos almoçar. E ela já se aproxima… portanto, adeus!
- Addio no! Per favore! Acabo de ter uma ideia: Porque não almoçamos os três? – sugeriu, rapidamente, Alessandro.
- Mas tu és sempre assim, tão persistente? Não, não podemos almoçar os três. Tenho assuntos particulares a tratar com a minha amiga.
- Claro! Desculpa o meu atrevimento – disse ele, com ar contrito.      Mas não me afasto de ti enquanto não prometeres jantar comigo – acrescentou, adoptando um ar suplicante.
Nanda sentia grande dificuldade em resistir-lhe. Resolutamente arrancou uma folha do bloco de notas que trazia consigo, e escreveu o seu número de telefone. Entregou-lha, dizendo:
- Telefona-me!
E afastou-se rapidamente, sem olhar para trás, mas pensando: “Será que ele vai telefonar?”
Bela aproximava-se em passo ligeiro, pelo que, em poucos minutos, estavam juntas.
- Tenho todas as informações de que precisamos – disse Bela, depois de se terem abraçado e beijado efusivamente, como era habitual nelas.
- E anotaste tudo para eu ver, espero…
- Não, não anotei nada, e já me esqueci de tudo – respondeu Bela, com uma gargalhada.
- Que engraçadinha! Só não levas já um tabefe porque estou muito bem-disposta…
- Na verdade estás muito sorridente. O que te aconteceu? Ganhaste na lotaria? – perguntou Bela.
- Mais ou menos – respondeu Nanda, com um sorriso de orelha a orelha. Conheci um príncipe encantado…
- E isso aconteceu-te enquanto vinhas ao meu encontro? Não sabia que os príncipes encantados andavam por aí “à fartazana”… Onde foi que o encontraste? – perguntou Bela. Quero ir já a esse sítio para ver se encontro algum para mim…
- Ao virar da esquina. Deu-me um encontrão que quase me derrubou… - informou Nanda, sorridente.
- Imagina se em vez de um príncipe fosse um “ gigante encantado” – comentou Bela, com uma gargalhada.
- Não, não era um gigante, mas era bastante alto. Foi a mais linda visão que já tive… Uns olhos azuis do outro mundo – respondeu Nanda, com um ar sonhador.
- Muito me contas… E, pelos vistos, o senhor Cupido andava pelas redondezas…
- És completamente parva! Achas que o “VER-TE E AMAR-TE FOI OBRA DE UM MOMENTO” liga comigo? – perguntou Nanda.
- Realmente… não é costume… Tu até és muito esquisitinha, bem difícil de contentar … Mas, como para tudo há uma primeira vez, quem sabe se a tua “primeira vez” não é esta? - Bela continuava a rir.
- Vai gozando, que logo ajustamos contas – Nanda aderiu à brincadeira.
Conversando alegremente e caminhando num passo estugado, em breve chegaram ao restaurante. Sentaram-se, fizeram o pedido, e começaram logo a falar do assunto que as levara a almoçar juntas.]
***
O toque do telefone interrompeu os seus pensamentos. Contrariada, Nanda levantou-se e viu, no visor, que a chamada era do Tó Zé. Naquele momento teria preferido continuar a recordar o passado tão distante. Já haviam decorrido 30 anos! Mas na sua memória tudo continuava muito nítido, como se o estivesse vivendo de novo…
Clicou no “atender” e ouviu do outro lado a voz inconfundível do seu ex-marido:
- Por onde anda a flor mais linda do meu jardim, que demorou tanto tempo a atender?
Nanda sentiu um friozinho na barriga ao ouvir aquela voz carregada de mel…

Maria Caiano Azevedo

quarta-feira, 1 de maio de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS IX


SEGREDOS – CAPÍTULO IX

 
“- Realmente, não se compreende que uma pessoa, com formação superior, especialmente na área de gestão financeira, tenha tanta dificuldade em arranjar trabalho…
Foi ao ouvir isto que eu pensei:
- Ora aí está a pessoa que eu procuro! “

SEGREDOS – CAPÍTULO IX

“Como eu não disse nada, ele continuou:
- O que se passa é que eu regressei há pouco do estrangeiro onde tenho vivido. E, como tive a sorte de a vida me correr bem, consegui fazer umas economias que pensei aplicar na terra onde fui criado, ou seja, esta onde nos encontramos.
Tenho feito várias diligências no sentido de abrir um negócio. Para isso, obviamente, vou precisar de pessoas que colaborem comigo. Uma, pelo menos, terá que ser bem qualificada para poder ficar à frente do negócio sempre que eu tiver que me ausentar, o que, em princípio, acontecerá, pelo menos, uma vez por mês.
- E o Sr. Engenheiro já tem alguma coisa em vista? Algum negócio… quero eu dizer…
-Antes de mais nada, por favor, acabe com esse tratamento de Sr. Engenheiro… - disse ele rapidamente.
- Mas… - eu ia justificar-me, mas ele interrompeu:
- A não ser que exija que eu a trate por Sr.ª Doutora… o que, noutras circunstâncias, seria perfeitamente justo até porque, tanto quanto me apercebi, as suas qualificações são maiores do que as minhas…
- Isso eu não sei… Mas não, de modo algum, não gosto que me tratem por doutora. Eu até me esqueço que tenho um canudo – respondi com um meio sorriso, involuntário.
- Eu compreendo-a, mas olhe que às vezes é bom não o esquecer. Infelizmente há pessoas com quem contactamos que têm tendência para abusar, e é preciso pô-las no seu lugar – dizia isto com um ar meio ausente, como se estivesse a lembrar-se de algo acontecido. Depois continuou, com toda a naturalidade:
- Então… esse pormenor da “doutora” e do “engenheiro” já está ultrapassado. Tratamo-nos por você, e apenas pelo nome. Concorda?
- Não vejo inconveniente…
- Sendo assim, Nanda, - posso trata-la assim ou prefere Fernanda?
- Nanda está perfeito. São tão poucas as pessoas me tratam por Fernanda que até me esqueço que é esse o meu nome… - respondi eu, meio a sorrir.
- Então… Nanda, podemos falar de negócios? – agora o seu tom era cem por cento profissional.
- Podemos, sim, embora eu tenha que analisar muito bem a sua proposta – que o senhor ainda não fez – e só depois disso lhe darei uma resposta – respondi eu, na defensiva.
- Ai, ai, ai… “o senhor”? Então não combinámos tratarmo-nos pelo nome? Trate-me por Araújo. O meu nome é Fernando Manuel Carvalho Araújo, mas gosto que me tratem simplesmente por Araújo.
- Tudo bem, Araújo. Posso então saber qual é a sua proposta? – perguntei, também em tom completamente profissional.
- Bom, Nanda, por enquanto não posso adiantar muito. Eu quis contactá-la já apenas para a pôr de sobreaviso, não fosse aparecer-lhe alguma oportunidade de trabalho, e eu perder a sua colaboração. O que posso dizer para já – e peço-lhe que não faça uso desta informação, pois, como sabe, o segredo é a alma do negócio – acrescentou com um meio sorriso – eu estou em negociações com o dono da ourivesaria do Centro Comercial, a “Orvalho de Ouro”, no sentido de ele me vender tudo, isto é, o espaço (a loja é dele) e o recheio. A dificuldade de acerto está em que ele é também dono da outra ourivesaria, a “Orvalho de Prata”, e não quer desfazer-se de uma separadamente da outra…
Como a Nanda pode calcular desse modo o investimento seria enorme, e eu tenho um certo receio de que não compense… Está em jogo um valor bastante avultado… e em negócios é preciso ter os pés bem assentes na terra…
- Tem toda a razão, é preciso ponderar bem e não se atirar de olhos fechados – respondi.
- No meio de tudo isto a certeza que eu tenho é que, se a Nanda aceitar trabalhar comigo, terá uma remuneração condigna. Mas como eu não faço caridade – acrescentou, meio a sorrir - as suas responsabilidades também serão grandes… Eu pago bem mas exijo… - frisou
Eu apenas respondi:
- Parece-me justo. Nem eu me sentiria bem a receber o que não merecesse…
- Eu tinha razão quando pensei em apostar em si. Algo me dizia que a Nanda era a pessoa certa para tomar conta do meu empreendimento.
De qualquer modo, se o negócio da ourivesaria não se concretizar, já tenho outra coisa debaixo de olho…
E rematou:
- Por agora ficamos assim. A Nanda vai pensando na hipótese de que lhe falei, vai amadurecendo a ideia, e logo que eu tenha algo de concreto – que espero não demore muitos dias – voltamos a contactar. “
- E pronto. Cumprimentou-me e foi-se embora. Ah! – acrescentou Nanda com um sorriso – e pagou os cafés…
Bela, fazendo o gesto de bater palmas, aplaudiu, em silêncio, muito séria. Depois disse, tentando disfarçar o tom manifestamente ciumento:
- Aplausos para a doutora Fernanda, que conseguiu conquistar um desconhecido!
- Porque é que eu vejo nas tuas palavras um mal disfarçado ciúme? – perguntou Nanda, em jeito de comentário.
- Ciúmes, eu? Estás a precisar de pôr óculos! – Bela falava num tom meio desabrido – O que me espanta é como uma mulher com quase cinquenta anos (e acentuou o “cinquenta), mãe de filhos e agora com um neto, com tanta experiência de vida, ainda vai em cantigas…
- Oh minha menina (Bela tremia cada vez que a amiga se lhe dirigia tratando-a por “minha menina”, pois isso só acontecia quando ela estava verdadeiramente zangada) em primeiro lugar eu não tenho cinquenta anos – e ninguém me dá os quarenta e sete que tenho, essa é que é a verdade. Depois… tu não estavas lá, não conheces o Araújo, não assististe à conversa… portanto, não vejo com que fundamente falas em “cantigas”…
Bela emudeceu. Acabava de receber uma reprimenda da sua melhor amiga, e o pior é que o raspanete era mais que justo. Nanda agira com toda a correcção – nada havia a censurar no que lhe contara da conversa com o engenheiro. Sentia-se aborrecida consigo mesma por ter dito aquelas barbaridades. Tinha que reconhecer que fora apenas o ciúme que a levara a falar assim. A verdade é que, no fundo, nunca perdera a esperança de que Nanda fosse trabalhar na empresa do seu pai, e assim passassem a maior parte do tempo juntas. E agora esse sonho começava a esfumar-se e perder-se no horizonte.
Bela não tinha muitas amigas, e nenhuma se comparava a Nanda, desde sempre a sua melhor amiga. Juntas na escola primária, assim tinham continuado no liceu e depois na universidade.
Tinham muitos pontos em comum. Ambas eram filhas únicas; gostavam imensos das mães, mas… adoravam os pais. Preferiam a praia ao campo; o seu ideal de lazer era passado à beira mar. Nas férias, enquanto os pais de Bela não iam para a quinta, passavam as tardes deitadas na areia, a bronzearam os belos corpos juvenis, dando mergulhos de vez em quando para se refrescarem. Até tinham tirado o mesmo curso, de tal modo os seus gostos eram comuns. Só no trabalho é que sempre tinham estado separadas.
Logo que se formaram Bela foi trabalhar para a empresa do pai, não tendo conseguido convencer a sua amiga a seguir-lhe o exemplo. Nanda recusou.
Naquela altura até compreendeu e não insistiu. Quando acabaram o curso a amiga já estava casada e tinha um bebé de três anos, o Miguel. Casara quase em segredo com o Tó Zé, uma decisão repentina que ela não entendera muito bem… É certo que eles eram grandes amigos mas Bela nunca sentira que entre eles houvesse mais do que amizade – pelo menos por parte da Nanda.
Tó Zé e Nanda conheciam-se quase desde que tinham nascido, viviam na mesma rua, brincavam juntos, foram colegas na Primária, e aí separaram-se. Ele não era muito dado a estudos; preferiu seguir um curso profissional, qualquer coisa relacionada com química, o que o levou a afastar-se um pouco da amiga de ambos, Bela. Contudo continuou a conviver com Nanda, com quem falava praticamente todos os dias. 
Apesar disso aquele casamento inesperado surpreendera-a bastante. É certo que às vezes Nanda lhe contava que o Tó Zé lhe dissera que a amava, que nunca iria encontrar ninguém que gostasse dela como ele… e coisas desse género. Mas ela levava tudo isso à conta de brincadeira, não lhe atribuindo qualquer importância. Até porque ele dizia essas coisas mas nunca tivera qualquer gesto tentando uma maior aproximação.
Afinal… um dia, por telefone, Nanda comunicara-lhe a sua decisão de se casar com o Tó Zé. E, apesar do seu espanto perante tal notícia e pedido de justificações, Bela não obteve da amiga qualquer resposta que a elucidasse. Apenas soube que tudo estava decidido e que o casamento se realizaria dentro de poucos dias.
Soube, depois, que fora uma cerimónia simples, apenas no Cartório, com a presença dos pais e testemunhas. Ela própria, a sua melhor amiga, não tinha estado presente. É certo que, na altura, encontrava-se com os pais na quinta, onde eles passavam sempre dois meses, de meados de Agosto a meados de Outubro. E de nada valeu Bela insistir para que Nanda aguardasse o seu regresso à cidade. Ela mostrava-se decidida a casar-se o mais rapidamente possível, como se disso dependesse a salvação do mundo.
Já passaram muitos anos, mas ainda me lembro que, da única vez que lhe perguntei o porquê daquele casamento, Nanda me respondeu: Por favor não me faças perguntas a que não posso responder-te”
Agora Bela olhava para a amiga que mostrava um rosto fechado, verdadeiramente aborrecida com as suas palavras. Raramente se zangavam, e eram sempre arrufos “de pouca dura” (1). Mas desta vez Bela ultrapassara os limites e Nanda não parecia disposta a perdoar facilmente.
- Sinto-me tão mal com o que te disse… Sei que é difícil perdoares-me… mas, por favor, não fiques zangada comigo. Sabes que não o suporto… - havia lágrimas na voz de Bela.
Nanda também não se sentia bem por ter levado tanto a peito o que a amiga dissera. Ela própria não entendia o porquê do seu desagrado. Afinal… a sua amiga não dissera nada assim tão grave. Sentia-se mesquinha, e isso incomodava-a. A verdade é que andava com os nervos à flor da pele. Eram coisas a mais a acontecerem ao mesmo tempo. Mas não podia deixar que isso interferisse na sua amizade. Respirou fundo e, com um sorriso contristado, respondeu:
- Vamos passar uma borracha sobre tudo isto. Eu também reagi exageradamente. No fundo eu sei que não falaste por mal…
Apertaram as mãos por cima da mesa e, mais sorridentes, sentiram-se, de repente, esfomeadas.
- Vamos a um restaurante ou comemos aqui mesmo? – perguntou Bela
- Sabes que para mim uma salada é suficiente. E eles aqui têm-nas muito boas… - respondeu Nanda.
- Tu e as saladas… Sempre a preocupação com a linha… Como se precisasses, com esse teu corpinho escultural – Bela falava com carinho e admiração.
- Se não fosse a minha preocupação onde é que já ia este corpinho escultural!, como tu dizes – riu Nanda.
- Digo eu e diz qualquer pessoa que olhe para ti com olhos de ver. Garanto-te que ninguém adivinha que já foste mãe duas vezes… -insistiu Bela.
- Nem que tenho quase cinquenta anos? – Nanda brincou com a anterior frase da amiga, mostrando assim que não estava nada ressentida.
- Não me faças envergonhar mais… Como pude ser tão parva e injusta contigo? – Bela mostrava-se verdadeiramente contrita.
- Vamos pedir e comer em paz? – propôs Nanda.
- Boa ideia! – Bela chama o empregado e encomendam o almoço.
Enquanto comem vão conversando amenamente. Por fim é chegado o momento de se separarem. Despedem-se com um abraço apertado, como é habitual entre elas. No abraço de hoje sentem que não há entre elas o menor ressentimento pelo que aconteceu, o que constitui para ambas um enorme alívio. Amigas há tanto tempo só muito raramente tiveram discussões com verdadeiro azedume, como hoje.
- Ainda vou passar pelo escritório para assinar uns documentos que deixei com a minha secretária – informa Bela, à laia de despedida.
- E eu tenho o meu secretário Tejo à minha espera para ir dar um passeio – respondeu Nanda, rindo.
Afastaram-se seguindo direcções opostas.
Bela, rememorando o que acontecera nessa manhã e pensando como fora desagradável com a sua amiga, sentia-se mal consigo mesma.
“Conhecemo-nos há tanto tempo que cenas destas são inconcebíveis. A minha reacção não tem desculpa. A Nanda é para mim como uma irmã, a irmã que tanto desejei e nunca tive. A vida dela é para mim como um livro aberto. Bem… totalmente aberto não será… Até hoje ela não me contou o que a levou a casar-se com o Tó Zé, demais a mais com aquela urgência toda. A mim ninguém me convence que ali havia amor, pelo menos da parte da Nanda; já ele sempre viveu apaixonado por ela, desce criança. Mas isso não justifica um casamento.
É certo que ela engravidou logo a seguir… mas até isso me pareceu estranho. Era tão nova… Cheguei a pensar que já tinham tido “alguma coisa” antes do casamento… Isso explicaria toda aquela pressa… Mas se fosse isso ela não me contava? Sempre achei tudo muito misterioso.
É a única coisa em que sinto que Nanda não foi totalmente franca comigo. Mas a verdade é que isso nunca interferiu na nossa amizade.
Enfim… quem é que não guarda algum segredo da sua vida qua não revela a ninguém?”
Embrenhada nestes pensamentos, sem se aperceber, tinha chegado à porta da empresa.

Nanda caminhava apressadamente. Já passava das três horas e o pobre Tejo devia estar aflito para ir dar o seu passeio higiénico. Entretanto veio-lhe à ideia o acontecido no café onde passara a manhã com a sua amiga.
“Que reacção tão intempestiva, a da Bela! Eu sei que o sonho dela era que trabalhássemos juntas, e Deus sabe que era também o que eu mais gostaria. Mas, onde ela trabalha, na empresa do pai, é que nunca! Claro que ela nem sonha qual o motivo que me tem feito sempre recusar os seus convites … E por mim jamais o saberá.
Afinal… conhecemo-nos há tantos anos! - Quarenta? Sim… mais coisa menos coisa… - somos como duas irmãs (que há irmãs que se dão pior do que nós…) e no entanto nunca consegui contar-lhe esse segredo.
A verdade é que eu também tenho vivido há mais de vinte anos, com a sensação de que a Bela guarda um segredo que nunca me quis contar. Aquela ausência tão prolongada… na altura do meu casamento, sempre me deixou desconfiada. E não me convenceu a conversa de que estava a acompanhar a mãe que, por desavenças conjugais, resolvera fazer umas férias no estrangeiro.
Ná! (2) Pareceu-me uma desculpa muito esfarrapada.
Mas enfim, ela lá terá tido as suas razões para guardar segredo.
E… quem é que não guarda algum segredo da sua vida qua não revela a ninguém? Infelizmente sei-o bem, por experiência própria…”
Ruminando estes pensamentos acercou-se do prédio onde morava. O Tejo, pressentindo-a, começou logo a raspar o chão por detrás da porta.
(1) - Que acaba muito depressa.
(2) – Ná = Não

Maria Caiano Azevedo