domingo, 20 de dezembro de 2020

EM TEMPO DE NATAL

 POR FALAR EM NATAL…


Ao virar da esquina dou de caras com a Nanda.

Ao virar da esquina? Mas qual esquina, se eu não saio de casa? Há aqui qualquer coisa que não bate certo…

Com um ar prazenteiro, ao ver-me, o seu rosto iluminou-se num enorme sorriso – muito sorri e ri esta mulher!!!

Até aqui tudo bem… A Nanda é mesmo assim – muito risonha. O melhor que tenho a fazer é ficar na minha. Aguardar.

Aproximando-se rapidamente apertou-me num forte abraço.

Afasto-me apressadamente, repreendendo-a:

- Estás a esquecer-te da Covid? Onde está o respeito pela distância social?

Em resposta deu uma forte gargalhada:

- És mesmo pateta! Então não vês que é um abraço virtual? Desses podes dar e abusar!

Fiquei sem fala. Como é que eu não me tinha lembrado disso? Pois é. Abraços, beijos, toda a espécie de carinhos, desde que sejam virtuais, não contagiam ninguém.

Resolvo entrar na brincadeira. Afinal, que tenho eu a perder? Se tudo isto é virtual, não corro nenhum risco, mesmo que saia de casa. Virtualmente claro!

Esta Nanda tem uma grande cabeça!

Depois de acalmar o riso ela continuou:

- Ainda bem que te encontro. Queria muito falar contigo sobre um assunto que me preocupa.

Fico feliz. Afinal, falo com ela apenas uma vez por mês. Qualquer conversinha extra é sempre bem-vinda.

- Pois se te preocupa diz já. Sabes bem que estou sempre pronta a ouvir-te.

- Sim, eu sei. É assim: Eu ando muito cansada!

Foi então que reparei bem no seu aspecto e vi que, de facto, não aparentava aquele ar fresco que lhe é habitual. À primeira vista eu não tinha notado. Nanda costuma andar sempre tão bem arranjada como se tivesse acabado de sair do instituto de beleza.

Foi, pois, com a maior compreensão que a incentivei a desabafar.

- E a que se deve todo esse teu cansaço?

- Às gravações. Têm de acabar! Já duram há mais de um ano. Por isso… vamos apressar o fim. Não faças esse ar… Eu sei que há muitas coisas que se poderiam ainda contar… Mas eu já não aguento mais.

- Ah! Então tu queixas-te de cansaço por falares para o microfone. E eu, que tenho de ouvir e escrever tudo o que tu dizes, não tenho motivos para estar cansada?

- Cada um sabe de si, minha querida Mariazita. Se quiseres acrescentar alguma coisa da tua autoria… é contigo. Tu conheces a minha história tão bem como eu. Por mim, já decidi: vou esquecer tudo o que ainda poderia dizer sobre o pai da Bela, sobre a minha vizinha Carla (que também tem os seus segredos); e sobre o Araújo (que não é o santinho que parece… mais um segredo). Tudo isso… esquece!  Enfim, prepara-te para os “finalmentes”.

- Tudo bem, minha querida, tu é que sabes, a história é tua.  Acaba-la quando e como quiseres. Os “finalmente” vão ser muito demorados?

- Penso que em dois ou três capítulos conseguimos chegar ao fim.  E tu, meu anjo, não ficas zangada comigo?

- É claro que não!

- Então posso pedir-te um favor?

- Evidentemente que sim!

- Gostava de desejar MUITO BOAS FESTAS aos teus visitantes, comentadores ou não, e agradecer-lhes a paciência que tiveram para ouvir a história da minha vida. 

 

 

Fico a olhar para o ecrã à minha frente e assalta-me uma dúvida:

- A Nanda esteve mesmo aqui a falar comigo? Ou tudo não passou de um sonho?

Seja como for… e já que aqui estou... aproveito para vos desejar

UM NATAL MUITO FELIZ, COM MUITA PAZ, MUITA SAÚDE E ESPERANÇA NUM ANO MELHOR

 

Maria Caiano Azevedo

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XXVI

 SEGREDOS – CAPÍTULO XXV

“… Sentiu um zumbido fortíssimo nos ouvidos; depois tudo escureceu à sua volta. Começou a cambalear. Foi apoiada por Luís que a transportou em braços, desmaiada, para o sofá…”


 SEGREDOS – CAPÍTULO XXVI

Momentos depois, voltando a si, Nanda olhou para os rostos que a fixavam, ansiosos. Recompondo-se, murmurou:

- Desculpem! Tive uma quebra de tensão, com certeza. E acrescentou, com um sorriso: Que hora tão imprópria para isto me acontecer!

Dirigindo-se a Giuliana abraçou-a, com disfarçada emoção, dizendo:

- É um prazer muito grande conhecer-te e receber-te na minha casa. Espero que te sintas cá bem…

Giuliana deu-lhe um sonoro beijo abraçando-a com força.

- Tenho a  certeza de que me vou sentir como se estivesse na minha casa. Depois das coisas que o Miguel me contou não podia ser doutra forma – respondeu, reforçando o abraço. Ao estreitarem-se sentiam-se como se se conhecessem há muito tempo.

 Como que para aliviar o alvoroço que sentia dentro de si, Nanda alvitrou:

- E se fossemos lanchar? A comida que servem nos aviões não presta para nada.

Dirigiram-se à cozinha. Acompanhado por um odoroso chá saborearam o bolo, que todos elogiaram, dizendo que estava uma delícia.

Luís falou, com mal disfarçado orgulho, do seu pequeno rebento, ao mesmo tempo que justificava a ausência de Catarina:

– O Nani está ligeiramente constipado, e por esse motivo a mãe ficou em casa cuidando dele. Por isso é que eu gostava que vocês fossem lá jantar, para o conhecerem. E à Catarina também, claro.

Miguel pôs a mão sobre o ombro do irmão e desculpou-se:

- Não leves a mal, mano, mas, se não te importas, vamos deixar isso para quando voltarmos do Porto. Só lá vamos passar uma semana, e depois ficamos cá quase dois meses. Teremos muito tempo para nos encontrarmos. E hoje estamos muito cansados, levantámo-nos muito cedo…

- Eu compreendo, mano. A minha ansiedade é que é muita… Vamos guardar para quando vocês regressarem, sim.

À tardinha Luís despediu-se renovando a lembrança  de que se reuniriam todos, incluindo a Catarina e o bebé, quando o Miguel e Farida, regressassem do Norte.

Aproveitaram o dia seguinte, Sábado, para mostrarem a Giuliana onde se situava a Torre do Tombo, que ela passaria a frequentar a partir de Segunda-Feira. De seguida foram ao Centro Comercial, conheceram a Ourivesaria onde Nanda trabalhava, e almoçaram num restaurante lá mesmo, no Centro. De seguida voltaram para casa. Sentiam-se extenuados, a precisar de repouso, até porque no dia seguinte, Domingo, logo de manhã, continuariam viagem para o Norte.

E assim foi. Miguel  e Farida dirigiram-se à Gare do Oriente, onde apanharam o comboio para o Porto.

A viagem decorreu lindamente, e, após duas horas e quarenta minutos encontravam-se na Estação de Campanhã, onde o amigo, André, os fora esperar.

Depois dos cumprimentos da praxe Miguel  pegou no telemóvel e ligou para a mãe.

Nanda, depois de se informar sobre como tinha decorrido a viagem, disse:

- Meu filho, a tua vinda cá foi talvez a melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos. Mas, a par de toda a felicidade que senti, houve aquela minha quebra de tensão que parece ter afectado o meu raciocínio…

- Que disparate, mãe! Porque é que estás agora com essa conversa? Não te sentes bem? Se assim é voltamos já para trás… na verdade tínhamos feito melhor ficando ao pé de ti…

- Nem penses tal coisa, filho! Eu estou perfeitamente bem. Só que estava aqui a pensar que vocês não tinham nenhuma necessidade de ir de comboio, estar sujeitos a horários e todas essas maçadas… Podiam muito bem ter levado o meu carro. Afinal, ele está enfiado na garagem, não o levo para o emprego, só o uso ao fim de semana para ir às compras…

- Não, mãe, de maneira nenhuma! Viemos perfeitamente bem …

- Eu sei que esses comboios são muito confortáveis, mas, se tivesses levado o meu carro vocês tinham outra independência. Só que… lá está, eu fiquei tão desmiolada que nem me lembrei de falar nesse assunto…

- Olha, mãe, não penses mais nisso. Agora tenho de desligar, que o André está à espera. Ligo-te mais tarde. Um beijinho da Farida, e meus, muitos, muitos…

E, dizendo isto, desligou o telemóvel, pondo fim à conversa.

 

Embora fosse Domingo e, portanto, “dia de família”,  Nanda desculpara-se junto de Catarina por não ir lá almoçar, como habitualmente, porque achou que talvez a Giuliana não se sentisse muito à vontade. Afinal, ela tinha acabado de chegar a um país estranho e de a conhecer. E a verdade é que ainda havia muito tempo para ser apresentada à restante família.

Depois que o filho e a nora se despediram Nanda ajudou Giuliana a instalar-se no quarto onde dormira o casal, e depois foram ambas descansar um pouco, pois era ainda bastante cedo.

Nanda perdia-se nos seus pensamentos.

Miguel nada lhe dissera acerca de Giuliana para além de que era uma amiga muito querida, que andava sempre com ele e Farida, e se tinham conhecido na Universidade onde todos trabalhavam no departamento de investigação.

O resto ela própria teria de descobrir.

Passaram o dia juntas. Nanda conseguia aparentar uma calma que na verdade não sentia, pois olhar para a sua nova amiga fazia-a retroceder no tempo e voltar a sentir-se nos braços de Alessandro, tal era a semelhança daqueles olhos profundamente azuis com os dele. Tinha de saber de “quem” ela os herdara. Contudo, todo o cuidado seria pouco  para não se denunciar. Havia, entre elas, uma grande empatia, o que lhe provocava uma certa calma.

Felizmente o português de Silvana, que aprendera com o pai e aperfeiçoara com Miguel e Farida, era bastante razoável. Entenderam-se perfeitamente.

Rodeando as perguntas, Nanda ficou a saber que Giuliana nascera na Itália, e aí estudara e crescera. Mais tarde, ao dedicar-se à investigação, fora com um colega para a Bélgica, onde aprofundavam a História relacionada com as viagens do tempo dos Descobrimentos.

- Agora estamos investigando Cristóvão Colombo, e, entre os dois, fui eu a “sorteada” para vir a Portugal recolher os elementos necessários – disse com um grande sorriso cúmplice. Está-se bem a ver que a rifa foi aldrabada… - acrescentou com uma gargalhada.

- Então tu vives sozinha na Bélgica? E os teus pais ficaram na Itália? – aproveitou Nanda para perguntar.

- Não vivo sozinha; eu e o Lorenzo – o meu colega -  alugámos um apartamento com dois quartos e dividimos as despesas. Mas só isso – disse, com um sorriso malicioso. O meu pai vive em Itália, mas a minha mãe abandonou-nos há bastantes anos e foi para a América. Mais tarde divorciaram-se. Nunca mais soubemos nada dela. Penso que é por isso que eu e o meu pai somos tão agarrados um ao outro. O “mio caro Alessandro”, como eu gosto de lhe chamar, para o mimar, quando estamos separados e ele sente muitas saudades minhas.

Nanda sentiu um sobressalto, que a custo conseguiu disfarçar. Estavam confirmadas as suas suspeitas. Aqueles olhos não podiam vir de mais ninguém! Ela sabia! Giuliana era filha do “seu” Alessandro, não podia ser de outro. Não com aqueles olhos!

Saber que ele vivia sozinho causou-lhe uma estranha sensação de alegria. E, sem querer, o seu pensamento retrocedeu trinta anos, até à sua juventude.

O coração tumultuava-lhe no peito e ela fazia um esforço enorme para não denunciar os seus sentimentos.

Sem se aperceber da consternação de Nanda, Giuliana continuou a falar, dizendo como ela, Miguel e Farida se tinham conhecido por acaso, à entrada da Universidade, e de como tinham simpatizado logo os três uns com os outros.

- Eu tenho de confessar, gosto muito da Farida, sou muito amiga dela, mas, na verdade, sinto qualquer coisa muito especial pelo Miguel. E sei que ele sente o mesmo por mim.

Nanda, que novamente prestava atenção à conversa, deve ter mostrado um tal ar de aflição que levou Giuliana a acrescentar, rapidamente:

- Não fique preocupada, Nanda, nem a pensar “coisas” - riu-se ela.  O que sentimos um pelo outrosim, porque eu sei que o Miguel sente o mesmo que eu – é como que um amor fraternal, qualquer coisa de muito profundo, como se nos tivéssemos conhecido noutra vida – e riu de novo.

Nanda suspirou profundamente, o que provocou um sorriso em Giuliana.

- Não leves a mal a  minha preocupação, querida – disfarçou Nanda. Mas… tu compreendes… o Miguel é casado… e muito feliz…

- Ninguém melhor do que eu para o saber, Nanda. Afinal, acompanho-os para todo o lado, assim como eles a mim. Quase parecemos três irmãos siameses – respondeu Giuliana, bem humorada.

Entre animadas conversas, ver fotos de Miguel quando era bebé, e ir passear o Tejo, o dia voou.

Nanda, interiormente extenuada mas feliz, sugeriu não se deitarem muito tarde dado que no dia seguinte ambas tinham deveres a cumprir.

O sentimento que as unia foi crescendo ao longo do dia de tal modo que, ao despedirem-se, desejaram-se boas noites com um carinhoso beijo.

Já no quarto, preparada para se deitar, Nanda ouviu o toque do telefone. Ao ver, no visor, o nome de Bela, ficou aborrecida consigo mesma: durante todo o dia nem se lembrara da sua querida amiga.

Foi com certa ansiedade que atendeu:

- Olá, meu amor. Estava a acabar de me arranjar e ia já ligar-te – mentiu, talvez para aliviar a consciência. Sentia-se mal por estar tão feliz a ponto de se esquecer da sua amiga, quando ela estava atravessando um período tão triste.

- Resolvi ligar-te eu porque vou já deitar-me – respondeu Bela, com voz desgostosa. Amanhã tenho de levantar-me cedo. O meu pai vai ser julgado, e eu quero ir ao tribunal.

- Tem calma, meu anjo. O que tiver de ser… será. Nada podes fazer para o evitar. E não te apresentes lá com um ar muito preocupado, para não o afligires ainda mais…

- Vou tentar. Até amanhã, querida. Depois falamos.

 

Maria Caiano Azevedo