Queridas amigas e queridos amigos.
sábado, 23 de setembro de 2023
DOENÇA
segunda-feira, 14 de agosto de 2023
Amigas e Amigos
Minhas queridas e meus queridos amigos
Continuo internada no hospital, onde dei entrada e fui operada pela primeira vez no dia 29.06. Não tenho ainda data prevista para alta, mas nessa altura darei noticias. Pelo telemóvel custa-me muito escrever.
Toda a minha gratidão, meu carinho e meu amor fraternal para todos que me dirigiram apoio.
Beijinhos
quinta-feira, 27 de abril de 2023
Lamento muito mas, durante algum
tempo, vou estar ausente deste espaço.
Encontro-me bastante doente, e os
próximos tempos vão ser passados entre consultas médicas e exames.
Mas… não desistam de mim, porque
EU VOU VOLTAR!
Tudo de bom para todos vós.
Abraço apertado e beijinhos.
PS – Peço desculpa a quem me visitou
e eu não agradeci, retribuindo a visita. Já há um certo tempo que não me tenho
sentido bem.
Hei-de visitar TODOS, assim espero.
sábado, 1 de abril de 2023
MOMENTO DE POESIA - REENCONTRO
REENCONTRO
De repente surgiu o desejo,
de te fazer um poema.
Dizer-te, por palavras,
Neste nosso reencontro,
O que um simples olhar
Não teria força para expressar.
Quisera, haver em mim, beleza
Para te dar.
Mas a imagem, pelo espelho reflectida,
Mostra que o tempo passou
E não parou.
E como passou!
Para este nosso reencontro
Insinuaste um sinal,
Temendo estragos que o tempo tenha feito.
“Talvez de flor ao peito”…
Gracejaste, recordando tempos idos,
em que fingíamos ser desconhecidos.
Havia ironia na tua voz,
Brincavas.
Ironia maior a do destino,
Que nas marcas deixadas pelo tempo,
Não guardou espaço para o esquecimento.
Mariazita
quarta-feira, 1 de março de 2023
A CARRANCA MISTERIOSA
Para quem não sabe, CARRANCA (em Náutica) é a figura ornamental esculpida em madeira, geralmente representando formas femininas ou de animais, com que era decorada a proa dos navios, entre os séculos XVI e XIX.
A CARRANCA MISTERIOSA
(Conto fantástico)
Em pleno alto
mar, quando havia luar o chamamento era ainda mais forte, a ponto de se tornar
irresistível. Corria o ano de 1522.
Naquela noite a lua cintilava excepcionalmente, com uma luz clara
e brilhante.
Enrique caminhava cautelosamente, evitando fazer o mínimo ruído.
Dirigia-se para a proa da embarcação, onde se encontrava a figura da deusa,
senhora dos seus pensamentos.
Esculpida em madeira, integrada na proa da nau, a deusa rebrilhava
na escuridão.
Como acontecia todas as noites, ao sentir a aproximação do
marinheiro, ela voltou a cabeça, mantendo o corpo firmemente agarrado ao seu
suporte de madeira. Sorriu, com o seu ar luminoso.
Ele soergueu-se
o mais possível e depositou um beijo nos lábios entreabertos da sua amada.
Com as mãos presas ao poste que a sustinha, a deusa apenas podia
oferecer-lhe o rosto que ele, afagando meigamente, cobria de beijos.
Soprava uma leve brisa que fazia ondular docemente as águas do
mar, trazendo consigo um agradável cheiro a maresia.
As noites eram passadas num suave enlevo, entre carícias e juras
de amor. Só quando a aurora começava a surgir no horizonte é que ele, depois de
um prolongado beijo, se retirava tão silenciosamente como chegara. Não podia
atrair as atenções dos outros marinheiros e muito menos revelar o seu segredo
amoroso.
Esta paixão tinha surgido havia um mês, numa noite em que o marujo,
incomodado com o calor, deixara o beliche de madeira sem colchão em que tentava
adormecer e se dirigira para o convés, a fim de se refrescar com o ar nocturno
e a brisa marítima.
Caminhando ao longo do barco, avistou, à proa, uma sombra que
movia a cabeça na sua direcção.
Intrigado, dirigiu-se, cautelosamente, para o local. Foi quando
ouviu uma voz sussurrar meigamente o seu nome. Aproximando-se mais confiante,
constatou que a deusa esculpida na proa do barco estava movendo a cabeça e
olhando-o nos olhos, com um sorriso que lhe iluminava o rosto.
Inicialmente petrificado, como que deslizou para junto dela.
Estendeu a mão, tocando-lhe nos cabelos. Completamente subjugado pelo seu
encanto, apenas murmurava:
- Minha deusa!
Manteve-se ali a noite toda, embriagado de felicidade.
O dia seguinte foi interminável. Meio adormecido ia desempenhando
as suas funções que, por aquela altura, não eram muito trabalhosas. Ansiava
pela noite para poder confirmar se o que vivera na noite anterior não passara
de um sonho.
Quando anoiteceu e o barco caiu num silêncio profundo, Enrique,
com todo o cuidado, levantou-se e dirigiu-se, sem hesitar, à proa, onde a deusa
já o esperava.
Trinta noites se passaram sem que de tal se apercebesse.
Estavam os dois enamorados conversando mais uma vez quando começou
a levantar-se um vento manso, que em breve se tornou forte, passando a furioso.
Soprava de Barlavento com tal violência que a caravela rodopiava.
O balanço era assustador. O barco oscilava de bombordo para estibordo; as
ondas, altíssimas, varriam o convés. O comandante andava como louco, dum lado
para outro, vociferando ordens, sem saber bem o que fazer, já que a tempestade
o apanhara de surpresa.
A acostagem estava fora de questão. Encontravam-se em alto mar,
sem qualquer porto à vista. As anteparas
ameaçavam ruir de um momento para o outro.
Bastante contrariado o comandante viu-se obrigado a tomar uma
medida que se revelou não surtir qualquer efeito – alijar a carga. Nada se
mantinha no seu lugar, tudo se movia numa dança frenética, no meio do barulho
ensurdecedor da tempestade.
O timoneiro esforçava-se, em vão, por manter o leme firme. A bússola
girava em todos os sentidos, descontrolada, semelhando um catavento.
Um balanço mais forte fez o barco
inclinar-se todo para estibordo, ao mesmo tempo que ondas alterosas levantavam
os marinheiros ao ar, arremessando-os para o mar. No meio das águas fortemente
batidas pelo vento, na noite profundamente negra, os homens esbracejavam
tentando manter-se à tona de água.
Enrique, passado o atordoamento causado
pelo embate das ondas no seu corpo, tentou manter a calma no meio daquele
inferno. Cortando as ondas agitadas foi nadando devagar, lutando com todas as
forças, na direcção da proa. Uma onda fortíssima fez afundar a frente do barco
no preciso momento em que Enrique estava a chegar lá. Mergulhada na água, a
deusa, pela primeira vez, desprendeu os braços do poste em que se encontrava
presa, puxando para si o marinheiro, levando-o, suspenso no ar, quando a
embarcação voltou à posição normal.
Tão inesperadamente como surgira, o
vento acalmou, as ondas desapareceram, e o mar entrou em calmaria.
O marinheiro continuava preso à sua amada que, agora com os braços
soltos, o apertava carinhosamente contra o peito. Subitamente, um raio de luz
fortíssimo desceu do céu, incidindo sobre o corpo da deusa, desprendendo-a do
mastro que a aprisionava. Libertos e abraçados, ambos caminharam pela
embarcação deserta. Ele segurou firme o leme e o barco desapareceu na noite
rumando ao desconhecido.
Momentos depois
foram avistados por um barco que navegava em alto mar, cujos marinheiros
juraram ter visto, a sobrevoar o barco dos enamorados, um ser alado duma beleza resplandecente, brilhando mais que mil sóis, que
os guiava na noite escura.
Maria Caiano Azevedo
terça-feira, 14 de fevereiro de 2023
15º. ANIVERSÁRIO
15º. ANIVERSÁRIO
Como o meu estado de saúde ainda
não é famoso, a disposição ressente-se, e a vontade de escrever assim como a
própria inspiração… desaparecem.
Mas como o calendário mostra que
hoje é o dia 14 de Fevereiro – para além do Dia dos Namorados é dia de
Aniversário desta minha/vossa CASA – e eu não preparei nada de especial para
esta data…com a vossa permissão vou repor aqui o texto de um dos muitos
Aniversários que já por cá passaram.
Obrigada pela vossa compreensão.
FESTEJAR OU NÃO
FESTEJAR O ANIVERSÁRIO
No meio de todo o stress do dia-a-dia nada
mais justo do que festejar o Aniversário não fazendo nada.
Isso foi o que REALMENTE pensei. Mas… como
conseguir isso?
Fácil – ir até à praia e aí esquecer tudo
e todos. Levar o computador – afinal o aniversariante, o blogue, está dentro
dele – estender a toalha na areia e deitar-me (com ele, computador, ao lado) e
simplesmente ignorar o mundo que nos rodeia…
Mas… nesta altura do ano, no nosso
país, a praia é pouco convidativa.
Posta de parte a ideia da praia… que tal
ir conhecer uma maravilha da Natureza? As Cataratas do Iguaçu, por exemplo
(sempre foi o meu sonho).
Ná… é muito longe, e um dia só não chega
para ir e vir, quanto mais para conhecer.
Não fazer nada é tão difícil! Não me ocorre nada sobre
como não fazer nada… Ou antes, as ideias que me vêm à cabeça são
totalmente impraticáveis.
E, pensando bem, a verdade é que festejar Aniversário até é bom. É o
mesmo que celebrar a própria vida, além de contribuir para o nosso
equilíbrio emocional.
Isto não são palavras vãs. Quantas vezes,
ao longo destes onze anos, esta “CASA” me serviu de refúgio, ajudando a pôr em
segundo plano preocupações, arrelias, pequenas depressões, situações difíceis que me pareciam insuportáveis…enfim, aborrecimentos com que a vida se encarrega de
nos presentear de vez em quando?
Por falar em presentear… tenho que arranjar
alguma coisa para dar de presente aos convidados. Eu não vou convidar
ninguém, é claro, mas todos nós sabemos como é, aparecem mesmo
sem ser convidados! E depois, não ter nada para oferecer… é uma vergonha,
convenhamos.
Sabem que mais? Vou já para a cozinha,
para não ser apanhada desprevenida. Vejam o que vou preparar…
Aperitivos, salgadinhos, petit
fours, alguma fruta… que sabe sempre bem...
Uma fatia de bolo e… Tchim, tchim…
Escolham a língua em que mais gostarem de brindar e... brindem comigo!
Saúde! ; Salud! ; Santé! ; Cheers! ; Prost! ; Proost! ; Cin Cin! ; Za Zdorovye! ; Skål! ; Şerefe! ; Yamas! ; Na zdorowie! ; Kanpai!
(Portugal, Espanha, França, Estados Unidos /
Inglaterra, Alemanha, Holanda, Itália, Rússia, Dinamarca/ Noruega / Suíça,
Turquia, Grécia, Polónia, Japão)
domingo, 29 de janeiro de 2023
MOMENTO DE POESIA - E DEPOIS DO AMOR
E DEPOIS DO AMOR
Nos olhámos em silêncio
E sem palavras
Dissemos tudo
Dedos entrelaçados
Bocas unidas
Corpos frementes
Viajámos no espaço
À nossa volta
A quietude da noite
Repousamos agora
Lado a lado
Exaustos
Tranquilos
Ainda unidos.
Para sempre unidos.
Mariazita
Maria Caiano Azevedo
sexta-feira, 30 de dezembro de 2022
FELIZ ANO 2023
FELIZ ANO 2023
Eis que se aproximam, a passos
rápidos, as doze badaladas da meia-noite do dia 31 de Dezembro de 2022.
No ano que vai nascer unamos as
mãos e os corações para pedir, acima de tudo, PAZ. Os tempos que temos vivido
têm sido tão conturbados que nos levam a desejá-la mais do que tudo.
“Paz na Terra aos Homens de boa
vontade” – Vamos todos orar para que a “boa vontade” surja sem demora nos
homens que detêm o poder de modificar o mundo.
Feliz Ano Novo, Feliz
2023!
terça-feira, 20 de dezembro de 2022
É NATAL
É NATAL
Os problemas particulares
relacionados com a minha mudança de casa estão, por agora, em “standby”,
devendo manter-se neste estado por mais uns 6 meses, mais ou menos.
E como “um mal nunca vem só” –
como diz o povo 😊
– adoeci ,há cerca de três semanas, com alguma gravidade – uma das minhas
crónicas infecções pulmonares que, de tão “brava” me levou a partir uma
costela, tal a intensidade e violência da tosse. Mas, enfim, o pior já passou,
e com mais alguns dias (ou semanas?) estarei completamente recuperada.
Apesar de tudo não poderia deixar
passar esta época natalícia sem vir dar-vos um abraço e desejar um santo e
muito feliz Natal. E, se não nos “virmos” antes, que o Ano Novo nos traga Paz,
acima de tudo e, se possível, alguma prosperidade.
Deixo-vos um conto que escrevi há
uns anos, esperando que vos agrade.
O
PINHEIRO
- Com tantos anos de vida ainda não consegui perceber porque me apelidaram de “manso”, Pinheiro Manso – murmurou o frondoso Pinheiro, voltando as verdes e finas agulhas na direcção de uma raquítica árvore que se encontrava a pequena distância.
- Ora, porquê! – respondeu a
enfezada. Já tivemos esta conversa tantas vezes! Está muito bom de ver.
Deram-te esse nome porque não tens a braveza dos teus primos, esses altivos pinheiros-bravos,
que não se dão com os baixotes, só querem viver nas alturas…
- Acho essa explicação demasiado
simplista…
- Sabes qual é o teu problema? – continuou
a enfezadita – é quereres sempre saber a razão de tudo. As coisas são porque
são, e pronto. Põe os olhos em mim: és capaz de me dizer porque é que eu sou
assim tão raquítica? Não és, pois não? Eu também não sei, e vê lá se me
preocupo…
- Xiu! – advertiu o Pinheiro.
Aproximam-se pessoas. A conversa tem de ficar para mais logo. Agora cala-te,
que eu faço o mesmo.
E ficaram em silêncio.
Um grupo de jovens caminhava
alegremente em direcção ao Pinheiro.
Um deles, o mais alto, loiro e de
olhos da cor do céu, aparentando ser o líder, abriu os braços ao alto e
exclamou:
- Eu não vos dizia? Este Pinheiro
não é um espectáculo?
- Sim – responderam em uníssono os
outros jovens. Tu és o maior!
- Claro que sou. Por isso sou o
chefe. E é como chefe que vos digo:
- Abram os braços, respirem fundo
este ar puro, aspirem este delicioso cheiro a pinheiro…
E falando assim ele próprio
executava os movimentos que convidava os companheiros a fazerem.
Por breves momentos só se ouvia o
seu respirar profundo. Mas logo de seguida recomeçou a algazarra, rindo e
falando muito alto, como se todos fossem surdos.
Um dos rapazes tinha levado um
“Tablet” e em breve o silêncio da mata se encheu com os sons, em tom altíssimo,
de uma canção em voga. A maior parte deles acompanhou a música em altos berros.
Até os insectos fugiam espavoridos.
Pouco depois o líder disse:
- E se tratássemos das
barriguinhas? a minha já está a roncar…
- Excelente ideia! – responderam em
coro.
E todos, rapazes e raparigas,
abriram as mochilas e retiraram de lá comida, copos de plástico, garrafas de
refrigerantes e até uma toalha de papel, que estenderam cuidadosamente no chão
e nela colocaram o lanche.
Sentaram-se todos em círculo debaixo
da copa densa, arredondada, em forma de guarda-sol, do Pinheiro, e iniciaram o
lanche alegremente.
Eram já cinco horas da tarde,
tinham feito uma grande caminhada para lá chegar, e o almoço há muito tempo
tinha sido digerido. Todos comeram com grande apetite.
Como estava muito calor e a sede
era bastante, rapidamente esvaziaram as garrafas dos refrigerantes.
Saciados o apetite e a sede,
colocaram junto ao tronco do Pinheiro as garrafas vazias, copos, guardanapos… e
até restos de sandes mordiscadas. Estenderam-se no chão, à sombra. Uns
conversando outros dormitando nem deram pelo tempo passar, de tal modo se
sentiam satisfeitos.
O sol começava a esconder-se quando
o líder exclamou:
- Ei, malta! Temos de nos pôr a
milhas! Não se esqueçam de que nos espera uma boa caminhada. Já vamos chegar a
casa de noite…
Puseram-se todos de pé e, sem mais demoras,
iniciaram a descida. Ninguém se lembrou de recolher o lixo que tinham colocado
junto ao Pinheiro.
Ouviu-se um profundo suspiro. O
Pinheiro murmurou, tristemente:
- Já viste, vizinha? Respiraram o
nosso ar puro, sorveram o nosso belo aroma, aproveitaram a minha sombra, nem
sequer respeitaram a paz e o silêncio de todos estes seres que aqui vivem e,
como agradecimento, foram-se todos embora deixando para trás o lixo que
trouxeram com eles…
- Já devias estar habituado,
Pinheiro. É sempre assim…
- Orvalho – dizia quem passava.
Não, não era orvalho, eram lágrimas
de tristeza.
Lágrimas, sim, que as árvores
também têm sentimentos.
Um grupo de crianças que passava
saltitando alegremente, parou de repente olhando atentamente para o Pinheiro.
- Olhem, olhem, o Pinheiro está a
chorar! Com certeza não vai receber prendas de Natal, e por isso está triste.
A mais velhinha teve uma ideia:
- Vamos levar-lhe estas bolinhas e
fitas. Talvez ele fique contente!
Correram para o Pinheiro e
enfeitaram-no com tudo o que levavam para as suas festas.
O tecido das fitas coloridas
absorveu a humidade das carumas e o pinheiro deixou de chorar.
E os olhos inocentes das crianças viram
o brilho de reconhecimento e gratidão nos olhos do Pinheiro.
Todas as crianças convidaram os
pais para irem ver o Pinheiro que, de tão feliz, irradiava uma luz especial que
iluminava a noite escura.
Os pais olhavam, encantados e ao
mesmo tempo surpresos por nunca terem notado a presença daquela magnífica
árvore.
O amor das crianças operara o
milagre.
E assim o Pinheiro triste transformou-se na Árvore de Natal da aldeia.
Maria Caiano Azevedo
sexta-feira, 1 de julho de 2022
TEXTO DRAMÁTICO
No meio
do palco um homem aparentando 70 anos, levemente curvado, olha para as mãos que
tremem muito ligeiramente.
SALVADOR
– Como estão diferentes as minhas mãos!
(Olhando para o público) – Estão
a ver estas mãos? Nem sempre foram assim. Não, não adianta quererem ser
simpáticos; alguns de vós conhecem-me bem, e gostam de me agradar. Porém… eu
sei que elas tremem um pouco. Mas já foram muito firmes.
Todas as
vezes que seguravam um bisturi não podiam ter maior firmeza! Eram fortes, estas
mãos…
Com toda
a precisão cortavam apenas o essencial, procurando causar o menor dano. Sim,
que as cicatrizes que resultavam das cirurgias que eu fazia pareciam um
fiozinho de teia de aranha.
As
senhoras ficavam todas felizes quando viam o resultado do meu trabalho. Aquelas
carnes bonitas, depois de passarem pelas minhas mãos, pareciam mais
encantadoras.
(Dá uma risadinha, e continua)
– Algumas até ficavam com mais graça; aqueles risquinhos, muito fininhos, davam-lhes
um certo charme. Que algumas, coitaditas, bem precisavam … (Sorri, com ar
matreiro)
– Quando
iam para a praia com os seus lindos biquínis, muitas vezes ouviam piropos… E
como elas gostavam de ouvir: “Olha, ali
vai mais uma barriguinha do doutor SALVADOR! “
(Levanta a cabeça, mostra um ar orgulhoso) Sim, que as barrigas do doutor SALVADOR não eram de se
deitar fora… eram perfeitas! Acreditem! Algumas das minhas clientes até
mandavam tatuar uma borboleta, ou uma rosa, ou o que lhes apetecesse… bem junto
da cicatriz, para chamar a atenção.
(Olha para as mãos) – Posso
dizer com orgulho que estas mãos espalharam muito Amor ao longo dos meus longos
anos…
(Põe um ar meio tristonho)
– Alguma dor, também… Quando o parto era mal sucedido e mais um anjinho ia para
o céu… Não foram muitos, por Deus! Podem contar-se pelos dedos de uma destas
mãos (levanta uma mão, abrindo os dedos). Mas foram os suficientes para me fazer sofrer muito…
Ainda me
lembro (olha de frente para o público com ar
interrogativo) e como poderia
esquecer? Quando tive nas mãos aquele corpinho inocente, o pequeno coração a
vacilar… sem saber se havia de continuar a bater ou dar-se por vencido… Também
o meu corpo cansado teve vontade de curvar-se, abatido, perante uma batalha que
me parecia perdida… Mas aquele pequenino coração mostrou-me que não se podem
baixar os braços, é preciso lutar para viver… E começou a bater forte. Parecia
querer dizer-me: Tenho uma estrada comprida para percorrer, e neste momento
preciso da tua ajuda. E, com a força do Amor, juntos vencemos! (Num aparte, em tom orgulhoso) – Hoje está um homem! Forte! Com um coração de ferro!
(Suspira profundamente e volta ao tom normal)
– Não nos deixemos abater pela tristeza! A verdade é que a vida me proporcionou
momentos muito felizes… e concedeu-me o dom de, com estas mãos (baixa os olhos
para as mãos) poder fazer
muita gente feliz. (Olha directamente para o público, estendendo as mãos) – Já repararam que são gémeas? Gémeas verdadeiras,
monozigóticas. Desenvolveram-se a partir de duas metades da mesma pessoa, que
sou eu, e formaram-se a esquerda e a direita. Por isso são do mesmo sexo, são
iguais (junta as
palmas das mãos) Vêem? São mesmo
iguais. (Separa as
mãos) - Quando uma sofre… a outra chora;
quando uma ri… a outra bate palmas de contente. Mas… no momento em que se
erguem em acção de graças por tantas bênçãos que recebi (junta as
mãos)
… aí encostam-se, bem juntinhas, com as
pontas dos dedos voltados para o alto.
(Com um sorriso sonhador, mantém a posição das mãos) – Lembro-me quando a minha filha se casou… No altar, quando
aquelas duas vidas se uniram, também as minhas mãos fizeram o mesmo, orando
para que o Amor os acompanhasse ao longo da vida… e se mantivesse sempre acesa
a sua luz.
(Estende as mãos em frente, as palmas voltadas para cima, e com um ar
meio triste, continua) – E quando o
meu filho partiu à procura de vida melhor … foi com estas mãos que o abençoei
e, com Amor e lágrimas, lhe desejei breve regresso.
(Faz uma breve pausa. Volta as palmas das mãos para baixo e,
olhando-as, continua)
Hoje as
minhas mãos tremem um pouco, sim. Tremem porque esta manhã receberam uma
notícia triste. Abriram uma carta onde estava escrito: Vimos por este meio
comunicar que, a partir desta data, os seus serviços nesta clínica estão
dispensados.
Dispensados!
Ouviram bem? (repete a
palavra, soletrando pausadamente) DIS PEN SA DOS!
Como
quem deita fora um trapo velho sem qualquer utilidade, dizem que já não
precisam de mim!
Mas
estão muito enganados, porque, ainda que o SALVADOR estivesse vendado, estas
mãos saberiam (soletra a
palavra)
PER FEI TA MEN TE como trazer um bebé
ao mundo. Não foi em vão que o fizeram anos a fio…
(Descai os ombros, em sinal de desalento e tristeza) – Vivemos numa sociedade muito injusta. E estas mãos que
tinham ainda tanto Amor para dar…
(Remata com ar conformado)
Quando
um dia eu tiver de fazer a Grande Viagem… alguém irá colocar estas minhas mãos,
amorosamente, sobre o meu peito (coloca as mãos uma sobre a outra, na horizontal, junto
ao peito)
e eu partirei feliz porque, com Amor,
fiz muita gente feliz.
E termina:
Sinto-me
realizado porque toda a minha vida espalhei…
(Faz
uma pausa, mete a mão ao bolso e retira um papel que desdobra, esticando-o com
as mãos. Nele está escrito em letras grandes a palavra “Amor”, que mostra ao
público)
SALVADOR
(num grito) - AMOR!
Maria Caiano Azevedo
Para quem, eventualmente
não saiba. TEXTO DRAMÁTICO é, em Escrita
Criativa, o nome que se dá a um texto destinado a ser representado. Há quem
opte por chamar-lhe Texto Teatral, embora haja características diferentes entre
ambos.
Como, por motivos particulares,
vou ter de fazer uma pausa indeterminada (dois, três , quatro meses…) decidi
partilhar convosco este “TEXTO DRAMÁTICO” que recebeu o 1º prémio num concurso a que concorri.
Durante o tempo que vou
estar ausente, desejo a todos, amigas e amigos, tudo de bom.
Um abraço, já com
saudades…
Aproveito a oportunidade para
informar que já foi publicado o meu último livro, “SEGREDOS”.
Se alguém estiver interessado em adquiri-lo pode pedir-mo
directamente por email; ainda tenho alguns exemplares disponíveis.
Obrigada.
quarta-feira, 1 de junho de 2022
MOMENTO DE POESIA - QUANDO VOLTAS ?
Junho, mês de tristes recordações...
QUANDO VOLTAS?
Subo
ao ponto mais alto do Universo
Onde
apenas o pensamento me pode levar.
Sento-me
numa pedra branca, macia, acolhedora,
E
sossego a alma.
Lanço
um olhar penetrante sobre o longínquo horizonte,
E
não vislumbro vivalma.
Na
imensidão de silêncio que me rodeia,
Lanço
um grito profundo:
Quando
voltas?
Apenas
o eco me responde:
Voltas…
voltas… voltas…
E
tudo ao meu redor retoma a calma.
Um
pássaro errante, talvez uma pomba,
Vem
pousar no tronco seco que à minha frente repousa.
Não
traz no bico o raminho de oliveira,
Nem
é branco como as lonjuras que o meu olhar alcança.
Mas
traz a paz que se junta à tanta paz que aqui se vive…
Quando
voltas?
O
meu pensamento repete a pergunta
Que
o coração não quer calar.
Mas
não vislumbro resposta…
Quando
voltas?
Maria Caiano Azevedo
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