sexta-feira, 1 de abril de 2022

MOMENTO DE POESIA - ESTÁTUAS CAÍDAS

 Homenagem às mulheres e homens que, durante o longo e penoso período, autoritário e antiliberal do Estado Novo, tombaram na luta pela defesa dos seus ideais.


ESTÁTUAS CAÍDAS

Comtemplo a tua face pálida,

Caída, como uma estátua morta.

Ouço, a custo, o silvo do teu respirar.

Tombadas, entre os escombros,

Num verdadeiro caos,

Todas as outras que, tal como tu,

Sonharam o sonho lindo da Liberdade.

 

Soltaram-se, por fim, as grilhetas.

Os corpos descansam, exangues,

Cobertos por miríades de borboletas

Que, elevando-se nos ares,

Formam, contra o céu azul de Abril,

A palavra LIBERDADE.

 

Maria Caiano Azevedo

terça-feira, 8 de março de 2022

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Para comemorar o Dia Internacional da Mulher, que hoje se celebra, vou repor um poema que intitulei “DA MULHER”. Se quiser pode ouvir a gravação do mesmo dita por mim, e seguir as palavras abaixo.







DA MULHER

Ó avô

- Será verdade o que da Mulher se diz?

- Que queres saber, meu petiz?

- Dizem que em era passada

A Mulher foi maltratada, desprezada,

Humilhada,

E até violentada…

- É verdade, sim, meu neto.

- Mas porquê? Isso não parece certo…

- És ainda muito novo, para entenderes o povo.

- Podes-me contar, avô, como tudo começou?

- Escuta com atenção. Vou tentar contar-te, então.

Defendem alguns, com grande convicção,

Que nos primórdios do mundo

A Mulher iniciou a Criação.

Nasceu um culto à Deusa Mãe, venerando Gaia,

A Mãe Terra.

Como da Mulher nasciam filhos,

 dela nascia vida, calor, água e pão.

- Isso é tão bonito, avô! Mas porque é que se alterou?

- Há várias opiniões. Dizem que houve invasões,

de homens indo-europeus, só ódio nos corações.

Altos, fortes, audazes, com armas

e dominando cavalos,

destroçaram pacíficas civilizações.

Impuseram seus deuses guerreiros, ferozes:

Deus da tempestade, com o raio e o trovão…

O deus solar, Deus Sol, com a adaga e a espada…

Transportando-se num carro, numa ou noutra ocasião.

A Deusa foi dominada, pelos deuses suplantada,

E a Mulher escravizada.

- Mas isso aconteceu há muito tempo, avô…

- Sim, há muitos milhares de anos.

Mas a história ainda não acabou.

- Ainda há mais, avô? Conta, conta, por favor…

- Ouve, então, com atenção, esta outra versão:

Reza história muito antiga

Que Eva, a Mulher primeira,

Veio ao mundo para gerar

no seu ventre,

e à luz dar, acarinhar, amar…

E após tanta canseira

por seu filho a vida dar.

- Mas tudo isso, avô, é bem digno de louvor.

Porquê, então, o rancor

Que o homem mostra sentir,

e o levou a infligir

tanta dor?

- Para isso, querido neto, o avô não tem resposta.

Uns dizem que foi castigo, só porque Eva pecou

 e o Adão arrastou.

Outros dizem que é sina, que à Mulher foi imposta.

Mas com o passar do tempo tudo se modificou.

- Hoje tudo está diferente, não é verdade, avô?

A Mulher tem liberdade, pode dispor de si mesma,

Sem ao homem consultar e sem dele depender…

- Nem tudo foi corrigido, ainda há muito a fazer.

Há mulheres escravizadas,

maltratadas, torturadas,

e isso tem de acabar.

Para o mundo melhorar, e a injustiça terminar,

O Homem tem de entender:

Com toda a tecnologia e avanço da ciência,

fertilizando ou clonando,

com a maior sapiência,

é da Mulher que o Homem

continuará a nascer.

 Deus, que é Deus, para humano se tornar

 e o mundo tentar salvar,

o corpo da Mulher teve de usar.

 

Mariazita


terça-feira, 1 de março de 2022

DIA DA MULHER

 DESTAQUE PARA UMA MULHER


Como é habitual, no mês de Março, que hoje se inicia, celebra-se, o “Dia Internacional da Mulher”, precisamente no dia 08. Esta celebração, que ocorre a nível mundial,  destina-se a enaltecer o papel da Mulher na sociedade, e a sua eterna luta pelos seus direitos, tantas vezes desprezados.

É comum as mulheres serem presenteadas com flores ou outros mimos, e, nalguns lugares, haver mesmo eventos dedicados a enaltecer o seu valor.

Toda a gente, dum modo geral, já ouviu falar numa ou noutra mulher que teve lugar de relevo na luta pelos seus direitos – lembremos as mulheres que, em Nova Iorque, no dia 25 de Março de 1911, foram vítimas dessa mesma luta, tendo visto, como represália,  serem queimadas as fábricas onde trabalhavam e onde mais de uma centena  pereceu no meio das chamas.

Hoje ocorre-me falar-vos de uma Mulher, não muito conhecida, mas que, a seu modo, lutou bravamente pelos direitos das mulheres.

Nascida em 5 de Maio de 1864, na Pensilvânia, Elizabeth Cochran cedo se revelou contrária às regras à data em vigor , no que se referia à condição feminina.

Discordando da ideia de que as mulheres só poderiam contribuir para a sociedade trabalhando em casa, e num tempo em que se dizia que Jornal “não era lugar para mulher",  aos 18 anos ela já trabalhava como jornalista, usando o pseudónimo de Nellie Bly.

Contrariamente ao que era habitual na época, ela escreveu sobre questões feministas, chamando a atenção para os pouquíssimos  direitos das mulheres.

Com o desejo de crescer dentro do jornalismo mudou-se para Nova Iorque, conseguindo, de imediato,  emprego no jornal New York World.

Como prova de fogo, logo de início foi-lhe destinada uma reportagem num hospital psiquiátrico, acerca do qual corriam boatos de que os internados eram vítimas de abusos praticados pelos funcionários. Até à data ninguém tivera a coragem de investigar a veracidade do que se dizia.

Com a promessa de que a fariam ter alta em dez dias, Elizabeth aceitou o maior desafio da sua vida. Mas nunca poderia imaginar como seria difícil.

Nellie Bly (Elizabeth Cochran) teve de se disfarçar, fingindo-se de demente, para poder introduzir-se no hospital .

Bastaram-lhe as primeiras impressões lá dentro para ficar horrorizada.

O número de pacientes era, seguramente, o dobro do que o hospital deveria abrigar. A alimentação era miserável – pão velho, carne meio podre, e água suja. A higiene era inexistente, e viam-se ratos por todo o lado.

A doença mental de Nellie era fingida, mas as condições do hospital bastariam para levar qualquer um à loucura.

Ela conheceu lá várias mulheres que não tinham nada de loucas, estavam lá apenas porque eram pobres ou não sabiam falar inglês (imigrantes). Enfiavam-nas no manicómio considerando-as indesejáveis.

As mulheres que realmente tinham problemas mentais não recebiam o tratamento adequado. Em vez disso eram submetidas a experiências violentas, abusivas, eram amarradas e sujeitas a métodos que só poderiam ser descritos como tortura.

Cumprindo a promessa que lhe havia sido feita, dez dias depois um advogado foi libertá-la.

As experiências, algumas traumatizantes, vividas no manicómio, deram origem ao impressionante livro “ Dez dias num manicómio”.

Esta publicação e o alvoroço que suscitou, obrigou o governo a implementar mudanças para melhorar a condição dos pacientes.

Com uma força interior incrível, Elizabeth continuou a escrever sobre política, assunto quase exclusivo dos homens. Lutou sempre pelos mais desprotegidos. Denunciou preconceitos.

Prova do seu carácter indomável, da sua sede de saber e conhecer novas terras, novos povos, seus hábitos e costumes, cometeu a proeza de dar a volta ao mundo em 72 dias.

Com as suas acções, exemplo e espírito inquebrantável, Nellie inspirou muitas jovens em todo o país.

Dois anos antes de morrer teve a felicidade de ver as mulheres conquistarem o Direito de Voto.

Elizabeth ficou famosa no país inteiro.

Acabou por falecer em 1922, com 57 anos, vítima de derrame cerebral.

NO PRÓXIMO DIA 08 DE MARÇO FAREI A REPOSIÇÃO DE UM POEMA QUE ESCREVI, DEDICADO À MULHER.

CONTO CONTIGO!!!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

14º.ANIVERSÁRIO

 DÉCIMO QUARTO ANIVERSÁRIO

Ultimamente não está sendo fácil. Todo o ambiente de pandemia em que temos vivido não nos deixa ânimo para grandes alegrias. A somar a esse factor, a dolorosa perda dum familiar (um genro quase como um filho) ainda vem agravar mais a situação.

Eu sei, todos sabemos, que o tempo é o melhor remédio para curar as maiores feridas. Deixemo-lo então passar, porque tudo é ainda muito recente.

Entretanto, não posso ignorar que esta minha/vossa CASA completa hoje 14 anos. Como não posso esquecer que tem sido a vossa amizade constante, as vossas palavras de carinho… enfim, todo o vosso apoio, que têm ajudado a mantê-la activa. Aliás, sem a vossa presença, há muito tempo ela teria deixado de existir.

Por tudo isto, a minha gratidão para convosco não tem fim.

Não vou alongar-me muito (conto com a vossa compreensão). E embora não haja festa, convido-vos para uma taça de champanhe e um bocadinho de bolo.

OBRIGADA! BEM HAJAM!!!



terça-feira, 1 de fevereiro de 2022


Reza a História que…

“Quando se abandonou a forma de contagem regressiva, típica do calendário romano, e se passou a usar a contagem contínua dos dias do mês, do primeiro ao último dia, o dia a diminuir passou a ser intercalado depois do último dia do mês de Fevereiro, antes do mês de Março, como ainda hoje usamos”.

E foi então que isto aconteceu, num qualquer desses anos longínquos, no mês de Fevereiro - este mês ficou com menos um dia.

Decorria o mês de Fevereiro do ano da graça de 45 a.C.

 

Não acreditem!!! Os historiadores às vezes também gostam de fazer as suas brincadeiras.

A verdade verdadeira é esta:

 

O TEMPO E O RELÓGIO

O relógio disse ao tempo:

Hoje não vou trabalhar!

Isso é um grande contratempo

Responde o tempo a chorar.

 

Pára o relógio no tempo

Minutos vão descansar

Inventam um passatempo:

Com as horas vão bailar.

 

Tão contentes na folia

Esqueceram os segundos.

Nem uma folha bulia.

Era o melhor dos mundos!

 

O sol de ouro, no ocaso,

Lua de prata no céu

O dia, sem fazer caso,

A seu tempo amanheceu.

 

O relógio, admirado

Com o tempo assim falou:

Um dia não foi contado

O meu sistema falhou!

 

Tu quiseste a independência

Responde o tempo, mordaz.

Vais pagar a indolência:

O tempo não volta atrás.

 

E foi assim que Fevereiro ficou com menos dias do que os outros meses.

Maria Caiano Azevedo

sábado, 1 de janeiro de 2022

ANO NOVO

  ANO NOVO

 Começo por agradecer a todas as pessoas que estiveram comigo em 2021, apoiando-me, dedicando-me carinho e algum do seu precioso tempo, apesar dos dias difíceis que atravessámos.

Que 2022 chegue repleto de boas energias, felicidade, saúde e de muito Amor.

Que este novo ano seja mágico e nos ajude a vencer os problemas e a superar todos os desafios.

FELIZ ANO NOVO!!!

 O PINHEIRO

- Com tantos anos de vida ainda não consegui perceber porque me apelidaram de “manso”, Pinheiro Manso – murmurou o frondoso Pinheiro, voltando as verdes e finas agulhas na direcção de uma raquítica árvore que se encontrava a pequena distância.

- Ora, porquê! – respondeu a enfezada. Já tivemos esta conversa tantas vezes! Está muito bom de ver. Deram-te esse nome porque não tens a braveza dos teus primos, esses altivos pinheiros bravos, que não se dão com os baixotes, só querem viver nas alturas…

- Acho essa explicação demasiado simplista…

- Sabes qual é o teu problema? – continuou a enfezadita – é quereres sempre saber a razão de tudo. As coisas são porque são, e pronto. Põe os olhos em mim: és capaz de me dizer porque é que eu sou assim tão raquítica? Não és, pois não? Eu também não sei, e vê lá se me preocupo…

- Xiu! – advertiu o Pinheiro. Aproximam-se pessoas. A conversa tem de ficar para mais logo. Agora cala-te, que eu faço o mesmo.

E ficaram em silêncio.

Um grupo de jovens caminhava alegremente em direcção ao Pinheiro.

Um deles, o mais alto, loiro e de olhos da cor do céu, aparentando ser o líder, abriu os braços ao alto e exclamou:

- Eu não vos dizia? Este Pinheiro não é um espectáculo?

- Sim – responderam em uníssono os outros jovens. Tu és o maior!

- Claro que sou. Por isso sou o chefe. E é como chefe que vos digo:

- Abram os braços, respirem fundo este ar puro, aspirem este delicioso cheiro a pinheiro…

E falando assim ele próprio executava os movimentos que convidava os companheiros a fazerem.

Por breves momentos só se ouvia o seu respirar profundo. Mas logo de seguida recomeçou a algazarra, rindo e falando muito alto, como se todos fossem surdos.

Um dos rapazes tinha levado um “Tablet” e em breve o silêncio da mata se encheu com os sons, em tom altíssimo, de uma canção em voga. A maior parte deles acompanhou a música em altos berros. Até os insectos fugiam espavoridos.

Pouco depois o líder disse:

- E se tratássemos das barriguinhas? a minha já está a roncar…

- Excelente ideia! – responderam em coro.

E todos, rapazes e raparigas, abriram as mochilas e retiraram de lá comida, copos de plástico, garrafas de refrigerantes e até uma toalha de papel, que estenderam cuidadosamente no chão e nela colocaram o lanche.

Sentaram-se todos em círculo debaixo da copa densa, arredondada, em forma de guarda-sol, do Pinheiro, e iniciaram o lanche alegremente.

Eram já cinco horas da tarde, tinham feito uma grande caminhada para lá chegar, e o almoço há muito tempo tinha sido digerido. Todos comeram com grande apetite.

Como estava muito calor e a sede era bastante, rapidamente esvaziaram as garrafas dos refrigerantes.

Saciados o apetite e a sede, colocaram junto ao tronco do Pinheiro as garrafas vazias, copos, guardanapos… e até restos de sandes mordiscadas. Estenderam-se no chão, à sombra. Uns conversando outros dormitando nem deram pelo tempo passar, de tal modo se sentiam satisfeitos.

O sol começava a esconder-se quando o líder exclamou:

- Ei, malta! Temos de nos pôr a milhas! Não se esqueçam de que nos espera uma boa caminhada. Já vamos chegar a casa de noite…

Puseram-se todos de pé e, sem mais demoras, iniciaram a descida. Ninguém se lembrou de recolher o lixo que tinham colocado junto ao Pinheiro.

Ouviu-se um profundo suspiro. O Pinheiro murmurou, tristemente:

- Já viste, vizinha? Respiraram o nosso ar puro, sorveram o nosso belo aroma, aproveitaram a minha sombra, nem sequer respeitaram a paz e o silêncio de todos estes seres que aqui vivem e, como agradecimento, foram-se todos embora deixando para trás o lixo que trouxeram com eles…

- Já devias estar habituado, Pinheiro. É sempre assim…

 

Algum tempo depois podiam ver-se numerosas gotas transparentes pendendo das agora escuras agulhas.

 


- Orvalho – dizia quem passava.

Não, não era orvalho, eram lágrimas de tristeza.

Lágrimas, sim, que as árvores também têm sentimentos.

 

Um grupo de crianças que passava saltitando alegremente, parou de repente olhando atentamente para o Pinheiro.

- Olhem, olhem, o Pinheiro está a chorar! Com certeza não vai receber prendas de Natal, e por isso está triste.

A mais velhinha teve uma ideia:

- Vamos levar-lhe estas bolinhas e fitas que fomos comprar para as nossas árvores. Talvez ele fique contente!

Correram para o Pinheiro e enfeitaram-no com tudo o que levavam para a festa delas.

O tecido das fitas coloridas absorveu a humidade das carumas e o Pinheiro deixou de chorar.

Excitadas, as crianças exclamaram:

- Vejam! Vejam! O Pinheiro deixou de chorar.

Radiantes, deram as mãos fazendo uma roda à volta do Pinheiro, cantando alegremente.

Recolheram os papéis que vinham a embrulhar as bolas e as fitas,  juntaram-lhes o lixo que os jovens haviam abandonado junto ao Pinheiro, deixando tudo impecavelmente limpo.

Ao afastarem-se  os olhos inocentes das crianças viram o brilho de reconhecimento e gratidão nos olhos da árvore.

E assim o Pinheiro triste  transformou-se na Árvore de Natal da aldeia.

 Maria Caiano Azevedo

FELIZ ANO NOVO

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

CONTO DE NATAL



 Para lerem aos vossos netos (ou filhos) ou para simples prazer da criança que há dentro de vós.

 BENVINDA e BALTAZAR


Numa aldeia distante morava um casal de velhinhos: A Benvinda e o Baltazar.

Embora fossem muito velhinhos e as forças já não fossem muitas, como eram muito pobres tinham de tratar das suas tarefas. 

Benvinda ocupava-se da lida da casa. Baltazar era chapeleiro, fabricava chapéus.

Naquele Natal não tinham nada para celebrar a consoada, nem dinheiro para comprar algo com que pudessem festejar a data do nascimento do Menino Jesus.

Baltazar lembrou-se de que talvez com a venda dos seus chapéus conseguisse algum dinheiro. Deslocou-se à cidade, pensando que, no regresso, poderia já trazer algumas guloseimas para se deliciarem à ceia.

Pegou em cinco chapéus que tinha feitos e tomou o caminho da cidade, que ficava bastante longe.

Depois de, com bastante dificuldade, atravessar vários campos, chegou, por fim, ao seu destino.

Sentia-se muito cansado mas, com a sua fé inabalável, pôs-se imediatamente a apregoar os chapéus:

- Olha o chapéu!  O lindo chapéu! Quem o comprar ganha o céu!

A cidade fervilhava de gente, que corria apressada de um lado para outro, fazendo as últimas compras para o Natal.

Todos voltavam para casa carregados de embrulhos, doces… garrafas de bebidas. Mas ninguém se interessava pelos chapéus.

Baltazar pensou:

- Não foi uma grande ideia, a que eu tive. Neste dia quem é que vai pensar em comprar um chapéu?

Mas não desistiu. Todo o dia palmilhou a cidade, apregoando a sua mercadoria. Pensava em Benvinda, que em casa o aguardava, e só isso lhe dava forças para continuar, apesar do enorme cansaço.

Mas não conseguiu vender um único chapéu.

A noite aproximava-se rapidamente e Baltazar, convencido de que não valia a pena insistir mais, guardou os chapéus e iniciou o caminho de regresso.

Quando saía da cidade começou a nevar. O frio entrava-lhe através da roupa, mas ele continuou a caminhar pelo campo coberto de neve.

De repente avistou seis duendes, todos encostados uns aos outros, tremendo. Já havia neve nas suas cabeças, que lhes respingava para os rostos.

Condoído, Baltazar não hesitou um momento. Passou a mão na cabeça dos duendes para retirar a neve, e em seguida cobriu-os com os chapéus, que não havia vendido.

Mas só tinha cinco chapéus, e os duendes eram seis…

Tirou o que ele próprio usava e com ele tapou a cabeça do sexto duende.

- É um chapéu velho e sujo… mas não tenho outro… - comentou Baltazar.

Não obteve qualquer resposta pois os duendes não falam com pessoas.

O velhinho retomou o seu caminho.

Ao chegar a casa a sua cabeça estava de tal modo branca com a neve que caíra, que Benvinda se assustou ao vê-lo:

- Mas o que aconteceu, Baltazar? Pregaste-me um susto! – disse, com voz trémula.

- A verdade é que não consegui vender nenhum chapéu. Quando regressava encontrei seis duendes e imaginei que estivessem com frio. Por isso cobri-os com os chapéus. Mas como faltava um… tapei-o com o meu.

Benvinda ficou emocionada com a atitude do marido, e apenas comentou:

- Foi um gesto muito nobre!

Comeram uns restos que ainda havia na despensa e foram-se deitar. A roupa da cama era pouca para noite tão fria. Encostaram-se o melhor possível, tentando transmitir um ao outro o calor dos seus velhos corpos cansados.

Pouco depois ouviram vozes lá fora:

- “Entrega de Natal! Onde é a casa do vendedor de chapéus? Abra a porta, vendedor!”

Levantaram-se ambos e abriram a porta, assustados.

Na frente da casa havia muita comida, doces, vinho, cobertores quentinhos…

Pensaram que estavam sonhando.

Olharam em volta e não viram ninguém. Fixando o olhar em frente, divisaram seis duendes afastando-se da casa.

Pareceu-lhes ouvir ao longe: - FELIZ NATAL!

Mas foi impressão, porque os duendes não falam com as pessoas.

Puseram a comida na mesa e festejaram, felizes.

No fim da refeição ajoelharam-se junto à lareira, puseram pelas costas um dos cobertores recebidos e, de mãos dadas, entoaram louvores ao Menino Deus que, ainda mal nascido, já fizera um tão grande milagre!

 

Maria Caiano Azevedo

 



quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

MOMENTO DE POESIA - AFINAL A VIDA É BELA


 AFINAL, A VIDA É BELA

Dias longos, sem sentido,

Difíceis de preencher.

Este que agora amanhece é mais um,

Igual a tantos outros.

Como dói a solidão!

Quem virá ver-me?

O telefone soará?

 

Sem vontade me levanto.

Forço-me a olhar para o espelho.

Vejo, reflectidos,  uns olhos assustados.

Examino as minhas rugas, uma a uma.

Tanta vida elas encerram!

Umas de felicidade - os sorrisos deixam marcas.

Outras de dor, dos momentos que sofri,

Da vida que não vivi.

Olho agora os meus cabelos,

Com lindos fios de prata.

Há uma saudade que mata,

Duma cabeleira farta,

Longa, brilhante, dourada.

Volto às rugas, curiosa.

Esta aqui, ontem não estava.

É a lembrança vivida

De toda a minha vivência.

 

Mais eis que um raio de sol

Atravessa, risonho, a vidraça da janela.

Beija-me o rosto,

Aquece-me o coração.

 

Afinal,

As minhas rugas são lindas,

As rugas da minha vida!

Memórias marcadas no meu rosto.

Sacudo os ombros.

Tomo café,

Visto um fato de treino.

Coloco a máscara no rosto,

E, por baixo,

Um mal disfarçado sorriso.

Saio para a rua, o sol brilha!

Caminho, quase saltitante.

E os ténis, confortáveis,

Pisando as pedras da calçada,

Dizem-me baixinho:

VAI EM FRENTE! A VIDA É BELA!

 

Maria Caiano Azevedo




segunda-feira, 1 de novembro de 2021

UM CONTO - MATILDE

 

MATILDE
OU
DAS MATERIALIDADES DA LITERATURA

 Entrou no escritório, fechando a porta atrás de si.

Dirigiu-se à secretária, estrategicamente colocada junto a uma das duas janelas, sentou-se e, com o olhar, varreu todo o espaço. Deu um leve suspiro, de satisfação. Sentia-se ali muito bem.

Romualdo Benevides não era um escritor famoso, mas tinha uma vasta obra publicada, e era reconhecido em todos os meios literários. Recebera alguns prémios, que guardava numa das estantes do escritório. Além dos romances escrevia também muitos artigos para vários jornais com quem colaborava. Tinha o tempo bastante preenchido.

Adquirira o hábito de ir imprimindo os seus escritos e, nas folhas , fazer as correcções que entendia. Não gostava de escrever em papel - sentia bastante dificuldade em que as ideias afluíssem ao seu pensamento.  Fazia-o no teclado do computador e, à medida que ia escrevendo, ia revendo. As últimas páginas escritas num dia deixava-as sempre para ver no dia seguinte. Era, de resto, a primeira coisa que fazia quando, de manhã, se sentava à secretária.

Naquele dia sentia-se particularmente bem. Foi, pois, com toda a boa disposição, que pegou nas folhas escritas, endireitando-as com calma; e, recostando-se na cadeira, preparava-se para começar a ler quando ouviu uma voz muito suave, dizer:

- Olá, Romualdo. Como te sentes hoje?

Admirado, olhou para a porta, na expectativa  de ver quem tinha entrado. Não estava lá ninguém, e aquela mantinha-se fechada. Intrigado, olhou em todas as direcções, mas não havia ninguém no aposento além dele mesmo.

- Certamente foi alguém a falar lá fora e eu fiz confusão… -  pensou.

De novo, a voz:

- Então? Não queres falar comigo? Estás aborrecido? Pareceu-me que estavas muito bem disposto…

Havia qualquer coisa naquela voz tão suave que lhe parecia familiar.

Assombrado, atreveu-se a perguntar:

- Mas… quem és tu?

- Quem sou eu? Então não me reconheces? Tu, que me deste a vida, não sabes quem eu sou?

Completamente aturdido olhou de novo em redor, confirmando que se encontrava sozinho.

- Uma filha? – pensou. Se eu é que lhe dei vida… só pode ser minha filha. Mas eu nunca soube que tinha filhos…

Romualdo Benevides era um homem de meia estatura, boa aparência, que rondava os cinquenta anos. Solteirão inveterado, eram inúmeros os namoricos que lhe atribuíam – geralmente com fundamento. Mas nunca quisera nenhum compromisso sério.

Dedicado ao seu trabalho, muito organizado em tudo o que fazia, vivia sozinho na velha casa que fora de seus pais, há alguns anos falecidos, e onde ele próprio nascera, fora criado, e sempre vivera, excepto nos anos que passara em Coimbra, onde fizera o doutoramento em Materialidades da Literatura.

Apesar de ser uma pessoa com uma mente muito sã e aberta, naquele momento sentia-se alucinado. Só assim se justificava estar a ouvir aquela voz – que, insistia, lhe era vagamente familiar – e, para cúmulo, responder-lhe, estabelecendo assim comunicação com “o invisível”.

Decidido a ver até onde ia a sua loucura, murmurou:

- Se eu te dei vida, significa que sou teu pai…

- Pode-se dizer que sim, em certo sentido.

Resolveu ir mais longe. Tinha de esclarecer aquele mistério, desse por onde desse.

- Mas onde te meteste, que não te vejo?

- Estou nas tuas mãos. Não me sentes?

A medo, olhou para as folhas de papel que escrevera no dia anterior. Tremiam. As folhas e as mãos

- Mas eu enlouqueci! – pensou, quando ouviu baterem à porta do escritório. Depois de ter dito – Entre! – viu assomar a cabeça da criada, Ludovina.

- Desculpe, senhor Doutor, era só para avisar que a senhora dona Elisa já chegou.

- Tão cedo? – admirou-se.  E só quando a criada lhe lembrou que já passava do meio dia, o que ele confirmou no relógio de pêndulo, é que tomou consciência de que passara toda a manhã em “devaneios”, não corrigira o trabalho do dia anterior, e muito menos escrevera uma única linha no seu romance.

Colocou as folhas em cima da secretária, com todo o cuidado, como se de um ser vivo se tratasse. Levantando-se quase com reverência, dirigiu-se à porta e dali à sala, onde dona Elisa o aguardava.

- Bom dia, minha Tia! Peço imensa desculpa de não estar aqui a aguardá-la, como é habitual, mas distraí-me completamente e nem dei pelo tempo passar – dizendo isto dava um caloroso abraço à senhora, elegantemente vestida, que o aguardava.

- Meu querido sobrinho – disse, retribuindo o abraço - não precisas de te desculpar. De resto, foram apenas uns minutinhos. A verdade é que nunca te vi tão entusiasmado com um romance como com este que agora estás escrevendo.

- Tem toda a razão, Tia. Este novo livro está a prender-me como nenhum outro.

Entrando na sala a criada interrompeu a conversa:

- Posso servir, senhor doutor?

- Claro que sim, Ludovina. Sirva, por favor.

Terminado o almoço passaram para a saleta onde Ludovina lhes serviu o café e um licor. Deram então início à habitual conversa. Os laços que os uniam eram muito fortes. Filho único de um irmão de dona Elisa, quando este falecera juntamente com a mulher num acidente de automóvel, tia e sobrinho ampararam-se mutuamente, conseguindo assim ultrapassar a profunda  dor da perda.

Ambos apreciavam muito estas  conversas de terça-feira. Levantando-se para se retirar, dona Elisa recomentou, pela milionésima vez:

- Romualdo, meu querido, vou mais uma vez insistir – tens de arranjar uma secretária. Tu trabalhas demais, sempre enfiado naquele escritório. Precisas de uma pessoa que te ajude.

- Obrigado por me lembrar, minha querida Tia. Mas tenho uma surpresa para si: já pus um anúncio e, dentro de muito pouco tempo, devo começar a entrevistar candidatas.

Logo que a tia Elisa se retirou, Romualdo entrou no escritório, dirigindo-se de imediato à secretária. Olhou, meio receoso, para as folhas que de manhã não corrigira e que se encontravam, muito direitas, à esquerda do teclado.

Tinha de continuar a trabalhar. Pressentia que aquele era “o romance da sua vida”. A história estava toda na sua cabeça, era só passá-la para o papel. Mas não podia ser de qualquer maneira, não. Os personagens exigiam-lhe respeito. E como eram exigentes! Parecia que os ouvia reclamar cada vez que aligeirava o tom.

Primeiro como que a medo, depois com ar decidido, segurou as folhas, preparando-se para corrigir qualquer falha que pudesse detectar. Nada aconteceu. Começou a ler, fazendo pequenas correcções. Uma a uma percorreu todas as folhas, sem qualquer incidente.

Pensou:

- Esperavas que acontecesse o quê? Decididamente, de manhã estavas com alucinações. Alguma coisa que comeste ao pequeno almoço…. Tens de falar com a Ludovina e perguntar-lhe quais os temperos que pôs nos ovos mexidos. Pensando bem… tenho a impressão de que o sabor não era o habitual. Alguma erva que comprou na feira provocou-me aquele estado de demência…

Pondo as folhas de parte, começou a escrever. As palavras surgiam escritas antes que ele tivesse tempo de teclar, a uma velocidade vertiginosa. Mal pensava num vocábulo e ele aparecia logo escrito. Quase não conseguia pensar.

Aturdido, parou. As teclas estacaram, de repente.

- Mas o que é isto? O que é que me está a acontecer? Será que eu estou a sonhar? Ah! A Ludovina, hoje, fez de novo ovos mexidos para o pequeno almoço! Ou foi ontem? Mas hoje eu já comi, tenho a certeza. Hoje é hoje, não é ontem. E eram ovos. Não estou a sonhar.

Começou a sentir-se assustado.

– Será melhor falar com um médico? Mas qual? O indicado é um psiquiatra. Mas eu não estou maluco! Tem de haver uma explicação para tudo isto!

Levantou-se, foi até à janela, abriu-a, deixando entrar o ar fresco. Respirou fundo.

- Eu ando é muito stressado com este livro. Preciso acalmar-me e, de certeza, estas fantasias desaparecem.

Fechou a janela e voltou para a secretária. Viu que já tinha bastantes páginas escritas e imprimiu-as. Endireitou-as e recostou-se na cadeira para as corrigir.

Sentia-se receoso e, ao mesmo tempo, expectante. Uma folha, duas folhas, e à terceira, de novo ouviu a voz. Não se assustou, pelo contrário, era como se já soubesse que “a voz” iria fazer-se ouvir.

Olá! Boa tarde – disse ela, alegremente. Já estava a sentir a tua falta. Foste-te embora sem sequer te despedires – acrescentou em tom lastimoso. 

- Boa tarde – respondeu Romualdo, quase que involuntariamente. Sentia que uma força qualquer o impelia a estabelecer ligação com aquela voz tão suave, que continuava a parecer-lhe familiar. – Tenho de  te fazer uma pergunta – continuou.

- Podes perguntar tudo o que quiseres, mas o mais certo é saberes as respostas às tuas perguntas – respondeu com um risinho.

- O que eu quero saber é quem és tu, como te chamas…. Tu começaste por me chamar Romualdo, mas eu não sei o teu nome…

- Como assim? Eu sou a Matilde! Foste tu que me criaste e me baptizaste.

- Matilde? A heroína do meu livro? Bem me parecia que reconhecia a tua voz…

- Caro que tinhas de reconhecer, foste tu que ma deste… Mas sabes? Eu resolvi falar contigo porque não estou a gostar muito do papel que me estás a fazer representar. As minhas atitudes anteriores eram muito mais sensatas. Agora estás a querer que eu seja uma cabeça de vento?

- Não é bem assim… só estou a pôr-te um pouco mais moderna. As meninas muito bem comportadas, como tu eras, já estão fora de moda…

- Pois deixa-me que te diga: se insistires nesse caminho… eu fujo, e nunca mais me vês!

Romualdo sobressaltou-se.

- Como poderei continuar e terminar o meu romance se a personagem principal desaparece?

Olhou ansioso para a folha com quem estivera falando, que se mantinha estática.

- Ainda estás aí, Matilde? – perguntou, a medo.

Não obteve qualquer resposta. A folha, que enquanto falavam se agitava levemente, mantinha-se firme, sem dar qualquer sinal.

O coração disparara-lhe no peito, acelerado. 

- Não me digam que ela se foi mesmo embora! – pensou, angustiado. Não, isso não pode acontecer. Como vou continuar a minha escrita se ela desaparecer? O meu romance já vai muito adiantado para eu agora estar a criar uma nova personagem   . - Matilde! Por favor, não desapareças!

E olhava para a folha, ansioso, esperando qualquer reacção. Mas tal não aconteceu. Ela manteve-se inerte.

Sem saber o que fazer, continuou a virar as páginas, dando-lhes uma rápida vista de olhos, até que houve uma que o fez parar e olhar com mais atenção. Aí estava de novo Matilde, agora conversando com um vizinho que pretendia conquistar. Leu e releu, atentamente, até que a folha começou a agitar-se ligeiramente.

- Matilde, estás aí, não estás? Eu sei que sim! Por favor, fala comigo!

Desta vez a voz não se fez rogada.

- Estou aqui, sim, e já viste que ridícula? Toda dengosa, fazendo olhinhos para o vizinho, que nem sequer me interessa, a não ser para fazer ciúmes ao meu noivo…. Achas isso bonito? Eu não era assim. Estás a transformar-me numa depravada. Não gosto da nova Matilde em que me estás a tornar.

- Desculpa, não pensei que te desagradasse tanto – respondeu ele, em tom pesaroso. Eu volto a pôr-te como tu eras, prometo. Só preciso que me digas que não te vais embora.

Rapidamente rasgou as folhas impressas e, num frenesim, atacou as teclas refazendo completamente a história, na parte que dizia respeito à heroína.

Depois de imprimir a nova versão, pôs-se a olhar para as letras. O que viu agradou-lhe.

Desta vez não foi preciso chamar por Matilde pois ela de imediato se fez ouvir:

- Então, não achas que assim está muito melhor?

- Sim, mas o que interessa é que te agrade.

- Pois, mas para eu ficar completamente feliz… gostava que me levasses contigo quando fores fazer a tua corrida, logo à tarde.

Ele deu uma gargalhada.

- E tu achas que consegues acompanhar a minha pedalada? Duvido…

- Põe-me à prova. Até logo.

E não emitiu nem mais um som.

À tarde terminou o trabalho mais cedo, de tal modo estava ansioso por levar a sua heroína a passear. Meteu as folhas onde figurava o nome dela num dossier e saiu.

Caminhava devagar pois não queria cansá-la. Quando chegaram ao jardim, Matilde, que até ali se mantivera em silêncio, exclamou, extasiada:

- Que bonito! Nunca me falaste nestas coisas tão lindas, com tantas cores! E como são perfumadas!

- São flores. De facto, nunca te falei nelas porque não veio a propósito. O meu romance não é nenhum livro de botânica – riu-se, alto, feliz.

Duas senhoras que passavam olharam para ele de lado, meio desconfiadas. Caiu em si.

- As pessoas vão pensar que sou doido, a falar sozinho. Isto não pode ser assim. Não vou andar aqui a passear sem poder comunicar com ela. Já sei. Vou experimentar só pensar. Afinal, deve ser o que ela faz comigo, porque parece que as outras pessoas não a ouvem.

As horas voaram. Conversaram de tudo o que a espantava. Ele, pacientemente, respondia a todas as suas perguntas. Começava a anoitecer quando ele lhe disse que tinham de regressar – eram quase horas de jantar.

Ludovina já o estava esperando.

- O senhor doutor distraiu-se com as horas – comentou ela, com um sorriso.

- Pois foi, está um tempo tão bonito que apetece caminhar horas a fio! Mas pode servir o jantar. Desculpe tê-la atrasado. Vou só lavar as mãos.

Foi rapidamente ao escritório pousar o dossier, pensando:

- Até amanhã. Dorme bem.

E sorriu feliz, convicto de que ela o ouvira.

Dormiu um sono tranquilo e acordou bem disposto. Não tardou muito a entrar no escritório, mais cedo do que habitualmente.

- Vou já agarrar-me ao trabalho. Ontem acabei por adiantar muito pouco a escrita.

Sentou-se ao computador e começou a teclar a toda a velocidade. Sentia que o dia lhe ia correr muito bem; conseguiria adiantar bastante o seu romance. E, sem se aperceber, passaram duas horas. No escritório reinaria um silêncio absoluto não fosse o som do teclado deslizando sob os seus dedos. Estava completamente imerso no que escrevia.

Interrompeu os seus pensamentos um leve toque na porta, que se entreabriu, deixando ver a cabeça da Ludovina.

- Desculpe, senhor doutor, mas está aqui uma menina que vem para a entrevista do emprego…

- Ah, sim, sim, está na hora.

A jovem manteve-se à entrada da porta, nitidamente à espera de ser convidada a entrar. Romualdo, levantando-se,  olhou na sua direcção e ficou estupefacto. Sem conseguir pronunciar uma palavra, olhava-a, apenas. A jovem era uma cópia perfeita da heroína do seu romance. Com os longos cabelos loiros caídos pelas costas, os olhos azuis esplendorosos, e um meio sorriso que lhe provocava uma covinha na bochecha esquerda… parecia saída do romance do escritor.

Manteve-se imóvel por uns momentos. Vendo que Romualdo não tinha qualquer reacção, atreveu-se a perguntar:

- Posso entrar?

A voz! Era exactamente a mesma voz! Mas como era possível? Forçando-se a reagir, respondeu :

- Claro! Entre, entre! Desculpe, eu estava completamente alheado. Sente-se aqui à minha frente, por favor. Vou começar por preencher esta pequena ficha com alguns dados seus. Diga-me o seu nome…

- Matilde, senhor.

 

 Romualdo Benevides nunca publicou este seu romance. Mandou fazer apenas um exemplar, encadernado em pele, que guardava, religiosamente fechado à chave, numa das estantes do seu escritório. Às vezes retirava-o do seu lugar e segurava-o entre as mãos como se de uma relíquia se tratasse, afagando-o suavemente, com um sorriso misterioso.

FIM

Maria Caiano Azevedo