segunda-feira, 1 de março de 2021

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XXVII

 Começo por agradecer a todas as pessoas que, durante a minha ausência, gentilmente se interessaram pela minha saúde e apresentaram votos de melhoras.

Agradeço igualmente a quem parabenizou esta minha/vossa “CASA” pela passagem do seu 13º. Aniversário. Infelizmente não pude estar presente, mas a minha querida amiga Líria representou-me (e penso que muito bem) fazendo-me a surpresa de uma postagem nessa data – 14 de Fevereiro.

Peço, por isso, que me permitam agradecer-lhe aqui, publicamente, por todas as provas de grande amizade que me deu nestes tempos complicados por que passei. Obrigada, minha querida amiga irmã!

 

Posto isto… vou partilhar convosco as últimas confidências da Nanda, cuja história se aproxima da recta final.

Quando chegar o FIM – mais 2 ou 3 capítulos – veremos se é também chegado o FIM da CASA DA MARIQUINHAS.  Treze anos é muito tempo e “é preciso dar lugar aos novos”.

VEREMOS!

 

 

SEGREDOS – CAPÍTULO XXVI


  "- Resolvi ligar-te eu porque vou já deitar-me – respondeu Bela, com voz desgostosa. Amanhã tenho de levantar-me cedo. O meu pai vai ser julgado, e eu quero ir ao tribunal.

- Tem calma, meu anjo. O que tiver de ser… será. Nada podes fazer para o evitar. E não te apresentes lá com um ar muito preocupado, para não o afligires ainda mais…

- Vou tentar. Até amanhã, querida. Depois falamos.”

 SEGREDOS – CAPÍTULO XXVII  

 Depois de uma noite reparadora no confortável quarto de hóspedes e de um revigorante duche, Giuliana saiu de casa e foi até à pastelaria tomar o pequeno-almoço. Não quisera servir-se do que havia no frigorífico para não estar a abusar…

De seguida apanhou um táxi e dirigiu-se para a Torre do Tombo onde iria efectuar consultas para a investigação que tinha entre mãos. Pelo caminho ia pensando que precisava informar-se acerca dos autocarros, pois não podia ir e vir todos os dias de táxi. A mesada que o pai lhe dava era razoável, mas não podia pôr-se a gastar “à grande e à francesa”, senão num instante ficava arruinada.

Tinha combinado com Nanda encontrarem-se ao meio dia para almoçarem juntas. Esta primeira manhã não iria render-lhe muito nas averiguações já que se levantara mais tarde do que lhe era habitual; mas o seu corpo tinha reclamado descanso, e ela fizera-lhe a vontade.

À hora aprazada chegou à ourivesaria. Cumprimentaram-se com um sorriso, e foram almoçar.

Trocaram impressões acerca de como tinham decorrido as suas manhãs. No meio da conversa Giuliana gabou o croissant que tinha comido ao pequeno almoço no café perto de casa. Logo Nanda ficou alerta, perguntando se no frigorífico não encontrara nada que lhe agradasse. A resposta da sua recente amiga – “que não quisera abusar” - indignou-a.

- Afinal, somos amigas ou não? Achas que eu ia receber-te em minha casa, quase como uma filha, e não queria que tomasses lá o pequeno almoço?

O tom em que falara e o rosto sombrio assustaram Giuliana.

- Mas, Nanda, eu não fiz por mal, acredite, só que não me senti à vontade para estar a mexer nas suas coisas.

- Pois eu te digo, se não queres que a nossa amizade termine aqui e agora, vais me prometer que não voltas a fazer tal coisa. Tens de te sentir na minha casa como se ela fosse tua – disse em tom mais ameno.

Giuliana não se conteve: levantou-se e, colocando-se atrás da cadeira, deu-lhe um forte abraço. Nanda ficou logo de bom humor.

Continuaram conversando até que a jovem fez referência à gravidez de Farida. Nanda, com ar espantado, respondeu que pensava que esse assunto era segredo, pois fora isso que Miguel lhe dera a entender. E recorda a conversa do dia anterior, que tivera com o filho e a nora:  

“- Mãezita, vamos-te contar um segredo. Porque pensas que viemos cá?

- Então não foi para fazerem o passeio ao Norte?

- Sim, também,  mas viemos essencialmente porque queríamos dar-te a novidade de viva voz.

- Mas…?

- Sim, tu não sabias de nada, claro, como poderias saber?!

- Mas tu…

O olhar de Nanda saltita entre Miguel e Farida.

O seu André, o seu menino, pai?

E fica sem jeito, e fica num sobressalto, e…?

E lança-se ao pescoço do filho. E beija-o, e abraça-o, e chora numa imensa alegria, tal como teria feito há uns anos.

- Então mãe, não é caso para chorar!

Nanda seca as lágrimas, ergue a cabeça, ensaia um sorriso.

Farida assiste, quieta, orgulhosa. E é a sua vez de receber beijos e abraços efusivos da sogra.»

- Sim, Farida não quer que a notícia se espalhe enquanto não completar os três meses – esclareceu a jovem - mas entre nós não há qualquer segredo. Tal como consigo – acrescentou.

De repente, Giuliana teve uma ideia que verbalizou:

- Nanda, estava aqui a pensar que podíamos ir até ao Norte, fazer uma surpresa ao Miguel e à Farida…

- É uma ideia atraente, não digo que não… mas sabes que eu não posso ausentar-me assim sem mais nem menos…

- Sim, eu sei, mas se fôssemos no sábado de madrugada,  conseguíamos passar lá  quase três dias, já que na segunda-feira é feriado… Podíamos regressar só à tardinha, para aproveitarmos bem o dia…

- Pois, mas sábado é dia de trabalho…

- E será que não consegue uma dispensa? Afinal… o seu filho não vem cá todos os dias… merecem estar juntos algum tempo… Que lhe parece?

- Parece-me que tu és um verdadeiro demónio tentador – riu Nanda. Mas acho que tens razão. Vou ver se consigo falar com o engenheiro.

- TEM mesmo de falar! – acrescentou Giuliana em tom firme.

Nanda sorriu, lembrando-se que Alessandro tinha esta mesma expressão quando lhe pedia alguma coisa.

Abanou a cabeça, como que para afastar os pensamentos, e prometeu fazer o que ela lhe pedia.

Claro que para cumprir aquele projecto teriam de ir de carro, não poderiam estar sujeitas a horários de comboios.

Afinal… parece que fora melhor que o Miguel não tivesse levado o carro. Seria isto algum sinal? Ela não era nada supersticiosa, mas ultimamente andavam a acontecer-lhe coisas muito estranhas…

Os dois dias que faltavam para o fim-de-semana passaram a correr, Giuliana nas suas consultas na Torre do Tombo e Nanda preparando-se para a viagem. Teria de levar roupas menos frescas, as temperaturas no Norte eram um pouco mais baixas do que cá e não queria constipar-se. O melhor era fazer uma lista das coisas que precisava levar, não fosse esquecer-se de alguma coisa importante. Andava tão excitada como uma adolescente que vai ter o primeiro encontro.

Finalmente chegou o sábado!

Levantaram-se com o céu ainda escuro, carregaram o carro, e puseram-se a caminho. Como queriam fazer surpresa ao Miguel nada lhe tinham contado dos seus planos, embora tanto ele como Farida lhe ligassem todos os dias pelo telemóvel.

Quando estivessem próximo do Porto então lhe diriam, para saber onde ele estava e combinarem o local de encontro.

Pararam duas vezes pelo caminho para ir à casa de banho e tomar café.

A viagem estava a decorrer muito bem. Apesar de ser sábado, dia em que muitas pessoas aproveitam para passear, como era muito cedo havia pouco trânsito. Assim, pouco depois das dez horas estavam já nos Carvalhos, a cerca de 15 quilómetros do Porto.

Fizeram uma breve paragem, para que Nanda telefonasse a Miguel. Este ficou espantadíssimo, mas também radiante, quando a mãe lhe disse onde ela e Giuliana estavam. De imediato combinaram encontrar-se no Café Magestic, um dos poucos lugares de que ela se lembrava por ter lá estado uma vez com os pais, há muitos anos, numa passagem muito breve pelo Porto.

Meia hora depois já Miguel abraçava calorosamente a mãe e a sua amiga Giuliana. Aproveitaram para tomar mais um café e descansarem um pouco da viagem. Nanda perguntou:

- E onde está a minha querida nora? -  Agora que está grávida, mais querida ainda?

- A Farida ficou a descansar, não se sentia muito bem. Foi até por isso que viemos passar o fim-de-semana aqui no Porto. Na segunda-feira ainda vamos até Amarante e ao Marão, para ela conhecer. Dormimos lá na Pousada e na quarta ou na quinta-feira vamos para baixo, e depois até ao Algarve. O André e a Sara, a mulher, vão connosco. Os pais dele estão lá, têm uma casa em Armação de Pêra.

- Mas há algum problema com a Farida? Ou é só a indisposição normal do seu estado?

- Penso que é apenas isso. Ela não se queixa de nada, a não ser dos enjoos, especialmente de manhã, ao levantar. De qualquer modo achei melhor que fosse vista por uma médica amiga do André, que se prontificou logo a observá-la. Disse que está tudo lindamente.

- Sendo assim… não há motivos para preocupação. Normalmente, ao fim de dois ou três meses os enjoos passam.

- Esperemos que sim. E agora, se já se recompuseram, podemos ir andando, não?

 - Claro que sim, mas, se não te importas, podíamos passar antes por um hotel que não seja muito caro para marcarmos quarto. Até podemos deixar lá as malas…

- Nem pensar – respondeu prontamente Miguel. Trago ordens expressas do André para as levar para casa dele. Dele, é como quem diz, dos pais… pais adoptivos, é claro.

- Ai o Miguel é filho de pais adoptivos? - Perguntaram ambas ao mesmo tempo.

Nanda olhou para Giuliana com um ar interrogativo, e esta esclareceu-a:

- Eu conheci o André há muito pouco tempo, quando ele foi com a mulher lá à Bélgica. Apenas sei que é casado, português… e pouco mais. Mas posso garantir-lhe que é muito simpático. Estive com ele apenas algumas vezes, mas temos muitas afinidades.

Engraçado, agora que penso nisso… é como se o conhecesse há anos!

- Acredito que seja simpático, mas não me parece muito boa ideia irmos para casa duma pessoa que eu não conheço…

- O André não me perdoaria se não vos levasse comigo. Os pais, adoptivos ou não - disse Miguel com um sorriso – estão no Algarve, e a casa é enorme! São pessoas de muito dinheiro que, para seu grande desgosto, nunca puderam ter filhos. Inscreveram-se num desses locais para adopção e tiveram a sorte de lhes “calhar na rifa” um bebé recém-nascido – como diz, por brincadeira, o André.

Foi muita sorte tanto para ele, que é uma pessoa óptima, como para os pais, que realizaram o sonho de ter um filho, demais a mais com poucos dias de vida.

E agora vamos embora, que eles estão à nossa espera. Podemos ir no carro porque a casa tem garagem.

Encaminharam-se para a Avenida da Boavista e, a certa altura, cortaram à direita, na Rua S. João de Brito, estacionando o carro em frente a uma bela mansão.

Miguel saiu rapidamente do carro e, com um sorriso, abriu a porta para a mãe sair, estendendo a mão como que à espera de gorjeta.

Nanda deu-lhe um piparote na cara e os três soltaram uma gargalhada. Foi a forma que ele arranjou para descontrair a mãe, que sabia estar um pouco tensa.

Miguel tocou à campainha e Sara veio abrir a porta. Ali mesmo lhe apresentou a mãe, após o que se dirigiram à sala, onde se encontravam a Farida, e o amigo, André.

A nora abraçou-a com ternura e voltou-se para lhe apresentar André.

Ao vê-lo Nanda sentiu-se desfalecer. Com uma enorme vertigem só a cadeira onde se apoiou impediu que tombasse no chão.

 

Maria Caiano Azevedo

domingo, 14 de fevereiro de 2021

DÉCIMO TERCEIRO ANIVERSÁRIO

Olá. Sou, de novo, a Líria.

A nossa querida Mariazita, que se encontra em franca recuperação (mas é isso mesmo, “em recuperação") ainda não se sente com forças bastantes para tratar do blogue.

Decidi fazer-lhe uma surpresa e lembrar-vos que hoje  A CASA DA MARIQUINHAS completa treze anos. (conto convosco para me defenderem no caso de ela “me dar na cabeça” 😊)

Mas eu não tenho grande jeito para estas coisas – haja em vista o “OLHAI OS LÍRIOS DO MACUÁ” que foi, na sua quase totalidade, gerido pela minha amiga.

Então fui revirar o seu baú e descobri um poema que ela compôs e publicou num outro Aniversário do blogue. Como gosto muito dele transcrevi-o para aqui. Espero que gostem de recordar.

Com a esperança de que no próximo post, no dia 1 de Março, já não me ponham a vista em cima 😊, e a nossa Mariazita já possa estar presente, deixo um beijinho.

Líria

Antes do poema, convido-vos a fazer um brinde a esta “CASA” e à sua progenitora. (Como me encontro no campo, devido à Covid, o brinde é feito no meio ambiente, ao ar livre 😊)


 

SE EU PUDESSE FALAR COM ESTA «CASA»

Se eu pudesse falar com esta «casa»

Há vários anos nascida,

Iria lembrar-lhe os dias,

As horas, e até os meses,

Feitos de alegres momentos,

Também de alguns revezes,

E coragem desmedida,

 

Enganos, desenganos,

Amores e desamores

Juntos amadurecemos.

As ilusões da vida,

Os caminhos que trilhou,

Atrevido, sem temores,

Acompanhei, enternecida.



Começa a sentir cansaço,

Dos anos já nota o peso.

As têmporas embranquecidas,

E o vigor enfraquecido,

Fazem-lhe sentir que os dias

Se revezam com as noites,

Num vaivém enlouquecido.

 

Eis que se aproxima a hora

De o espírito descansar.

Vê, feliz, à sua volta

O grande amor e carinho

Dos que o vêm saudar.

Agradece, retribui,

E, sorrindo, vai sonhar.


Mariazita

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

SOU A LÍRIA

 SOU A LÍRIA

Começo por me apresentar:

Sou a Líria, co-administradora do blogue 

OLHAI OS LÍRIOS DO MACUÁ

e grande amiga da Mariazita.

Algumas das pessoas que visitam esta CASA conhecem-me, do meu blogue.

Ex. - Fê blue bird ,  chica , Regina Magnabosco , Emília Pinto, manuela barroso , MARILENE,  " R y k @ r d o " , Olinda Melo ,  Maria Rodrigues ,  Lúcia Bezerra de Paiva , Beatriz Bragança , Ghost e Bindi,  Gracita ,  Duarte ,  Ruthia , Elvira Carvalho, Roselia Bezerra , Carla Ceres,  Daniel Costa ,  vieira calado …

e tantas outras, algumas desaparecidas, outras cujos blogues estão inactivos, mas que recordo com saudade e guardo no meu coração. Talvez ainda nos voltemos a encontrar por lá…

A minha presença aqui, a pedido da nossa querida Mariazita, destina-se a dar-vos notícias do seu estado de saúde.

Como alguns de vós sabeis, a nossa amiga sofre de DPOC – Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica, o que, de vez em quando, lhe causa problemas.

Foi por aí que tudo começou:  Mais uma infecção pulmonar, que a atacou meia dúzia de dias antes do fim do ano. Como é habitual, foi-se agravando, e no dia 31 o médico aconselhou-a a ir ao hospital, porque a sua falta de ar estava a tornar-se preocupante.

Passou a meia noite – Passagem de Ano – na urgência do Hospital CUF-Tejo (Av. 24 de Julho, Lx) sozinha com o filho. Deram-lhe oxigénio, fizeram exames e análises, e teve alta às 2,30H do dia 01/01.

Entretanto, a conselho médico tinha feito o teste ao Coronavírus, que acusou positivo. Depois… como ela diz, com o seu inquebrantável senso de humor, “o SARS-CoV-2 abraçou a bactéria da DPOC e, juntinhos, fizeram um bailarico no salão do meu corpo. E como ambos devem ser “pé de chumbo” maltrataram-me bastante”. (Incrível como, no meio de tanta preocupação, ela consegue manter o bom humor.)

Presentemente encontra-se em fase de recuperação. Qualquer pessoa sabe que esta doença, a Covd 19, deixa sequelas que demoram muito tempo a ultrapassar. Nomeadamente dores de cabeça, fortes, que a impedem de escrever e ler muito tempo seguido.

Vamos fazer uma forcinha, todos juntos, para que a nossa amiga consiga escrever e publicar, pelo menos, a postagem do próximo dia 01 de Março.

Expresso aqui, a pedido da Mariazita, o seu agradecimento a toda(o)s que se interessaram pela sua saúde, e a quem ela agradecerá pessoalmente logo que possível.

Em meu nome, se me permitem, deixo um beijinho saudoso.

Líria

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

ESTOU DOENTE

 ESTOU DOENTE


Não é o mais agradável para se dizer no 1º. Dia do Ano, mas… adoeci no dia 27/12 p.p.

Aguardo melhores dias.

Logo que possível voltarei.

Os meus melhores votos de um muito feliz 2021.


domingo, 20 de dezembro de 2020

EM TEMPO DE NATAL

 POR FALAR EM NATAL…


Ao virar da esquina dou de caras com a Nanda.

Ao virar da esquina? Mas qual esquina, se eu não saio de casa? Há aqui qualquer coisa que não bate certo…

Com um ar prazenteiro, ao ver-me, o seu rosto iluminou-se num enorme sorriso – muito sorri e ri esta mulher!!!

Até aqui tudo bem… A Nanda é mesmo assim – muito risonha. O melhor que tenho a fazer é ficar na minha. Aguardar.

Aproximando-se rapidamente apertou-me num forte abraço.

Afasto-me apressadamente, repreendendo-a:

- Estás a esquecer-te da Covid? Onde está o respeito pela distância social?

Em resposta deu uma forte gargalhada:

- És mesmo pateta! Então não vês que é um abraço virtual? Desses podes dar e abusar!

Fiquei sem fala. Como é que eu não me tinha lembrado disso? Pois é. Abraços, beijos, toda a espécie de carinhos, desde que sejam virtuais, não contagiam ninguém.

Resolvo entrar na brincadeira. Afinal, que tenho eu a perder? Se tudo isto é virtual, não corro nenhum risco, mesmo que saia de casa. Virtualmente claro!

Esta Nanda tem uma grande cabeça!

Depois de acalmar o riso ela continuou:

- Ainda bem que te encontro. Queria muito falar contigo sobre um assunto que me preocupa.

Fico feliz. Afinal, falo com ela apenas uma vez por mês. Qualquer conversinha extra é sempre bem-vinda.

- Pois se te preocupa diz já. Sabes bem que estou sempre pronta a ouvir-te.

- Sim, eu sei. É assim: Eu ando muito cansada!

Foi então que reparei bem no seu aspecto e vi que, de facto, não aparentava aquele ar fresco que lhe é habitual. À primeira vista eu não tinha notado. Nanda costuma andar sempre tão bem arranjada como se tivesse acabado de sair do instituto de beleza.

Foi, pois, com a maior compreensão que a incentivei a desabafar.

- E a que se deve todo esse teu cansaço?

- Às gravações. Têm de acabar! Já duram há mais de um ano. Por isso… vamos apressar o fim. Não faças esse ar… Eu sei que há muitas coisas que se poderiam ainda contar… Mas eu já não aguento mais.

- Ah! Então tu queixas-te de cansaço por falares para o microfone. E eu, que tenho de ouvir e escrever tudo o que tu dizes, não tenho motivos para estar cansada?

- Cada um sabe de si, minha querida Mariazita. Se quiseres acrescentar alguma coisa da tua autoria… é contigo. Tu conheces a minha história tão bem como eu. Por mim, já decidi: vou esquecer tudo o que ainda poderia dizer sobre o pai da Bela, sobre a minha vizinha Carla (que também tem os seus segredos); e sobre o Araújo (que não é o santinho que parece… mais um segredo). Tudo isso… esquece!  Enfim, prepara-te para os “finalmentes”.

- Tudo bem, minha querida, tu é que sabes, a história é tua.  Acaba-la quando e como quiseres. Os “finalmente” vão ser muito demorados?

- Penso que em dois ou três capítulos conseguimos chegar ao fim.  E tu, meu anjo, não ficas zangada comigo?

- É claro que não!

- Então posso pedir-te um favor?

- Evidentemente que sim!

- Gostava de desejar MUITO BOAS FESTAS aos teus visitantes, comentadores ou não, e agradecer-lhes a paciência que tiveram para ouvir a história da minha vida. 

 

 

Fico a olhar para o ecrã à minha frente e assalta-me uma dúvida:

- A Nanda esteve mesmo aqui a falar comigo? Ou tudo não passou de um sonho?

Seja como for… e já que aqui estou... aproveito para vos desejar

UM NATAL MUITO FELIZ, COM MUITA PAZ, MUITA SAÚDE E ESPERANÇA NUM ANO MELHOR

 

Maria Caiano Azevedo

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XXVI

 SEGREDOS – CAPÍTULO XXV

“… Sentiu um zumbido fortíssimo nos ouvidos; depois tudo escureceu à sua volta. Começou a cambalear. Foi apoiada por Luís que a transportou em braços, desmaiada, para o sofá…”


 SEGREDOS – CAPÍTULO XXVI

Momentos depois, voltando a si, Nanda olhou para os rostos que a fixavam, ansiosos. Recompondo-se, murmurou:

- Desculpem! Tive uma quebra de tensão, com certeza. E acrescentou, com um sorriso: Que hora tão imprópria para isto me acontecer!

Dirigindo-se a Giuliana abraçou-a, com disfarçada emoção, dizendo:

- É um prazer muito grande conhecer-te e receber-te na minha casa. Espero que te sintas cá bem…

Giuliana deu-lhe um sonoro beijo abraçando-a com força.

- Tenho a  certeza de que me vou sentir como se estivesse na minha casa. Depois das coisas que o Miguel me contou não podia ser doutra forma – respondeu, reforçando o abraço. Ao estreitarem-se sentiam-se como se se conhecessem há muito tempo.

 Como que para aliviar o alvoroço que sentia dentro de si, Nanda alvitrou:

- E se fossemos lanchar? A comida que servem nos aviões não presta para nada.

Dirigiram-se à cozinha. Acompanhado por um odoroso chá saborearam o bolo, que todos elogiaram, dizendo que estava uma delícia.

Luís falou, com mal disfarçado orgulho, do seu pequeno rebento, ao mesmo tempo que justificava a ausência de Catarina:

– O Nani está ligeiramente constipado, e por esse motivo a mãe ficou em casa cuidando dele. Por isso é que eu gostava que vocês fossem lá jantar, para o conhecerem. E à Catarina também, claro.

Miguel pôs a mão sobre o ombro do irmão e desculpou-se:

- Não leves a mal, mano, mas, se não te importas, vamos deixar isso para quando voltarmos do Porto. Só lá vamos passar uma semana, e depois ficamos cá quase dois meses. Teremos muito tempo para nos encontrarmos. E hoje estamos muito cansados, levantámo-nos muito cedo…

- Eu compreendo, mano. A minha ansiedade é que é muita… Vamos guardar para quando vocês regressarem, sim.

À tardinha Luís despediu-se renovando a lembrança  de que se reuniriam todos, incluindo a Catarina e o bebé, quando o Miguel e Farida, regressassem do Norte.

Aproveitaram o dia seguinte, Sábado, para mostrarem a Giuliana onde se situava a Torre do Tombo, que ela passaria a frequentar a partir de Segunda-Feira. De seguida foram ao Centro Comercial, conheceram a Ourivesaria onde Nanda trabalhava, e almoçaram num restaurante lá mesmo, no Centro. De seguida voltaram para casa. Sentiam-se extenuados, a precisar de repouso, até porque no dia seguinte, Domingo, logo de manhã, continuariam viagem para o Norte.

E assim foi. Miguel  e Farida dirigiram-se à Gare do Oriente, onde apanharam o comboio para o Porto.

A viagem decorreu lindamente, e, após duas horas e quarenta minutos encontravam-se na Estação de Campanhã, onde o amigo, André, os fora esperar.

Depois dos cumprimentos da praxe Miguel  pegou no telemóvel e ligou para a mãe.

Nanda, depois de se informar sobre como tinha decorrido a viagem, disse:

- Meu filho, a tua vinda cá foi talvez a melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos. Mas, a par de toda a felicidade que senti, houve aquela minha quebra de tensão que parece ter afectado o meu raciocínio…

- Que disparate, mãe! Porque é que estás agora com essa conversa? Não te sentes bem? Se assim é voltamos já para trás… na verdade tínhamos feito melhor ficando ao pé de ti…

- Nem penses tal coisa, filho! Eu estou perfeitamente bem. Só que estava aqui a pensar que vocês não tinham nenhuma necessidade de ir de comboio, estar sujeitos a horários e todas essas maçadas… Podiam muito bem ter levado o meu carro. Afinal, ele está enfiado na garagem, não o levo para o emprego, só o uso ao fim de semana para ir às compras…

- Não, mãe, de maneira nenhuma! Viemos perfeitamente bem …

- Eu sei que esses comboios são muito confortáveis, mas, se tivesses levado o meu carro vocês tinham outra independência. Só que… lá está, eu fiquei tão desmiolada que nem me lembrei de falar nesse assunto…

- Olha, mãe, não penses mais nisso. Agora tenho de desligar, que o André está à espera. Ligo-te mais tarde. Um beijinho da Farida, e meus, muitos, muitos…

E, dizendo isto, desligou o telemóvel, pondo fim à conversa.

 

Embora fosse Domingo e, portanto, “dia de família”,  Nanda desculpara-se junto de Catarina por não ir lá almoçar, como habitualmente, porque achou que talvez a Giuliana não se sentisse muito à vontade. Afinal, ela tinha acabado de chegar a um país estranho e de a conhecer. E a verdade é que ainda havia muito tempo para ser apresentada à restante família.

Depois que o filho e a nora se despediram Nanda ajudou Giuliana a instalar-se no quarto onde dormira o casal, e depois foram ambas descansar um pouco, pois era ainda bastante cedo.

Nanda perdia-se nos seus pensamentos.

Miguel nada lhe dissera acerca de Giuliana para além de que era uma amiga muito querida, que andava sempre com ele e Farida, e se tinham conhecido na Universidade onde todos trabalhavam no departamento de investigação.

O resto ela própria teria de descobrir.

Passaram o dia juntas. Nanda conseguia aparentar uma calma que na verdade não sentia, pois olhar para a sua nova amiga fazia-a retroceder no tempo e voltar a sentir-se nos braços de Alessandro, tal era a semelhança daqueles olhos profundamente azuis com os dele. Tinha de saber de “quem” ela os herdara. Contudo, todo o cuidado seria pouco  para não se denunciar. Havia, entre elas, uma grande empatia, o que lhe provocava uma certa calma.

Felizmente o português de Silvana, que aprendera com o pai e aperfeiçoara com Miguel e Farida, era bastante razoável. Entenderam-se perfeitamente.

Rodeando as perguntas, Nanda ficou a saber que Giuliana nascera na Itália, e aí estudara e crescera. Mais tarde, ao dedicar-se à investigação, fora com um colega para a Bélgica, onde aprofundavam a História relacionada com as viagens do tempo dos Descobrimentos.

- Agora estamos investigando Cristóvão Colombo, e, entre os dois, fui eu a “sorteada” para vir a Portugal recolher os elementos necessários – disse com um grande sorriso cúmplice. Está-se bem a ver que a rifa foi aldrabada… - acrescentou com uma gargalhada.

- Então tu vives sozinha na Bélgica? E os teus pais ficaram na Itália? – aproveitou Nanda para perguntar.

- Não vivo sozinha; eu e o Lorenzo – o meu colega -  alugámos um apartamento com dois quartos e dividimos as despesas. Mas só isso – disse, com um sorriso malicioso. O meu pai vive em Itália, mas a minha mãe abandonou-nos há bastantes anos e foi para a América. Mais tarde divorciaram-se. Nunca mais soubemos nada dela. Penso que é por isso que eu e o meu pai somos tão agarrados um ao outro. O “mio caro Alessandro”, como eu gosto de lhe chamar, para o mimar, quando estamos separados e ele sente muitas saudades minhas.

Nanda sentiu um sobressalto, que a custo conseguiu disfarçar. Estavam confirmadas as suas suspeitas. Aqueles olhos não podiam vir de mais ninguém! Ela sabia! Giuliana era filha do “seu” Alessandro, não podia ser de outro. Não com aqueles olhos!

Saber que ele vivia sozinho causou-lhe uma estranha sensação de alegria. E, sem querer, o seu pensamento retrocedeu trinta anos, até à sua juventude.

O coração tumultuava-lhe no peito e ela fazia um esforço enorme para não denunciar os seus sentimentos.

Sem se aperceber da consternação de Nanda, Giuliana continuou a falar, dizendo como ela, Miguel e Farida se tinham conhecido por acaso, à entrada da Universidade, e de como tinham simpatizado logo os três uns com os outros.

- Eu tenho de confessar, gosto muito da Farida, sou muito amiga dela, mas, na verdade, sinto qualquer coisa muito especial pelo Miguel. E sei que ele sente o mesmo por mim.

Nanda, que novamente prestava atenção à conversa, deve ter mostrado um tal ar de aflição que levou Giuliana a acrescentar, rapidamente:

- Não fique preocupada, Nanda, nem a pensar “coisas” - riu-se ela.  O que sentimos um pelo outro – sim, porque eu sei que o Miguel sente o mesmo que eu – é como que um amor fraternal, qualquer coisa de muito profundo, como se nos tivéssemos conhecido noutra vida – e riu de novo.

Nanda suspirou profundamente, o que provocou um sorriso em Giuliana.

- Não leves a mal a  minha preocupação, querida – disfarçou Nanda. Mas… tu compreendes… o Miguel é casado… e muito feliz…

- Ninguém melhor do que eu para o saber, Nanda. Afinal, acompanho-os para todo o lado, assim como eles a mim. Quase parecemos três irmãos siameses – respondeu Giuliana, bem humorada.

Entre animadas conversas, ver fotos de Miguel quando era bebé, e ir passear o Tejo, o dia voou.

Nanda, interiormente extenuada mas feliz, sugeriu não se deitarem muito tarde dado que no dia seguinte ambas tinham deveres a cumprir.

O sentimento que as unia foi crescendo ao longo do dia de tal modo que, ao despedirem-se, desejaram-se boas noites com um carinhoso beijo.

Já no quarto, preparada para se deitar, Nanda ouviu o toque do telefone. Ao ver, no visor, o nome de Bela, ficou aborrecida consigo mesma: durante todo o dia nem se lembrara da sua querida amiga.

Foi com certa ansiedade que atendeu:

- Olá, meu amor. Estava a acabar de me arranjar e ia já ligar-te – mentiu, talvez para aliviar a consciência. Sentia-se mal por estar tão feliz a ponto de se esquecer da sua amiga, quando ela estava atravessando um período tão triste.

- Resolvi ligar-te eu porque vou já deitar-me – respondeu Bela, com voz desgostosa. Amanhã tenho de levantar-me cedo. O meu pai vai ser julgado, e eu quero ir ao tribunal.

- Tem calma, meu anjo. O que tiver de ser… será. Nada podes fazer para o evitar. E não te apresentes lá com um ar muito preocupado, para não o afligires ainda mais…

- Vou tentar. Até amanhã, querida. Depois falamos.

 

Maria Caiano Azevedo

domingo, 1 de novembro de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XXV

 SEGREDOS – CAPÍTULO XXIV

“… Agora somos apenas bons amigos…

- Sim, bons amigos unidos por dois filhos e um neto… Digo-te uma coisa, eu estive a reparar na maneira como ele olha para ti. Ainda há ali muito amor… E, por falar em amor, nunca mais soubeste nada do Alessandro? …”


SEGREDOS – CAPÍTULO XXV

Nanda encolheu os ombros e, simulando indiferença, respondeu:

- E como querias tu que eu soubesse? Nem faço a mínima ideia donde ele se encontra, presentemente. Tal como tu, apenas soube que foi para Itália, para dar andamento à tal investigação, e nada mais. Escreveu-me algumas vezes mas… tu sabes… longe da vista longe do coração. Quem sabe se não foi melhor assim? Cada um orientou a sua vida e seguiu o seu destino.

- Tens razão, mas ao mesmo tempo faz uma certa impressão pensar como pode morrer uma paixão assim tão grande, como era a vossa.

- Minha querida, como tudo, a paixão não vive sem alimento. E uma ou outra carta, de vez em quando, por muito inflamada que seja não é o suficiente para manter acesa a chama… É preciso muito mais do que isso…

- Mais uma vez tens razão, mas faz-me pena, sabes?

- Isso é porque hoje estás muito lamechas – Nanda riu alegremente. Passado é passado, não vale a pena chorar sobre leite derramado. Olha, vou fazer umas torradinhas e um chá – também tenho ali daquelas bolachinhas de canela que tu adoras… - vamos jantar e em seguida vou levar-te a casa.

Depois de deixar Bela com a recomendação de que tomasse “qualquer coisa” para a ajudar a descansar – “amanhã é dia de trabalho, não te esqueças, precisas de dormir” – Nanda regressou a tempo de levar o Tejo à rua, que já se contorcia com as suas necessidades fisiológicas.

Anoitecia. E, como sempre acontecia, esta hora do dia tornava-a nostálgica, trazendo-lhe à lembrança as recordações do passado que, normalmente, fazia por esquecer. “Como é que Bela se fora lembrar de Alessandro? Não se tinha passado nada durante o dia que a levasse a isso… Seria o facto de ter estado com Tó Zé, ao almoço? Mas isso não tinha muita lógica… Só ela própria e o ex marido é que sabiam que Miguel, o filho mais velho, era filho do Alessandro…” E continuou nos seus pensamentos…

 

“Sem dúvida, Tó Zé foi um verdadeiro cavalheiro! Passados quase trinta anos nunca revelou aquele segredo que me prometeu guardar. Nem mesmo naqueles momentos bem difíceis, depois de nascer o segundo filho, em que ele me acusava de não sentir por este o mesmo amor que sentia pelo mais velho – “isso acontece porque o Miguel é fruto  da tua grande paixão” – acusava Tó Zé. 

Ele dizia estas coisas, acusava-me, mas sempre e só de portas para dentro, nunca deixou transparecer a mágoa que, no fundo, sentia, por não ser o pai de Miguel.

Pensando bem… foi a partir do nascimento do Luís que o nosso casamento começou a tremelicar… Meteu-se-lhe na cabeça que eu dava mais mimo ao Miguel e, casmurro, ninguém o convencia do contrário. Como se uma mãe pudesse amar mais um filho do que outro! Ideias destas só mesmo na cabeça de um homem, que não sabe o que é o amor maternal.

A verdade é que foi pena as coisas começarem a descambar. Podíamos ainda hoje estar casados e felizes…

Depois começou a dar atenção àquelas galdérias que iam lá à loja, todas derretidas para cima dele. Umas ordinárias é o que elas eram! Sabiam muito bem que ele era casado mas não se importavam nada com isso. Bem,  o que é certo é que elas também não queriam casar com ele, só queriam “dar umas cambalhotas” e seguir em frente. E eu não posso esquecer que o Tó Zé era um rapaz bastante atraente, e, quando queria, sabia ser irresistível.

Já nem me lembro quando foi a primeira noite que ele não dormiu em casa! Com a desculpa esfarrapada de que tinha de ir levar uma encomenda grande não sei onde… só apareceu em casa no dia seguinte.

Mas teve azar porque eu, de parva, nunca tive nada… e ele também foi descuidado e deixou no bolso das calças a conta do hotel para duas pessoas, que eu encontrei quando pus as calças para lavar.  Era só somar dois mais dois… e o mistério foi desvendado.

A partir daí as coisas entortaram de vez. Ainda nos aguentámos uns tempos mas depois decidimos, de comum acordo, que o melhor era separarmo-nos. Este “comum acordo” foi relativo, porque ele preferia continuar casado… e a ter outras mulheres por fora.

Mas enfim, o destino tem de ser cumprido, e o meu era acabar sozinha, como agora estou. Bom, sozinha é um modo de dizer, tenho junto de mim um filho e um neto que amo muito. E uma nora, é claro. Ela é muito boazinha, e faz o meu Luís muito feliz. E ainda tenho o Miguel, aquele filho tão querido de quem tenho já tantas saudades!”

 

Como se quisesse vir ao encontro dos seus pensamentos o telemóvel tocou. Com grande alegria viu tratar-se de Miguel. Foi com voz em alvoroço que atendeu:

- Miguel, meu querido filho, estava agora mesmo a pensar em ti!

- Agora mesmo? Então tu não andas sempre comigo no pensamento? – riu Miguel.

- Sabes bem que sim, mas num cantinho muito especial, só teu, , deixando espaço para que eu possa pensar noutras coisas – Nanda alinhou na brincadeira.

- Eu entendo. Olha, Mãezita, adivinha o motivo deste telefonema.

Quando o filho a tratava por Mãezita era sinal de que estava particularmente bem disposto.

- Prefiro não me pôr a adivinhar – Nanda não queria criar falsas esperanças.

- Tu e as tuas superstições! Mas podes adivinhar à vontade. Aliás… evidentemente que já sabes do que se trata. Vamos aí de férias! Pronto, já está dito!

Embora desconfiasse que fosse isso mesmo, Nanda sentiu uma alegria enorme.

- Que bom, meu filho. Estava a ver que nunca mais chegava esse dia. Há quase dois anos que não vens cá…

- Que exagerada, Mãe. Mas olha, tenho um grande favor a pedir-te.

- Sim. Diz. Já sabes que podes contar sempre comigo…

- Eu sei. É o seguinte: Nós temos uma amiga - muito amiga, é quase como se fosse da família – que trabalha também em investigação, embora num ramo diferente do nosso. Ela tem de ir a Portugal fazer umas consultas na Torre do Tombo. Está a compilar documentos para, em conjunto com um colega, escreverem um tratado sobre Cristóvão Colombo, o “genovês”.

Parece que querem tirar a limpo se ele era português ou italiano – riu  Miguel, continuando:

Ela vai ter que ficar aí algum tempo, e lembrei-me que talvez tu não te importasses que ela ficasse aí em casa…

Nanda, apanhada totalmente de surpresa, ainda tentou reagir:

- Mas, meu filho, ter em casa uma pessoa que não conheço, sinceramente não me agrada muito…

- Mãe, tu só dizes isso porque não a conheces. Confia em mim. Ela é uma doçura de miúda, tenho a certeza de que te vais apaixonar quando a conheceres…

- Sendo assim… O que é que posso recusar-te?

- Nada, Mãezita, nada! – riu Miguel.

De repente, Nanda lembrou-se:

- Mas… estás a esquecer-te de uma coisa. Eu só tenho dois quartos – o meu e o quarto de hóspedes, que é onde tu dormes com a Farida, quando cá vêm. Onde vamos deitar a tua amiga?

- Quanto a isso não há problema, está tudo pensado. Quando aí chegarmos ela dorme no sofá, na sala.

- No sofá, Miguel? Mas que disparate! Queres deitar uma hóspede num sofá, na sala? – Nanda mostrava-se entre admirada e indignada.

- Parece que não ouviste o que eu te disse da Giuliana – é o nome dela… A Giuliana é como uma irmã para nós. Se te faz impressão ela dormir na sala, até pode dormir num colchão no nosso quarto… - riu Miguel.

- Credo, meu filho, nem que eu tivesse que lhe ceder o meu quarto… - indignou-se Nanda. Mas pronto, se tu achas que pode ser assim, enfim, não é que me agrade muito, mas paciência.

- Sossega, Mãezita, quando conheceres a Giuliana vais te sentir como se a tivesses conhecido desde que nasceu – rematou Miguel, alegremente.

Não cabendo em si de contente Nanda ligou logo para Luís a fim de lhe dar a novidade. Como seria de esperar o filho ficou radiante:

- Que bom, Mãe! Já tenho tantas saudades do meu irmão! E, finalmente, ele vai conhecer o mais novo membro da família, o nosso Nani.

Essa semana passou a voar. Nanda não cabia em si de contente. E, apesar de ter uma empregada exemplar, que lhe mantinha a casa impecavelmente limpa, as horas que passava em casa eram ocupadas a fiscalizar tudo, a descobrir pó onde ele não existia, a mudar de sítio os bibelots porque lhe parecia que não ficavam muito bem onde estavam… enfim, não tinha um minuto de descanso. É que não lhe saía da cabeça a ideia de que ia receber em sua casa uma desconhecida, e não queria que ela tivesse nada a apontar-lhe. Apesar de tudo o que Miguel lhe dissera acerca da amiga, a tal Giuliana, não se sentia muito confortável com a ideia.

Na véspera da chegada do filho Nanda falou com Araújo explicando a situação e informando-o de que não iria tralhar no dia seguinte.

O engenheiro respondeu-lhe com um sorriso:

- E quando é que a Nanda pensa em meter férias? Há dois anos que aqui trabalha e só faltou um dia por outro. Não quer agora ficar uns dias com o seu filho?

- Obrigada, mas agora não vale a pena. Quando ele chegar só fica cá um dia e vai logo para o Porto, passar uns dias com um amigo que se vai ausentar. Quando ele regressar talvez aceite a sua oferta – respondeu Nanda, sorrindo.

- Olhe que não me vou esquecer – fingiu ameaçar Araújo.

Levantou-se “com as galinhas”. Depois de passar algumas horas sem quase conseguir dormir, saltou da cama e foi para a cozinha fazer um bolo e uns scones para o lanche. Miguel e Farida chegariam cerca das três horas, e queria estar totalmente liberta para os receber sem qualquer preocupação. Tinha convidado o seu filho Luís para almoçar e, com ela, aguardar a chegada do irmão.

Tinha sugerido ao Miguel ir esperá-los ao aeroporto mas ele dissuadiu-a de imediato. Ele sabia que a mãe não gostava muito de conduzir, especialmente por locais que não conhecia bem. O carro estava a maior parte do tempo dentro da garagem. Nanda conduzia por necessidade e não por prazer. Por isso, quando chegassem ao aeroporto, tomariam um táxi que os traria até ela.

 

Luís correu para a porta mal ouviu o toque da campainha. Nanda, com o coração aos saltos, de ansiedade, aguardou. Queria manter-se abraçada ao filho todo o tempo que lhe apetecesse.

O abraço que envolveu os dois irmãos continha muitas saudades acumuladas ao longo do tempo em que tinham estado sem se verem, e um grande, enorme, amor fraternal.

Em crianças brigavam muito um com o outro, entrando até, por vezes, na agressão física, ainda que sem gravidade. Tinham maneiras de ser muito diferentes.

Mas, à medida que foram crescendo e talvez por tomarem consciência de que estavam a ser criados e educados apenas pela Mãe, o que para ela representava um grande sacrifício e responsabilidade, adoçaram a sua convivência e, sem mesmo se aperceberem, foram-se tornando grandes amigos que, depois de jovens adultos, eram inseparáveis.

Por isso aquele abraço, após uma tão longa ausência, foi comovido para ambos, e comovedor para a mãe, que os observava em silêncio, enlevada.

Finalmente afastaram-se e Nanda pôde dar vazão aos sentimentos contidos, sem se preocupar com as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto.

Num gesto de imenso carinho Miguel enxugava-lhas, suavemente, murmurando baixinho:

- Então, Mãezita, ficas assim tão triste por me veres? Volto já para a Bélgica!

Nanda apertou-o com mais força, respondendo, com voz entrecortada:

- Só se me levares contigo…

Lentamente afastaram-se dando lugar a Farida, que os olhava sorrindo. Também ela gostava muito da sogra.

Depois de acalmadas as emoções e todas as manifestações de carinho Miguel afastou-se para o lado deixando à vista a amiga que se mantinha silenciosa, encoberta pelo casal, e disse:

- Mãe, esta é a amiga de quem te falei. Chama-se Giuliana.

Nanda desviou, finalmente, a atenção dos recém-chegados, voltando-se para Giuliana.

Como que assombrada, não conseguia afastar o olhar dos lindos olhos azuis que a fitavam sorrindo, ao mesmo tempo que uns braços se lhe dirigiam com a intenção de a abraçar.

Sentiu um zumbido fortíssimo nos ouvidos; depois tudo escureceu à sua volta. Começou a cambalear. Foi apoiada por Luís que a transportou em braços, desmaiada, para o sofá.

 Maria Caiano Azevedo