sábado, 1 de junho de 2024

HOJE NÃO ME APETECE FALAR

 HOJE NÃO ME APETECE FALAR

O mês de Junho é, particularmente, o que me traz à lembrança as piores recordações. Dentro de poucos dias é o 12º.aniversário da partida do meu companheiro de mais de 50 anos. Foram 53 anos de felicidade, com seus altos e baixos, como em todos os casamentos, mas que se traduzem num saldo muito positivo – uma felicidade que, acredito, não é muito usual.

Talvez por isso, por me lembrar dos tempos felizes que vivi, hoje não me apetece falar.

É em dias assim que os pensamentos, em catadupa, afluem ao nosso espírito, uns atrás dos outros, como cerejas.

Há dias cruzei-me na rua com um “bando de pardais à solta” (V. Os Putos – Paulo de Carvalho).

Espalhando-se ao longo do passeio, falando em altas vozes, gesticulando, pareciam donos do mundo.

Os jovens normalmente são muito efusivos, manifestam-se em “alto e bom som”, e quando em grupo, essa característica assume proporções que podem tornar-se incomodativas.

Acredito que, em parte, isso se deve ao facto de frequentarem locais de diversão em que o som ambiente é ensurdecedor. Para se fazerem ouvir têm de falar “aos berros”; acabam por se viciar nesse tom exageradamente elevado, e usam-no quando não é necessário.

Fica-me a dúvida se, quando namoram, também o fazem em “alta voz” ou se, nesse caso, sabem, ou conseguem, apenas sussurrar palavras de amor…

Talvez porque já não sou jovem… sou como a Lua - que tanto gosto de contemplar - tenho fases, e muitas vezes ataca-me a “Fase do Mutismo” e não me apetece mesmo falar, como hoje.

Mas, falar e escrever são coisas bem diferentes, e escrever apetece-me sempre…

Pode não parecer, mas esta “fase” ataca-me com uma certa frequência. E, ao contrário do que se possa pensar, isso não significa que goste de me isolar, de não conviver…

Não, continuo a gostar muito de companhia – estou a recordar-me da minha Mãe que dizia, muitas vezes: “Só se veja, quem só se deseja”. Queria ela significar que a solidão é boa para quem quer estar só – que não era o caso dela (a minha Mãe gostava muito de conviver)

Nestas alturas não me afasto de ninguém, convivo normalmente, só que permaneço calada, a ouvir o que os outros dizem – com o que se aprende muito, acreditem.

Há dias, eu e minha filha falávamos de qualquer coisa em que estávamos em desacordo, o que raramente acontece.

Na sequência da (des)conversa eu disse-lhe:

- Pois, minha filha, prepara-te, porque vais ter de me aturar até aos cem anos…

Ela olhou para mim, abraçou-me com força e, comovida, com uma lagrimita a espreitar ao canto do olho, respondeu:

- Era a coisa que me faria mais feliz, mãe.

São momentos como este, que eu considero únicos, de uma intimidade total, onde não cabe mais nada nem mais ninguém, que contribuem muito para a minha felicidade.

Então pus-me a imaginar como será atingir os 100 anos de idade…

Quantas vezes o nosso imaginário nos conduz ao reino da fantasia!

Aí tudo é possível acontecer - até a felicidade plena…

A meninice nos devolve a alegria pura, inocente…

A adolescência leva-nos a valsar nos braços dum príncipe encantado…

A juventude faz soar aos nossos ouvidos o som romântico de violinos…

Depois… acontece a realidade.

E a nostalgia apresenta-se, conferindo à nossa fantasia uma aura labiríntica de sentimentos pretensamente escondidos, que pretende sobrepor-se à realidade.

Mas, como disse, quando não me apetece falar é quando me sabe melhor ouvir. E por falar em ouvir… ouvi há pouco na TV a notícia de mais uma violação, neste caso de uma mulher. Mas, mais repugnante ainda, é o caso de violação de menores.

Violações são o “pão nosso de cada dia”, como se costuma dizer.

Em situações de guerra e invasões cometem-se verdadeiras atrocidades - é um facto comprovado, que causa revolta e repúdio.

Mas no dia-a-dia, em que essas coisas acontecem só porque há violadores, estupradores e pedófilos à solta, a repugnância que tais actos suscita chega a ser insuportável.

E por muito dura que possa parecer… em minha opinião, pedófilos e estupradores deveriam sofrer ablação genital completa, ou seja, torná-los eunucos. Penso que isso seria castigo maior do que a morte.

E não há que ter ilusões. Um pedófilo não tem cura. (ignoro em relação ao estuprador). Há estudos que provam que um pedófilo, ainda que sujeito a tratamento psiquiátrico ou de outra natureza, nunca deixará de o ser.

 E para aliviar a carga emocional que, sem querer, emprestei às minhas palavras, deixo-vos com “uma pequenina conversa” que acho muito bonita:

 “Um dia o Amor perguntou à Amizade:

- Para que existes tu se já existo eu?

A Amizade respondeu:

- Para repor um sorriso onde deixaste uma lágrima”

 

Maria Caiano Azevedo

01/06/2024 

17 comentários:

Roselia Bezerra disse...

Boa tarde de sábado, querida amiga Mariazita!
Estou aqui emocionada ao ler seu post.
“Fase do Mutismo"
Sobre o "amor ido", também estou na fase do me calar...
Nunca me esqueci quando minha filha me disse: - Mãe, você é a melhor mãe do mundo. Impossível de não lembrar nos momentos solitários que a vida nos impõe.
Também gosto de conviver... tanto quanto ficar em meu silêncio fecundo.
Sei que me compreende.
O luto seja como for, ou físico ou moral é uma dor incurável. Só sabe quem passa. Assim explica a psicologia muito bem.
Muitas vezes, o Amor deixa lágrima ou lágrimas... O que é ainda pior.
Um texto poético de relevância.
Tenha um final de semana abençoado!
Beijinhos com carinho fraterno

Beatriz Pin disse...

Prezada Mariazita, gostei muito de ler a postagem que aqui nos deijas.
Comprehendo tudo muito bem e sei disse não querer falar, mas, sím escriber que são coisas diferentes.
Acho tudo bem interesante!
Quando quiser, faga um paseínho ao meu blog.
Um abraço e bom começo de Junio.
www.leriasdebea.blogspot.com

Lúcia disse...

Meu período de "mutismo" vai do início do mês de novembro até depois do Natal.É nessa parte do ano que surgem as lembranças mais forte do meu amado consorte. Li com atenção tudo que você escreveu nessa importante postagem, Mariazitamiga! Compartilho dos mesmos sentimentos seus, relativos aos assuntos tratados. Do Ceará, envio-lhe meu abraço de amizade e carinho.

Os olhares da Gracinha! disse...

E enquanto houver memória...o mês de junho tem um significado especial!!! Bj

Mariazita disse...

chica deixou um novo comentário na sua mensagem "HOJE NÃO ME APETECE FALAR":

Lindo e muito tocante teu post, Mariazita! Saudades doem e parece mentira, já 12 anos! As saudades ficam pra sempre e martelam no coração! beijos m fica bem, chica

Publicado por chica em A Casa da Mariquinhas a 1/06/2024, 22:39

MARILENE disse...

Você fez um passeio encantador no campo desse sentimento chamado amor, mencionando seu saudoso parceiro e sua filha. É, de fato, rara, uma convivência tão longa e, como disse, onde as adversidades não prejudicaram a união. Quanto à pedofilia, também creio não ser passível de cura e causam-me horror essas violações com grande frequência noticiadas. O tempo costuma nos deixar mais silenciosas rss. Abraço.

Emília Pinto disse...

Querida Mariazita, partilhaste connosco um texto comovente, no qual, de certeza, cada um dos teus leitores se revê. Há tantos dias assim, Amiga, dias em que, por um motivo ou outro, " não nos apetece falar ". Há perdas que doiem muito, há despedidas que, mesmo não sendo definitivas, nos levam a um mutismo e a uma vontade de ficarmos sozinhos, há doenças mais ou menos graves e há também acontecimentos que nos magoam e que depois até achamos sem qualquer importância, embora na altura nos fizessem " perder a fala". A vida é assim, cheia de imprevistos, de altos e baixos e por vezes damos demasiada importância a coisas pequeninas, sem interesse. Não sei...mas. se calhar, sem que eu me apercebesse, deixei-me " contaminar " por algumas dessas coisinhas, Amiga, Ando já medicada e estou a ficar melhor, mas não é que estou com uma depressão? O motivo? Não sei...
A mente humana é bastante complexa e a minha está " de pernas para o ar "...não a estou a entender, mas..há- de ficar na posição certa, com as pernas no chão e a cabecinha em cima dos ombros ...a reflectir...
Mas não te preocupes, Amiga....tudo passa...e neste caso tem de passar porque o motivo aparentemente não existe. Adorei este texto e fiquei feliz por estares de volta; apesar de triste, estás a recuperar bem dos teus problemas de saúde. Beijinhos carregadinhos de amizade e que a vida te abençoe sempre, com muito carinho por parte dos teus filhos e com saúde para todos, sempre
Emilia

Jaime Portela disse...

A saudade dos que partiram é incontornável. E quando se trata do marido ou de um familiar muito chegado é uma mistura de dor e saudade.
Quando se é obrigado a falar sem vontade, não é nada agradável. Por isso, quando se pode estar em silencio sem ninguém que incomode, há que desfrutar esses momentos.
Fica bem e dura até depois dos 100 anos... e sempre ativa, saudável e consciente.
Boa semana.
Um grande abraço.

Graça Pires disse...

Minha Amiga, posso entender o que sente. Ainda bem que lhe apetece escrever porque pôde sensibilizar-me com a carga emocional deste seu texto, onde para além das memórias reflecte sobre o estado do mundo cada vez mais cruel.
Tudo de bom.
Uma boa semana.
Um beijo.

Carla Ceres disse...

Querida Mariazita, desculpe-me por discordar de sua opinião. Recentemente, no Brasil, foi posto em liberdade um homem após mais de 15 anos preso injustamente, por estupros em série. Imagine quão pior seria se o infeliz tivesse sofrido ablação genital como punição. Já fui vítima de um pedófilo. Isso é bem comum. Tão comum quanto inocentes serem encarcerados. Espero que, em Portugal, as coisas sejam diferentes. Beijinhos!

Maria Rodrigues disse...

Mariazita, penso que todos temos dias assim, em que não nos apetece falar e deambulamos pelos nossos pensamentos e recordações, algumas alegres e doces, outras tristes e plenas de saudade de alguém que foi muito especial e já partiu (tão lindo viver 53 anos com quem se ama).
Uma interessante e sentida crónica.
Adorei a pequena conversa final.
Beijinhos minha amiga e tudo de bom para si e para a sua família

Regina Magnabosco disse...

Olá, Mariazita! Meus períodos de mutismo são frequentes, tanto que quase posso me definir neles. Mas achei bonita a forma como ele acomete você mas saudades do seu grande amor. Sobre punição a criminosos, concordo com a Carla Ceres, porque a injustiça é um risco e é preciso muito cuidado para não cometermos uma segunda sem reparar a primeira. E, concordando também com sua filhota, você viver mais de 100 anos também vai fazer muito bem a mim, que muito aprecio esses contatos por seus escritos. Um grande e afetuoso abraço!

Reflexos Espelhando Espalhando Amig disse...

Mariazita!
É sempre uma aula
de vida vir aqui.
Suas publicações nos
mostram que vale apena
seguir em frente sempre.
Adorei ler.
Bjins de gratidão.
CatiahoAlc.

Tais Luso de Carvalho disse...

Olá, querida Mariazita, mas que show de postagem, amiga!
Você falou de coisas tão reais, tão verdadeiras, e umas tão lindas como a conversa com sua filha, a conversa entre o amor e a amizade, seu belíssimo casamento de 53 anos e outras coisas que nos deixou para reflexão.
Maravilhosa postagem, amiga, e se não tem vontade, pela emoção a flor da pele, não precisa falar mais, não, já foi lindo demais!
Deixo aqui meu carinho nesse junho abençoado! Muito obrigada por tão linda partilha.
Beijinho, amiga!
🌹🙏🌺🌼🙏

Jaime Portela disse...

Passei para te desejar uma boa semana.
Beijinhos.

Maria Rodrigues disse...

Minha amiga passei para desejar uma excelente semana.
Beijinhos

Verena disse...

Querida Mariazita
Fiquei imensamente feliz com a sua visitinha ao meu blog.
Gostei de ler o seu sincero "desabafo"
A conversa com a sua filha muito me emocionou.
Em agosto vou receber, também, a visita de minha filha e netinhos que moram na Alemanha.
Já estou contando os dias.
Te desejo um abençoado fim de semana.
Seja, sempre, bem vinda.
Um beijinho
Verena.