sexta-feira, 1 de outubro de 2021

MOMENTO DE POESIA - AMAR O AMOR

 


AMAR O AMOR

Eu quero amar o Amor

Fazer dele meu amante

Sentir todo o seu calor

Com um carinho constante


Quero cantar o Amor

Com a voz do rouxinol

Aspirar o seu odor

Num lindo dia de sol

 

Quero elevar o Amor

Ao mais fino dos altares

E entoar com primor

Os seus mais belos cantares

 

Quero fazer ao Amor

Tudo o que ele merece

Exaltá-lo com fervor

Como se fosse uma prece

 

E depois de tanto Amor

A coisa mais importante:

Eu quero amar o Amor

Fazer dele meu amante!

 

Mariazita

03/10/2019

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

UM CONTO - O COLO DA MÃE

                                                 O COLO DA MÃE


 Depois de bem instalado no quarto que lhe havia sido reservado, as roupas meticulosamente guardadas nas gavetas, sentou-se na cadeira com tampo estofado que se encontrava junto à janela.          

Abrindo as portadas dispunha-se a apreciar a vista lá de fora, donde emanava um agradável cheiro a flor de laranjeira. Mas os seus olhos eram irresistivelmente atraídos para a cómoda antiga, em raiz de nogueira, uma madeira rara, que, na sua cor castanho avelã, se destacava na parede branca.

O médico tinha-lhe recomendado repouso absoluto, sob pena de sofrer alguma lesão grave se insistisse no ritmo acelerado em que se transformara a sua vida. Com uma carteira de clientes enorme não tinha tempo para descansar. Para além disso, a recente morte do pai deixara-o profundamente abalado. Não lhe saíam da cabeça as últimas palavras que ele proferira, com dificuldade, mas revelando a urgência de quem está prestes a partir.

- Meu filho, escuta-me com atenção. Há na tua vida um segredo muito importante… Procura uma cómoda antiga… lá na nossa terra…

Um forte ataque de tosse interrompeu a confidência. Alguns minutos depois o pai iniciou a Grande Viagem, sem mais explicações.

Decidiu seguir o conselho do médico – até porque aquela forte dormência o assustara a valer.

A sua ida para aquela aldeia não era inocente, pelo contrário, tinha um propósito muito firme – descobrir algo sobre o passado que o seu pai, com quem mantivera relações frias e distantes ao longo da vida, nunca lhe contara. Só quando sentira o fim aproximar-se, finalmente o resolvera fazer.

Tomou conhecimento de que perto da aldeia onde passara a sua meninice havia uma casa, outrora apalaçada, que recebia hóspedes, poucos, e só com recomendação. Não lhe foi difícil obtê-la, e por isso ali se encontrava.

A D. Augusta informara-o de que o jantar era servido a partir das sete e meia. Tinha tempo para um passeio.

Pôs pelos ombros um blusão leve, pois lembrava-se que na serra o tempo arrefecia mal o sol começava a descer.

Atravessando o laranjal, onde o aroma era intenso, continuou por um estreito caminho ladeado de árvores de fruto até um pequeno portão em ripas de madeira que se encontrava apenas encostado. Ultrapassando-o seguiu por uma estrada de gravilha, no meio de um pinhal, donde descortinava uma paisagem deveras encantadora.

Caminhando lentamente, embrenhado nos seus pensamentos, nem se apercebeu da distância percorrida. Encontrava-se, agora, no início doutra aldeia serrana. Cumprimentando algumas pessoas com quem se cruzava, sem dúvida moradores locais, acabou por avistar os extensos muros brancos de uma enorme propriedade. A cada passo que dava maior era a sensação de que pisava terreno conhecido. Aos poucos surgiam, em pequenos flashes, cenas da sua infância. Quase podia ver que por detrás daqueles muros brancos havia uma casa senhorial onde ele brincara muitas vezes.

Metendo conversa com uma velhota que estava sentada à porta de casa fazendo festas ao cão, perguntou-lhe

a quem pertencia aquela propriedade. A mulher respondeu:

- O senhor está a falar da Quinta do Freixo? Há muitos anos que a casa está fechada, e os terrenos arrendados. Ali moraram, desde sempre, os fidalgos. A última pessoa que lá viveu, que também já morreu há muito tempo, não sei o nome dela; só sei que era conhecida pela “fidalga da Quinta do Freixo”. Agora os herdeiros vêm aí às vezes, mas é raro. Falam com o caseiro, fazem as contas e lá vão eles à sua vida!

Agradecendo à simpática velhota toda a informação, o Sr. Dr. sentiu, de repente, uma vontade urgente de regressar. Fazendo o caminho inverso, desta vez em passo acelerado, em pouco tempo chegou ao seu quarto.

Sentando-se de novo na cadeira junto à janela, pôs-se a observar, atentamente, a cómoda que tanto o atraíra à chegada. Com o pensamento “transportou-a” para a Quinta do Freixo onde – agora tinha a certeza – passara muitos dias da sua meninice. As recordações começavam a fluir em catadupa. “Aquela” cómoda estava no quarto de hóspedes, onde a sua mãe por vezes dormia. O seu pai era motorista do fidalgo e, quando havia festas que envolviam grandes jantaradas, ele tinha de ir levar alguns convidados a suas casas, às vezes até ao Porto; e a sua mãe ficava no solar até mais tarde para ajudar a arrumar as louças e a prataria – que a senhora fidalga não confiava nas criadas para fazerem esse trabalho, pois podiam partir alguma peça. Era nessas noites que a sua mãe dormia no tal quarto de hóspedes.

Pensando em tudo isto não conseguia despregar os olhos da cómoda. Cada vez sentia mais a certeza de que aquela era a “cómoda” de que o pai lhe falara. Precisava de a abrir. Ali estavam guardados pormenores acerca do seu passado – cada vez lhe restavam menos dúvidas.

Levantou-se e acercou-se dela, examinando-a com a maior atenção. Tentou abrir as gavetas mas depressa se convenceu que não seria possível, a não ser que usasse alguma ferramenta; mas corria o risco de a danificar…

A D. Augusta dissera-lhe que não sabia das chaves, portanto não valia a pena pedir-lhas.

De repente surgiu-lhe uma ideia:

- Já sei, vou propor à senhora que ma venda, e depois, em casa, chamo um carpinteiro para a abrir com todo o cuidado. Claro que tenho de contar com o espanto dela; vai, por certo, ficar surpreendida… E também tenho de pensar na hipótese de ela não querer vender…

Uma pequena mancha na perna do móvel, junto ao chão, despertou-lhe a atenção. Baixou-se para a examinar mas os seus olhos já não tinham a acuidade visual de outrora. Intrigado pôs-se de joelhos, baixando a cabeça quase até ao soalho. Foi quando os seus olhos foram atraídos para qualquer coisa que sobressaía do fundo da gaveta. Estendeu a mão e, com uma leve pressão, soltou o que verificou tratar-se de um envelope amarelecido pelo tempo.

Com a maior excitação abriu-o retirando de dentro um documento. Tratava-se de uma certidão de nascimento onde constava o seu nome, seguido dos nomes dos pais:

“Idalina de Jesus Silva” e “Don Francisco Sebastião de Saldanha, Conde de Alpedrinha”.

Abriu a boca de espanto!

Então ele, um brilhante advogado que tivera de vencer, “a pulso”, as maiores dificuldades para atingir o seu actual estatuto, era herdeiro da Quinta do Freixo!

E aquela cómoda era o espírito da sua Mãe!

Sem saber bem o que fazia, abraçou-a, depositou um beijo no seu tampo de mármore, e exclamou, em altos brados:

- D. Augusta! Eu quero esta cómoda!

Baixinho, murmurou: Preciso do colo da minha mãe.


 Maria Caiano Azevedo

1º. Prémio - “PROSA”

USFCR /ARPE – JOGOS FLORAIS IV - TORRES VEDRAS

domingo, 1 de agosto de 2021

MOMENTO DE POESIA - VÊ-LO PARTIR

 

MOMENTO DE POESIA

VÊ-LO PARTIR

Hoje vou partilhar convosco um poema que escrevi em Junho de 2012, e que tem por título – VÊ-LO PARTIR.

Podem, também, ouvi-lo, através da minha voz.


VÊ-LO PARTIR

                                                                   VÊ-LO PARTIR

Vê-lo partir

Não foi assim tão triste, não.

Foi muito mais triste depois,

Ao recordar, sozinha,

O caminho antes percorrido

Com ele ao lado, para mim sorrindo…

Segurando a minha mão…

 

Como era alegre o seu sorriso

E festivo e risonho o meu abrigo!

 

Ele partiu,

levando consigo

Toda a ternura que existia em mim,

Deixando, para sempre

Um vazio sem fim…

 

Os dias, monótonos,

Perderam toda a graça.

Sem saber o que fazer,

À deriva,

Penso na minha desgraça.

 

As horas vão passando,

O sol, em surdina, declinando.

Um arrepio percorrendo-me,

Recorda-me que estou viva,

E que ele partiu…

 

E quando à tarde, sozinha,

Debruço

O olhar sobre o caminho percorrido,

Lembro-me dele

E, sem querer, soluço.

 

Maria Caiano Azevedo

 Junho 2012

quinta-feira, 1 de julho de 2021

NO INÍCIO DESTA NOVA FASE

 NO INÍCIO DESTA NOVA FASE… UM POEMA

Agora que a Nanda foi “pregar pra outra freguesia”… antes que eu lhe siga o exemplo vou passar a fazer umas postagens mais “leves”, que não obriguem a grandes reflexões, das que se lêem em dois minutos 😊.

Vou começar esta nova fase com um poema - provavelmente outros se lhe seguirão, entremeados com um ou outro conto.

Para já, partilho convosco um poema, com o qual, no ano passado, recebi a Medalha de Ouro num concurso internacional, atribuída pela “WSTC – THE WORLD SENIOR TOURISM CONGRESS” , de parceria com a “UNIVERSITÉ TOULOUSE CAPITOLE”.

Começo pelo Certificado: BEST Poem of Scenery Description Awards – Gold Awards

E agora o poema:

 QUIMERA

Recostada na sua cadeira, a velha senhora

Olhando em frente… viu-a!

Começou a desenhar-se na linha do horizonte:

Era branca, diáfana, qual bola de algodão.

Arrastada pelo vento levou para longe sonhos e esperanças.

Em seu lugar ficou apenas o azul forte do céu,

Como rio sem margens e sem cobranças,

E no ar o doce aroma de alfazema trazido pela aragem,

Misturado com o cheiro acre de terra molhada.

O sol, incidindo no rosto da velha senhora,

Levou-a a sentir uma doce sonolência…

E deixou suas sementes enquanto ela dormia.

A visão que foi plantada em sua mente

Ainda permanece entre o som do silêncio,

Em sonhos agitados.

O “espanta espíritos” lança no ar o seu eterno lamento…

Os elefantes, em espiral, tocam-se,

E lembram a sua terra natal, longínqua.

O céu continua dum azul vazio, imperturbável.

Uma visão se aproximou suavemente

E tocou a luz de vozes murmuradas.

Silenciosas gotas de chuva caíram,

Ecoaram no poço sem ruído,

E sussurraram o som de água candente.

- Foi apenas uma nuvem que passou:

Murmurou a velha senhora.


Maria Caiano Azevedo

Junho 2020  

quarta-feira, 2 de junho de 2021

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XXX

SEGREDOS – CAPÍTULO XXX –ÚLTIMO CAPÍTLO

 

Segunda e última parte do capítulo anterior

Vinte anos se passaram.

Nanda é agora uma senhora com quase todos os cabelos brancos, que as mãos de uma exímia cabeleireira conseguem manter com um lindo tom castanho dourado, brilhante, não deixando adivinhar a sua cor natural.

Mas a sua beleza e o corpo ainda bem modelado fazem lembrar a linda mulher de outros tempos.

A estadia em Antuérpia emprestou-lhe uma outra elegância e “saber estar” que a tornam notada onde quer que se encontre.

De novo em Lisboa para umas férias de dois meses, dá consigo mesma a apreciar, com renovado interesse, os encantos da bela cidade, onde, nos últimos vinte anos, apesar das visitas com alguma frequência, apenas permanecia por poucos dias.

Agora, sem quaisquer compromissos que a prendam, instalada num bom hotel, pode ocupar o tempo da forma que melhor lhe apetecer.

Nos primeiros dois dias limitou-se a passear pelas ruas, sem destino, observando, de vez em quando, aquele céu azul que não se vê em mais nenhum local do mundo, deixando-se beijar pelos raios de sol que sentia como uma verdadeira carícia, aspirando e respirando Lisboa.

Quando considerou que era tempo de dar início ao assunto que trazia em mente, telefonou à sua velha amiga Bela, que convidou para jantar no restaurante do hotel onde se encontrava hospedada.

Ela chegou à hora combinada. Vinha vestida com esmero.

Tal como a sua amiga, era ainda uma mulher bonita, elegante.

Nanda recebeu-a de braços abertos. Estreitaram-se comovidas, beijaram-se carinhosamente, dirigindo-se depois para o restaurante.

Enquanto comiam iam trocando banalidades, sabendo, no entanto, tanto uma como outra, que era chegada a hora de fazerem as suas confidências, e restaurar a confiança total e profunda amizade que as unira durante tantos anos, mas que saíra um pouco beliscada com a ida de Nanda para a Bélgica.

 Bela ficara muito magoada porque a amiga não a informara de que ficaria a residir lá; Nanda não gostou da reacção da amiga, garantindo-lhe que, quando viajara, não sabia das intenções de Miguel.

 

Finda a refeição dirigiram-se para a saleta contígua ao quarto de Nanda.

E, comodamente instaladas, dispuseram-se a abrir os corações e libertarem-se das mágoas que, involuntariamente, guardavam, e a que tanto desejavam pôr fim.

Nanda começou a conversa:

- Bela, minha querida amiga, desde que fui viver para a Bélgica vim algumas vezes a Lisboa, como sabes. É certo que foi sempre por muito poucos dias, apenas os necessários para estar com o meu filho Luís e a minha nora Catarina, e matar as saudades do meu Nani.  Contigo limitava-me a  um almocinho rápido, sempre com falta de tempo para mais.

- Eu sempre compreendi isso, e nunca me aborreci por não estares mais tempo comigo. A família estava em primeiro lugar. Mas agora, que não temos pressa, vamos esclarecer algumas dúvidas que levaram a um certo afastamento entre nós.

Sei que guardei segredos que deveria ter-te confiado, já que as nossas vidas, até determinada altura, tinham sido livros abertos para ambas. Mas qualquer coisa, que nunca consegui definir, me impediu de confiar em ti.

Por outro lado, ao longo de todos estes anos – não sei quantos… vinte, talvez… - sempre tive a sensação de que também tu me escondias alguma coisa. E isso fazia-me retrair, e nunca terminar e muito menos enviar-te, as várias cartas que te escrevi.

- Estás absolutamente certa, querida Bela. Portanto, vamos falar “com o coração nas mãos” e não deixar nada por dizer. A nossa velha amizade assim o exige.

Começando pelo princípio tenho de te dizer que a minha vida na Bélgica não podia ter sido mais feliz.

O Miguel comprou a tal casa de que te falei, junto ao lago, uma zona muito bonita. Algum tempo depois a Farida arranjou-me trabalho lá na Secretaria da Universidade. Não me lembro se alguma vez te disse, mas eles trabalham na Universidade de Antuérpia, que tem um destaque especial na investigação de doenças infecciosas e nas neurociências, que são as áreas deles. A Giuliana também trabalha lá, mas noutro departamento.

 O meu filho não queria, de maneira nenhuma, que eu trabalhasse, mas a minha nora compreendeu os meus motivos e ficou ao meu lado. Eu não podia estar completamente dependente deles para comprar nem que fosse um alfinete. E as economias que eu tinha, que, felizmente não eram poucas – e isso tenho de agradecer , em grande parte, ao Araújo – (que Deus o tenha em seus braços), estavam destinadas aos meus três netos, quando eu morresse.

Encontrávamo-nos muitas vezes com a Giuliana, a filha do Alessandro, e a nossa amizade crescia a toda a hora.

No Verão seguinte teve a grande alegria de convencer o pai a vir passar férias à Bélgica.

Eu nem sei dizer o que senti quando ela, eufórica, nos comunicou a novidade.

Mas enfim, Alessandro chegou e quando nos encontrámos não sei qual dos dois estava mais emocionado. De início ele fez um enorme ar de espanto, pois nem sequer suspeitava que a “tal” amiga da filha fosse a sua tão antiga namorada. Rapidamente se recompôs, adoptando uma postura de quem está a conhecer alguém que nunca antes tinha visto.  Não sabíamos se havíamos de rir se chorar, ao mesmo tempo que tentávamos disfarçar para que ninguém percebesse.

No meio de toda aquela excitação conseguimos não dar nas vistas. A Giuliana apresentou-me como a sua “grande e querida amiga Nanda” ao mesmo tempo que que se virava para mim e dizia:

- Este é o meu velho casmurro, o meu Pai.

Sorrimos, cumprimentámo-nos com um cerimonioso beijo na cara, e tudo ficou em ordem.

Nos meses que se seguiram não passou um dia sem que o Alessandro não arranjasse um pretexto para nos encontrarmos.

A partir de certa altura começaram os jovens a mandar piadas porque perceberam o prazer que sentíamos em estar juntos.

E tudo evoluiu naturalmente, até ao ponto em que ele resolveu reformar-se e passar a viver na Bélgica.

Daqui para a frente tu já conheces a história. O Alessandro comprou lá um apartamento e fomos viver juntos. A nossa vida foi um verdadeiro paraíso. Fomos muito, muito felizes. Mas… a vida prega-nos partidas… e, como sabes, um dia o Alessandro sentiu-se muito mal, e acabou por falecer. E já lá vai um ano!

Como a mãe da Giuliana já tinha morrido há uns anos, ele tinha feito testamento, dividindo os seus bens entre mim e a filha, o que só viemos a saber depois de ele ter partido. Como resultado, fiquei numa situação económica muito confortável, pois o Alessandro era senhor duma considerável fortuna.

Quando ele fez a grande viagem fiquei muito transtornada, pois nós amávamo-nos muito, para além de haver um grande entendimento e enorme cumplicidade entre nós. Mas…a vida continua e, com o passar do tempo, fui-me conformando com a minha nova situação. Para todos os efeitos considero-me viúva. Mas, à medida que o meu desgosto ia acalmando, comecei a pensar nas voltas que o mundo dá.

Raciocina comigo, Bela. Vê se entendes o meu problema e se me podes aconselhar.

- Claro, meu amor, fala, e se eu puder ajudar-te, sabes que podes contar comigo.

- Eu sei, minha querida amiga, não esperava de ti outra coisa. Mas, para me poderes dizer seja o que for,  tenho de te revelar um segredo que sempre escondi de toda a gente, até de ti. Apenas eu e o Tó Zé sabemos.

Bela manteve silêncio ao mesmo tempo que pensava que também ela tinha um segredo que nunca revelara a ninguém.

Nanda fez uma pausa um pouco prolongada, como se estivesse a ganhar coragem para o que iria dizer.

- Não é nada fácil, mas hoje os segredos têm de acabar entre nós. Portanto, aí vai. O pai do meu filho Miguel não é o Tó Zé, mas sim o Alessandro.

Bela engoliu em seco. Nunca lhe passara pela cabeça que o que ela pressentia que a amiga lhe escondia fosse tal coisa. Suspeitara sempre que ela estivesse grávida quando se casara com o Tó Zé, e por isso mesmo o casamento tinha sido feito tão inesperadamente. E que não queria que isso se soubesse. Naquela época uma coisa dessas não era muito bem vista. Mas… o pai do Miguel ser o Alessandro é que nunca poderia imaginar.

- Mas como é que escondeste isso de toda a gente? A tua mãe, pelo menos, devia desconfiar.

- Não, porque quando ela descobriu que eu estava grávida , como eu me recusei a dizer-lhe quem era o pai do filho que eu esperava,  a minha mãe reagiu muito mal, ameaçando-me pôr-me fora de casa se não tratasse rapidamente do casamento. E como o Alessandro já não estava em Lisboa, o Tó Zé prontificou-se a casar comigo. Tu sabes que ele sempre foi apaixonado por mim, já desde os tempos da escola primária.

Casámos – na altura tu estavas com a tua mãe fora de Lisboa, lembras-te? – registámos o Miguel como filho do Tó Zé, e nunca ninguém soube a verdade.

- Bom, mas isso agora que importância tem?- indagou Bela.

- O que se passa é que eu tenho andado a pensar que esta pequena fortuna que eu herdei do Alessandro, em boa verdade pertence, pelo menos em parte, ao Miguel. E como é que eu faço para lhe dar o dinheiro? Com que pretexto?

Se lhe conto quem era o seu pai biológico, é o mesmo que dizer-lhe que a Giuliana é sua irmã. Como é que ele irá reagir a uma notícia dessas?

Vai acusar-me, com certeza, de não lhe ter contado a verdade enquanto o Alessandro era vivo, e não ter permitido, assim, que ambos pudessem desfrutar doutro tipo de convivência muito mais agradável para ambos…Até porque sabes que o relacionamento dele com o Tó nunca foi dos melhores…

Estás a ver o meu problema, minha amiga? Tenho passado noites e noites acordada, a pensar nisto, e não consigo encontrar solução…

Bela manteve-se em silêncio por algum tempo, fingindo pensar na forma de ajudar a amiga. Na verdade, o seu pensamento estava bem longe disso.  Comparado com o que Nanda acabara de lhe contar, o seu próprio segredo era muito mais grave. Tomando fôlego, titubeou:

- Minha querida, em conjunto havemos de encontrar forma de resolver esse problema que, na realidade, não me parece demasiado grave. E, já que estamos a falar de coração aberto, também eu tenho um segredo para te contar. Penso que, tal como eu tinha a sensação de que me escondias algo, também contigo deve ter acontecido a mesma coisa…

- Tens razão. Eu pressentia que, embora fossemos as melhores amigas – mais do que algumas irmãs – havia-se passado qualquer coisa que te envergonhava e não querias partilhar comigo.

- De facto, foi o que aconteceu. Lembras-te de que eu não pude assistir ao teu casamento, alegadamente porque estava a acompanhar a minha mãe no estrangeiro.

- Lembro-me perfeitamente.

- Pois o que se passou foi totalmente diferente. Nós, eu e a minha mãe, estivemos todo esse tempo no Porto, a esconder uma gravidez minha.

Nanda ficou boquiaberta.

- O quê? Tu estiveste grávida ao mesmo tempo que eu? Mas tu não tens nenhum filho… O que é que aconteceu?

- Tal como sucedeu contigo também a minha mãe reagiu muito mal ao saber que eu estava grávida. Anteriormente, nós tínhamos ido as duas passar uns dias ao Porto com a tia Natércia, a irmã da minha mãe. O meu pai ficou em Lisboa.

Uma noite eu fui com a minha prima a uma festa em casa duma amiga dela. Às tantas aquilo descambou e, pela primeira e única vez na minha vida, experimentei drogas. Misturadas com álcool, podes imaginar…

Nanda estava estupefacta com o que Bela lhe contava.

- Meu Deus! Mas como é que nunca desabafaste comigo?

- Por favor, não me recrimines, senão nem terei coragem para contar o resto.

Nanda, aflita, agarrou a mão da amiga:

- Nem pensar nisso, minha querida. Quem sou eu para te recriminar? Só estava a pensar que, se tivesses falado comigo talvez te custasse menos essa recordação. Por favor, continua. Prometo não te interromper mais.

- Bem, no meio de toda aquela confusão, só sei que na manhã seguinte acordei seminua ao lado de um indivíduo que eu nunca tinha visto. E que nunca mais voltei a ver. Percebi, horrorizada, que, durante a noite, nos tínhamos envolvido.

Regressámos a Lisboa e passado cerca de um mês comecei com enjoos.

A minha mãe acabou por desconfiar, e depois confirmar com o ginecologista dela, que eu estava grávida. Sem querer saber de nada, nem sequer me perguntar quem era o pai do meu filho, agarrou em mim e levou-me para o Porto, para a casa da tia Natércia, onde passámos os meses da gravidez e mais duas semanas após o parto. Ela tratou de tudo sem me dar hipótese de reclamar. Como abortar estava fora de questão devido às suas crenças religiosas, pediu à irmã para ver se sabia de alguém que quisesse o bebé. Ele nasceu de cesariana, passei bastante mal na altura, e nem sequer cheguei a vê-lo. Sei apenas que era um menino e que foi entregue a uma família abastada, do Porto, que não podia ter filhos.

Nanda, sem poder conter a emoção, levantou-se e foi até à janela. O André! O amigo de Miguel era filho da Nanda! Certamente não haveria no Porto muitas famílias abastadas sem poderem ter filhos. Só podia ser isso!

Recomposta, voltou a sentar-se. Estava visivelmente emocionada. E uma enorme dúvida se lhe pôs. Contar o que sabia, ou simplesmente omitir? Não, tinha de falar, a hora era da verdade.

- E nunca mais soubeste nada dele?

- Não. Ainda tentei saber através da tia Natércia, mas ela respondia-me sempre que não sabia nada; que o entregara a uma pessoa conhecida que se encarregara de lhe dar destino, da qual perdera o rumo. Mas que, na altura, essa tal pessoa lhe afiançara que o menino iria ter um bom destino.

- E se eu te dissesse que, quase de certeza, conheci o teu filho? – Nanda pronunciou estas palavras muito lentamente, como que a medo da reacção da amiga.

Bela olhou-a muito séria. Não conseguia articular uma palavra. Por fim tartamudeou:

- Mas como é isso possível ?

Nanda falou-lhe de como conhecera André, da sua parecença com Alessandro, dos seus inesquecíveis olhos azuis, de como se sentira próxima dele, como se o conhecesse há muito tempo. Bela interrompeu-a:

- E porque nunca me disseste nada?

- Eu não podia adivinhar que ele era teu filho – nem sequer sabia que tinhas tido um bebé. De resto, eu não tenho confirmação de que se trate da mesma pessoa, mas, dadas as circunstâncias, parece-me que seriam coincidências a mais.

Ambas mantiveram silêncio por largos minutos. Por fim, Bela disse, com enorme mágoa na voz:

- Durante muitos anos vivi amargurada com esta recordação. E recriminava-me pelo sucedido, embora, em boa verdade, naquela altura eu não pudesse fazer nada. Era completamente dependente dos meus pais, e a minha mãe, como sabes, era extremamente autoritária. A vontade dela prevalecia sempre a tudo  e a todos.

- Sim, eu sei. Então comigo não se passava o mesmo? A Dona Lucinda sabia muito bem impor-se - e riu, querendo, com isso, aliviar a tensão que se estabelecera depois de tão inesperadas e quase inacreditáveis revelações. E continuou:

- Agora, finalmente, entre nós não há segredos.  Na verdade, tenho ainda um segredo para te revelar, mas estou convicta de que este te vai fazer feliz. Agora, infelizmente, estás sozinha, como eu. Os nossos maridos fizeram a Grande Viagem, assim como os nossos pais já tinham feito. Restam-nos as nossas mães, mas essas não sentem a nossa falta.

Bela olhou para a amiga com ar interrogativo:

- Ainda outro segredo? Mas não pusemos já a nossa alma a nu?

- Claro que sim – respondeu Nanda, ao mesmo tempo que pensava: “Todos os segredos foram revelados, menos um – o assédio de que fui vítima por parte do teu pai. Mas esse vai comigo para a cova, onde, em parte, já está”

- Mas não vou fazer suspense, vou já dizer-te do que se trata.

Quando vim agora a Lisboa comprei um bilhete para cá, mas para o regresso à Bélgica adquiri dois – um para mim e outro para ti.

Bela tinha um ar absolutamente estupefacto.

- Mas… - tartamudeou.

- Não há mas nem meio mas – interrompeu-a Nanda. Ah! Estava a esquecer-me duma coisa …

- Não aceito um não!

                         

FIM

 

Maria Caiano Azevedo