terça-feira, 1 de janeiro de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS VI

SEGREDOS - CAPÍTULO VI

… Depois de pedir uma “Salada César com Frango ”Nanda reparou que o homem que estivera no bar se levantara e saíra do restaurante. Na rua dirigiu-se a um carro de gama alta, entrou e rapidamente pôs-se em marcha.
Nanda pensou: “Aquela cara não me é estranha…” E, dirigindo-se ao empregado:
- Conhece aquele senhor que acabou de sair do bar? …

SEGREDOS – CAPÍTULO VI

- Conheço sim, D. Nanda. É o engenheiro Carvalho Araújo. A senhora não o conhece?
De repente Nanda lembrou-se. Claro! Era isso mesmo. O tal Carvalho Araújo do cartão, que a abordara junto ao Centro de Saúde. Sim, era ele mesmo. Disfarçando, Nanda esboçou um sorriso e perguntou:
- E por que havia de o conhecer?
- Como a senhora é doutora em finanças… pensei…
Nanda deu uma gargalhada.
- Não, nem sou doutora em finanças nem o conheço.
- Peço muita desculpa, mas eu acho que ouvi dizer que a senhora era doutora em finanças…
- Não, António, eu apenas tenho um curso superior de contabilidade, que é muito diferente.
- A senhora desculpe, mas para mim é tudo a mesma coisa. Nenhum empresário consegue governar as suas finanças se não perceber de contabilidade… é ou não é?
Nanda sorriu de novo. Até que o empregado não deixava de ter razão… E sabia raciocinar…
- Na verdade, se o seu patrão não tiver a contabilidade em ordem… lá se vão as finanças, e chega ao fim do mês sem dinheiro para pagar o seu ordenado.
- P’ra longe vá o agoiro, D. Nanda. Eu tenho família para sustentar. Mas olhe, ao engenheiro é que não deve faltar dinheiro para sustentar a família…
- Ai sim? E porque é que você diz isso?
- Dizem que ele quer investir por aqui.
- Investir como? – Nanda estava verdadeiramente interessada, mas esforçava-se por não o denotar.
- O que dizem é que ele esteve muitos anos no estrangeiro e ganhou lá muito dinheiro. E agora parece que o quer aplicar cá na terra, porque os avós eram de cá e ele foi criado por eles. – António falava com toda a precisão, como se estivesse perfeitamente por dentro do assunto.
- Pois muito me conta, António. Para ser criado pelos avós, se calhar ele era órfão…
- Era, sim senhora, e foi por isso mesmo que os avós o criaram. Os pais morreram num acidente, e ele ficou só com os velhotes e um tio, irmão do pai, que vivia no estrangeiro. E foi esse tio que depois o levou para lá para fora e o pôs a estudar.
- Então ele deve estar cá há pouco tempo. Não tenho ideia de o ter visto por aí…
- Sim, ele veio ainda não tem três meses. Está instalado na casa de um primo, e todos os dias vem cá tomar café. É muito simpático, e interessa-se pelas pessoas que aqui moram, está sempre a fazer perguntas…
- E você retribui com outras perguntas, não é, António? Por isso sabe tanto a respeito dele… - comentou Nanda, com um sorriso brincalhão.
- Faz parte do ofício, D. Nanda. Um bom empregado deve estar sempre bem informado acerca dos clientes…
- Que é como quem diz: dever ser um perfeito “cusca” – interrompeu-o Nanda, bem-humorada.
Como o restaurante se encontrava vazio àquela hora o empregado manteve-se junto à mesa da cliente enquanto ela comia. Terminado o almoço Nanda despediu-se e saiu.
Durante toda a conversa com o António tentara mostrar uma curiosidade desprendida, mas registara todas as informações que ele lhe prestara.
“Então o tal Carvalho Araújo é engenheiro, abastado, e tem, talvez, intenções de abrir um negócio…” – pensava Nanda ao encaminhar-se para casa.
“Agora parece que começa a fazer sentido a conversa dele quando se me dirigiu com a tal história de que o que tem para me dizer pode ser bom para mim… No Centro de emprego ele percebeu que eu estou desempregada…
A verdade é que vinha mesmo a calhar um emprego, mas uma coisa de jeito, não outro ‘negócio de farturas’ – Nanda riu-se, para si mesma.
Sim, que o Luís não deve tardar muito a vir para cima, se o Tó Zé cumprir o prometido, e mais dia, menos dia estou com um netinho nos braços… - inconscientemente sorriu, embevecida, ao imaginar-se em tal situação.”
Ao chegar a casa encontrou no hall de entrada a vizinha do rés-do-chão esquerdo, a professora Carla.
Cumprimentaram-se amavelmente. Simpatizam bastante uma com a outra, o que as leva a conversar sempre que se encontram.
- Bom dia, Nanda. Como está? Calculo que muito feliz com a notícia de ser avó…
- Ah! A Carla já sabe…
- E há alguém aqui no prédio que não saiba? – riu Carla. Aliás, eu acho que não é só no prédio mas sim no bairro todo… - sorria com simpatia.
Mas… entre um bocadinho para conversarmos – enquanto falava ia abrindo a porta da sua casa. Há tanto tempo que não o fazemos, e eu gosto tanto de falar consigo. Como sabe… não tenho por cá muitos amigos, e as pessoas aqui do prédio, embora me falem todas muito bem, não passa disso…
- Eu penso que é apenas porque a Carla está cá há pouco tempo. Há pouco mais de um ano… se não me engano. Todos os moradores daqui se conhecem há muitos anos, vivem cá praticamente desde que o prédio foi construído. E como somos apenas seis condóminos… é quase como se fôssemos uma família apenas. Vai ver que com o tempo acaba por se sentir “em casa” – Nanda pretendia assim animar a sua amiga.
Mas voltando ao assunto de eu ser avó e toda a gente saber – acrescentou com um sorriso - acho que tem razão. A notícia espalhou-se bem depressa. Tenho cá na minha ideia que para isso terá contribuído muito o Chico das Farturas – respondeu Nanda, rindo; e acrescentou logo de seguida: Bem, eu também não fiz propriamente segredo…
- As boas notícias são para se saberem. Para mal basta o que vemos na televisão – respondeu Carla.
- É isso mesmo, na TV só se ouvem desgraças. E por falar em desgraças… Quando vinha para casa vi ali na esquina a Alberta com um fulano qualquer. Coitada, faz-me uma pena! O marmanjo que estava com ela já não é o mesmo da semana passada. Aproveitam-se da deficiência da pobrezinha, os desavergonhados! Nem sei quantos já se divertiram à custa dela… Quando os vejo naquela esfregação toda só me dá vontade de os insultar. – Nanda falava toda empolgada.
- É uma tristeza, sim. Mas… não é nada fácil resolver aquele problema. Como a Nanda sabe muito bem, os portadores da síndrome de Down têm a líbido muito exacerbada, o que, no caso das mulheres, muitas vezes as leva a ir coleccionando homens atrás de homens, em sexo ocasional, sem qualquer controle. O comportamento da Alberta reflecte exactamente isso. Ela é um exemplo perfeito dessa característica.
- É verdade. Mas sabe, Carla? O que mais me incomoda é que essas pessoas são sempre extremamente carinhosas, gentis, simpáticas, afáveis…E é isso, precisamente, que as torna alvos fáceis para os desalmados que delas abusam.
Por sorte, é muito raro estas mulheres engravidarem, não porque sejam estéreis, como os homens, mas porque têm uma ovulação muito irregular, o que dificulta, quase impossibilita, a gravidez.
- Sem dúvida isso é uma bênção, pois seria difícil essas mulheres cuidarem dos filhos. Haveria, então, mais um encargo para as suas famílias – acrescentou Carla.
Nanda fez um sinal de concordância e continuou:
- Sempre que vejo a Alberta lembro-me de uma rapariga que havia na terra dos meus avós, lá na Beira, que também sofria de Trissomia 21, e a sua maneira de se comportar era igual à da Alberta.
- Ah! Então os seus avós eram da Beira?! Que coincidência engraçada! Os meus também eram beirões – disse Carla.
- Se formos esmiuçar bem ainda descobrimos que os nossos avós eram primos – respondeu Nanda. E ambas riram da ideia.
Carla retomou a palavra:
- Mas conte-me: a Nanda ia lá quando eles eram vivos?
- Ah! Sim, ia lá todos os anos. No Verão passava uma semana na província – o meu pai não podia ter mais férias nessa altura; só depois, no Outono ou no Inverno. No Natal íamos sempre por dez dias.
- Mas isso devia ser uma maravilha! Os meus avós mudaram-se para cá quando eu era pequenina. Só tenho lembranças muito vagas da época em que íamos lá… Mas a Nanda deve lembrar-se bem…
- Claro que me lembro! Quando penso nisso até parece que sinto o aroma da canela e da casca de limão que dominava a casa da minha avó… - Nanda sorriu, àquela doce lembrança.
- Estou a ver que o que a Nanda recorda melhor são as doçarias… - brincou Carla.
- Não, não, isso não é verdade. Falei nisso porque era a primeira impressão à chegada lá. A minha avó já tinha tudo preparado para fazer os “Bolinhos de Jerimu”. Depois a minha mãe ajudava-a a fritar os bolinhos, que tinham que esperar uma semana, depois de feitos, para os comermos. Elas diziam que assim eles eram muito melhores. Eu e o meu pai tínhamos uma opinião diferente… achávamos que acabadinhos de fazer deviam ser uma delícia… mas nunca os provámos assim; as matriarcas não se podiam contrariar – Nanda falava num tom saudoso.
- É interessante que eu tenha tão poucas memórias desse tempo e me lembre perfeitamente dos “Bolinhos de jerimu” – lembrou Carla. A verdade é que, mesmo depois de estar cá, a minha avó os continuou a fazer…
- Afinal não sou só eu a lembrar-me das doçarias… - sorriu Nanda. Mas tenho muitas outras recordações, igualmente agradáveis, daqueles Natais. No dia seguinte à nossa chegada lá, logo após o pequeno-almoço, o meu pai e eu íamos a um pinhal que pertencia aos meus avós para colhermos musgo. Àquela hora da manhã estava muito frio; por entre os troncos dos pinheiros havia uma neblina cerrada, misteriosa, que me fazia imaginar que, por detrás daquelas árvores, dezenas ou até centenas de duendes nos espreitavam. Eu quase podia vê-los a brincar às escondidas, correndo de arbusto em arbusto, em alegre galhofa. Isso tornava-me um pouco receosa. Mas a presença do meu pai era quanto bastava para me sossegar. Com a minha mão presa na dele nada de mal me podia acontecer…
Levávamos um cestinho e uma faca velha, meio rombuda. Quando encontrávamos alguma pedra com o precioso fungo, o meu pai enfiava a faca cuidadosamente por debaixo da planta, e eu amparava aquele delicado tapete verde com o maior cuidado, porque o musgo parte-se com muita facilidade. Depois colocávamo-lo dentro do cestinho e quando já tínhamos quantidade suficiente íamos para casa. Ali chegados corríamos para a lareira, completamente enregelados, mas felizes… Nanda falava com um ar sonhador e saudoso. Carla ouvia-a atentamente, bebendo as suas palavras, como se quisesse gravar na memória tudo o que a sua amiga lhe contava.
- Estou a ouvi-la e a imaginar a alegria que tudo isso devia ser para uma criança – sim, porque a Nanda era uma criança, na altura, imagino eu… comentou Carla.
- Sim, quando eu comecei a acompanhar o meu pai ao pinhal tinha os meus 8 ou 10 anos… Anteriormente, quando eu era mais novinha, ele ia sozinho, e eu esperava-o ansiosamente, em casa. É que aquele era o primeiro passo para a construção do presépio…
- Que era, com certeza, um dos pontos altos das Festas… – adiantou Carla.
- Sim, sem dúvida! Para mim era um verdadeiro êxtase colocar no presépio, que o meu pai armava, construindo morros e vales com pedras que punha por baixo do musgo, todas aquelas figurinhas que eu considerava mágicas…
Havia também um outro ritual que me encantava. O do tição de Natal…
- Nunca ouvi falar nisso. De que se trata? – perguntou Carla, curiosa.
- Era assim: O meu pai ia ao pinhal – dessa vez eu não o acompanhava, ele ia sozinho – e trazia de lá um tronco de pinheiro bem grosso. Este tronco era aceso na noite de Natal e conservava-se a arder, muito lentamente, sem chama, até ao último dia do ano. Depois da meia-noite era apagado – a essa parte eu já não assistia, invariavelmente estava a dormir… - e guardava-se para acender quando houvesse trovoadas. Os antigos acreditavam que o “Tição de Natal” tinha o poder de afastar as trovoadas e evitar que causassem estragos às pessoas e aos animais.
- Que bonita, essa crença! É difícil para mim imaginar todo esse encantamento, pois não tive a sorte de passar os Natais na província. Como sabe, aqui na cidade é tudo muito mais artificial… compra-se tudo feito, não há a magia de sermos nós mesmos a “fabricar” seja o que for… Sabe, Nanda, ao ouvi-la eu quase sinto inveja de si. – comentou Carla, acrescentando rapidamente: - No bom sentido, é claro
- Eu compreendo-a muito bem, minha amiga. Quando os meus avós faleceram deixámos de ir passar o Natal a casa deles; a minha mãe não conseguia ir lá durante muito tempo. Ver a casa dos pais causava-lhe muita dor. Eles morreram com um intervalo de onze meses, primeiro a minha avó e depois o meu avô. Só bem mais tarde a minha mãe arranjou coragem para ir lá desfazer-se dos prédios que eles tinham deixado. A minha mãe era filha única… tal como eu sou.
- Ah! A Nanda é filha única…
- Sim, não tenho nem nunca tive irmãos…
- Eu desconfiei disso pela maneira como falava do seu pai. Fez sobressair a ternura que ele tinha por si, muito próprio de menina única – murmurou Carla.
- O meu pai tinha uma verdadeira paixão por mim. E era correspondido. Com a minha mãe era diferente. Não que ela não gostasse de mim, nada disso! Só que ela era mais rígida, mais exigente, queria fazer de mim uma pessoa perfeita. E eu nunca fui perfeita… - acrescentou, com um meio sorriso.
De uma coisa, porém, não me posso queixar – de falta de amor. Os meus pais sempre me mimaram muito. Embora não fossem abastados – como eram, por exemplo, os pais da minha amiga Bela, esses sim, bastante ricos – nunca senti necessidade do que quer que fosse. A minha mãe tinha o maior cuidado para que nada me faltasse, e, à sua maneira, sempre me dispensou muito carinho. Era muito exigente com os estudos, não admitia sequer a ideia de que eu não tirasse um curso superior… O meu pai, como a Carla já se apercebeu, era o meu herói. E eu era a sua princesa – que o lugar de rainha cabia à minha mãe, que não o dispensava – Nanda riu com gosto.
- Os pais sempre desejam que os filhos sejam os melhores em tudo – disse Carla. Mas os filhos nem sempre correspondem.
- Essa é uma grande verdade, minha amiga. Só quando nasceram os meus filhos é que entendi muitas coisas, nomeadamente as exigências da minha mãe. Eu sei que a decepcionei muito, não correspondi às suas expectativas, não fui a pessoa que ela esperava que eu fosse – havia amargura na voz de Nanda. Mas eu tinha que viver a minha vida, não podia ser ela a vivê-la por mim…
Lançando um olhar ao relógio acrescentou:
- Já está a fazer-se tarde. Tenho que pôr pés a caminho…
Carla sorriu:
- O caminho não é longo… é só atravessar o hall. Nanda, muito obrigada por estes momentos. Nem imagina como me soube bem falar consigo. Temos que repetir.
Mas, de facto está a fazer-se tarde, também tenho que ir buscar os gémeos ao colégio…
- Ah! Mas que indelicadeza a minha! Com o entusiasmo da conversa esqueci-me de perguntar pelos meninos… Eles estão bem?
- Sim, estão. A semana passada o Tiago pregou-me um susto, tive que o levar ao hospital, mas não foi nada de grave. Não vejo é a hora de poderem ser operados…
- Pois… sabemos como é a saúde em Portugal… respondeu Nanda, levantando-se. Eu vou também tratar do “meu bebé” Tejo, antes que aconteça alguma fatalidade líquida lá em casa…

Maria Caiano Azevedo

FELIZ ANO NOVO
FELIZ 2019
Dediquemos os 365 dias que agora começam a:
Comemorar a VIDA
Espalhar o AMOR
Semear a ESPERANÇA

sábado, 1 de dezembro de 2018

FÉRIAS 2018


De há uns anos para cá – não posso precisar quantos… - o meu primeiro post a seguir às férias tem servido para partilhar convosco fotos dos locais onde as passei.
Não sei porquê – penso que “o alemão” anda a querer insinuar-se junto a mim… - este ano esqueci-me de o fazer.
Houve quem me chamasse a atenção. Por isso, se acharem que ainda não é muito tarde, deixem-me mostrar-vos por onde andei no Verão de 2018.
Inicialmente tinha incluído, neste PPS, um maior número de fotos. Porém, o ficheiro estava demasiado pesado, e tive que retirar uma boa parte delas. Excluí as que me pareceram menos relevantes. Por isso me atrasei na publicação da minha postagem, o que costumo fazer às 0 horas do dia 1 de cada mês. As minhas desculpas.
Esta foi a primeira parte das minhas férias deste ano. A segunda parte, passada em Cabo Verde, partilharei convosco noutra altura.
Espero que apreciem.

A Nanda foi de férias, passa o Natal na província J. Regressará no dia 1 de Janeiro de 2019.

BOM NATAL PARA TODOS! 

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS V

SEGREDOS – CAPÍTULO V

Mas…para o que lhe havia de dar… Se não fosse aquele ‘pequeno defeito’ eu até era capaz de dar umas voltinhas com ele no carrocel! Noutras circunstâncias não me escapava – continuou o seu raciocínio, bem-humorada.
Que desperdício, santo Deus!” – e riu baixinho.”

SEGREDOS – CAPÍTULO V

Depois de fazer inúmeros telefonemas – toda a gente tinha que saber que ela já era avó – Nanda sentou-se no sofá da sala, exausta, com um copo de vinho na mão, pensando nos últimos acontecimentos. Um sorriso estampou-se-lhe no rosto ao lembrar-se da reacção do seu “ex” quando lhe deu a notícia.
Tó Zé ficou delirante. As perguntas saíam-lhe em catadupa, quase não dando tempo a que Nanda pudesse responder. Queria saber tudo, inclusive a morada do filho e da nora, para, no dia seguinte, se deslocar ao Alentejo. Foi preciso Nanda impor-lhe calma, coisa que a si própria faltava. Quando, finalmente, conseguiu falar, disse-lhe:
- Em vez de pensares em ir lá é melhor resolveres a vinda deles para cá…
- Já estou a tratar do assunto e dentro de dois ou três dias já podem vir – respondeu, deixando transparecer toda a felicidade que sentia.
Depois daquelas pequenas tarefas que toda a mulher executa antes de se deitar, Nanda foi para a cama. Deu voltas e mais voltas mas o sono teimava em não aparecer. Vencida pelo cansaço adormeceu já depois das quatro horas.
Encontrava-se profundamente adormecida quando começou a ouvir ao longe o toque do telemóvel. A princípio aquele som integrou-se no sonho – estava com o netinho ao colo quando uma amiga ligou para saber notícias. Porém… o som continuava, insistente, acabando por acordá-la.
Foi com muito má vontade que estendeu o braço para apanhar o telemóvel. Ao ver que o relógio marcava sete horas, resmungou, contrariada: -“ Mas quem é que se lembra de ligar a estas horas da madrugada?”
Temendo que fosse o filho com alguma notícia menos boa – as avós vivem com o coração nas mãos – pegou no telemóvel e nem olhou para o visor.
- Está? – atendeu, com a voz meio entaramelada.
- É a D. Nanda? Onde é que a senhora está? – era a voz do Chico.
- Onde é que eu estou? Essa agora! Então onde é que eu havia de estar às sete da manhã? Estou na cama, naturalmente! E digo-lhe desde já que isto não são horas de telefonar a ninguém – resmungou Nanda, mal-humorada.
- Na cama? Oh D. Nanda, eu estou à sua espera há um ror (1) de tempo! Então a senhora esqueceu-se que hoje é dia da Feira de São Macário das Alminhas? Já devíamos estar a caminho – Chico falava apressadamente, como se quisesse incutir rapidez na interlocutora.
- A caminho de quê, homem de Deus? Eu lá sei alguma coisa do Macário ou das almazinhas!
- Pois é, D. Nanda, a senhora tem que começar a fazer como eu, senão não há nada p’ra ninguém.
- Não sei do que é que o senhor está a falar. E, se quer que lhe diga, eu neste momento só quero dormir, que passei muito mal a noite – Nanda preparava-se para desligar.
- Qual dormir, qual carapuça! A senhora tem que vir agora ter comigo, que já vamos chegar atrasados. E volto a dizer, a senhora tem que começar a fazer como eu…
Com todo este arrazoado Nanda acabara por perder o sono, e estava agora desperta.
- Afinal, o que é que eu tenho que começar a fazer? O que é isso tão importante que o senhor faz e que eu devo começar a imitar?
- Consultar o Almanaque, D. Nanda! – Chico falava como se o que dizia fosse a coisa mais evidente deste mundo, estranhando que ela não soubesse.
- Consultar o Almanaque? – o espanto de Nanda era enorme. Para quê?
- Ora para quê! Para ver os inventos do dia a seguir! – Chico continuava espantado com a ignorância de Nanda. – Só assim o negócio pode andar p’ra frente!
Nanda estava boquiaberta. “Em que é que os inventos podiam influenciar os negócios? Só se inventassem uma frigideira para farturas que não libertasse cheiro… Seria desse invento que ele estava à espera? Mas, tanto quanto ela sabia, não havia almanaques de inventos. De que estaria ele a falar?”
- Oh senhor Francisco, desculpe lá, mas o senhor tem a certeza do que está a dizer?
- Como assim? Não há nada para ter certeza, é só ler o Almanaque. Vem lá tudo, os inventos todos. Pensa que eu adivinhei que hoje é a festa de São Macário das Alminhas? Não senhora, eu vi foi no Almanaque. E vá-se preparando que amanhã é a Feira de São Torcato. Não podemos faltar a nenhum destes inventos, o dinheirinho não cai do céu! E rematou:
- Não se demore, D. Nanda!
Agora sim! Finalmente Nanda entendeu! Os inventos a que se referia o Chico eram, simplesmente, EVENTOS! E começou a preparar-se rapidamente, não fosse o ‘invento’ acabar antes de eles lá chegarem…
Com tudo o que acontecera nas últimas horas acabara por se esquecer do que combinara com o Chico no dia anterior - começar a fazer a tal experiência de andar com a carrinha a vender “as melhores farturas do mundo", como ele dizia. Agora teria que ir falar com ele e convencê-lo a ir sozinho lá para o “invento”, já que, depois dos últimos acontecimentos, não tinha forças nem para “pegar uma gata pelo rabo”. Até porque, com a aproximação da chegada do netinho - e dos pais, é claro! - tinha muitas coisas a preparar e não podia perder tempo com a venda das farturas.
Em tudo isto pensava enquanto se preparava para ir ao encontro de Chico. Passou uma água no rosto – a que os mexicanos chamam “fazer uma manita de gato”- uma escovadela rápida ao cabelo, e saiu.
Chico aguardava-a junto à carrinha, dando passinhos para cá e para lá, denotando impaciência e nervosismo.
Ao vê-la exclamou rapidamente:
- Oh D. Nanda, isto não pode voltar a acontecer. A estas horas já devíamos ter a tenda armada, e ainda aqui estamos. Assim o caixafló vai-se abaixo!
- Olhe, senhor Francisco, nós precisamos de conversar… - Nanda preparava-se para lhe dizer que queria desistir do negócio, para o qual, na verdade, nem tinham acertado condições.
- Qual conversar, D. Nanda? Nós temos é que nos pôr a andar sem demora! Falamos pelo caminho. Vá, sente-se ao volante e conduza a carrinha, para se ir habituando.
Contrariada, mas temendo a reacção de Chico, Nanda subiu para a cabine da carrinha, sentou-se ao volante e, contra as suas próprias expectativas, pôs o motor em marcha e arrancou sem dificuldade. O local para onde se dirigiam não era muito longe e rapidamente lá chegaram. Depois, foi uma lufa-lufa (2) até que tudo estivesse em ordem para começar a fazer as farturas. Quando, finalmente, colocou a massa na frigideira, Nanda já transpirava por todos os poros, e dizia mal da sua vida.
A clientela não parava de chegar, e ela via-se aflita para satisfazer toda a gente com a rapidez necessária. Chico limitava-se a receber os pagamentos e a incitá-la para que se despachasse, “senão o caixafló não se aguenta“.
“Quem não se aguenta sou eu” – pensava Nanda, já completamente arrependida de se ter metido naquela alhada.
Por volta da uma hora da tarde a clientela começou a rarear, e Chico comunicou que não valia a pena pôr mais massa na frigideira. Arrumaram tudo e iniciaram o caminho de regresso.
Nanda não tivera ainda oportunidade de comunicar a sua decisão de não trabalhar no negócio das farturas. Por isso baixou um pouco a velocidade e começou:
- Senhor Francisco, como eu lhe disse esta manhã nós precisamos conversar…
- Tudo bem, D. Nanda, agora já podemos falar. Ora diga lá…
- Não sei se o senhor sabe que o meu filho Luís já é pai… - começou, sem saber muito bem como abordar o assunto.
- Sei sim, D. Nanda, lá na rua não se fala noutra coisa. Até parece que foi o filho da rainha da Inglaterra que foi pai… - riu Chico.
- Pois eu lhe digo que para mim é muito mais importante ser filho do meu Luís… - respondeu , meio abespinhada. (3)
-Ó D. Nanda, tenha calma, eu não disse isto por mal. Mas diga lá o que é que quer conversar comigo.
- Olhe, senhor Francisco, eu vou directa ao assunto. Eu não posso continuar a trabalhar consigo. Agora que… - Ele interrompeu-a, não a deixando terminar a frase.
- Que conversa é essa, ó D. Nanda? A senhora comprometeu-se comigo. E lá porque o nosso contrato foi de “de trinta e um de boca”, para mim vale tanto como se fosse feito no cartório.
- Isso não é bem assim… Se o senhor se lembra, nós nem sequer acertámos as condições, apenas falámos que eu trabalharia uma ou duas semanas à experiência, mas não combinámos quanto eu iria ganhar… - Nanda agora falava rapidamente, sem qualquer hesitação.
- Pois… não falámos,  mas o que a senhora precisa de ganhar é experiência. Não combinámos nenhum valor, é verdade, mas eu fazia conta de lhe dar uma gorjeta ao fim da experiência…
- Uma gorjeta? – Nanda mostrava-se estupefacta, de tal modo que deu uma guinada no volante, o que fez Chico gritar “Cuidado!”. Uma gorjeta? – insistiu. Então o senhor acha que eu sou mulher de receber gorjetas? Francamente, senhor Francisco, o senhor decepcionou-me por completo!
- Ó D. Nanda, a senhora irrita-se por tudo e por nada. Eu não quis ofendê-la, Deus me livre!
- Olhe, senhor Francisco, guarde as suas gorjetas para quem quiser, mas comigo não conta mais para andar pelos ‘inventos’? Era só o que me faltava – rematou num tom que não admitia réplica.
Chico silenciou, com uma ruga na testa, apreensivo.
- D. Nanda, eu peço que me desculpe se a ofendi. Acredite que não foi por mal… E lamuriou, quase com lágrimas na voz:
- A senhora sabe muito bem que eu sempre tive por si a maior consideração e estima. Para mim a senhora era quase como se fosse da família, com o devido respeito. Se a senhora não quer continuar a trabalhar comigo, tudo bem. Só lhe peço que não fique zangada.
Nanda ficou desconcertada. Não esperava esta reacção de Chico. Não sabendo o que lhe responder, optou por se manter em silêncio.
Estavam a aproximar-se de casa. Nanda sentiu que tinha que dizer alguma coisa. No tom mais indiferente que conseguiu arranjar – as últimas palavras de Chico tinham-na comovido e ela não queria que ele o notasse – disse-lhe:
- Senhor Francisco, vamos esquecer toda esta conversa e até mesmo este dia. Vamos fingir que nada aconteceu. O senhor vai seguir com a sua vida e eu com a minha. Concorda?
- Se a senhora prometer que não fica zangada comigo… concordo – respondeu Chico, meio envergonhado.
Despediram-se com algum constrangimento.
Mal abriu a porta de casa Tejo correu ao seu encontro, com um misto de alegria e urgência, saltando e latindo baixinho, queixoso. Ela afagou-lhe ternamente a cabeça, murmurando “perdoa-me esta demora” e pondo-lhe de imediato a trela para o levar à rua. Não deu mais que dois passos – o cão alçou a perna contra o primeiro candeeiro que encontrou. E como tinha a bexiga cheia! Deu mais alguns passos e repetiu o gesto numa árvore próxima. Desta vez a bexiga já tinha só uns pinguitos. Preparava-se para continuar mas Nanda puxou-o, prometendo-lhe “logo dás um passeio maior” e voltou para trás.
Quando meteu a chave na fechadura da porta do prédio para a abrir sentiu esta ceder  e viu aparecer o rosto simpático de Rui, o outro vizinho do primeiro andar, que vinha a sair. Com a sua gentileza habitual, este segurou a porta para ela entrar, e cumprimentou-a com afabilidade:
- Boa tarde, D. Nanda. Como está a senhora?
- Boa tarde, Rui. Eu estou bem, apenas um pouco cansada – respondeu, como que a justificar a intenção de entrar logo em casa  e não ficar um pouco à conversa como costumava fazer.
- Até logo, D. Nanda. Mas deixe-me só dar-lhe os parabéns… Já sei que é avó…
- Obrigada, Rui. Até logo.
Nanda sentia-se extenuada. Não só pelo trabalho, que fora violento, mas também pela conversa com o Chico, que a deixara incomodada. “A culpa foi minha. Como pude pensar em andar a vender farturas? Só mesmo o desespero por não conseguir arranjar trabalho…”.
Sem mais demora foi tomar banho. Sentia uma necessidade premente de se livrar de todo aquele cheiro a fritos que se lhe tinha entranhado na pele e do qual lhe parecia que não mais se libertaria.
Após alguns momentos debaixo do chuveiro já sentia as forças renovarem-se. Deixou-se ficar, sentindo a água escorrer-lhe pelos cabelos e ao longo do corpo, numa carícia doce que acalmava e retemperava. E começava a pensar que não fora muito simpática com Rui, “aquele pedaço de homem, alto, moreno, com uns incríveis olhos verdes… Claro que os olhos azuis de Jorge eram… especiais, mas estes também não eram de se deitar fora” – riu com gosto, sentindo-se já como nova. E murmurou:
- Que desperdício, Santo Deus!
Dado o adiantado da hora não lhe apetecia ir meter-se na cozinha. Como ainda não tinha almoçado decidiu ir ao restaurante que ficava próximo de sua casa.
Dirigindo um olhar pela sala verificou que se encontrava vaga a mesa onde costumava sentar-se quando ali ia.
Procurando o empregado viu que ele se encontrava no bar, conversando com um cliente. Algo, neste, despertou a sua atenção. Disse para si mesma: "Donde é que eu o conheço?"
Enquanto aguardava que o empregado a viesse atender, lembrou-se do seu filho Luís, pensando que, depois do almoço lhe telefonaria, pois não falara com ele desde o dia anterior.
E, sem saber bem porquê, veio-lhe ao pensamento Alessandro. E interrogou-se a si mesma – “porque será que me lembro tantas vezes dele desde que nasceu o meu neto?”
E uma vez mais lhe acudiu ao espírito - como se o estivesse a reviver - o primeiro encontro, naquele dia tão longínquo em que se conheceram…e ele lhe dera um forte encontrão.
***
“Tentando abstrair-se da forte atracção que aquele rosto exercia sobre ela conseguiu balbuciar:
- Pois… mas essa não é a melhor maneira de passear pelas ruas de Lisboa.
Ao usar a palavra “passear” imaginava estar a falar com um turista, devido ao seu forte sotaque italiano.
- Estás enganada, eu não ando a passear, venho do trabalho, ali na Faculdade de Ciências.
- Ah! Trabalhas na Faculdade de Ciências? – perguntou Nanda, em tom incrédulo.
- Sim, estou a fazer um trabalho de investigação científica para um laboratório de investigação na Itália – Alessandro pareceu não notar o tom algo trocista de Nanda. E continuou:
- Mas tudo isto te posso explicar em pormenor se aceitares jantar comigo…"
***
- O que é que a senhora vai querer hoje? – o empregado interrompera, abruptamente, os seus pensamentos.
Depois de pedir uma “Salada César com Frango ”Nanda reparou que o homem que estivera no bar se levantara e saíra do restaurante. Na rua dirigiu-se a um carro de gama alta, entrou e rapidamente pôs-se em marcha.
Nanda pensou: “Aquela cara não me é estranha…” E, dirigindo-se ao empregado:
- Conhece aquele senhor que acabou de sair do bar?

(1) - ror (redução de horror)
Grande quantidade de coisas ou pessoas (ex.: estava um ror de gente na estação).
(2) - lufa-lufa
Grande pressa ou movimentação. = Azáfama, corre-corre, correria
(3) - abespinhada
Zangada, amuada, irritada, exasperada, amofinada

Maria Caiano Azevedo

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS IV

SEGREDOS – CAPÍTULO IV

"... - Estava a abrir a porta da rua quando o telemóvel tocou. Viu que era o Luís e resolveu não atender. Logo de seguida ouviu uma mensagem em alta voz:
- Mãe! Porque não atendes o telefone? Já te liguei hoje não sei quantas vezes! Preciso falar contigo com a máxima urgência! Liga-me, por favor!
A voz do filho denotava urgência e ansiedade..."

SEGREDOS – CAPÍTULO IV

Depois de ouvir a mensagem de Luis, Nanda ficou uns momentos indecisa, sem saber bem o que havia de fazer. Por um lado, Bela já devia estar no local de encontro; por outro lado o tom de voz do filho “dizia-lhe” que devia ligar-lhe sem demora. E coração de mãe não se engana.
Saindo de casa ao encontro de Bela foi ligando para o filho.
- Até que enfim, mãe! Estou farto de te ligar e tu não me respondes…
- Tens razão, filho, mas pensei que querias saber novidades da conversa com o teu pai, e só há muito pouco tempo é que consegui falar com ele… - desculpou-se Nanda. E acrescentou rapidamente:
- Mas tenho boas notícias para te dar…
- Já dás, mãe – interrompeu-a Luis. Deixa-me primeiro falar…
- Diz lá então o que se passa.
- Tenho uma notícia muito boa para te dar, que penso que te vai deixar muito feliz – informou Luis, alegremente.
- Diz, filho, diz! – Nanda agora estava ansiosa por ouvir.
- Pois então prepara-te: - já és avó!
- O quê? A voz de Nanda denotava enorme espanto. Mas não é ainda muito cedo?
- A isso não te sei responder, mãe. Sabes como é, com o pouco dinheiro que temos a Catarina não ia ao médico e deve ter feito mal as contas…
Ao mesmo tempo que ia falando com o filho Nanda ia caminhando e em breve estava junto de Bela. Fez-lhe sinal para aguardar e continuou conversando.
- Mas diz-me, como está o bebé? E a Catarina? Como correu o parto? Onde é que eles estão agora? – Nanda estava excitadíssima, fazendo perguntas uma atrás da outra, sem esperar resposta.
- Acalma-te, mãe, até pareces eu quando soube que o bebé estava a nascer – riu-se Luis. E respondeu:
- Sim, estão bem…
- Espera! Nem perguntei se é menino ou menina. Afinal, tenho um neto ou uma neta? – interrompeu Nanda, que continuava agitadíssima, querendo saber tudo ao mesmo tempo.
- E se eu te dissesse que eram dois? – Luis denotava na voz uma alegria fora do comum.
- O quê? Tu não me digas que sou bisavó – riu Nanda, com um leve acento de preocupação.
Luis deu uma forte gargalhada.
- Não, mãe, és só avó. E do menino mais lindo do mundo!
-Ah! Assim é melhor… - Nanda respirou aliviada - Dois ao mesmo tempo são mais difíceis de criar, não só pelo trabalho como também pela despesa… E acrescentou:
- Que seja o menino mais lindo do mundo não duvido… não nega as suas origens. Afinal, o pai é um bonito rapaz, e a avó, apesar de velhota, ainda não é de deitar fora – riu alegremente.
Continuaram conversando neste tom até que Nanda olhou para Bela e vendo-lhe um ar resignado, resolveu pôr termo à conversa.
- Olha, meu filho, vamos falar de coisas práticas. O melhor será eu ir para aí amanhã, para ajudar no que for preciso. Hoje já é um bocado tarde e não tenho nada preparado…
- Não penses nisso, mãe, não é preciso. A mãe da Catarina levou-a lá para casa, vai dormir no quarto de solteira dela. Eu fico a dormir no nosso palácio (deu uma curta risada) mas vou lá vê-la todos os dias, depois da jorna. Ao trabalho não posso faltar, sabes como é, quem não trabalha não recebe… e não estamos em condições de dispensar nem um cêntimo…
- Se sei, meu filho, se sei… Desempregada há tanto tempo preciso de contar os tostões… Mas não te dei uma notícia muito importante. Já falei com o teu pai…
- Ah sim? E o que foi que ele disse? – perguntou Luís, ansiosamente.
- Começou com as tretas do costume, mas quando lhe disse que ia ser avô mudou como da água para o vinho. Ficou todo excitado, a querer saber mais do que eu… e acabou dizendo que “para o neto nem que tivesse que ficar ele sem comer”.
- Muito me contas, minha mãe. Então o velhote ficou contente com a ideia de ter um neto? Antes assim; sabes que eu gosto do pai, embora não concorde com a maioria das cenas dele… Mas… concretamente, o que é que ele está disposto a fazer?
- Prometeu arranjar um sítio para vocês morarem, o que é óptimo, e depois ajudar em tudo o que puder, como seja arranjar-te trabalho e coisas assim… E ficou ansioso para vocês virem para cima.
Dando o assunto por terminado despediram-se com as recomendações habituais de “beijos para a Catarina e mil beijos para ti”, agora acrescentados dos carinhos para o netinho.
Desligado o telemóvel voltou-se finalmente para Bela, que aguardava pacientemente. Explicou-lhe tudo o que estava acontecendo, que Bela tinha mais ou menos depreendido pelo que ouvira.
Concordaram que já era um pouco tarde para a caminhada que tinham combinado, para além de que Nanda teria ainda que fazer alguns telefonemas para avisar que já era avó. Bela riu-se do ar “babado” com que ela pronunciava “avó”. Como boa amiga que era – aliás, as melhores amigas desde que eram quase crianças – congratulou-se com a alegria da recente vovó, dizendo-lhe que combinariam a caminhada para outro dia.
- Amanhã, talvez… - concordaram ambas. E despediram-se.
Encaminhando-se para casa Nanda resolveu parar no café para beber uma água e tentar acalmar-se antes de fazer os telefonemas a dar a boa nova.
Rememorando a conversa com o filho pôs-se a imaginar a felicidade que ele estaria a sentir por ser pai. Provavelmente a mesma que ela própria sentira quando nascera o seu primeiro filho, Miguel. O pensamento recuou quase trinta anos. E reviveu a cena…
***
“Caminhava distraidamente pela rua, com a descontracção própria dos seus 17 anos, muito próximo dos 18.
Ia encontrar-se com a sua melhor amiga, Bela, que fora à universidade colher informações acerca dos cursos que ambas pensavam ir frequentar no próximo ano, agora que estavam prestes a terminar o 12º. Ano. Depois iriam almoçar juntas para combinar os pormenores da festa de anos de Nanda, que completaria os 18 anos dentro de 3 meses.
Numa rua muito próxima da cidade universitária, ao dobrar a esquina, Nanda sentiu um forte encontrão que a fez voltar-se, furiosa, pronta a interpelar severamente a pessoa que assim a tinha “abalroado”.
À sua frente estava um jovem aparentando vinte e poucos anos que, com um ar compungido, murmurava numa voz doce e ao mesmo tempo lastimosa:
- “Scusa! Mi dispiace! …”
Nanda levantou a cabeça para ver o rosto de quem pronunciava tais palavras que, apesar de serem em italiano, ela percebeu perfeitamente.
O jovem era bastante mais alto do que ela e, logicamente, deveria ser italiano. A sua fúria inicial quase desaparecera ao ouvir aquela voz tão doce, desvanecendo-se por completo ao observar aqueles olhos de um azul tão profundo como ela nunca tinha visto.
O estranho parara no passeio observando-a atentamente.
- Poderásperdonarmi”? – perguntou.  E, continuando com um forte sotaque italiano:
- A culpa foi toda minha, eu sei, e a única justificação que tenho é a grande preocupação que ocupa ‘la mia mente’. Eu vinha completamente distraído com tantas dúvidas ‘nella mia testaque nem sabia por onde vinha…
Tudo isto foi dito com palavras portuguesas e italianas à mistura. Nanda estava emudecida. Ela, que habitualmente tinha a resposta na ponta da língua, não conseguia articular uma só palavra. Nada lhe ocorria…”
***
- Desculpe, senhora, mas deseja mais alguma coisa? Era a voz do empregado, trazendo-a à realidade.
- Não, muito obrigada, não preciso de mais nada. Quero apenas pagar.

E terminou o pensamento em que estivera embrenhada:
“Ai, Alessandro Santoro

Ao chegar ao prédio onde morava Nanda meteu a chave à porta e, no patamar, encontrou o seu vizinho do andar de cima, Jorge, que a cumprimentou com aquele ar respeitoso que usa para com todas as pessoas, especialmente as senhoras.
- Boa tarde, Dona Nanda, como vai a senhora?
- Eu estou muito bem, obrigada, Jorge. E muito feliz, porque soube há pouco que já sou avó.
- Avó? Mas não é possível! A senhora tão jovem já tem netos? Foi mãe aos 10 anos… é isso? – Jorge adoptara um ar brincalhão mas ao mesmo tempo admirado.
- Não, não foi aos 10 anos – riu Nanda. Fui mãe aos 18 anos… uma criança, diga-se em abono da verdade.
- Seja como for, a senhora não tem aspecto de avó. Parece irmã dos seus filhos… - Jorge falava com sinceridade.
- São os seus lindos olhos, Jorge, sempre gentil…
Depois de mais uma pequena troca de piropos, despediram-se. Jorge ia passar pelo coro, onde cantava como tenor, para saber quando seria o próximo ensaio. De lá seguiria para o bar onde trabalhava.
Nanda subiu os degraus até ao primeiro andar onde morava, abriu a porta de casa e entrou. Lá dentro, sozinha, esboçou um sorriso e murmurou:
“Ai este Jorge, sempre tão gentil e simpático! E depois… aqueles olhos azuis… dão-me volta à cabeça! Como diz a Bela, parafraseando não sei quem… - Que pedaço de mau caminho!
Mas…para o que lhe havia de dar… Se não fosse aquele ‘pequeno defeito’ eu até era capaz de dar umas voltinhas com ele no carrocel! Noutras circunstâncias não me escapava – continuou o seu raciocínio, bem-humorada.
Que desperdício, santo Deus!” – e riu baixinho. 

Maria Caiano Azevedo