domingo, 24 de julho de 2011

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE



A FEBRE E A FOTO DO TOMÁS

A FEBRE

Aqui só os homens nativos trabalham na casa dos brancos. As mulheres autóctones permanecem nas senzalas, tratam dos filhos e cultivam a machamba cujos produtos vão vender ao mercado.
Os nossos criados são, portanto, autótones, conhecidos por mainatos.
Embora, em rigor, mainato seja a pessoa que trata das roupas, no nosso caso eles tratam também da limpeza dos quartos e, por vezes, se não têm mais o que fazer, brincam com as crianças.
Cada casal tem o seu próprio mainato pago do seu bolso. Como vivem aqui cinco casais juntam-se aqui cinco mainatos.
Já que têm hora de entrada ao serviço e hora de saída, e a maior parte dos dias acabam o serviço antes da hora de sair, é vê-los todos felizes a brincar com as crianças.
O meu mainato chama-se Tomás; adora o meu filho, que conheceu com três mesitos, e o bebé tem verdadeira paixão pelo “Tmá”, que ele aprendeu rapidamente a chamar pelo nome (mais ou menos…).
A maior alegria que posso dar ao Tomás é deixá-lo cuidar do bebé. Às vezes faço-lhe a vontade, sob a minha supervisão. Lembro-me do dia em que consenti que ele desse a papa ao bebé. Ele já me tinha pedido inúmeras vezes para o fazer, até que um dia decidi experimentar.
O Tomás quase chorava de alegria!
Senti uma espécie de ciúmes pela forma como ele deu a papa ao bebé, que irradiava felicidade por ter ali tão perto o seu querido “Tmá”.
A verdade é que os negros têm pelas crianças, especialmente se são pequeninas, um carinho tão grande que é algo raro e lindo de se ver.

Os mainatos vêm para o trabalho de bicicleta, pois as povoações onde moram são um pouco distantes.
De manhã dá gosto vê-los chegar, de calça preta e camisa branca, impecavelmente limpa e passada a ferro. E de sapatos pretos!
Mas antes de começarem a trabalhar vão trocar essa roupa por outra. Aparecem então com uns calções rotos e camisas esfarrapadas, embora limpas.
A minha amiga Natércia passa tempos infinitos a explicar ao seu mainato que não deve passar a ferro alguma peça de roupa que esteja rota ou descosida. Ele diz sempre que sim, mas na prática parece não entender as explicações pois frequentemente ela encontra, no tabuleiro para guardar, roupa já passada a ferro que precisa ser cosida.
Há dias ela estava a lastimar-se dizendo que já não sabia como havia de lhe explicar que “roupa rota não se passa a ferro sem ser cosida”, porque ele não compreendia. Foi aí que o marido da Natércia disse:
- Tu não entendes que a noção de roto para ti é muito diferente do que é para ele?
Era exactamente aí que estava o problema. Para ele, roto devia ser “em farrapos” 

O Tomás é um trabalhador impecável. Para além da limpeza do quarto, cujo chão é lavado todos os dias já que é de tijoleira, lava e passa a ferro muito bem. Tem apenas um defeito: à segunda feira quase não trabalha, está de ressaca.
Eu faço-me desentendida, e pergunto-lhe o que tem.
- Está muito doente, senhora.
- Sim, mas o que é que você tem?
- Tem febre no corpo todo.
Decido abrir o jogo, e digo-lhe que o que ele sente é motivado por ter bebido demais no dia anterior. Concorda. Então eu sugiro:
- O Tomás vai passar a beber ao sábado; no domingo cura a febre, e na segunda feira já está bom.
- Não pode, senhora – responde-me.
- Não pode porquê?
- Não vai beber sozinho… e no sábado não tem amigo para beber. Está todo no trabalho dele, só não trabalha no domingo, que é quando nós bebe…

Se os amigos do Tomás não trabalhassem ao sábado, ele não teria febre no corpo todo à segunda feira.
Ora aqui está um inconveniente de alguns trabalhadores não terem “semana inglesa”.


A FOTO

Há dias tive uma ideia luminosa.
Já que o Tomás gosta tanto do bebé vou tirar uma foto aos dois. Ofereço-lhe uma cópia, com o que, por certo, vai ficar muito feliz. Para o meu bebé será, mais tarde, uma linda recordação.
Escolhi o local, entre umas árvores que me pareceram bonitas, e aí vamos nós: o Tomás, que vestiu a camisa branca com que vem para o trabalho, com o bebé ao colo, eu de máquina em punho.
O Tomás, apesar da sua camisa branca, conservava os calções de trabalho, todos esfarrapados nas pernas. Foquei de modo a não apanhar a parte rota dos calções.


Como estamos nos anos 60 não há ainda máquinas digitais. Vamos ter que esperar muitos anos até que elas apareçam.
Assim, tenho que acabar de gastar o rolo e depois levá-lo ao fotógrafo para revelar e fazer as fotos.
Finalmente, as fotos ficaram prontas.
Peguei na que se destinava ao Tomás, chamei-o, e entreguei-lha.
Ele segurou-a entre os dedos, olhou-a longamente, e, com lágrimas nos olhos, disse-me:
- Muito obrigado, senhora. Este retrato vai andar sempre comigo. Aqui, junto do meu coração. - E apontou para o bolso da camisa rasgada.
Voltou a mirar a foto, enlevado.
O mainato da Natércia pôs-se atrás dele e, espreitando por cima do ombro, com inveja disse, despeitado:
- Ora, senhora cortou pernas…
O Tomás olhou para ele muito sério, e respondeu:
- Ainda bem que senhora cortou pernas porque naquele dia eu estava sem sapato!

É esta singeleza, esta ingenuidade sem mácula, que me faz adorar viver aqui.
Que importância têm umas pernas cortadas comparadas com uns pés sem sapato???

domingo, 10 de julho de 2011

GUARDADO NO BAÚ

ACONTECEU HÁ 22 ANOS


Era sexta feira, 11 de Agosto de 1989, o terceiro dia de marcha de cinco dias, através dos 3.000 Km2 do Parque Florestal de Roosevelt.
Mary O’Leary tremia de frio enquanto retirava a última estaca da sua tenda redonda. Na pequena clareira da montanha o céu apresentava-se fechado, cinzento, e a temperatura não ultrapassava os 4º C.
Mary, de 23 anos, finalista universitária, sempre amara a Natureza, mas só recentemente começara a fazer estas marchas, de mochila às costas. Aquela seria a sua caminhada mais longa até àquela data.
Enquanto as nuvens, ameaçando trovoada, se acumulavam no céu, Mary prendeu as correias da grande mochila de aros de metal e começou a subir a trilha solitária.
Por volta das 11 H da manhã chegou a um prado verdejante, bem alto na montanha Middle Bald. Deixou escorregar a pesada mochila e encostou-se a um penedo, a descansar.
Vestira um fato de treino grosso por cima dos calções e da blusa, e tinha esperança de que o frio que se fazia sentir, passasse. No entanto, o ar estava cada vez mais frio e o vento mais agreste. Quando o primeiro trovão ribombou à distância, levantou-se.
- É melhor pôr-me a caminho – pensou. Não quero ser apanhada pela tempestade.
Escalou rapidamente a distância que a separava do pico da montanha, e ficou ali a admirar a paisagem. Reparou na crista que se estendia mais abaixo, correndo para sul, recortada pelas árvores. Pareceu-lhe que faria uma descida mais rápida se saísse da trilha principal, e cortasse através da crista em direcção a um pico próximo. Ia já a descer quando caíram as primeiras gotas geladas. Fez uma pausa e vestiu o impermeável vermelho. Quando chegou às árvores chuviscava regularmente.
Após o primeiro relâmpago contou 5 segundos antes do trovão: a tempestade estava ainda a uma milha de distância.
- O melhor é continuar a andar enquanto puder – pensou.
Em breve, contudo, a tempestade desabou, com o ribombar ensurdecedor do trovão. Correu a abrigar-se debaixo das árvores, mas a chuva e o granizo atingiam-na na mesma.
A chuva continuou durante uma hora, tendo parado por volta da 1H da tarde. Quando o sol voltou, Mary abandonou a protecção das árvores gotejantes.
Estava a olhar para baixo, para ajustar uma correia ao peito, quando um raio atravessou o céu como uma flecha, em direcção à estrutura metálica da mochila. No momento seguinte o mundo à sua volta explodiu numa luz forte e paralisante.
O sulco vibrante do raio penetrou no corpo de Mary com um ruído ensurdecedor, levantando-a do solo. Os músculos contraíram-se-lhe violentamente e a electricidade provocou-lhe espasmos nos vasos sanguíneos, cortando-lhe a circulação nas extremidades. O cabelo pôs-se-lhe em pé.
Quando a descarga lhe abanou as pernas, crestando-lhe os nervos e os músculos, o cheiro a carne queimada invadiu-lhe as narinas e ela ficou ofuscada pela incandescência.
Por fim, o choque parou, e Mary caiu por terra. Sentia um formigueiro na cabeça e no tronco, mas abaixo do peito não tinha qualquer sensação. Os seus lábios soltaram um suspiro rouco e quase imperceptível: Socorro!
Mary sabia o que devia ter acontecido. O raio fora uma surpresa total, que partira de uma nuvem invisível a diversos quilómetros de distância, antes de descrever um arco desde o céu aberto em direcção a ela. Convencida de que estava a morrer Mary começou a chorar.
- Oh; meu Deus, não me abandones, por favor!
As palavras tiveram um efeito tranquilizante. No espaço de minutos a zoada passou e ela levantou lentamente a cabeça.
- Ainda devo estar viva – pensou, aturdida e pouco convencida.
Rolou sobre o lado direito e conseguiu desembaraçar os braços da mochila. No entanto não conseguia mexer as pernas. Uma imagem terrível atravessou-lhe a mente: E se dentro das botas apenas estivessem pedaços queimados dos seus pés? Ou cinzas?
Arrepiada, reprimiu as lágrimas de medo: Que faço agora?
Gravemente ferida e fora da trilha normal, Mary sabia que morreria, a menos que conseguisse ajuda. As suas hipóteses de sobrevivência, nem que fosse a uma só noite gelada nas montanhas, eram mínimas. Chovia de novo e soprava um vento frio. Apesar do seu estado debilitado, precisava chegar a um caminho onde pudesse passar um guarda florestal ou um lenhador.
Primeiro que tudo, vou precisar de água – raciocinou. Encontrou o cantil e meteu-o no fundo do bolso do blusão. E comida? Decidiu não levar pois sabia que, sem poder usar as pernas, pouco podia transportar.
Mary lembrava-se de que, ladeira abaixo e para sul, havia uma trilha para jipes. Incapaz de se manter de pé, começou a rastejar lentamente sobre o peito, arrastando as pernas inertes e tentando evitar as rochas afiadas. Todavia, em breve teve uma alarmante sensação de frio, e, ao olhar para trás, reparou que raspara com a perna esquerda numa rocha aguçada. Não devia ter esta sensação de frio – pensou. Devia doer. Que me terá acontecido? Primeiro tocou suavemente na perna e em seguida com força. Estava completamente entorpecida.
Decidiu experimentar uma técnica diferente. Pôs as pernas para a frente e deslizou avançando primeiro os pés, de modo a tactear o terreno onde iam passar as pernas inertes. Não tardou a deparar-se com um obstáculo aparentemente intransponível – uma árvore derrubada, com 20 metros de comprimento. Contorná-la demoraria uma eternidade, e o tronco tinha 1 metro de diâmetro. Com as pernas neste estado nunca vou conseguir passar – pensou, desanimada.
Mas, embora hesitasse, parecia que no seu íntimo uma voz a incitava: Não pares, vais ver que consegues! Respirou fundo e ergueu e empurrou os pés em direcção à superfície lateral do tronco. Depois, com as palmas das mãos assentes no chão, tentou erguer-se sobre os pés, arqueando o dorso de modo a impulsionar as pernas e as ancas para a frente, passando por cima do tronco.
Vá lá – encorajou-se a si mesma. Estás quase a conseguir. Soergueu o dorso para diante, agarrando-se com força à casca rugosa. Os músculos do abdómen contraíram-se de dor, mas conseguiu ficar em cima do tronco. Depois deslizou para o lado oposto.
Eram agora 2H da tarde. Só mais um bocadinho – pensou, esforçando-se mais. Tinha as mãos esfoladas e feridas, e os arrepios haviam-se transformado num tremor constante. De súbito veio-lhe à ideia uma recordação da infância: “lá estava ela, com a hipersensibilidade dos seus 12 anos, desfeita em lágrimas, a dizer ao treinador de basquetebol que ia desistir por se ter sentido humilhada com os comentários sarcásticos de uma colega”. Tudo bem, Mary – respondeu-lhe ele, calmamente. Mas, se desistires agora, nunca mais deixarás de te considerar uma falhada.
Mary permaneceu na equipa e jamais esqueceu as palavras do treinador.
Vamos lá, mulher – quase gritou. Toca a andar!
Cem metros adiante avistou uma zona semeada de pedras. Quando se aproximou apercebeu-se de que se tratava de uma estrada de terra. Tentou rastejar mais depressa, receosa de que algum veículo pudesse passar sem a ver. Pareceu-lhe que os últimos 50 mts demoraram anos a percorrer. Não vou conseguir. É muito longe. Contudo, ignorando as dores, continuou a arrastar as pernas para a frente, uma de cada vez.
Quando atingiu a estrada, estava exausta e não conseguia controlar as tremuras. Deixou-se cair ao lado de uma rocha, fechou os olhos, e ergueu o rosto para a chuva fria. Fiz tudo o que podia – pensou. Agora só depende de Deus.
Um pouco mais à frente, Scott Anderson e Gary Long, ambos trabalhadores de uma serração, tinham feito uma batida ao terreno em busca de uma madeira invulgar. Quando a violenta tempestade se desencadeou refugiaram-se na camioneta de Scott, e aí esperaram que ela passasse. Por volta das 3H da tarde regressaram ao local de trabalho. Mas, como o céu voltou a escurecer, guardaram as ferramentas e meteram-se à estrada, de regresso a casa. Gary conduzia uma carrinha e Scott seguia-o ao volante da camioneta.
Ambos se aperceberam da silhueta enlameada e encolhida, debaixo de chuva, à beira da estrada. Gary saltou da carrinha e correu para ela, seguido de perto por Scott. Ajudem-me, por favor – soluçou Mary. Fui atingida por um raio!
Vamos levá-la até à estrada principal – disse Scott. Precisamos de uma ambulância.
Mary estava semiconsciente e gemeu quando eles a estenderam no banco da camioneta .
Enquanto percorriam a estrada esburacada Scott, preocupado, olhava de vez em quando para a rapariga, pálida e a tremer. Não está nada bem – pensou. Tenho de a manter consciente até encontrarmos auxílio. Perguntou-lhe então o nome, de onde era, tudo que a obrigasse a dar uma resposta. Quando ela não respondia Scott insistia, gentilmente: Mary, fale comigo! De cada vez que ela respondia sentia-se aliviado.
A meio do caminho cruzaram-se com um guarda florestal, que pediu ajuda pelo rádio. Poucos minutos depois conduzia-a rapidamente até ao helicóptero que a levaria ao hospital.
Quando, por volta das 5H da tarde Mary chegou ao hospital, a sua temperatura era inferior a 35,5º C, tremia convulsivamente, e tinha a tensão arterial demasiado baixa. Tinha queimaduras nas costas e na extremidade do pé esquerdo, e também queimaduras e contusões nos quadris. Quanto às pernas estavam violáceas e inchadas.
Na sala de traumatismos o Dr. Daniel Turner ficou surpreendido ao saber que Mary rastejara mais de 1,5 Km em terreno montanhoso, para procurar ajuda. Parecia-lhe impossível que ela ainda estivesse viva. Uma simples descarga de um raio pode ter para cima de 100 milhões de vóltios e alcançar uma temperatura de 28.000 º C.
O Dr. Turner deu-lhe uma injecção intravenosa e mandou que a cobrissem com cobertores aquecidos, após o que começou a tratar as queimaduras. O facto de ela permanecer consciente e lúcida era animador, mas quando Mary lhe perguntou se voltaria a andar, não lhe foi fácil responder: Vamos ter de esperar e ver.
Sensacionalmente, nos dias seguintes passados no hospital, a sua circulação sanguínea normalizou-se na parte inferior do corpo, e ela voltou a conseguir mover e sentir as pernas. Escassos cinco dias após a terrível experiência, Mary O’Leary conseguiu pôr-se de pé e caminhar.
É um milagre! – diz o seu médico assistente, o Dr. James Bush. Mas a Mary é uma lutadora.
Embora as cicatrizes das costas, dos quadris e do pé nunca vão permitir que Mary se esqueça da sua experiência penosa, ela não tenciona desistir das caminhadas, e está mais determinada do que nunca a fazer frente aos desafios da vida. Agora tenho muito medo dos raios – confessa ela – mas não posso permitir que o medo me domine. Aprendi que sou muito mais forte do que pensava. Não me dou facilmente por vencida.

domingo, 3 de julho de 2011

PASSEIO A ITÁLIA

Como estamos atravessando uma grave crise económica,  as férias, este ano, terão que ser gozadas em território nacional.

Vou, por isso, recordar um passeio que dei a Itália. Convido-vos para me acompanharem, esperando que apreciem a viagem.

Se quiser ver em «tela cheia», depois de iniciar clic no quadradinho à direita de "Menu", no canto inferior, à direita. LIGUE O SOM.

domingo, 26 de junho de 2011

O QUE É UM MENINO?/O QUE É UMA MENINA?

O QUE É UM MENINO?

Os meninos vêm em tamanhos, pesos e cores variados.
Eles estão em toda parte: em cima, em baixo, lá dentro, lá fora, pulando, correndo…
As mães naturalmente os adoram, as meninas os detestam, os irmãos mais velhos também, os estranhos os ignoram e o céu os protege

Um menino é a verdade de cara suja, a sabedoria de cabelos desgrenhados e a esperança com uma rã no bolso.
Os meninos tem um apetite de cavalo, a digestão de um avestruz, a energia de uma bomba atómica, a curiosidade de um gato, os pulmões de um político, a imaginação de Julio Verne, e quando fazem algo, têm cinco polegares em cada mão.
Adoram: sorvetes, canivetes, serras, novidades, histórias em quadradrinhos, o filho do vizinho, o campo, a água (menos a do banho), os animais, o pai, comboios, domingos de manhã e carros de bombeiros.

Detestam: visitas, rezas, escola, livros sem figura, salas de música, gravatas, o barbeiro, meninas, casacos, adultos e a hora de dormir.

Não há quem se levante tão cedo, nem quem se sente à mesa tão tarde.

Não há ninguém como eles para meter num só bolso: um canivete enferrujado, uma fruta pela metade, um pedaço de cordão, um saco de pano vazio, dois bombons, seis moedas, um pedaço de algo desconhecido, e um autêntico anel supersónico, de plástico e com um compartimento secreto.

Um menino é uma criatura mágica.
Você pode fechar-lhe a porta do armário, mas não a do seu coração; pode expulsá-lo do escritório, mas não da sua mente.

Todo o poder do mundo a ele se rende.

Ele é nosso amo e chefe, ele, que é só um monte de ruídos com a cara suja.

Porém, quando você chega a casa à noite, com as suas esperanças e ambições destruídas, ele pode tudo remediar, com seu sorridente...
- Olá Papá!
- Olá Mamã!



O QUE É UMA MENINA?

Desde o início sabemos: As meninas nascem cheias de fitas, laços e mimos. Ninguém se engana com elas.

Com poucos dias de vida adere à mãe e começa a manobrá-la. Entre os 2 e os 3 anos faz gato-sapato do pai.

Dos 4 aos 5 em diante aciona: padrinhos, tios, avós e amigos da casa, com a maior naturalidade.

Enquanto for menina (e daí pela vida fora) jurará de pés juntos que não pretende manobrar ninguém. E é verdade.

A partir dos 3 anos está habilitada a tomar conta de uma boneca como uma pequena mãezinha.

Aos 5 fará comidinhas e agitará vassouras duas vezes maiores do que ela.

Aos 6 pode atuar como ama de irmãos mais pequenos e aos 7 estará dirigindo a casa, estrelando ovos para o pai, ralhando com as empregadas.


Para os meninos, as meninas são trambolhos, quando se metem nos “brinquedos de homens”; mas quando não há companheiros são parceiras ideais na maquinação de travessuras, nas grandes expedições de territórios, nos encargos de ordenanças.

Como  as rolinhas, as meninas formam bandos que estão sempre juntos.



A despeito das predileções, fofocas e discriminações que agitam essas pequenas colméias, elas não se desmancham nunca, pois são feitas para isso mesmo.

Um dia a menina vai vestir o vestido de baile da mamã, calçar os seus sapatos de salto alto, pintar o rosto de rouge e batom, perfumar-se com o frasco inteiro de Chanel nº 5.

Outro dia a menina desfará todo o guarda-roupa para polvilhar de talco os lençóis, as colchas, as fronhas, os guardanapos, as toalhas de banho, de rosto, de mesa e, por, fim também a irmãzinha mais pequena.

Nessa última operação o talco poderá vir a ser eventualmente substituído por creme hidratante, mel de abelhas e até mesmo por molho de macarronada.

As meninas gostam de vestidos e sapatos novos. Principalmente de sapatos. Adoram colares, anéis e pulseiras, dos quais se livram logo que a mãe não esteja olhando.

Entram em salões de festas como princesas caminhando para o altar, e quinze minutos depois transformam-se miraculosamente em gatas-borralheiras.

Nas casas onde há meninas, as mães vestem-se e cuidam-se melhor, a fim de não serem passadas para trás.

Os meninos não se comportam melhor (pelo contrário), mas aprendem a dar flores de presente.

Os pais se tornam mais meigos e gentis, para não perderem a sua posição de principe e a sua imagem de rei.

Uma menina é uma flor, uma mensagem de pureza, uma beleza gratuita e permanente, um gesto sempre inesperado de bondade e de carinho.

Uma menina nunca dará a ninguém a dureza necessária à vida, mas estará sempre irradiando uma advertência de encanto, de alegria de que – apesar de tudo – vale a pena.

Nos casos de catástrofe, perseguição, fúria, violência e morte, basta a presença de uma menina e seu sorriso ou seu pranto, para nos restituir aceitação, humildade, o senso íntimo da necessidade e da importância de viver, a crença na permanência e na força do amor.

Autor: Yan Marten

domingo, 19 de junho de 2011

OS MÁRMORES DA AMAN


Para quem já visitou e se impressionou com a suntuosidade da entrada da Academia...


AMAN - Academia Militar das Agulhas Negras

No início de 1943, tempo de II Guerra Mundial, a construção da AMAN havia parado por falta de verbas; funcionava no Rio a velha Escola Militar de Realengo, instituição que formou muitos militares conhecidos no século passado, como Castello Branco e os outros generais presidentes.

Naquela época uma das diversões do cadete era montar nos dias de folga. Oito amigos nos fins de semana costumavam cavalgar. Oito companheiros inseparáveis saíam sempre juntos, um ajudava ao outro nos estudos, nas dificuldades. Irmãos por escolha, por opção. Em algumas noites eles costumavam sorrateiramente cavalgar até uma boate de mulheres que havia em Botafogo. Naquela época prostitutas namoravam.

Os oitos cadetes vestiam-se apenas com pelerine (capa militar azul marinho sem mangas), botas e o quepe à Príncipe Danilo. O mulherio se assanhava quando eles apareciam. Havia um detalhe: por baixo das pelerines eles nada vestiam, todos nus; faziam farras tremendas no cabaré de Botafogo. Os cadetes cavalgavam nus, dançavam nus, apenas cobertos pela pelerine. Certamente iam nus para os quartos das prostitutas apaixonadas. Era alto risco, se fossem apanhados pela Patrulha Militar pegariam cadeia ou até expulsão.

Certa noite depois de dançar com as mulheres, depois de se deitarem com as "namoradas", os oito amigos montaram nos cavalos escondidos no mato e, com um grito de comando, dispararam pela estrada de barro retornando a Realengo. Quando passavam por uma rua, por volta das 23 horas, viram numa esquina escura quatro homens assaltando, batendo num senhor que pedia clemência, que não lhe matassem.
Os cadetes, os oitos cavaleiros, não precisaram combinar, puxaram as rédeas e os cavalos dirigiram-se para o local do assalto; com destemor e muita garra desmontaram dos cavalos ainda a galope e agarraram os bandidos. Dois socorreram o cidadão que já devia ter mais de 50 anos, os outros prenderam os marginais. Entregaram os facínoras numa delegacia próxima, e o velho ferido foi deixado num hospital.

Na segunda-feira durante a formatura matinal, o comandante da Escola pediu à tropa para que os cadetes que tinham salvado a vida de um cidadão se apresentassem, porque o filho desse senhor estava ali para agradecer. Os oito amigos não se revelaram, com receio de pegar cadeia. Só depois do comandante muito insistir, e fazer a promessa de não haver punição, os cadetes se apresentaram.

Foram levados à presença do velho no hospital. Era nada mais nada menos que Henrique Lage, um dos homens mais ricos do Brasil, dono de empresas, inclusive o Loyde Nacional, companhia de navios que fazia a costa brasileira. O rico senhor agradeceu aos cadetes e perguntou qual a precisão de cada um; que eles dissessem o que queriam, casa ou carro, ou o que fosse.
Os oito amigos pediram para pensar. Reuniram-se, discutiram muito. No outro dia foram ao ricaço. Nada queriam para eles, pediam que ele ajudasse a terminar a construção da Academia Militar das Agulhas Negras que estava paralisada.
O velho deu a ordem, mandou buscar o mais fino mármore de Carrara na Itália para o revestimento, mandou comprar todo o piso da Academia em granito. Até hoje perdura o luxo e a suntuosidade daquele belíssimo conjunto arquitetônico. A AMAN é considerada a mais bonita Academia Militar do mundo, graças à digna história dos oito cadetes, hoje anônimos militares reformados de nomes esquecidos. Mas o belo gesto, a coragem, o destemor e o amor à sua Escola tornaram-se lenda, sempre lembrada nas reuniões militares.
Autoria
Carlos Roberto Peixoto Lima
Abril – 02 - 2010

domingo, 12 de junho de 2011

CENAS DA VIDA REAL

A CARROÇA E O BURRO

 

O sr. Simões passava lá por casa com frequência. Amigo de muitos anos aparecia sempre que lhe apetecia, sem a mínima cerimónia.
Eu era uma jovem adolescente mas recordo-me muito bem do ar feliz com que, quase todos os dias, ia cumprimentar a minha família e contar a “última anedota”.
Por vezes essas historietas não eram, propriamente, de salão… Nesses casos, segurando o papá por um braço, levava-o para um canto da sala, onde falavam em voz baixa. Em breve se ouviam sonoras gargalhadas. Já sabíamos que essas eram das “cabeludas”, impróprias para os nossos ouvidos. (quando eu era uma jovenzinha as coisas eram diferentes do que são hoje…)

Para além de ser uma pessoa muito alegre, sempre com um sorriso nos lábios, o sr. Simões gostava muito de animais, o que, aos nossos olhos, o tornava ainda mais atraente.

Desde que tenho recordações de vida, sempre existiram cães e gatos lá em casa. Lembro-me bem de uma gatinha que me ofereceram quando eu tinha seis ou sete anos. Era cinzenta e tinha as pontas das orelhinhas brancas de neve., assim como o peito. Quando a recebi fiquei encantada, e disse:
- Olhe, mamã, ela tem o peitinho branco como as freiras.
Eu tinha visto recentemente algumas freiras com o hábito cinzento e um “escapulário” branco.
Os meus pais acharam tanta graça à minha inocente saída que muitos anos depois ainda falavam da “gata que tinha peitinho de freira”.

Voltemos ao senhor Simões.
Era um homem casado, feliz no casamento; mas uma nuvem ensombrava a sua felicidade: o casal nunca tinha conseguido ter filhos.
Tinham um gato que adoravam, o Fifi. Penso que para esse animal transferiram todo o amor que poderiam ter dado aos filhos, se os tivessem.
O Fifi já tinha alguns anos, oito ou dez, e todos os anos, no dia do seu aniversário, o sr. Simões cumpria um ritual:
Comprava um bolo tipo queque ou bolo-de-arroz onde colocava uma vela. A mulher segurava o bolo com a vela acesa em frente ao focinho do gato; o sr. Simões segurava o gato com o braço e, de repente, apertava-lhe o rabo. Imediatamente o Fifi fazia Ffffffffffff, e apagava a vela. Então os dois, o sr. Simões e a mulher, cantavam os parabéns, e comiam o bolo, repartido pelos três.

Esta história sempre nos pareceu inverosímil, mas a verdade é que todos os anos, no mesmo dia – do aniversário do gato – o sr. Simões nos dizia que ia comprar o bolo e a vela para festejar os anos do Fifi.

O sr. Simões era um homem de negócios, o que o levava a ter que se ausentar uma vez por outra. Deslocava-se para outras cidades, nunca se demorava muitos dias, e regressava sempre com histórias novas para contar.
Num desses regressos, passando lá por casa, ostentava um ar de quem não acreditava no que lhe acontecera. E contou o motivo da sua incredulidade:
- Vocês nem vão acreditar na conversa da minha mulher.

Rodeamo-lo, todos na expectativa do que iria dali sair.

- Vocês sabem que eu farto-me de convidar a minha mulher para ir comigo quando vou à capital; e sabem também que ela nunca aceitou. Pois agora, quando regressei, para lhe fazer pirraça, contei-lhe que fui jantar com uns amigos que estavam acompanhados das respectivas esposas, e em seguida fomos ao teatro, ver uma peça esplêndida.
Ela ouviu-me em silêncio, sem manifestar o menor desgosto por não me ter acompanhado.
Como eu vi que dali não haveria qualquer reacção resolvi mudar de táctica, fazer com que ela lamentasse não ter ido comigo.
- Tu nem sabes o desgosto que me dás por nunca quereres ir comigo. Está certo que nunca vou directo a Lisboa. Tenho sempre que fazer aquele circuito de visitas que tu detestas… mas podias muito bem ir depois ter comigo à capital. Mas não! Preferes ficar sempre aqui encafuada. És mesmo uma carroça!

Sabem o que ela me respondeu?

- E como é que tu querias que a carroça fosse ter contigo se o burro não estava cá???

O sr. Simões não tinha achado graça nenhuma. Saíra porta fora, amuado, e ainda não tinha adquirido o seu habitual ar prazenteiro.

Quisemos mostrar solidariedade, pondo um ar contrito.
Contivemo-nos enquanto pudemos, mas em breve soou uma estrondosa gargalhada.

domingo, 5 de junho de 2011

CARTA DO ZÉ AGRICULTOR PARA O LUÍS DA CIDADE


Há uns anos (dois ou três) recebi dum amigo brasileiro um texto que achei deveras interessante, e por isso guardei-o.
Trata-se de uma carta escrita por “um” Zé ao seu amigo Luis.
Embora não sendo atuaL… penso que não perdeu atualidade.
Ora vejam:

Prezado Luís, quanto tempo.

Eu sou o Zé, teu colega de ginásio noturno, que chegava atrasado, porque o transporte escolar do sítio sempre atrasava, lembra né? O Zé do sapato sujo? Tinha professor e colega que nunca entenderam que eu tinha de andar a pé mais de meia légua para pegar o caminhão por isso o sapato sujava.

Se não lembrou ainda eu te ajudo. Lembra do Zé Cochilo... hehehe, era eu. Quando eu descia do caminhão de volta pra casa, já era onze e meia da noite, e com a caminhada até em casa, quando eu ia dormi já era mais de meia-noite. De madrugada o pai precisava de ajuda pra tirar leite das vacas. Por isso eu só vivia com sono. Do Zé Cochilo você lembra, né, Luis?

Pois é. Estou pensando em mudar para viver aí na cidade que nem vocês. Não que seja ruim o sítio, aqui é bom. Muito mato, passarinho, ar puro... Só que acho que estou estragando muito a tua vida e a de teus amigos aí da cidade. Tô vendo todo mundo falar que nós, da agricultura familiar, estamos destruindo o meio ambiente.

Veja só. O sítio de pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que parar de estudar) fica só a uma hora de distância da cidade. Todos os matutos daqui já têm luz em casa, mas eu continuo sem ter porque não se pode fincar os postes por dentro duma tal de APPA que criaram aqui na vizinhança.

Minha água é de um poço que meu avô cavou há muitos anos, uma maravilha, mas um homem do governo veio aqui e falou que tenho que fazer uma outorga da água e pagar uma taxa de uso, porque a água vai se acabar. Se ele falou deve ser verdade, né, Luís?

Pra ajudar com as vacas de leite (o pai se foi, né .) contratei Juca, filho de um vizinho muito pobre aqui do lado. Carteira assinada, salário mínimo, tudo direitinho como o contador mandou. Ele morava aqui com nós num quarto dos fundos de casa. Comia com a gente, que nem da família. Mas vieram umas pessoas aqui, do sindicato e da Delegacia do Trabalho, elas falaram que se o Juca fosse tirar leite das vacas às 5 horas tinha que receber hora extra noturna, e que não podia trabalhar nem sábado nem domingo, mas as vacas daqui não sabem os dias da semana ai não param de fazer leite. Ô, bichos aí da cidade sabem se guiar pelo calendário?

Essas pessoas ainda foram ver o quarto de Juca, e disseram que o beliche tava 2 cm menor do que devia. Nossa! Eu não sei como encumpridar uma cama, só comprando outra, né, Luís? O candeeiro eles disseram que não podia acender no quarto, que tem que ser luz elétrica, que eu tenho que ter um gerador pra ter luz boa no quarto do Juca.
Na Capital também é assim né, Luis? Tua empregada vai pra uma casa boa toda noite, de carro, tranquila. Você não deixa ela morá nas tal favela, ou beira de rio, porque senão te multam ou o homem vai aí mandar você dar casa boa, e um montão de outras coisa. É tudo igual aí né?
Disseram ainda que a comida que a gente fazia e comia juntos tinha que fazer parte do salário dele. Bom Luís, tive que pedir ao Juca pra voltar pra casa, desempregado, mas muito bem protegido pelos sindicatos, pelo fiscais e pelas leis. Mas eu acho que não deu muito certo. Semana passada me disseram que ele foi preso na cidade porque botou um chocolate no bolso no supermercado. Levaram ele pra delegacia, bateram nele e não apareceu nem sindicato nem fiscal do trabalho para acudi-lo.

Depois que o Juca saiu eu e Marina (lembra dela, né? casei) tiramos o leite às 5 e meia, ai eu levo o leite de carroça até a beira da estrada onde o carro da cooperativa pega todo dia, isso se não chover. Se chover, perco o leite e dou aos porcos, ou melhor, eu dava, hoje eu jogo fora.

Os porcos eu não tenho mais, pois veio outro homem e disse que a distância do chiqueiro para o riacho não podia ser só 20 metros. Disse que eu tinha que derrubar tudo e só fazer chiqueiro depois dos 30 metros de distância do rio, e ainda tinha que fazer umas coisas pra proteger o rio, um tal de digestor. Achei que ele tava certo e disse que ia fazer, mas só que eu sozinho ia demorar uns trinta dia pra fazer, mesmo assim ele ainda me multou, e pra poder pagar eu tive que vender os porcos as madeiras e as telhas do chiqueiro, fiquei só com as vacas. O promotor disse que desta vez, por esse crime, ele não ia mandar me prender, mas me obrigou a dar 6 cestas básicas pro orfanato da cidade. Ô Luis, ai quando vocês sujam o rio também pagam multa grande, né?

Agora pela água do meu poço eu até posso pagar, mas tô preocupado com a água do rio. Aqui agora o rio todo deve ser como o rio da capital, todo protegido, com mata ciliar dos dois lados. As vacas agora não podem chegar no rio pra não sujar, nem fazer erosão. Tudo vai ficar limpinho como os rios aí da cidade. A pocilga já acabou, as vacas não podem chegar perto. Só que alguma coisa tá errada, quando vou na capital nem vejo mata ciliar, nem rio limpo. Só vejo água fedida e lixo boiando pra todo lado.

Mas não é o povo da cidade que suja o rio, né, Luís? Quem será? Aqui no mato agora quem sujar tem multa grande, e dá até prisão. Cortar árvore então, Nossa Senhora!. Tinha uma árvore grande ao lado de casa que murchou e tava morrendo, então resolvi derrubá-la para aproveitar a madeira antes dela cair por cima da casa.

Fui no escritório daqui pedir autorização, como não tinha ninguém, fui no Ibama da capital, preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vim fazer um laudo, para ver se depois podia autorizar. Passaram 8 meses e ninguém apareceu pra fazer o tal laudo ai eu vi que o pau ia cair em cima da casa e derrubei. Pronto! No outro dia chegou o fiscal e me multou. Já recebi uma intimação do Promotor porque virei criminoso reincidente. Primeiro foi os porcos, e agora foi o pau. Acho que desta vez vou ficar preso.


Tô preocupado Luis, pois no rádio deu que a nova lei vai dá multa de 500 a 20 mil reais por hectare e por dia. Calculei que se eu for multado eu perco o sítio numa semana. Então é melhor vender, e ir morar onde todo mundo cuida da ecologia. Vou para a cidade, ai tem luz, carro, comida, rio limpo. Olha, não quero fazer nada errado, só falei dessas coisas porque tenho certeza que a lei é pra todos.

Eu vou morar aí com vocês, Luís. Mais fique tranquilo, vou usar o dinheiro da venda do sítio primeiro pra comprar essa tal de geladeira. Aqui no sítio eu tenho que pegar tudo na roça. Primeiro a gente planta, cultiva, limpa e só depois colhe pra levar pra casa. Ai é bom que vocês e só abrir a geladeira que tem tudo. Nem dá trabalho, nem planta, nem cuida de galinha, nem porco, nem vaca é só abri a geladeira que a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem precisá de nós, os criminosos aqui da roça.

Até mais Luis.

Ah, desculpe Luis, não pude mandar a carta com papel reciclado pois não existe por aqui, mas me aguarde até eu vender o sítio.


Esta carta, apenas adaptada por Barbosa Melo, foi escrita por Luciano Pizzatto, engenheiro florestal, especialista em direito sócio ambiental e empresário, diretor de Parques Nacionais e Reservas do IBDF – IBAMA 88 – 89, detentor do primeiro Prémio Nacional de Ecologia

Todos os fatos e situações de multas e exigências são baseados em dados verdadeiros. A sátira não visa atenuar responsabilidades, mas alertar o quanto o tratamento ambiental é desigual e discricionário entre o meio rural e o meio urbano.)

Pâmela Gallas Buche
Tecnóloga Ambiental.


domingo, 29 de maio de 2011

MANTA DE RETALHOS

(Reposição de post publicado em 10.08.08, ligeiramente alterado)

Quando se escreve “ao correr da pena”, como se de uma amena conversa se tratasse, corre-se o risco de usar expressões que podem ser mal interpretadas por algum leitor mais atento.
Vem isto a propósito do comentário que um gentil visitante e comentador fez ao post anterior,

- “Sei que a sua intenção não foi dizer ""todos nós"

pelo facto de eu ter escrito “todos nós”.

Daí que eu tenha alterado este início de conversa, que começava assim:

- Todos nós sabemos que uma manta de retalhos é feita de…

A verdade é que nem TODOS sabem como se faz ; apenas alguns, mais provavelmente algumas… saberão que uma manta de retalhos é confeccionada com pequenos bocados de tecido, unidos aleatoriamente…

Mas deixemos isso para a próxima aula de corte e costura!
Vamos ver o que tem a dizer-nos esta simpática velhinha.

SOU UMA VELHINHA GAITEIRA

Sou uma velhinha gaiteira. E daí?

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Isso incomoda-vos? Lamento!
Preferia que vos agradasse. Mas não posso deixar de dizer que “é para o lado que durmo melhor”.
Esta é uma expressão que usam os meus bisnetos - que, aqui para nós, também me chamam, com ternura, “velhotinha gaiteira” – quando querem significar que não se importam com qualquer coisa..


Gosto de vestir roupas de cores garridas, alegres. E daí?


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A claridade faz bem aos ossos, ajuda a combater a osteoporose. O ideal mesmo é a luz do sol, pelo menos quinze minutos por dia. Mas nos dias sem sol, ou para quem não pode expor-se aos raios solares, a claridade é um bom substituto.
A alegria é indispensável à vida. É a ela que devo a minha longevidade.
Não sabem que existem “clínicas do riso” onde as pessoas com uma certa idade vão, apenas rir, quinze minutos todos os dias? Vejam como elas são felizes!
“A alegria é um raio de luz, que deve permanecer sempre aceso, iluminando todos os nossos actos, servindo de guia a todos que nos rodeiam”
A vida é muito importante para ser levada a sério – dizia Óscar Wilde.

Gosto de passear no parque,

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ouvir o chilrear dos passarinhos. E daí?
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Quem disse que os parques só podem ser usados pelos meninos que jogam à bola ou brincam ao pião?
Ou pelas meninas, carregando as sua bonecas, brincando às mamãs?
Ou pelas criadas, impecáveis nas suas fardas acabadas de engomar, aventalzinho branco bordado, empurrando os carrinhos dos bebés, que vêm tomar ar fresco?

Esperem! Estou a fazer uma grande confusão…isto acontecia há muitos anos! Deixei-me embalar pelas recordações…
Estou aqui sentada há tanto tempo e ainda não ouvi o cantar de um pássaro! Ouço, sim, as buzinas dos carros, que fazem um barulho infernal.
E o ar fresco e perfumado? Não se sente…Há, isso sim, um cheiro horrível do gás que sai dos tubos de escape.
E as crianças, as poucas que por aqui se vêem, estão agarradas àquelas maquinetas que lhes entortam os olhos. Mexem constantemente os dedinhos, mordem os lábios nervosamente, e não se apercebem de nada à sua volta…



Preocupo-me com a saúde. E daí?

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Vou ao médico regularmente. Tomo os medicamentos que ele me receita. Faço os exames que prescreve. Sigo, direitinho, todos os seus conselhos.

Dizem-me os mais jovens:
- Eu vendo saúde! Sou forte! Para quê perder tempo com médicos?

Eu também já fui jovem, mas não pensava assim. Sempre me cuidei. Continuem com essa filosofia, e em 2028 cá estaremos, e então conversamos. Bom, EU sei que vou cá estar. Vocês…não sei! Arrisco-me a falar com os vossos ossos, talvez já feitos em pó.
A juventude de agora não pensa! “Esta juventude um espanto!”

Sou vaidosa. E daí?

Olho-me no espelho e vejo um rosto sorridente. As rugazinhas que o enfeitam sorriem comigo. Foi uma oferta do tempo, por tanto que eu soube sorrir.
Os olhos reflectem ternura. E amor. Muito amor. Todo o amor que dei e recebi ao longo de tantos anos.
O peito não é altivo como antigamente…Foi a amamentar os filhos que ele perdeu a altivez. Como os meus filhos gostavam do leitinho da mamã! Era vê-los crescer, fortes, saudáveis, risonhos!
Não há nada como o leite materno para alimentar os bebés.
Hoje há muitas mulheres que não querem amamentar. Dizem que não querem “estragar” o corpo! Como se um filho pudesse estragar a sua mãe!
São jovens, ainda não sabem que, depois de carregarem um filho no ventre durante nove meses, ele ficará para toda a vida no coração.
E esse, o coração, é que é importante não deixar estragar.

Estou a ficar desmemoriada. E daí?

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A semana passada fui ao cinema ver um filme qualquer. Já nem me lembro do nome…dos artistas muito menos. Sei que são muito conhecidos, famosos, mas não me recordo dos nomes. Mas isso que importa? Daqui por algum tempo ninguém se lembrará, também! Eu apenas me antecipo a esquecê-los.
Sei é que havia um cheiro forte, enjoativo, no ar… Pipocas, era isso!
E aquele ruído de fundo – crr, crr, crr…Imaginem o som de duzentas ou trezentas pessoas – não sei quantas comporta uma sala de cinema - a mastigar pipocas!
E o ronco do vizinho do lado que não apreciava o género de filmes de…
Acção? Suspense? Policial? Sei lá!...
Não me lembro. E daí?

OBS. – Para que não me interpretem mal… entenda-se “gaiteira” por – alegre, foliona, brincalhona (adjectivo) e não «tocadora de gaita» (substantivo).


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domingo, 22 de maio de 2011

FALTA DO POST HABITUAL e PRÉMIO "BLOG DA SEMANA"

Da minha querida amiga Lindalva recebi este selinho.
Não é lindo?
Obrigada, amiga.

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Da querida amiga Ana Martins
recebi este selinho, que muito agradeço, e partilho convosco.
Obrigada, minha amiga. Adorei!

Parabéns Mariazita, ser Vencedora do prémio blog da semana, não é para qualquer um!


O meu presente para si Mariazita, não sou grande coisa a fazer selos, mas faço-os
 com carinho e alegria. Oferecê-los então, é um prazer!

Beijinho,





PRÉMIO BLOG DA SEMANA
É com uma certa emoção que vos comunico que, para minha grande surpresa, a «CASA DA MARIQUINHAS» ganhou o prémio “Blog da Semana”, gentilmente atribuído pelo BLOG DO SUPER WILL

Tal não teria sido possível sem o vosso apoio, que agradeço de coração.
Sei que todos se esforçaram, cada um dentro das suas disponibilidades.
Contudo, permitam-me um destaque especial para as minhas amigas Sãozita e Ana Martins que não mediram esforços, sacrificando os seus tempos de lazer com a finalidade de “somar votos”.
Como minha homenagem a todos vós gostaria que aceitassem este selinho.

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Podem ir buscar-me AQUI

O MEU “BEM HAJA!” A TODOS


FALTA DO POST HABITUAL

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Queridas amigas e queridos amigos
Hoje não apresentarei o meu habitual post de domingo, pelo motivo que passo a expor:
Como é já do conhecimento de alguns de vós, na passada sexta feira fui submetida a uma pequena cirurgia ao olho direito.
Não vou maçar-vos com detalhes mas, como sei que este tipo de coisas causa uma certa impressão nalgumas pessoas, (não é verdade, Cris?) vou tentar desmistificar o que não é assim tão grave como pode parecer.
O problema que tenho deve-se a erro médico – pelo menos foi esta a informação que me deram três médicos especialista de renome, um dos quais dos Estados Unidos.
Numa cirurgia anterior, há oito anos, as coisas não correram muito bem, provavelmente por inépcia da pessoa que estava a operar. O seu mau trabalho deu origem a um hematoma macular, dano quase irreversível, que me causa pouca acuidade visual no olho direito.
Entre o tempo que decorreu desde a cirurgia inicial até esta última intervenção fiz vários tratamentos, que têm implicado largo dispêndio monetário. Os resultados não têm sido satisfatórios, mas para este problema não há grandes soluções.
O tratamento que agora fiz (2ª.fase) consiste numa injecção intra vítreo, aplicada directamente na mácula (retina).
Esta será a minha última tentativa. Nos próximos três ou quatro meses poderá, ou não, ocorrer alguma melhoria.
Resta aguardar calmamente.

Alguns de vós estarão, talvez, a interrogar-se porque não agi contra a pessoa que me provocou este problema.
Em primeiro lugar: já alguém viu algum médico, acusado de negligência médica, ser condenado? Eu desconheço, mas se existe é, com certeza, uma raríssima excepção.
Por outro lado, para se dar início a uma “acção acusatória”, é necessário estar-se bem precavido com provas irrefutáveis.
Algum dos médicos que me informou da causa do meu problema ocular estaria disposto a testemunhar? É claro que não.
Isto não é o mesmo que ser operado às pernas e estas ficarem tortas, ou a esquerda trocada com a direita. É um problema que nem todos os oftalmologistas estarão aptos a detectar. Tem que ser, no mínimo, especializado em retinas.
Por tudo isso e mais o que não digo… resolvi seguir o conselho de Franz Kafka, escritor checoslovaco, autor de “O COVIL” e “METAMORFOSE”, entre outros, quando disse:
- “Em luta contra o resto do mundo, aconselho que você se coloque ao lado do resto do mundo”.

Pelo exposto faltou-me tempo e “visão” para compor o post habitual.

Obrigada pela vossa compreensão.
Até ao próximo domingo

domingo, 15 de maio de 2011

PROBLEMAS COM O BLOG/NOMEAÇÃO PARA O SELO “BLOG DA SEMANA”

A exemplo do que aconteceu com a maioria ( se não a totalidade) dos usuários do Blogger, estive sem poder aceder ao meu blog uns quantos dias da última semana.
A explicação fornecida pelo Blogger foi a de que estava a proceder a manutenção. O que é estranho é que, em consequência dessa acção, tivessem “desaparecido” muitos comentários, no último post – não fui a única a quem tal aconteceu.
Procurei recuperá-los e recolocá-los na página de comentários. Não posso garantir que o tenha feito na totalidade… Por isso peço desculpa se alguém, eventualmente, verificar a falta de comentário que tenha feito.
Para além do inconveniente referido, no meu caso acresce que o blog ficou com qualquer defeito que não me permitia aceder a ele como autora, apenas como visitante, ao mesmo tempo que não me deixava comentar noutros blogs, a não ser como “anónimo” – o que não é possível em muitos blogs, incluindo o meu.
Só no sábado à tarde o meu filho conseguiu pôr o blog a funcionar normalmente, o que me permitiu (re)colocar os comentários perdidos.

Todos estes “percalços” contribuíram para uma certa irritação e falta de disposição para preparar o habitual post de domingo.

Peço que me desculpem, mas hoje vou limitar-me a dar-vos conhecimento de um facto que, no meio de toda esta trapalhada, me surpreendeu e encheu de orgulho:
A amiga Van, do blog RETALHOS DO QUE SOU
Indicou o meu blog para o selo “BLOG DA SEMANA, atribuído pelo BLOG DO SUPER WILL
A seguir transcrevo a comunicação que o Will publicou na página de comentários do post anterior.

Will Lukazi disse...
Olá! Tudo bem contigo?
Tenho o prazer de informar que o teu BLOG foi indicado pela Van, do Blog ‘’RETALHOS DO QUE SOU’’ http://retalhosdoquesou.blogspot.com/ ( atual vencedor ) , para concorrer ao Selo ‘’BLOG DA SEMANA ‘’em votação que se inicia hoje amanhã 14/05/2011 às 12:00 HORAS e ficará aberta até o dia 21/05/2011 no BLOG DO SUPER WILL http://wwwwillblog.blogspot.com, idealizador do Selo, tendo por objetivo homenagear e promover a confraternização blogueira através da troca de links, divulgação e experiências, bem como expandir os conhecimentos em relação aos habitantes e amigos da Blogosfera...acreditem:eles existem mesmo!!!
A ferramenta de votação se localizará e estará disponível do lado esquerdo( sidebar) BLOG DO SUPER WILL, logo abaixo dos SEGUIDORES.
Outras informações na página BLOG DA SEMANA no BLOG DO SUPER WILL http://wwwwillblog.blogspot.com
Prestigie e divulgue essa idéia !
Ao final da votação, independente do resultado, garantimos que sua Blogosfera se expandirá e jamais será a mesma.
Não deixe de participar dessa homenagem àqueles que de alguma forma contribuem para a vida inteligente e pensante na REDE. Você e seu Blog estão, sem dúvida nenhuma, incluídos entre eles. E como de costume após ler e degustar um pouco de seu Blog, informo também que estou seguindo-o e visitarei mais vezes.
Parabéns pela indicação e boa sorte!!!

Will Lukazi


(Se quiser ver na íntegra, pode fazê-lo na página dos comentários do post anterior).

A quem quiser votar no meu blog, desde já o meu sincero agradecimento.
Ah! E pode-se votar todos os dias… Mãos à obra!!!

domingo, 8 de maio de 2011

A MENINA GORDA

50.000 VISITAS
Ao completar as 50.000 visitas, agradeço a quantos ajudaram a atingir este lindo número, oferecendo este selinho.
LEVE-ME CONSIGO. ESTOU AQUI

Um grande “Bem haja!” a todos.

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DIA DAS MÃES NO BRASIL (08.05.2011)
O MEU BEIJO PARA TODAS AS MÃES BRASILEIRAS

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Ligue o vídeo e acompanhe o poema, logo abaixo:



Esta menina gorda, gorda, gorda,
Tem um pequenino coração sentimental.
Seu rosto é redondo, redondo, redondo;
Toda ela é redonda, redonda, redonda,
E os olhinhos estão lá no fundo a brilhar.

É menina e moça. Terá quinze anos?
Umas velhas amigas de sua mamãe
Dizem sempre que a encontram, num êxtase longo:
“Como esta menina está gorda, bonita!”
“Como esta menina está gorda, bonita!”
E ela ri de prazer. Seu rosto redondo
Esconde os olhinhos no fundo, a brilhar.

Às vezes no quarto,
Diante do espelho;
Ao ver-se tão gorda, tão gorda, tão gorda,
Ela pensa nas velhas amigas de sua mamãe
E também num rapaz
Que a olha sorrindo,
Quando toda manhã ela vai para a escola:
“– Ele gosta de mim… Ele gosta de mim.
Eu sou gorda, bonita…”
E os dedos gordinhos pegando nas tranças
Têm carícias ingénuas
Diante do espelho.

Rui Ribeiro Couto
(Poema tornado conhecido através da declamação de João Villaret)


Rui Ribeiro Couto

Rui Ribeiro Couto (Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto), brasileiro, foi magistrado, diplomata, jornalista, contista, romancista e poeta .
Nasceu em 12 de Março de 1898, em Santos, e faleceu com 65 anos de idade, em Paris, a 30 de Maio de 1963.
Na sua qualidade de escritor e jornalista colaborou com o Jornal do Brasil e O Globo, e ainda com A Província, de Pernambuco.
Em 1952 foi embaixador do Brasil na Jugoslávia, carreira bem sucedida e que exerceu até se aposentar.
Em 1958 conquistou, em Paris, o Prémio Internacional de Poesia, com o livro “Le jour est long”, que escreveu em francês.
Deixou uma vasta obra, tanto em poesia como em prosa; desta destaca-se A Cabocla adaptada duas vezes para a televisão.

João Villaret



João Villaret (João Henrique Pereira Villaret) nasceu em Lisboa em 10 de Maio de 1913.
Nasceu com a vontade e a capacidade de, em cima do palco, encantar o público.
Foi actor, encenador e declamador.
Depois de frequentar o Conservatório Nacional, começou por integrar o elenco da companhia de teatro lisboeta Rey Colaço - Robles Monteiro.
Em 1954 foi à cena, no extinto Teatro Avenida, em Lisboa, a peça “Esta noite chover prata” que obteve um êxito estrondoso, e ainda hoje é recordada com saudade por quem teve a sorte de a ela assistir. E quem não assistiu, vive hoje das descrições apaixonadas dos que lá estiveram.
No cinema trabalhou com Leitão de Barros em filmes como “Inês de Castro”, “Camões”, “Bocage”… e aquela que terá sido a sua melhor interpretação de sempre em cinema, a de Telmo Pais, em Frei Luís de Sousa (1950).
No final dos anos 50 (século passado) ingressou na televisão.
E assim nasceu a estrela João Villaret.
A experiência que trazia de teatro, cinema e programas radiofónicos contribuiu para que os programas na televisão se tornassem um êxito sem precedentes,
Ele dizia poesia como ninguém. É, sobretudo por isso, que é recordado
Aos domingos ninguém deixava de vê-lo declamar poemas dos maiores autores nacionais, sobretudo Fernando Pessoa e António Botto, dos quais era amigo.
Ficaram célebres, entre outras, as suas interpretações de:
- Procissão, de António Lopes Ribeiro (1955)
- Cântico negro, de José Régio
- O menino de sua mãe, de Fernando Pessoa
De mão no peito e olhar fixo na câmara, prendia as famílias ao pequeno ecrã. Era um homem grande, volumoso. Mas maior ainda era a sua arte
João Villaret morreu aos 48 anos, em 21 de Janeiro de 1961, em Lisboa.
A sua morte causou manifestações de grande pesar em Lisboa, de tal forma que, durante muitos anos, os lisboetas celebraram o aniversário da sua morte com um recital de poemas no Cinema S. Jorge, onde a sua voz se ouvia num palco vazio iluminado apenas por um foco de luz.
Em sua homenagem, Raul Solnado fundou, em 1965, o Teatro Villaret.

domingo, 1 de maio de 2011

DIA DA MÃE

Desde que este blog existe, há três anos, foi aqui lembrado e homenageado, por três vezes, o “Dia da Mãe”.
Este ano, em vez das já conhecidas versões sobre a origem do Dia da Mãe, decidi partilhar convosco dois pequenos textos.
Eis o primeiro, que nos explica como é o

CORAÇÃO DE MÃE

O coração de Mãe não é só um músculo que bate sem parar; é um lugar mágico onde acontecem as mais extraordinárias coisas.
O coração de Mãe está ligado a cada coração de filho por um fio fininho, quase invisível.

É por causa deste fio que tudo o que acontece aos filhos faz acontecer alguma coisa dentro do coração de Mãe.
Quando os filhos dão gargalhadas o coração de Mãe até dança.
Quando um filho está triste o coração de mãe parte-se em mil bocadinhos.


Quando um filho adoece o coração de Mãe fica às pintinhas (e muito mais pequenino…).



Mas o coração de Mãe volta a crescer quando finalmente o filho se sente melhor.
O coração de Mãe fica branco (sem pinga de sangue) quando o filho dá um grande trambolhão.
O coração de Mãe congela quando um filho se perde na multidão.

Quando não compreende os filhos o coração de Mãe é como um novelo embaraçado.
No coração de Mãe passa uma nuvem escura sempre que um filho é mal educado.
O coração de Mãe ganha ferrugem quando não vê um filho há muito tempo.
Mas quando chega a hora de ir buscar os filhos à escola parece um avião a jato.
Quando um filho diz uma piada o coração de Mãe ilumina-se… e lá dentro abre-se uma janela sempre que um filho aprende uma palavra nova.

O coração de Mãe é um vulcão (em erupção) quando um filho faz um grande disparate… mas quando um filho precisa de ajuda é um sino que toca sem parar.
Aliás, quando querem fazer mal aos seus filhos, o coração de Mãe enche-se de garras e dentes afiados.
Quando chegam as férias o coração de Mãe bate mais devagarinho.
Nos dias de piqueniques o coração de Mãe é um passarinho…
E há um dia em que no coração de Mãe nascem flores – é o dia em que descobre que vai ter outro filho.


Afinal… o coração de Mãe não é só um músculo que bate sem parar…
É um lugar mágico onde acontecem as mais extraordinárias coisas.

Isabel Minhós Martins
Bernardo Carvalho

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E, para alegrar o vosso dia, este outro texto bem humorado:

COISAS DE MAMÃE

Conta-se que S. Pedro, muito preocupado ao notar a presença de algumas almas que ele não se lembrava de ter deixado entrar no céu, começou a investigar e encontrou um lugar por onde elas entravam.
Dirigiu-se então ao Senhor e disse:
Senhor Jesus, observei que temos aqui algumas almas que não me lembro de lhes ter aberto as portas para que passassem a desfrutar da felicidade eterna.
Fiz algumas investigações e achei um vão por onde elas entram. Queria que o Senhor mesmo visse…
Jesus acedeu a acompanhá-lo e viu que, desse vão descoberto, se dependurava, vindo da terra, um imenso cordão de pedrinhas, por onde, constantemente, subiam muitas almas.


Alarmado, S. Pedro disse:
- Creio, Senhor, que devemos fechar essa entrada…
- Não, não – respondeu-lhe Jesus. Deixe assim. Isso são coisas de Mamãe.

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Para o final, uns pequenos grandes conselhos:

Não espere pela partida da sua Mãe para lhe dar Amor.
Se a tiver ainda ao seu lado, dê-lhe um beijo e um abraço e diga-lhe o que ela mais gosta de ouvir:
ADORO-TE, MÃE. OBRIGADA(O) POR EXISTIRES!

E se ela já não estiver ao seu lado, se já tiver partido...
Feche os olhos e faça uma prece em seu louvor, agradecendo-lhe pela vida que lhe deu. Pode também dizer que a ama, porque onde ela se encontra vai escutar o que você lhe está dizendo... e vai sentir-se muito feliz.