domingo, 18 de abril de 2010

LUZ E ESCURIDÃO

O MENINO QUE TROUXE LUZ AO MUNDO DA ESCURIDÃO

Um dia um menino de três anos estava na oficina do Pai vendo-o fazer arreios e selas. Quando crescesse queria ser igual ao Pai.
Tentando imitá-lo, agarrou um instrumento pontiagudo e começou a bater numa tira de couro.
O instrumento escapou da pequena mão, atingindo-o no olho esquerdo.
Logo de seguida uma infecção atingiu o olho direito, e o menino ficou totalmente cego.
Com o passar do tempo, embora se esforçasse para se lembrar, as imagens foram gradualmente desaparecendo, e em breve ele não se lembrava mais das cores.
Aprendeu a ajudar o Pai na oficina, trazendo ferramentas e peças de couro.
Ia para a escola e todos se admiravam da sua memória.
Na verdade ele não estava feliz com os seus estudos. Queria ler livros, escrever cartas, como os seus colegas.
Um dia ouviu falar de uma escola para cegos.
Aos dez anos Louis chegou a Paris levado pelo Pai, e matriculou-se no Instituto Nacional para crianças cegas.
Ali havia livros com letras grandes, em relevo.
Os estudantes sentiam, pelo tacto, as formas das letras, e aprendiam as palavras e frases.
Logo o jovem Louis descobriu que era um método limitado. As letras eram muito grandes. Uma história curta enchia muitas páginas.
O processo de leitura era muito demorado.
A impressão de tais volumes era muito cara.
Em pouco tempo o menino tinha lido tudo o que havia na biblioteca. Queria mais.
Como adorava música tornou-se estudante de piano e violoncelo.
O amor à música aguçou o seu desejo pela leitura. Queria ler também notas musicais.
Passava noites acordado, pensando em como resolver o problema.
Ouviu falar de um capitão do exército que tinha desenvolvido um método para ler mensagens no escuro.
A escrita nocturna consistia em conjuntos de pontos e traços em relevo no papel.

Os soldados podiam, correndo os dedos sobre os códigos, ler sem precisar de luz.
Ora, se os soldados podiam, os cegos também podiam – pensou o garoto.
Procurou o capitão Barbier que lhe mostrou como funcionava o método:
Fez uma série de furinhos numa folha de papel com um furador semelhante ao que cegara o pequeno Louis.
Noite após noite e dia após dia Louis trabalhou no sistema de Barbier, fazendo adaptações e aperfeiçoando-o. Suportou muita resistência.
Os donos do Instituto tinham gasto uma fortuna na impressão dos livros com as letras em relevo. Não queriam que tudo fosse por água abaixo.
Com persistência, Louis Braille foi mostrando o seu método. Os meninos do Instituto interessavam-se. À noite, às escondidas, iam ao seu quarto para aprender.
Finalmente, aos vinte anos de idade, Louis chegou a um alfabeto legível, com combinações variadas, de um a seis pontos.
O método Braille estava pronto.
O sistema permitia também ler e escrever música.
A ideia acabou por encontrar aceitação.
Semanas antes de morrer, no leito do hospital Louis disse a um amigo:
- Tenho a certeza que a minha missão na terra terminou.
Louis Braille faleceu dois dias depois de completar 43 anos.

Nos anos seguintes à sua morte o método espalhou-se por vários países.
Finalmente foi aceite como método oficial de leitura e escrita para invisuais.
Assim, os livros puderam passar a fazer parte da vida dos cegos.
Tudo graças a um menino imerso em trevas, que dedicou a sua vida a fazer luz para enriquecer a sua vida e a de todos que se encontram privados da visão.

Há quem use as suas limitações como desculpa para nada fazer.

Louis Braille nasceu a 4 de Janeiro de 1809, em Coupvray, França; faleceu a 6 de Janeiro de 1852.


Autor: William J. Bennett – Livro das Virtudes II, Capítulo “O menino que trouxe luz ao mundo da escuridão”
William J. Bennett

William John Bennett, (nasceu dia 31 de julho de 1943 - ), político estadunidense, foi Secretário de Educação dos Estados Unidos da América, entre 1985 a 1988.

domingo, 11 de abril de 2010

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE (3/01)

CHEGADA À "LUA"

Após uma viagem de uma semana num “mar de azeite”, como dizem os marinheiros, aproximamo-nos do nosso destino.

Ao longe, apenas se vislumbravam umas sombras esfumadas no horizonte.
Agora, que estamos relativamente perto, a paisagem torna-se nítida – montes escalvados, de cor avermelhada, sem vestígios de vegetação, uma verdadeira paisagem lunar.

Temos a sensação de que estamos a chegar à lua!

Depois das manobras habituais, que nos parecem infindáveis, finalmente o navio encosta ao cais.
Com a bagagem de camarote há muito preparada, as três crianças controladas, apressamo-nos a descer o portaló.

O cais fervilha de gente, na sua maioria naturais da terra, táxis buzinando, um burburinho tremendo.
Finalmente pomos pé em terra.

Após beijos e abraços efusivos, - que as saudades já eram muitas – aguardamos o carro que nos transportará para casa.

Ao meu lado, um autóctone, de pé, vê de repente um carro passar muito perto, chegando mesmo a roçar-lhe o corpo. Recuando de um salto, com receio de que o pneu lhe passasse em cima do pé descalço, grita, assustado:
- Ai nha pé!
Este é o meu primeiro contacto com a linguagem local.

O “nha”, que significa meu ou minha ( nha pai, nha mãe) irá fazer parte do meu dia-a-dia durante os próximos dois anos.

Vamos então p’ra nha casa!

Situada num ponto elevado, a moradia, acompanhada à esquerda e à direita por outras casas igualmente independentes, tem na parte da frente um arremedo de jardim, com uma ou outra planta enfezada, que, durante os dois anos da minha permanência aqui, irei, teimosamente, tentar recuperar.
Luta inglória! O ar é extremamente seco, com ventos fortes nove meses por ano, a falta de água é enorme; mesmo regando-as todos os dias, a terra absorve completamente a água muito para além se onde as raízes a possam alcançar.
Apesar de todos os esforços, o meu jardim nunca deixou de ter este aspecto desértico.

Em frente, do lado de lá da estrada, há um vasto espaço coberto de terra vermelha, que termina num declive em direcção ao mar.

Da porta de casa, à qual se acede subindo três degraus de pedra, avista-se, não muito ao longe, o mar, vindo do qual se pode sentir, em certos dias, o cheiro a maresia.

Algum tempo depois de aqui estar irei assistir a verdadeiras batalhas campais travadas entre grupos de cães, provavelmente inimigos, nesse espaço existente em frente à casa.
Sem qualquer aviso prévio, uns chegam da direita, outros aproximam-se pela esquerda, acabando por juntar-se no centro do terreno.
Entre ladridos e rosnares, engalfinham-se ferozmente, levantando incríveis nuvens de poeira vermelha que chega a escurecer o céu.
Depois de alguns minutos de luta abandonam o campo de batalha, retrocedendo cada grupo pelo mesmo caminho por onde chegara.
Da refrega, felizmente, não resultam mortos; apenas alguns ferimentos se revelam nas pernas que vão manquitando no regresso ao lar.

Nunca consegui descobrir por que razão, de tempos a tempos, se envolviam em contenda.
Certo é que, chegará o dia em que também eu regressarei ao local de partida, sem que eles tenham resolvido os seus diferendos.

Mas, por agora, há que nos instalarmos na que vai ser a nossa moradia durante os próximos dois anos.
Não se trata de nenhum palácio, mas, depois de arrumada a nosso gosto, ornamentada com objectos que nos acompanharam, torna-se bastante confortável.

Tudo leva a crer que, aqui, pelo menos, viveremos em paz, perspectiva por demais aliciante para quem passou os últimos cinco anos em clima de guerra.

domingo, 4 de abril de 2010

O SERMÃO DA MONTANHA

O SERMÃO DA MONTANHA
(Versão para educadores)

Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem. Ele os preparava para serem os educadores capazes de transmitir a lição da Boa Nova a todos os homens.

Tomando a palavra, disse-lhes:
- Em verdade, em verdade vos digo: Felizes os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque eles...
Pedro o interrompeu:
- Mestre, vamos ter que saber isso de cor?
André disse:
- É p’ra copiar no caderno?
Filipe lamentou-se:
- Esqueci meu papiro!
Bartolomeu quis saber:
- Vai cair na prova?
João levantou a mão:
- Posso ir ao banheiro?
Judas Escariotes resmungou:
- O que é que a gente vai ganhar com isso?
Judas Tadeu defendeu-se:
- Foi o outro Judas que perguntou!
Tomé questionou:
- Tem uma fórmula p’ra provar que isso está certo?
Tiago Maior indagou:
- Vai valer nota?
Tiago Menor reclamou:
- Não ouvi nada, com esse grandão na minha frente.
Simão Zelote gritou, nervoso:
- Mas porque é que não dá logo a resposta e pronto1?
Mateus queixou-se:
- Eu não entendi nada, ninguém entendeu nada!
Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus, dizendo:
- Isso que o senhor está fazendo é uma aula? Onde está o seu plano de curso e a avaliação diagnóstica? Quais são os objetivos gerais e específicos? Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos prévios?
Caifás emendou:
- Fez uma programação que inclua os temas transversais e atividades integradoras com outras disciplinas? E os espaços para incluir os parâmetros curriculares gerais? Elaborou os conteúdos conceituais, processuais e atitudinais?
Pilatos, sentado lá no fundão, disse a Jesus:
- Quero ver as avaliações da primeira, segunda e terceira etapas e reservo-me o direito de, ao final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as promessas do Imperador de um ensino de qualidade. Nem pensar em números e estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projeto.
E vê lá se não vai reprovar alguém! Lembre-se que você ainda não é professor titular…
Jesus deu um suspiro profundo, pensou em ir à sinagoga e pedir aposentadoria proporcional aos trinta e três anos. Mas, tendo em vista o fator previdenciário e a regra dos 95, desistiu.
Pensou em pegar um empréstimo consignado com Zaqueu, voltar p’ra Nazaré e montar uma padaria…
Mas olhou de novo a multidão. Eram como ovelhas sem pastor… Seu coração de educador se enterneceu e Ele continuou:
- “Felizes vocês, se forem desrespeitados e perseguidos, se disserem mentiras contra vocês por causa da Educação. Fiquem alegres e contentes porque será grande a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram outros educadores que vieram antes de vocês”.
Tomé, sempre resmungão, reclamou:
- Mas só no céu, Senhor?
- Tem razão, Tomé – disse Jesus – há quem queira transformar minhas palavras em conformismo e alienação… Eu lhes digo NÃO! Não se acomodem. Não fiquem esperando, de braços cruzados, uma recompensa do Além. É preciso construir o Paraíso aqui e agora, para merecer o que vem depois…
E Jesus concluiu:
- Vocês, meus queridos educadores, são o sal da terra e a luz do mundo…

Professor Eduardo Machado


Professor Eduardo Machado, professor de profissão, é natural de
Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil
Outubro 2009

domingo, 28 de março de 2010

CENAS DA VIDA REAL

A COMICHÃO

O episódio que vos vou contar passou-se num inverno.

Com uma filha médica, a D. Elvira, depois de passar um dia desesperada com comichão nas costas, resolveu telefonar à filha que morava distante:
- Ai, minha filha, preciso da tua ajuda. Tenho uma coceira nas costas que é um verdadeiro desespero…
- E apareceu-te só hoje, mamã? Comeste alguma coisa que te possa ter provocado alergia?
- Não, minha filha, comi a minha dieta habitual. Sabes que sou muito cuidadosa com a boca…
- Sim, eu sei, normalmente até és… Tens alguma borbulhagem nas costas? Sentes a pele como lixa?
- Não, não sinto nada. E pedi ao teu pai para me ver as costas e ele diz que não nota nada de anormal, excepto os vermelhões que faço ao coçar-me.
- Bom, então vais experimentar a pomada “x”. Aplicas à noite, antes de deitar, e amanhã de manhã, depois do banho.
- Obrigada, minha filha. Vou já à farmácia.

Depois das despedidas a D. Elvira foi à farmácia comprar a pomada e, antes de se meter na cama, pediu ao marido para lha aplicar nas costas. Passou uma noite muito descansada, sem sentir qualquer prurido.
No dia seguinte, depois do banho, repetiu-se a cena da pomada nas costas. No imediato sentiu algum alívio, mas depressa a comichão voltou. E a D. Elvira passou o dia a coçar as costas.

À tardinha telefonou novamente à filha:
- Ai, minha filha, a pomada que me receitaste não deu resultado. Passei o dia a coçar-me como uma desesperada…
- Então, mamã, se continuas com a pele limpa, sem nenhuma borbulhagem, vais experimentar esta outra pomada - a “y”. Com esta de certeza que passa; só não quis receitar-ta ontem porque tem antibiótico, e estava a evitar… Depois levo-te a receita para entregares na farmácia.

A D. Elvira lá foi de novo à farmácia, sua conhecida, e trouxe consigo a nova pomada.
Tal como fizera com a anterior, o marido aplicou-lha nas costas, ao deitar e, no dia seguinte, depois do banho.

O dia seguinte foi novamente um dia de coceira. D. Elvira dizia mal da sua vida. Mal podia esperar pela hora de encontrar a filha em casa para lhe telefonar, o que fez, logo que eram horas para isso.

A filha mostrou-se admiradíssima, e disse-lhe:
- Olha, mamã, nada mais te posso fazer assim à distância. O melhor é ires consultar o médico.
A D. Elvira concordou. No dia seguinte iria ao médico.

À noite, quando estava a despir-se, a D. Elvira deixou cair ao chão a camisola interior que usava naqueles dias tão frios.
Ao apanhá-la reparou numa quantidade enorme de cabelos agarrados à parte de dentro da camisola interior. E comentou para o marido:
- Meu deus, está me a cair imenso cabelo!
E de repente fez-se luz no seu espírito. A comichão!!! Era provocada pelos cabelos!

Sem pensar duas vezes agarrou no telefone e ligou para a filha:
- Minha filha, não imaginas a quantidade de cabelo que me está a cair.
A filha, com voz ensonada:
- Ó mamã, tu acordas-me a estas horas para me dizeres que te anda a cair o cabelo???
- A comichão, minha filha, a comichão! Está descoberto o mistério…
Não obteve qualquer resposta. O único som que veio do outro lado foi um clic do telefone a desligar-se.

Mariazita, Fevereiro de 2010
Imagem da Net

domingo, 21 de março de 2010

DESISTA VOCÊ TAMBÉM

Para tudo, na vida, há um tempo certo: nem antes, nem depois.

Do mesmo modo que há um tempo certo para lutar e outro para recuar, também existem coisas pelas quais é imperioso lutar e outras que mais vale ignorar e delas desistir.
Veja o que, a este respeito, pensa Thais Cadorim

EU DESISTO...
por Thais Cadorim

“É isso mesmo, entreguei os pontos, não dá mais, acabou.”
Essa frase soa com tanta força, não é?
Mas é verdade, eu desisti mesmo.
De um monte de coisas.

Desisti de reclamar de quem não quer aprender. Decidi me concentrar em quem quer...
E se você olhar bem direitinho, perto de você tem um monte de gente sedenta de conhecimento.


Desisti de tentar emagrecer para ser igual a todo mundo.
Resolvi ter o peso que eu devo ter, por uma questão de saúde, por uma questão de bem estar.
Só isso

Desisti de tentar fazer com que as pessoas pensem do jeito que eu gostaria que elas pensassem.
Achei melhor buscar respeitar o outro do jeito que ele é.
Imagina se o mundo fosse feito de milhões de pessoas iguais a mim...
Ah, isso ia ser um tormento.

Desisti de procurar um emprego perfeito e apaixonante.
Achei que estava na hora de me apaixonar pelo meu trabalho e fazer dele o acontecimento mais incrível da minha vida, enquanto ele durar.

Desisti de procurar defeito nas pessoas.
Achei que estava na hora de colocar um filtro e só ver o que as pessoas têm de melhor.
Defeito todo mundo acha, quero ver achar qualidades em quem parece não tê-las…

Desisti de ter o celular mais “psico-tecno-cibernético” do mercado. Agora eu só quero um telefone pra falar.
É muito frustrante comprar o mais novo modelo e dias depois ver que ele já foi superado. É pra isso que a indústria trabalha.
Aproveitei o gancho e apliquei o conceito também a outros produtos: relógio, computador, máquina fotográfica, carro.

Desisti de impor minha opinião sobre tudo.
Decidi que de agora em diante vou ouvir todas as opiniões, mesmo as contrárias, e vou tentar tirar proveito de cada uma delas.
É mais barato compartilhar as opiniões do que brigar pra manter só uma.

Desisti de ter tanta pressa. Tudo na vida tem seu tempo, e se não acontecer, não era pra acontecer.
Não quer dizer que eu vou “deixar a vida me levar” e parar de correr atrás do que eu acredito, mas não vou me desesperar se eu perder o vôo.
Sei lá o que vai acontecer com o avião...

Desisti de correr da chuva.
Tem coisa mais bacana que tomar banho de chuva?
Há quanto tempo você não sente aquele cheiro de terra molhada?
E se o resfriado chegar, qual o problema? Não vai ser o primeiro nem o último.

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Desisti de estudar por obrigação. Agora eu faço da leitura um momento de prazer...
Cadeira confortável, pezão pra cima, um chocolate quente, minha gata ronronando do lado.
Os livros agora ficaram menores e mais fáceis, mesmo que seja a CLT ou a NBR 9004.

Desisti de buscar uma planilha de indicadores toda verdinha.
Os índices são assim mesmo, às vezes melhoram, às vezes pioram. Isso é o mundo real.
Eu não vou deixar de fazer a gestão sobre eles, mas decidi que não vou mais sofrer por isso.
Bons ou ruins eles devem gerar aprendizado e isso é o mais importante.

Desisti de trabalhar para fazer o meu sistema da qualidade ser perfeito.
Eu prefiro mantê-lo sob controle, funcionando, ajudando as pessoas, ajudando os processos, dando resultados, mesmo que aos poucos.
Com essa filosofia eu ganhei um monte de parceiros, ao invés de cultivar inimigos.
Se eu fosse você, desistia também...

Tem um monte de coisas que você faz, carrega e sente, que não precisa.

Pense nisso!!!

Thais Cadorim


domingo, 14 de março de 2010

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE (2/01)


DESEMBARQUE INESQUECÍVEL

Naquele tempo, princípio dos anos 60 do século passado, não havia ali porto de mar. Do navio os passageiros eram transportados, em lanchas, para a ilha, e desta para o continente, em barcos que faziam a travessia, transportando pessoas e bagagens.
O marido tinha formalidades a cumprir no Comando, onde deveria apresentar-se.

Por isso eu esperei, na praça, com os dois filhos pequenos: o mais velho ainda não completara os três anos e a mais nova tinha apenas um ano e uns dias.
De súbito, sem qualquer aviso prévio, começou a chover. O céu havia-se toldado, ficando completamente encoberto. E de seguida surgiu a chuva, que caía em bátegas fortes, formando verdadeiros rios que corriam pelas pedras mal alinhadas das ruas.
Sem local à vista onde pudesse refugiar-me, segurando os filhos pela mão, ‘enfiei-me’ rapidamente pela primeira porta que encontrei aberta. Tratava-se do armazém onde eram guardadas as bagagens descarregadas dos barcos, que ali aguardavam envio para o seu destino.
Era um espaço enorme, todo amplo, onde fardos, caixotes e outros tipos de embalagens eram empilhados pelos indígenas que as traziam do cais, num constante vaivém, de dentro para fora e de fora para dentro.
Se lá fora chovia a cântaros cá dentro o calor era infernal. Sem lugar para me sentar, encostei-me a uns caixotes para descansar um pouco as pernas cansadas de tantas horas em pé. As crianças agitavam-se, inquietas, queixavam-se com fome e com sede.
Procurar um café, se é que o havia, com aquela chuva, estava fora de questão. Vasculhei na minha bolsa e encontrei algumas bolachas, meio partidas, que sempre transportava comigo para uma emergência. Distribuí-as pelos filhos; quanto à sede é que nada podia fazer, pois naquele tempo não havia garrafas de água como hoje se encontram em qualquer estabelecimento. Fiz um esforço para distrai-los. Eu própria sentia uma sede enorme, mas não o podia confessar.
E o marido que não aparecia! As horas passavam, uma, duas, três, e ele continuava ausente. Apareceu, por fim, já escurecia lá fora. Entretanto parara de chover.
A ligação da Ilha ao Continente era assegurada por lanchas, com horário regular. A hora da última lancha já passara, pelo que não havia transporte. Na Ilha não havia hotel onde se pudesse passar a noite.
Começávamos a desesperar sem saber como resolver aquele problema quando apareceu um homem que se tinha apercebido do que se passava, e nos disse que ele ia alugar uma lancha para o transportar para o Continente; “se quiserem, podemos ‘rachar’ a despesa e vêm comigo”.
Foi como se um milagre tivesse acontecido. Agradecemos calorosamente, arranjamos um carregador para levar as bagagens para a lancha, e fizemos a travessia.
Chegados ao continente dirigimo-nos ao hotel onde queriamos pernoitar, para no dia seguinte continuarmos viagem de comboio para o nosso destino.
O hotel estava lotado. Não havia um único quarto vago. Entramos novamente em desespero.
O marido insiste: “que lhe arranjem um cantinho qualquer onde possa pernoitar com a mulher e os filhos, um sofá serve, qualquer coisa onde possam sentar-se e descansar um pouco, não podem ficar na rua com as crianças…”
O recepcionista do hotel de repente teve uma ideia: o dono do hotel tinha ido para a ilha e ainda não regressara. Às vezes ele dormia na Ilha, numa casa de praia que tinha lá…
Telefonou para o patrão que o informou que, nessa noite, ficaria na Ilha, e que “podia dispensar o seu quarto ao senhor capitão e família”.
Um novo milagre acontecera!
Acabamos por ficar instalados no melhor quarto do hotel e passamos uma noite finalmente tranquila.
No dia seguinte de manhã dirigimo-nos à estação do caminho-de-ferro.
Ao chegar ao cais da estação tive uma visão assombrosa, que quase me pregou um susto: as mulheres autóctones tinham o rosto negro e o pescoço cobertos duma pasta branca.

Mais tarde vim a saber tratar-se de uma máscara de beleza, feita com farinha misturada com outros ingredientes que só elas conhecem.

Metemo-nos no comboio que nos levaria para mais uma etapa antes do nosso destino final.

segunda-feira, 8 de março de 2010

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Sei que há algumas pessoas que não concordam e, consequentemente, não gostam que haja “Dia de…”
Alegam que “essa é mais uma forma de consumismo que só favorece os comerciantes”, que “passado o dia tudo volta à mesma e nada foi alterado”… e que, por isso, “não vale a pena festejar seja o que for”.
Não deixo de lhes dar razão, mas… se não houvesse um “Dia de…” muitos dos “homenageados” NUNCA seriam lembrados.
De resto, o consumismo somos nós mesmos que o fazemos. Não adianta camuflar o nosso “pecado” atribuindo as culpas aos “Dias de…”

Sem querer alongar-me, dado que o tema é vasto e daria origem a várias conjecturas, direi apenas que respeito todas as opiniões, mas penso que “os discordantes” estão em minoria.
A verdade é que a maioria de nós gosta de festajar, ou pelo menos lembrar, o Dia da Mãe, o Dia do Pai, o Dia dos Avós, o Dia Mundial da Criança (para não falar no Dia de Páscoa ou no Dia de Natal, logicamente com significados diferentes…).
Portanto, as minorias, que respeito, que me desculpem, mas as maiorias vão, com certeza, apreciar este brinde com que prettendo assinalar o “Dia Internacional da Mulher”, e que partilho convosco.

MULHERES

Certo dia parei para observar as mulheres e só pude concluir uma coisa: elas não são humanas!
São espiãs; espiãs de Deus, disfarçadas entre nós.

Pare para refletir sobre o sexto sentido.
Alguém duvida de que ele existe?
E como explicar que ela saiba exatamente qual mulher, entre as presentes, em uma reunião, seja aquela que dá em cima de você?
E quando ela antecipa que alguém tem algo contra você, que alguém está ficando doente ou que você quer terminar o relacionamento?
E quando ela diz que vai fazer frio e manda você levar um casaco?
‘Rio de Janeiro, 40 graus, você vai pegar um avião para São Paulo. Só meia hora de voo’ – Ela fala p’ra você levar um casaco porque “vai fazer frio”. Você não leva. O que acontece?
O avião fica preso no tráfego, em terra, por quase duas horas - depois que você já entrou - antes de decolar.
O ar condicionado chega a pingar gelo, de tanto frio que faz lá dentro!
“Leve um sapato extra na mala, querido, Vai que você pisa numa poça…”
Se você não levar o “sapato extra”, meu amigo, leve dinheiro extra para comprar outro, pois o seu estará, sem dúvida, molhado…
O sexto sentido não faz sentido. É a comunicação direta com Deus! Assim é muito fácil…

As mulheres são mães!
E preparam, literalmente, gente dentro de si.
Será que Deus confiaria tamanha responsabilidade a um resles mortal?
E não satisfeitas em gerar a vida, elas insistem em ensinar a vivê-la, de forma íntegra, oferecendo amor incondicional e disponibilidade integral.
Fala-se em “praga de mãe”, “amor de mãe”, “coração de mãe”…
Tudo isso é meio mágico…
Talvez Ele tenha instalado o dispositivo “coração de mãe” nos “anjos da guarda” de Seus filhos (qua, aliás, foram criados à Sua imagem e semelhança).
As mulheres choram.
Ou vazam?
Ou extravazam?
Homens também choram, mas é um choro diferente.
As lágrimas das mulheres têm um não sei quê que não quer chorar, um não sei quê de fragilidade, um não sei quê de amor, um não sei quê de tempero divino, que tem um efeito devastador sobre os homens...
É choro feminino. É choro de mulher…

Já viram como as mulheres conversam com os olhos?
Elas conseguem pedir uma à outra para mudar de assunto com apenas um olhar.
Elas fazem um comentário sarcástico com outro olhar.
E apontam uma terceira pessoa com outro olhar.
Quantos tipos de olhar existem? Elas conhecem todos…
(Parece que frequentam escolas diferentes das que frequentam os homens!)
E é com um desses milhões de olhares que elas enfeitiçam os homens.
En-fei-ti-çam!
E tem mais. No tocante às profissões, por que se concentram nas áreas de Humanas?
Para estudar os homens, é claro!
Embora algumas disfarcem e estudem Exatas…
Nem mesmo Freud se arriscou a adentrar nessa seara.
Ele, que estudou, como poucos, o comportamento humano, disse que a mulher era “um continente obscuro”.

Quer evidência maior do que essa?
Qualquer um que ama se aproxima de Deus.
E com as mulheres também é assim. O amor as leva perto d’Ele, já que Ele é o próprio amor.
Por isso dizem “estar nas nuvens” quando apaixonadas.
É sabido que as mulheres confundem sexo e amor.
E isso seria uma falha se não obrigasse os homens a uma atitude mais sensível e respeitosa com a própria vida.
Pena que eles nunca verão as mulheres-anjos que têm a seu lado.
Com todo esse amor de mãe, esposa e amiga, elas ainda são mulheres a maior parte do tempo.
Mas elas são anjos depois do sexo-amor.
É nessa hora que elas se sentem o próprio amor encarnado e voltam a ser anjos.
Algumas até voam…
Mas os homens não sabem disso. E nem poderiam…
Porque são tomados por um encantamento que os faz dormir nessa hora.

Luis Fernando Veríssimo

domingo, 7 de março de 2010

VOCÊ PRECISA DE ESTÍMULO?

Tenho duas plantas de flores de cera. Conhecem? São lindíssimas.
Hoya carnosa – seu nome técnico – faz-nos lembrar que a sua folhagem é, de facto, carnuda, sem qualquer atractivo especial para além daquele que possuem todas as plantas. A grande beleza reside nas flores.

É muito interessante acompanhar o ciclo de floração, desde que aparece um pequenino cacho de pecíolos com botões, até que se apresentam em todo o seu esplendor, lembrando um guarda-chuva florido.
São flores que se aguentam bastantes dias, e, quando começa a aproximar-se o fim, formam, a partir do centro, umas gotas de um líquido transparente semelhantes a lágrimas, que escorrem depois pelas pétalas e caiem para o chão.
Diz a minha empregada, Lina, que na terra dela lhes chamam “lágrimas de Nossa Senhora”.

Eu tinha apenas uma destas plantas.
Trouxe-a para casa – comprei-a – há já uns anos, não posso precisar quantos.
Pelo aspecto viçoso das folhas e pequena estatura – teria uns trinta cinco a quarenta centímetros de altura – via-se que era uma planta muito jovem.
Adaptou-se lindamente à sua nova casa, e a breve trecho erguia os ramos em direcção ao céu. Era altura de começar a guiá-la por um fio que lá coloquei para o efeito.
Prontamente iniciou o seu ciclo de floração, mimoseando-me com flores belíssimas.

Esta orgia de flores manteve-se por alguns anos.
A determinada altura comecei a notar a sua falta de flores. Pura e simplesmente tinha desistido de me brindar com a sua linda prole.
Continuava com as folhas viçosas, em nada denunciando a sua provecta idade, excepto na falta de procriação.
Continuei a tratá-la com o carinho de sempre, conformada com a sua aposentadoria.
Um belo dia a Lina, trouxe-me uma flor de cera (planta) que ela reproduzira a partir de outra que tem em casa.
Colocamo-la ao lado da outra, distanciada cerca de 40 centímetros. Poucos dias depois a segunda planta começou a florir.
Surpreendi esta conversa da Lina com as plantas:
- Vês? Não quiseste dar mais flores e a tua mamã arranjou outra para o teu lugar.
Deduzi que ela falava com a planta mais velha.
Não denunciei a minha presença, mas fiquei a saber que ela também falava com as plantas. Afinal não era só eu… Senti-me um pouco mais “normal”.
Tenho por hábito todas as manhãs ir à varanda visitar as minhas plantas, regá-las se têm falta de água, retirar alguma folha seca e, confesso, também converso com elas. Até lhes acaricio levemente as folhas, enquanto converso.
Alguns dias passados a Lina foi à varanda e chamou-me, toda alvoroçada:
- Senhora, venha cá ver uma coisa.
Lá fui, e vi que a velha planta de cera estava em flor. Fiquei admirada, pois estava convencida que o seu período de floração havia terminado irremediavelmente. Senti-me muito feliz. A minha velha plantinha, afinal, ainda conseguia brindar-me com as suas lindas flores.
Acariciei-a ao de leve e agradeci-lhe a alegria que acabava de me proporcionar.
Do alto da sua sabedoria singela, a Lina falou:
- Sabe, senhora, no outro dia eu estive a envergonhá-la; disse-lhe que a senhora agora ia gostar mais da outra do que dela. De certeza ela entendeu, e com medo que a senhora a deitasse fora resolveu dar flores outra vez.
Será que foi isso mesmo que aconteceu?
A gente mais simples, por vezes, tem percepções que escapam ao mais comum dos mortais.

Há pessoas que, face a contrariedades que surgem, entregam-se ao desânimo e levam uma vida tristonha, sem objectivos…
Precisam ser incentivadas, ‘espicaçadas’, “metidas em brios”, para reagirem e voltarem a ter fé nas suas capacidades.
Eu sei que, com algumas pessoas, isto é assim mesmo, precisam ser estimuladas para mostrarem do que são capazes.
A dúvida que me fica é:
- Será que acontece o mesmo com as plantas?

Mariazita
Fotos minhas

domingo, 28 de fevereiro de 2010

SALVEM AS MULHERES

Há muito tempo que não falamos aqui da “MULHER”.
É tempo de voltarmos a este delicioso tema.
Andei vasculhando nos meus “guardados” e descobri um PPS que me foi enviado por um grande e bom amigo, com a seguinte mensagem:

“ Muito válido.
Envio como homenagem às minhas Amigas e Familiares.
E como contribuição para a cultura geral dos homens inteligentes.
Vosso
(Assinatura)”

Embora o texto pareça tratar a Mulher como um objecto, uma coisa - em última análise como um animal de estimação - se ler com atenção verá quantas verdades ele encerra.

Salvem as Mulheres

O desrespeito à natureza tem afectado a sobrevivência de vários seres, e entre os mais ameaçados está a fêmea da espécie humana.
Tenho apenas um exemplar em casa, que mantenho com muito zelo e dedicação, mas, na verdade, acredito que é ela que me mantém.
Portanto, por uma questão de auto sobrevivência, lanço a campanha:
- SALVEM AS MULHERES!
Tomem aqui os meus parcos conhecimentos em fisiologia da feminilidade, a fim de que preservemos os raros e preciosos exemplares que ainda restam:

*Habitat*

Mulher não pode ser mantida em cativeiro. Se for engaiolada, fugirá ou morrerá por dentro. Não há corrente que as prenda, e as que se submetem à jaula perdem o seu DNA.
Você jamais terá a posse de uma mulher; o que vai prendê-la a você é uma linha frágil que precisa ser reforçada diariamente.

*Alimentação correcta*

Ninguém vive de vento. Mulher vive de carinho. Dê-lhe em abundância.
É coisa de homem, sim, e, se ela não receber de você, vai pegar de outro.
Beijos matinais e um “eu te amo” no café da manhã, as mantém viçosas e perfumadas durante todo o dia.
Um abraço diário é como água para as samambaias. Não a deixe desidratar.
Flores também fazem parte de seu cardápio. Mulher que não recebe flores murcha rapidamente e adquire traços masculinos como rispidez e brutalidade.
Pelo menos uma vez por mês é necessário, senão obrigatório, servir um prato especial. Música ambiente e um espumante são muito bem digeridos e ainda incentivam o acasalamento, o que, além de preservar a espécie, facilita a sua procriação.

*Respeite a natureza*

Você não suporta TPM? Case-se com um homem.
Mulheres menstruam, choram por nada, gostam de falar do próprio dia, discutir a relação…
Se quiser viver com uma mulher, prepare-se para isso.

*Não tolha a sua vaidade*

É da mulher hidratar as mechas, pintar as unhas, passar batom, gastar o dia inteiro no salão de beleza, coleccionar brincos, comprar sapatos, ficar horas escolhendo roupas no shoping. Só não incentive muito estes últimos pontos ou você criará um monstro consumista.

*Cérebro feminino não é um mito*

Por insegurança, a maioria dos homens prefere não acreditar na existência do cérebro feminino. Por isso, procuram aquelas que fingem não possui-lo (e algumas, realmente, o aposentaram!).
Então, aguente mais essa: mulher sem cérebro não é mulher, mas um mero objecto de decoração.
Se você se cansou de coleccionar bibelôs, tente se relacionar com uma mulher. Algumas vão lhe mostrar que têm mais massa cinzenta do que você.
Não fuja dessas; aprenda com elas e cresça! E não se preocupe: ao contrário do que ocorre com os homens, a inteligência não funciona como repelente para as mulheres.

*Não confunda as sub-espécies*

Mãe é a mulher que amamentou você e o ajudou a se transformar em adulto.
Esposa é a mulher que o transforma diariamente em homem.
Cada uma tem o seu período da actuação e determinado grau de influência ao longo de sua vida.
Trocar uma pela outra não só vai prejudicar você, como destruirá o que há de melhor em ambas.

*Não faça sombra sobre ela*

Se você quiser ser um grande homem, tenha uma mulher a seu lado, nunca atrás.
Assim, quando ela brilhar, você vai pegar um bronzeado.
Porém, se ela estiver atrás, você vai levar um pé-na-bunda.

Aceite: mulheres também têm luz própria, e não dependem de nós para brilhar.
O homem sábio alimenta os potenciais da parceira e os utiliza para motivar os próprios.
Ele sabe que, preservando e cultivando a mulher, ele estará salvando a si mesmo.


Autoria desconhecida

domingo, 21 de fevereiro de 2010

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE (1/1)

Há cerca de dois anos (02.03.08) publiquei o post que hoje vos proponho recordar, e ao qual apenas retoquei o visual… (novas imagens).
Como tenciono retomar o tema “SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE”, entretanto abandonado, decidi começar pelo princípio, partilhando convosco este apontamento que marca o início das minhas passagens por África.


O EQUÍVOCO

Jovem, casada há pouco menos de um ano,

surge a notícia. O marido vai embarcar dentro de um mês !
Embora já esperada, nem por isso a má nova causa menos dano.
E surgem as lágrimas, das saudades que estão para vir. Com uma gravidez de sete meses, a sensibilidade à flor da pele, sinto-me desesperar. Os dias passam a correr.
E, de repente, chega a hora da separação.
Aguento firme. Interiormente, consolo-me com a ideia de que, em breve, farei o mesmo percurso.
Ignoro todos os conselhos de familiares e até do médico.
- Quem, em seu perfeito juízo, arrisca fazer uma viagem destas, num tão adiantado estado de gravidez ???
- Quem se lembra de ir para uma terra estranha, longe de todos os parentes, onde não há as mínimas condições para dar à luz uma criança?
Obstinada, respondo – eu vou !
E pensava – quero que o meu filho nasça junto do pai.
E fui.
À chegada tudo é estranho. Uma cidade não muito grande, cheia de refugiados do país vizinho, que recentemente declarara a independência; gente diferente da que estava habituada a ver…
Tudo é ultrapassado. A alegria de me reunir ao marido sobrepõe-se a todas as dificuldades iniciais, incluindo a do alojamento.
Começamos pelo apart-hotel, dispendioso, mas a única solução.
Decorrido um mês, instalados num apartamento de um prédio ainda não totalmente construído, com os apetrechos indispensáveis - e possíveis – estamos preparados para viver os próximos dois anos.
A gravidez chegara ao seu termo. O bebé começa a dar sinais de que é chegada a hora de aparecer. Contudo, a espera vai ser longa.
Depois de uma noite sem poder descansar, logo pela manhã é chamada a parteira, que declara, peremptória – temos muitas horas pela frente !
Informado do que se passava, o médico, pessoa maravilhosa e amiga, apareceu. Depois de dizer - “ minha filha, o primeiro filho é sempre demorado; está tudo bem, mas vai ter que esperar com calma” – avisou a parteira e uma amiga presente de que gostaria de assistir ao parto.
Entre gemidos e lamentos, passou-se o dia e mais uma longa noite.
Logo pela manhã as coisas precipitaram-se, e o bebé apressou-se a ver a luz do dia.
A parteira atarefada, a amiga dando apoio, a jovem mãe esforçando-se, já sem forças, a criança aparece. Linda ! Um menino !

Um grande abraço da amiga, que chora de alegria!
É então que a parteira se lembra do médico, e do pedido que ele tinha feito para o chamarem quando chegasse a hora. Pede à amiga que vá à sala avisar o marido, que espera em ânsias, para chamar o médico.
Este, ignorando a recomendação que o médico havia feito, e vendo a amiga aparecer lavada em lágrimas, que eram de pura emoção, apanhou um tremendo susto. A custo balbuciou:
– Há algum problema ?
- Não, está tudo bem, já cá tem um menino. Mas vá depressa chamar o médico, por favor.
Só ouviu – chamar o médico. À velocidade que lhe permitia o coração disparado pela ansiedade, corre em direcção ao hospital. Regressa com o médico, que pelo caminho lhe conta o pedido que fizera à parteira.

Em casa, depois de ter visto o seu filho – o mais bonito do mundo ! – e desfeitas todas as dúvidas, pôde, finalmente, sossegar.
Desabou, literalmente, sobre uma cadeira, e deixou que as lágrimas de alegria lhe corressem livremente pelo rosto.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

AMIGAS E AMIGOS

A(o)s querida(o)s amiga(o)s que me honraram com a sua presença na “festa de aniversário” da Casa da Mariquinhas, o meu muito obrigada!

Na impossibilidade de agradecer a cada um individualmente, resolvi dedicar-vos este post como prova da minha gratidão.

Aos poucos, de acordo com a disponibilidade de tempo, irei visitar todos.

Deixo-vos com Oswaldo Montenegro e a sua Lista (de amigos) - Poema abaixo


Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo o dia
Quantos você já não encontra mais

Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar
Quantos amores jurados p’ra sempre
Quantos você conseguiu preservar

Onde você ainda se reconhece?
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora?

Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos, ninguém quer saber

Quantas mentiras você condenava
Quantas você teve que cometer
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você

Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia p’ra sobreviver
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo o dia
Quantos você já não encontra mais

Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

SEGUNDO ANIVERSÁRIO DA CASA DA MARIQUINHAS

A primeira pedra foi lançada em 14.02.08.

Com a vossa preciosa ajuda encontro-me agora no segundo piso.
Vamos construir um arranha-céus? Convosco, tudo é possível. O céu é o limite. Mãos à obra!

Fazendo uma retrospectiva destes dois anos tenho consciência de que este não é um blog que agrade facilmente a toda a gente, assim como comentar alguns posts poderá não ser muito fácil.
Apesar disso, analisando os resultados obtidos ao longo destes dois anos, posso considerar-me uma pessoa afortunada:

Com 191 postagens, quase 24.000 visitas, e 2.809 comentários - 940 em 2008; 1662 em 2009; e 207 em 2010 (não contabilizando as minhas respostas aos mesmos, evidentemente) - penso que tenho motivos para me sentir satisfeita.
Tudo isto eu devo, especialmente, aos meus comentadores que, com palavras de carinho, uns, de estímulo e apreço, outros, me deram coragem para prosseguir, o que cheguei a pôr em dúvida durante os três meses de ausência (26/07 a 25/10/09).

Não vou destacar nenhum(a) do(a)s amigo(a)s que me deram tantas provas de amizade: corria o risco de ser injusta com alguém, coisa que não quero que aconteça.
Englobo todos, portanto, no meu “Muito obrigada”.

(Não posso deixar de referir que ao longo destes dois anos criei mais dois blogs – OLHAI OS LÍRIOS DO MACUÁ em 01/12/08, e
HISTÓRIAS DE ENCANTAR em 01/04/09
o que pode, eventualmente, ter levado a alguma dispersão dos visitantes/comentadores)


E como estamos vivendo tempos difíceis, de grande crise, não farei qualquer festa. Também não comprei nenhum bolo, porque, especialmente as senhoras, não devem comer doces para não perderem o belo físico que ostentam.
Quando muito… uma tacinha de champanhe. A isso é que não se pode resistir :)
Então, tchim, tchim…

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É habitual nas festas de crianças oferecer uma lembrancinha, geralmente guloseimas, aos convidados.
Com apenas dois anos eu posso considerar-me uma criança. (Já houve, até, quem me apelidasse de infantil, o que só pode envaidecer-me). Mas não vou oferecer guloseimas, pelo mesmo motivo por que não comprei bolo: manter a forma impecável das minhas amigas (e dos amigos também…)

Em contrapartida ofereço-vos este selinho. Não é doce, mas leva toda a doçura do meu carinho.

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BEM HAJAM!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XLVII
ÚLTIMO EPISÓDIO

(Ficção baseada em factos reais)
…
- Já estou pronta para passar cá a noite. Agora podes ir tu tomar banho e fazer o tal telefonema. Eu faço companhia à Mãe. Humberto depositou um beijo na testa de Anita, e com um “até já”, retirou-se.

FIM DO EPISÓDIO XLVI
EPISÓDIO XLVII

Chegado a casa imediatamente fez a ligação para o escritório, na Inglaterra, onde o irmão o aguardava, ansioso e preocupado.
Lançou um grito de dor quando Humberto o pôs a par da situação:
- Não pode ser! Tem que haver algum engano. A minha Mãe não pode estar correndo perigo de vida! Por favor, Humberto, diz-me que isso não é verdade.
- Bem que eu gostaria de te dizer que era uma brincadeira de mau gosto! Mas infelizmente é verdade. A Eduarda ainda está com esperança na operação, que está programada para amanhã. Mas, a mim, o médico disse-me claramente que só um milagre poderá salvar Anita. A ti, como homem, acho que não devo esconder nada. Mas aviso-te que vais precisar de muita coragem. Vem o mais rapidamente possível, para poderes vê-la ainda com vida – acrescentou Humberto.
- Vou só passar por casa, agarrar uma maleta e sigo para o aeroporto. E de lá não saio a não ser para entrar no avião. E Tiago desligou o telefone.

No aeroporto tentou todas as companhias, com ou sem escala, pediu, implorou, suplicou, até que conseguiu lugar num avião que iria sair de Londres por volta das 23 horas. Cerca de uma hora e meia depois aterrava em Lisboa.


Com uma leve pancada na porta, e sem esperar resposta, Tiago entrou no quarto da Mãe, passava já das duas da manhã.
Deparou-se com um quadro que, noutras circunstâncias, lhe pareceria enternecedor: a Mãe recostada em almofadas, na cama, Eduarda, vestida, estendida no divã, e Humberto reclinado no sofá. Todos pareciam dormir tranquilamente.
Pé ante pé dirigiu-se à cama de Anita. Esta, pressentindo-o, abriu os olhos. Um sorriso iluminou-lhe o rosto. Sem uma palavra estendeu-lhe os braços, onde Tiago se acolheu.
Reprimindo as lágrimas, murmurou-lhe ao ouvido:
- Mãe, Mãezinha querida… Amo-te tanto, minha Mãe!
Anita apertou-o nos braços com a força que ainda lhe restava. Em seguida chegou-se para um lado da cama, convidando o filho, com um gesto, a deitar-se a seu lado. Passando-lhe um braço por baixo do pescoço, aconchegou-o como fazia quando ele era pequeno.
Tiago deixou-se embalar por aquela sensação tão doce, que o fazia sentir-se uma criança nos braços da Mãe.
Em breve adormeceram ambos, abraçados.

Às sete da manhã a enfermeira dirigiu-se ao quarto de Anita a fim de colocar-lhe o soro, primeira medida preparativa para a cirurgia que iria decorrer dentro de poucas horas.
Abriu a porta sem ruído, e em silêncio encaminhou-se para a cama.
Parou, gelada. Anita encontrava-se com a cabeça ligeiramente descaída para o lado. Pálida, duma palidez mortal, notava-se-lhe no pescoço uma mancha arroxeada, que partia, provavelmente, da nuca. Ao seu lado, com a cabeça sobre o seu braço, Tiago dormia tranquilamente.
Num gesto profissional a enfermeira tomou o pulso de Anita, confirmando o que já sabia: Anita tinha falecido. Pela temperatura do corpo ainda morno, a morte não deveria ter ocorrido há muito tempo.

Mais tarde o médico escreveria na certidão de óbito: causa da morte – rompimento de aneurisma cerebral.


Tratados todos os trâmites legais, o funeral realizou-se no dia seguinte.
Para além do seu grupo de amigas e de Arnaldo, compareceram outros colegas do colégio, muitos dos seus alunos e vários conhecidos e amigos de Vicente.
Tiago e Eduarda, desfigurados pela dor, e Humberto mal conseguindo manter-se de pé, seguiram o caixão de perto.
O sacerdote que acompanhara o féretro procedeu às exéquias fúnebres.
Tudo estava consumado.

Os três “irmãos” dirigiam-se juntos para a porta do cemitério, quando Eduarda estacou, de repente, olhando em frente, em direcção a um mausoléu. Os dois homens pararam também, seguindo-lhe o olhar.
Eduarda murmurou:
- Aquele homem…acolá…não estão a ver?
- Eu não estou a ver ninguém – mentiu Humberto.
- Eu podia jurar que era o meu padrinho, o padre João… – insistiu Eduarda
- Confusão tua, minha querida. Estás muito cansada, é o que é… – respondeu Humberto.
- Não creio que tenha feito confusão. Se não era ele…voltou a insistir Eduarda.
- Fizeste confusão, sim, maninha. Estás a esquecer-te que o padre João está numa Missão em África?

FIM


domingo, 31 de janeiro de 2010

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XLVI

(Ficção baseada em factos reais)
…
Pelo Arnaldo eu tive uma paixoneta de juventude, que na altura se revestiu com a capa do Amor. Éramos ambos muito jovens, sentíamo-nos apaixonados – e talvez existisse mesmo paixão, uma paixão juvenil. Mas não era Amor. Se fosse ter-se-ia reacendido quando nos reencontramos.

FIM DO EPISÓDIO XLV
EPISÓDIO XLVI

Pelo teu Pai senti, quando fiquei grávida da Eduarda, uma gratidão muito grande que, com o tempo se transformou em amizade e, na sua doença, sei que o tratei com o Amor que dedicamos ao nosso próximo.
Finalmente, pelo padre João senti uma grande paixão, sem dúvida.
Porque estava atravessando um período de grande carência? Talvez… Lembro-me que nessa altura me sentia como que vazia, sem um rumo válido na vida… Apareceu o projecto da creche que nos obrigou a uma aproximação muito grande, e…surgiu o que me parecia Amor.

Entreguei-me a esse sentimento de alma e coração, e de toda essa loucura restou apenas uma coisa muito boa – a Eduarda. É através dela que me sinto redimida do mau passo que dei. Por ela, e só por ela, consigo perdoar-me…
- Não deves falar assim, Anita. Não há motivo para sentires que devas perdoar-te. Tenho a certeza que viveste esse relacionamento com toda a pureza da tua alma…
- Na verdade, o que agora me parece uma grande leviandade, na altura parecia-me perfeitamente natural. Qualquer Amor tinha direito a existir, inclusive aquele que não era aceite por Deus nem pelos homens.
Hoje de manhã, ao ouvir-te, fui, ao mesmo tempo, revendo toda a minha vida, uma soma de inutilidades sem sentido, apenas porque fui, ainda bastante jovem, atacada por uma cegueira que me impediu de ver o que estava ao alcance dos meus olhos.
Tendo-te repudiado a princípio, especialmente porque o teu Pai me tinha prometido que não estarias lá em casa quando regressássemos da lua-de-mel, muito em breve me habituei à tua presença.
E comecei a sentir por ti qualquer coisa que não sabia bem o que era, nem me dava ao trabalho de tentar analisar. Sentia-te como se fizesses parte de mim mesma, como um braço ou uma perna. Uma parte sem a qual não se pode viver, ou, pelo menos, não se vive muito bem.
Quando partiste, a primeira vez, para a Inglaterra, pensei que não iria suportar tanta dor. E todas as outras nossas despedidas me foram sempre muito dolorosas.
Anita fez uma longa pausa. Humberto mal conseguia esconder a sua emoção. Pigarreou e disse:
- Minha querida, estás a cansar-te demais. É melhor descansares um pouco. Temos muito tempo para conversar…
- Engano teu. Não temos assim tanto tempo… E, receando que ele percebesse o verdadeiro sentido das suas palavras, rapidamente acrescentou:
- Quero dizer-te tudo antes que Eduarda regresse. Como sabes, nós somos, mais do que Mãe e filha, duas excelentes amigas. O único segredo que tenho para com Eduarda é relativo ao seu Pai. Bom…a partir de agora, vai haver mais este, pois não gostaria que Eduarda soubesse que, exactamente agora, nestas circunstâncias, eu descobri que te amo…
- Anita! Tu amas-me, meu amor!... interrompeu Humberto, com o coração a saltar-lhe no peito.
- Sim, eu amo-te, meu amor. Deixa-me tratar-te assim enquanto estamos a sós.
Sei agora que sempre te amei. Tudo o resto passou pela minha vida sem deixar rasto.
Sabes? Eu nunca deixei de sentir a tua falta, até mesmo nos momentos em que me julguei mais feliz. Pensava, tolamente, que gostaria que estivesses presente para partilhar contigo essa suposta felicidade.
Agora eu entendo que apenas tinha necessidade de ti, de te ter junto de mim, de sentir o teu amor, que eu não me apercebia que existia, mas que me fazia muito bem.
Calou-se, por momentos, para logo acrescentar:
- É muito triste constatar que se passou uma vida inteira com umas palas nos olhos. E agora… agora… tão tardiamente, descubro, enfim, a verdade!

- Anita, meu amor, se soubesses como é importante para mim descobrires que me amas… Teria sido muito melhor se tivesses percebido o meu amor há muito mais tempo, mas…nós não somos nenhuns velhos… ainda faremos muita inveja a quem nos vir passear de mãos dados, como jovens enamorados – respondeu Humberto, esboçando um sorriso forçado.

Um leve tamborilar de dedos na porta advertiu-os da chegada de Eduarda.
Humberto notou que, apesar do banho, ela continuava com aspecto de grande cansaço, os olhos pisados de quem chorara longamente, e o sorriso que afivelara no rosto não conseguia disfarçar a sua grande preocupação.
Dando um beijo na Mãe, puxou a cadeira para junto da cama e disse a Humberto:
- Já estou pronta para passar cá a noite. Agora podes ir tu tomar banho e fazer o tal telefonema. Eu faço companhia à Mãe.
Humberto depositou um beijo na testa de Anita, e com um “até já”, retirou-se.

FIM DO EPISÓDIO XLVI

domingo, 24 de janeiro de 2010

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XLV

(Ficção baseada em factos reais)
…
Pouco depois de a enfermeira ter trazido o lanche, ouviram-se umas pancadas suaves na porta.

FIM DO EPISÓDIO XLIV
EPISÓDIO XLV

Ao convite de Eduarda dizendo “entre”, apareceram os rostos sorridentes das amigas de Anita que vinham acompanhadas de Arnaldo.
Depois de Eduarda ter telefonado, de manhã, para uma delas, juntaram-se, como habitualmente, na pastelaria, onde compareceu também Arnaldo.
Postas ao corrente do que se estava passando com Anita, decidiram ali mesmo ir visitá-la, para o que convidaram Arnaldo, que não se fez rogado.
Anita ficou de tal modo comovida ao vê-los que as lágrimas saltaram-lhe involuntariamente dos olhos.
Eduarda estava quase a arrepender-se de ter telefonado. Admoestou-a, fingindo rispidez:
- Então, Mãezinha, o que se passa? Isso são maneiras de receber as tuas amigas e o teu amigo??? Vão pensar que não gostaste de os ver…
- Gostei, sim, minha querida, gostei muito, embora preferisse vê-los noutro sítio, que não aqui…Mas…já que hoje não posso ir à pastelaria, – acrescentou com um ligeiro sorriso -agradeço muito que tenham vindo vocês até cá.
Sentem-se todos aqui ao pé de mim, quero ver os vossos rostos como se nunca os tivesse visto… ”para os levar bem gravados na memória” – pensou, com amargura.
Todos a rodearam e acarinharam, falando em tom ligeiro, como se não soubessem quão grave era o seu estado de saúde.
Em breve uma lágrima começou a deslizar-lhe pelo canto do olho.

Notando-o, a que era a sua melhor amiga levantou-se, convidando todos os outros a retirarem-se, sob o pretexto de que ainda tinham que ir fazer um trabalho conjunto para a escola.
Arnaldo, depois de a ter beijado na face, como habitualmente fazia, pegou-lhe na mão dando-lhe um beijo – que pressentia ser o último – em que depositou todo o seu antigo amor.
Depois que todos saíram Anita manteve-se em silêncio, prostrada, de olhos fechados, reflectindo o esforço enorme que acabara de fazer.
Eduarda e Humberto entreolharam-se, respeitando o seu silêncio.
A tarde começava a cair. Eduarda falou:
- Mãezinha, eu vou a casa tomar um banho e trocar de roupa, e venho de seguida para passar a noite contigo.
- Não vou mentir e dizer que não me agrada a ideia – respondeu Anita.
Mas não queria obrigar-te a ficares desconfortável…
- Vou ficar até muito bem, Mãezinha. Já estive a apalpar o colchão do divã, e parece-me que até é melhor do que o da minha cama – disse Eduarda, com um sorriso.
Humberto interveio:
- Vai, Eduarda, e procura não te demorares. Eu fico a fazer companhia à tua Mãe, e logo que voltes vou eu a casa. Preciso fazer um telefonema e tomar um banho. Depois voltarei, e passarei a noite aqui, convosco.
Anita olhou para Humberto com um sorriso enternecido, de agradecimento, dizendo:
- Calculo que não adiantará nada eu dizer que me parece um disparate o que queres fazer…
Mas…o divã é estreito, não cabem lá duas pessoas. Vais dormir onde?
- Já reparaste, por acaso, na comodidade deste sofá em que estou sentado? Até se pode estender um pouco e puxar o descanso para os pés. Vai ser uma noite em beleza!
A não ser que estejas com medo que eu ressone… -acrescentou Humberto, em tom que pretendia ser de brincadeira.

Com a recomendação de que resolvessem as coisas da melhor maneira, Eduarda saiu.
Humberto chegou-se para junto da cama e, segurando a mão de Anita, comentou:
- Deves estar exausta! Foi um dia muito cansativo para ti. Primeiro, eu a massacrar-te com a história da minha vida…Depois a visita das tuas amigas… A propósito, gostei bastante do ar do Arnaldo. Tem um aspecto de pessoa séria. Acredito no que ele te contou, acerca de não ter recebido as tuas cartas…
Reparando que Anita fechara os olhos, acrescentou rapidamente:
- Como te sentes?
- Noutras circunstâncias eu diria que foi o dia mais feliz da minha vida – respondeu.
E passando suavemente a mão sobre os olhos de Humberto, continuou:
- Hoje eu descobri que passei uma vida inteira sem saber o que era o Amor.
Os homens que passaram pela minha vida não souberam amar-me, e eu também não os amei.
Pelo Arnaldo eu tive uma paixoneta de juventude, que na altura se revestiu com a capa do Amor. Éramos ambos muito jovens, sentíamo-nos apaixonados – e talvez existisse mesmo paixão, uma paixão juvenil. Mas não era Amor. Se fosse ter-se-ia reacendido quando nos reencontramos.

FIM DO EPISÓDIO XLV

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

VÍTIMA DO TERRAMOTO DE HAITI

Viveu como santa, morreu como mártir

Fundadora da Pastoral da Criança, a médica Zilda Arns dedicou a existência a minorar o sofrimento dos despossuídos e a evitar o desperdício da vida. Até o último minuto.

A ÚLTIMA PREGAÇÃO
Escombros da Igreja Sacré Coeur de Tugeau, em cuja casa paroquial
Zilda Arns proferiu uma palestra antes de morrer

Montagem sobre fotos de Rodolfo Buhrer e Yhony Belizaire/AFP

Nascer mulher em Forquilhinha, Santa Catarina, nas primeiras décadas do século passado significava ser, no futuro, professora ou religiosa.
Zilda Arns, 13ª filha de uma família descendente de alemães, contrariou esse destino por amor. Aos 21 anos de idade, apaixonou-se pelo futuro marido, o então marceneiro Aloysio Neumann, que, chamado para um conserto na casa dos Arns, encantou-se com a jovem que viu na sala tocando piano.
Foi também em nome de outra forma de amor, aquele mais sublime que se devota ao próximo, que Zilda enfrentou a resistência paterna e insistiu em estudar medicina, num tempo em que ser doutor era coisa de homem.
O apoio do irmão, o hoje arcebispo emérito de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, foi fundamental para dobrar a família. "Ele havia estudado na Sorbonne e convenceu o pai de que estavam começando a formar mulheres médicas lá fora", conta Rogerio Arns Neumann, de 39 anos, um dos seis filhos que Zilda teve com Neumann, morto em um acidente no mar aos 46 anos de idade.
Desde que alterou o curso do próprio destino, Zilda Arns não parou mais de mudar o dos outros, a começar por aqueles que a miséria e a ignorância haviam fadado a ter curta duração.
Nos anos 80, por sugestão de dom Paulo, a pediatra e sanitarista aceitou formular um projeto para disseminar o uso do recém-criado soro caseiro, aproveitando a imensa influência da Igreja Católica entre os pobres, e com isso combater o flagelo da mortalidade infantil.
Assim nasceu a Pastoral da Criança, um projeto tão singelo na sua concepção quanto na execução. Consistia em identificar, nas paróquias e comunidades católicas, lideranças que treinariam voluntárias para ensinar mães pobres a adotar o soro. Essa e outras medidas igualmente simples ajudariam a evitar que seus filhos morressem de diarreia, desidratação, contaminação e outros males fáceis de vencer com quase nada de dinheiro e um pouco de informação.
O local escolhido para iniciar o trabalho foi a pequena Florestópolis, no Paraná. Lá, a mortalidade infantil era tão alta que, no único cemitério existente, o número de cruzes de tamanho pequeno, que sinalizavam os túmulos de crianças, superava em muito o de cruzes grandes. Depois do trabalho da Pastoral, a taxa de mortalidade baixou de 127 óbitos em cada 1 000 crianças nascidas vivas para 28. A partir daí, o programa foi sendo exponencialmente replicado até alcançar 72% do território nacional, além de vinte países na América Latina, África e Ásia.
Ao longo dos 25 anos em que esteve à frente da Pastoral da Criança, Zilda Arns visitou os cantos mais remotos do Brasil. Aterrissou em um sem-fim de aeroportos, fez travessias em barcos precários e sacolejou de ônibus por estradas que eram mais buraco do que chão.
Seus olhinhos azuis, sempre radiantes, se acostumaram a ver a pobreza extrema, e seu corpo forte se habituou à contenção e à precariedade.
Três meses atrás, ela esteve no Timor Leste, um dos países em que a Pastoral fincou suas bases e onde auxilia cerca de 6 000 crianças. Lá, como quase sempre, faltava quase tudo, incluindo água corrente na casa em que Zilda se hospedou com Rúbia Pappini, voluntária da Pastoral há vinte anos.
- "Para lavar os cabelos, mergulhávamos a cabeça debaixo da pia e reaproveitávamos a água que escorria para tomar banho de caneca", lembra Rúbia.

Na noite do último domingo, Zilda Arns interrompeu as férias de família para começar mais um pinga-pinga por aeroportos. De Curitiba, onde morava, fez escala em São Paulo e, da capital paulista, seguiu para Miami, nos Estados Unidos, onde pegou outro avião que a levou até o Haiti.
Chegou a Porto Príncipe ao meio-dia da segunda-feira.

No dia seguinte, ela faria uma palestra sobre o trabalho da Pastoral para um grupo de religiosos haitianos, num edifício de três andares em frente à igreja Sacré Coeur de Tugeau.
Foi ao fim dessa palestra que se deu o terremoto. Quem descreve o ocorrido é o tenente Paulo Cézar Acebedo Strapazzon, que havia sido convocado para traduzir para o francês a fala da médica, esperada no 3º andar do prédio por 120 sacerdotes.
Zilda chegou com quarenta minutos de atraso por causa de um engarrafamento no trânsito. A tradução acabou sendo feita por um civil haitiano que viera com o tenente e falava o crioulo, dialeto local, de compreensão mais fácil para a plateia.
Faltavam quinze minutos para as 5 horas quando a médica terminou sua palestra. A plateia deixou a sala, mas alguns padres se aproximaram de Zilda para fazer-lhe perguntas. Nesse momento, o tenente perguntou à médica se ainda poderia ser úti. Ela respondeu que mais tarde precisaria de ajuda para traduzir alguns manuais.
Strapazzon desceu os lances de escada até o térreo, entrou em seu jipe, deu a partida, e então viu todos os prédios desabar ao seu redor. Os três andares do prédio transformaram-se em um amontoado de pedras e vigas de metal.
Zilda Arns morreu na hora, atingida na cabeça por uma viga do teto que desabou. Outros quinze religiosos que estavam na sala morreram também.
O corpo da médica chegou na sexta-feira a Curitiba, onde foi transportado em carro aberto – e aplaudido por pedestres que paravam à sua passagem.

DESPEDIDA DA MISSIONÁRIA

O velório de Zilda Arns em Curitiba (no centro, o arcebispo de Salvador, dom Geraldo Majella): seu trabalho mudou o destino de milhões de crianças.

Zilda Arns tinha 75 anos, um terço dos quais consagrados aos despossuídos e à tarefa de celebrar o caráter sagrado da vida – o que ela fez em cada uma das infinitas vezes em que ajudou a evitar seu desperdício.
Com gestos miúdos, persistência de formiga e fé colossal, construiu uma epopeia silenciosa que mudou a face do Brasil e o destino de milhões de pessoas. Sua vida teve a grandeza da de uma santa – e à sua obra pode-se dar o nome de milagre.