quinta-feira, 16 de outubro de 2008

BALADA PARA OUTRAS ISABELLAS

Olá! Eu vim lhe contar um pouco da minha história...
Peço atenção, seu “dotô”, um instante, não demora...

Meu nome não é Isabella nem “caí” de uma janela do quarto no sexto andar...(será que pensaram, os insanos, que ela sabia voar?)

Não moro num prédio equipado, não tenho motos, brinquedos, nem piscina pra nadar...
Eu brinco, às vezes, nas poças de chuva, com gatos, latinhas, bolinhas de gude...isso quando não tenho que a mãe ajudar...

Não sei dançar, e não brinco como menina educada, porque aprendi, desde cedo, lá no morro onde nasci, que não importa o sexo da criança: menino ou menina, a experiência, é viver o teatro da sobrevivência...

Não me chamo Isabella... nem fui morta (ainda) por meu pai ou madastra...mas morro um pouco, a cada dia, quando sou espancada.
E morro também,assim, engasgada, obrigada a me calar quando tenho mãos sobre mim...nem sempre a me sufocar, mas explorando, de um jeito esquisito, que nem entendo direito,no meu corpo sem contornos...

Meu nome ,não é Isabella...
Não tenho cabelos lisos,nem tenho olhinhos espertos...
Ao contrário: meus olhos são opacos, talvez, por não querer enxergar
minha dura realidade...

Também não faço teatros, lá no palco da escolinha... isso não é para mim...
Quando vou à escola, é somente p’ra comer a merenda que me dão... pois muitas vezes, em casa, não temos sequer o pão...

O máximo que sei é correr: morro abaixo, morro acima, entre os carros dos sinais...para ganhar um trocado, ou para fugir dos adultos, que insistem em me machucar...

Eu não me chamo Isabella...mas, como ela, (ou até mais!) eu sofro... e diariamente...
Tenho marcas de pancadas, queimaduras de cigarros, tenho ossos fraturados, boca sangrando, hematomas, que mãos e pés gigantescos
me provocam sem motivo...

Não morri, como Isabella...
Ainda não... mas irmãos, amiguinhos, conhecidos, eu sempre vejo morrer...
Quem matou? Nunca se sabe...”ele caiu”, “tropeçou”,”queimou-se por acidente”.
“Estrupada?”, “coitadinha”...
“Não fui eu”, diz o padrasto; “nem eu”, diz a mãe omissa...
E eles não têm nem quem reze para eles, uma missa...

Eu não me chamo Isabella...sou Maria, Rita, João…
Sou Josefina, sou Mirtes, sou Paulo, Sebastião...
Sou tantas, tantas crianças, que todo dia a omissão de todos deixa morrer...



Engraçado é que ninguém, faz passeata por mim, a imprensa não divulga, o “figurão” não se importa, a classe média não grita, os ricaços dão de ombros...
Que hipocrisia é essa, de chorar por uma só?
São tantas as Isabelas violentadas sem dó...

Mas que importam os escombros, a escória da sociedade?

Se não me chamo Isabella, não mereço piedade.

Recebi por email, de um amigo brasileiro.
Sem comentários!

28 comentários:

A. João Soares disse...

Cara Mariazita,
A humanidade está louca e despreza as crianças que são um tesouro muito valioso, o germe da futura sociedade, aqueles que terão o encargo de dar continuidade ao mundo por onde estamos a passar.
A culpa não é delas, é da nossa geração que as está a preparar de forma errada e a dar-lhes tão maus exemplos. Cada um de nós deve assumir uma quota parte das culpas e fazer o máximo que puder para reparar os erros que têm sido feitos pelo ser humano.
Parabéns por este post
Beijos
João

Meg disse...

Mariazita,
Este texto é mais que um soco na consciência de muita gente, mas esses provavelmente não lêem este post.O problema dos maus tratos às crianças devia ter muito maaid atenção da parte da sociedade e principalmente da Justiça. Para que os criminosos fossem penalizados de forma a dissuadir os potenciais agressores.

Um abraço

Mariazita disse...

Querido amigo João
A primeira vez que li este texto fiquei muito incomodada.
Tudo o que se relacione com violência exercida sobre as crianças causa-me uma grande revolta.
Procuro sempre denunciar tudo de que tenho conhecimento.
É uma forma, ainda que modesta, de alertar quem de direito para o assunto.
Tenho uma boa noite.
Beijinhos
Mariazita

Mariazita disse...

Olá, Meg
Não foi um soco na consciência, mas uma espécie de soco no estômago o que senti com este texto.
Como é possível seres ditos humanos maltrarem assim as crianças???
Porque não exercem toda essa violência em criaturas iguais em força e tamanho???
Porque são uns cobardes repugnantes!
Até quando?
Beijos
Mariazita

daniel disse...

Marazita

E são tantas as Isabelinhas deste mundo, num novo século, em que a a fome a falta de condiçóes sanitário o despudor, a impiedade, tudo devia estar já banido.
De vez e vemos textos, como este, que revoltam porque põem a nú uma faceta humana, que podia ser atenuada, se os opolíticos, não andassem apenas cupados com aquilo que pode render votos.
Enfim um mundo demasiado sombreado!...
Beijo,
Daniel

Mariazita disse...

Caro Daniel
É, de facto, inadmíssível, que no século XXI ainda existam tantas "Isabelas"!
Se, em vez de pensar em guerras pelo poder, o homem (humanidade) se preocupasse mais com os valores morais e os direitos humanos, que andam tão resprezados...o mundo seria melhor.
Beijinhos
Mariazita

Giselle disse...

Mariazita,
uauuuuuuuu !!!
Que texto, amei !!!
E concordo plenamente só vai a mídea quem tem dinheiro, e a mídea não vai em cima de quem realmente necessita, precisa do veículo, precisa de ajuda...
Estou cansada de ver o DESCASO, de ver o ABSURDO ...
Sim, cansada eqto isso só se fala de coisas que não são precisaas, e o que realmente precisa a mídea se cala ... não ajuda, cruza os braços ...
Beijo enorme e lindo fim de semana

titofarpas disse...

Parabéns pelo texto... dá muito que pensar...
Pena que continuem a haver tão poucas Isabellas no mundo.
Bom fim de semana.
Beijo

Mariazita disse...

Querida Giselle
Infelizmente é mesmo assim.
A comunicação social apresenta muitas desgraças, mas só acontecimentos actuais, os chamados "furos jornalísticos".
Os casos das "outras isabelas" são antigos, são assim mesmo, para quê perder tempo com eles???
Beijinhos
Mariazita

Mariazita disse...

Olá, Titofarpas
De facto, este texto dá mesmo que pensar...
A crueldade de que são capazes algumas pessoas não tem limites.
E, infelizmente, NÃO HÁ quem lhes ponha rédeas!
Beijos
Mariazita

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Vim te desejar um bom final de semana, amiga!
Acredito que as Isabellas vieram ao mundo para que pudéssemos parar e refletirmos na nossa condição humana; cumprem a sua missão e retornam para os braços do Criador. Beijos, Mariazita!

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Mariazita:
Fiz nova postagem sobre um filme bonito e não deprimente como o Requiem. Gostaria que fosse vê-la.
Beijos,
Renata

Giselle disse...

Oi queridaaaa...
amei seu comentário lá em meu blog, fico súper feliz qdo vc entra em meu mundinho ...
E estou aqui para responder sua pergunta.
A escova progressiva é um método de alisamento de cabelo.
Um produto químico é passado, se seca com o secador e logo após passa a chapinha para o cabeol realmente ficar lisíssimo.
Não pode lavar o cabelo durante 3 dias para o produto penetar nos fios.
Nós brasileiras amamos, tanto é que é súper comum hj em dia se fazer a escova progressiva.
E vc só retoca após 3 ou 4 mêses ...
O produto que passa no cabelo é a base de formol, o cheiro é súper forte, mas o resultado compensa.
Há muitas especulações que se faz mal, mas até hj não houve nenhuma mostra do que realmente pode acontecer.
Eu já faço há 3 anos e nada me aconteceu.
Minha querida, tenha um lindo fim de semana.
Súper imenso beijos

Espaço do João disse...

Mariazita.
Como podes verificar aqui me encontro a desejar-te um bom fim de semana. Aparece sempre que quizeres ao meu espaço , pois será um prazer conhecer mais uma amiga virtual. Aprende-se e continuaremos a aprender uns com os outros nem que seja o desenrolar da vida. Um afectuoso abraço João.

Oliver Pickwick disse...

De tão afiado, o texto corta até consciências. Leis mais severas por certo minimizariam esta chaga social.
Um beijo!

Mariazita disse...

Querida Vanuza
São almas que vêm ao mundo só para sofrer, pobrezinhas.
Felizes das que rapidamente viram anjos; é a forma de se lhes acabar o sofimento.
Beijinhos
Mariazita

Mariazita disse...

Oie, Renata.
OK.
Bjs
Mariazita

Mariazita disse...

Querida Giselle
As coisas que uma pessoa aprende!
Nunca vi cá nada igual, nem ouvi falar.
Obrigada pela informação.
Beijinhos
Mariazita

Mariazita disse...

Olá, João (do Espaço)
É verdade que a troca de informações é muito útil. É uma forma de aprendizado fácil e económica...
Uma boa semana também para ti.
Beijo com carinho
Mariazita

Mariazita disse...

Oi, Oliver
A intenção é mesmo essa - cortar (ou acordar) consciências.
Leis mais rigorosas, sim, mas principalmente pô-las em prática...
Bjs
Mariazita

ANA DINIZ disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ANA DINIZ disse...

Dói. Dói, querida. Faço campanha contra pedofilia nos meus blogues, mas ainda é pouco demais... São tantos problemas envolvendo crianças: fome, miséria, violência em casa, nas ruas, defasagem na saúde, na educação... Sei que estou devendo muito para Deus, que devo melhorar como gente e fazer um trabalho voluntário, mas é que estou começando minha caminhada agora na espiritualidade... Mas, como nada justifica omissão, estenderei a mão para o voluntariado em breve. Deus apontará o caminho, se é com crianças, velhos ou doentes. Sinto uma grande missão com os doentes, pela minha experiência anterior, como te falei.

Obrigada por tocar-me tanto no dia de hj, e sempre.

Beijos, Ana.

stériuéré disse...

Amga Mariazita, este post está prfundamente realista. Quantas Isabellas existirão pelo mundo fora?
Quantas mais terão de aguentar tudo isto?
Por mim , não seria mais nenhuma, mas para isso teria eu de ter em mão tudo o que se passa por esses escombros fora. Muitos beijinhos , adoro as suas histórias, fazem-me arrepiar.
Obrigada pelos comentários no blog.Adoro.

Mariazita disse...

Querida Sté
Infelizmente, são muitíssimas, as "Isabelas".
São situações revoltantes, dão "volta ao estômago", eu sei!
Ai se tivéssemos poder para isso!, não é???
Não temos. O que podemos - e devemos - é denunciar estas situações, fazer muito barulho. Talvez assim chegue aos ouvidos de quem detém o poder.
Beijinhos, querida.
Mariazita

Mariazita disse...

Ana, querida, perdoa!
Não tinha reparado no teu comentário -:(((
Qualquer espécie de violênia exercida sobre as crianças, seja fome, abandono, maus tratos, abuso sexual, causa-me uma gande revolta.
Quando as vítimas são adultos, é revoltante; tratando-se de crianças, indefesas, é INADMISSÍVEL! Revolta-me!
Temos que lhes dar a maior publicidade e divulgação possível, já que, infelizmente, pouco mais podemos fazer.
Beijo grande
Mariazita

lisieux disse...

Mariazita, olá!
Legal ver tanta gente comentando e gostando do meu texto!
Pena que meu nome não apareça nele!
Eu sou a autora do texto, que eu nem sabia que havia saído no Jornal do Commercio (se é que saiu, foi sem a minha autorização).
Portanto, amiga, gostaria de lhe pedir o favor de colocar o meu nome nele, combinado?
Sou pastora Metodista, teóloga, escritora e poeta, moro em BH e escrevi o texto justamente porque trabalho com crianças carentes que são maltratadas diariamente e ninguém faz nada!
Assino meus poemas como lisieux simplesmente, mas meu nome é Terezinha de Lisieux Batista Souza.
O texto está no site da Universidade Metodista de São Paulo.
Bjokas e carinho
lis

Mariazita disse...

Olá Teresinha, ou Lisieux, ou simplesmente Lis - como preferir.

De facto o seu nome não consta como autora do texto deste post, já que o recebi dum amigo brasileiro, que mo enviou por email, sem indicação de autoria.

Tenho por norma indicar sempre os nomes dos autores, qunado os sei, ou pôr: autoria desconhecida.
Neste não pus essa indicação, mas a verdadeé que não o atribuí a ninguém.

Quis visitar o seu blog para lhe prestar este esclarecimento, mas o seu blog não está acessível. Gostaria de poder visitar o texto no site da Universidade Metodista de São Paulo, mas não consigo localizá-lo. Será que me pode informar de que modo posso encontrá-lo lá?
Desde já muito obrigada.
Um beijo
Mariazita

PS - O que digo da Universidade Metodista refere-se ao texto. O site da Universidade encontrei; o que não localizei foi o texto nem o seu nome.

lisieux disse...

Olá, amiga.
O link para a Faculdade de Teologia da UMESP (Universidade Metodista de São Paulo) é: http://www.metodista.br/fateo - entre em "ex-alunos" (quando enviei o texto para a Faculdade, já era pastora)e verá: reflexão enviada pela ex-aluna Terezinha de Lisieux... etc - e lá encontrará o meu poema.
Ele também está no meu blog do ano passado: http://blueeyesvi.blogspot.com (o que vc não conseguiu acessar é o blueeyes7, deste ano, que também tem o poema publicado). Mas, mesmo que não fosse possível encontrá-lo com o meu nome em lugar algum na net com o meu nome, estou dizendo que o poema é meu e está registrado na Biblioteca Central de BH, de acordo com a Lei dos Direitos Autorais.
bjokas
lis