sábado, 1 de junho de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS X


SEGREDOS – CAPÍTULO X



SEGREDOS – CAPÍTULO X

CAPÍTULO IX
“…Mas enfim, ela lá terá tido as suas razões para guardar segredo.
E… quem é que não guarda algum segredo da sua vida qua não revela a ninguém? Infelizmente sei-o bem, por experiência própria…”
Ruminando estes pensamentos acercou-se do prédio onde morava. O Tejo, pressentindo-a, começou logo a raspar o chão por detrás da porta… “

CAPÍTULO X
Nanda teve alguma dificuldade em abrir a porta tal era a ansiedade do Tejo do lado de dentro. Quando por fim conseguiu entrar quase era derrubada por ele. À manifestação de alegria juntava-se a necessidade de ir aliviar a bexiga; Nanda não perdeu tempo – foi de imediato buscar a trela e saiu rapidamente.
Tejo conhece perfeitamente o caminho para o parque. A pressa de lá chegar leva-o a quase arrastar Nanda, tal é a força que exerce sobre a trela. Não há como resistir. O melhor é deixar-se levar…
A verdade é que o pobre cão estava tão aflito que, mal se apanhou na rua, alçou a perna no arbusto mais próximo, não tendo já capacidade vesical para aguentar até à árvore que normalmente regava com os seus fluídos urinários. Agora, aliviado do mais urgente, continua com pressa de chegar ao parque. Ele lá sabe porquê… O seu faro não o engana, e emite-lhe sinais a longa distância.
Arrastada pelo animal, Nanda acabou por quase chocar com a vizinha do 1º.esquerdo, Adelaide, também ela dona de um canídeo, mas do sexo oposto.
A Diana era uma cadelinha que vivia apaixonada pelo Tejo, o qual correspondia, com fidelidade canina, a esse amor.
Feitos os cumprimentos, das donas e principalmente dos seus estimados animais, estes, com encostos de focinhos e outras expressões de afecto, preparavam-se para ir mais longe nas suas manifestações, mas foram severamente interrompidos pelas respectivas donas que, de momento, não estavam com disposição para lhes permitir grandes efusões.
Puxando-os com força pelas trelas conseguiram que se afastassem. Os pobres animais, contrariados, tiveram que obedecer, mas ficaram mirando-se um ao outro, com um ar muito desconsolado e infeliz.
Conversando animadamente Nanda e Adelaide tentam pôr a conversa em dia, pois, apesar de viverem no mesmo prédio há muitos anos, não se encontram com muita frequência.
Adelaide trabalha como recepcionista num consultório médico, das 13 às 21 horas, o que a faz regressar bastante tarde, com a maioria dos vizinhos já recolhidos em suas casas.
Dá-se bem com toda a vizinhança. É uma mulher muito simpática e gentil por natureza, e talvez o facto de ser bombeira voluntária, a faça ser ainda mais atenciosas com toda a gente.
Gosta muito de Nanda e não perde nenhuma oportunidade de conversar com ela. Por isso ficou muito contente quando a viu aparecer no parque “conduzida” pelo Tejo…
Caminhando lado a lado, cada uma com o seu animal firmemente preso pela trela, começam por falar do netinho da Nanda, que esta espera ter junto de si muito em breve.
Afastam-se para o lado para darem passagem a um grupo de crianças pequenas, em idade pré escolar, que seguem duas a duas, precedidas por uma educadora, que leva, segura pela mão, uma mais pequenina. A fila de meninos e meninas termina com a presença de uma outra adulta, que, na retaguarda, presta atenção para que nenhuma se desvie. Parecem um bando de pardais, nos seus bibes coloridos, chapelinhos a condizer, falando alto e rindo alegremente.
Nanda olha-os, extasiada, e comenta:
- Adoro crianças! Não me importaria nada de trabalhar numa Escola Infantil…
- São realmente encantadoras. Eu também gosto muito. – responde Adelaide - Mas não estou a ver a Nanda, com a sua formação escolar, enfiada numa escolinha… Penso que depois de algum tempo sentiria a falta de algo mais desafiante…
- Pois fique sabendo que, quando fiz a Faculdade, ainda hesitei entre “Gestão e Administração”, que foi o que segui, e o “Ensino”. Sempre tive esta paixão, desde muito nova.
- Não fazia a mínima ideia… Sempre a vi como uma mulher de negócios – comentou Adelaide com um sorriso.
- Na vida temos que fazer opções… e eu, para o bem e para o mal, decidi-me pela parte dos negócios. Mas pode haver alguma coisa mais importante do que ver desabrochar a mente de uma criança? – respondeu Nanda, com um ar de encantamento.
- Bem, visto por esse prisma… até parece bastante aliciante… - Adelaide olha para Nanda como se a visse pela primeira vez.
- Pode acreditar que é. Uma criança é um projecto de vida, no qual o professor pode ter - e tem! - uma importância enorme!
- Sim, sem dúvida. Embora eu seja uma leiga no assunto, penso que ao professor cabe a tarefa de moldar esse projecto… - adiantou Adelaide.
- Não concordo, minha amiga. Isso seria muito fácil. Já Bernard Shaw, que faleceu em 1950, com 94 anos de idade, deixou escrito: - O mais vil deformador é aquele, que tenta moldar o carácter de uma criança.   
Uma criança é um ser muito importante, ainda em desenvolvimento. Cabe ao professor, não moldar o projecto que a criança representa, mas sim fornecer, a cada uma, todos os meios necessários para que ela própria consiga moldar-se a si mesma, e construir o seu caminho.
- Nanda, minha amiga, isso não me parece nada fácil…
- Não, não é fácil, mas para que a criança possa vir a ser uma pessoa livre, com capacidade para escolher o que quer fazer na vida, que saiba dizer sim e dizer não… é preciso que o professor lhe forneça as ferramentas necessárias. Porque não há duas crianças iguais, não há um molde que sirva a todas… - Nanda falava com um ar sonhador.
- Deixe-me dizer-lhe uma coisa: a Nanda sabe que eu gosto muito de falar consigo, e nunca perco uma oportunidade de o fazer. Mas… hoje, particularmente, estou a adorar ouvi-la. Está a fazer-me ver as coisas duma maneira nova, que me agrada muito. Até parece que estou sentadinha na escola lá da minha aldeia onde passei a infância, e onde a professora era uma senhora que respeitávamos muito – Adelaide ostentava um sorriso de satisfação.
- Fico muito contente por ouvir isso, Adelaide. Antigamente havia pelos professores um respeito muito grande. Hoje as coisas são muito diferentes.
No tempo da minha Mãe, por exemplo – segundo ela me contava – as crianças só iam para a escola quando tinham sete anos. Muito excepcionalmente poderiam ir – se o professor concordasse – quando tinham seis anos, se completassem os sete até ao dia 31 de Dezembro. Aos poucos foi-se encurtando a idade; quando eu fui para a escola primária já o fiz com seis anos; presentemente os encarregados de educação podem requerer a matrícula no primeiro ano, para as crianças que completem os seis anos até ao fim do ano, ou seja, podem entrar para a escola com cinco anos.
Isto parece-me um absurdo. Quando é que as crianças têm tempo para ser crianças? Aliás, elas vão para os infantários quase que acabadas de nascer…
Eu percebo que a vida que se vive actualmente exige que os dois pais trabalhem para sustentar a casa. Isso reverte em desfavor dos filhos que não podem ter, da parte dos pais, o acompanhamento que tão necessário é, especialmente durante o período de formação das crianças. Essa tarefa, tão importante, e que deveria ser exercida pelos pais – volto a frisar – é relegada para os professores. Estes, por sua vez, não têm, normalmente, condições para ensinar, educar, e formar. Turmas com um número exagerado de alunos, horários demasiado carregados – tanto para alunos como professores – resultam em completa exaustão para os professores e saturação para os alunos. E, claro, o aproveitamento escolar não é, muitas vezes, o mais desejável.
 Nanda foi interrompida por Adelaide:
- É fantástico o ar sonhador com que a Nanda fala…
- Talvez porque, enquanto lhe enchi a cabeça com tanta conversa – respondeu, sorridente – eu estava a imaginar-me no papel de professora. E, para além de um profissional competente, independentemente da matéria que ensina, o professor tem que ser um sonhador.
- Um sonhador? – estranhou Adelaide
- Sim, A educação sem sonho nunca será satisfatória para nenhum dos intervenientes. A escola, logo de início, é invadida pelos sonhos das crianças, os alunos. E o professor que não saiba acompanhá-los nesses sonhos… jamais será um verdadeiro professor…
Embaladas pela conversa nem se aperceberam que já tinham percorrido a distância entre o parque e a casa onde moravam.  
Despedindo-se, Adelaide subiu para o 1º.andar e Nanda entrou no rés-do-chão, de novo puxada pelo Tejo, desta vez ansioso por matar a sede.
Ainda no hall de entrada pareceu-lhe ouvir a voz do vizinho do 2º.andar esquerdo, o Joaquim, um viúvo dos seus 60 anos, que adora implicar com Adelaide, e até parece estar sempre de tocaia, esperando que ela apareça.
Nanda sorri pensando, como sempre, que ali anda paixão encoberta…
Seguindo o exemplo do Tejo também ela vai saciar a sede e, cansada do longo passeio, sentou-se no sofá da sala, rememorando a conversa que tivera com Adelaide. Como consequência lógica, lembrou-se de Alessandro e das vezes que com trocara impressões sobre o mesmo assunto. Mas isso só aconteceu algum tempo depois de se conhecerem…
***
[Depois do “encontrão” que lhes permitiu o primeiro contacto, Alessandro insistira com Nanda para que fosse jantar com ele…
- Por quem me tomas tu? Achas que eu ia aceitar jantar com uma pessoa que acabei de conhecer, que, além do mais, me ia quase matando?
- Mas que exagerada! Apenas te dei um lieve tocco, e tu já falas em mortos e feridos? Mamma mia! - Alessandro falava com o seu forte sotaque italiano, agora com um misto de espanto e indignação.
- Ligeiro encosto? Tu tens cá uma lata! Imagina tu a deitares-me ao chão com o encontrão que me deste… Eu podia ter caído, e esse teu corpanzil em cima desta frágil criatura… esborrachavas-me, tenho a certeza. – Nanda parecia querer esticar a conversa, sem ela própria entender bem porquê. Alguma coisa a fazia reter naquele lugar…
- Mais um exagero teu- Essa tua fragilidade é só aparente, pois pareces-me uma pessoa até muito forte. – respondeu Alessandro, continuando: Mas não respondeste ao meu convite… Aceitas jantar comigo? Se não quiseres jantar… pode ser almoço. Vá lá! Será uma forma de me redimir de qualquer dano que te possa ter causado.
Nanda não respondeu de imediato. Se a razão lhe dizia que não devia aceitar… qualquer coisa a impulsionava a dizer sim. Para desviar o assunto declarou:
- Eu vou encontrar-me com uma amiga, que foi à Universidade, para irmos almoçar. E ela já se aproxima… portanto, adeus!
- Addio no! Per favore! Acabo de ter uma ideia: Porque não almoçamos os três? – sugeriu, rapidamente, Alessandro.
- Mas tu és sempre assim, tão persistente? Não, não podemos almoçar os três. Tenho assuntos particulares a tratar com a minha amiga.
- Claro! Desculpa o meu atrevimento – disse ele, com ar contrito.      Mas não me afasto de ti enquanto não prometeres jantar comigo – acrescentou, adoptando um ar suplicante.
Nanda sentia grande dificuldade em resistir-lhe. Resolutamente arrancou uma folha do bloco de notas que trazia consigo, e escreveu o seu número de telefone. Entregou-lha, dizendo:
- Telefona-me!
E afastou-se rapidamente, sem olhar para trás, mas pensando: “Será que ele vai telefonar?”
Bela aproximava-se em passo ligeiro, pelo que, em poucos minutos, estavam juntas.
- Tenho todas as informações de que precisamos – disse Bela, depois de se terem abraçado e beijado efusivamente, como era habitual nelas.
- E anotaste tudo para eu ver, espero…
- Não, não anotei nada, e já me esqueci de tudo – respondeu Bela, com uma gargalhada.
- Que engraçadinha! Só não levas já um tabefe porque estou muito bem-disposta…
- Na verdade estás muito sorridente. O que te aconteceu? Ganhaste na lotaria? – perguntou Bela.
- Mais ou menos – respondeu Nanda, com um sorriso de orelha a orelha. Conheci um príncipe encantado…
- E isso aconteceu-te enquanto vinhas ao meu encontro? Não sabia que os príncipes encantados andavam por aí “à fartazana”… Onde foi que o encontraste? – perguntou Bela. Quero ir já a esse sítio para ver se encontro algum para mim…
- Ao virar da esquina. Deu-me um encontrão que quase me derrubou… - informou Nanda, sorridente.
- Imagina se em vez de um príncipe fosse um “ gigante encantado” – comentou Bela, com uma gargalhada.
- Não, não era um gigante, mas era bastante alto. Foi a mais linda visão que já tive… Uns olhos azuis do outro mundo – respondeu Nanda, com um ar sonhador.
- Muito me contas… E, pelos vistos, o senhor Cupido andava pelas redondezas…
- És completamente parva! Achas que o “VER-TE E AMAR-TE FOI OBRA DE UM MOMENTO” liga comigo? – perguntou Nanda.
- Realmente… não é costume… Tu até és muito esquisitinha, bem difícil de contentar … Mas, como para tudo há uma primeira vez, quem sabe se a tua “primeira vez” não é esta? - Bela continuava a rir.
- Vai gozando, que logo ajustamos contas – Nanda aderiu à brincadeira.
Conversando alegremente e caminhando num passo estugado, em breve chegaram ao restaurante. Sentaram-se, fizeram o pedido, e começaram logo a falar do assunto que as levara a almoçar juntas.]
***
O toque do telefone interrompeu os seus pensamentos. Contrariada, Nanda levantou-se e viu, no visor, que a chamada era do Tó Zé. Naquele momento teria preferido continuar a recordar o passado tão distante. Já haviam decorrido 30 anos! Mas na sua memória tudo continuava muito nítido, como se o estivesse vivendo de novo…
Clicou no “atender” e ouviu do outro lado a voz inconfundível do seu ex-marido:
- Por onde anda a flor mais linda do meu jardim, que demorou tanto tempo a atender?
Nanda sentiu um friozinho na barriga ao ouvir aquela voz carregada de mel…

Maria Caiano Azevedo

quarta-feira, 1 de maio de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS IX


SEGREDOS – CAPÍTULO IX

 
“- Realmente, não se compreende que uma pessoa, com formação superior, especialmente na área de gestão financeira, tenha tanta dificuldade em arranjar trabalho…
Foi ao ouvir isto que eu pensei:
- Ora aí está a pessoa que eu procuro! “

SEGREDOS – CAPÍTULO IX

“Como eu não disse nada, ele continuou:
- O que se passa é que eu regressei há pouco do estrangeiro onde tenho vivido. E, como tive a sorte de a vida me correr bem, consegui fazer umas economias que pensei aplicar na terra onde fui criado, ou seja, esta onde nos encontramos.
Tenho feito várias diligências no sentido de abrir um negócio. Para isso, obviamente, vou precisar de pessoas que colaborem comigo. Uma, pelo menos, terá que ser bem qualificada para poder ficar à frente do negócio sempre que eu tiver que me ausentar, o que, em princípio, acontecerá, pelo menos, uma vez por mês.
- E o Sr. Engenheiro já tem alguma coisa em vista? Algum negócio… quero eu dizer…
-Antes de mais nada, por favor, acabe com esse tratamento de Sr. Engenheiro… - disse ele rapidamente.
- Mas… - eu ia justificar-me, mas ele interrompeu:
- A não ser que exija que eu a trate por Sr.ª Doutora… o que, noutras circunstâncias, seria perfeitamente justo até porque, tanto quanto me apercebi, as suas qualificações são maiores do que as minhas…
- Isso eu não sei… Mas não, de modo algum, não gosto que me tratem por doutora. Eu até me esqueço que tenho um canudo – respondi com um meio sorriso, involuntário.
- Eu compreendo-a, mas olhe que às vezes é bom não o esquecer. Infelizmente há pessoas com quem contactamos que têm tendência para abusar, e é preciso pô-las no seu lugar – dizia isto com um ar meio ausente, como se estivesse a lembrar-se de algo acontecido. Depois continuou, com toda a naturalidade:
- Então… esse pormenor da “doutora” e do “engenheiro” já está ultrapassado. Tratamo-nos por você, e apenas pelo nome. Concorda?
- Não vejo inconveniente…
- Sendo assim, Nanda, - posso trata-la assim ou prefere Fernanda?
- Nanda está perfeito. São tão poucas as pessoas me tratam por Fernanda que até me esqueço que é esse o meu nome… - respondi eu, meio a sorrir.
- Então… Nanda, podemos falar de negócios? – agora o seu tom era cem por cento profissional.
- Podemos, sim, embora eu tenha que analisar muito bem a sua proposta – que o senhor ainda não fez – e só depois disso lhe darei uma resposta – respondi eu, na defensiva.
- Ai, ai, ai… “o senhor”? Então não combinámos tratarmo-nos pelo nome? Trate-me por Araújo. O meu nome é Fernando Manuel Carvalho Araújo, mas gosto que me tratem simplesmente por Araújo.
- Tudo bem, Araújo. Posso então saber qual é a sua proposta? – perguntei, também em tom completamente profissional.
- Bom, Nanda, por enquanto não posso adiantar muito. Eu quis contactá-la já apenas para a pôr de sobreaviso, não fosse aparecer-lhe alguma oportunidade de trabalho, e eu perder a sua colaboração. O que posso dizer para já – e peço-lhe que não faça uso desta informação, pois, como sabe, o segredo é a alma do negócio – acrescentou com um meio sorriso – eu estou em negociações com o dono da ourivesaria do Centro Comercial, a “Orvalho de Ouro”, no sentido de ele me vender tudo, isto é, o espaço (a loja é dele) e o recheio. A dificuldade de acerto está em que ele é também dono da outra ourivesaria, a “Orvalho de Prata”, e não quer desfazer-se de uma separadamente da outra…
Como a Nanda pode calcular desse modo o investimento seria enorme, e eu tenho um certo receio de que não compense… Está em jogo um valor bastante avultado… e em negócios é preciso ter os pés bem assentes na terra…
- Tem toda a razão, é preciso ponderar bem e não se atirar de olhos fechados – respondi.
- No meio de tudo isto a certeza que eu tenho é que, se a Nanda aceitar trabalhar comigo, terá uma remuneração condigna. Mas como eu não faço caridade – acrescentou, meio a sorrir - as suas responsabilidades também serão grandes… Eu pago bem mas exijo… - frisou
Eu apenas respondi:
- Parece-me justo. Nem eu me sentiria bem a receber o que não merecesse…
- Eu tinha razão quando pensei em apostar em si. Algo me dizia que a Nanda era a pessoa certa para tomar conta do meu empreendimento.
De qualquer modo, se o negócio da ourivesaria não se concretizar, já tenho outra coisa debaixo de olho…
E rematou:
- Por agora ficamos assim. A Nanda vai pensando na hipótese de que lhe falei, vai amadurecendo a ideia, e logo que eu tenha algo de concreto – que espero não demore muitos dias – voltamos a contactar. “
- E pronto. Cumprimentou-me e foi-se embora. Ah! – acrescentou Nanda com um sorriso – e pagou os cafés…
Bela, fazendo o gesto de bater palmas, aplaudiu, em silêncio, muito séria. Depois disse, tentando disfarçar o tom manifestamente ciumento:
- Aplausos para a doutora Fernanda, que conseguiu conquistar um desconhecido!
- Porque é que eu vejo nas tuas palavras um mal disfarçado ciúme? – perguntou Nanda, em jeito de comentário.
- Ciúmes, eu? Estás a precisar de pôr óculos! – Bela falava num tom meio desabrido – O que me espanta é como uma mulher com quase cinquenta anos (e acentuou o “cinquenta), mãe de filhos e agora com um neto, com tanta experiência de vida, ainda vai em cantigas…
- Oh minha menina (Bela tremia cada vez que a amiga se lhe dirigia tratando-a por “minha menina”, pois isso só acontecia quando ela estava verdadeiramente zangada) em primeiro lugar eu não tenho cinquenta anos – e ninguém me dá os quarenta e sete que tenho, essa é que é a verdade. Depois… tu não estavas lá, não conheces o Araújo, não assististe à conversa… portanto, não vejo com que fundamente falas em “cantigas”…
Bela emudeceu. Acabava de receber uma reprimenda da sua melhor amiga, e o pior é que o raspanete era mais que justo. Nanda agira com toda a correcção – nada havia a censurar no que lhe contara da conversa com o engenheiro. Sentia-se aborrecida consigo mesma por ter dito aquelas barbaridades. Tinha que reconhecer que fora apenas o ciúme que a levara a falar assim. A verdade é que, no fundo, nunca perdera a esperança de que Nanda fosse trabalhar na empresa do seu pai, e assim passassem a maior parte do tempo juntas. E agora esse sonho começava a esfumar-se e perder-se no horizonte.
Bela não tinha muitas amigas, e nenhuma se comparava a Nanda, desde sempre a sua melhor amiga. Juntas na escola primária, assim tinham continuado no liceu e depois na universidade.
Tinham muitos pontos em comum. Ambas eram filhas únicas; gostavam imensos das mães, mas… adoravam os pais. Preferiam a praia ao campo; o seu ideal de lazer era passado à beira mar. Nas férias, enquanto os pais de Bela não iam para a quinta, passavam as tardes deitadas na areia, a bronzearam os belos corpos juvenis, dando mergulhos de vez em quando para se refrescarem. Até tinham tirado o mesmo curso, de tal modo os seus gostos eram comuns. Só no trabalho é que sempre tinham estado separadas.
Logo que se formaram Bela foi trabalhar para a empresa do pai, não tendo conseguido convencer a sua amiga a seguir-lhe o exemplo. Nanda recusou.
Naquela altura até compreendeu e não insistiu. Quando acabaram o curso a amiga já estava casada e tinha um bebé de três anos, o Miguel. Casara quase em segredo com o Tó Zé, uma decisão repentina que ela não entendera muito bem… É certo que eles eram grandes amigos mas Bela nunca sentira que entre eles houvesse mais do que amizade – pelo menos por parte da Nanda.
Tó Zé e Nanda conheciam-se quase desde que tinham nascido, viviam na mesma rua, brincavam juntos, foram colegas na Primária, e aí separaram-se. Ele não era muito dado a estudos; preferiu seguir um curso profissional, qualquer coisa relacionada com química, o que o levou a afastar-se um pouco da amiga de ambos, Bela. Contudo continuou a conviver com Nanda, com quem falava praticamente todos os dias. 
Apesar disso aquele casamento inesperado surpreendera-a bastante. É certo que às vezes Nanda lhe contava que o Tó Zé lhe dissera que a amava, que nunca iria encontrar ninguém que gostasse dela como ele… e coisas desse género. Mas ela levava tudo isso à conta de brincadeira, não lhe atribuindo qualquer importância. Até porque ele dizia essas coisas mas nunca tivera qualquer gesto tentando uma maior aproximação.
Afinal… um dia, por telefone, Nanda comunicara-lhe a sua decisão de se casar com o Tó Zé. E, apesar do seu espanto perante tal notícia e pedido de justificações, Bela não obteve da amiga qualquer resposta que a elucidasse. Apenas soube que tudo estava decidido e que o casamento se realizaria dentro de poucos dias.
Soube, depois, que fora uma cerimónia simples, apenas no Cartório, com a presença dos pais e testemunhas. Ela própria, a sua melhor amiga, não tinha estado presente. É certo que, na altura, encontrava-se com os pais na quinta, onde eles passavam sempre dois meses, de meados de Agosto a meados de Outubro. E de nada valeu Bela insistir para que Nanda aguardasse o seu regresso à cidade. Ela mostrava-se decidida a casar-se o mais rapidamente possível, como se disso dependesse a salvação do mundo.
Já passaram muitos anos, mas ainda me lembro que, da única vez que lhe perguntei o porquê daquele casamento, Nanda me respondeu: Por favor não me faças perguntas a que não posso responder-te”
Agora Bela olhava para a amiga que mostrava um rosto fechado, verdadeiramente aborrecida com as suas palavras. Raramente se zangavam, e eram sempre arrufos “de pouca dura” (1). Mas desta vez Bela ultrapassara os limites e Nanda não parecia disposta a perdoar facilmente.
- Sinto-me tão mal com o que te disse… Sei que é difícil perdoares-me… mas, por favor, não fiques zangada comigo. Sabes que não o suporto… - havia lágrimas na voz de Bela.
Nanda também não se sentia bem por ter levado tanto a peito o que a amiga dissera. Ela própria não entendia o porquê do seu desagrado. Afinal… a sua amiga não dissera nada assim tão grave. Sentia-se mesquinha, e isso incomodava-a. A verdade é que andava com os nervos à flor da pele. Eram coisas a mais a acontecerem ao mesmo tempo. Mas não podia deixar que isso interferisse na sua amizade. Respirou fundo e, com um sorriso contristado, respondeu:
- Vamos passar uma borracha sobre tudo isto. Eu também reagi exageradamente. No fundo eu sei que não falaste por mal…
Apertaram as mãos por cima da mesa e, mais sorridentes, sentiram-se, de repente, esfomeadas.
- Vamos a um restaurante ou comemos aqui mesmo? – perguntou Bela
- Sabes que para mim uma salada é suficiente. E eles aqui têm-nas muito boas… - respondeu Nanda.
- Tu e as saladas… Sempre a preocupação com a linha… Como se precisasses, com esse teu corpinho escultural – Bela falava com carinho e admiração.
- Se não fosse a minha preocupação onde é que já ia este corpinho escultural!, como tu dizes – riu Nanda.
- Digo eu e diz qualquer pessoa que olhe para ti com olhos de ver. Garanto-te que ninguém adivinha que já foste mãe duas vezes… -insistiu Bela.
- Nem que tenho quase cinquenta anos? – Nanda brincou com a anterior frase da amiga, mostrando assim que não estava nada ressentida.
- Não me faças envergonhar mais… Como pude ser tão parva e injusta contigo? – Bela mostrava-se verdadeiramente contrita.
- Vamos pedir e comer em paz? – propôs Nanda.
- Boa ideia! – Bela chama o empregado e encomendam o almoço.
Enquanto comem vão conversando amenamente. Por fim é chegado o momento de se separarem. Despedem-se com um abraço apertado, como é habitual entre elas. No abraço de hoje sentem que não há entre elas o menor ressentimento pelo que aconteceu, o que constitui para ambas um enorme alívio. Amigas há tanto tempo só muito raramente tiveram discussões com verdadeiro azedume, como hoje.
- Ainda vou passar pelo escritório para assinar uns documentos que deixei com a minha secretária – informa Bela, à laia de despedida.
- E eu tenho o meu secretário Tejo à minha espera para ir dar um passeio – respondeu Nanda, rindo.
Afastaram-se seguindo direcções opostas.
Bela, rememorando o que acontecera nessa manhã e pensando como fora desagradável com a sua amiga, sentia-se mal consigo mesma.
“Conhecemo-nos há tanto tempo que cenas destas são inconcebíveis. A minha reacção não tem desculpa. A Nanda é para mim como uma irmã, a irmã que tanto desejei e nunca tive. A vida dela é para mim como um livro aberto. Bem… totalmente aberto não será… Até hoje ela não me contou o que a levou a casar-se com o Tó Zé, demais a mais com aquela urgência toda. A mim ninguém me convence que ali havia amor, pelo menos da parte da Nanda; já ele sempre viveu apaixonado por ela, desce criança. Mas isso não justifica um casamento.
É certo que ela engravidou logo a seguir… mas até isso me pareceu estranho. Era tão nova… Cheguei a pensar que já tinham tido “alguma coisa” antes do casamento… Isso explicaria toda aquela pressa… Mas se fosse isso ela não me contava? Sempre achei tudo muito misterioso.
É a única coisa em que sinto que Nanda não foi totalmente franca comigo. Mas a verdade é que isso nunca interferiu na nossa amizade.
Enfim… quem é que não guarda algum segredo da sua vida qua não revela a ninguém?”
Embrenhada nestes pensamentos, sem se aperceber, tinha chegado à porta da empresa.

Nanda caminhava apressadamente. Já passava das três horas e o pobre Tejo devia estar aflito para ir dar o seu passeio higiénico. Entretanto veio-lhe à ideia o acontecido no café onde passara a manhã com a sua amiga.
“Que reacção tão intempestiva, a da Bela! Eu sei que o sonho dela era que trabalhássemos juntas, e Deus sabe que era também o que eu mais gostaria. Mas, onde ela trabalha, na empresa do pai, é que nunca! Claro que ela nem sonha qual o motivo que me tem feito sempre recusar os seus convites … E por mim jamais o saberá.
Afinal… conhecemo-nos há tantos anos! - Quarenta? Sim… mais coisa menos coisa… - somos como duas irmãs (que há irmãs que se dão pior do que nós…) e no entanto nunca consegui contar-lhe esse segredo.
A verdade é que eu também tenho vivido há mais de vinte anos, com a sensação de que a Bela guarda um segredo que nunca me quis contar. Aquela ausência tão prolongada… na altura do meu casamento, sempre me deixou desconfiada. E não me convenceu a conversa de que estava a acompanhar a mãe que, por desavenças conjugais, resolvera fazer umas férias no estrangeiro.
Ná! (2) Pareceu-me uma desculpa muito esfarrapada.
Mas enfim, ela lá terá tido as suas razões para guardar segredo.
E… quem é que não guarda algum segredo da sua vida qua não revela a ninguém? Infelizmente sei-o bem, por experiência própria…”
Ruminando estes pensamentos acercou-se do prédio onde morava. O Tejo, pressentindo-a, começou logo a raspar o chão por detrás da porta.
(1) - Que acaba muito depressa.
(2) – Ná = Não

Maria Caiano Azevedo

segunda-feira, 1 de abril de 2019

FÉRIAS PASSADAS NÃO MOVEM MOINHOS

Amigas e amigos
Trago um recado da Nanda. Ela pediu-me para vos dizer que anda muito cansada (coitada, as preocupações são mais que muitas…) e por esse motivo resolveu ir descansar.
Claro que não vai poder demorar-se muito porque precisa receber o filho Luís que não tarda nada está a regressar do Alentejo. Mas enfim… o que lhe desejo é que descanse bem e volte renovada.
Assim sendo, como não há Nanda… resolvi partilhar convosco a última parte das minhas férias do ano passado. Daqui a pouco chegam as férias deste ano (2019) e o 2018 ainda por terminar!!!
Espero que gostem…

sexta-feira, 1 de março de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS VIII

SEGREDOS – CAPÍTULO VIII


 “…Horrorizada e ao mesmo tempo incrédula, começou a afastá-lo suavemente, não querendo dar a entender as suas suspeitas. Ele reagiu, encostando-a a si com mais força, procurando beijar-lhe o pescoço e murmurando palavras doces:
- Gosto tanto de ti! Não. Não me afastes, eu sei que tu também gostas de mim. Deixa-me fazer-te feliz…”

SEGREDOS – CAPÍTULO VIII

Nanda deixara-se de pruridos e não escondia o esforço enorme que fazia para o afastar de si. Aquela respiração ofegante junto ao seu rosto era uma verdadeira tortura. Só o horror que sentia lhe dava ainda forças para continuar a lutar.
A sua cabeça estava num torvelinho, recusando aceitar o que lhe estava a acontecer.
Sentindo as forças a fraquejar tentou convencê-lo a parar dizendo, arfante, com a voz entrecortada:
- Se não me larga já, vou contar tudo à Bela.
- Não, tu não vais fazer isso porque tu gostas muito dela. E de mim também gostas, eu sei muito bem… Porque tentas resistir a uma coisa que pode ser tão boa para nós?
O som da chave dando volta à fechadura da porta salvou Nanda daquela situação que começava a tornar-se insustentável.
O homem largou-a imediatamente e desapareceu no corredor. Nanda deixou-se cair no sofá com a cabeça entre os joelhos. Tremia dos pés à cabeça.
A criada, que acabara de entrar com uns sacos de compras nas mãos, olhou para ela com espanto e preocupação.
- A menina não se sente bem? Está tão abatida…
Nanda levantou a cabeça, respondendo:
- Não me sinto nada bem, não. Estou muito nauseada…
Reparando mais atentamente, a criada comentou:
- Credo, menina, está tão pálida! Parece um defunto… Vou-lhe fazer um chazinho, a ver se melhora, enquanto espera pela menina Belinha.
- Obrigada, não é preciso. Eu vou para casa deitar-me um bocado. Comi qualquer coisa que me fez mal, com certeza. Por favor avise a Bela… Eu depois telefono-lhe.
E fazendo um último apelo às suas fracas forças, voou em direcção à porta. Na rua encostou-se à parede e não conseguiu conter os vómitos.
Fazendo um esforço enorme para se acalmar dirigiu-se rapidamente para sua casa. Sabia que àquela hora não encontraria lá ninguém, e o que mais desejava naquele momento era ficar sozinha. Atirou-se para cima da cama e aí deixou que as lágrimas lhe inundassem o rosto ao mesmo tempo que soluçava convulsivamente. Não se apercebeu de quantas horas passaram. Deixou-se vencer pelo cansaço e adormeceu. Anoitecia quando a mãe, que se dedicava ao voluntariado visitando pessoas que viviam sozinhas, chegou a casa. Por qualquer motivo inexplicável dirigiu-se ao quarto da filha, encontrando-a estendida sobre a cama. Como Nanda não respondeu ao seu chamamento, aproximou-se, preocupada, pondo-lhe a mão, suavemente, no rosto, para a acordar. Sentiu que a sua menina estava a arder em febre. Imediatamente fez dois telefonemas – para o marido e para o médico amigo, a quem recorria sempre em caso de aflição. Poucos minutos depois chegou o pai, numa ânsia enorme, pois a sua mulher não entrara em pormenores. Sentando-se na cama da filha, aninhou-a de encontro a si, como se fora um bebé. Tal gesto foi o bastante para que Nanda retomasse o choro, agora bem mansinho, deixando as lágrimas correrem-lhe pelo rosto, em silêncio. A mãe entrou no quarto acompanhada do médico que imediatamente começou a observá-la, ignorando as suas lágrimas, atento ao seu estado físico. Para além do pulso acelerado nada mais notou. Receitou antipirético e calmante, e não a questionou sobre o motivo do choro. Na sala aconselhou a mãe a não insistir muito no sentido de saber o motivo do desgosto.
- É preciso dar-lhe espaço e tempo para se recompor do que quer que tenha acontecido. Penso que esta febre se deve mais ao seu estado emocional do que a qualquer problema físico. Vejamos como ela se sente amanhã.
Nos dias que se seguiram Nanda não saiu do quarto. A febre baixou mas continuava muito deprimida, chorando frequentemente. Não conseguia abstrair-se do que lhe tinha acontecido. Dava voltas e voltas à cabeça tentando encontrar uma justificação para a atitude daquele homem que ela tanto estimava, o pai da sua melhor amiga. Considerava-o quase como um segundo pai; sentia por ele uma enorme ternura pois que o conhecia desde que era criança e andava na escola primária. Com seis anos apenas, coleguinha de Bela, que se tornara a sua melhor amiga, andavam sempre juntas, ora na casa de uma ora na casa da outra.
Sempre embrenhada nestes pensamentos quase não comia, apesar de a Mãe lhe fazer os petiscos de que ela mais gostava. Passava todo o tempo no quarto, de onde apenas saía para ir tomar banho, o que fazia duas e três vezes por dia. Sentia uma necessidade premente de se lavar, como se quisesse, assim, libertar-se do cheiro do homem que a atacara, e que a perseguia o tempo todo.
Bela telefonava várias vezes ao dia, preocupadíssima. Como Nanda se recusava a falar fosse com quem fosse, D. Lucinda, sua mãe, inventou uma doença contagiosa que proibia visitas. Bela teve que se conformar e não “voar” para junto da sua amiga.
O médico, que passava lá em casa todos os dias, aventurou…
- Eu não encontro nenhum mal físico na Nanda. Toda esta tristeza não será motivada por alguma zanga com o namorado?
- A minha filha não tem namorado. É muito nova para isso – respondeu D. Lucinda com mal disfarçada aspereza.
- Os jovens têm os seus segredos que por vezes não partilham nem com amigos, e muito menos com os pais… - insistiu o médico.
- A minha filha não é assim – afirmou D. Lucinda, peremptória.
- Desculpe, mas eu não consigo entender o que se passa… Nem vejo qualquer vantagem em eu vir cá todos os dias… Ela está medicada com antidepressivo, vitaminas… suplementos alimentares. Para além disto não vejo mais o que se possa fazer, a não ser esperar que o tempo cure o que quer que a aflige… Só me resta aconselhar o acompanhamento psicológico…
- Muito obrigada, doutor, mas a minha filha é muito sã de espírito. O acompanhamento dos Pais vai ser suficiente para ela se recompor – respondeu D. Lucinda, em tom que não admitia réplica...]
***
- Nanda, Nanda! Que se passa? – ouviu, ao longe, a voz de Bela.
Nanda soltou um profundo suspiro.
- Desculpa, minha querida, distraí-me completamente…
- Pregaste-me um susto enorme. Parecia que estavas catatónica… Pálida, com o olhar ausente, sem pestanejar… certamente nem me ouvias…
- Desculpa, mais uma vez. De facto não estava a ouvir-te, mas apenas porque o meu pensamento estava longe.
- Não estava longe… estava a léguas de distância! Por favor, não voltes a ausentar-te assim… Não imaginas como fiquei assustada… - na voz de Bela ainda se percebia a aflição por que passara.
- Pronto, querida, já passou, já voltei… - e acrescentou, sorrindo: Não me estás a ver? Foi uma coisa passageira… Senti um zumbido forte nos ouvidos e, de seguida fiquei meio tonta… Deve ter sido uma quebra de tensão… Tenho que passar no posto médico… Nanda tentava sossegar a amiga, com uma mentirinha piedosa.
Bela não conseguiu conter-se e, debruçando-se sobre a mesa, estendeu-lhe os braços, enlaçando-a.
Nanda ainda pensou, rapidamente:
Ninguém conhece esta passagem da minha vida que tanto me marcou, especialmente por se tratar do pai da minha melhor amiga, que eu estimava e admirava… É um segredo que guardei para mim mesma ao longo de todos estes anos. Não o confidenciei nunca a ninguém. Enfim, todos nós temos segredos, suponho eu…”
Bela interrompeu-lhe o pensamento perguntando:
- Já te sentes capaz de falar? É que estou ansiosa por saber a novidade que tens para me contar
- Vou já satisfazer a tua curiosidade. Eu estava dizendo que tu sabes como ando preocupada por não arranjar trabalho…
- Sim, claro que sei. Eu até…
- Por favor não me interrompas – apressou-se Nanda a pedir. Não queria desviar-se de novo do assunto.
- Tudo bem, conta lá então. Não digo mais nada!
Nanda sorriu e acrescentou:
- Só para veres como anda a minha cabeça… imagina que até comecei a pensar na hipótese de ir trabalhar com o Tó, aquele traste!
- Bem, na verdade isso mostra que a tua cabeça anda à razão de juros. Espero bem que tenha sido apenas um pensamento passageiro, e que não leves isso a sério…
- Não, claro que não; nem que o Tó fosse o último homem no mundo eu quereria estar perto dele!
Nanda sabia que não estava a ser sincera com a sua amiga ao fazer esta última afirmação.
A verdade é que há muito tempo não estava perto dele, mas notava-lhe a falta quando passava um dia sem ele lhe telefonar. Sentia um prazer inexplicável ao ouvir aquela voz que, ao dirigir-se a ela se tornava doce como mel.
- E se fosse trabalhar com ele teria que, forçosamente, suportar a sua presença – acrescentou. Mas nem vale a pena falar nessa hipótese, que está completamente fora de questão.
- Ainda bem que pensas assim. Mas diz-me, então, qual é essa novidade? Estou cheia de curiosidade – Bela mostrava-se ansiosa por saber de que se tratava.
-Lembras-te que, da última vez que fui ao Centro de Saúde, houve um homem que me abordou à saída…?
- Sim, lembro-me muito bem, tu contaste-me – respondeu Bela
- Pois bem, esse senhor ontem voltou a interpelar-me…
- Tu foste ao Centro de Saúde e não me disseste nada? O que se passa? Não te sentes bem? O que te disse o médico? – interrompeu-a Bela,  aflita.
- Calma! Eu não estou doente, nem disse que fui ao Centro de Saúde! Precisas de te acalmar, estás muito ansiosa… Pronto, vou continuar. O tal senhor, que agora sei que se chama Carvalho Araújo e é engenheiro, encontrou-me naquele restaurantezito perto da minha casa, onde vou muitas vezes, tu sabes qual é…
- Sei, sim, mas foi lá que o tal homem te abordou? E o que é que ele queria? – Bela mostrava-se desconfiada.
- Ontem passei por lá depois do almoço para tomar café. O sujeito aproximou-se da mesa onde eu estava sentada preparando-me para ligar ao Luís. Delicadamente perguntou-me se podia sentar-se porque gostaria de falar comigo. Acenei que sim, e ele acrescentou, antes mesmo de se sentar:
- "Permita que me apresente: Carvalho Araújo – e fazendo uma ligeira inclinação de cabeça estendeu-me a mão."
Eu respondi: "Muito gosto "– ao mesmo tempo que lhe dava a minha mão para o cumprimentar. E acrescentei:
- "Faça o favor de se sentar."
Frente a frente, ele olhou-me fixamente e começou a falar.
- "Não sei se a senhora se recorda de mim… Há uns meses abordei-a quando a senhora vinha a sair do Centro de Saúde…"
Fiz um gesto de aquiescência e ele continuou.
- "Tenho que lhe confessar que o que primeiro me atraiu foi a sua figura…"
Devo ter feito algum esgar de descontentamento que o levou a acrescentar, rapidamente:
 -" Não me interprete mal, mas uma pessoa com o seu bom aspecto, elegantemente vestida e calçada, não se vê todos os dias num Centro de Saúde… Provavelmente será mais normal frequentar uma clínica particular…"
Bela interrompeu:
-Desculpa, querida, mas o fulaninho estava a “dar-te música” (1). Não concordas?
- Pelo que se seguiu percebi que não. Aliás, naquele momento, ao ouvi-lo referir “elegantemente vestida e calçada” veio-me logo à ideia o tormento que passei com aqueles saltos altíssimos que tive a infeliz ideia de calçar nesse dia – Nanda soltou uma ligeira risada.
- Eu lembro-me, tu falaste-me nisso. Mas continua – desculpa, estou sempre a interromper-te – Bela pôs um ar contristado.
- Pois então, continuando, o engenheiro acrescentou:
- "O meu interesse por si começou porque, dentro do Centro, eu ouvi-a confidenciar à pessoa que estava ao seu lado, que estava desempregada e precisava arranjar trabalho com urgência. Depois a conversa derivou para a dificuldade de arranjar emprego e a pessoa que falava consigo, imagino que sua conhecida, comentou:
- Realmente, não se compreende que uma pessoa, com formação superior, especialmente na área de gestão financeira, tenha tanta dificuldade em arranjar trabalho…
Foi ao ouvir isto que eu pensei:
- Ora aí está a pessoa que eu procuro!"

1 – Dar música = Insinuar-se; Espalhar charme; Mostrar-se encantador, sedutor.

Maria Caiano Azevedo