REQUIEM - MOZART

domingo, 7 de Fevereiro de 2010

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XLVII
ÚLTIMO EPISÓDIO

(Ficção baseada em factos reais)

- Já estou pronta para passar cá a noite. Agora podes ir tu tomar banho e fazer o tal telefonema. Eu faço companhia à Mãe. Humberto depositou um beijo na testa de Anita, e com um “até já”, retirou-se.

FIM DO EPISÓDIO XLVI
EPISÓDIO XLVII

Chegado a casa imediatamente fez a ligação para o escritório, na Inglaterra, onde o irmão o aguardava, ansioso e preocupado.
Lançou um grito de dor quando Humberto o pôs a par da situação:
- Não pode ser! Tem que haver algum engano. A minha Mãe não pode estar correndo perigo de vida! Por favor, Humberto, diz-me que isso não é verdade.
- Bem que eu gostaria de te dizer que era uma brincadeira de mau gosto! Mas infelizmente é verdade. A Eduarda ainda está com esperança na operação, que está programada para amanhã. Mas, a mim, o médico disse-me claramente que só um milagre poderá salvar Anita. A ti, como homem, acho que não devo esconder nada. Mas aviso-te que vais precisar de muita coragem. Vem o mais rapidamente possível, para poderes vê-la ainda com vida – acrescentou Humberto.
- Vou só passar por casa, agarrar uma maleta e sigo para o aeroporto. E de lá não saio a não ser para entrar no avião. E Tiago desligou o telefone.

No aeroporto tentou todas as companhias, com ou sem escala, pediu, implorou, suplicou, até que conseguiu lugar num avião que iria sair de Londres por volta das 23 horas. Cerca de uma hora e meia depois aterrava em Lisboa.


Com uma leve pancada na porta, e sem esperar resposta, Tiago entrou no quarto da Mãe, passava já das duas da manhã.
Deparou-se com um quadro que, noutras circunstâncias, lhe pareceria enternecedor: a Mãe recostada em almofadas, na cama, Eduarda, vestida, estendida no divã, e Humberto reclinado no sofá. Todos pareciam dormir tranquilamente.
Pé ante pé dirigiu-se à cama de Anita. Esta, pressentindo-o, abriu os olhos. Um sorriso iluminou-lhe o rosto. Sem uma palavra estendeu-lhe os braços, onde Tiago se acolheu.
Reprimindo as lágrimas, murmurou-lhe ao ouvido:
- Mãe, Mãezinha querida… Amo-te tanto, minha Mãe!
Anita apertou-o nos braços com a força que ainda lhe restava. Em seguida chegou-se para um lado da cama, convidando o filho, com um gesto, a deitar-se a seu lado. Passando-lhe um braço por baixo do pescoço, aconchegou-o como fazia quando ele era pequeno.
Tiago deixou-se embalar por aquela sensação tão doce, que o fazia sentir-se uma criança nos braços da Mãe.
Em breve adormeceram ambos, abraçados.

Às sete da manhã a enfermeira dirigiu-se ao quarto de Anita a fim de colocar-lhe o soro, primeira medida preparativa para a cirurgia que iria decorrer dentro de poucas horas.
Abriu a porta sem ruído, e em silêncio encaminhou-se para a cama.
Parou, gelada. Anita encontrava-se com a cabeça ligeiramente descaída para o lado. Pálida, duma palidez mortal, notava-se-lhe no pescoço uma mancha arroxeada, que partia, provavelmente, da nuca. Ao seu lado, com a cabeça sobre o seu braço, Tiago dormia tranquilamente.
Num gesto profissional a enfermeira tomou o pulso de Anita, confirmando o que já sabia: Anita tinha falecido. Pela temperatura do corpo ainda morno, a morte não deveria ter ocorrido há muito tempo.

Mais tarde o médico escreveria na certidão de óbito: causa da morte – rompimento de aneurisma cerebral.


Tratados todos os trâmites legais, o funeral realizou-se no dia seguinte.
Para além do seu grupo de amigas e de Arnaldo, compareceram outros colegas do colégio, muitos dos seus alunos e vários conhecidos e amigos de Vicente.
Tiago e Eduarda, desfigurados pela dor, e Humberto mal conseguindo manter-se de pé, seguiram o caixão de perto.
O sacerdote que acompanhara o féretro procedeu às exéquias fúnebres.
Tudo estava consumado.

Os três “irmãos” dirigiam-se juntos para a porta do cemitério, quando Eduarda estacou, de repente, olhando em frente, em direcção a um mausoléu. Os dois homens pararam também, seguindo-lhe o olhar.
Eduarda murmurou:
- Aquele homem…acolá…não estão a ver?
- Eu não estou a ver ninguém – mentiu Humberto.
- Eu podia jurar que era o meu padrinho, o padre João… – insistiu Eduarda
- Confusão tua, minha querida. Estás muito cansada, é o que é… – respondeu Humberto.
- Não creio que tenha feito confusão. Se não era ele…voltou a insistir Eduarda.
- Fizeste confusão, sim, maninha. Estás a esquecer-te que o padre João está numa Missão em África?

FIM


domingo, 31 de Janeiro de 2010

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XLVI


(Ficção baseada em factos reais)

Pelo Arnaldo eu tive uma paixoneta de juventude, que na altura se revestiu com a capa do Amor. Éramos ambos muito jovens, sentíamo-nos apaixonados – e talvez existisse mesmo paixão, uma paixão juvenil. Mas não era Amor. Se fosse ter-se-ia reacendido quando nos reencontramos.

FIM DO EPISÓDIO XLV
EPISÓDIO XLVI

Pelo teu Pai senti, quando fiquei grávida da Eduarda, uma gratidão muito grande que, com o tempo se transformou em amizade e, na sua doença, sei que o tratei com o Amor que dedicamos ao nosso próximo.
Finalmente, pelo padre João senti uma grande paixão, sem dúvida.
Porque estava atravessando um período de grande carência? Talvez… Lembro-me que nessa altura me sentia como que vazia, sem um rumo válido na vida… Apareceu o projecto da creche que nos obrigou a uma aproximação muito grande, e…surgiu o que me parecia Amor.

Entreguei-me a esse sentimento de alma e coração, e de toda essa loucura restou apenas uma coisa muito boa – a Eduarda. É através dela que me sinto redimida do mau passo que dei. Por ela, e só por ela, consigo perdoar-me…
- Não deves falar assim, Anita. Não há motivo para sentires que devas perdoar-te. Tenho a certeza que viveste esse relacionamento com toda a pureza da tua alma…
- Na verdade, o que agora me parece uma grande leviandade, na altura parecia-me perfeitamente natural. Qualquer Amor tinha direito a existir, inclusive aquele que não era aceite por Deus nem pelos homens.
Hoje de manhã, ao ouvir-te, fui, ao mesmo tempo, revendo toda a minha vida, uma soma de inutilidades sem sentido, apenas porque fui, ainda bastante jovem, atacada por uma cegueira que me impediu de ver o que estava ao alcance dos meus olhos.
Tendo-te repudiado a princípio, especialmente porque o teu Pai me tinha prometido que não estarias lá em casa quando regressássemos da lua-de-mel, muito em breve me habituei à tua presença.
E comecei a sentir por ti qualquer coisa que não sabia bem o que era, nem me dava ao trabalho de tentar analisar. Sentia-te como se fizesses parte de mim mesma, como um braço ou uma perna. Uma parte sem a qual não se pode viver, ou, pelo menos, não se vive muito bem.
Quando partiste, a primeira vez, para a Inglaterra, pensei que não iria suportar tanta dor. E todas as outras nossas despedidas me foram sempre muito dolorosas.
Anita fez uma longa pausa. Humberto mal conseguia esconder a sua emoção. Pigarreou e disse:
- Minha querida, estás a cansar-te demais. É melhor descansares um pouco. Temos muito tempo para conversar…
- Engano teu. Não temos assim tanto tempo… E, receando que ele percebesse o verdadeiro sentido das suas palavras, rapidamente acrescentou:
- Quero dizer-te tudo antes que Eduarda regresse. Como sabes, nós somos, mais do que Mãe e filha, duas excelentes amigas. O único segredo que tenho para com Eduarda é relativo ao seu Pai. Bom…a partir de agora, vai haver mais este, pois não gostaria que Eduarda soubesse que, exactamente agora, nestas circunstâncias, eu descobri que te amo…
- Anita! Tu amas-me, meu amor!... interrompeu Humberto, com o coração a saltar-lhe no peito.
- Sim, eu amo-te, meu amor. Deixa-me tratar-te assim enquanto estamos a sós.
Sei agora que sempre te amei. Tudo o resto passou pela minha vida sem deixar rasto.
Sabes? Eu nunca deixei de sentir a tua falta, até mesmo nos momentos em que me julguei mais feliz. Pensava, tolamente, que gostaria que estivesses presente para partilhar contigo essa suposta felicidade.
Agora eu entendo que apenas tinha necessidade de ti, de te ter junto de mim, de sentir o teu amor, que eu não me apercebia que existia, mas que me fazia muito bem.
Calou-se, por momentos, para logo acrescentar:
- É muito triste constatar que se passou uma vida inteira com umas palas nos olhos. E agora… agora… tão tardiamente, descubro, enfim, a verdade!

- Anita, meu amor, se soubesses como é importante para mim descobrires que me amas… Teria sido muito melhor se tivesses percebido o meu amor há muito mais tempo, mas…nós não somos nenhuns velhos… ainda faremos muita inveja a quem nos vir passear de mãos dados, como jovens enamorados – respondeu Humberto, esboçando um sorriso forçado.

Um leve tamborilar de dedos na porta advertiu-os da chegada de Eduarda.
Humberto notou que, apesar do banho, ela continuava com aspecto de grande cansaço, os olhos pisados de quem chorara longamente, e o sorriso que afivelara no rosto não conseguia disfarçar a sua grande preocupação.
Dando um beijo na Mãe, puxou a cadeira para junto da cama e disse a Humberto:
- Já estou pronta para passar cá a noite. Agora podes ir tu tomar banho e fazer o tal telefonema. Eu faço companhia à Mãe.
Humberto depositou um beijo na testa de Anita, e com um “até já”, retirou-se.

FIM DO EPISÓDIO XLVI

domingo, 24 de Janeiro de 2010

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XLV

(Ficção baseada em factos reais)

Pouco depois de a enfermeira ter trazido o lanche, ouviram-se umas pancadas suaves na porta.

FIM DO EPISÓDIO XLIV
EPISÓDIO XLV

Ao convite de Eduarda dizendo “entre”, apareceram os rostos sorridentes das amigas de Anita que vinham acompanhadas de Arnaldo.
Depois de Eduarda ter telefonado, de manhã, para uma delas, juntaram-se, como habitualmente, na pastelaria, onde compareceu também Arnaldo.
Postas ao corrente do que se estava passando com Anita, decidiram ali mesmo ir visitá-la, para o que convidaram Arnaldo, que não se fez rogado.
Anita ficou de tal modo comovida ao vê-los que as lágrimas saltaram-lhe involuntariamente dos olhos.
Eduarda estava quase a arrepender-se de ter telefonado. Admoestou-a, fingindo rispidez:
- Então, Mãezinha, o que se passa? Isso são maneiras de receber as tuas amigas e o teu amigo??? Vão pensar que não gostaste de os ver…
- Gostei, sim, minha querida, gostei muito, embora preferisse vê-los noutro sítio, que não aqui…Mas…já que hoje não posso ir à pastelaria, – acrescentou com um ligeiro sorriso -agradeço muito que tenham vindo vocês até cá.
Sentem-se todos aqui ao pé de mim, quero ver os vossos rostos como se nunca os tivesse visto… ”para os levar bem gravados na memória – pensou, com amargura.
Todos a rodearam e acarinharam, falando em tom ligeiro, como se não soubessem quão grave era o seu estado de saúde.
Em breve uma lágrima começou a deslizar-lhe pelo canto do olho.

Notando-o, a que era a sua melhor amiga levantou-se, convidando todos os outros a retirarem-se, sob o pretexto de que ainda tinham que ir fazer um trabalho conjunto para a escola.
Arnaldo, depois de a ter beijado na face, como habitualmente fazia, pegou-lhe na mão dando-lhe um beijo – que pressentia ser o último – em que depositou todo o seu antigo amor.
Depois que todos saíram Anita manteve-se em silêncio, prostrada, de olhos fechados, reflectindo o esforço enorme que acabara de fazer.
Eduarda e Humberto entreolharam-se, respeitando o seu silêncio.
A tarde começava a cair. Eduarda falou:
- Mãezinha, eu vou a casa tomar um banho e trocar de roupa, e venho de seguida para passar a noite contigo.
- Não vou mentir e dizer que não me agrada a ideia – respondeu Anita.
Mas não queria obrigar-te a ficares desconfortável…
- Vou ficar até muito bem, Mãezinha. Já estive a apalpar o colchão do divã, e parece-me que até é melhor do que o da minha cama – disse Eduarda, com um sorriso.
Humberto interveio:
- Vai, Eduarda, e procura não te demorares. Eu fico a fazer companhia à tua Mãe, e logo que voltes vou eu a casa. Preciso fazer um telefonema e tomar um banho. Depois voltarei, e passarei a noite aqui, convosco.
Anita olhou para Humberto com um sorriso enternecido, de agradecimento, dizendo:
- Calculo que não adiantará nada eu dizer que me parece um disparate o que queres fazer…
Mas…o divã é estreito, não cabem lá duas pessoas. Vais dormir onde?
- Já reparaste, por acaso, na comodidade deste sofá em que estou sentado? Até se pode estender um pouco e puxar o descanso para os pés. Vai ser uma noite em beleza!
A não ser que estejas com medo que eu ressone… -acrescentou Humberto, em tom que pretendia ser de brincadeira.

Com a recomendação de que resolvessem as coisas da melhor maneira, Eduarda saiu.
Humberto chegou-se para junto da cama e, segurando a mão de Anita, comentou:
- Deves estar exausta! Foi um dia muito cansativo para ti. Primeiro, eu a massacrar-te com a história da minha vida…Depois a visita das tuas amigas… A propósito, gostei bastante do ar do Arnaldo. Tem um aspecto de pessoa séria. Acredito no que ele te contou, acerca de não ter recebido as tuas cartas…
Reparando que Anita fechara os olhos, acrescentou rapidamente:
- Como te sentes?
- Noutras circunstâncias eu diria que foi o dia mais feliz da minha vida – respondeu.
E passando suavemente a mão sobre os olhos de Humberto, continuou:
- Hoje eu descobri que passei uma vida inteira sem saber o que era o Amor.
Os homens que passaram pela minha vida não souberam amar-me, e eu também não os amei.
Pelo Arnaldo eu tive uma paixoneta de juventude, que na altura se revestiu com a capa do Amor. Éramos ambos muito jovens, sentíamo-nos apaixonados – e talvez existisse mesmo paixão, uma paixão juvenil. Mas não era Amor. Se fosse ter-se-ia reacendido quando nos reencontramos.

FIM DO EPISÓDIO XLV

quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

VÍTIMA DO TERRAMOTO DE HAITI

Viveu como santa, morreu como mártir


Fundadora da Pastoral da Criança, a médica Zilda Arns dedicou a existência a minorar o sofrimento dos despossuídos e a evitar o desperdício da vida. Até o último minuto.

A ÚLTIMA PREGAÇÃO
Escombros da Igreja Sacré Coeur de Tugeau, em cuja casa paroquial
Zilda Arns proferiu uma palestra antes de morrer

Montagem sobre fotos de Rodolfo Buhrer e Yhony Belizaire/AFP

Nascer mulher em Forquilhinha, Santa Catarina, nas primeiras décadas do século passado significava ser, no futuro, professora ou religiosa.
Zilda Arns, 13ª filha de uma família descendente de alemães, contrariou esse destino por amor. Aos 21 anos de idade, apaixonou-se pelo futuro marido, o então marceneiro Aloysio Neumann, que, chamado para um conserto na casa dos Arns, encantou-se com a jovem que viu na sala tocando piano.
Foi também em nome de outra forma de amor, aquele mais sublime que se devota ao próximo, que Zilda enfrentou a resistência paterna e insistiu em estudar medicina, num tempo em que ser doutor era coisa de homem.
O apoio do irmão, o hoje arcebispo emérito de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, foi fundamental para dobrar a família. "Ele havia estudado na Sorbonne e convenceu o pai de que estavam começando a formar mulheres médicas lá fora", conta Rogerio Arns Neumann, de 39 anos, um dos seis filhos que Zilda teve com Neumann, morto em um acidente no mar aos 46 anos de idade.
Desde que alterou o curso do próprio destino, Zilda Arns não parou mais de mudar o dos outros, a começar por aqueles que a miséria e a ignorância haviam fadado a ter curta duração.
Nos anos 80, por sugestão de dom Paulo, a pediatra e sanitarista aceitou formular um projeto para disseminar o uso do recém-criado soro caseiro, aproveitando a imensa influência da Igreja Católica entre os pobres, e com isso combater o flagelo da mortalidade infantil.
Assim nasceu a Pastoral da Criança, um projeto tão singelo na sua concepção quanto na execução. Consistia em identificar, nas paróquias e comunidades católicas, lideranças que treinariam voluntárias para ensinar mães pobres a adotar o soro. Essa e outras medidas igualmente simples ajudariam a evitar que seus filhos morressem de diarreia, desidratação, contaminação e outros males fáceis de vencer com quase nada de dinheiro e um pouco de informação.
O local escolhido para iniciar o trabalho foi a pequena Florestópolis, no Paraná. Lá, a mortalidade infantil era tão alta que, no único cemitério existente, o número de cruzes de tamanho pequeno, que sinalizavam os túmulos de crianças, superava em muito o de cruzes grandes. Depois do trabalho da Pastoral, a taxa de mortalidade baixou de 127 óbitos em cada 1 000 crianças nascidas vivas para 28. A partir daí, o programa foi sendo exponencialmente replicado até alcançar 72% do território nacional, além de vinte países na América Latina, África e Ásia.
Ao longo dos 25 anos em que esteve à frente da Pastoral da Criança, Zilda Arns visitou os cantos mais remotos do Brasil. Aterrissou em um sem-fim de aeroportos, fez travessias em barcos precários e sacolejou de ônibus por estradas que eram mais buraco do que chão.
Seus olhinhos azuis, sempre radiantes, se acostumaram a ver a pobreza extrema, e seu corpo forte se habituou à contenção e à precariedade.
Três meses atrás, ela esteve no Timor Leste, um dos países em que a Pastoral fincou suas bases e onde auxilia cerca de 6 000 crianças. Lá, como quase sempre, faltava quase tudo, incluindo água corrente na casa em que Zilda se hospedou com Rúbia Pappini, voluntária da Pastoral há vinte anos.
- "Para lavar os cabelos, mergulhávamos a cabeça debaixo da pia e reaproveitávamos a água que escorria para tomar banho de caneca", lembra Rúbia.

Na noite do último domingo, Zilda Arns interrompeu as férias de família para começar mais um pinga-pinga por aeroportos. De Curitiba, onde morava, fez escala em São Paulo e, da capital paulista, seguiu para Miami, nos Estados Unidos, onde pegou outro avião que a levou até o Haiti.
Chegou a Porto Príncipe ao meio-dia da segunda-feira.

No dia seguinte, ela faria uma palestra sobre o trabalho da Pastoral para um grupo de religiosos haitianos, num edifício de três andares em frente à igreja Sacré Coeur de Tugeau.
Foi ao fim dessa palestra que se deu o terremoto. Quem descreve o ocorrido é o tenente Paulo Cézar Acebedo Strapazzon, que havia sido convocado para traduzir para o francês a fala da médica, esperada no 3º andar do prédio por 120 sacerdotes.
Zilda chegou com quarenta minutos de atraso por causa de um engarrafamento no trânsito. A tradução acabou sendo feita por um civil haitiano que viera com o tenente e falava o crioulo, dialeto local, de compreensão mais fácil para a plateia.
Faltavam quinze minutos para as 5 horas quando a médica terminou sua palestra. A plateia deixou a sala, mas alguns padres se aproximaram de Zilda para fazer-lhe perguntas. Nesse momento, o tenente perguntou à médica se ainda poderia ser úti. Ela respondeu que mais tarde precisaria de ajuda para traduzir alguns manuais.
Strapazzon desceu os lances de escada até o térreo, entrou em seu jipe, deu a partida, e então viu todos os prédios desabar ao seu redor. Os três andares do prédio transformaram-se em um amontoado de pedras e vigas de metal.
Zilda Arns morreu na hora, atingida na cabeça por uma viga do teto que desabou. Outros quinze religiosos que estavam na sala morreram também.
O corpo da médica chegou na sexta-feira a Curitiba, onde foi transportado em carro aberto – e aplaudido por pedestres que paravam à sua passagem.

DESPEDIDA DA MISSIONÁRIA

O velório de Zilda Arns em Curitiba (no centro, o arcebispo de Salvador, dom Geraldo Majella): seu trabalho mudou o destino de milhões de crianças.

Zilda Arns tinha 75 anos, um terço dos quais consagrados aos despossuídos e à tarefa de celebrar o caráter sagrado da vida – o que ela fez em cada uma das infinitas vezes em que ajudou a evitar seu desperdício.
Com gestos miúdos, persistência de formiga e fé colossal, construiu uma epopeia silenciosa que mudou a face do Brasil e o destino de milhões de pessoas. Sua vida teve a grandeza da de uma santa – e à sua obra pode-se dar o nome de milagre.


domingo, 17 de Janeiro de 2010

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XLIV


(Ficção baseada em factos reais)

Anita estremeceu, como se tivesse sentido um choque. Fechou os olhos por momentos, saboreando aquelas palavras que lhe provocavam um calor interior, um bem-estar, uma paz como há muito tempo não sentia.

FIM DO EPISÓDIO XLIII
EPISÓDIO XLIV

Queria dizer alguma coisa, mas parecia ter medo de falar, medo de que qualquer som quebrasse o encantamento daquele momento mágico.
Sem uma palavra, desprendeu uma das mãos que Humberto mantinha entre as suas,

e, apelando às poucas forças que lhe restavam, acariciou-lhe o rosto suavemente.
Olhando-o nos olhos, murmurou:
- Como pude ser tão cega, e nunca perceber o amor que sentias por mim?
- Tu não foste cega, minha querida, eu é que me esforcei muito para ocultar esse amor.
Primeiro, porque não queria, de modo algum, levar-te a cometer nenhum acto que considerasses menos digno. Eras casada com meu Pai, e por muito que eu, nessa altura, o detestasse, tu, para mim, eras sagrada, intocável.
Depois, quando na tua vida surgiu o padre João, senti que nunca poderias retribuir o meu amor.
Foi a partir desse momento que decidi afastar-me de ti o mais possível, tentando, em vão, esquecer-te.
Se bem te recordas foi nessa altura que comecei a espaçar as minhas idas à Ilha, e a encurtar o tempo de permanência lá.
- Sim, lembro-me bem, e recordo-me que me custou bastante essa alteração que fizeste aos hábitos anteriores.
Agora eu considero-o um período negro da minha vida.
A propósito, quero pedir-te um favor: Como te mandei dizer por carta, o padre João preferiu ir para uma Missão em África a vir viver comigo.
- Sim, eu sei. Mas, por favor, Anita, não fiques agora a remexer nesse assunto – interrompeu-a Humberto.
- É preciso, Humberto. Mas não te preocupes, que “esse assunto”, como lhe chamas, já não me incomoda; apenas me causa desconforto, e só não o abomino porque existe a Eduarda.
É exactamente por isso, por ela existir, que quero pedir-te um favor.
- Não imagino o que possa ser…mas, seja o que for, sabes que farei tudo o que me pedires – respondeu Humberto.
- Como tu sabes, Eduarda viveu sempre pensando que Vicente era o seu Pai…
- Sim, eu sei…
- Pois o que te quero pedir é que me jures que, aconteça o que acontecer, nunca revelarás a Eduarda quem é o seu verdadeiro Pai.
Além de mim, tu és a única pessoa a conhecer a verdade.
Humberto estremeceu. Pelo tom em que Anita falou, sentiu que ela “sabia” que o seu fim estava próximo.
Anita insistiu:
- Tens que me jurar, Humberto. Por favor…
- Juro, sim, mas apenas porque me pedes. Não vejo qualquer motivo para esse teu pedido…
- As mulheres, às vezes, têm caprichos meio estranhos, não sabes?
E quero também que me prometas que serás sempre o “irmão querido” da Eduarda… - acrescentou, já com um ar cansado.
Humberto apressou-se a prometer tudo. Começava a sentir-se de tal modo oprimido, que receava que os seus nervos o traíssem. Precisava sair dali rapidamente, para respirar fundo, e recuperar forças para continuar junto de Anita.
A enfermeira veio trazer o almoço, e Humberto aproveitou para sair, alegando que precisava ir comer.
Anita concordou, mas com a condição de que voltasse bem depressa…

Humberto, inteirando-se de que Eduarda estava em casa, foi ter com ela, e dali telefonou para Inglaterra.
Pelo seu assistente ficou a saber que haviam conseguido localizar Tiago, e que o tinham avisado que devia regressar imediatamente ao escritório. Humberto informou que telefonaria ao cair da tarde, e que Tiago deveria aguardar, lá, o seu telefonema.

Depois de comerem, sem apetite, Eduarda e Humberto voltaram para a clínica.
Encontraram Anita semi-adormecida, depois de lhe terem recolhido sangue para análises, com vista à cirurgia no dia seguinte.
Logo que sentiu a sua presença Anita abriu os olhos, o que, notoriamente, lhe exigiu um certo esforço.

Apesar do seu estado de extrema fraqueza e cansaço conseguiu ostentar um sorriso que envolvia os dois num grande carinho.
Sentaram-se cada um de seu lado da cama. Anita segurou as mãos de ambos, e assim se conservaram, conversando com aparente calma, cada um engolindo as suas próprias lágrimas, tentando fingir que tudo iria correr bem.
Pouco depois de a enfermeira ter trazido o lanche, ouviram-se umas pancadas suaves na porta.

FIM DO EPISÓDIO XLIV

domingo, 10 de Janeiro de 2010

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XLIII


(Ficção baseada em factos reais)

Humberto fez uma ligeira pausa, olhando atentamente para Anita, tentando descobrir se ela se encontraria demasiado cansada.
A seguir continuou:

FIM DO EPISÓDIO XLII
EPISÓDIO XLIII

Depois desta conversa comecei a entender melhor a frieza com que o meu Pai sempre me tratara. Nunca foi violento comigo; aliás, ele não era dado a violência física. Mas quando eu sentia sobre mim o seu olhar de desprezo, era pior do que se me batesse.
Por essa altura eu passava em casa o mínimo tempo possível. Não faltava às aulas, era um aluno bastante razoável, penso que mesmo acima da média; logo que regressava da escola ia fazer os trabalhos de casa o mais rapidamente possível, para em seguida ir a correr para a rua.
Não gostava de estar em casa, com medo das discussões dos meus Pais.


Em parte por doença, mas especialmente devido a desgostos, a minha Mãe acabou por morrer bastante nova.
Senti uma mágoa profunda, e ao mesmo tempo um grande receio de que o meu Pai me pusesse fora de casa.

Mas tal não sucedeu. Verifiquei, com um certo espanto, que a morte da minha Mãe o tinha abalado mais do que eu esperaria.
Manteve uma grande distância de mim, mas nunca me faltou com o que era necessário; inclusivamente, depois que eu era já um rapaz espigadote, dava-me algum dinheiro “para ir ao cinema”, como ele dizia.
Não me recordo de termos comido juntos mais do que duas ou três vezes, e não pronunciamos uma única palavra durante toda a refeição.

Anita ouvia-o com a máxima atenção, fazendo uma ou outra expressão de desgosto em determinados pontos da narrativa, mas sem o interromper. Parecia querer interiorizar, para “levar consigo”, cada palavra que ele pronunciava.

- Esta história foi comprida demais… estou a cansar-te – balbuciou Humberto, visivelmente emocionado, ao recordar grande parte da sua vida.
- Não, não estás a cansar-me nada. Nem imaginas como estou a gostar de te ouvir. Consegui até esquecer que estou numa clínica médica… -respondeu Anita, com um leve sorriso, ligeiramente irónico.
- De qualquer modo, também pouco mais há para contar – disse Humberto.
Lembras-te de eu te ter dito que, um dia, te contaria por que o meu Pai não queria que eu assistisse aos jantares com convidados? Vou dizer-te o que penso, e pensava, nessa altura:
O meu Pai não me considerava seu filho; eu não era, para ele, membro da família. Por qualquer razão que só ele conhecia, sentia-se no dever de me sustentar e prover à minha educação, mas nada mais do que isso.
Quando começaste a oferecer jantares lá em casa, logo da primeira vez que isso aconteceu ele avisou-me que não queria ver-me à mesa, ao jantar, sempre que houvesse convidados. Estou convencido que era uma forma de me fazer lembrar que eu não pertencia à família.

E assim termina o meu “segredo”, minha querida mãezinha.

Anita manteve-se em silêncio por alguns minutos. Depois, apertando a mão que Humberto tinha sobre o seu braço, disse:
- Eu sempre soube que tu eras um ser aparte…uma pessoa com um coração fora do comum. Mas só agora percebo a alma maravilhosa que tu tens. Depois de passares por tudo por que passaste, conseguiste preservar o teu coração do rancor e da maldade, conservando-o cheio de amor para dar ao próximo!
Sinto-me uma privilegiada por te ter conhecido e, no fundo, ter-te amado. Sim, porque eu amei-te, e amo-te, como a um irmão mais velho, apesar de teres apenas dois anos mais do que eu…
Humberto sentiu um sobressalto, ao ouvir Anita dizer que o amava, mesmo sendo um amor de irmão. “Amor” era uma palavra que nunca haviam pronunciado referindo-se aos sentimentos que os uniam.
Anita continuou:

- Como te disse, encantou-me ouvir-te. Mas…tu falaste em mais do que um segredo… Quero saber mais.
Exaltado pelo sentimento que a declaração de amor de Anita, ainda que fraternal, lhe causara, Humberto prendeu as mãos de Anita entre as suas, confessando:
- Há, de facto, um segredo, que me acompanhou toda a vida, desde que te conheci, e que jurei levar comigo para a cova.
Ao pronunciar estas palavras Humberto lembrou-se, de repente, que Anita dispunha de pouco tempo de vida. Pensou que ela tinha todo o direito de saber a verdade, e resolveu falar antes que fosse tarde:
Agora vou quebrar o juramento que fiz, e abrir-te o meu coração.
A verdade, Anita, é que eu sempre te amei!
Não foi um amor fraternal, o que foi nascendo dentro de mim à medida que te ia conhecendo e verificando que tinhas uma alma pura.

Anita estremeceu, como se tivesse sentido um choque. Fechou os olhos por momentos, saboreando aquelas palavras que lhe provocavam um calor interior, um bem-estar, uma paz como há muito tempo não sentia.

FIM DO EPISÓDIO XLIII

sábado, 9 de Janeiro de 2010

CAMPANHA VAMOS LIMPAR PORTUGAL

A campanha “VAMOS LIMPAR PORTUGAL” é um movimento criado pelo site
VAMOS LIMPAR PORTUGAL
e apoiado por diversos blogs, entre eles
SEMPRE JOVENS e
NA CASA DO RAU

Na qualidade de apoiante deste movimento, a CASA DA MARIQUINHAS convida-te a juntares-te a nós.
Visitando o site acima VAMOS LIMPAR PORTUGAL obterás informações sobre a forma de dar o teu apoio, quer “no terreno”, quer publicitando-o, enfim, como te for sugerido.

PORTUGAL LIMPO vai agradecer o teu empenhamento.

Ofereço-te este selinho para colocares na barra lateral do teu blog

domingo, 3 de Janeiro de 2010

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XLII


(Ficção baseada em factos reais)

Depois ouvi-o sair, batendo com a porta, e a minha mãe a desfazer-se em soluços.

FIM DO EPISÓDIO XLI
EPISÓDIO XLII

Mantive-me no meu quarto, assustado com aquelas revelações, sem saber que atitude tomar.
Algum tempo depois a minha mãe deixou de soluçar e saiu do quarto. Eu fiz o mesmo uns minutos depois, quando a ouvi falar com a cozinheira. Esgueirei-me para o jardim, e depois apareci como tendo acabado de chegar a casa.

A minha mãe tinha os olhos inchadíssimos, como eu nunca lhe vira.
Jantamos em silêncio, o que não era usual, mas eu não me atrevia a falar.

À sobremesa a minha mãe disse-me:
- Humberto, quando acabarmos de jantar gostaria que ficasses em casa, em vez de ires lá para fora brincar com os teus amigos.
Acenei que sim.
Depois de jantar a minha mãe levou-me para o meu quarto e disse-me:
- Meu filho, já não és nenhum menino pequeno. Já tens idade para ouvir o que tenho para te dizer.
Fiquei em suspenso, e aguardei.

- Antes de tu nasceres apareceu na cidade um turista, que se manteve por cá cerca de dois meses.
Era um homem encantador, que acabou por ser convidado para lanchar nas casas de algumas pessoas cá da terra, tendo feito amizades que ainda hoje se mantêm.

Por coincidência eu estava presente na maioria desses convívios; os teus irmãos estavam a estudar na Inglaterra, por isso eu tinha muito tempo livre, que passava na companhia das minhas amigas.
Ao tomar conhecimento o teu pai resolveu fazer uma cena de ciúmes, dizendo que me proibia de voltar a frequentar lugares onde estivesse ‘esse senhor’.

Eu sempre fui rebelde por natureza, e se ele me tivesse apenas pedido, talvez eu lhe fizesse a vontade. Mas não podia admitir que me proibisse. E continuei a ir. Mas não fui muito mais vezes, porque o homem em breve se foi embora.
Pouco tempo depois destes acontecimentos, fiquei grávida, e tu nasceste.

O teu pai começou a acusar-me de lhe ter sido infiel, dizendo que tu não eras seu filho.
A partir daí a nossa vida transformou-se num verdadeiro inferno.

Um dia eu estava em casa a chorar, depois de mais uma violenta discussão, quando chegou a minha melhor amiga, que, ao ver-me assim descontrolada, e tendo-lhe eu contado o motivo, disparou:
-Ele faz isso para aliviar a consciência dos seus pecados!
- Quais pecados? perguntei.
- Sabes que eu não gosto de intrigas, mas a ver-te nesse estado, não posso ficar calada. O teu marido tem uma amante, que mantém numa casa dos arredores, onde vai quase todas as noites, e que cobre de presentes. Pronto, já disse! E se ele souber que eu te disse, e disser que eu menti, eu apresento testemunhas.

Eu é que não precisei de testemunhas para compreender tudo: as ausências do teu pai noites inteiras, pretextando negócios, a sua agressividade e impaciência sempre que eu mostrava interesse por saber como ele ocupava o seu tempo, tudo se tornou claro para mim.
Custa-me até pensar nisto, mas a partir desse dia todo o amor que eu sentia pelo teu pai desapareceu completamente.
Hoje, o único sentimento que ele me inspira é desprezo. E raiva, também.
Eu não devia dizer-te estas coisas, mas sei que já notaste que entre mim e o teu Pai o relacionamento não é muito bom. Por isso prefiro que saibas, da minha boca, toda a verdade, e que não venhas a tirar conclusões erradas por partes de discussões que possas ouvir.

Apesar de tudo quero que respeites o teu Pai, como é dever de qualquer filho.
Infelizmente, como marido não merece o meu respeito. De qualquer modo nunca o desrespeitei, nem nunca o farei”.

Enquanto o ouvia Anita pensava:
- Estou a reviver o passado. Um passado que não é meu, mas não deixa de ser “passado”. Dizem que quando isto acontece é sinal de que se está prestes a morrer. Aqui está mais uma prova de que o meu fim se aproxima…
E aquela visão que eu tive do Padre João – será que foi mesmo visão? – não será também um sinal?

Humberto fez uma ligeira pausa, olhando atentamente para Anita, tentando descobrir se ela se encontraria demasiado cansada.
A seguir continuou:

FIM DO EPISÓDIO XLII

quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

MENSAGEM DE ANO NOVO

PARA TODOS UM MUITO FELIZ 2010

Que todos sejamos abençoados
Que haja paz para todos
Que tudo seja perfeito
Que todos os eventos sejam auspiciosos
Que todos sejam felizes.
Que todos sejam saudáveis
Que todas as nossas iniciativas sejam boas e que ninguém sofra.

May good befall all
May there be peace for all
May there be perfection in everything
May all experience that which is auspicious
May all be happy.
May all be healthy
May we all experience what is good and let no one suffer
May good befell all
May there be peace for all
May there be perfection in everything
May all experience that which is auspicious
(Palavras do vídeo abaixo)

Happy New Year 2010

domingo, 27 de Dezembro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XLI

(Ficção baseada em factos reais)

- Penso que os vossos segredinhos podem aguardar mais um pouco… O que não pode aguardar é o meu estômago vazio… Mãezinha, eu vim para cá ajudar-te a mudar de quarto, e ainda não comi nada. Importas-te que o Humberto me acompanhe ao bar para beber um café?

FIM DO EPISÓDIO XL

EPISÓDIO XLI

- Mas é claro que não me importo, filhinha. Só te peço que não mo roubes por muito tempo…Mas também não quero que apenas bebas um café. Vê se comes qualquer coisa, precisas alimentar-te.
- Quando deixarás de te preocupar comigo, e começas a pensar mais em ti?
- Parece-me que nunca, minha querida… Quando fores mãe entenderás.
- Já estava a tardar a piadinha do ser mãe, casar, tratar do marido…etc., etc., etc.… essas patacoadas todas que me andas sempre a impingir…Até já, Mãezinha.
E forçando um sorriso, Eduarda agarrou o braço de Humberto e arrastou-o para fora do quarto.
Longe da vista da Mãe abraçou-o,

deixando correr pelo rosto as lágrimas que estivera contendo enquanto mantinha aquela conversa, num tom aparentemente despreocupado, esforçando-se por esconder o seu tumulto interior.
Dirigiram-se ao bar, onde beberam apenas um café. Eduarda servira-se desse pretexto apenas para estar a sós com Humberto, pois queria perguntar-lhe pelo irmão, Tiago.

Humberto informou-a que abandonara o trabalho quase sem explicações. Apenas referira que precisava ausentar-se com a maior urgência, e não sabia quando regressaria. Mas lembrara-se de recomendar ao seu assistente que tentasse localizar Tiago, acrescentando que à hora do almoço lhe telefonaria, esperando que ele já tivesse conseguido o contacto do irmão.

- Ainda bem – respondeu Eduarda. Nem quero pensar que não o conseguíamos encontrar…
E um soluço morreu-lhe na garganta.
- Isso não vai acontecer, tem calma.
E se voltássemos para junto de tua Mãe?

De regresso ao quarto de Anita encontraram-na de olhos fechados, repousando. Mas logo que os pressentiu, abriu os olhos e dispôs-se a ouvir a conversa de Humberto.
Eduarda achou preferível retirar-se, deixando-os mais à vontade.
- Mãezinha, aproveito que estás acompanhada pelo Humberto, e vou passar no colégio, a avisar que estás doente.
- Mas, querida, talvez não fosse preciso estares com esse trabalho. Telefonaste para lá ontem, não foi? Devias antes aproveitar para descansar um pouco. Estás com um ar exausto…
O Humberto não sai daqui, que eu não deixo – acrescentou com um leve sorriso.
- Está bem, Mãezinha, farei o que sugeres.
Dando-lhe um beijo na testa, afastou-se, dizendo:
- E a menina faz favor de não se cansar, ouviu?
Volto mais tarde.

Anita, que, no fundo, receava não ter tempo para ouvir tudo, pois sentia a vida a querer abandoná-la, pediu a Humberto que começasse a falar, ao que ele respondeu:

- Então ouve:

- Quando eu era pequeno, recordo-me que havia muitas discussões entre o meu pai e a minha mãe. Todos os dias eles discutiam.
Os meus dois irmãos mais velhos estavam a estudar na Inglaterra, de modo que eu era o único filho que, naquela altura, vivia lá em casa. Por isso assustava-me sempre que os meus Pais discutiam.
À medida que fui crescendo comecei a aperceber-me de que o meu pai raramente jantava em casa.
Um dia em que estava no meu quarto e eles não sabiam, ouvi nitidamente a minha mãe dizer:

- Para ela não há falta de dinheiro. Só para o teu filho é que precisas economizar.
E a discussão continuou:
- Não me venhas com essa conversa de meu filho. Sabes melhor do que eu que ele não é meu filho.
- Deus é minha testemunha de que nunca te fui infiel. E se não fores castigado neste mundo, serás no outro. Tens muitos pecados a pagar. Não te chegava ter uma amante; ainda tens que renegar o teu próprio filho!
- Deixa-te de conversas! Ao menos ela não está constantemente a recriminar-me. E fica a saber, duma vez por todas, que, para esse bastardo não vais ver nem um tostão. Dar-lhe de comer já é demais!

Depois ouvi-o sair, batendo com a porta, e a minha mãe a desfazer-se em soluços.

FIM DO EPISÓDIO XLI

quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

PRESENTES DE NATAL

Há dois ou três anos ( ou quatro? ), quando começavam a sentir-se mais vivos os sinais da crise que se avizinhava, e que nos tem acompanhado desde então – e sabe-se lá quanto tempo mais irá ser nossa fiel companheira! – encontrei, por alturas do Natal, uma senhora que conheço há algum tempo.
É uma pessoa que considero muito pelo exemplo de vida que tem dado, e é motivo para, pelo menos, meditarmos.
Viúva há anos, sem filhos, reformada de uma entidade bancária, vive da sua modesta reforma, sempre com um sorriso no rosto.
Habita uma casa pequena, sem luxos, mas que possui um quintal de razoáveis dimensões.
A necessidade que sente de ser útil e praticar o bem ajudando o próximo levou-a a arquitectar um plano que mantém até hoje.
É a dona Emília.

Como os poucos familiares conhecidos se encontram no estrangeiro, satisfaz essa necessidade auxiliando os que precisam, logo que disso tem conhecimento.
Para o efeito desloca-se a uma vila próxima à procura de crianças abandonadas. A sua atenção recai, essencialmente, sobre crianças de tenra idade, que encontra sozinhas, estendendo a mão à caridade pública, e lhes confessam dormir na rua por não terem casa nem família.
Traz consigo essas crianças, limpa-as, alimenta-as e cuida-as até à idade escolar.
Nessa altura encaminha-as para a Segurança Social, já que o ir para a escola acarreta despesas acrescidas a que ela não pode fazer face. Muitas dessas crianças, depois de encaminhadas, vêm visitá-la, o que lhe dá grande alegria.

Chega a ter ao seu cuidado cinco e seis crianças ao mesmo tempo.

Como a casa onde habita é pequena não pode albergar tantas crianças. Conseguiu que lhe oferecessem uma velha roulotte, que ela própria limpou, pintou, tornou habitável; aí acomoda, para dormir, as crianças de mais idade que não cabem dentro da casa.
Tem tido muitas ajudas; a sua magra reforma não chegaria para tanto.

Conheci-a num dia em que a vi passar com uns sacos de roupa que a minha filha tinha depositado, momentos antes, junto ao contentor do lixo. Eram roupas dos meus netos, que já não serviam por serem pequenas, mas ainda se encontravam em bom estado.
Na falta de haver a quem as dar, costumávamos colocá-las em sacos, encostados ao contentor do lixo, esperando que alguém pudesse aproveitá-las.
Reparando que a senhora transportava os ditos sacos dirigi-me a ela, especialmente porque o seu aspecto não era o de uma pessoa necessitada.
Apresentei-me como a pessoa que colocara os sacos da roupa junto ao contentor. Sem me deixar entrar em mais considerações, com um largo sorriso disse-me:
- Ai sim? Que bom! Há aqui roupas muito boas, que vão fazer muito felizes os meus meninos. E, se não se importar, vou pedir-lhe um favor.
Admiradíssima por ouvi-la falar em “meus meninos”, pois não tinha idade para ter filhos pequenos (as roupas que levava eram de crianças de dois anos) respondi-lhe que sim, podia pedir o que quisesse.
Foi então que ela contou, em largos traços, o fim a que se destinavam as roupas, pedindo-me que, de futuro, não as colocasse junto ao contentor do lixo, mas as guardasse, que ela passaria lá por casa a recolhê-las.
Foi o que passámos a fazer, tanto com as roupinhas como com brinquedos, aos quais juntamos, por vezes, uma ou outra guloseima e alguns alimentos.
De vez em quando vemo-la passar, para fazer as suas recolhas – felizmente há muita gente boa que lhe dá ajuda – e trocamos dois dedos de conversa.
Conhecemos, porque nos convidou para o fazer, a casa onde vive e o quintal que se transforma em paraíso para tantas crianças que por lá passam.
Não sei se por causa do muito amor que se respira naquele local o ar é perfumado, as flores que nascem aqui e ali no chão são frescas e brilhantes, as crianças que correm naquele espaço perfeitamente limpo têm um ar extremamente feliz. Ali sentimo-nos em paz.

Chegada a altura do Natal recebe imensos presentes para os “seus” meninos.
Como forma de retribuição costumava oferecer uma pequena lembrança a todas as pessoas que tão generosamente lhe enchiam a casa, quer para a ceia de Natal, quer para os “sapatinhos” na árvore.

Disse, no início, que a encontrei há dois ou três anos. Contra o costume apresentava um ar triste. Perguntei-lhe se havia algum problema. Respondeu-me:
- Sim, até certo ponto. Estamos no Natal e, ao contrário de todos os outros anos, não pude comprar lembrancinhas para as pessoas, tão bondosas, que me ajudam a criar os meus meninos.

E enquanto uma pequena lágrima assomava aos seus lindos olhos, acrescentou:
- Este ano vou apenas distribuir Amor, muito Amor e Carinho por todos.

Não resisti a dar-lhe um abraço. Também eu tinha uma lágrima entalada na garganta.

Mariazita – Dezembro 2009

PARA TODOS UM BOM NATAL

Sugestões de presentes para o Natal:
Para seu inimigo, perdão.
Para um oponente, tolerância.
Para um amigo, seu coração.
Para um cliente, serviço.
Para tudo, caridade.
Para toda criança, um exemplo bom.
Para você, respeito.
Oren Arnold

domingo, 20 de Dezembro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XL

(Ficção baseada em factos reais)

Manteve-se ali um largo espaço de tempo, até que, finalmente, sentiu que poderia aparentar a calma necessária ao encontrar-se com Anita.
Esta já fora transferida para um quarto particular, onde Humberto a encontrou na companhia de Eduarda.

Entrando no quarto de Anita teve que sufocar um soluço.

FIM DO EPISÓDIO XXXIX

EPISÓDIO XL

Anita, a sua Anita, pálida, olhos semicerrados para evitar a luz do sol que jorrava pela janela, era apenas uma leve sombra da Anita que ele recordava de há dois anos atrás.


Depois de uma ligeira pausa para se recompor, Humberto abeirou-se da cama, pondo a mão suavemente sobre a mão que Anita tinha estendida ao longo do corpo.

Ao seu contacto, ela abriu os olhos, fitando-o com um meigo sorriso molhado de lágrimas.

- Humberto! – exclamou.

Ele notou como a sua voz, outrora firme e decidida, estava enfraquecida.
Esforçando-se por aparentar calma, Humberto sentou-se junto à cama.
- Não podes imaginar as saudades que eu tinha de ti, e como desejava ver-te. Adivinhaste o meu pensamento… - continuou Anita.
-Como sempre, querida mãezinha, como sempre. E já que entrei de férias há dois dias, foi só fazer as malas e vir – mentiu ele.
- Ah! então vais ficar algum tempo… que bom!
- Sim, apenas tenho que regressar dentro duns 25 dias. Vou passar esse tempo cá. Já deixei a mala em tua casa. A Eduarda preparou-me o quarto de hóspedes, e logo que voltes para casa organizamos uns passeios. Há muitas coisas que quero ver, e vocês vão comigo.
Anita pensou:
- Como isso seria bom! Mas eu sei que não vou voltar a casa. Nunca mais!
Tinha consciência de que o seu estado de saúde era muito grave, e que a sua vida estava por um fio. Mas limitou-se a fazer um gesto de aquiescência.
E, olhando-o atentamente, disse:
- Humberto, mas tu estás a ficar com cabelos brancos! E olha como te ficam bem! És daqueles homens que melhoram com a idade…

De facto, tinha alguns cabelos brancos a enfeitar-lhe as têmporas, o que não impedia que continuasse a ser um belo homem, talvez, até, com um encanto acrescido.
- É para que vejas que a juventude passa…Tu, que tinhas a mania de que estavas a ficar velha, olha para mim. Agora quem está velho sou eu.
- Queres tu dizer que estamos os dois velhinhos…
E, ao pronunciar esta frase, acudiu-lhe ao pensamento uma conversa que tivera com o enteado, há muitos anos atrás, em que ele lhe dissera que, quando fossem velhinhos, lhe contaria uns certos segredos.
- Assim sendo, parece-me que é altura de abrires o teu coração.
Lembras-te que uma vez me disseste que, quando fôssemos velhinhos, eu iria entender muitas coisas, porque tu me contarias os teus segredos? Pois então, chegou a hora…
Apanhado de surpresa, Humberto lembrou-se imediatamente, mas tentou esquivar-se:
- Quando é que eu disse tal coisa? Deves estar a fazer confusão! A tua cabecinha está mesmo a ficar velhota…Não achas que era melhor descansares um pouco?
- Tenho muito tempo para descansar, muito mais do que tu imaginas...
Aqui as noites são muito compridas – acrescentou rapidamente, esperando que ele não percebesse a intenção das suas palavras.
Humberto engoliu em seco. Ignorava que Anita tivesse o pressentimento do seu verdadeiro estado, já que nem os médicos nem a filha lho tinham dito.
E pensou: para quê guardar segredo, agora? Ela tem o direito de saber antes de partir para a grande viagem…

- Então está bem, vou contar-te um segredo, ou dois, que guardei todos estes anos. Mas peço que compreendas os motivos que me levaram a manter silêncio…
- Compreenderei tudo, tenho a certeza. Mas, por favor, conta-me. Agora estou a arder em curiosidade.
- Lembras-te que uma vez te disse que quando a minha mãe era viva, o meu pai já tinha outras mulheres?
- Sim, recordo-me muito bem.
…e que eu sabia de tudo, mas fingia que não, para não afligir a minha mãe…
- Sim, sim, lembro-me.
- Nessa altura menti-te, ou antes, alterei um pouco a verdade. Mas agora vou te relatar o que realmente aconteceu.
_ Podes contar, seja o que for…
Eduarda interrompeu:
- Penso que os vossos segredinhos podem aguardar mais um pouco… O que não pode aguardar é o meu estômago vazio… Mãezinha, eu vim para cá ajudar-te a mudar de quarto, e ainda não comi nada. Importas-te que o Humberto me acompanhe ao bar para beber um café?

FIM DO EPISÓDIO XL

quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

NATAL DE QUEM?


NATAL DE QUEM?

João Coelho dos Santos

Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau,
Do peru, das rabanadas.

- Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!

- Está bem, eu sei!

- E as garrafas de vinho?

- Já vão a caminho!

- Oh mãe, estou pr'a ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?

- Não sei, não sei...

Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:

- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

Senta-se a família
À volta da mesa.

Não há sinal da cruz,

Nem oração ou reza.

Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente!

Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papeis
Sem regras nem leis.
E Cristo Menino
A fazer beicinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração.
A noite vai terminar
E o Menino, quase a chorar:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!

Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:

- Foi este o Natal de Jesus?!!!

João Coelho dos Santos
(in Lágrima do Mar - 1996)
O meu mais belo poema de Natal


João Coelho dos Santos



João Coelho dos Santos
Poeta e historiador
Autor de, entre outros livros, “História e Poesia de Portugal”

domingo, 13 de Dezembro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXXIX

(Ficção baseada em factos reais)

- Como certamente sabes, o aneurisma é devido à dilatação de uma artéria, que forma uma espécie de bolha, em que as paredes ficam muito frágeis, e podem rebentar. Não há qualquer tratamento, a não ser a cirurgia, que consiste em fazer uma abertura no crânio e colocar grampos metálicos no aneurisma, para o bloquear.

FIM DO EPISÓDIO XXXVIII

EPISÓDIO XXXIX

Ao fazer-se a cirurgia corre-se o risco, muito elevado, de rebentar as paredes da artéria e o sangue espalhar-se pelo cérebro. E quando isso acontece… três coisas podem verificar-se:
- O doente não sobreviver à cirurgia; - O doente sobreviver, mas ficar como um vegetal; - E por último, mas infelizmente em casos raríssimos, o doente ficar bem, com todas as suas faculdades intactas.
Eduarda ouvia-o, aterrada. Conseguiu balbuciar:
- Não há mais nada que se possa fazer?
- Minha querida filha – respondeu o médico - infelizmente não, não há mais nada que possamos fazer. Está em estudo um novo método para tratamento do aneurisma, a que deram o nome de embolização ou tratamento endovascular, que dispensa a intervenção a nível do crânio. Infelizmente encontra-se em fase de estudo, e nem sequer foi experimentado em seres humanos.
- E porque é que o doutor diz que eu tenho que tomar uma decisão difícil? Que decisão é essa?
- A tua Mãe encontra-se meio anestesiada sob o efeito dos medicamentos para as dores, e, como tal, legalmente incapaz de poder tomar uma decisão tão grave. Como única parente viva, presente e de maior idade, terás que ser tu a decidir e autorizar a cirurgia. Sem isso não se poderá realizar.
- Mas não sou a única; há o meu irmão, o Tiago, que vive na Inglaterra e trabalha com o nosso irmão, filho apenas do meu Pai, o Humberto. Foi ao Norte, em serviço, e ainda não deu notícias, mas podemos tentar localizá-lo…
- Lamento muito, minha filha, mas não há tempo para isso. A optarmos pela cirurgia, tem que ser rapidamente. Agora vais para casa descansar e pensa bem no assunto. Amanhã já deveremos ter um quarto individual, para onde transferiremos a tua mãe. E depois já poderás fazer-lhe companhia de noite.

A primeira coisa que Eduarda fez ao chegar a casa foi dar largas ao seu desespero.

Quando ficou mais calma, telefonou ao “irmão”.
Humberto assustou-se ao ouvi-la àquela hora da noite, e mais ainda ao aperceber-se de que ela estava a chorar.
Sem entrar em demasiados pormenores Eduarda contou o que se passara desde o dia anterior, quando começara a dor de cabeça de Anita.
Humberto ouviu-a sem a interromper. No fim disse apenas:
- Amanhã vou para aí.
No dia seguinte apanhou o avião, e poucas horas depois da conversa com Eduarda, Humberto passou em casa dela, para deixar a maleta que trouxera; seguiu directamente para a clínica, para onde Eduarda se deslocara mal o sol despontou.
Ali chegado foi recebido pelo médico de Anita, que Eduarda já tinha posto de sobreaviso.
Humberto ouviu, da voz do médico, com todos os pormenores, o que Eduarda lhe havia descrito.
Sufocando um soluço na garganta, Humberto comentou:
- Então o estado de saúde de Anita é ainda mais grave do que Eduarda supõe…
- Sim, é mais grave. Não quis dizer à Eduarda, mas estou convencido que só um milagre a poderá salvar.
Humberto sentiu-se desfalecer. Fez um esforço sobre-humano para que o médico não percebesse até que ponto se sentia perturbado.
Acabou por sair do gabinete do médico como que atordoado, sem saber o que fazer nem para onde se dirigir.
Apenas uma pergunta o torturava: Porquê?
Num impulso dirigiu-se à capela, e em pensamento, invectivou Deus:
- Porquê? Porquê a Anita, Senhor? Não te parece que ela já teve a sua dose completa de sofrimento? Não te parece que ela merecia, finalmente, viver uns tempos feliz, descansada, sem preocupações?
Ou é a mim que queres castigar? Sempre amei esta mulher, em silêncio, sem jamais a levar a trair os seus princípios.
Mereço ser castigado por isso?
Onde está a tua tão apregoada justiça?
Como a capela se encontrava deserta, deixou de reprimir as lágrimas, chorando convulsivamente.
Manteve-se ali um largo espaço de tempo, até que, finalmente, sentiu que poderia aparentar a calma necessária ao encontrar-se com Anita.
Esta já fora transferida para um quarto particular, onde Humberto a encontrou na companhia de Eduarda.

Entrando no quarto de Anita teve que sufocar um soluço.

FIM DO EPISÓDIO XXXIX

sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

PRÉMIOS - SELINHOS (ADENDA)

A Amiga Fernanda, do blog http://naquintadorau.blogspot.com

chamou-me a atenção para o facto de eu não ter publicado aqui dois selinhos que tão gentilmente me ofereceu.
Peço imensa desculpa, mas esqueci-me completamente que o selo dos BLOGUEIROS deveria ser reencaminhado. Por isso limitei-me a, carinhosamente, colocá-los junto a todos os outros que se encontram em A MINHA COLECÇÃO DE SELOS
Reparando a injustiça cometida sem querer , e com a certeza de que a Amiga Fernanda compreenderá, apresento os dois selinhos:

SELO BLOGUEIROS UNIDOS



SELO AMIZADE

Obrigada, Amiga Fernanda.

quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

PRÉMIOS - SELINHOS

Hoje vou publicar uns quantos selinhos que tive a honra de receber, e ficaram a aguardar oportunidade de publicação, a qual chegou hoje.


Quero agradecer, de coração, às Amigas Maria João e Ana Martins, e aos Amigos Daniel e António, estas provas de apreço e carinho.

Peço que me perdoem não dar seguimento aos selinhos oferecidos mas esse reencaminhamento implicava ter eu que nomear 47 blogs!!!
Não seria tarefa fácil até porque muitos dos blogs que eu poderia nomear já foram nomeados por quem mos ofereceu – somos uma grande família, todos primos (no mínimo…) uns dos outros. Por isso as repetições seriam inevitáveis.

Assim sendo vou apenas publicá-los, renovando o meu agradecimento.

Seguirei a ordem das datas em que os recebi.

No dia 07/11/09 recebi da Amiga Maria João, do Blog href="http://www.blogger.com/%20http://mimoseselos.blogspot.com/%20">PEQUENOS DETALHES o selinho

“VIP”
com a indicação de o repassar a 12 blogs.

No dia 14/11/09 recebi do Amigo Daniel, do blog DANIEL MILAGRE o selinho

"UM POUCO DE MIM"

com a indicação de o repassar a 5 Blogs.

No dia 24/11/09 recebi do Amigo António, do blog href="http://www.galobar2008.blogspot.com/%20">ANTÓNIO GALLOGAR , o mesmo selinho,

"UM POUCO DE MIM"

com a condição de completar cinco frases, e repassá-lo a 10 blogs.

No dia 25/11/09 recebi do Amigo Daniel, do blog AMIGOS SELINHOS , o selinho

“THE EARLY DAYS”


com a indicação de o repassar a 10 blogs.

No dia 03/12/09 recebi da Amiga Ana Martins, do blog AVE SEM ASAS , a

“DECLARAÇÃO DE AFECTO”

com a indicação de o repassar a 10 blogs amigos.

Se fizerem as contas :) verificarão que eu teria que reencaminhar para 47 blogs, a não ser que os repetisse, o que seria um pouco desagradável.
Por isso nomeio todos os meus visitantes para se servirem, à vontade.

domingo, 6 de Dezembro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXXVIII

(Ficção baseada em factos reais)

Começando a sentir-se desesperada, Anita pediu à filha que a levasse ao hospital, pois não conseguia aguentar mais uma dor tão forte, e não tinha forças para guiar o carro.
Eduarda prontamente a conduziu ao hospital mais próximo.

FIM DO EPISÓDIO XXXVII
EPISÓDIO XXXVIII

Quando, finalmente, foi atendida e observada, o médico declarou não lhe encontrar nada de anormal que justificasse tal dor. Foi-lhe injectado um forte analgésico, e, depois de prescrito o mesmo fármaco, em comprimidos, mandaram-na para casa.
A dor tinha cedido ao medicamento, e Anita conseguiu passar algumas horas descansada. Mas, ainda antes de se levantar, já a dor de cabeça estava novamente a manifestar-se.

Quando pôs os pés no chão teve uma forte tontura e uma dor tão violenta que a obrigou a gritar.

Eduarda acorreu, alvoroçada e assustada com o grito da mãe.
Encontrou-a sentada no chão, apertando fortemente a cabeça entre as mãos. Reagiu de imediato:
_ Vamos tratar de te vestir rapidamente, para eu te levar ao médico. Mas nem penses que te levo ao hospital. Vais direitinha para a clínica onde o paizinho se tratou, que tem excelentes médicos.
- Mas, minha filha, é uma clínica muito cara. Não podemos aguentar a despesa…
- Não é hora de pensar nessa coisas. Vamos, rápido.
E conduziu a mãe à clínica onde seu pai estivera internado e onde acabara por falecer, rodeado de todos os cuidados.

Logo à chegada Anita foi atendida.
Depois de lhe administrarem um analgésico por via endovenosa para aliviar a lancinante dor de cabeça, e observadas as últimas análises que ela havia feito, e a filha se lembrara de levar consigo, o médico ficou a saber que Anita sofria de colesterol em excesso e hiper-tensão, para o que estava devidamente medicada.

Enquanto decorria o exame preliminar, Anita começou a sentir vómitos e teve um ligeiro desmaio.
O médico prescreveu uma angiografia cerebral e uma TAC (tomografia axial computorizada) do encéfalo.

À medida que as horas iam passando, Anita começou a sentir que a dor de cabeça, que entretanto voltara a aparecer, se centrava na nuca, ao mesmo tempo que sentia também dor nas costas e nas pernas.
Perante estes sintomas o médico mandou fazer uma angiografia por ressonância magnética.
Depois de colhidos os resultados de todos os exames, o médico decidiu fazer uma punção lombar.
Ao ver o líquido avermelhado pelo sangue, não teve mais dúvidas: Anita tinha um aneurisma cerebral de proporções não muito pequenas.

Foi-lhe ministrado um forte sedativo. Encaminharam-na para um quarto de duas camas, que se encontrava já ocupado por outra senhora, e onde chegou meio adormecida.
Antes de ir para casa, visto que, nessa noite, não poderia ficar junto da mãe – não havia quartos individuais disponíveis - Eduarda foi chamada pelo médico, que a pôs a par da situação.

Eduarda apercebera-se que o estado de saúde da mãe era grave, mas não imaginava quanto.
A revelação de que Anita corria sério risco de vida, fez desmoronarem-se todas as forças que ao longo do dia conseguira reunir para não a abandonar um só momento.
Sacudida por soluços, deixou as lágrimas correrem livremente.

O médico levantou-se, pousou-lhe uma mão no ombro, e esperou, pacientemente, que ela se acalmasse. E só depois falou:
- Eduarda, minha filha, tu foste muito corajosa durante a doença do teu pai. Agora vais precisar de muito mais força interior, não só porque se trata da tua mãe, que tu adoras, mas também porque vais ter que tomar uma decisão muito difícil.
Eduarda levantou o rosto para o médico, com um ar surpreendido.
- Decisão? O que é que eu vou ter que decidir?
- Com certeza já te apercebeste – respondeu o médico – que a tua mãe se encontra num estado muito crítico. A única hipótese de ela se salvar é através de uma cirurgia que, - tenho que te dizer a verdade – é muito complicada, e comporta muitos riscos.
- Que tipo de riscos?
- Como certamente sabes, o aneurisma é originado pela dilatação de uma artéria, que forma uma espécie de bolha, em que as paredes ficam muito frágeis, e podem rebentar. Não há qualquer tratamento, a não ser a cirurgia, que consiste em fazer uma abertura no crânio e colocar grampos metálicos no aneurisma, para o bloquear.

FIM DO EPISÓDIO XXXVIII

domingo, 29 de Novembro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXXVII


(Ficção baseada em factos reais)

Não podia, agora, saber como Eulália interceptara as cartas; calculava que tivesse tido a conivência de outras pessoas… Mas duma coisa estava convicta: o “pecado” que a Mãe lhe confessara só podia ser isso.

FIM DO EPISÓDIO XXXVI
EPISÓDIO XXXVII

As amigas de Anita estavam a chegar. Arnaldo despediu-se, manifestando
o desejo de que voltassem a encontra-se. Ela respondeu que também gostaria de vê-lo novamente, dizendo-lhe que ia quase todos os dias àquela pastelaria.

À noite, em casa, Anita contou o sucedido a Eduarda, que comentou:
- Coitada da avó! Fez o que fez a pensar apenas no teu bem, Mãezinha. Tens que lhe perdoar, mesmo, de coração. - Já lhe perdoei há muito tempo, mesmo sem saber de que se tratava.

Anita e Arnaldo continuaram a encontrar-se, de vez em quando, na pastelaria que ambos frequentavam.

O grande amor da juventude transformara-se numa boa amizade.

Aos poucos Anita foi contando o caminho que percorrera desde que se haviam separado, omitindo apenas o seu caso amoroso com o padre João, cuja recordação, agora, a fazia sentir-se um pouco embaraçada, quase envergonhada.

Sem nunca o mencionar, Arnaldo continuava a amar a lembrança de Anita jovem, ao mesmo tempo que, pela Anita actual, nutria uma sincera amizade, agora acrescida duma enorme admiração pelo sacrifício dum casamento forçado, que culminara com o desvelo com que tratara o marido, na sua doença.
Por seu lado, Anita sorria à lembrança do seu juvenil amor, como se não tivesse sido ela própria a protagonista desse capítulo da sua vida.
Via-o como se assistisse a um filme “cor-de-rosa”, sem que isso lhe provocasse qualquer sentimento de saudade.
Alguns dias depois do primeiro encontro Anita apresentou Arnaldo às suas amigas, dizendo tratar-se dum antigo colega de curso e grande amigo. A partir daí sentavam-se todos à mesma mesa, na pastelaria, passando agradáveis momentos a conversar.

Certo dia Anita, na companhia de uma amiga, encaminhava-se para a pastelaria. De repente sentiu um arrepio que a fez estremecer e, sem saber porquê, como que obedecendo a uma ordem oculta, olhou na direcção oposta.
Foi quando o “viu”. O padre João encontrava-se do outro lado da rua, parado no passeio, olhando-a tristemente.
Anita estacou de imediato, com uma expressão de enorme espanto no rosto.
A amiga, observando-a, exclamou:
- Credo! Parece que viste um fantasma!
Anita respondeu:
- Tens razão. Só pode ser mesmo um fantasma – e olhando de novo para o passeio do outro lado da rua, já nada viu. – Tive a nítida sensação de ter visto um amigo que não vejo há imenso tempo…e que agora se encontra em África.
- Em África??? Desculpa, Anita, sei que há por aí muitos macacos…mas isto ainda é Portugal! – respondeu, com uma enorme gargalhada.
- Devo estar com alucinações. Apanhei muito sol na cabeça, é isso – retrucou Anita, com um sorriso forçado.
Durante o resto do caminho manteve-se silenciosa, com o sobrolho franzido, enquanto a amiga tagarelava alegremente.


Depois de uma temporada de sol radioso, naquele dia o tempo mostrou-se nublado, tristonho.
Anita acordou indisposta. Não se sentia bem. Sem saber explicar o que a incomodava, apenas dizia para a filha:
- Não sei o que tenho. É uma sensação tão estranha… Parece que sinto um aperto no peito, e um peso na cabeça…
- Tens tomado os teus medicamentos? – perguntou Eduarda
- Sim, tomo-os sempre. Sabes que sou muito cuidadosa com isso. O médico está sempre a alertar-me para os perigos do colesterol elevado e da hipertensão…
- Pois, eu sei. Depois de tomares o pequeno-almoço talvez te sintas melhor…

Mas tal não aconteceu. A indisposição manteve-se e começou a despontar uma ligeira dor de cabeça, que, ao longo do dia, foi aumentando de intensidade. À noite, a dor era insuportável.
Anita tomara vários analgésicos ao longo do dia, mas a dor de cabeça não cedeu a nada.
Começando a sentir-se desesperada, Anita pediu à filha que a levasse ao hospital, pois não conseguia aguentar mais uma dor tão forte, e não tinha forças para levar o carro.
Eduarda prontamente a conduziu ao hospital mais próximo.

FIM DO EPISÓDIO XXXVII

domingo, 22 de Novembro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXXVI


(Ficção baseada em factos reais)

- Não, não pode ser! E porque não??? Mas…é ele, sim. Mais velho, é claro, como eu…mas é ele, com toda a certeza.

FIM DO EPISÓDIO XXXV

EPISÓDIO XXXVI

É Arnaldo, sem dúvida!

Talvez movido pela força do olhar de Anita, o homem baixou o jornal

e olhou para ela. Imediatamente se estampou no seu rosto um ar de enorme espanto.
Passada a estupefacção inicial, levantou-se e dirigiu-se para a mesa dela.

Anita sentiu o coração bater apressado quando viu o homem encaminhar-se na sua direcção.
O homem parou, e falou:
- Desculpe, mas a senhora não se chama Anita?
Ela sentiu um sobressalto ao verificar que a voz era a mesma de há tantos anos atrás.
- Sim, sou Anita. Quer dizer…o meu nome é Ana, mas toda a gente me tratou sempre por Anita. Chego a esquecer-me de que me chamo Ana… - respondeu, com um leve sorriso.
- Não te lembras de mim, Anita? O Arnaldo…
- De facto, a tua cara fazia-me lembrar alguém… É isso, o Arnaldo! Quem diria que nos encontraríamos, ao fim de tantos anos!...
- Coisas do destino… Tu foste embora e nunca mais disseste nada… E lembras-te, com certeza, que me “proibiste” de te escrever enquanto não recebesse notícias tuas – o que estou aguardando até hoje.
- O quê??? – espantou-se Anita. Eu escrevi-te por duas vezes, completamente desesperada com a situação que os meus Pais me tinham criado, e nunca obtive qualquer resposta…
- Desculpa, Anita, tu sabes que nunca te menti. Inúmeras vezes tiveste oportunidade de confirmar que eu te era inteiramente fiel. Que nunca te menti.
- Isso é verdade… Quando quiseram arranjar aquela intriga entre nós, pude ter a certeza de que eras uma pessoa honesta e correcta, digna da maior confiança.
- Ainda bem que pensas assim. Não duvidas, portanto, se eu te disser que nunca recebi nenhuma carta tua.
Mas… talvez possas, agora, explicar-me o que aconteceu. Pela minha parte prefiro nem recordar o sofrimento por que passei naquela época. Foi demasiado doloroso. Consegui sobreviver a muito custo.
Acabei por encontrar, anos depois, uma mulher com quem tentei refazer a minha vida. Acabamos por constituir família, embora ela soubesse, porque nunca lho escondi, que havia um antigo amor que eu não conseguia esquecer, embora sem nutrir qualquer esperança.
Temos vivido em paz, um amor calmo, sem sobressaltos nem surpresas. Posso dizer que temos sido felizes, tanto quanto as circunstâncias o permitem…

Anita não sabia o que pensar. Tinha a certeza de que Arnaldo estava a falar verdade…
Começou a contar-lhe o que se passara com ela própria, e, de repente, foi como se um raio atravessasse o seu espírito, e a fizesse compreender tudo.
Poucos dias antes de morrer, a sua Mãe escrevera-lhe uma carta que Anita achara muito estranha, e cujo significado jamais conseguira descobrir.
A determinada altura, a Mãe escrevera:

- “Quero pedir-te perdão por uma atitude que tomei antes do teu casamento. Fi-lo pensando apenas na tua felicidade. Mas agora, que sinto a morte a aproximar-se, receio que, ao prestar contas a Deus, Ele considere o meu acto como um pecado.
Por isso, minha querida filha, peço que me digas que me perdoas, ainda que não saibas do que se trata.
Sinto que não devo dizer-te o meu segredo, porque a minha revelação poderia causar-te ainda maior sofrimento. São coisas do passado que não se podem alterar.
Peço-te, pois, que me perdoes, para que eu possa morrer em paz”.

De facto Eulália faleceu poucos dias depois, repentinamente.
Anita não voltou a vê-la viva, tendo ido apenas assistir ao seu funeral.

Agora compreendia que, de algum modo, a sua Mãe impedira que as cartas que escrevera a Arnaldo seguissem o seu caminho. Assim se justificava que ele não as tivesse recebido.
Não podia, agora, saber como Eulália interceptara as cartas; calculava que tivesse tido a conivência de outras pessoas… Mas duma coisa estava convicta: o “pecado” que a Mãe lhe confessara só podia ser isso.

FIM DO EPISÓDIO XXXVI

domingo, 15 de Novembro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXXV


(Ficção baseada em factos reais)

Nunca te esquecerei, Anita. Terei sempre por ti um carinho muito especial, e gostaria que não me guardasses qualquer espécie de rancor pelo que acabei de te confessar. A verdade é que este chamamento é mais forte do que qualquer outro sentimento.
Terminava reiterando os seus sentimentos de amizade.


FIM DO.EPISÓDIO XXXIV

EPISÓDIO XXXV

Ao terminar de ler a carta Anita lembrou-se da última vez que haviam estado juntos, e de como a noite de amor que tinham vivido lhe parecera estranha. Pensara, nessa altura, que eles mais pareciam um casal com longos anos de convivência que iam separar-se por uns dias, do que dois jovens apaixonados que não sabiam quando voltariam a ver-se
Fora aí, nessa noite, que o afastamento deles começara, encaminhando-se para o fim previsível que agora não a surpreendia.
Com um profundo suspiro de resignação e alguma dor, Anita dobrou a carta e juntou-a às outras, pensando:
- Um dia destes faço com elas uma fogueira.


Passaram-se mais de trinta anos desde que a conheci.
Anita é agora uma encantadora senhora na casa dos cinquenta anos. Continua bonita como sempre, apesar de acusar um pouco o peso dos anos e dos muitos desgostos que teve na vida; especialmente no olhar, nota-se uma leve mas permanente nuvem de tristeza.
Não há uma ruga na sua pele de veludo, e os olhos esverdeados continuam belos como eram quando ela não passava de uma criança alegre e descuidada.

Viúva desde há uns anos, Anita recomeçara aos poucos a sua vida normal de encontros com as amigas e colegas da escola, idas ao cinema, jantar fora uma vez por outra. Mas, acima de tudo, dando muito amor e acompanhando de perto tudo que se relacionava com Eduarda.
Desde que recebera a carta do padre João, que ela interpretara como dando por terminado o relacionamento entre ambos, sentia-se estranhamente liberta.
Contra o que seria de esperar, e ela própria estranhava, o rompimento não lhe causara uma grande dor; foi mais como uma espécie de desencanto, o acordar dum sonho muito bonito mas impossível de se realizar.
Dissera para si mesma que, definitivamente, não nascera para o amor.
O que lhe restava na vida seria viver para os filhos, tentando ajudá-los a encontrarem o seu próprio caminho.

Tiago, que todos os anos vinha passar as férias com a Mãe e a irmã, terminara o seu curso e encontrava-se a estagiar no gabinete de arquitectura do irmão, Humberto, que aos poucos se fora tornando um reconhecido arquitecto.
Eduarda, já na Universidade, continuava sendo a aluna brilhante que sempre fora. Dentro de dois anos completaria o curso de direito. O seu sonho era vir a tornar-se juíza.
Às vezes Anita perguntava-lhe quando arranjaria um namorado. A resposta era sempre a mesma:
- Um dia, Mãezinha, um dia. Quando terminar o meu curso…pensarei no assunto. Por agora basta-me o teu amor, não preciso de mais nenhum.
Eram, mais do que Mãe e filha, duas excelentes amigas.
Não havia segredos entre elas, excepto um: Eduarda não sabia – e nunca viria a saber – que era filha do padre João.
O Pai, para ela, sempre fora e continuaria a ser, Vicente, que ela adorara, e cuja recordação ainda lhe fazia brilhar uma pequenina lágrima ao conto do olho.

Um dia, depois de sair do colégio, Anita dirigiu-se, como sempre, à pastelaria onde combinara encontrar-se com as amigas.
Ainda era cedo, sabia que teria de esperar algum tempo. Mas preferiu entrar e sentar-se, a andar pelas ruas a ver montras de coisas que em nada lhe interessavam.
A mesa, à qual habitualmente se sentavam, estava vazia, como que à sua espera. Sentou-se, pediu um chá, e dispôs-se a aguardar as amigas.
Relanceando o olhar pelas poucas pessoas que se encontravam na pastelaria, a sua atenção foi atraída por um homem de meia-idade que, numa mesa próxima, lia o jornal.
Subitamente, sentiu um aperto no peito.

- Não, não pode ser! E porque não??? Mas…é ele, sim. Mais velho, é claro, como eu…mas é ele, com toda a certeza.

domingo, 8 de Novembro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXXIV


(Ficção baseada em factos reais)

Quando Vicente, finalmente, iniciou a grande viagem, Eduarda sentiu uma dor tão grande que lhe parecia que não conseguiria suportá-la.



FIM DO.EPISÓDIO XXXIII

EPISÓDIO XXXIV

Foi de grande ajuda, para ela, a presença de Tiago que, avisado do próximo fim do pai, viera de Inglaterra não só para assistir aos seus últimos momentos, mas especialmente para dar apoio à Mãe e à irmã.
Como não podia estar muito tempo a faltar às aulas, passada uma semana regressou.
Humberto não conseguira anular os seus compromissos, e por isso chegou apenas a tempo de assistir ao funeral. Devido às exigências do seu trabalho, também não pôde manter-se muito tempo na capital, regressando a Inglaterra na companhia do irmão, Tiago.

Durante estes três longos anos, Anita e o padre João trocavam correspondência frequentemente.
O padre João falava-lhe da vida na ilha, na creche, contando-lhe um ou outro episódio que ocorria com as crianças.
Por sua vez Anita ia-lhe relatando todos os passos da doença de Vicente, até ao seu final. Falava-lhe também de Eduarda, e do seu sucesso com os estudos.
Terminavam as cartas sempre com “Amo-te muito”, embora, na maioria das vezes, o Amor não estivesse presente nas palavras que escreviam um ao outro.

Anita sentiu desgosto com a morte de Vicente. Com o tempo que passou a cuidar dele, e a forçosa aproximação, acabou por lhe dedicar uma amizade muito grande. Sentiu a sua partida como a perda dum bom amigo.
Depois de tudo terminado e de ter contactado o advogado que, na Ilha, ficara à frente do que restava dos negócios de Vicente, Anita constatou que os exames dispendiosos e a longa doença do marido tinham consumido quase todo o seu património. Restava uma ninharia, que mal chegaria para manter em funcionamento o escritório na Ilha.
Perante esta realidade, e sem o marido para cuidar - o que lhe ocupava a maior parte do tempo – Anita pensou que era chegada a altura de recomeçar a trabalhar.

Através dos amigos de Vicente conhecera uma ou duas senhoras, e, a partir daí, havia criado o seu grupo de amizades, que lhe foram de grande utilidade na altura em que procurou trabalho.

Uma destas amigas tinha conhecimentos num colégio onde, por sorte para Anita, uma professora estava com baixa de parto. Assim conseguiu arranjar logo trabalho, o que foi muito bom para ela, já que a sua situação económica não era das melhores.

Com o decorrer do tempo, tudo voltou à normalidade.

Nas cartas que escrevia ao padre João Anita fazia-lhe notar que, por vezes, se sentia bastante só. Habituara-se de tal modo a estar sempre junto de Vicente, que agora parecia sentir-lhe a falta.
O padre João respondia confortando-a com palavras de resignação, apenas.
Anita pressentia, da parte dele, um certo desprendimento.

Analisando-se a si própria, verificava que tinha havido um certo arrefecimento no seu amor. A necessidade que sentira de ser livre para poder constituir uma família com o padre João, não lhe parecia agora tão premente.
Compreendia e aceitava que com o padre João tivesse acontecido o mesmo. Não estranhava, portanto, que ele não manifestasse o desejo de vir para junto dela, libertando-se, finalmente, da vida eclesiástica.

Como não gostava de situações pouco claras, e agora não havia motivo para não definir o relacionamento de ambos, Anita escreveu-lhe uma carta em que lhe pedia que fosse sincero e honesto, e lhe dissesse quais os seus planos para futuro, em relação a uma hipotética vida em comum.
Não foi grande a sua surpresa quando leu a resposta do padre João:

- … e não me parece a altura ideal para me desvincular da vida religiosa, já que recebi um convite para ir trabalhar numa Missão em África, o que foi sempre o meu grande sonho. Nunca te esquecerei, Anita. Terei sempre por ti um carinho muito especial, e gostaria que não me guardasses qualquer espécie de rancor pelo que acabei de te confessar. A verdade é que este chamamento é mais forte do que qualquer outro sentimento. Terminava reiterando os seus sentimentos de amizade.

FIM DO.EPISÓDIO XXXIV

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

ATRIBUIÇÃO DE PRÉMIO

A minha amiga Ana Martins, do blogue AVE SEM ASAS

honrou-me com a oferta do prémio



Publicamente apresento-lhe o meu “bem haja!”.

Dando-lhe seguimento, compete-me a dura tarefa de nomear 12 blogues que me pareçam merecedores de receberem o SELO VIP.
Não é tarefa fácil. Mas, como tem que ser, seguem os blogues que, sem desprimor para todos os outros, e duma forma quase aleatória, vou nomear:

IN-SENSO
MULTIOLHARES
MUNDO AZUL
OFICINA DAS IDEIAS
REBECA E JOTACÊ
PELOS CAMINHOS DA VIDA
PENSO LOGO EXISTO
PEQUENOS DETALHES
RECALCITRANTE
EU E DAÍ?
UM MUNDO COLORIDO
UM VENTO NA ILHA

Felicidades para todos, nomeados e não nomeados.