domingo, 6 de Dezembro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXXVIII

(Ficção baseada em factos reais)

Começando a sentir-se desesperada, Anita pediu à filha que a levasse ao hospital, pois não conseguia aguentar mais uma dor tão forte, e não tinha forças para guiar o carro.
Eduarda prontamente a conduziu ao hospital mais próximo.

FIM DO EPISÓDIO XXXVII
EPISÓDIO XXXVIII

Quando, finalmente, foi atendida e observada, o médico declarou não lhe encontrar nada de anormal que justificasse tal dor. Foi-lhe injectado um forte analgésico, e, depois de prescrito o mesmo fármaco, em comprimidos, mandaram-na para casa.
A dor tinha cedido ao medicamento, e Anita conseguiu passar algumas horas descansada. Mas, ainda antes de se levantar, já a dor de cabeça estava novamente a manifestar-se.

Quando pôs os pés no chão teve uma forte tontura e uma dor tão violenta que a obrigou a gritar.

Eduarda acorreu, alvoroçada e assustada com o grito da mãe.
Encontrou-a sentada no chão, apertando fortemente a cabeça entre as mãos. Reagiu de imediato:
_ Vamos tratar de te vestir rapidamente, para eu te levar ao médico. Mas nem penses que te levo ao hospital. Vais direitinha para a clínica onde o paizinho se tratou, que tem excelentes médicos.
- Mas, minha filha, é uma clínica muito cara. Não podemos aguentar a despesa…
- Não é hora de pensar nessa coisas. Vamos, rápido.
E conduziu a mãe à clínica onde seu pai estivera internado e onde acabara por falecer, rodeado de todos os cuidados.

Logo à chegada Anita foi atendida.
Depois de lhe administrarem um analgésico por via endovenosa para aliviar a lancinante dor de cabeça, e observadas as últimas análises que ela havia feito, e a filha se lembrara de levar consigo, o médico ficou a saber que Anita sofria de colesterol em excesso e hiper-tensão, para o que estava devidamente medicada.

Enquanto decorria o exame preliminar, Anita começou a sentir vómitos e teve um ligeiro desmaio.
O médico prescreveu uma angiografia cerebral e uma TAC (tomografia axial computorizada) do encéfalo.

À medida que as horas iam passando, Anita começou a sentir que a dor de cabeça, que entretanto voltara a aparecer, se centrava na nuca, ao mesmo tempo que sentia também dor nas costas e nas pernas.
Perante estes sintomas o médico mandou fazer uma angiografia por ressonância magnética.
Depois de colhidos os resultados de todos os exames, o médico decidiu fazer uma punção lombar.
Ao ver o líquido avermelhado pelo sangue, não teve mais dúvidas: Anita tinha um aneurisma cerebral de proporções não muito pequenas.

Foi-lhe ministrado um forte sedativo. Encaminharam-na para um quarto de duas camas, que se encontrava já ocupado por outra senhora, e onde chegou meio adormecida.
Antes de ir para casa, visto que, nessa noite, não poderia ficar junto da mãe – não havia quartos individuais disponíveis - Eduarda foi chamada pelo médico, que a pôs a par da situação.

Eduarda apercebera-se que o estado de saúde da mãe era grave, mas não imaginava quanto.
A revelação de que Anita corria sério risco de vida, fez desmoronarem-se todas as forças que ao longo do dia conseguira reunir para não a abandonar um só momento.
Sacudida por soluços, deixou as lágrimas correrem livremente.

O médico levantou-se, pousou-lhe uma mão no ombro, e esperou, pacientemente, que ela se acalmasse. E só depois falou:
- Eduarda, minha filha, tu foste muito corajosa durante a doença do teu pai. Agora vais precisar de muito mais força interior, não só porque se trata da tua mãe, que tu adoras, mas também porque vais ter que tomar uma decisão muito difícil.
Eduarda levantou o rosto para o médico, com um ar surpreendido.
- Decisão? O que é que eu vou ter que decidir?
- Com certeza já te apercebeste – respondeu o médico – que a tua mãe se encontra num estado muito crítico. A única hipótese de ela se salvar é através de uma cirurgia que, - tenho que te dizer a verdade – é muito complicada, e comporta muitos riscos.
- Que tipo de riscos?
- Como certamente sabes, o aneurisma é originado pela dilatação de uma artéria, que forma uma espécie de bolha, em que as paredes ficam muito frágeis, e podem rebentar. Não há qualquer tratamento, a não ser a cirurgia, que consiste em fazer uma abertura no crânio e colocar grampos metálicos no aneurisma, para o bloquear.

FIM DO EPISÓDIO XXXVIII

domingo, 29 de Novembro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXXVII


(Ficção baseada em factos reais)

Não podia, agora, saber como Eulália interceptara as cartas; calculava que tivesse tido a conivência de outras pessoas… Mas duma coisa estava convicta: o “pecado” que a Mãe lhe confessara só podia ser isso.

FIM DO EPISÓDIO XXXVI
EPISÓDIO XXXVII

As amigas de Anita estavam a chegar. Arnaldo despediu-se, manifestando
o desejo de que voltassem a encontra-se. Ela respondeu que também gostaria de vê-lo novamente, dizendo-lhe que ia quase todos os dias àquela pastelaria.

À noite, em casa, Anita contou o sucedido a Eduarda, que comentou:
- Coitada da avó! Fez o que fez a pensar apenas no teu bem, Mãezinha. Tens que lhe perdoar, mesmo, de coração. - Já lhe perdoei há muito tempo, mesmo sem saber de que se tratava.

Anita e Arnaldo continuaram a encontrar-se, de vez em quando, na pastelaria que ambos frequentavam.

O grande amor da juventude transformara-se numa boa amizade.

Aos poucos Anita foi contando o caminho que percorrera desde que se haviam separado, omitindo apenas o seu caso amoroso com o padre João, cuja recordação, agora, a fazia sentir-se um pouco embaraçada, quase envergonhada.

Sem nunca o mencionar, Arnaldo continuava a amar a lembrança de Anita jovem, ao mesmo tempo que, pela Anita actual, nutria uma sincera amizade, agora acrescida duma enorme admiração pelo sacrifício dum casamento forçado, que culminara com o desvelo com que tratara o marido, na sua doença.
Por seu lado, Anita sorria à lembrança do seu juvenil amor, como se não tivesse sido ela própria a protagonista desse capítulo da sua vida.
Via-o como se assistisse a um filme “cor-de-rosa”, sem que isso lhe provocasse qualquer sentimento de saudade.
Alguns dias depois do primeiro encontro Anita apresentou Arnaldo às suas amigas, dizendo tratar-se dum antigo colega de curso e grande amigo. A partir daí sentavam-se todos à mesma mesa, na pastelaria, passando agradáveis momentos a conversar.

Certo dia Anita, na companhia de uma amiga, encaminhava-se para a pastelaria. De repente sentiu um arrepio que a fez estremecer e, sem saber porquê, como que obedecendo a uma ordem oculta, olhou na direcção oposta.
Foi quando o “viu”. O padre João encontrava-se do outro lado da rua, parado no passeio, olhando-a tristemente.
Anita estacou de imediato, com uma expressão de enorme espanto no rosto.
A amiga, observando-a, exclamou:
- Credo! Parece que viste um fantasma!
Anita respondeu:
- Tens razão. Só pode ser mesmo um fantasma – e olhando de novo para o passeio do outro lado da rua, já nada viu. – Tive a nítida sensação de ter visto um amigo que não vejo há imenso tempo…e que agora se encontra em África.
- Em África??? Desculpa, Anita, sei que há por aí muitos macacos…mas isto ainda é Portugal! – respondeu, com uma enorme gargalhada.
- Devo estar com alucinações. Apanhei muito sol na cabeça, é isso – retrucou Anita, com um sorriso forçado.
Durante o resto do caminho manteve-se silenciosa, com o sobrolho franzido, enquanto a amiga tagarelava alegremente.


Depois de uma temporada de sol radioso, naquele dia o tempo mostrou-se nublado, tristonho.
Anita acordou indisposta. Não se sentia bem. Sem saber explicar o que a incomodava, apenas dizia para a filha:
- Não sei o que tenho. É uma sensação tão estranha… Parece que sinto um aperto no peito, e um peso na cabeça…
- Tens tomado os teus medicamentos? – perguntou Eduarda
- Sim, tomo-os sempre. Sabes que sou muito cuidadosa com isso. O médico está sempre a alertar-me para os perigos do colesterol elevado e da hipertensão…
- Pois, eu sei. Depois de tomares o pequeno-almoço talvez te sintas melhor…

Mas tal não aconteceu. A indisposição manteve-se e começou a despontar uma ligeira dor de cabeça, que, ao longo do dia, foi aumentando de intensidade. À noite, a dor era insuportável.
Anita tomara vários analgésicos ao longo do dia, mas a dor de cabeça não cedeu a nada.
Começando a sentir-se desesperada, Anita pediu à filha que a levasse ao hospital, pois não conseguia aguentar mais uma dor tão forte, e não tinha forças para levar o carro.
Eduarda prontamente a conduziu ao hospital mais próximo.

FIM DO EPISÓDIO XXXVII

domingo, 22 de Novembro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXXVI


(Ficção baseada em factos reais)

- Não, não pode ser! E porque não??? Mas…é ele, sim. Mais velho, é claro, como eu…mas é ele, com toda a certeza.

FIM DO EPISÓDIO XXXV

EPISÓDIO XXXVI

É Arnaldo, sem dúvida!

Talvez movido pela força do olhar de Anita, o homem baixou o jornal

e olhou para ela. Imediatamente se estampou no seu rosto um ar de enorme espanto.
Passada a estupefacção inicial, levantou-se e dirigiu-se para a mesa dela.

Anita sentiu o coração bater apressado quando viu o homem encaminhar-se na sua direcção.
O homem parou, e falou:
- Desculpe, mas a senhora não se chama Anita?
Ela sentiu um sobressalto ao verificar que a voz era a mesma de há tantos anos atrás.
- Sim, sou Anita. Quer dizer…o meu nome é Ana, mas toda a gente me tratou sempre por Anita. Chego a esquecer-me de que me chamo Ana… - respondeu, com um leve sorriso.
- Não te lembras de mim, Anita? O Arnaldo…
- De facto, a tua cara fazia-me lembrar alguém… É isso, o Arnaldo! Quem diria que nos encontraríamos, ao fim de tantos anos!...
- Coisas do destino… Tu foste embora e nunca mais disseste nada… E lembras-te, com certeza, que me “proibiste” de te escrever enquanto não recebesse notícias tuas – o que estou aguardando até hoje.
- O quê??? – espantou-se Anita. Eu escrevi-te por duas vezes, completamente desesperada com a situação que os meus Pais me tinham criado, e nunca obtive qualquer resposta…
- Desculpa, Anita, tu sabes que nunca te menti. Inúmeras vezes tiveste oportunidade de confirmar que eu te era inteiramente fiel. Que nunca te menti.
- Isso é verdade… Quando quiseram arranjar aquela intriga entre nós, pude ter a certeza de que eras uma pessoa honesta e correcta, digna da maior confiança.
- Ainda bem que pensas assim. Não duvidas, portanto, se eu te disser que nunca recebi nenhuma carta tua.
Mas… talvez possas, agora, explicar-me o que aconteceu. Pela minha parte prefiro nem recordar o sofrimento por que passei naquela época. Foi demasiado doloroso. Consegui sobreviver a muito custo.
Acabei por encontrar, anos depois, uma mulher com quem tentei refazer a minha vida. Acabamos por constituir família, embora ela soubesse, porque nunca lho escondi, que havia um antigo amor que eu não conseguia esquecer, embora sem nutrir qualquer esperança.
Temos vivido em paz, um amor calmo, sem sobressaltos nem surpresas. Posso dizer que temos sido felizes, tanto quanto as circunstâncias o permitem…

Anita não sabia o que pensar. Tinha a certeza de que Arnaldo estava a falar verdade…
Começou a contar-lhe o que se passara com ela própria, e, de repente, foi como se um raio atravessasse o seu espírito, e a fizesse compreender tudo.
Poucos dias antes de morrer, a sua Mãe escrevera-lhe uma carta que Anita achara muito estranha, e cujo significado jamais conseguira descobrir.
A determinada altura, a Mãe escrevera:

- “Quero pedir-te perdão por uma atitude que tomei antes do teu casamento. Fi-lo pensando apenas na tua felicidade. Mas agora, que sinto a morte a aproximar-se, receio que, ao prestar contas a Deus, Ele considere o meu acto como um pecado.
Por isso, minha querida filha, peço que me digas que me perdoas, ainda que não saibas do que se trata.
Sinto que não devo dizer-te o meu segredo, porque a minha revelação poderia causar-te ainda maior sofrimento. São coisas do passado que não se podem alterar.
Peço-te, pois, que me perdoes, para que eu possa morrer em paz”.

De facto Eulália faleceu poucos dias depois, repentinamente.
Anita não voltou a vê-la viva, tendo ido apenas assistir ao seu funeral.

Agora compreendia que, de algum modo, a sua Mãe impedira que as cartas que escrevera a Arnaldo seguissem o seu caminho. Assim se justificava que ele não as tivesse recebido.
Não podia, agora, saber como Eulália interceptara as cartas; calculava que tivesse tido a conivência de outras pessoas… Mas duma coisa estava convicta: o “pecado” que a Mãe lhe confessara só podia ser isso.

FIM DO EPISÓDIO XXXVI

domingo, 15 de Novembro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXXV


(Ficção baseada em factos reais)

Nunca te esquecerei, Anita. Terei sempre por ti um carinho muito especial, e gostaria que não me guardasses qualquer espécie de rancor pelo que acabei de te confessar. A verdade é que este chamamento é mais forte do que qualquer outro sentimento.
Terminava reiterando os seus sentimentos de amizade.


FIM DO.EPISÓDIO XXXIV

EPISÓDIO XXXV

Ao terminar de ler a carta Anita lembrou-se da última vez que haviam estado juntos, e de como a noite de amor que tinham vivido lhe parecera estranha. Pensara, nessa altura, que eles mais pareciam um casal com longos anos de convivência que iam separar-se por uns dias, do que dois jovens apaixonados que não sabiam quando voltariam a ver-se
Fora aí, nessa noite, que o afastamento deles começara, encaminhando-se para o fim previsível que agora não a surpreendia.
Com um profundo suspiro de resignação e alguma dor, Anita dobrou a carta e juntou-a às outras, pensando:
- Um dia destes faço com elas uma fogueira.


Passaram-se mais de trinta anos desde que a conheci.
Anita é agora uma encantadora senhora na casa dos cinquenta anos. Continua bonita como sempre, apesar de acusar um pouco o peso dos anos e dos muitos desgostos que teve na vida; especialmente no olhar, nota-se uma leve mas permanente nuvem de tristeza.
Não há uma ruga na sua pele de veludo, e os olhos esverdeados continuam belos como eram quando ela não passava de uma criança alegre e descuidada.

Viúva desde há uns anos, Anita recomeçara aos poucos a sua vida normal de encontros com as amigas e colegas da escola, idas ao cinema, jantar fora uma vez por outra. Mas, acima de tudo, dando muito amor e acompanhando de perto tudo que se relacionava com Eduarda.
Desde que recebera a carta do padre João, que ela interpretara como dando por terminado o relacionamento entre ambos, sentia-se estranhamente liberta.
Contra o que seria de esperar, e ela própria estranhava, o rompimento não lhe causara uma grande dor; foi mais como uma espécie de desencanto, o acordar dum sonho muito bonito mas impossível de se realizar.
Dissera para si mesma que, definitivamente, não nascera para o amor.
O que lhe restava na vida seria viver para os filhos, tentando ajudá-los a encontrarem o seu próprio caminho.

Tiago, que todos os anos vinha passar as férias com a Mãe e a irmã, terminara o seu curso e encontrava-se a estagiar no gabinete de arquitectura do irmão, Humberto, que aos poucos se fora tornando um reconhecido arquitecto.
Eduarda, já na Universidade, continuava sendo a aluna brilhante que sempre fora. Dentro de dois anos completaria o curso de direito. O seu sonho era vir a tornar-se juíza.
Às vezes Anita perguntava-lhe quando arranjaria um namorado. A resposta era sempre a mesma:
- Um dia, Mãezinha, um dia. Quando terminar o meu curso…pensarei no assunto. Por agora basta-me o teu amor, não preciso de mais nenhum.
Eram, mais do que Mãe e filha, duas excelentes amigas.
Não havia segredos entre elas, excepto um: Eduarda não sabia – e nunca viria a saber – que era filha do padre João.
O Pai, para ela, sempre fora e continuaria a ser, Vicente, que ela adorara, e cuja recordação ainda lhe fazia brilhar uma pequenina lágrima ao conto do olho.

Um dia, depois de sair do colégio, Anita dirigiu-se, como sempre, à pastelaria onde combinara encontrar-se com as amigas.
Ainda era cedo, sabia que teria de esperar algum tempo. Mas preferiu entrar e sentar-se, a andar pelas ruas a ver montras de coisas que em nada lhe interessavam.
A mesa, à qual habitualmente se sentavam, estava vazia, como que à sua espera. Sentou-se, pediu um chá, e dispôs-se a aguardar as amigas.
Relanceando o olhar pelas poucas pessoas que se encontravam na pastelaria, a sua atenção foi atraída por um homem de meia-idade que, numa mesa próxima, lia o jornal.
Subitamente, sentiu um aperto no peito.

- Não, não pode ser! E porque não??? Mas…é ele, sim. Mais velho, é claro, como eu…mas é ele, com toda a certeza.

domingo, 8 de Novembro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXXIV


(Ficção baseada em factos reais)

Quando Vicente, finalmente, iniciou a grande viagem, Eduarda sentiu uma dor tão grande que lhe parecia que não conseguiria suportá-la.



FIM DO.EPISÓDIO XXXIII

EPISÓDIO XXXIV

Foi de grande ajuda, para ela, a presença de Tiago que, avisado do próximo fim do pai, viera de Inglaterra não só para assistir aos seus últimos momentos, mas especialmente para dar apoio à Mãe e à irmã.
Como não podia estar muito tempo a faltar às aulas, passada uma semana regressou.
Humberto não conseguira anular os seus compromissos, e por isso chegou apenas a tempo de assistir ao funeral. Devido às exigências do seu trabalho, também não pôde manter-se muito tempo na capital, regressando a Inglaterra na companhia do irmão, Tiago.

Durante estes três longos anos, Anita e o padre João trocavam correspondência frequentemente.
O padre João falava-lhe da vida na ilha, na creche, contando-lhe um ou outro episódio que ocorria com as crianças.
Por sua vez Anita ia-lhe relatando todos os passos da doença de Vicente, até ao seu final. Falava-lhe também de Eduarda, e do seu sucesso com os estudos.
Terminavam as cartas sempre com “Amo-te muito”, embora, na maioria das vezes, o Amor não estivesse presente nas palavras que escreviam um ao outro.

Anita sentiu desgosto com a morte de Vicente. Com o tempo que passou a cuidar dele, e a forçosa aproximação, acabou por lhe dedicar uma amizade muito grande. Sentiu a sua partida como a perda dum bom amigo.
Depois de tudo terminado e de ter contactado o advogado que, na Ilha, ficara à frente do que restava dos negócios de Vicente, Anita constatou que os exames dispendiosos e a longa doença do marido tinham consumido quase todo o seu património. Restava uma ninharia, que mal chegaria para manter em funcionamento o escritório na Ilha.
Perante esta realidade, e sem o marido para cuidar - o que lhe ocupava a maior parte do tempo – Anita pensou que era chegada a altura de recomeçar a trabalhar.

Através dos amigos de Vicente conhecera uma ou duas senhoras, e, a partir daí, havia criado o seu grupo de amizades, que lhe foram de grande utilidade na altura em que procurou trabalho.

Uma destas amigas tinha conhecimentos num colégio onde, por sorte para Anita, uma professora estava com baixa de parto. Assim conseguiu arranjar logo trabalho, o que foi muito bom para ela, já que a sua situação económica não era das melhores.

Com o decorrer do tempo, tudo voltou à normalidade.

Nas cartas que escrevia ao padre João Anita fazia-lhe notar que, por vezes, se sentia bastante só. Habituara-se de tal modo a estar sempre junto de Vicente, que agora parecia sentir-lhe a falta.
O padre João respondia confortando-a com palavras de resignação, apenas.
Anita pressentia, da parte dele, um certo desprendimento.

Analisando-se a si própria, verificava que tinha havido um certo arrefecimento no seu amor. A necessidade que sentira de ser livre para poder constituir uma família com o padre João, não lhe parecia agora tão premente.
Compreendia e aceitava que com o padre João tivesse acontecido o mesmo. Não estranhava, portanto, que ele não manifestasse o desejo de vir para junto dela, libertando-se, finalmente, da vida eclesiástica.

Como não gostava de situações pouco claras, e agora não havia motivo para não definir o relacionamento de ambos, Anita escreveu-lhe uma carta em que lhe pedia que fosse sincero e honesto, e lhe dissesse quais os seus planos para futuro, em relação a uma hipotética vida em comum.
Não foi grande a sua surpresa quando leu a resposta do padre João:

- … e não me parece a altura ideal para me desvincular da vida religiosa, já que recebi um convite para ir trabalhar numa Missão em África, o que foi sempre o meu grande sonho. Nunca te esquecerei, Anita. Terei sempre por ti um carinho muito especial, e gostaria que não me guardasses qualquer espécie de rancor pelo que acabei de te confessar. A verdade é que este chamamento é mais forte do que qualquer outro sentimento. Terminava reiterando os seus sentimentos de amizade.

FIM DO.EPISÓDIO XXXIV

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

ATRIBUIÇÃO DE PRÉMIO

A minha amiga Ana Martins, do blogue AVE SEM ASAS

honrou-me com a oferta do prémio



Publicamente apresento-lhe o meu “bem haja!”.

Dando-lhe seguimento, compete-me a dura tarefa de nomear 12 blogues que me pareçam merecedores de receberem o SELO VIP.
Não é tarefa fácil. Mas, como tem que ser, seguem os blogues que, sem desprimor para todos os outros, e duma forma quase aleatória, vou nomear:

IN-SENSO
MULTIOLHARES
MUNDO AZUL
OFICINA DAS IDEIAS
REBECA E JOTACÊ
PELOS CAMINHOS DA VIDA
PENSO LOGO EXISTO
PEQUENOS DETALHES
RECALCITRANTE
EU E DAÍ?
UM MUNDO COLORIDO
UM VENTO NA ILHA

Felicidades para todos, nomeados e não nomeados.

domingo, 1 de Novembro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXXIII

(Ficção baseada em factos reais)

Tantas vezes a ameaça foi repetida que Vicente acabou por se convencer. Mas lembrou a Anita que, antes disso, era urgente arranjar uma escola para a sua menina, assim como tratar da ida de Tiago para Inglaterra..

FIM DO.EPISÓDIO XXXII
EPISÓDIO XXXIII

Anita tratou de tudo que era necessário, já que Vicente se cansava muito andando a pé dum lado para outro.
Os amigos foram incansáveis. Sabendo do seu precário estado de saúde, levaram-no a percorrer, de carro, a capital que ele já mal reconhecia, ao fim de tantos anos de ausência.
Sabendo que brevemente Vicente iria submeter-se a exames que poderiam, eventualmente, implicar o seu internamento, revezavam-se e, todos os dias, o levavam a dar grandes passeios, mostrando-lhe as novidades que havia na cidade.
O verão aproximava-se do fim, assim como as férias escolares. Era chegada a altura de Tiago viajar para Inglaterra, onde o esperava o irmão, Humberto.
Mais uma despedida na vida de Anita, esta talvez a mais dolorosa de todas.
Para Tiago também não foi nada fácil, pois nunca se separara da Mãe e da irmã, desde que nascera. Mais fácil foi despedir-se do Pai, com quem nunca tivera grande afinidade.
Mas como era já um homenzinho, teria que comportar-se como tal…Engoliu todas as lágrimas que conseguiu, mas muitas lhe correram pelo rosto.
Só a ideia de que viria passar as férias com a família aliviou um pouco a sua dor.

O, relativamente curto, tempo de viagem mal chegou para se recompor, e ao chegar junto do irmão ainda mantinha um aspecto profundamente triste.
A Natureza se encarregou de fazer o seu trabalho, e, à medida que os dias passavam e aumentavam os afazeres relacionados com os seus estudos, a tristeza foi desaparecendo, e Tiago acabou por adaptar-se à sua nova vida.

Entretanto, na capital, Anita descobrira um colégio óptimo para Eduarda, ao qual ela se adaptou facilmente, e onde permaneceu estudando até ao seu ingresso na Universidade.
Grande parte do primeiro ano após a chegada ao Continente foi passado entre médicos, análises, exames de todo o género. Os médicos tinham dificuldade em chegar a uma conclusão porque os resultados dos exames apontavam em várias direcções, levando-os a pôr a hipótese de Vicente sofrer de alguma doença rara desconhecida.

Finalmente, reunidas as equipas médicas, concluíram tratar-se de “Paralisia Supra nuclear Progressiva”, uma das mais raras formas de Parkinsonismo, em que não se verificam os habituais “tremores” dos doentes de Parkinson, mas em que todos os outros efeitos vêm a manifestar-se, à medida que a doença vai avançando. Trata-se de uma doença degenerativa rara, que envolve a deterioração progressiva e morte de áreas seleccionadas do cérebro, e que afecta cerca de 6 em cada 100.000 pessoas.

Eduarda reagia muito mal à doença do pai. O amor que por ele nutria quase raiava a idolatria; não se conformava que ele sofresse de uma doença incurável, que progressivamente o iria consumindo, até um fim inevitável, a médio ou curto prazo.

Anita dedicou-se por inteiro a cuidar do marido que, a cada dia que passava, se tornava mais dependente. Decorridos dois anos Vicente deixou de poder controlar os mais ligeiros movimentos; Anita tinha que dar-lhe a comida na boca, e ajudá-lo a segurar no copo, que ele teimava em querer agarrar com as suas próprias mãos.
Chegou o dia em que Anita não podia mais tratar do marido. A conselho médico internou-o na clínica onde lhe fora diagnosticada a doença.
Todos os dias ia visitá-lo e passava as tardes com ele.
Eduarda, logo que saía das aulas, corria para a clínica, passando junto do pai todo o tempo disponível.
A situação agravava-se a olhos vistos. Vicente já não conseguia falar, limitando-se a olhar, insistentemente, para Anita, e especialmente para Eduarda, que passava todo o tempo segurando a mão do pai.

Uns dias depois o médico informou Anita de que o marido tinha poucos dias de vida.
A partir desse momento Eduarda não mais deixou a clínica.
Faltou às aulas, dormia no quarto do pai, onde Anita também pernoitava, e não mais o abandonou até ao último suspiro.
Quando Vicente, finalmente, iniciou a grande viagem, Eduarda sentiu uma dor tão grande que lhe parecia que não conseguiria suportá-la.



FIM DO EPISÓDIO XXXIII

domingo, 25 de Outubro de 2009

ANITA

Após três meses de ausência estou novamente junto de vós, minhas amigas e meus amigos.
Quero agradecer, publicamente, a todos que me visitaram e expressaram os seus votos de melhoras e breve regresso.
Emocionou-me tanta amizade e carinho. Só posso dizer:
- Bem hajam!

E para reiniciar actividades, eis mais um capítulo de Anita.


ANITA – EPISÓDIO XXXII

(Ficção baseada em factos reais)

Mas o destino permitiu que pudessem passar juntos mais uma noite, antes da despedida, o que, ultimamente, poucas oportunidades tinham tido de fazer.

FIM DO.EPISÓDIO XXXI

EPISÓDIO XXXII

Puderam, assim, dar largas ao seu amor. Anita sentiu que não o faziam com o arrebatamento que era usual antes do nascimento de Eduarda.
A verdade é que os seus encontros amorosos ultimamente tinham sido tão rápidos que nem lhe davam tempo para notar qualquer diferença.
Atribuiu o facto ao desespero da despedida eminente e ao estado de nervos em que ambos se encontravam. Mas repetiram as juras de amor eterno manifestando a esperança de que muito brevemente pudessem viver as suas vidas em comum.
Mais tarde, Anita recordaria esta noite como parecendo a de um casal de longa data que se fosse separar por alguns dias.

No meio de toda a azáfama e tantos assuntos a resolver antes da partida, Anita lembrou-se de um pormenor muito importante: os seus filhos não sabiam que o pai não pudera, até então, ausentar-se da ilha, e muito menos os motivos de tal proibição.
Expôs a sua preocupação a Vicente, fazendo-lhe notar o perigo de, à chegada à Capital, algum dos seus amigos aludir ao assunto, e assim se criar uma situação constrangedora.
Vicente concordou de imediato, pedindo a Anita que fosse ela a falar com os filhos, já que o assunto ainda lhe era extremamente doloroso.
Assim, antes de saírem de casa, Anita chamou os filhos ao quarto, onde lhes comunicou que só agora, passados mais de quarenta anos, o pai poderia regressar à sua terra natal, já que, até àquela data, estava impedido de sair da ilha onde se encontrava na condição de preso político.

A viagem decorreu numa grande calmaria, com um mar a que os marinheiros chamam “mar de azeite”.
Foram cinco dias aproveitados para descansar, de que Vicente estava bastante necessitado. Nos últimos dias passados na ilha não fizera qualquer repouso, e o seu estado de saúde ressentira-se.
Agora, que a maior parte da sua tensão nervosa tinha desaparecido, é que se lhe notavam bem os efeitos do cansaço. Era obrigado a, com maior frequência, tomar os comprimidos para as dores.
Finalmente chegados à capital e instalados na casa que o amigo Joaquim se encarregara de lhes alugar, Anita ficou verdadeiramente surpreendida com a quantidade de amigos que apareceram para cumprimentar Vicente, abraçando-o efusivamente.
Deles, Anita conhecia apenas Joaquim, que uma vez fora passar férias à ilha, ficando instalado em sua casa, e com quem sabia que Vicente mantinha correspondência regularmente.

Terminadas as inúmeras visitas, a primeira preocupação de Anita foi descobrir uma equipa médica que pudesse examinar Vicente.
Falando com umas primas afastadas de sua Mãe, elas indicaram-lhe uma clínica onde ele poderia ser observado e fazer todos os exames necessários para se chegar a uma conclusão sobre a sua doença, tratamento e cura; o único problema é que se tratava de uma clínica bastante cara.
Anita imediatamente respondeu que isso não seria problema, pois estava disposta, se fosse necessário, a disponibilizar todos os bens do marido para o tratar.
Ela tinha o seu curso, podia trabalhar, e, quanto aos filhos, interessava-lhe apenas que ficassem com uma “enxada” para ganharem a vida.

De início Vicente mostrou-se bastante reticente em aceitar a sugestão de Anita para consultar um médico especialista. Contudo, ela descobrira a forma de o convencer.
Tinha notado que, sempre que os amigos o visitavam, ele ficava completamente extenuado. As longas conversas entre eles, às quais Anita se mantinha alheia, deixavam-no num estado de enorme excitação e cansaço.
Anita aproveitava todas essas oportunidades para o “ameaçar”:
- Ou vais consultar um especialista que te trate convenientemente e te ponha são como um pêro… ou eu aviso os teus amigos para não voltarem a visitar-te.
Tantas vezes a ameaça foi repetida que Vicente acabou por se convencer. Mas lembrou a Anita que, antes disso, era urgente arranjar uma escola para a sua menina, assim como tratar da ida de Tiago para Inglaterra.

FIM DO EPISÓDIO XXXII

domingo, 26 de Julho de 2009

DIA DOS AVÓS

Queridas amigas, amigos, comentadores e visitantes em geral:

Por motivos alheios à minha vontade, a que não é estranho o aspecto de saúde, vou ausentar-me da blogosfera.

Dependendo de diversas questões, esta ausência pode prolongar-se por um período de tempo maior ou menor, mas que, imagino, nunca será inferior a dois ou três meses.

Estarei ausente, sim, mas ter-vos-ei sempre presentes no meu pensamento e, - porque não dizê-lo? – também no meu coração.

E para não ser uma despedida “a seco”, e porque hoje é o Dia Mundial dos Avós (Avô e Avó), deixem-me lembrar-lhes a origem deste dia:

Comemora-se o Dia dos Avôs e Avós em 26 de julho. E esse dia foi escolhido para a comemoração porque é o dia de Santa Ana e São Joaquim, pais de Maria e avós de Jesus Cristo.
História
Conta a história que, no século I a.C., Ana e seu marido, Joaquim, viviam em Nazaré e não tinham filhos, mas sempre rezavam pedindo que o Senhor lhes enviasse uma criança. Apesar da idade avançada do casal, um anjo do Senhor apareceu e comunicou que Ana estava grávida, e eles tiveram a graça de ter uma menina abençoada a quem batizaram de Maria. Santa Ana morreu quando a menina tinha apenas 3 anos.
Devido à sua história, Santa Ana é considerada a padroeira das mulheres grávidas e dos que desejam ter filhos. Maria cresceu conhecendo e amando a Deus e foi por ele a escolhida para ser Mãe de Seu Filho Jesus.
São Joaquim e Santa Ana são os padroeiros dos avôs e avós
Informação - Wikipédia.

E porque é que os Avós são Avós? Porque existem os Netos, naturalmente.
Homenageemos então os Netos, os principais responsáveis por existir o Dia Mundial dos Avós.


OS NETOS



O amor perfeito às vezes não vem até que chegue o primeiro neto
Provérbio Galês

Ninguém faz pelos netos, o que fazem os Avós: eles salpicam uma espécie de pó de estrelas sobre as suas vidas
Alex Haley

As Avós são Mães, com um monte de cobertura doce.
Autor desconhecido

A Avó, segura as nossas mãozinhas por um instante, mas os nossos corações, para sempre .
Autor desconhecido

Que baratos que são os netos ! Dou-lhes as minhas moedas e eles dão-me milhões de dólares de alegria.
Gene Perret

Se soubesse como é maravilhoso ter netos, te-los-ia tido, antes.
Lois Wise

Os meus netos acham que sou a coisa mais velha do Mundo. Depois de duas ou três horas com eles, eu também acho !
Gene Perret

Nunca tenhas filhos, só netos.
Gore Vidal

Os homens não se sentem velhos por terem netos, mas sim, por saber que estão casados com Avós.
C.Norman Collie

Quando os netos entram na nossa casa, a disciplina voa pela janela.
Ogden Nash

Uma Avó, é uma Mãe maravilhosa, com um “monte” de prática; Um Avô, é um velho por fora e um jovem por dentro.
Joy Hargrove

Os netos são a recompensa de Deus por termos chegado à velhice.
Mary H. Waldrip

Nunca entenderás realmente uma coisa, até que consigas explicá-lo à tua Avó.
Provérbio Galês



Os netos, são a sobremesa da Vida.
Anónimo

Uma hora com os netos, pode fazer uma Avó sentir-se jovem outra vez. Mais tempo que isso, fá-la sentir-se velha rápidamente.
Gene Perret

Desejaria ter a energia dos meus netos, nem que fosse para defesa pessoal…
Gene Perret

Os netos não se mantêm jovens para sempre, o que é bom, porque os Avós têm um limite de forças.
Gene Perret


Felicidades
Aos novos avós…
Aos avós experientes
E a todos que um dia o serão…


Obs. Publiquei no “Lírios” um poema alusivo a esta data, que considero lindíssimo, do grande poeta brasileiro Luiz-Poeta (Luiz Gilberto de Barros).
Agradeço a sua visita lá.

domingo, 19 de Julho de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXXI

(Ficção baseada em factos reais)

- Claro que vou, Vicente, mas, por favor, acalma-te. O estado de nervos em que estás não te pode fazer nada bem…Além do mais, se tivesse vindo algum telegrama já o teriam vindo entregar, não achas?

FIM DO.EPISÓDIO XXX

EPISÓDIO XXXI

-Faz-me o que te peço, por favor. Pode ter chegado algum telegrama e não haver ninguém nos correio para o vir entregar já…
-Muito bem, Vicente. Vou já de seguida. Mas, peço que te acalmes, doutro modo não vou sossegada… O estado em que estás pode fazer-te mal
- Agora já nada me pode fazer mal, Anita. Só preciso receber telegrama do meu amigo Joaquim, a confirmar estas notícias que estão a dar na televisão…

Anita saiu de casa para se dirigir aos correios mas, antes de lá chegar, encontrou o carteiro que vinha precisamente entregar um telegrama a Vicente.

Só mais tarde Anita compreendeu o que, efectivamente, significava aquele telegrama para o marido.

Quando a vira com o telegrama na mão Vicente levantara-se tão de rompante que por pouco não caíra.
Abriu-o com mãos trémulas, leu avidamente as poucas palavras que continha, e, com um enorme sorriso, recostou-se no sofá.
Anita e os filhos olhavam-no em silêncio, receosos, sem saber que atitude tomar.
Por fim Vicente endireitou-se e, com um sorrio como nunca lhe tinham visto, declarou:
- Estou livre! Estou livre, Anita. Agora posso ir para onde quiser, livremente.
Eduarda, sem perceber o que se passava, mas apercebendo-se de que alguma coisa acontecera que tornara o “pai” extremamente feliz, correu a abraçá-lo.
Anita e Tiago acercaram-se também, e todos se uniram num longo abraço.
Finalmente Anita leu o telegrama que dizia apenas:
- Podes começar fazer malas. Abraço amigo Joaquim.

A partir daí tudo se desenrolou tão rapidamente que por vezes Anita sentia-se tonta.
Vicente parecia ter recuperado completamente a saúde; na realidade era apenas aparência, e a excitação de tudo que estava a acontecer.
Tinham decidido regressar à capital, com grande desgosto para os pais de Anita.

Esta sentia-se dividida. Por um lado, sentia-se desgostosa por ter de se separar do padre João que, logicamente, teria que continuar na ilha, pelo menos até que conseguisse transferência para uma paróquia do Continente; por outro lado via assim a hipótese de o marido poder consultar bons especialistas, fazer todos os exames que até aí lhe estavam vedados, e, finalmente, recuperar totalmente a saúde.
Depois de todos estes problemas ultrapassados, seria, finalmente a altura de pensar apenas em si própria, na sua felicidade, insistir com o padre João para tentar apressar a sua desvinculação da Igreja, e viverem, por fim, a vida a que tinham direito.

Depois de tratados todos os assuntos, que Vicente tentou abreviar o mais possível, passando para as mãos do sogro toda a parte de negócios de que ele próprio ainda se encarregava, rapidamente se aproximava o dia da partida.
Eulália mostrava-se inconsolável com a próxima partida dos netos e da filha, e só a promessa de que nas férias viriam visitá-la, tal como ela iria vê-los ao Continente, lhe dava alguma paz de espírito.
Para, até certo ponto, os compensar da falta que iriam sentir, Anita consentiu que os filhos fossem passar os últimos dois dias na casa dos avós.
Na antevéspera da partida Vicente teve uma atitude que deixou Anita sem palavras: informou-a (coisa que jamais fizera) de que iria passar aquelas duas noites fora de casa.
Anita limitou-se a murmurar, em voz um pouco embaraçada:
- Não há qualquer problema, apenas te peço que não esqueças os teus medicamentos.

Parecia que tudo se conjugava para facilitar o encontro entre Anita e o padre João, que desesperavam, pensando que não teriam oportunidade de despedir-se a não ser como se de dois amigos, apenas, se tratasse.
Mas o destino permitiu que pudessem passar juntos mais uma noite, antes da despedida, o que, ultimamente, poucas oportunidades tinham tido de fazer.

FIM DO XXXI EPISÓDIO

quinta-feira, 16 de Julho de 2009

VAMOS LIMPAR PORTUGAL

"VAMOS LIMPAR PORTUGAL"
UMA INICIATIVA DO BLOG SEMPRE HOVENS

O Blog
SEMPRE JOVENS

iniciou uma louvável campanha com vista à limpeza (remoção do lixo) do nosso País.

Em sinal do meu total apoio criei este simples "selinho".



Convido-vos a levá-lo e colocá-lo na sidebar do vosso blog, procurando dar-lhe o maior destaque possível.

A acção VAMOS LIMPAR PORTUGAL
agora iniciada, é merecedora de todo o nosso apoio.

Aconselho uma visita ao blog a fim de se inteirarem da forma como todos podemos ajudar a levar avante uma acção tão meritória, e verificar como toda a ajuda pode ser importante.

O País agradecerá, com certeza.

Mariazita, 16.07.09

domingo, 12 de Julho de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXX

(Ficção baseada em factos reais)

Foi, pois, com um misto de vários sentimentos que regressou a Inglaterra, onde acabou por começar a trabalhar no local onde fizera o seu estágio, e onde se conservou largos anos sem regressar à ilha.
Mantinha com Anita correspondência frequente, e assim se inteirava de tudo o que se ia passando.
FIM DO.EPISÓDIO XXIX
EPISÓDIO XXX

A vida ia decorrendo normalmente.
Anita manteve-se em casa até Eduarda completar um ano, e depois regressou à sua actividade na creche.
Raramente se encontrava a sós com o padre João, mas confiava que seria uma situação transitória, e, mais tarde ou mais cedo, tudo iria modificar-se de acordo com o que tinham planeado no início do seu relacionamento.

O padre João dissera-lhe que já fizera as primeiras diligências no sentido de deixar a batina, mas foi-a advertindo de que a solução poderia demorar anos. Havia muitos passos a dar até que a sua petição chegasse a Roma, onde seria tomada a decisão final.

Anita esperava pacientemente. A segunda gravidez dera-lhe uma grande serenidade. O seu principal objectivo, agora, era educar correctamente os filhos, auxiliar o marido na sua doença, e viver em paz.

A doença de Vicente parecia ter estacionado; continuava tomando uma quantidade enorme de medicamentos, e talvez por isso o seu estado de saúde não se agravara.
Com os meios de diagnóstico de que dispunha, o médico não chegara a nenhuma conclusão acerca da doença, já que os seus sintomas apontavam em várias direcções; mas, pelo menos, conseguira adequar a medicação de modo a que Vicente tivesse uma qualidade de vida aceitável.

Eduarda era já uma menina de onze anos, bastante precoce para a sua idade. Aluna excelente, simpática para toda a gente, nutria uma verdadeira paixão pelo “pai”, que a adorava e lhe fazia todas as vontades.
Anita tinha que intervir, muitas vezes, para refrear os exageros de Vicente, que parecia viver para satisfazer as vontades da “sua” menina.

A verdade é que Anita, talvez por recordar-se da educação severa que ela própria recebera, apesar do muito amor e carinho que dava aos filhos, não deixava de lhes ministrar ensinamentos de carácter digno e responsável.
Tiaguinho, quase a fazer quinze anos, era também um bom aluno.
Desde que fora a Inglaterra, havia dois anos, passar as férias com seu irmão Humberto, sonhava ir estudar para o Reino Unido.
Vicente achava que era uma boa ideia, e Anita, ainda que lhe custasse ter que se separar do filho, compreendia que seria bom para o seu futuro.
Estava, portanto, decidido que Tiaguinho iria para Inglaterra estudar, logo que terminasse o curso liceal.

Nos últimos dias Vicente tornara-se mais queixoso. Feitas novas análises, o médico mostrou-se preocupado com os valores apresentados, que se revelaram piores do que os anteriores.
Resolveu alterar a medicação, mas nem assim Vicente apresentou melhoras. Queixava-se com dores que até aí não o incomodavam.

Anita, que vivia para os filhos, continuando, contudo, a acalentar a esperança de “um dia” poder refazer a sua vida com o padre João, não deixava de se preocupar com o estado de saúde do marido.

Alguns dias depois chegou à Ilha uma notícia, que causou grande alvoroço: a princípio confusa, mas em breve perfeitamente clara - tinha havido, no Continente, uma revolução.
Toda a gente falava no assunto, ainda que a maioria das pessoas nem soubesse exactamente o que isso significava.
As poucas pessoas que tinham televisão não saíam da frente do pequeno ecrã, facilitando, como nunca, a quem quisesse ir assistir ao desenrolar dos acontecimentos.
Todos os outros não desgrudavam os ouvidos dos rádios, para se manterem a par do que se estava passando na capital.
A meio da manhã o padre João apareceu na creche e aconselhou o seu encerramento pelo menos até ao dia seguinte.
Anita, acompanhada pelos filhos, dirigiu-se a casa, indo encontrar Vicente numa grande excitação, sentado em frente ao televisor.
Levantando-se precipitadamente, dirigiu-se a Anita:
- Por favor, minha querida, vai já ao correio perguntar se chegou algum telegrama para mim.
- Claro que vou, Vicente, mas, por favor, acalma-te. O estado de nervos em que estás não te pode fazer nada bem…Além do mais, se tivesse vindo algum telegrama já o teriam vindo entregar, não achas?

FIM DO EPISÓDIO XXX

quinta-feira, 9 de Julho de 2009

PRECE SOLITÁRIA

Venho, através desta prece solitária, pedir, do fundo do coração, que o mundo, de forma humanitária, possa encontrar uma espécie de união.


Rogo aos ventos e aos mares, imploro às matas e às florestas…

Peço aos animais e aos ares que o mundo amanheça em festa.

Escuta esta prece de quem te venera, oh Natureza Divina!

Ensina aos homens o valor da vida, oh Natureza Rainha!

Usa a força de teus sagrados raios e chuvas…

Alegra os céus com teus pássaros e cores…

Perfuma o mundo com as tuas flores….oh Natureza infinita!

Mostra ao Homem que a vida é sublime, que cada dia é único, que para ser feliz basta estar vivo.
E que o tempo passa levando com ele sonhos, amores e desarmonias.

Oh Natureza em cores! renova nos Homens a esperança de novos sonhos e a fé de um novo amor.

Oh Natureza! ensina também que a certeza de uma nova vida se faz evidente, presente a cada início de um novo dia.

E que o mundo acorde em paz.


Ângela Bretas
Do livro “Conversando som as Estrelas”


Ângela Bretas



Natural de Santa Catarina, no Brasil, Ângela Bretas desde muito jovem gostou de escrever, especialmente poemas e contos.
Estudante num rigoroso colégio de freiras, recebeu inúmeros certificados por suas composições, estando sempre entre as primeiras alunas do colégio.
Mudou-se para os Estados Unidos em 1985, tendo cursado língua inglesa no Lynn Community College, em Massachussetts.
Actualmente reside na Florida, trabalhando como colunista e cronista em diversos jornais brasileiros e americanos, actuando como free-lance.
Tem vários livros publicados, sendo do livro em verso e em prosa “CONVERSANDO COM AS ESTRELAS” a ‘Prece’ que apresento acima.

domingo, 5 de Julho de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXIX

(Ficção baseada em factos reais)

Lembrava-se de como o seu próprio pai procedera com Tiaguinho, quando ele era bebé – os mesmos gestos, o mesmo sorriso enternecido, o mesmo ar de encantamento…

FIM DO.EPISÓDIO XXVIII
EPISÓDIO XXIX

Por vezes Anita punha – se a pensar se Vicente saberia quem era o pai de Eduarda. Porém nunca conseguiu chegar a uma conclusão. Se Vicente sabia, ou mesmo se desconfiava, nunca o demonstrou, tratando sempre o padre João com respeito e deferência, sem nunca mostrar aborrecimento com as idas do padre a sua casa, para “visitar a sua comadre Anita e dar um beijo na afilhada”.
Até ao fim dos seus dias Vicente jamais revelou o mínimo indício que pudesse levar a supor ser ele conhecedor da verdade.

Eduarda tinha dois meses quando, finalmente, Humberto apareceu na ilha.
Por muito magoado que estivesse não pôde evitar a comoção ao envolver Anita num forte abraço, enquanto uma lágrima traiçoeira assomava aos seus olhos.
Anita sentiu-se no céu, ao sentir os braços de Humberto envolvendo-a com tanto carinho. Não pôde nem tentou reprimir as lágrimas, deixando-as rolar livremente pelo rosto. Nunca um abraço de Humberto a fizera tão feliz!

Vicente observava-os em silêncio, com um sorriso contrafeito; e quando o filho se lhe dirigiu, abraçou-o, comovido, o que muito poucas vezes fizera na sua vida..

Humberto não pôde deixar de pensar que o pai estava mesmo a envelhecer. Aliás já o pensara quando Anita lhe contara a forma como reagira à notícia da sua gravidez.

Depois de passada a comoção dos primeiros momentos, Humberto disse:
- Onde está a princesa? Estou ansioso por conhecê-la.
Anita foi buscar o carrinho de Eduarda, que entretanto acordara. Levantando-a, entregou-a a Humberto, de braços estendidos para a receber.
Estreitando-a de encontro ao peito, novamente sentiu que as lágrimas queriam assomar-lhe aos olhos. Reprimindo-as, apertava Eduarda de encontro a si, enquanto pensava:
- Devias ser minha filha. Eu, sim, eu, é que devia ser o teu pai.

De olhos fechados tentava transportar para a bebé todo o amor que sentia por Anita.

Durante a semana que passou na ilha Anita pô-lo ao corrente do estado de saúde do pai. Nada lhe contara por carta, para não o afligir, mas agora sentia que o devia pôr a par de tudo.
Vicente estava doente, não se sabendo exactamente qual a sua doença.
Ia fazendo uma vida mais ou menos normal à custa de muita medicação, que o mantinha de pé, e também devido à vigilância de Anita, que não o deixava cometer excessos.
Nunca o impedia de sair, pois sabia que o marido precisava ausentar-se de casa, não só por causa dos seus negócios, mas também para ir visitar a amante.
Mas recomendava-lhe sempre que levasse os medicamentos e não se esquecesse de os tomar.
Algumas vezes Vicente dormia fora; quando regressava, Anita cuidava para que nada lhe faltasse, ajeitando-lhe as almofadas no sofá para onde ele se dirigia logo que entrava em casa.

Humberto observava tudo em silêncio, sentindo uma estranha gratidão pela forma como Anita estava tratando o seu pai.
Pensava, consternado, que o pai envelhecera muito nos quase dois anos em que o não vira. E perguntava a si mesmo quanto tempo lhe restaria de vida.
- Será que volto a vê-lo vivo? – pensava, com uma certa amargura.
Não lembrava, ou, pelo menos, tentava esquecer, todos os agravos que o pai lhe infligira ao longo dos anos. Sentia que o momento era de perdão, de esquecer possíveis rancores escondidos no fundo do seu sentir.

Rapidamente se esgotaram os dias que destinara para passar na ilha.
Sentia uma dor muito funda por ter de, mais uma vez, separar-se de Anita; mas ao mesmo tempo via a sua partida com um certo alívio.
Afastando-se era mais fácil não pensar tanto no seu amor por Anita; não vendo Eduarda não era forçado a lembrar-se que ela era fruto do amor de Anita por outro homem.
Foi, pois, com um misto de vários sentimentos que regressou a Inglaterra, onde acabou por começar a trabalhar no local onde fizera o seu estágio, e onde se conservou largos anos sem regressar à ilha.
Mantinha com Anita correspondência frequente, e assim se inteirava de tudo o que se ia passando.

FIM DO EPISÓDIO XXIX

quinta-feira, 2 de Julho de 2009

PROVOCAÇÕES

PROVOCAÇÕES

Luís Fernando Veríssimo

A primeira provocação ele aguentou calado.
Na verdade gritou e esperneou.
Mas todos os bebés fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão.
A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria! Não reclamou porque não era disso.
Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento.
Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz.
Foram lhe provocando por toda a vida.
Não pôde ir à escola porque tinha de ajudar na roça.
Tudo bem. Gostava da roça.
Mas aí lhe tiraram a roça.
Na cidade, para onde teve de ir com a família, era provocação de tudo que era lado.
Resistiu a todas.
Morar em barraco.
Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar.
Ir para um barraco pior. Ficou firme.
Queria um emprego, só conseguiu um subemprego.
Queria casar, conseguiu uma submulher.
Tiveram subfilhos. Subnutridos.
Para conseguir ajuda, só entrando em fila.
E a ajuda não ajudava.
Estavam lhe provocando.
Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar p’ra roça.
Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a ideia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa.
Terra era o que não faltava. Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera.
Amanhã. No próximo ano. No próximo governo.
Concluiu que era provocação. Mais uma.
Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida.
Animou-se. Mobilizou-se. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir.
Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação.
Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim.
Talvez amanhã. Talvez no próximo ano…
Então protestou.
Na décima milésima provocação, reagiu.
E ouviu, espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:
- Violência, não!

domingo, 28 de Junho de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXVIII
(Ficção baseada em factos reais)

… Mas sabes uma coisa? Não tenho passado tão bem como da primeira vez. E, quando vinha a caminho de casa, surgiu-me uma ideia:
Que tal se fôssemos à capital consular um especialista? Que te parece?

FIM DO.EPISÓDIO XXVII
EPISÓDIO XXVIII

Vicente esboçou um ligeiro sorriso.
- Se achas que é uma boa ideia, se vais ficar mais descansada, podes ir. Talvez a tua mãe te possa acompanhar…
- Não, Vicente, a minha mãe não, A minha ideia era tu ires comigo…
- Estás a esquecer-te de um pormenor muito importante: eu não posso sair daqui, esqueceste-te? Não me digas que não sabias…
- Sabia, sim, claro! Como toda a gente soube quando vieste para cá. Eu era ainda uma criança, por isso estava a esquecer-me…
E se fôssemos a Inglaterra?
- Anita, eu não estou proibido de ir à capital; estou proibido de sair da ilha. Não posso ausentar-me daqui até ao fim dos meus dias.
E, não indo comigo, parece-me mais fácil ires ao Continente do que a Inglaterra. Não te parece?
- Talvez tenhas razão. Tenho que pensar bem no assunto.
E rapidamente mudou o rumo à conversa.
Esquecera-se completamente que Vicente não podia sair dali. E não era por ela que falara em consultar um médico na capital; era apenas um pretexto de que se lembrara para obrigar o marido a fazer os exames que na ilha não seria possível realizar.

Alguns dias depois Anita escreveu a Humberto. Nunca sentira tanta dificuldade em contar-lhe qualquer coisa. Não encontrava as palavras certas para lha falar na sua gravidez. Parecia-lhe, desde a última carta que recebera de Humberto, que alguma coisa se quebrara entre eles, qualquer coisa que não conseguia definir, mas que a magoava muito. Era como que um espinho que se tivesse colocado entre ambos.

Depois de muito hesitar e rodear, escreveu de repente:
-Estou grávida!
E, repetindo o que dissera na carta anterior, pedia-lhe que não a condenasse por ser feliz.
Depois de descrever a conversa que tivera com o marido, e a sua reacção, terminava dizendo-lhe:
- Talvez esta notícia, de início, seja um choque para ti. Mas tenho a certeza que, depois de veres como sou feliz, de como o padre João me ama, e, principalmente depois de conheceres o novo membro da família, quando ele chegar, dentro de seis meses, mudarás de opinião.
E a carta segui o seu destino.

Tudo entrou na normalidade, e pouco antes das férias lectivas, Anita foi para o Hospital, onde deu à luz uma linda e perfeita menina.

Foi registada com o nome de Eduarda, filha de Anita e Vicente.
Na impossibilidade de a registar como sua filha, o padre João manifestou a Anita o desejo de, pelo menos, ser seu padrinho.
Conversando com o marido, Anita transmitiu-lhe o desejo do padre.

Vicente não manifestou surpresa nem qualquer desagrado. Respondendo que achava uma boa ideia, prontificou-se a mandar a sua lancha, que fazia a ligação com terra dos navios que não podiam acostar ao pequeno cais, buscar o padre da ilha mais próxima, seu conhecido de longa data.

O baptizado realizou-se em ambiente festivo, ainda que restrito apenas a familiares.
Anita sentia um grande desgosto ensombrar a sua felicidade – a ausência de Humberto.
Embora estando em plena época de férias escolares, Humberto comunicara que não podia ausentar-se do local onde exercia o seu estágio, e por esse motivo viria mais tarde, apenas por uma semana.

Anita ficou com a sensação de que se tratava de uma desculpa, mas não se atreveu a fazer qualquer insinuação. Limitou-se a manifestar a sua tristeza pela ausência do enteado, acrescentando que ficava ansiosa pela sua vinda, ainda que por tão poucos dias.

Anita revia-se na sua linda menina. O padre João vinha todos os dias visitar a sua afilhada. Vicente, que agora se mantinha em casa por largos períodos, passava com Eduarda muito mais tempo do que dispensara ao próprio filho, Tiaguinho.
Observando-os, Anita pensava:
- Parecem mesmo avô e neta!
Lembrava-se de como o seu próprio pai procedera com Tiaguinho, quando ele era bebé – os mesmos gestos, o mesmo sorriso enternecido, o mesmo ar de encantamento…

quinta-feira, 25 de Junho de 2009

UMA CENA DE AMOR

Duma janela da minha casa avisto, na rua, um candeeiro de iluminação pública.

Há pouco, olhando lá para fora, vi que estavam dois pombos pousados no candeeiro.
Achei a imagem muito bonita.
Sem aviso prévio, pelo menos sem que eu me tenha apercebido, num repente, amaram-se!
Foi tudo muito rápido, questão de segundos, e já estavam novamente lado a lado, satisfeitos e felizes.


Mas olhavam em todas as direcções, perscrutando os arredores.
Com um olhar entre desconfiado e interrogativo, pareciam dizer: será que alguém testemunhou o nosso amor???

Este pequeno acontecimento trouxe-me à lembrança uns versos que, com os meus sete ou oito anitos, recitava na escola primária, e que nunca esqueci!
E até me lembro do autor: Afonso Lopes Vieira!

Já não se fazem memórias como antigamente…

Mariazita

Os passarinhos
Tão engraçados
Fazem os ninhos
Com mil cuidados.

São p’ra os filhinhos
Que estão para ter
Que os passarinhos
Os vão fazer.

Nos bicos trazem
coisas pequenas,
E os ninhos fazem
De musgo e penas.

Depois lá têm
os seus meninos,
Tão pequeninos
Ao pé da mãe.



Nunca se faça
Mal a um ninho,
À linda graça
De um passarinho!

Que nos lembremos
Sempre também
Do pai que temos
Da nossa mãe!

Afonso Lopes Vieira

OS PASSARINHOS (???)

domingo, 21 de Junho de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXVII

(Ficção baseada em factos reais)

Não quero que te preocupes, que não é caso para isso. Apenas tenho vindo a sentir umas ligeiras tonturas, de vez em quando, e na minha idade – sabes que já não sou um jovem – achei melhor ir ver o que se passava. O médico mandou-me fazer análises, mas acha, também ele, que não é nada de cuidado.

FIM DO.EPISÓDIO XXVI

EPISÓDIO XXVII

Entretanto receitou-me uns medicamentos para me ajudarem a sentir-me melhor. E já estou quase bom! – acrescentou, com fingido entusiasmo.

Anita olhou para o marido com uma atenção com que nunca o olhara, e quase estremeceu ao verificar como Vicente estava envelhecido.
Sempre vira o marido como um homem mais velho do que ela, mas só agora se apercebia da verdadeira diferença de idades entre ambos: Vicente era quase um velho! Ou seria que estava realmente doente, e não queria dizer-lhe a verdade?
Resolveu não fazer perguntas. Em breve iria ao médico e aí tentaria saber tudo.

A partir do momento em que estava assente que Anita continuaria em casa e que o marido assumiria o seu filho, era altura de comunicar aos pais que estava novamente grávida, e dizer ao Tiaguinho que ia ter um irmãozinho ou irmãzinha.

Os pais manifestaram uma certa surpresa ao receber a notícia.
Imaginavam, instintivamente, que o relacionamento entre o casal não seria dos melhores, dadas as frequentas vezes em que Vicente era visto fora de casa a horas em que qualquer marido normal estaria junto da família.
Ficaram, talvez por isso, extremamente felizes ao saberem da gravidez de Anita.
Pensaram que o pior teria passado e eles, finalmente, teriam chegado a bom entendimento.
Anita nada disse para os desiludir. Aliás, era-lhe bastante conveniente esta convicção dos pais, especialmente porque, ao darem a notícia aos familiares e amigos, fá-lo-iam muito mais convictos da “boa nova”.

Como seria de esperar, Tiaguinho exultou com a notícia de que em breve haveria um bebé na família, que ele se propunha acarinhar e até trocar as fraldas, como via fazer aos mais pequeninos, na creche.

Chegou o dia em que Anita foi consultar o médico.
Vicente propunha-se acompanhá-la, mas rapidamente Anita o dissuadiu, dizendo que tinha pedido à mãe para ir com ela. Vicente não insistiu.
Passava agora mais tempo em casa, sentado no sofá, na sala, e muitas vezes indo deitar-se no quarto de hóspedes.
Depois de ter feito a sua consulta Anita perguntou ao médico, velho amigo da família, qual era o estado de saúde do marido.
O médico pareceu hesitar, mas Anita apressou-se a dizer:
- Pode dizer-me a verdade, doutor. O Vicente já me disse que está doente e que fez uns exames nada simples; e eu noto que ele está a decair de dia para dia.
O médico permaneceu uns momentos silencioso. Anita começava a ficar nervosa. Até que o médico falou:
- A verdade, Anita, é que eu não sei exactamente o que o teu marido tem. Os resultados das primeiras análises não me deixaram nada tranquilo, por isso mandei repetir, acrescentando umas outras mais complexas.
Vamos aguardar. Mas se os resultados não forem concludentes, teremos que pensar em levá-lo à capital. Como sabes, lá há recursos de que aqui não dispomos…
Entretanto, o que há a fazer é tomar os medicamentos que lhe receitei – os valores de colesterol e trigliceridos estavam alterados. Além disso deve descansar bastante, alimentar-se bem, e procurar manter-se tranquilo. Achei-o bastante agitado, por isso lhe receitei também um calmante leve.
E por agora não podemos fazer mais nada. Temos que aguardar.

De regresso a casa Anita encontrou Vicente adormecido no sofá da sala.
Sentou-se e pôs-se a observá-lo em silêncio.
O marido apresentava as faces um pouco encovadas, e uma cor amarelada, doentia.
Como se sentisse o olhar sobre ele, Vicente abriu os olhos, sorrindo para Anita.
- Então, o que disse o médico? Estava tudo bem?
- Sim, aparentemente está tudo bem. Mandou-me fazer as análises habituais.
Mas sabes uma coisa? Não tenho passado tão bem como da primeira vez. E, quando vinha a caminho de casa, surgiu-me uma ideia:
Que tal se fôssemos à capital consultar um especialista? Que te parece?

FIM DO EPISÓDIO XXVII

domingo, 14 de Junho de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXVI

(Ficção baseada em factos reais)


O relógio da sala, tocando as dez horas, veio lembrar-lhe que tinha prometido à mãe ir almoçar a casa dela e passar lá a tarde.
Foi para a cozinha preparar uma surpresa para o lanche, que sabia ser a preferida da mãe e do Tiaguinho – bolinhos de chuva.
Justificar completamente
FIM DO EPISÓDIO XXV
EPISÓDIO XXVI

Do dia seguinte, domingo, foi à missa, como sempre, e depois do ofício divino trocou algumas palavras com o padre João, conseguindo avisá-lo de que de tarde passaria por lá para conversarem.

Quando Anita lhe contou o sucedido com o marido, o padre João não teve reacção imediata. Dir-se-ia que tinha sido fulminado por um raio, tal era o seu espanto. Passada a surpresa, olhou para Anita sem saber o que dizer.
Finalmente conseguiu encontrar as palavras necessárias para lhe transmitir o seu espanto, e perguntar-lhe o que fariam a seguir.
Anita respondeu que também não sabia; o melhor seria deixar que os acontecimentos fluíssem naturalmente.
- Tudo bem, Anita, faremos o que tu achares melhor.
Mas quero dizer-te que, por muito que me custe não registar o bebé com o meu nome, não posso deixar de considerar muito generosa a oferta do teu marido para o reconhecer como filho, pois tenho a certeza que não é em nove meses que se resolverá a minha situação.
Muito em breve escreverei ao meu superior directo a pedir-lhe informações acerca do que necessito fazer para pedir a exoneração dos meus votos.
Como nunca estive nesta situação, nem conheço ninguém que tenha passado por isso, não faço a menor ideia dos trâmites necessários para chegar a bom termo.
Logo que ele me informe começarei a tratar de tudo. E depois regularizaremos a nossa situação e do nosso filho.
O teu marido, que se mostrou tão compreensivo e benevolente, há-de acabar por compreender, também, que nos amamos e temos direito a viver a nossa vida.
Entretanto, continuares na tua casa, aceitando a sugestão do teu marido, parece-me uma óptima ideia. A alternativa seria ires para casa dos teus pais, o que implicaria teres que lhes contar, já, o que se está passando.
Sem dúvida que o teu marido pensou em tudo, mostrando uma nobreza de carácter muito grande. É digno de toda a minha admiração.
Minha querida, isto é o que eu penso. Contudo, a última palavra é tua. Serás tu a decidir.
Se quiseres sair de tua casa, terás todo o meu apoio, em tudo.
Pensa bem no que queres fazer, no que achas que será melhor para ti, que eu aceitarei o que decidires.

Anita sentia-se nas nuvens. Depois da atitude do marido, que agora via com mais clareza ser de uma grande bondade, as palavras do padre João tornavam-na totalmente feliz.
Agora acreditava firmemente que o seu sonho iria tornar-se realidade, que a felicidade, finalmente, lhe batera à porta.

Alguns dias depois Vicente perguntou-lhe se já tinha decidido o que iria fazer. Anita respondeu que resolvera aceitar a sua proposta, continuando a viver lá em casa, pelo menos por enquanto.
- Só por enquanto? – perguntou Vicente, com uma certa mágoa e desilusão na voz.
- Não façamos planos a longo prazo, Vicente. O melhor que temos a fazer é irmos vivendo um dia de cada vez, conforme se nos forem apresentando…
- Como queiras, querida.
Já agora aproveito para te dizer que fui ao médico.
- Foste ao médico porquê? Não te sentes bem? O que é que se passa? – perguntou Anita, denunciando uma certa preocupação na voz.
- Calma, não se passa nada de grave. Só quis dizer-te antes que soubesses por outra pessoa. Sei como são as línguas nesta cidade. Além disso, no teu estado, vais ter que ser acompanhada pelo médico; portanto era natural que ele mesmo te dissesse que eu o tinha consultado.
Não quero que te preocupes, que não é caso para isso. Apenas tenho vindo a sentir umas ligeiras tonturas, de vez em quando, e na minha idade – sabes que já não sou um jovem – achei melhor ir ver o que se passava. O médico mandou-me fazer análises, mas acha, também ele, que não é nada de cuidado.

FIM DO EPISÓDIO XXVI

quarta-feira, 10 de Junho de 2009

DIA DE PORTUGAL

HOJE, 10 DE JUNHO DE 2009
Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas



PORTUGAL

Ógui Lourenço Mauri

Oh, magna Pátria-Mãe de minha Pátria!
Que aos brasileiros deixou por legado
Extenso território unificado,
Além de preservada a língua mátria.

Portugal, pequeno na Geografia,
És um gigante, porém, em tua História!...
Toda ela construída de muita glória,
A partir da primeira dinastia.

Lindo é o rubro-verde de teu pendão,
Tanto quanto o nosso verde-amarelo;
Na "cor da esperança" mantemos o elo
A simbolizar um porvir de união.

Comunidade luso-brasileira...
Fraternidade, mescla cutural!
É o Brasil integrado a Portugal;
Livres, agindo da mesma maneira.

Por ser brasileiro, sou grato a ti!
Por meu país, que tu deste de presente...
Sem sangue derramado... Comovente!
P’ra teu orgulho e da terra onde nasci...







Ógui Lourenço Mauri



Acadêmico Fundador nº 27
AVSPE-Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores.
Membro Efetivo

Assessor musical do Grupo "Doce Mistério"

domingo, 7 de Junho de 2009

O MEU PRIMEIRO SELINHO

Aproveitando a maré dos selinhos…ofereço a todos, amigas, amigos, comentadores e visitantes em geral, o primeiro selinho da Casa da Mariquinhas, ao abeirar as 15.000 visitas.



O meu “Bem haja!” a todos que para tal contribuíram.

PRÉMIOS

SELO J'ADORE TIEN BLOG

Recebi da amiga ANA , a quem muito agradeço a consideração e amizade.

O que temos a fazer é o seguinte:

1- Colocar o selo no blog
2- Divulgar as regras
3- Dizer 5 coisas que se gosta na vida
4- Indicar 10 blogs para os quais se envia
5- Informar os blogs indicados que receberam o selo.

3 – 5 coisas que gosto na vida:
- A minha família
- Flores
- Animais
- Viajar
- Sol, praia, mar… e afins.

Não vou nomear ninguém. Mas convido todos que aqui vierem a levar o selinho para os vossos espaços.



PRÉMIO BLOG DOURADO


Recebi dos amigos DANIEL e ANA MARTINS ,

aos quais agradeço a atribuição e a amizade demonstradas.

O mote de criação do prémio é o seguinte:
- É um prémio que homenageia os melhores blogs e tem a sua simbologia nas cores que utiliza.
A cor azul representa paz, profundidade e imensidão.
A cor dourada a sabedoria, a riqueza e a claridade das ideias.
O prémio em si representa a união entre os blogueiros.
Aos que o aceitarem agradeço antecipadamente e passo a enunciar as regras:
- Colocar o prémio em situação visível ou linká-lo.
- Anunciar, através de um link, o blog que o premiou e premiar até outros 15 blogs, avisando o blogueiro sobre a premiação

Tal como aconteceu com o prémio anterior, também neste caso não vou nomear ninguém.
No entanto terei muito prazer, ao visitar-vos, de ver estes dois selinhos nos vossos espaços.
Sintam-se à vontade para, se quiserem, seguir as regras que estes dois prémios estipulam.

Aos três blogueiros, ANA
(Pelos caminhos da vida), DANIEL
(Daniel Milagre) e ANA MARTINS (Ave sem asas) [por ordem cronológica], o meu Muito Obrigada!