quarta-feira, 1 de agosto de 2018

LIVRO EM CONSTRUÇÃO – SEGREDOS



“…- Não, isso não tenho, mas estou a falar-lhe a sério. Por favor guarde este cartão com o meu nome e telefone-me, se assim o entender, daqui a duas ou três semanas. Talvez tenha boas notícias para si, mas agora não posso dizer-lhe mais nada Meteu-lhe o papel nas mãos, despediu-se e virou-lhe as costas…”

 SEGREDOS – CAPÍTULO II
Nanda ficou segurando o cartão entre os dedos, a olhar para o homem que se afastava, sem ter tido tempo para reagir. O primeiro impulso foi atirar o cartão para o primeiro caixote do lixo que encontrasse, mas acabou por guardá-lo no bolso, ficando a pensar:
- Que estranho tipo de abordagem! Será alguma nova técnica de engate ou estará o homem a falar mesmo a sério? Lá bom aspecto não lhe falta, justiça lhe seja feita!
Mas quando o lobo se veste de cordeiro também parece muito fofinho e inofensivo, e olha lá! Foi o que aconteceu com o Tó Zé… e até mesmo o Dr. Santos Costa, lá da EILA. Era todo simpático, todo jeitoso, e deu no que deu!
E como quem se lixa é sempre o mexilhão… lá ficaste tu, Nanda, sem marido e sem patrão, ou seja, duplamente desempregada.
Sim, porque para o Tó Zé, nos últimos tempos, não passavas de uma empregada!
Servias para lhe lavar as meias e as cuecas, mas para o “bem bom” lá estava a ucraniana.
Como a vida muda! Ao princípio de casados era tudo tão diferente! Mas enfim, cada um é para o que nasce.
Deixa-te de pensamentos sombrios, Nanda, e vai mas é para casa, que estes sapatos estão a moer-te os calcanhares…  
Retomou a caminhada e foi já muito cansada, com os pés doridos e com dificuldade em dar um passo, que chegou à entrada da rua onde morava.
E aí teve outra surpresa: a carrinha do senhor Francisco estava estacionada num lugar que não era habitual. E ainda mais estranho por ser àquela hora, ao fim da manhã.
- Que se passará? – interrogou-se à medida que se aproximava do local de estacionamento. E a admiração passou a espanto quando viu o senhor Francisco, seu vizinho, e mais conhecido por “Chico das Farturas ”- que era exactamente o que estava escrito em letras garrafais nos taipais da carrinha - com a cabeça apoiada sobre o volante.
Nanda bateu com os nós dos dedos na porta da carrinha e ele levantou a cabeça. Chorava.
- Que se passa, Sr. Francisco?
- Ah! É a D. Nanda! Não se passa nada, não se passa nada – respondeu enquanto passava a manga da camisa pelos olhos, a esconder as lágrimas.
- Então não se passa nada e o senhor está aqui a esta hora, dentro da carrinha, a chorar?
- A chorar, eu? Não, não é nada, foi um mosquito que me entrou para um olho, e eu estava à espera que isto passasse.
- Ah, sim? Então está tudo bem?
- Tudo bem… até nem está D. Nanda, mas deixe-me arrumar melhor a carrinha, que eu acompanho-a até casa e já lhe conto o que se passa.
Assim fez. Arrumou a carrinha no lugar habitual, fechou-a, e pôs-se a andar ao lado de Nanda. Moravam lá para o meio da comprida rua, a duas ou três casas um do outro, o que deu tempo para ele lhe contar o problema em que estava metido.
- Sabe, D. Nanda, de há uns tempos a esta parte, de vez em quando tenho tido dificuldade em fazer força; já aconteceu algumas vezes ter de pedir ajuda para abrir e fechar os taipais da carrinha e, quando o faço sozinho, sinto fortes dores nas costas. Como isto se tem vindo a agravar resolvi ir ao médico, fiz umas radiografias e essas coisas que eles costumam mandar fazer e hoje o doutor leu-me a sentença. E olhe que para mim foi quase sentença de morte.
- Então Sr. Francisco, que se passa? Que lhe disse o médico? – perguntou Nanda, já preocupada.
- Disse-me que se eu não deixasse de fazer o que sempre fiz, andar com a carrinha de um lado para o outro, tinha muitas probabilidades de brevemente ficar paralisado, por causa de problemas na coluna. Ou mudava de vida ou o melhor era comprar já uma cadeira de rodas. Já viu a minha vida?
- Tenha calma Sr. Francisco, pode não ser tanto assim – disse Nanda. Os médicos às vezes enganam-se. O melhor que o senhor tem a fazer é ir consultar outro médico. Quem sabe se ele não tem uma opinião diferente, ou até talvez conheça algum tratamento para as suas costas…? Sabe que isto, hoje em dia, estão sempre a aparecer coisas novas. Não fique já nesse desespero, homem!
- Obrigado por me tentar animar, mas acho que o médico tem razão. Agora eu, sozinho e já com esta idade, sem poder trabalhar, como vou resolver a minha vida? Já viu D. Nanda? É que nem tenho ninguém para amanhã me empurrar a cadeira de rodas…
- Não seja assim tão pessimista… E o que está a pensar fazer?
- Era nisto tudo que eu pensava quando estava ali na carrinha…
- E o tal mosquito o atacou… já estou a perceber – disse Nanda a sorrir, para aliviar o ambiente.
- A D. Nanda não deixa escapar nada – e Francisco sorriu também e continuou a contar o que estava a pensar:
Estava a matutar nisto tudo e cheguei à conclusão que só tenho duas coisas por onde escolher: ou vendo a carrinha, ou arranjo um sócio.
- Está a ver? Afinal tudo tem remédio - e de repente passou uma ideia pela cabeça de Nanda, que perguntou:
- E o negócio dará para duas pessoas, senhor Francisco? Para si e para o sócio, que, suponho, será o trabalhador da sociedade?
Tinham chegado junto à casa dele; desviaram-se um pouco para a sombra de uma árvore, e ele respondeu:
- Olhe D. Nanda, nós conhecemo-nos há tantos anos, a senhora sempre foi tão simpática comigo, que eu quase a considero como de família. Por isso vou dizer-lhe aqui uma coisa, que fica cá entre nós. O negócio das farturas até não é nada mau. Sabe o que costuma dizer o Sr. Gomes que é o toque (1) que me trata dos papéis para as Finanças? Que nem lhe passava pela cabeça que este pequeno negócio pudesse gerar um caixafló (2) tão jeitoso.
- Ah sim? – Nanda sorriu, e o Sr. Francisco nem por sombras adivinhou qual a razão daquele sorriso. Nanda continuou:
- Olhe lá Sr. Francisco, o que achava se eu lhe propusesse ser sua sócia?
- O quê? A D. Nanda andar com a carrinha dum lado para o outro a vender farturas? Não acredito que esteja a falar a sério.
- Olhe Sr. Manuel, estou desempregada como certamente já sabe, não gosto de estar sem fazer nada e os parentes não me caiem na lama por andar a vender farturas ou seja lá o que for. O meu problema é outro, ou melhor, até são dois em vez de um…
O primeiro é saber se eu serei capaz de fazer o que é preciso, isto é, andar de feira em feira, guiar a carrinha, armar a tenda, fazer a massa, fritar as farturas, enfim, tudo aquilo que é preciso fazer.
O segundo problema é saber se a parte que me tocaria como sócia trabalhadora seria compensadora…
Ficaram a falar sobre o assunto durante mais uns bons minutos e acabaram por concluir que o melhor seria a Nanda fazer a experiência aí umas duas semanas a ver se lhe agradava o trabalho e a contrapartida financeira.
Ela garantiu-lhe que se concluísse que não gostava ou que não tinha jeito, lho diria, mas que, fosse como fosse, o ajudaria sempre a resolver o problema.
Ao entrar em casa o Tejo veio logo ao seu encontro, com o ar mais feliz do mundo, abanando o rabo, e encostando o focinho húmido aos seus joelhos descobertos. Olhava-a com aqueles olhos líquidos vertendo amor, esperando assim convencê-la a levá-lo à rua. Estava sempre pronto para uma saidinha…
Nanda fez-lhe uma festa na cabeça, murmurando:
- Agora não, Tejo. Já foste à rua de manhã, e eu estou arrasada. Preciso descansar, senão ficas sem dona…
Dito isto dirigiu-se ao quarto. Talvez por saberem que iam ficar libertos daquela prisão que os torturava, os pés “reclamaram” urgência. Nanda atirou os sapatos para um canto e atirou-se ela para cima da cama, sem se importar com a roupa que tinha vestida, e que iria ficar toda amarrotada.
De manhã vestira-se com esmero, como, de resto, gostava de fazer. Dava-lhe prazer sentir os olhos postos nela quando passava na rua, e pensar que, embora não sendo já uma menina, com dois filhos adultos e prestes a ser avó, ainda atraía os olhares de quem com ela se cruzava.
Completamente descontraída em cima da cama, os pés finalmente sem dores, começou a pensar na conversa que tivera com o “Chico das Farturas” (uma marca com prestígio no mercado, garantira-lhe ele).
Como se tivesse necessidade de se convencer a si mesma, disse em voz alta:
 - Espero bem que o “toque” não esteja enganado sobre o “caixafló” que as farturas geram, que eu bem preciso – e soltou uma gargalhada como há bastante tempo não fazia.
- “Ai Nanda, Nanda, o teu cheiro a fritos até tresanda!” – riu alegremente. Acho que já nem preciso de ir à farmácia aviar a receita do antidepressivo.
E com uma alegria que há muito tempo não sentia, espreguiçou-se e, de repente, veio-lhe à ideia o caso do tal Carvalho Araújo.
- Mas que raio de nome o homem havia de arranjar: Carvalho Araújo!
“Carvalho Araújo”, tanto quanto sei, é nome de navio. Querem lá ver que ele é marinheiro? Tinha graça agora aparecer-me pela frente um capitão-de-mar-e-guerra… Ou…melhor ainda, um sócio da CNN (3). – e o seu rosto iluminou-se com um largo sorriso.
Como que a chamá-la à realidade, o telefone tocou.

1 – Toque = TOC – Técnico Oficial de Contas
2 – Caixafló = Cash flow – Fluxo de Caixa/Fundo de maneio
3 – Companhia Nacional de Navegação

Dentro de poucos dias vou de férias. Parto no próximo sábado rumo à Europa, começando por Praga, República Checa, e depois… se verá, mas não dispenso Budapeste e Viena de Áustria!
Este mês de Agosto será dedicado à Europa; em Setembro será a vez de África. Partirei no dia 1/9 para Cabo Verde. Entre os dois continentes estarei cá no dia 29 de Agosto para fazer a terceira (e espero que última) injecção intra-vítreo.
Deixo programada a postagem do dia 1 de Setembro. Conto convosco. Retribuirei, agradecendo, todas as visitas entretanto recebidas. 
Bem hajam!

domingo, 1 de julho de 2018

LIVRO EM CONSTRUÇÃO – SEGREDOS


SEGREDOS – Capítulo I

Nanda começa a sentir-se cansada depois de tanto caminhar. Já está arrependida da decisão de voltar para casa a pé, tanto mais que os saltos altos não são nada confortáveis para caminhadas. Só a necessidade de pôr em ordem as suas ideias a levou a tomar tal decisão.
Vai de tal modo absorta nos seus pensamentos, que já ouviu algumas buzinadelas ao atravessar as ruas sem os devidos cuidados.
O seu pensamento viaja na direcção dos filhos, que estão longe.
 - O mais velho, Miguel, casado com uma italiana de nome Farida, a viver na Bélgica, com quem fala amiudadas vezes por telefone;
- O mais novo, Luís, presentemente a viver no Alentejo, agora de “casa e pucarinho” com uma alentejana, chamada Catarina. Este telefona uma vez por outra, sobretudo quando precisa de dinheiro: mudança de emprego, patrão que não paga a tempo e horas, uns exames para a Catarina, enfim motivos não faltam para justificar o pedido.
- Ao contrário de Miguel, Luís não perdeu tempo, e Catarina já está “de barriga”. - pensa Nanda.
E agora como irá ser? É impensável continuarem naquelas condições, lá longe, a viverem num barracão qualquer…
- Vou ter que pensar numa solução – decide Nanda, resoluta.
Vem-lhe à lembrança os tempos em que os dois filhos estavam ainda na sua casa.
Miguel estudara na universidade tirando o curso de física nuclear e fora para a Bélgica fazer uma especialização. E assim conhecera Farida.
Ao contrário, Luis nunca passara da mediania nos estudos. Depois de completar a escolaridade mínima obrigatória (12º.ano) começou a trabalhar. Mas, sem quaisquer habilitações, não arranjava nada de jeito; apenas lhe apareciam uns biscates de vez em quando. Por fim Nanda convencera-o a fazer um curso profissional. Escolheu electromecânica, tornando-se num excelente mecânico.
Enquanto não arranjava trabalho na sua especialidade resolveu ir até ao Alentejo para a apanha da azeitona. Aí conheceu Catarina, com a qual começou a namorar, acabando por viver juntos.

Por associação com o filho mais novo lembrou-se do seu ex-marido, Tó Zé. Raramente pensava nele, e cada vez mais o queria longe do seu pensamento.
A maior parte do tempo andava metido em complicações; troca-tintas profissional - já que era fornecedor de tintas e vernizes – sempre que podia vendia “gato por lebre”. Comprava tintas por atacado que misturava com água e outros ingredientes que só ele sabia, metia-a em latas pequenas com marcas de renome, e entregava-as a distribuidores tão “honestos” como ele, que as colocavam no mercado.
Mas nem sempre os negócios corriam bem - de vez em quando aparecia um ou outro que o metia em sarilhos e lá lhe saltava o verniz.
Acumulava o negócio das tintas com o de treinador de futebol da equipa feminina do Ramalhal  Futebol Clube e um belo dia trocou-a a ela, Nanda, pela guarda-redes da equipa, uma ucraniana com 1, 80 mt que nem precisava de levantar os pés do chão para desviar as bolas para canto. Para um canto do balneário, ao que lhe contaram mais tarde, desviou ele a loira e nunca mais pôs os pés em casa.
- Melhor só que mal acompanhada – pensara Nanda na altura.
- Para quê ter em casa um homem que só serve para me dar arrelias e preocupações? Que fique com a loira altarrona, que eu fico muito bem só com os meus filhos.
Mulher a quem nunca o trabalho meteu medo, Nanda tratou dos filhos, ainda pequenos nessa altura e tocou a vida para a frente. Mudou algumas vezes de emprego, até que lhe apareceu a oportunidade de entrar para a empresa EILA - Export & Import, Lda.  
A sua função era a de secretária da administração, nome pomposo que o Dr. Santos Costa   lhe arranjara, mas que ao fim e ao cabo melhor fora ter o título de “Faztudo”, pois era mesmo isso que fazia. Há  relativamente pouco tempo o Dr. Santos Costa   deixou o “Import” e exportou-se a ele mesmo para algures no estrangeiro; a empresa entrou em falência e fechou.
Agora ela estava no desemprego e andava mal disposta e adoentada. Isso a levara ao Centro de Saúde nesse dia, para pedir ao médico que lhe mandasse fazer umas análises e exames e lhe receitasse qualquer coisa que a fizesse andar mais descontraída. Precisava de arranjar emprego, não era mulher para ficar parada.

Enquanto esperava que o semáforo abrisse para os peões, Nanda levou a mão ao bolso e tirou um papel que leu pela 3ª vez: um nome e um número de telemóvel. Alfredo Araújo! Por causa dele é que agora já estava arrependida de ter metido pés ao caminho para regressar a casa.
- D. Fernanda? – ouviu chamar, mal tinha dado meia dúzia de passos depois de sair do Centro de Saúde. Um sujeito, também a sair do Centro, chamava-a.
 - Sim, que deseja? – perguntou admirada, pois não o conhecia. Pensou que se teria esquecido de qualquer coisa no Centro de Saúde, que lhe viessem entregar.
 - A senhora vai desculpar-me, mas eu ouvi a sua conversa com a D. Raquel do guichet ali do Centro, e gostaria de lhe dizer uma coisa.
Nanda ficou admirada e desconfiada; farta de conversas semelhantes estava ela. Resmungou mal-humorada:
- Não sabe que é feio ouvir as conversas dos outros,? Não o conheço de parte nenhuma. E ia a voltar-lhe as costas mas ele insistiu.
- A senhora com certeza não reparou, mas eu comecei por pedir desculpa… Acontece que o que tenho para lhe dizer pode ser bom para a senhora. Pareceu-me ouvir dizer que procura um emprego e apercebi-me que tem umas certas habilitações…
 - Sim, e depois? Tem algum emprego para administradora de um banco, para me oferecer? – interrogou com ar trocista.
- Não, isso não tenho, mas estou a falar-lhe a sério. Por favor guarde este cartão com o meu nome e telefone-me, se assim o entender, daqui a duas ou três semanas. Talvez tenha boas notícias para si, mas agora não posso dizer-lhe mais nada.
Meteu-lhe o papel nas mãos, despediu-se e virou-lhe as costas.
  
Este é o I Capítulo (sujeito a alterações) do livro que estou escrevendo, e que tem o título (provisório…) “SEGREDOS”.
Maria Caiano Azevedo

quarta-feira, 6 de junho de 2018

"IN MEMORIAM"

Esta postagem constitui uma espécie de “memorial” em homenagem a quem partiu, faz hoje, DIA 6 DE JUNHO, seis anos, mas permanece vivo na minha memória e no meu coração – o meu Marido.


ENCONTRO MEDIÚNICO

Despidos de roupas e preconceitos, frente a frente, olhamo-nos em silêncio.
Vejo nos teus olhos, envolto numa enorme ternura, um desejo sem fim.
Lentamente dirijo-me para ti.
Colocando-me a teu lado, pressiono o meu corpo, seios e ventre, contra o teu lado esquerdo.
Não te moves. Apenas um ligeiro arrepio denuncia que notaste a minha presença, o meu contacto.
Avanço a mão esquerda em direcção ao teu peito. Suavemente acaricio-te, primeiro do lado esquerdo e de seguida do lado direito, lenta e demoradamente, como quem tem todo o tempo do mundo.
Ao mesmo tempo a minha mão direita, colocada na parte de trás do teu pescoço, faz uma ligeira pressão desde a base dos teus cabelos, deslizando pelas costas, ao longo da coluna.
Com as pontas dos dedos contorno, suavemente, cada uma das tuas vértebras.
Sem pressas, as minhas mãos vão descendo, divagando, ao longo do teu corpo.
Alcançado o baixo-ventre dirigem-se, lentamente, para a parte interna da tua coxa esquerda, desviando-se da tua fonte da vida, que tocam, muito ao de leve, com a sua parte exterior. Um frémito percorre todo o teu corpo.
Docemente coloco-me à tua frente, elevando as minhas mãos até aos teus quadris. Uno o meu corpo ao teu e deslizo para o lado direito.
Os meus movimentos são lentos, suaves, quase diáfanos, como se nos encontrássemos em "slow motion".

Não me deixas prosseguir.
Levantas o braço, passa-lo por cima do meu ombro, bem junto ao meu pescoço, e comprimes o meu corpo contra o teu flanco.
Inclinas-te para o meu lado e, profundamente conhecedor, beijas-me o pescoço.
Sinto o desejo irromper dentro de ti como um vulcão subitamente desperto do seu sono.
A lava incandescente do teu corpo invade-me; no meu ventre surgem labaredas, qual sarça-ardente.
Murmuro-te ao ouvido palavras meigas e sensuais:
- Não resistas, meu amor; deixa-te invadir por estas ondas de fogo que ateiam o nosso desejo.
Procurando, como só eu sei, os teus pontos mais sensíveis, levanto a minha mão direita e acaricio a tua orelha, continuando a murmurar palavras inflamadas, que te provocam arrepios:
- Quero fundir o meu corpo no teu, em comunhão total.
- Quero ser tua, para toda a eternidade…
Correspondes com ansiedade redobrada:
- Quero receber o teu corpo como num altar do Amor.
- Quero que os nossos corpos se unam para sempre.
Prosseguimos com frases que só os amantes conhecem e entendem.

Passou-se um minuto, um ano, um século… O tempo não conta. Pararam todos os relógios do Universo.
Agora sabemos que a dança da sedução está prestes a terminar. Lentamente, caminhamos para um final sem retorno.

Abraçamos o céu com as mãos. Somos únicos à face da Terra.
No clímax que nos atinge, inesperadamente violento, miríades de fogos-fátuos enfeitam os nossos corpos.


Exaustos, olhamo-nos ainda: tu, lá tão longe… eu aqui, tão longe! Separa-nos a distância de um profundo céu negro, polvilhado de estrelas brilhantes.
Ao meu lado, a cama vazia. No ar, o perfume da tua presença.

A morte não é um impedimento intransponível para a comunicação entre aqueles que se amam verdadeiramente.
Texto de Mariazita

sexta-feira, 1 de junho de 2018

NA NOITE ESCURA

NA NOITE ESCURA




NA NOITE ESCURA

Noite escura, hora misteriosa,
No tempo impreciso,
Entre este mundo e o dos espíritos,
Desvanece-se o véu,
E chega, por fim,
O visitante tão esperado.

Entra sem ruído,
E assim permanece,
Calado, em adoração.
E no meio do silêncio ensurdecedor
Ouço a sua voz murmurar baixinho:
Amo-te!

Fito-o, em silêncio,
Como se o visse pela primeira vez.
De súbito,
Numa atracção descontrolada,
Abraçamo-nos,
Como se fosse a última vez.
Sem uma só palavra,
Olhamo-nos, em êxtase,
Temendo que não haja uma próxima vez.

Depois da sua partida
O ar continua
Imbuído da sua presença.
Por companhia tenho apenas o luar.
Acordo, deixo de ouvir o silêncio,
E a sua voz esvai-se na distância,
Lembrando o choro repentino da saudade,
Que em meu peito fez lugar.

Mariazita
Maio, 2018

PRÓXIMA POSTAGEM DE HOMENAGEM - DIA 6/6

terça-feira, 1 de maio de 2018

RETIRO DE SILÊNCIO

“O SILÊNCIO É UM AMIGO QUE NUNCA TRAI” – Confúcio



Há dias encontrei a minha amiga Márcia, que já não via há duas semanas, e com quem me detive a conversar.
Ao princípio achei-a diferente. Não sabia dizer em quê, mas depois de quase duas horas de conversa, percebi – a Marta estava muito mais calma, aparentava, e transmitia, uma paz interior e uma serenidade que eu não lhe conhecia.
- Tenho uma coisa para te contar – disse ela depois dos efusivos abraços e beijos, próprios de quem é bastante expansivo, como a minha amiga.
- Estou ansiosa por ouvir – respondi. Pensei que, com o que tinha para me confidenciar, eu iria entender a razão das mudanças que lhe notara.
- Acabei de passar por uma experiência maravilhosa – começou Marta. Estive no que se pode chamar um Retiro Espiritual de Silêncio.
Eu apenas esbocei um sorriso céptico. A minha amiga, de vez em quando, tinha destas coisas… apetecia-lhe afastar-se de tudo e de todos, na convicção de que o recolhimento lhe faria bem ao espírito e lhe restituiria a calma necessária para enfrentar o dia-a-dia.
- Conta! Quero saber tudo – respondi, com muitas reticências interiores.
- Conto, sim, até porque sinto que me fez muito bem e penso que te faria bem a ti, também…
Já tinha ouvido falar nos benefícios da meditação, e eu própria já tinha tido uma breve experiência, de apenas um fim-de-semana e numas condições mais ou menos precárias, nada de muito sério.
Desta vez foi diferente, e para melhor, muito melhor…
O “programa” decorre, durante o Inverno, de sexta a sexta, das 13H às 13H. No Verão é diferente… Mas deixemos de parte esses pormenores.
À chegada fomos recebidos amavelmente pela equipa de serviço. Perguntaram onde queríamos ficar instalados. Como a resolução de irmos para lá foi tomada em cima da hora, fomos um pouco à aventura, sem reserva, acreditando que, pelo facto de estarmos no Inverno, a afluência não ia ser muito grande. O nosso “feeling” estava certo. De facto o grupo dessa semana era pequeno, apenas umas 15 pessoas, mais ou menos.
Depois de dizermos que queríamos um quarto, e informarmos que nunca tínhamos estado lá anteriormente, acompanharam-nos numa pequena visita guiada para conhecermos as instalações. Ficámos a saber que também há bangalows, que, neste tempo, são pouco requisitados e, quem quiser, pode levar tendas de campismo. Seguiu-se uma pequena reunião de esclarecimento onde nos disseram que iríamos passar ali uma semana em completo isolamento do mundo exterior, sendo-nos sugerido, gentilmente, tirar o relógio, desligar o telemóvel, evitar o contacto com o exterior e respeitar o silêncio o mais possível. Até à hora do jantar, que é servido às 19 horas, pudemos passear pelos jardins e mata. O silêncio que ali se vive é quase palpável e transmite uma paz indescritível.
Mas não será silêncio a mais? – atrevi-me a perguntar.
- Nem pensar! Os dias que se seguiram, ainda que obedecendo a uma certa rotina, foram todos diferentes. Não é preciso ter experiência prévia de meditação, nem obedecer a qualquer critério de fé. Seja qual for a religião ou credo todos são tratados de igual modo. Aliás, nunca ninguém nos perguntou se éramos ou não crentes ou praticantes fosse do que fosse.
Como tivemos a sorte de apanhar um dia de sol brilhante e temperatura amena, pudemos passar pela experiência de praticar exercícios que se assemelham bastante ao ioga, que são realizados no exterior, de pés descalços sobre um aconchegante relvado. Alguns destes exercícios são executados em posição fixa, imóvel; outros em movimentos muito lentos, quase etéreos, ao som de música muito suave, relaxante.
Com esta e todas as outras práticas pretende-se pôr de lado as nossas rotinas, o “mesmismo” do quotidiano, que tantas vezes se torna fastidioso. A intenção final é encontrar a fonte de paz e alegria profunda que reside no nosso íntimo, lá bem no fundo do nosso ser. Como criaturas da Natureza, devemos cultivar uma comunhão absoluta com ela, o que se consegue através da meditação nos espaços verdejantes, em silêncio absoluto, “ouvindo” apenas o respirar do “verde” que nos rodeia.

Eu estava verdadeiramente impressionada com a calma e placidez que a minha amiga Marta ostentava, pelo menos aparentemente. Sabendo eu como ela é uma pessoa nervosa, ainda que se esforce por ocultar essa sua peculiaridade… sentia-me tentada a acreditar em milagres… Agora não tinha a menor dúvida de que o tal Retiro lhe fizera muito bem. Só me falta saber se os efeitos vão ser duradouros…

Parecendo adivinhar os meus pensamentos, Marta interrompeu-os, continuando:
- Sinto-me tão bem que tu nem podes imaginar! É como se tivesse encontrado um novo equilíbrio; sinto-me em sintonia com o que me rodeia, mais próxima dos outros e da Natureza… É como se estivesse a descobrir aspectos da vida que me eram desconhecidos, como se estivesse a vê-los pela primeira vez.
Sei que não consegui um estado de alma tão elevado como algumas das pessoas que lá estavam. Creio que, em parte, isso se deve à minha maneira de ser – nada fácil, como sabes – mas também porque foi a primeira vez, era tudo, praticamente, novo para mim… Sei também que me é muito difícil uma concentração absoluta, sou bastante dispersa, o meu pensamento não pára sossegado, anda sempre a divagar… (nesta altura esboçou um leve sorriso cúmplice) e só com grande esforço consigo concentrar-me numa só coisa. E essa concentração é um ponto essencial para a meditação.
- Pois, eu conheço-te há tempo suficiente para saber que tu andas sempre a mil… Por isso, se me dissesses que tencionavas ir para o tal Retiro… eu poria muitas reticências sobre os benefícios que irias colher. Mas agora tenho que admitir que estás diferente… ou, pelo menos, assim parece… - mais uma vez a interrompi, com o que Marta não se incomodou minimamente.
- Eu sei. E não és só tu, qualquer outra pessoa diria o mesmo; excepto uma, que me conhece melhor do que eu própria, me aconselhou a fazê-lo.
As duas sessões diárias de meditação, uma de manhã e outra à tarde, eram sempre precedidas de uma breve alocução que funcionava como que um ensinamento. A própria voz do “acompanhante” era baixa, suave como um calmante. Aprendíamos, primeiro, como relaxar o corpo e aquietar a mente. Quando a voz ia baixando de tom até se tornar num murmúrio, e apenas ouvíamos o silêncio… o nosso espírito já tinha subido para outro nível. Nos noventa minutos que se seguiam sentíamo-nos conectados com a magia da vida.
A meditação era seguida de um passeio pela mata, sempre que o tempo o permitia – o que aconteceu a maior parte dos dias, apesar de a temperatura não ser muito amena. Como tínhamos ido prevenidos com agasalhos, não houve problemas de frio.
Antecipadamente tínhamos sabido que era aconselhável levar roupa e sapatos práticos (fatos de treino e ténis); toalha e chinelos de banho; casaco e chapéu (ou boné) e um bloco de notas.
Estranhámos a indicação do bloco de notas que, afinal, veio a revelar-se muito útil. Nas pequenas reuniões que havia a seguir ao pequeno-almoço (servido às 9 horas) podíamos tomar os apontamentos que quiséssemos. Nós fizemos imensas anotações – em qualquer altura ou momento de dúvida, podemos sempres consultá-las e trocar impressões.
Levantávamo-nos às 7 horas, tratávamos da nossa higiene e quase sempre dávamos um pequeno passeio ou simplesmente olhávamos a paisagem ao longe, até à hora do pequeno-almoço.
As manhãs eram ocupadas com a meditação e o passeio pela mata, este também em silêncio (aliás, o silêncio predominava todo o tempo).
Às 13 horas era servido o almoço. A alimentação era ovo-lacto vegetariana, muito bem confeccionada, com produtos biológicos criados na quinta a que pertence o “Retiro”. Mas quem quisesse podia optar por comida vegetariana pura.
Como sabes não tenho problemas, e até gosto, da comida vegetariana, por isso a alimentação agradou-me.
As tardes eram passadas na meditação, de que já te falei, em passeios, observação da Natureza, e palestras de orientação, onde era permitido fazer perguntas e esclarecer dúvidas.
Às 19 horas serviam o jantar, que era sempre acompanhado de música ambiente relaxante, num tom bastante baixo.
Este prolongava-se sempre para além das 20 horas porque tudo se passava dentro duma grande calma e placidez, como se se tratasse de uma preparação para noites repousantes (pensámos que era mesmo essa a intenção).
Das 20,30 até às 22 podíamos assistir a uma espécie de danças em que se misturavam posições de ioga com passos orientais, ao som de música de flauta tocada ao vivo.
Quem não quisesse assistir podia entreter-se a ler ou escrever, ou como melhor entendesse. O recolher era às 22 horas.
- Com uma explicação tão pormenorizada e exaustiva, até me fizeste ter vontade de seguir o teu exemplo e fazer essa experiência – disse eu, num tom um pouco sonhador.
- E tu pensas que eu estive para aqui a falar, contando-te todos estes pormenores só para me ouvir a mim mesma? Não, minha querida, o meu relato não foi inocente… A minha intenção era exactamente essa – convencer-te a experimentar o que, a mim, me fez tão feliz.
Danadinha, a minha amiga Márcia!

domingo, 1 de abril de 2018

COLECÇÕES E COLECCIONADORES

COLECÇÕES
 Coleccionar, seja o que for, é próprio do ser humano. Para algumas pessoas constitui mesmo uma necessidade, justificada psicologicamente como algo mais do que um simples passatempo de adolescentes.
Coleccionador é o indivíduo que faz colecção dos mais variados objectos, como selos ou moedas, por exemplo. Mas são também coleccionadores os museus e as bibliotecas:
- Os museus coleccionam os mais diversos objectos – o Museu do Louvre guarda objectos desde a era napoleónica até aos dias de hoje, de entre os quais se destaca a famosa Mona Lisa, pintada por Leonardo da Vinci.
- As bibliotecas são coleccionadoras de livros. Uma das mais famosas foi a Biblioteca de Alexandria, no antigo Egipto, na qual se encontraria, segundo a lenda, a famosa fórmula da imortalidade.
O historiador Philipp Blom defende que os coleccionadores não são “maníacos que juntam qualquer coisa por compulsão”. Ele entende que há razões históricas, filosóficas e psicológicas que podem levar o indivíduo a tornar-se coleccionador. Motivos como “sentimento de grupo”, “competição”, “medos”, “desejos não realizados” ou “vontade de se isolar do mundo” poderão estar na base do coleccionismo.

“Não pense que todo o coleccionador é um sujeito mal-amado, reprimido, solitário. Coleccionar quando criança tem as suas vantagens. O hábito nos ensina a organizar e controlar as coisas, decidir a vida e a morte de cada objecto. Eis uma boa forma de aprender a tomar decisões e a lidar com o mundo exterior” – diz Blom

Desconhece-se ao certo o período em que o ser humano começou a coleccionar objectos. Mas aceita-se como válida a hipótese de o homem pré-histórico já exercer essa prática. É bem provável que o homem pré-histórico já tivesse, num cantinho da caverna, uma colecção de crânios como talismãs…
Hoje existem provas de que já havia coleccionismo na Roma antiga assim como no Egipto – é famosa a colecção de cerâmicas finas do faraó Tutancamon.
O coleccionismo era restrito a reis e aristocratas, e só no século XVI deixou de o ser. Nessa altura começou-se a coleccionar tudo, desde cromos a pacotinhos de açúcar, passando por jóias a embalagens de cigarros.

Há, e houve, em todo o mundo, coleccionadores famosos, sobre os quais não vou debruçar-me. Mas não posso deixar de referir a famosa estilista milanesa Biki, de seu nome verdadeiro Elvira Leonardi Bouyeure, neta do compositor Puccini, que vestiu princesas, milionárias e estrelas, como a actriz Sophia Loren e a soprano Maria Callas, fazendo furor nos desfiles de Alta Moda, em Milão.
Biki montou uma sala refrigerada na sua casa para conservar chocolates comprados nos mais diversos lugares do mundo.
Tudo o que até aqui foi dito se refere a coleccionadores e colecções de um nível bastante elevado.
Sem a visibilidade de qualquer coleccionador famoso… quero aqui referir uma colecção que, embora não tão famosa, não deixa de ser muito interessante e constituir já um acervo bastante razoável. Trata-se da colecção de dedais da nossa amiga, a blogueira Amélia - 

DEDAIS DA AMÉLIA, 

a quem, se me permitem, dedico esta postagem. Sei que para além de dedais ela colecciona outras coisas, mas não serei eu a desvendar o segredo…
No seu blog podemos apreciar dedais lindíssimos, de todos os lugares do mundo, nos mais variados materiais, cores, feitios… enfim, uma colecção de fazer inveja – no bem sentido, é claro!
Eu sempre tive a mania de “guardar coisas”, mas não posso considerar-me uma coleccionadora. Tenho vários objectos antigos em louça, cristal ou prata, mas nada que constitua “uma colecção”. E como gosto muito de bonecas… quando vou viajar trago uma dos países que visito – e muitas outras que me ofereceram.


 O mesmo se passa com miniaturas de garrafas de bebidas e de perfumes.


E com mochos? Como gosto muito deles… “colecciono-nos”. De vários tamanhos e materiais rondam umas centenas.


Para terminar vou citar Silvia De Renzi, historiadora da ciência da Universidade de Cambridge, na Inglaterra que diz:
“As colecções foram fundamentais para a organização da natureza como fazemos hoje.”
Um coleccionador, mesmo quando obtém uma raridade, não sente seu desejo atenuado. Na verdade, nada é mais triste que pensar em completar uma colecção. Quando as mãos seguram a nova aquisição, os olhos já vislumbram a próxima peça.” (O sublinhado é meu)

Termino esta postagem com os votos de uma PÁSCOA MUITO FELIZ.





quinta-feira, 1 de março de 2018

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

 No mês de Março, dia 8,  há uma data muito importante a assinalar – o DIA   INTERNACIONAL DA MULHER.
Para o celebrar, saudando a Mulher em todo o mundo, partilho convosco um poema que já publiquei.
Pelo facto de ter sofrido um pequeno acidente doméstico nos dedos polegar e indicador da mão direita (que se encontram inoperacionais, obrigando-me a teclar só com dois dedos J ) não me é muito fácil escrever um texto, como habitualmente.
Conto com a vossa compreensão, esperando que gostem do poema, desta vez “dito” por mim. Quem preferir… pode apenas ler, abaixo.
Obrigada!



Ó avô
- Será verdade o que da Mulher se diz?
- Que queres saber, meu petiz?
- Dizem que em era passada
A Mulher foi maltratada, desprezada,
Humilhada,
E até violentada…
- É verdade, sim, meu neto.
- Mas porquê? Isso não parece certo…
- És ainda muito novo, para entenderes o povo.
- Podes-me contar, avô, como tudo começou?
- Escuta com atenção. Vou tentar contar-te, então.
Defendem alguns, com grande convicção,
Que nos primórdios do mundo
A Mulher iniciou a Criação.
Nasceu um culto à Deusa Mãe, venerando Gaia,
A Mãe Terra.
Como da Mulher nasciam filhos,
 dela nascia vida, calor, água e pão.
- Isso é tão bonito, avô! Mas porque é que se alterou?
- Há várias opiniões. Dizem que houve invasões,
de homens indo-europeus, só ódio nos corações.
Altos, fortes, audazes, com armas
e dominando cavalos,
destroçaram pacíficas civilizações.
Impuseram seus deuses guerreiros, ferozes:
Deus da tempestade, com o raio e o trovão…
O deus solar, Deus Sol, com a adaga e a espada…
Transportando-se num carro, numa ou noutra ocasião.
A Deusa foi dominada, pelos deuses suplantada,
E a Mulher escravizada.
- Mas isso aconteceu há muito tempo, avô…
- Sim, há muitos milhares de anos.
Mas a história ainda não acabou.
- Ainda há mais, avô? Conta, conta, por favor…
- Ouve, então, com atenção, esta outra versão:
Reza história muito antiga
Que Eva, a Mulher primeira,
Veio ao mundo para gerar
no seu ventre,
e à luz dar, acarinhar, amar…
E após tanta canseira
por seu filho a vida dar.
- Mas tudo isso, avô, é bem digno de louvor.
Porquê, então, o rancor
Que o homem mostra sentir,
e o levou a infligir
tanta dor?
- Para isso, querido neto, o avô não tem resposta.
Uns dizem que foi castigo, só porque Eva pecou
 e o Adão arrastou.
Outros dizem que é sina, que à Mulher foi imposta.
Mas com o passar do tempo tudo se modificou.
- Hoje tudo está diferente, não é verdade, avô?
A Mulher tem liberdade, pode dispor de si mesma,
Sem ao homem consultar e sem dele depender…
- Nem tudo foi corrigido, ainda há muito a fazer.
Há mulheres escravizadas,
maltratadas, torturadas,
e isso tem que acabar.
Para o mundo melhorar, e a injustiça terminar,
O Homem tem que entender:
Com toda a tecnologia e avanço da ciência,
fertilizando ou clonando,
com a maior sapiência,
é da Mulher que o Homem
continuará a nascer.
 Deus, que é Deus, para humano se tornar
 e o mundo tentar salvar,
o corpo da Mulher teve que usar.

Mariazita