domingo, 1 de março de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XVIII


SEGREDOS – CAPÍTULO XVIII

SEGREDOS – CAPÍTULO XVII
“… Nanda sentiu um aperto no coração. Num flash muito rápido viu-se, com os seus filhos recém-nascidos no colo, e o ex-marido junto dela, acarinhando-os.
Com um imperceptível encolher de ombros afastou-se lentamente e não pronunciou uma palavra. Não o conseguiria fazer sem denunciar a sua emoção…” 

SEGREDOS – CAPÍTULO XVIII
Encaminharam-se todos para o apartamento que Tó Zé tinha preparado.
Foi notório o espanto e admiração do casal. Luís mal conseguia falar, com tanto contentamento. Por fim, recomposto, voltando-se para o pai, disse, com voz perturbada:
- Pai, eu não imaginava que conseguisses fazer este palácio! Não tenho palavras para te agradecer, e o mesmo se passa com a Catarina, tenho a certeza. Não é, amor? – acrescentou voltando-se para a mulher.
- Eu também estou como tu. O meu sogro merece todo o nosso reconhecimento. Acho que nunca vivi numa casa tão linda… - Catarina estava deveras emocionada.
Nanda resolveu intervir, tentando desanuviar o clima tenso que ela própria sentia.
- Pois, os louros são todos para o pai… Mas ninguém agradece à mãe o trabalhão que teve com a decoração…
Catarina abraçou-a carinhosamente, com o cuidado necessário para não apertar o bebé, que continuava no colo da avó.
- Vocês, meus sogros, são as pessoas mais maravilhosas que já conheci.
Nunca poderemos agradecer tudo o que estão fazendo por nós.
O ambiente estava a tornar-se pesado. Nanda resolveu mudar de assunto. Dirigiu-se à mesinha da pequena sala, onde depositara umas caixas com bolos e sandes, e pediu ao Tó Zé que trouxesse os refrigerantes do frigorífico. Sentou-se, aconselhando todos a fazerem o mesmo.
- Ora então vamos lá saber. Já registaram este menino?
- Ainda não. Como temos trinta dias para o fazer… preferimos esperar e registá-lo cá – respondeu Luís.
- Boa ideia! E qual vai ser o nome do meu neto? – perguntou Nanda.
- TEU neto? Então ele não é também meu? – interveio Tó Zé, que até aí se mostrara pouco falador, mas apenas porque não queria denunciar a emoção que lhe causava ver a família reunida.
- Claro que sim! – apressou-se Nanda a responder. Desculpa, não tive qualquer intenção de te pôr de fora… Mas, voltando ao nome, já pensaram como se vai chamar o nosso principezinho?
- Sim, já pensámos e vamos chamar-lhe Fernando António.
- Fernando António? Como se lembraram de tal nome – Nanda e Tó Zé perguntaram quase ao mesmo tempo.
- Então não estão a ver? É uma homenagem aos avós paternos: Fernando, da avó – não podia ser Fernanda – e António do avô – esclareceu Luís.
- Ah! Estou tão habituada a ser tratada por Nanda que nem me lembro que o meu verdadeiro nome é Fernanda. Quanto ao teu pai… sempre foi e continua a ser Tó Zé – respondeu Nanda, com um sorriso. Nem me lembro que o primeiro nome dele é António. Mas gosto do nome que vocês escolheram! Que achas, Tó Zé?
- Eu acho bonito, e pode-se arranjar um diminutivo engraçado…
- Como, por exemplo… incitou-o Nanda.
- Nani – a primeira sílaba de Nanda e a última de António.
- Já sabia que tens uma imaginação muito fértil – riu Nanda. Mas até que não está nada mal… Gosto, sim senhor.
- Então não se mexe mais – riu, por sua vez, Tó Zé.
Todos comeram e beberam, pois o almoço tinha sido há bastantes horas. Nanda achou que era tempo de o filho e a nora ficarem a sós.
- Vou vos deixar descansar. Como já não é nada cedo, falamos amanhã. Tratem de pôr o vosso ninho ao vosso gosto, e amanhã combinamos alguma coisa.
Tó Zé aproveitou para também sair, acompanhando-a até à porta. À  despedida, comentou:
- Acabei de viver os momentos mais felizes dos últimos tempos. Espero que os nossos filhos se sintam bem na sua nova casa.
Deu um beijo na testa de Nanda, e, ainda emocionado, murmurou:
- Até breve, minha querida.
Nanda afastou-se, com o coração aos saltos. Tudo o que acabara de vivenciar trouxera-lhe à lembrança tempos passados, em que Tó Zé tivera um papel muito importante…
***
“… - Não brinques, que o caso é muito sério – repreendeu-o Nanda.
- Desculpa, não penses que não te levo a sério. Vá lá, podes falar que te ouvirei com toda a atenção – agora ele adoptara um tom contrito…”
- Desconfio que estou grávida – atirou ela, de chofre.
Tó Zé ficou mudo. Não sabia o que responder. Com os seus 19 anos não tinha ainda a experiência necessária para saber como reagir numa situação assim tão grave.
Mantiveram o silêncio por largos minutos até, que, finalmente, ele perguntou:
- O pai é o Alessandro?
- Quem querias tu que fosse? – respondeu Nanda, num tom meio ofendido.
- Desculpa. Claro que só podia ser ele. Tu nunca tiveste outro namorado. Mas… ainda não tens a certeza?
- A certeza, certeza, não tenho, mas é quase como se tivesse.
- O melhor é tu ires ao médico. Se quiseres posso falar com a minha irmã para marcar uma consulta para o ginecologista dela. Digo-lhe que é para uma amiga minha, sem dizer o teu nome. Isto, é claro, partindo do princípio de que não queres pedir isso à tua mãe… 
- Nem pensar em dizer à minha mãe! Mal consigo imaginar a reacção dela quando tiver mesmo de lhe contar…
- Então fica combinado. Chegando a casa já falo com a minha irmã. Mas, por favor, acalma-te. Não podes estar nesse estado de ansiedade. Só te faz mal, e além disso, a tua mãe pode desconfiar. E até, quem sabe? Pode ser que estejas enganada – Tó Zé tentava confortar a amiga, por quem tinha verdadeira adoração.
- Era bom que tivesses razão, mas, infelizmente, não acredito.
Despediram-se com um abraço mais apertado do que habitualmente. Ele seguiu a caminho de casa num estado de grande preocupação.
Tó Zé vivia eternamente apaixonado por Nanda. Ainda na escola primária, onde se tinham conhecido, já ele se declarava namorado da Nanda. Andava sempre perto dela, defendia-a quando os outros miúdos queriam pregar alguma partida, e sentia-se frustrado todas as vezes que Bela se lhes vinha juntar. Também era amigo de Bela, mas preferia vê-la longe deles, apesar de andarem muitas vezes os três juntos.
Depois da escola primária separaram-se, já que Tó Zé não seguiu o liceu, preferindo o curso industrial. Contudo, ele e Nanda continuaram a encontrar-se frequentemente, pois moravam relativamente perto um do outro. Viam-se quase todos os dias. Bela morava um pouco mais afastada por isso convivia menos com ele.
A paixão de Tó Zé não esmoreceu quando apareceu Alessandro. Continuou a amá-la em silêncio, não tendo, nunca, a coragem de lhe confessar os seus sentimentos.  Contudo, no fundo, acalentava a esperança de que ela acabasse por se cansar do italiano.
Agora, com a hipótese de gravidez e a ausência do namorado, renascia em Tó Zé a esperança de que Nanda viesse a ser sua. Sentia-se mal, ao pensar nisso, achava-se egoísta e indigno, mas não conseguia evitar tais pensamentos.
A ida ao médico veio confirmar as suspeitas – Nanda estava grávida!
Entrou num estado de grande aflição. Não saía de casa, excepto à noite para se encontrar com Tó Zé. Comia pouquíssimo, com grande esforço.
Fechava-se no quarto, a dormir – sentia-se sempre com sono – esforçando-se por esconder da mãe as náuseas que por vezes a acometiam , mas que,  por sorte, eram pouco frequentes.
Nem sequer podia desabafar com a sua melhor amiga, a Bela, que andava com a mãe não se sabia bem por onde.
O único conforto que recebia era do seu amigo Tó Zé, que a rodeava do maior carinho, consolando-a o melhor que podia.
Um dia ele perguntou-lhe:
- Já disseste alguma coisa ao Alessandro?
- Não, nem lhe vou dizer por carta. Se ele conseguir vir cá, como me tem prometido, nessa altura conto-lhe.
- Mas imagina que o trabalho não lhe permite vir tão depressa… Vais-lhe dar a novidade só depois de o bebé nascer?
- Não me fales nisso! Não quero pensar nesse assunto. Tenho muitas preocupações e problemas bem mais urgentes para resolver e nem sei que volta lhes dar…
E lágrimas começaram a rolar-lhe pela face. Tó Zé não insistiu mais no assunto. Abraçou-a carinhosamente, tentando confortá-la, dizendo que tudo se haveria de resolver
 As férias de Verão estavam a acabar, as aulas na Faculdade quase a começar, e Nanda sentia-se apavorada.
Um dia, inesperadamente, Dona Lucinda perguntou:
- Nanda, o que se passa contigo? Tenho vindo a reparar que, nos últimos dias mal tocas no pequeno almoço. E já te ouvi vomitar algumas vezes…
- Não se passa nada, Mãe – apressou-se ela a responder. Há uns dias fui com o Tó Zé comer uma pizza que não me caiu nada bem… E ainda não me recompus completamente, por isso às vezes tenho náuseas.
- Essa mania que vocês têm de comer porcarias, e ainda por cima à noite! Se calhar era melhor ires ao médico…
- Não é preciso, Mãe. É só eu fazer um pouco de dieta, e fico boa.
- Bem, vamos ver. Mas olha que com a saúde não se brinca…
***
No dia seguinte Nanda levantou-se com um certo esforço. Apetecia-lhe continuar na cama, mas não podia fazer a vontade ao corpo. Tinha de ir levar o Tejo à rua e depois arranjar-se para ir à Ourivesaria. Não tinha combinado nenhuma hora com o engenheiro, mas não queria que ele pensasse que ela era uma irresponsável. Afinal… Araújo dera a entender que o contrato de trabalho começaria a funcionar a partir do momento em que o haviam assinado, o que a levava a pensar que ele lhe pagaria desde essa data.
Assim sendo, e embora pouco houvesse a fazer na loja enquanto esta não fosse inaugurada, ela achava de bom tom aparecer lá cedo.
Fazendo das tripas coração… levantou-se, pôs um fato de treino e, com a trela do Tejo na mão, saiu.
- Ai, Tejo, Tejo, tu consegues imaginar o amor que sinto por ti? Só mesmo um amor muito grande me faria vir para o parque a estas horas da manhã…
Ao ouvir o seu nome o animal levantou a cabeça olhando para ela e, como se percebesse as suas palavras, abanou a cabeça como que em sinal de concordância.

Maria Caiano Azevedo 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

DIA DE ANIVERSÁRIO


12º. ANIVERSÁRIO

Aniversário?
Alguém falou em Aniversário?
Nem pensar! Já somei anos bastantes para estar agora a acrescentar mais um…!
A continuar nesse ritmo não tardaria muito para eu andar de cadeira de rodas, ou pelo menos munido de uma simpática bengala.
Não! Recuso-me! Daqui para a frente vou começar a desfazer anos. Portanto, como nasci há 12 anos, tirando 1, este ano faço 11. A isto chama-se Retro-Aniversário, ou seja, andar para trás nos anos. Não é uma ideia luminosa?
Para além de não querer envelhecer há , pelo menos, mais duas razões que me levaram a tomar esta decisão: o trabalho e a despesa.
Já pensaram bem no trabalhão que dá organizar um Aniversário? É descomunal!!!
Idealizar os convites (só isto gasta-me metade dos neurónios) , mandar para a impressora para imprimir, endereçar os envelopes, metê-los no correio… é uma maçada sem fim.
E a despesa? Nem é bom pensar!!!
Taças – agora usam-se flutes, cuja forma é mais alongada, mas fazem o mesmo efeito, ou seja, é por eles que se bebe o champanhe. Como nos finais das festas se partem muitos… devido aos vapores etílicos… todos os anos têm de ser repostos os que se partiram.
Depois… há o champanhe propriamente dito. Para não ser uma zurrapa… custa caro.
E o bolo, que custa um dinheirão?! Só por ser de Aniversário cobram-nos o dobro ou o triplo do valor normal sem velas.
Mas isso é apenas o final da festa porque  antes há que reunir uma parafernália de coisas que me cansa só de pensar:
Mesas, toalhas, cadeiras, balõezinhos… Não! É demais! E as comidas? São os salgadinhos, os frios, os quentes, as sobremesas… um nunca acabar de dinheiro gasto.
Por tudo isto, decidi, e está decidido: Acabaram-se os Aniversários! Só Retro-Aniversários.
Bem feitas as contas, como este ano desfaço um, em vez de 12 fico com 11. A este ritmo… em 2031 alcanço o ano ZERO. O que acontecerá nessa altura? Será que volto para a barriga da mãe? Mas… hum, hum… estará ela em idade de me receber de volta??? Veremos. Não vamos agora pensar nisso.
Para finalizar espero que ergam a vossa taça (ou flute) à minha saúde e à minha decisão de me manter jovem para sempre!!!
Tchim, tchim…



sábado, 1 de fevereiro de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XVII


SEGREDOS – CAPÍTULO XVII

SEGREDOS – CAPÍTULO XVI
“…A custo, separaram-se. A pedido de Alessandro Nanda saiu, como se fossem encontrar-se mais tarde, talvez para almoçar…
Foi a última vez que se viram. O contacto, por carta, manteve-se por largos meses, mas mesmo esse elo acabou por se quebrar. Nanda ficou com uma recordação para toda a vida…”

SEGREDOS – CAPÍTULO XVII
Imersa nos seus pensamentos que, ao mesmo tempo que lhe causavam uma saudade enorme também a tornavam, inexplicavelmente, feliz, percorreu o caminho até sua casa.
Depois de tomar um banho para tentar acalmar toda a excitação que ainda a dominava, trocou a elegante roupa que usara para o encontro com o Araújo por outra mais confortável e levou o Tejo ao seu habitual passeio matinal. Ele já estava ansioso à sua espera, o que a levou a pensar que teria de começar a levantar-se mais cedo para o levar à rua antes de ir para o trabalho. O pobrezinho não podia estar à espera de que ela voltasse para ir fazer as suas necessidades fisiológicas…
Eram já horas de ir ao encontro de Bela, com quem combinara almoçar, para lhe contar as novidades. Aliás, já estava ligeiramente atrasada relativamente à hora que tinham marcado. Nanda pensou consigo mesma: “Parece que hoje é o dia de eu chegar atrasada a todo o lado…”
Assim, quando chegou ao “Caminho de Casa”, o restaurante onde habitualmente comiam, a amiga já a aguardava na esplanada.
Abraçaram-se efusivamente e, depois de se beijocarem, escolheram uma mesa e sentaram-se.
A conversa só foi interrompida para encomendarem o almoço. Escolheram salada para ambas já que andavam a tentar perder peso.
Nem uma nem outra precisava disso, mas preocupavam-se com umas gordurinhas embirrantes que teimavam em alojar-se “naquela zona da cintura”. Sonhavam voltar a ter as “cinturinhas de vespa” dos seus vinte anos…
Falaram de tudo e de nada, como se há muito tempo não se vissem.
Nem parecia que conversavam todos os dias, faziam caminhada juntas, e de vez em quando encontravam-se para almoçar. Mas nunca lhes faltava assunto.
Esgotadas todas as banalidades, Bela quis saber como tinha decorrido a entrevista com o engenheiro Araújo. Fez questão de acentuar o “engenheiro” como forma de o colocar à distância. Nanda percebeu perfeitamente a intenção dela, mas fez-se desentendida.
- Correu lindamente, muito melhor do que eu poderia esperar.
E descreveu, em traços largos, quais iriam ser as suas funções.
- Vou ficar com uma responsabilidade bastante grande, o que, até certo ponto, me preocupa um pouco…
- Não vejo qualquer razão para isso – atacou Bela, de imediato. Tu és competentíssima; tenho a certeza de que é ele, o engenheiro, quem mais fica a ganhar com o negócio – e emendou rapidamente – quero dizer, com o facto de ires trabalhar com ele.
Havia um certo azedume na sua expressão. Ainda lhe custava aceitar que Nanda não tivesse querido ir trabalhar com o seu pai.
Nanda ignorou o tom da amiga, e acrescentou:
- É claro que vou ser muito bem paga, por isso não me posso queixar…
- Ai sim? E pode-se saber qual é a fortuna que o engenheiro te vai pagar? – acentuou o “fortuna”, em tom depreciativo e ao mesmo tempo duvidoso.
- Claro que tu podes saber, mas não quero que se fale no assunto.
E acercando a boca do ouvido da amiga murmurou a quantia, num tom em que só ela pudesse ouvir.
Bela arregalou os olhos, ficou uns momentos sem dizer nada, e só depois como que gaguejou:
- Bem, isso nunca ganharias na empresa do meu pai… É certo que a responsabilidade também seria muito menor… Mas, à primeira vista,  tenho de concordar que o engenheiro é bastante generoso.
E, logo de seguida, olhando Nanda nos olhos, acrescentou:
- Minha querida, tu já ouviste dizer que “quando a esmola é grande o pobre desconfia”, certo? Pois eu não posso deixar de te alertar para o que receio venha a verificar-se.
- E que é… - incentivou-a Nanda.
- Que pode haver outro interesse por detrás de tudo isso…
- Mas que interesse queres tu que haja? – Nanda não estava mesmo a ver onde a amiga queria chegar.
- Ó meu amor, então tu não tens espelhos em casa? Linda e elegante como tu és, com todo esse charme de mulher que arrebata corações, não estás a perceber o que eu quero dizer? Eu tenho muito medo de que ele tenha segundas intenções a teu respeito…
Nanda soltou uma sonora gargalhada.
- Mas que ideia tão estapafúrdia! Quando tu conheceres o Araújo mudas radicalmente de opinião. Ele é uma pessoa correctíssima, educada, sem o mais leve indício de brejeirice. Não, minha querida, quanto a isso estás completamente enganada.
- Até pode ser… mas alguma coisa me diz que “anda mouro na costa” (*)
- Tu e as tuas ideias… - rematou Nanda. Mas agora, minha querida, tenho de me ir embora. O Tó Zé ligou-me do Alentejo a dizer que estavam mesmo a acabar de almoçar e logo de seguida punham-se a caminho, pois já tinham arrumado na carrinha tudo o que é para trazer. No fundo… devem ser as roupas deles e pouco mais, já que estavam a viver num anexo do pai da Catarina.
- Espero bem que agora fiquem em melhores condições. Já viste o que o Tó Zé lhes arranjou?
- Sim, estive lá há dias e confesso-te que diquei admirada. O espaço ficou muito jeitoso, bem melhor do que eu podia imaginar. Desta vez o Tó Zé excedeu as minhas expectativas - acrescentou Nanda, sorrindo.
Despediram-se com abraços e beijos efusivos como era habitual entre elas.
Enquanto caminhava Nanda ia pensando em como era grande a amizade que as unia. Há tantos anos que eram amigas e só muito raramente se zangavam. E a verdade é que as zangas entre elas nunca duravam muito tempo. “Eu nem consigo imaginar a minha vida sem a amizade de Bela. Muitas vezes penso que se fossemos irmãs não nos amaríamos mais” – Nanda sorria a esta ideia. “É engraçado que, sempre que penso nisto, me acode a sensação de que há um segredo qualquer na vida de Bela que ela nunca me contou. Mas… se comigo acontece isso… tenho de aceitar que o mesmo se passe com ela…”
Acelerando o passo não demorou muito tempo a chegar próximo do armazém onde Tó Zé preparara o apartamento para o filho. Não vendo a carrinha nas proximidades foi sentar-se na esplanada dum café próximo, a aguardar a chegada do seu ex-marido, que agora lhe trazia uma carga preciosa – o seu neto.
O pensamento voou-lhe para o passado…
***
“Depois do terrível desgosto da separação, Nanda passava os dias ansiando pela chegada do correio. Alessandro escrevia bastantes vezes, mas as suas cartas eram sempre muito pequenas, e não chegavam a mitigar a saudade imensa de Nanda. Pedia-lhe sempre desculpa por não se alongar tanto como seria seu desejo, mas o tempo de que dispunha era muito pouco. O trabalho absorvia-o dia e noite; o laboratório estava na eminência de uma descoberta muito importante, em que o seu papel era fundamental.
- Mia cara, mi dispiace, ma sto lavorando molto.
Quando passar esta fase já poderei escrever mais e até, talvez, ir passar uns dias a Lisboa, nem que seja só um fim de semana.
Ela escrevia-lhe longas cartas apaixonadas, onde deixava transparecer as saudades imensas e o desejo ardente de voltar a vê-lo em breve. Expressava-lhe a esperança de que o acréscimo de trabalho no laboratório terminasse depressa e ele pudesse voltar a Portugal, nem que fosse apenas por alguns dias.
Nanda continuava a encontrar-se todos os dias com Tó Zé. Depois de jantar ia até ao portão do jardim onde, normalmente, ele já se encontrava, esperando-a.
Nas longas conversas que travavam ela confidenciava-lhe as grandes saudades que sentia de Alessandro, a tristeza que a ia consumindo cada vez mais, à medida que os dias passavam. Tó Zé confortava-a com o seu carinho, aparando-lhe as lágrimas que se iam tornando cada vez mais frequentes.
Numa dessa noites Nanda abraçou-o com muita força, murmurando baixinho:
- Tó Zé, tenho um segredo para te contar, mas tens de me prometer que não dizes nada a ninguém.
- E achas que é preciso recomendares-me isso? Sou ou não sou o teu melhor amigo?
- Claro que és. Sempre o foste e continuarás a ser. Mas é que se trata de uma coisa muito grave, que até tenho medo de dizer em voz alta…
- Pois então diz-me baixinho, ao ouvido – tentou ele brincar, para aliviar a enorme tensão que sentia nela.
- Não brinques, que o caso é muito sério – repreendeu-o Nanda.
- Desculpa, não penses que não te levo a sério. Vá lá, podes falar que te ouvirei com toda a atenção – agora ele adoptara um tom contrito.
***
Ao ouvir chamar, em voz bem alta e alvoroçada: Mãe!,  o pensamento desviou-se imediatamente. Olhando para o outro lado da rua viu Luís ao lado da carrinha. Tinham acabado de chegar.
Imediatamente correu para ele, abraçando-o fortemente. Sem querer, as lágrimas assomaram aos seus olhas, mas não se deu ao trabalho de as reprimir.
Ao lado de Luís, com o bebé ao colo, a nora esperava, sorrindo. Por fim, Nanda voltou-se para ela dizendo:
- Tu és a Catarina, é claro! – e envolveu ambos, nora e neto, num apertado abraço. Depois, suavemente, tirou-lhe o bebé do colo, olhando-o com uma ternura infinita.
Duas senhoras que passavam, detiveram-se por momentos, olhando-os.
- Que cena comovente – comentou uma
- Parece um daqueles quadros antigos representativos da maternidade – respondeu a outra.
Na verdade, o amor do olhar de Nanda, observando o bebé, mais parecia uma expressão maternal do que “avóternal” … (**)
Tó Zé, junto à carrinha, observava-a. Repentinamente acercou-se de Nanda e, abraçando-a, juntamente com o neto, murmurou:
- Há muito tempo que eu não via uma cena tão bela e comovente. Sinto--me tão feliz ao ver-vos, minha querida! – e os olhos encheram-se-lhe de lágrimas, que tentou disfarçar.
Nanda sentiu um aperto no coração. Num flash muito rápido viu-se, com os seus filhos recém-nascidos no colo, e o ex-marido junto dela, acarinhando-os.
Com um imperceptível encolher de ombros afastou-se lentamente e não pronunciou uma palavra. Não o conseguiria fazer sem denunciar a sua emoção. 

(*) – “Anda mouro na costa” tem dois sentidos:
        a) Há indícios da iminência de algo inesperado e muito   
        problemático.
        b) Há hipótese de aparecer um pretendente amoroso.

(**) – Esta palavra não existe, evidentemente. Trata-se de uma
         liberdade linguística da autora.

 Maria Caiano Azevedo

NO PRÓXIMO DIA 14 HAVERÁ POSTAGEM EXTRA – É DIA DE ANIVERSÁRIO, 12 ANOS!

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XVI


SEGREDOS – CAPÍTULO XVI
 
SEGREDOS – CAPÍTULO XV
“… O Verão estava a chegar ao fim, por isso não era de estranhar que as manhãs fossem frescas – pensava ela enquanto caminhava, tentando afastar aquela má impressão que lhe causara o arrepio à saída de casa.
“Será que alguma coisa vai acontecer neste encontro”? … “

SEGREDOS – CAPÍTULO XVI
Ao entrar no Café Estrela Nanda verificou que o Araújo já lá estava. Isso não lhe agradou, pois poderia ser interpretado por ele como “falta de pontualidade” embora faltassem uns minutos para a hora marcada. Aliás, não tinham combinado uma hora certa, apenas tinham falado em “por volta das dez”, e ainda não eram dez horas.
De qualquer modo, ela voltou a sentir um ligeiro arrepio, sugestionada que estava pelo sonho estranho e o desconforto que sentira ao sair de casa.
Compôs o sorriso que conseguiu arranjar ao dirigir-se ao engenheiro:
- Ah! Já cá está! É imperdoável eu chegar depois de si, morando aqui tão perto…
- Não se penitencie, que não há motivo para isso – respondeu ele, com um largo sorriso. O que aconteceu é que, já que tinha que me levantar cedo – voltou a sorrir - aproveitei para fazer o meu footing, como pode comprovar pelo meu traje…
De facto Araújo estava em fato de treino e não com o habitual “fato e gravata” como Nanda sempre o vira, destoando completamente do elegante tailleur que ela vestia. Começava a arrepender-se de se ter esmerado tanto na aparência. Contudo, Araújo pô-la à vontade:
- Se você não se importasse eu levava-a já para o Centro Comercial e deixava-a na Ourivesaria. E enquanto lia o contrato que redigi, eu dava um saltinho a minha casa, que é muito perto, tomava um duche rápido e depois ia ter consigo. Só não o fiz ainda, e preferi passar já por aqui primeiro, apenas para que você não chegasse cá e ficasse à minha espera. Como vê… o atrasado sou eu – acrescentou com um sorriso.
Nanda começava a sentir-se mais descontraída. E pensava: “Eu e os meus pessimismos!” “Vai correr tudo bem”.
Concordando com a proposta do Araújo ambos se dirigiram ao carro e encaminharam-se para o Centro. Araújo acompanhou-a até à Ourivesaria, abriu a porta e, entrando no escritório, pegou num pequeno molho de chaves que estavam sobre a secretária e entregou-lhas, dizendo:
- Já mandei fazer chaves para si, o que significa que não aceitarei um “não” à proposta que em breve lhe vou apresentar. Deixe-me só ir pôr-me eu apresentável – disse com um largo sorriso. E afastou-se.
A maioria das lojas começava a abrir as portas; Nanda não se sentiu sozinha.
Seguindo a sugestão de Araújo começou a ler o contrato que ele redigira. Eram três folhas dactilografadas onde constavam os direitos e deveres de ambas as partes, empregado e empregador, (estas duas alíneas por preencher), estipulando um período experimental de seis meses. Durante esse tempo qualquer das partes o poderia rescindir, de comum acordo, sem qualquer direito a indemnizações.
Pela parte que concerne às obrigações do empregado Nanda verifica que lhe é atribuída uma grande responsabilidade. Para além de ter de tratar de toda a contabilidade é ainda responsável pelas duas empregadas que serão atendentes de balcão. Irá orientá-las em todos os aspectos: na forma de atender os clientes, organizando-lhes os horários – já que a loja estará aberta desde as dez da manhã até às dez da noite – períodos de férias, etc.
Nanda começa a temer que lhe esteja a ser exigido demasiado, até porque nunca exerceu funções deste género; sempre foi responsável apenas por si mesma e pelo seu próprio desempenho.
Leu e releu tudo, para se inteirar bem do que lhe estava a ser proposto.
Araújo regressou, vestido de fato e gravata como habitualmente. Em tom de brincadeira, comentou:
- Agora já posso estar ao pé de si sem me envergonhar!
Nanda correspondeu ao sorriso, entrando no tom alegre:
- Foi rápido a fazer a toalete. Olhe que eu demoro mais tempo…
- Claro! As senhoras demoram tempos infindos para se arranjarem! Se vão a uma festa, então, começam a preparar-se de véspera… E mesmo assim chegam atrasadas! – riu Araújo.
- Ai que grande mentira! Eu arrumo-me num ápice!
- Posso imaginar – troçou ele. Bom, mas vamos deixar-nos de piropos e passemos aos negócios. Leu todo o “testamento”?
- Sim, li tudo, e confesso que fiquei um pouco apreensiva…
- E porquê?
- Porque parece que está a exigir de mim uma grande responsabilidade… Eu posso responder pelo meu trabalho. Tenho consciência de que sou uma boa profissional, e em todos os empregos onde estive sempre recebi um bom “feedback” acerca do meu desempenho…
- E acha que eu não sei disso? – ripostou Araújo, com um sorriso. Eu tinha as minhas razões para insistir tanto consigo para que viesse trabalhar comigo…
- Calculo que tenha tirado informações a meu respeito, nem outra coisa seria de esperar… Mas, eu nunca estive a orientar o trabalho de ninguém, nem fui responsável pelo cumprimento da parte de terceiros. E isso assusta-me um pouco…
- Não há qualquer razão para sustos. Tenho a certeza de que você se vai sair muito bem. No fundo, as suas funções aqui serão como governar a sua casa. Quero que se sinta como se fosse a dona deste negócio. Até porque não tenciono passar cá muito tempo. A princípio até posso vir todos os dias, para lhe dar um certo apoio, ver se sente alguma dificuldade, se posso ajudar nalguma coisa. Mas… eu disse-lhe, tenho negócios no estrangeiro que me obrigarão a estar ausente muitas vezes. Para além do mais eu avisei-a de que “pago bem mas sou muito exigente” … lembra-se?
- Sim, lembro-me, claro.
- Pois então… falta-nos falar exactamente desse ponto – a remuneração. Veja se concorda com este número – e estendeu-lhe um papel com um valor escrito.
Nanda segurou no papel, leu uma vez e outra, engoliu em seco, e quase não acreditava nos seus olhos. Não conseguiu pronunciar uma palavra.
Araújo olhava-a, esperando uma reacção, que tardava…
- Claro que essa é a minha proposta… disse, com certa preocupação. Mas se você entender pode apresentar uma contraproposta… Não vai ser por causa da sua remuneração que não vamos fechar o nosso contracto.
- Não, não é isso, eu fiquei um pouco surpresa, apenas – gaguejou Nanda. Acho que você tinha razão quando disse que “a um bom pagamento corresponderia uma boa prestação de serviços” – não foi por estas palavras mas era isto que queria dizer…
- Efectivamente, assim é. Considero uma remuneração justa para o muito que estou a exigir de si, mas, como lhe disse, podemos considerar um acerto… - contrapôs Araújo.
- Não, não me parece necessário qualquer acerto, até porque temos um período experimental de seis meses, não é isso? – respondeu Nanda, já mais recomposta.
- Exactamente. Como você sabe, os períodos experimentais não costumam ser tão prolongados, mas a minha ideia é esta: se o negócio correr bem, e estivermos satisfeitos um com o outro, continuaremos, e você passará a efectiva; se correr mal… trespasso a Orvalho de Prata, e cada um segue o seu rumo, sem direito a indemnizações, de parte a parte…
- Parece-me justo – respondeu Nanda.
- Vamos então formalizar esta papelada. Preciso de uns dados seus, como nome completo, morada, identificação…
- Com certeza.
Depois de tudo em ordem despediram-se, concordando que inaugurariam a ourivesaria no próximo sábado. Araújo ofereceu-se para levá-la a casa, mas ela recusou: “A distância não era assim tão grande, e aproveitava para fazer o que ele fizera logo pela manhã – o seu footing”. “Amanhã lá estaria, como combinado, para tratar dos preparativos para a inauguração”.
À saída Nanda sentia-se leve como uma pluma. Parecia que os seus pés nem tocavam o chão, era como se estivesse a voar…
Afinal, depois de tantos maus presságios – via, agora, que tudo não passara de imaginação sua – o dia começara duma forma excepcional. Ainda lhe custava a creditar na proposta de vencimento que Araújo lhe fizera. Estava a léguas de distância de tudo que ela pudesse imaginar. “É certo que vou ter uma responsabilidade enorme. O ouro não está, propriamente, ao preço da chuva, e numa ourivesaria, grande como a Orvalho de Prata, movimentam-se milhões. Estou a prever passar muitas noites sem dormir, com a preocupação… Mas vai valer a pena!”
Telefonou a Bela para combinar almoçarem juntas e contar-lhe as últimas novidades.
Apetecia-lhe cantar, mas lembrou-se que estava na rua e, sorrindo, entoou para si mesma a sua canção preferida – a primeira que dançara com Alessandro, no bar da praia, no seu 18º. Aniversário…
E, irresistivelmente, o seu pensamento voou… Aquela última noite…
***
"… Depois do telefonema puseram-se a caminho do apartamento de Alessandro…"
Aquela noite jamais se apagou da memória de Nanda. Amaram-se até à exaustão, com um frenesim incontrolável. Ambos tinham a sensação de que esta era a última vez em que estariam juntos, e por isso não podiam perder um só segundo. Entre espasmos de prazer e lágrimas doloridas, faziam juras de amor eterno.
Sentiam-se únicos à face da Terra. A vida parara no tempo. Todos os relógios do mundo tinham suspendido a sua contagem.
Os corpos fundiam-se, em comunhão total. Murmuravam palavras inflamadas, que lhes provocavam arrepios de prazer.
Desejavam que a noite jamais acabasse, que desaparecesse tudo em redor, que ficassem assim, abraçados, para toda a eternidade, quais estátuas de sal, petrificadas.
Mas o tempo não parava, por mais que eles o desejassem. Os alvores matinais encontraram-nos acordados, desesperados pelo aproximar da separação que os aguardava.
Entre lágrimas e suspiros abraçavam-se uma e outra vez, querendo fugir ao inevitável.
Mas a realidade acabou por mostrar-lhes que era chegada a hora de Alessandro ir para o aeroporto. Nanda queria acompanhá-lo, mas ele conseguiu dissuadi-la, preferindo que se despedissem ali mesmo, sem testemunhas.
A custo, separaram-se. A pedido de Alessandro Nanda saiu, como se fossem encontrar-se mais tarde, talvez para almoçar…
Foi a última vez que se viram. O contacto, por carta, manteve-se por largos meses, mas mesmo esse elo acabou por se quebrar. Nanda ficou com uma recordação para toda a vida.

Maria Caiano Azevedo

domingo, 1 de dezembro de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XV


SEGREDOS – CAPÍTULO XV


 SEGREDOS – CAPÍTULO XIV
“…Como se fosse preciso… Linda e elegante como a Nanda é, não precisa desses sonos… e qualquer trapinho lhe fica bem.
- Concordo com a Amélia – acrescentou Carla.
- Vocês são muito simpáticas, agradeço muito, mas prefiro tomar as minhas providências. Vamos, Tejo! 
Nanda abriu a porta da sua casa e despediu-se com um “até amanhã” …

SEGREDOS – CAPÍTULO XV
Depois de Nanda se retirar Carla e Amélia ainda ficaram uns momentos a conversar até que acabaram por se despedir.
Amélia, ao subir as escadas para sua casa, ia pensando:
“Ainda bem que a Nanda puxou a conversa da dança no varão. Afinal, a Carla acolheu a ideia muito melhor do que eu poderia imaginar; e eu sinto um alívio enorme em não ter de manter este segredo que tanto me incomoda. Não é que me pese a consciência, pois nunca fiz nada menos digno naquele bar. Mas não gosto de segredos; sempre me orientei pela ideia de que a vida deve ser como um livro aberto, sem nada a esconder”.
Quando chegou ao patamar pareceu-lhe ver uma sombra a tentar esconder-se. Sorriu, pois quase tinha a certeza de que, mais uma vez, o vizinho de cima, António, estava à sua espreita.
Relembrando a conversa de Nanda, com um sorriso no rosto entrou em casa e foi tratar do seu jantar.
Até que a ideia da amiga não lhe desagradava de todo. Bem vistas as coisas… porque não? O António, embora não fosse nenhum jovem, não era ainda um velho.
- Terá mais uns oito ou dez anos do que eu - murmurou para si mesma.
É viúvo e tem, ao que consta, uma boa situação financeira. Foi sargento no tempo da Guerra Colonial, e por lá andou. Tanto quanto se sabe foi um herói, o que lhe valeu algumas medalhas que tem num expositor – diz quem já foi a sua casa.
Frequenta uma universidade sénior, porque é de opinião que “o saber não ocupa lugar”; ao mesmo tempo isto permite-lhe preencher as longas horas em que nada tem para fazer. Em casa entretém-se a ouvir música, a ler, e a tratar das sardinheiras que tem na varanda e que, ao regar, propositadamente faz extravasar a água dos vasos, que cai na varanda da vizinha de baixo, Amélia, só para a arreliar.
Gosta de cantar e tem uma bela voz de barítono. Coloca na aparelhagem os discos de áreas de ópera que ele acompanha, enchendo o prédio de música e encantando os vizinhos, excepto Amélia, que se farta de refilar, mas que, no fundo gosta de o ouvir
Tem dois gatos – os quais preenchem parte do seu tempo - que gostam muito de se lhe sentar no colo. De dia não se dá por eles, mas de noite divertem-se em grandes correrias, o que é motivo para Amélia se queixar do barulho que não a deixa descansar.
No fundo, todas as suas reclamações são apenas pretextos para chamar a atenção de António. A verdade é que, não o confessando nem sequer o querendo reconhecer, sente uma forte atracção por ele.
Ruminando estes pensamentos jantou, vestiu o pijama, e murmurou para si mesma: “Já que hoje não tenho alunas vou mas é deitar-me, que amanhã, com a ida aos Bombeiros, tenho um dia cheio de trabalho”.

Nanda entrou no seu apartamento e depois de comer uma refeição ligeira, preparou as roupas para o dia seguinte, e pôs-se à vontade para se deitar. Mas, com a excitação que lhe causava a ideia do encontro do dia seguinte com o Araújo, o sono tinha desaparecido. Apesar da hora adiantada, foi para a sala.
Ligou a música em tom baixo, e abriu a porta do bar, do lado direito do aparador. Olhou, procurando a bebida que iria beber. Não lhe apetecia muito um licor – àquela hora não queria uma bebida doce. Optou por Whisky. Serviu-se, foi à cozinha buscar gelo, e, à média luz, recostou-se no sofá.
De olhos fechados deliciava-se ouvindo a música suave, tomando um gole de whisky, vagarosamente. Sem opor resistência, como num sonho, deixava-se embalar por aquela quietude.
Lentamente, como que a levitar, encaminhou-se para a janela e olhou lá para fora. Na semi-claridade do amanhecer avistou, na praia, um vulto que lhe pareceu familiar.
Mas… Não! Não podia ser verdade! Aquela figura que caminhava na areia, a princípio apenas difusa, à medida que se aproximava… sim, não havia dúvidas! Era o Luís. Mas porque andaria ele na praia, àquela hora matinal?
Na longínqua linha do horizonte vislumbravam-se já os primeiros rubores da alvorada, anunciando mais um dia de sol e calor.
Na praia, Luís, descalço na areia fria, um ar desalentado, ombros descaídos, no rosto bronzeado as fundas olheiras denunciavam uma longa noite de insónia.
Com visível esforço ia caminhando lentamente quando, inesperadamente, avistou o seu irmão Miguel.
Este, alegremente, aproximou-se em passo rápido para saudar o irmão; mas imobilizou-se ao atentar bem no aspecto de Luís. Com ar de espanto, exclamou:
- Eh! Pá, estás cá com uma cara que mete medo ao susto!
- Não me digas nada, pá. Nem imaginas o que me aconteceu.
- Não, não posso imaginar o que te pôs nesse estado! Viste algum fantasma?
- Bem pior do que isso… mas antes diz-me: o que fazes tu aqui na praia a estas horas, com esse ar tão feliz? Ainda mal nasceu o dia…
- Eu conto, sim, mas depois. Primeiro quero saber de ti.
Nanda abria a boca de espanto. Como era possível? O seu filho Miguel vivia na Bélgica, com a Farida: o Luís ainda ontem estava no Alentejo, acabara de ser pai… A que propósito estavam os dois ali na praia, conversando como se se tivessem visto na véspera?
Resolveu continuar a prestar atenção à conversa dos dois irmãos.
- Tudo bem, então eu falo primeiro – respondeu Luís.
Ontem, para festejar o nascimento do meu filho (a mãe contou-te… penso eu) fui com uns amigos beber umas granjolas. A certa altura o Xico (lembras-te dele…) propôs que passássemos para bebidas mais fortes. A ocasião até justificava… e todos concordaram.
Já estávamos bem bebidos quando entra no bar um grupo de mulheres, todas em grande risota. Depois de ligeira hesitação, cochicharam e dirigiram-se para a nossa mesa. Imagina quem fazia parte do grupo… A Bela!
- O quê? A Bela, amiga da mãe?
- Claro! Conheces mais alguma Bela?
- Não. Mas continua!
Neste ponto Nanda sentiu-se desfalecer. Bela, a sua melhor amiga, num bar “daqueles”? Não podia ser. O seu filho Luís devia estar completamente bêbado e tinha-a confundido com uma galdéria qualquer!...
Com esta ideia recuperou a calma e continuou ouvindo a conversa. Luís dizia:
- Sentaram-se ao pé de nós e pediram bebidas iguais às nossas. Não sei quanto tempo depois disseram que se iam embora, e ali mesmo se formaram casais… A mim calhou-me a Bela.
- O quê? Estás a brincar!...
- Antes estivesse… Mas não estou, aconteceu mesmo. Fui com a Bela para casa dela. Levou-me para o quarto e… enfim, podes imaginar o que se seguiu. Tu conheces a Bela…
- Conheço, conheço…
- Sabes que ela consegue ser espantosa! Mete-te no coração e tu nem te atreves a reagir…
- Lá isso é verdade…
-Pois então! Quando dei com aqueles olhos líquidos, que prometiam delírios, a fixarem-me intensamente, quando me senti docemente envolvido nos seus braços, a Bela desprendeu-se, foi até à porta do quarto, abriu-a, e, em altos brados, exclamou:
- SURPRESA!
Foi mesmo uma surpresa, uma enorme surpresa!
Afastando-se para o lado apresentou-me uma mulher horrenda!
Não era ainda velha, mas feia como a noite dos trovões! Um olho abaixo e outro acima, mirando cada um para seu lado, a boca torta, desdentada, ostentando um sorriso alvar. Só lhe faltavam os pêlos no nariz para ser uma autêntica bruxa, saída de um conto de Andersen.
- E qual foi a tua reacção?
- A princípio fiquei sem acção. Mas quando vi o riso de escárnio e gozo na cara da Bela… atirei-me – literalmente – pela janela, meti-me no carro, e vim para aqui. Sabes como o mar é para mim um calmante…
- Razão tens tu para estar com esse aspecto horrível…
- Digo-te, foi a pior experiência da minha vida. Mas diz-me tu agora: com esse ar tão feliz…onde passaste a noite?
- Eu? Eu… passei a noite com a Bela.

O estrondo de um copo a estilhaçar-se no chão fez estremecer e acordar Nanda, sentada no sofá. O Tejo, deitado a seus pés, deu um salto, olhando a dona, espantado.
Nanda, estremunhada, pensou: “Mas que sonho tão disparatado! Terá algum significado? Sonhar com os meus filhos… é natural. Ainda para mais com a vinda do Luís, amanhã, e a promessa do Miguel de vir de férias brevemente… Mas tudo o resto é tão sem nexo! E a que propósito aparece a Bela no meio de toda esta confusão? Oxalá não seja prenúncio de alguma coisa má…
E como fui adormecer aqui no sofá? “
Aquela sensação estranha não a deixava ter sossego. Não conseguia perceber o motivo… mas sentia-se incomodada. Era como se “algo” quisesse avisá-la de algum perigo que a espreitava.
Num impulso pegou no telemóvel e, esquecendo a hora tardia, ligou para Bela.
Esta ficou admiradíssima ao ouvir a voz da amiga.
- Então, querida, que se passa? – perguntou num tom de voz bastante apreensivo.
- Nada de especial, apenas… apeteceu-me falar contigo. Não sei porquê adormeci no sofá e, vê lá tu que sonhei contigo! – disse dum modo que pretendia parecer despreocupado.
- É sempre um prazer falar contigo, tu sabes, mas a estas horas já não esperava fazê-lo. Embora hoje não me tenhas ligado – acrescentou com mágoa na voz.
- Desculpa-me, querida, mas foi um dia bastante exaustivo. Já te contei que o Luís vem amanhã para cima?
- Sim, contaste, e que é o Tó Zé que vai buscá-los. Imagino a tua ansiedade para conheceres o teu netinho…
- É verdade que estou muito ansiosa. Mas as coisas acontecem todas ao mesmo tempo. Amanhã também é o dia em que vou falar com o engenheiro Araújo.
- Ah, pois – respondeu Bela em tom de desagrado.
Se, por um lado estava muito feliz porque a sua amiga tinha, finalmente, conseguido arranjar trabalho, por outro lado custava-lhe conformar-se que ela não quisesse ir trabalhar para a empresa do seu pai.
Nanda, ainda com aquela sensação estranha, perguntou:
- E o teu dia como foi? Fizeste alguma coisa de especial?
- Não, nada de especial, a mesma rotina de sempre.
- Nem sequer saíste à noite para tomar um café?
- Não. Talvez por ter sido um dia sensaborão – e sem sequer me telefonares – não me apeteceu sair. Sentei-me na sala, pus música baixo, liguei a televisão sem som… e pronto, assim passei a noite. Agora estava para me ir deitar quando ouvi o telemóvel e vi que eras tu, senão nem sequer teria atendido. – respondeu Bela.
Despediram-se com os beijinhos habituais. Nanda sentiu-se mais descansada depois de falar com a sua melhor amiga. Não sabia explicar porquê mas o facto de Bela lhe ter dito que não saíra de casa à noite deu-lhe um certo conforto.
A noite não foi muito reparadora. Dormiu sonos curtos e inquietos.
                                                  *
A temperatura baixara bastante durante a noite.
Nanda sentiu um arrepio ao sair de casa para ir ao encontro de Araújo.
“Este arrepio será um mau presságio? “- pensou
Felizmente vestira uma blusa de mangas compridas por debaixo do elegante tailleur de meia estação.
O Verão estava a chegar ao fim, por isso não era de estranhar que as manhãs fossem frescas – pensava ela enquanto caminhava, tentando afastar aquela má impressão que lhe causara o arrepio à saída de casa.
“Será que alguma coisa vai acontecer neste encontro”?
  
Maria Caiano Azevedo