quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

DIA DE ANIVERSÁRIO

FESTEJAR OU NÃO FESTEJAR O (11º.) ANIVERSÁRIO


No meio de todo o stress do dia-a-dia nada mais justo do que festejar o  Aniversário não fazendo nada.
Isso foi o que REALMENTE pensei. Mas… como conseguir isso?
Fácil – ir até à praia e aí esquecer tudo e todos. Levar o computador – afinal o aniversariante, o blogue, está dentro dele – estender a toalha na areia e deitar-me (com ele, computador, ao lado) e simplesmente ignorar o mundo que nos rodeia…
 Mas… nesta altura do ano, no nosso país, a praia é pouco convidativa.
Posta de parte a ideia da praia… que tal ir conhecer uma maravilha da Natureza? As Cataratas do Iguaçu, por exemplo (sempre foi o meu sonho).
Ná… é muito longe, e um dia só não chega para ir e vir, quanto mais para conhecer.
Não fazer nada é tão difícil! Não me ocorre nada sobre como não fazer nada… Ou antes, as ideias que me vêm à cabeça são totalmente impraticáveis.

E, pensando bem,  a verdade é que festejar Aniversário até é bom. É o mesmo que celebrar a própria vida,  além de contribuir para o nosso equilíbrio emocional.
Isto não são palavras vãs. Quantas vezes, ao longo destes onze anos, esta “CASA” me serviu de refúgio, ajudando a pôr em segundo plano preocupações, arrelias, pequenas depressões, situações difíceis que me pareciam insuportáveis…enfim, aborrecimentos com que a vida se encarrega de nos presentear de vez em quando?

Por falar em presentear… tenho que arranjar alguma coisa para dar de presente aos convidados. Eu não vou convidar ninguém, é claro, mas todos nós sabemos como é, aparecem mesmo sem ser convidados! E depois, não ter nada para oferecer… é uma vergonha, convenhamos.
Sabem que mais? Vou já para a cozinha, para não ser apanhada desprevenida. Vejam o que vou preparar…
Aperitivos, salgadinhos,  petit fours, alguma fruta… que sabe sempre bem...


E, para terminar… TCHAM, TCHAM, TCHAM, TCHAM,!


Uma fatia de bolo e… Tchim, tchim… 


Escolham a língua em que mais gostarem de brindar e... brindem comigo!

Saúde! ; Salud! ;  Santé! ;  Cheers! ;  Prost! ;  Proost! ;  Cin Cin! ;  Za Zdorovye! ;   Skål! ;  Şerefe! ;  Yamas! ; Na zdorowie! ;  Kanpai!
(Portugal, Espanha, França, Estados Unidos / Inglaterra, Alemanha, Holanda, Itália, Rússia, Dinamarca/ Noruega / Suíça, Turquia, Grécia, Polónia, Japão)

OBRIGADA A TODA/OS PELA VOSSA PRESENÇA!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS VII

SEGREDOS - CAPÍTULO VII                                       


… Mas, de facto está a fazer-se tarde, também tenho que ir buscar os gémeos ao colégio…
- Ah! Mas que indelicadeza a minha! Com o entusiasmo da conversa esqueci-me de perguntar pelos meninos… Eles estão bem?
- Sim, estão. A semana passada o Tiago pregou-me um susto, tive que o levar ao hospital, mas não foi nada de grave. Não vejo é a hora de poderem ser operados…
- Pois… sabemos como é a saúde em Portugal… respondeu Nanda, levantando-se. Eu vou também tratar do “meu bebé” Tejo, antes que aconteça alguma fatalidade líquida lá em casa…

SEGREDOS – CAPÍTULO VII

Como seria de esperar o Tejo estava ansioso por ir à rua. Fora lá de manhã, mas numa saída muito rápida, que nem lhe deixara cheiriscar as árvores habituais. Quantos amigos seus não teriam já marcado o território que a ele pertencia!? E a dona que não vinha! Isto é mesmo vida de cão!
Quando a viu aparecer saltou, dançou à sua volta, ladrando alegremente numa ruidosa manifestação de júbilo.
Na rua corria de árvore para árvore, rapidamente, como se tivesse receio de que o passeio terminasse antes que ele tivesse tempo de verificar todos os locais e não pudesse assinalar a sua passagem.
Aos poucos foi-se acalmando, dando algum sossego a Nanda, que não o largava da trela, e que entretanto ia pensando na sua conversa com Carla.
“Que mulher simpática! O marido, Diogo, o engenheiro informático, também é muito educado. E que grandes corações têm aquelas duas almas! Adoptarem dois gémeos quase recém-nascidos com aquele problema de saúde… lábio leporino... E logo os dois! Imagine-se o dinheirão que vai ser preciso para as duas cirurgias…
Não há dúvida, poucas pessoas adoptariam crianças assim. Se não fossem estes pais, que destino estaria reservado a estes meninos? Andarem eternamente de instituição em instituição… Apesar do azar de terem nascido ambos com esse defeito, tiveram uma sorte enorme em lhes aparecerem estes pais…”
O passeio já ia longo, o Tejo olhava os troncos das árvores com indiferença, e Nanda deu a volta por terminada.
A noite descia a passos largos. Sentada no sofá da sala, com o Tejo, exausto da longa passeata, a seus pés, ligou a televisão. E enquanto as imagens passavam quase sem as ver ia pensando em tudo o que acontecera nesse dia.
Agora, calmamente, podia “dissecar” todas as informações que António lhe dera acerca do Carvalho Araújo. “Onde terei posto o cartão que ele me deu? Afinal, devo ter feito bem em não o deitar ao lixo…”
Quando voltou a si, a sala encontrava-se às escuras. Tejo aproveitava para dormir a sono solto. Estava na altura de acender as luzes.
***
Nanda levantou-se cedo. Dormiu bem e estava bem-disposta.
Tomou um pequeno-almoço com baixas calorias, pois a sua preocupação com a figura que todos elogiavam não a deixava cometer loucuras alimentares. Tinha consciência de que, com os seus 47 anos, não podia facilitar. E como presentemente não podia – ou, pelo menos, não devia… - dar-se ao luxo de frequentar o ginásio, era muito rigorosa com a alimentação e as caminhadas.
Tinha combinado encontrar-se com Bela exactamente para isso – caminhar.
Depois de levar o Tejo a satisfazer as suas necessidades matinais, passou por casa para vestir uma roupa de desporto e foi ao encontro da amiga. Esta encontrava-se sentada à mesa do café, com uma chávena vazia sobre a mesa e, à sua frente, o tablet aberto.
Depois dos cumprimentos que, entre elas, eram sempre de tal modo efusivos que, quem as observasse, iria pensar que não se viam “há séculos”, Bela perguntou, abruptamente:
- Sabes o que é um “count down”?
- Sim, sei… é uma contagem regressiva. Mas por que perguntas?
- E sabes quantas pessoas em Portugal sabem o que isso significa?
- Não faço a menor ideia… Calculo que muitas não saberão…
- E sabes quantas palavras portuguesas - frisou o “portuguesas” - são usadas nas televisões dos países cuja língua é o inglês… ou o francês, ou o japonês…? – insistia Bela
- Também não faço ideia… mas calculo que nenhuma. Mas porquê tantas perguntas?
- É porque, enquanto esperava por ti, pus-me aqui a assistir a um desses programas da manhã que passam metade do tempo a anunciar que dão dinheiro…
- Sim, há vários programas desses…
- Pois… só que desconhecem que a língua portuguesa é composta por cerca de 400.000 vocábulos e por isso não há necessidade de recorrer a palavras estrangeiras. Para além do mais, estes programas são dirigidos essencialmente a um público não muito letrado, portanto deveria haver o cuidado de falar de forma a que todos entendessem. Tenho a certeza que muitos dos ouvintes não sabem o que significa count down… - Bela não disfarçava a irritação.
- Desculpa, querida, mas tu és muito exigente, e estás sempre pronta para uma alfinetadazinha… – comentou Nanda, com um sorriso.
- Por acaso achas que não tenho razão? – Bela estava bastante irritada.
- Não é que não tenhas razão, mas a verdade é que em Portugal, não sei se devido ao crescimento acelerado do turismo, usa-se muito intervalar palavras inglesas nas conversas. Até nas novelas se vê isso… - Nanda tentava contemporizar
- Tu chamas-lhe turismo, já eu chamar-lhe-ia… servilismo – ripostou Bela, que continuava de mau humor.
- O que acontece, minha querida, é que tu és uma purista da língua portuguesa, e por isso estas modernices causam-te brotoejas… - Nanda tentava levantar o ânimo da amiga que, quando se tratava de assuntos deste género, ficava sempre abalado.
Mas afinal – continuou – vamos ou não vamos caminhar?
- Queres que eu seja mesmo sincera? Só te desafiei para a caminhada para te obrigar a vires para ao pé de mim… - sorriu Bela, já mais bem-disposta. Há tanto tempo que não passamos um tempinho simplesmente a conversar… - e fez um arzinho de amuo, que a fazia parecer-se com uma criança mimada.
- Tu sabes muito… - sorriu Nanda, que não conseguia resistir quando a amiga punha aquele ar a que ela chamava de “cachorrinho abandonado”. Pois muito bem, aqui me tens ao teu dispor. Mas não precisavas de usar de subterfúgios… Sabes que basta um gesto teu para eu vir a correr – ambas riram alegremente.
- Por acaso até tenho uma novidade para te contar – continuou Nanda.
- Pois conta, que eu gosto muito de novidades. Mas antes deixa-me fazer-te uma pergunta.
- Faz lá, perguntadeira – riu Nanda.
-Na conversa que tiveste com a tua amiga Carla acerca do Natal falaste-lhe nas janeiras? Tendo vivido sempre em Lisboa certamente não sabe o que isso é…
- Claro que falei, mas só agora de manhã. Encontrei-a à saída de casa.
- Não sei se estou a gostar de tantos encontros… - Bela fingiu-se amuada.
- Não sejas pateta! – Nanda riu com vontade. Tu és e sempre serás a minha melhor amiga.
- Pois é bom que não o esqueças… - ameaçou Bela, continuando a fingir-se despeitada.
- E se falássemos como pessoas crescidinhas? Voltemos ao assunto. Falei à Carla não só nas Janeiras mas também nos Reis Magos. De facto ela sabia de tudo isso duma forma muito vaga. Fiquei com a impressão de que a família dela não liga muito para essas coisas.
- E achas que ela gostou? Explicaste tudo bem? – Bela interessava-se muito por estes assuntos, e era de um grande preciosismo nos pormenores.
- Sim e sim. Sim, ela gostou e sim eu expliquei tudo! – Nanda respondeu num tom meio enfadado.
- Não precisas de te abespinhar, eu só queria saber se tinhas contado tudo direitinho, sem te esqueceres de nada… Lembraste-te da romã? – perguntou Bela, num tom duvidoso.
- Estou feita contigo! Olha, não queres ir lá falar com a Carla e fazeres-lhe um exame para comprovar que sou boa professora?
- Calma, tu sabes como é importante o pormenor da romã. Imagina que ela quer seguir esse ritual e não sabe bem as regras… As coisas, quando se fazem, têm que ser bem feitas.
- Eu sei, dona Perfeição!
Nanda optou por não ligar grande importância às dúvidas de Bela. Ela sabia que a amiga era uma perfeccionista em tudo, e quando transmitia algo que ela considerava importante, ia atá aos mais ínfimos pormenores.
- Para que não fiques para aí a ruminar no assunto – que eu sei muito bem como tu és… - vou-te contar tudo. RESUMIDAMENTE, é claro. Presta bem atenção para depois não vires para cá com perguntas.
- Sou toda ouvidos… murmurou Bela.
- Então… acerca das Janeiras eu disse o seguinte:
- “Cantar as Janeiras” era uma tradição, não só em Portugal mas também na maior parte dos países europeus (desconheço o que, a este respeito, se passa fora da Europa). Consistia na formação de grupos de homens e mulheres que, no início do ano, andavam cantando de porta em porta, geralmente cânticos de cariz religioso, para desejarem feliz ano novo. Os donos das casas ofereciam aos cantantes frutos secos, nozes e castanhas, vinho, e até dinheiro.
No final, as guloseimas eram consumidas num jantar em que todos participavam, e o dinheiro era para as almas do Purgatório – “as alminhas” - ou seja, era entregue na igreja.
Nalgumas localidades as Janeiras prolongavam-se até ao final do mês de Janeiro; noutras, terminavam no Dia de Reis.
Actualmente esta tradição está quase em desuso, mantendo-se, apenas, nalgumas regiões da província.”
- Muito bem – aplaudiu Bela.
- Quanto ao Dia de Reis a explicação foi mais simples porque… quem não sabe o que é o Dia de Reis?
“Toda a gente sabe que é neste dia que se celebra a chegada dos três Reis Magos ao presépio onde se encontrava Jesus, e as prendas que levavam para oferecer ao Menino.
O que talvez poucos saibam é o significado dessas ofertas, que é o seguinte:
- O OURO simbolizava a Realeza. Era, à época, o metal mais valioso que existia.
- O INCENSO significava a Fé. Quando é queimado exala um perfume muito agradável.
- A MIRRA representava a Pureza. Trata-se de uma resina rara, extraída da casca da árvore com o mesmo nome. É perfumada e valiosa pelas suas propriedades medicinais e curativas.
Todos os presentes eram, portanto, dignos de um rei – o Rei dos Judeus – tal como os três Reis Magos consideravam o Menino. “
Nanda calou-se, olhando para Bela, que estava verdadeiramente emocionada.
- Perfeito! – murmurou. E acrescentou logo de seguida, tentando disfarçar a emoção: Eu não teria feito melhor. É claro que não te esqueceste da romã – disse como que a medo, temendo a reacção de Nanda.
É claro! … – respondeu Nanda, já com uma pontinha de irritação. Queres que te diga também o que contei à Carla a esse respeito? Pois então ouve:
“Em tempos idos acreditava-se – e ainda hoje há quem creia – que os pedidos feitos aos três Reis Magos no dia 6 de Janeiro seriam atendidos, e que o ano decorreria próspero, com muita sorte, e que não faltaria dinheiro. Mas… para que isso acontecesse, os pedidos teriam que ser acompanhados pela ingestão de bagos de romã. Contudo, não era qualquer fruta que servia; a romã tinha que ter intactos os “sete bicos”. O fruto tem no topo como que uma coroa formada por sete pontas. Essas pontas não podiam ter nada quebrado, tinham que estar perfeitas. Era a chamada “romã de sete bicos”.
- Ufa! Estou cansada de tanto falar. E tu estás satisfeita? – disse Nanda, querendo dar o assunto por encerrado.
- Desculpa! – Bela apresentava um ar verdadeiramente contrito. Sei que fui demasiado insistente, mas tu conheces-me… Sabes como gosto de todas estas coisas e desejaria que estas tradições – e tantas outras – se transmitissem de pais a filhos e netos, e não se perdessem no esquecimento.
- Sim, eu sei, não te preocupes. Eu própria aprecio todos estes costumes antigos, que tenho bem presentes porque os praticávamos na casa dos meus avós. E continuei com a tradição, tanto quanto possível, enquanto os meus filhos estiveram em casa… - respondeu Nanda, com um ar meio ausente.
Bela tinha ficado muito bem-disposta. A sua amiga tinha prestado uma informação perfeita a Carla, que assim aumentara os seus conhecimentos. Propôs mudarem de assunto.
- Nanda, minha amiga preferida – disse, rindo – vamos mudar de assunto? Disseste que tinhas uma novidade para me contar e eu interrompi-te… Desculpa!
- Sim, chega de falarmos de costumes e tradições. Eu tenho, de facto, uma coisa para te contar. Tu sabes como tenho andado apoquentada por não conseguir trabalho – começou Nanda.
- Se sei! E tu sabes como me aflige ver-te assim – respondeu Bela, aparentando verdadeira preocupação. E continuou:
- E, pela milionésima vez volto a dizer-te que não consigo entender o motivo por que não queres vir trabalhar comigo lá na empresa do meu pai… Não tem conta o número de vezes em que te falei neste assunto…
Já pensaste como seria bom trabalharmos juntas? Olha que o meu pai paga bem e é um patrão óptimo. Põe os olhos em mim. Hoje é dia de trabalho, e aqui estou eu, perfeitamente à vontade, sem sequer ter posto os pés no escritório. É certo que o meu pai me dá toda a liberdade de horários porque sabe que eu sou cumpridora, nunca falho com compromissos… e que respeito muito o trabalho que faço. E tenho a certeza que contigo não seria diferente…
Querida, deixa-me falar com o meu pai. Pai, pai, pai…
A palavra “pai” ficou ecoando na cabeça de Nanda…
Num relance lembrou o que acontecera há tantos anos, e que a marcara tão profundamente.   
*
 [Era um dia de Verão radioso que acabou por se transformar num dia cinzento e triste.
Com os seus irrequietos 15 anos, amigas inseparáveis, Nanda e Bela andavam sempre juntas. Naquele dia tinham combinado que Nanda passaria pela casa de Bela para esta lhe mostrar umas roupas que a mãe lhe comprara, e de seguida irem à praia.
Depois de tocar à campainha, Nanda estranhou ser o pai de Bela a abrir-lhe a porta. O normal seria que, àquela hora, ele estivesse na sua empresa. Teria acontecido algo que o tivesse obrigado a vir a casa? Mas rapidamente a estranheza desapareceu, ao ver o seu ar perfeitamente normal.
Como tantas vezes fazia o pai de Bela abraçou-a, gesto que Nanda retribuiu, pois gostava muito dele, sempre atencioso e bem-disposto. Este abraço prolongou-se um pouco mais do que o habitual, sem que Nanda lhe atribuísse qualquer significado especial. Só sentiu um certo desconforto quando a mão dele deslisou até às suas nádegas, comprimindo-lhe o corpo contra o seu. Nanda, apesar de bastante jovem, pôde perceber, pelo contacto com o seu corpo, que ele estava muito excitado. Horrorizada e ao mesmo tempo incrédula, começou a afastá-lo suavemente, não querendo dar-lhe a entender do que se tinha apercebido. Sentindo a pressão dela para o afastar ele reagiu, encostando-a a si com mais força, procurando beijar-lhe o pescoço e murmurando palavras doces:
- Gosto tanto de ti! Não. Não me afastes, eu sei que tu também gostas de mim. Deixa-me fazer-te feliz.
Nunca houve na sua atitude a mínima agressividade. Mas a força com que a segurava não deixava lugar para dúvidas: queria violentá-la. Nanda estava literalmente siderada. Sentia faltarem-lhe as forças para afastar de si aquele verdadeiro rochedo que, a cada gesto seu, a prendia mais fortemente, como que a querer mostrar-lhe que ela não tinha outra hipótese senão ceder à sua vontade.
Nanda pensou em gritar mas sabia que a enorme casa se encontrava vazia; doutro modo, inteligente como era, o homem não se teria atrevido a tomar tal atitude.
Continuava mantendo-a fortemente encostada a si, apertando-a com um braço que parecia de ferro. Com a mão liberta afagava-lhe delicadamente o rosto, alisando-lhe os longos cabelos, ao mesmo tempo que murmurava palavras de uma doçura enorme.
Queria satisfazer os seus desejos libidinosos mas sem hostilizar a vítima. Ardilosamente pensava consigo mesmo que, deste modo, futuramente ela cederia aos seus desejos sem opor resistência.

Maria Caiano Azevedo

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS VI

SEGREDOS - CAPÍTULO VI

… Depois de pedir uma “Salada César com Frango ”Nanda reparou que o homem que estivera no bar se levantara e saíra do restaurante. Na rua dirigiu-se a um carro de gama alta, entrou e rapidamente pôs-se em marcha.
Nanda pensou: “Aquela cara não me é estranha…” E, dirigindo-se ao empregado:
- Conhece aquele senhor que acabou de sair do bar? …

SEGREDOS – CAPÍTULO VI

- Conheço sim, D. Nanda. É o engenheiro Carvalho Araújo. A senhora não o conhece?
De repente Nanda lembrou-se. Claro! Era isso mesmo. O tal Carvalho Araújo do cartão, que a abordara junto ao Centro de Saúde. Sim, era ele mesmo. Disfarçando, Nanda esboçou um sorriso e perguntou:
- E por que havia de o conhecer?
- Como a senhora é doutora em finanças… pensei…
Nanda deu uma gargalhada.
- Não, nem sou doutora em finanças nem o conheço.
- Peço muita desculpa, mas eu acho que ouvi dizer que a senhora era doutora em finanças…
- Não, António, eu apenas tenho um curso superior de contabilidade, que é muito diferente.
- A senhora desculpe, mas para mim é tudo a mesma coisa. Nenhum empresário consegue governar as suas finanças se não perceber de contabilidade… é ou não é?
Nanda sorriu de novo. Até que o empregado não deixava de ter razão… E sabia raciocinar…
- Na verdade, se o seu patrão não tiver a contabilidade em ordem… lá se vão as finanças, e chega ao fim do mês sem dinheiro para pagar o seu ordenado.
- P’ra longe vá o agoiro, D. Nanda. Eu tenho família para sustentar. Mas olhe, ao engenheiro é que não deve faltar dinheiro para sustentar a família…
- Ai sim? E porque é que você diz isso?
- Dizem que ele quer investir por aqui.
- Investir como? – Nanda estava verdadeiramente interessada, mas esforçava-se por não o denotar.
- O que dizem é que ele esteve muitos anos no estrangeiro e ganhou lá muito dinheiro. E agora parece que o quer aplicar cá na terra, porque os avós eram de cá e ele foi criado por eles. – António falava com toda a precisão, como se estivesse perfeitamente por dentro do assunto.
- Pois muito me conta, António. Para ser criado pelos avós, se calhar ele era órfão…
- Era, sim senhora, e foi por isso mesmo que os avós o criaram. Os pais morreram num acidente, e ele ficou só com os velhotes e um tio, irmão do pai, que vivia no estrangeiro. E foi esse tio que depois o levou para lá para fora e o pôs a estudar.
- Então ele deve estar cá há pouco tempo. Não tenho ideia de o ter visto por aí…
- Sim, ele veio ainda não tem três meses. Está instalado na casa de um primo, e todos os dias vem cá tomar café. É muito simpático, e interessa-se pelas pessoas que aqui moram, está sempre a fazer perguntas…
- E você retribui com outras perguntas, não é, António? Por isso sabe tanto a respeito dele… - comentou Nanda, com um sorriso brincalhão.
- Faz parte do ofício, D. Nanda. Um bom empregado deve estar sempre bem informado acerca dos clientes…
- Que é como quem diz: dever ser um perfeito “cusca” – interrompeu-o Nanda, bem-humorada.
Como o restaurante se encontrava vazio àquela hora o empregado manteve-se junto à mesa da cliente enquanto ela comia. Terminado o almoço Nanda despediu-se e saiu.
Durante toda a conversa com o António tentara mostrar uma curiosidade desprendida, mas registara todas as informações que ele lhe prestara.
“Então o tal Carvalho Araújo é engenheiro, abastado, e tem, talvez, intenções de abrir um negócio…” – pensava Nanda ao encaminhar-se para casa.
“Agora parece que começa a fazer sentido a conversa dele quando se me dirigiu com a tal história de que o que tem para me dizer pode ser bom para mim… No Centro de emprego ele percebeu que eu estou desempregada…
A verdade é que vinha mesmo a calhar um emprego, mas uma coisa de jeito, não outro ‘negócio de farturas’ – Nanda riu-se, para si mesma.
Sim, que o Luís não deve tardar muito a vir para cima, se o Tó Zé cumprir o prometido, e mais dia, menos dia estou com um netinho nos braços… - inconscientemente sorriu, embevecida, ao imaginar-se em tal situação.”
Ao chegar a casa encontrou no hall de entrada a vizinha do rés-do-chão esquerdo, a professora Carla.
Cumprimentaram-se amavelmente. Simpatizam bastante uma com a outra, o que as leva a conversar sempre que se encontram.
- Bom dia, Nanda. Como está? Calculo que muito feliz com a notícia de ser avó…
- Ah! A Carla já sabe…
- E há alguém aqui no prédio que não saiba? – riu Carla. Aliás, eu acho que não é só no prédio mas sim no bairro todo… - sorria com simpatia.
Mas… entre um bocadinho para conversarmos – enquanto falava ia abrindo a porta da sua casa. Há tanto tempo que não o fazemos, e eu gosto tanto de falar consigo. Como sabe… não tenho por cá muitos amigos, e as pessoas aqui do prédio, embora me falem todas muito bem, não passa disso…
- Eu penso que é apenas porque a Carla está cá há pouco tempo. Há pouco mais de um ano… se não me engano. Todos os moradores daqui se conhecem há muitos anos, vivem cá praticamente desde que o prédio foi construído. E como somos apenas seis condóminos… é quase como se fôssemos uma família apenas. Vai ver que com o tempo acaba por se sentir “em casa” – Nanda pretendia assim animar a sua amiga.
Mas voltando ao assunto de eu ser avó e toda a gente saber – acrescentou com um sorriso - acho que tem razão. A notícia espalhou-se bem depressa. Tenho cá na minha ideia que para isso terá contribuído muito o Chico das Farturas – respondeu Nanda, rindo; e acrescentou logo de seguida: Bem, eu também não fiz propriamente segredo…
- As boas notícias são para se saberem. Para mal basta o que vemos na televisão – respondeu Carla.
- É isso mesmo, na TV só se ouvem desgraças. E por falar em desgraças… Quando vinha para casa vi ali na esquina a Alberta com um fulano qualquer. Coitada, faz-me uma pena! O marmanjo que estava com ela já não é o mesmo da semana passada. Aproveitam-se da deficiência da pobrezinha, os desavergonhados! Nem sei quantos já se divertiram à custa dela… Quando os vejo naquela esfregação toda só me dá vontade de os insultar. – Nanda falava toda empolgada.
- É uma tristeza, sim. Mas… não é nada fácil resolver aquele problema. Como a Nanda sabe muito bem, os portadores da síndrome de Down têm a líbido muito exacerbada, o que, no caso das mulheres, muitas vezes as leva a ir coleccionando homens atrás de homens, em sexo ocasional, sem qualquer controle. O comportamento da Alberta reflecte exactamente isso. Ela é um exemplo perfeito dessa característica.
- É verdade. Mas sabe, Carla? O que mais me incomoda é que essas pessoas são sempre extremamente carinhosas, gentis, simpáticas, afáveis…E é isso, precisamente, que as torna alvos fáceis para os desalmados que delas abusam.
Por sorte, é muito raro estas mulheres engravidarem, não porque sejam estéreis, como os homens, mas porque têm uma ovulação muito irregular, o que dificulta, quase impossibilita, a gravidez.
- Sem dúvida isso é uma bênção, pois seria difícil essas mulheres cuidarem dos filhos. Haveria, então, mais um encargo para as suas famílias – acrescentou Carla.
Nanda fez um sinal de concordância e continuou:
- Sempre que vejo a Alberta lembro-me de uma rapariga que havia na terra dos meus avós, lá na Beira, que também sofria de Trissomia 21, e a sua maneira de se comportar era igual à da Alberta.
- Ah! Então os seus avós eram da Beira?! Que coincidência engraçada! Os meus também eram beirões – disse Carla.
- Se formos esmiuçar bem ainda descobrimos que os nossos avós eram primos – respondeu Nanda. E ambas riram da ideia.
Carla retomou a palavra:
- Mas conte-me: a Nanda ia lá quando eles eram vivos?
- Ah! Sim, ia lá todos os anos. No Verão passava uma semana na província – o meu pai não podia ter mais férias nessa altura; só depois, no Outono ou no Inverno. No Natal íamos sempre por dez dias.
- Mas isso devia ser uma maravilha! Os meus avós mudaram-se para cá quando eu era pequenina. Só tenho lembranças muito vagas da época em que íamos lá… Mas a Nanda deve lembrar-se bem…
- Claro que me lembro! Quando penso nisso até parece que sinto o aroma da canela e da casca de limão que dominava a casa da minha avó… - Nanda sorriu, àquela doce lembrança.
- Estou a ver que o que a Nanda recorda melhor são as doçarias… - brincou Carla.
- Não, não, isso não é verdade. Falei nisso porque era a primeira impressão à chegada lá. A minha avó já tinha tudo preparado para fazer os “Bolinhos de Jerimu”. Depois a minha mãe ajudava-a a fritar os bolinhos, que tinham que esperar uma semana, depois de feitos, para os comermos. Elas diziam que assim eles eram muito melhores. Eu e o meu pai tínhamos uma opinião diferente… achávamos que acabadinhos de fazer deviam ser uma delícia… mas nunca os provámos assim; as matriarcas não se podiam contrariar – Nanda falava num tom saudoso.
- É interessante que eu tenha tão poucas memórias desse tempo e me lembre perfeitamente dos “Bolinhos de jerimu” – lembrou Carla. A verdade é que, mesmo depois de estar cá, a minha avó os continuou a fazer…
- Afinal não sou só eu a lembrar-me das doçarias… - sorriu Nanda. Mas tenho muitas outras recordações, igualmente agradáveis, daqueles Natais. No dia seguinte à nossa chegada lá, logo após o pequeno-almoço, o meu pai e eu íamos a um pinhal que pertencia aos meus avós para colhermos musgo. Àquela hora da manhã estava muito frio; por entre os troncos dos pinheiros havia uma neblina cerrada, misteriosa, que me fazia imaginar que, por detrás daquelas árvores, dezenas ou até centenas de duendes nos espreitavam. Eu quase podia vê-los a brincar às escondidas, correndo de arbusto em arbusto, em alegre galhofa. Isso tornava-me um pouco receosa. Mas a presença do meu pai era quanto bastava para me sossegar. Com a minha mão presa na dele nada de mal me podia acontecer…
Levávamos um cestinho e uma faca velha, meio rombuda. Quando encontrávamos alguma pedra com o precioso fungo, o meu pai enfiava a faca cuidadosamente por debaixo da planta, e eu amparava aquele delicado tapete verde com o maior cuidado, porque o musgo parte-se com muita facilidade. Depois colocávamo-lo dentro do cestinho e quando já tínhamos quantidade suficiente íamos para casa. Ali chegados corríamos para a lareira, completamente enregelados, mas felizes… Nanda falava com um ar sonhador e saudoso. Carla ouvia-a atentamente, bebendo as suas palavras, como se quisesse gravar na memória tudo o que a sua amiga lhe contava.
- Estou a ouvi-la e a imaginar a alegria que tudo isso devia ser para uma criança – sim, porque a Nanda era uma criança, na altura, imagino eu… comentou Carla.
- Sim, quando eu comecei a acompanhar o meu pai ao pinhal tinha os meus 8 ou 10 anos… Anteriormente, quando eu era mais novinha, ele ia sozinho, e eu esperava-o ansiosamente, em casa. É que aquele era o primeiro passo para a construção do presépio…
- Que era, com certeza, um dos pontos altos das Festas… – adiantou Carla.
- Sim, sem dúvida! Para mim era um verdadeiro êxtase colocar no presépio, que o meu pai armava, construindo morros e vales com pedras que punha por baixo do musgo, todas aquelas figurinhas que eu considerava mágicas…
Havia também um outro ritual que me encantava. O do tição de Natal…
- Nunca ouvi falar nisso. De que se trata? – perguntou Carla, curiosa.
- Era assim: O meu pai ia ao pinhal – dessa vez eu não o acompanhava, ele ia sozinho – e trazia de lá um tronco de pinheiro bem grosso. Este tronco era aceso na noite de Natal e conservava-se a arder, muito lentamente, sem chama, até ao último dia do ano. Depois da meia-noite era apagado – a essa parte eu já não assistia, invariavelmente estava a dormir… - e guardava-se para acender quando houvesse trovoadas. Os antigos acreditavam que o “Tição de Natal” tinha o poder de afastar as trovoadas e evitar que causassem estragos às pessoas e aos animais.
- Que bonita, essa crença! É difícil para mim imaginar todo esse encantamento, pois não tive a sorte de passar os Natais na província. Como sabe, aqui na cidade é tudo muito mais artificial… compra-se tudo feito, não há a magia de sermos nós mesmos a “fabricar” seja o que for… Sabe, Nanda, ao ouvi-la eu quase sinto inveja de si. – comentou Carla, acrescentando rapidamente: - No bom sentido, é claro
- Eu compreendo-a muito bem, minha amiga. Quando os meus avós faleceram deixámos de ir passar o Natal a casa deles; a minha mãe não conseguia ir lá durante muito tempo. Ver a casa dos pais causava-lhe muita dor. Eles morreram com um intervalo de onze meses, primeiro a minha avó e depois o meu avô. Só bem mais tarde a minha mãe arranjou coragem para ir lá desfazer-se dos prédios que eles tinham deixado. A minha mãe era filha única… tal como eu sou.
- Ah! A Nanda é filha única…
- Sim, não tenho nem nunca tive irmãos…
- Eu desconfiei disso pela maneira como falava do seu pai. Fez sobressair a ternura que ele tinha por si, muito próprio de menina única – murmurou Carla.
- O meu pai tinha uma verdadeira paixão por mim. E era correspondido. Com a minha mãe era diferente. Não que ela não gostasse de mim, nada disso! Só que ela era mais rígida, mais exigente, queria fazer de mim uma pessoa perfeita. E eu nunca fui perfeita… - acrescentou, com um meio sorriso.
De uma coisa, porém, não me posso queixar – de falta de amor. Os meus pais sempre me mimaram muito. Embora não fossem abastados – como eram, por exemplo, os pais da minha amiga Bela, esses sim, bastante ricos – nunca senti necessidade do que quer que fosse. A minha mãe tinha o maior cuidado para que nada me faltasse, e, à sua maneira, sempre me dispensou muito carinho. Era muito exigente com os estudos, não admitia sequer a ideia de que eu não tirasse um curso superior… O meu pai, como a Carla já se apercebeu, era o meu herói. E eu era a sua princesa – que o lugar de rainha cabia à minha mãe, que não o dispensava – Nanda riu com gosto.
- Os pais sempre desejam que os filhos sejam os melhores em tudo – disse Carla. Mas os filhos nem sempre correspondem.
- Essa é uma grande verdade, minha amiga. Só quando nasceram os meus filhos é que entendi muitas coisas, nomeadamente as exigências da minha mãe. Eu sei que a decepcionei muito, não correspondi às suas expectativas, não fui a pessoa que ela esperava que eu fosse – havia amargura na voz de Nanda. Mas eu tinha que viver a minha vida, não podia ser ela a vivê-la por mim…
Lançando um olhar ao relógio acrescentou:
- Já está a fazer-se tarde. Tenho que pôr pés a caminho…
Carla sorriu:
- O caminho não é longo… é só atravessar o hall. Nanda, muito obrigada por estes momentos. Nem imagina como me soube bem falar consigo. Temos que repetir.
Mas, de facto está a fazer-se tarde, também tenho que ir buscar os gémeos ao colégio…
- Ah! Mas que indelicadeza a minha! Com o entusiasmo da conversa esqueci-me de perguntar pelos meninos… Eles estão bem?
- Sim, estão. A semana passada o Tiago pregou-me um susto, tive que o levar ao hospital, mas não foi nada de grave. Não vejo é a hora de poderem ser operados…
- Pois… sabemos como é a saúde em Portugal… respondeu Nanda, levantando-se. Eu vou também tratar do “meu bebé” Tejo, antes que aconteça alguma fatalidade líquida lá em casa…

Maria Caiano Azevedo

FELIZ ANO NOVO
FELIZ 2019
Dediquemos os 365 dias que agora começam a:
Comemorar a VIDA
Espalhar o AMOR
Semear a ESPERANÇA

sábado, 1 de dezembro de 2018

FÉRIAS 2018


De há uns anos para cá – não posso precisar quantos… - o meu primeiro post a seguir às férias tem servido para partilhar convosco fotos dos locais onde as passei.
Não sei porquê – penso que “o alemão” anda a querer insinuar-se junto a mim… - este ano esqueci-me de o fazer.
Houve quem me chamasse a atenção. Por isso, se acharem que ainda não é muito tarde, deixem-me mostrar-vos por onde andei no Verão de 2018.
Inicialmente tinha incluído, neste PPS, um maior número de fotos. Porém, o ficheiro estava demasiado pesado, e tive que retirar uma boa parte delas. Excluí as que me pareceram menos relevantes. Por isso me atrasei na publicação da minha postagem, o que costumo fazer às 0 horas do dia 1 de cada mês. As minhas desculpas.
Esta foi a primeira parte das minhas férias deste ano. A segunda parte, passada em Cabo Verde, partilharei convosco noutra altura.
Espero que apreciem.

A Nanda foi de férias, passa o Natal na província J. Regressará no dia 1 de Janeiro de 2019.

BOM NATAL PARA TODOS!