quinta-feira, 14 de março de 2013

COMEMORANDO TRÊS DATAS

DIA INTERNACIONAL DA MULHER
  
Comemorou-se há seis dias o «Dia Internacional da Mulher».
Acredito que actualmente muito poucos serão os que ignoram o significado deste dia e a sua origem.
Relembremos apenas, de passagem, que o seu início teve origem no tristemente famoso incêndio numa fábrica de tecidos de Nova Iorque, no qual morreram queimadas cerca de 130 operárias.
Este foi considerado como o pior incêndio da história de Nova Iorque, até 11 de Setembro de 2001.
Mas como a história é por demais conhecida, prefiro partilhar convosco um texto alusivo à Mulher, de que gosto imenso.

UMA GRANDE MULHER

Uma grande mulher para mim é, acima de tudo, feliz alto astral, de bem com a vida.
Não que ela não carregue fardos, muitas vezes pesadíssimos, mas há nela uma luminosidade até na adversidade, junto a uma sábia compreensão dos fatos.
Passa pela dor com aprumo, não se faz de vítima, não aporrinha os outros com queixas e lamúrias sem fim.
Cultiva amizades verdadeiras, sabe interagir com seu companheiro e valorizá-lo, quando o tem, mas não se aniquila por não tê-lo.
Uma grande mulher se gosta e se valoriza, sem tornar-se escrava das cirurgias plásticas, das roupas de griffe, do eterno culto à beleza que, ao final das contas, não vão driblar o tempo, só enganá-lo e enganá-la. Antes, investe numa elegância que vem de dentro, doce, flexível, humanitária.
Uma grande mulher torna-se exímia no caminho que escolheu e é inteligente o bastante para reconhecer que pode mudar de lugar e de rumo sempre que sentir que seu viver não confere com os anseios de seu coração.
Uma grande mulher prefere morrer a se render à convivência com quem, reiteradamente, a diminui ou a desvaloriza.
Ela sempre luta para abrir seu espaço, nem que esse espaço fique nas coxias ao invés da luz dos refletores.
Para uma grande mulher isso não importa. Ela só quer crescer e avançar a seu modo. Jamais a impeçam de ser ela mesma.
Tenho visto grandes mulheres nos cargos mais importantes e nos cargos mais humildes, de catadoras de lixo até grandes executivas. São laboriosas sempre, mas não abrem mão do que lhes traz alegria e prazer, dentro de suas possibilidades.
Se patroas, são justas e solidárias; se empregadas, são leais e dedicadas; se profissionais liberais, são éticas.
Uma grande mulher tem os pés bem fincados na terra, mas alguma coisa dentro dela sempre está olhando para o céu.
Pode parecer utopia, mas não é.
Tenho conhecido muitas mulheres assim. Observo suas vidas em silêncio e fico pensando:
- Um dia eu ainda chegarei lá!
Fátima Irene Pinto
02.03.2012 Descalvado - SP


Fátima Irene Pinto, nascida em Pirajuí, S. Paulo, a 17 de Agosto de 1953, é uma poetisa brasileira, formada em Letras.
Jornalista, professora, musicista e coordenadora de concursos de poesia, dela disse o poeta catarinense Solange Rech:
"De tempo em tempo, aqui e acolá, a natureza nos brinda com pessoas muito especiais. Fátima Irene é uma dessas raridades…”
DIA DO PAI

No próximo dia 19 comemora-se, em Portugal, o «Dia do Pai».
Talvez não tão conhecida como no caso do «Dia Internacional da Mulher», também a sua origem tem sido bastante divulgada, especialmente nos últimos anos.
O primeiro registo que existe referente ao “Dia do Pai” foi feito na antiga Babilónia, há mais de quatro mil anos.
Contudo passaram-se muitos séculos até que as homenagens ao Pai se tornassem um evento oficial.
Há quem defenda que o facto ocorreu, pela primeira vez, nos Estados Unidos, em 19 de Junho de 1910. Esta data era próxima do aniversário de William Jackson Smart, um veterano da Guerra Civil, que criou seis filhos sozinho depois que a esposa morreu no último parto.
Uma das filhas de William, Sonora Louise Dodd, pediu à igreja local que criasse um dia para homenagear a coragem e dedicação do pai dela e dos pais em geral.
Mas só em 1966 o presidente Lyndon Johnson proclamou o terceiro Domingo de Junho como o Dia do Pai, data que se mantém até aos dias de hoje.
No Brasil, com o nome de «Dia dos Pais», é comemorado no segundo Domingo de Agosto, enquanto que Portugal segue à risca a tradição católica, celebrando-o no dia 19 de Março, dia de S.José, pai (de criação) de Jesus Cristo.


 
DIA DE PÁSCOA

Páscoa, do hebraico “Pessach”, significa Passagem, evento religioso cristão, considerado pela Igreja como a maior e mais importante festa da cristandade.
Na Páscoa os cristãos celebram a Ressurreição de Jesus Cristo depois da sua morte por crucificação, que terá ocorrido nesta época do ano em 30 ou 33 dC.
A Páscoa ocorre, normalmente, entre 22 de Março e 25 de Abril.
Em Portugal – e não sei se em outros países – ainda há freguesias em que se realiza o Compasso Pascal.

 
Trata-se de uma tradição cristã que consiste na visita casa a casa – de quem a quiser receber – de um pequeno grupo de paroquianos, acompanhados ou não do seu pároco, transportando um Crucifixo de Cristo, como celebração pela Sua Ressurreição.
Esta Visita Pascal realiza-se no Dia de Páscoa. Entrado o cortejo numa casa, e depois de uma bênção inicial, os habitantes da casa visitada beijam a Cruz de Cristo em sinal de adoração.
A esta tradição associaram-se diferentes formas de receber essa visita. Algumas casas oferecem aos visitantes doces da quadra pascoal, como folar, amêndoas, confeitos… e, nas casas mais afortunadas, até é oferecido um copinho de vinho do Porto ou licor caseiro.
  
 
(Freguesia de Guisande-Stª.Maria da Feira)

Em muitas freguesias é habitual a garrafa de espumante.  Ela é vista como uma forma de confraternização entre os membros da comunidade paroquial.
Por vezes a Visita Pascal é aproveitada para oferta de donativos pecuniários à paróquia, especialmente nas freguesias em que os seus membros usufruem de “serviços paroquiais” grátis.
 
Com a desertificação do interior e consequente diminuição da população, esta e outras tradições acabam por se perder.
Isto é lamentável na medida em que estes costumes fazem parte do património cultural de um povo, transmitido de geração em geração, até aos dias de hoje.
São, pois, de louvar e apoiar todas as acções no sentido da preservação de tão importantes manifestações dos hábitos antigos.
 
 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

COMPLETO HOJE CINCO ANOS


Mais um ano se passou, e chegou o dia – hoje – em que este espaço completa cinco anos de idade. Foram dias de grandes realizações, ainda que o último ano não tenha decorrido da melhor maneira. Neste período foram mais os espinhos do que as rosas. Mas na vida “nem sempre o sol brilha, também há dias em que a chuva cai” – como diz a canção.
Para assinalar a passagem deste aniversário vou apenas oferecer-vos este selinho

Image and video hosting by TinyPic
 
que podeis ir buscar AQUI
Como complemento desta oferta vou partilhar convosco uma história, verdadeira, que li numa revista espanhola,  uma vez que  me encontrava a passar férias no país vizinho, e que achei muito interessante.

O Cabo Finisterra francês foi, durante séculos, uma das zonas mais perigosas para a navegação. Só em 1896 o mar “tragou” 250 pessoas.
Por isso é muito grande a concentração de faróis naquela zona, sendo, o mais famoso, conhecido por “Le Jument” – A Mula.
Foi construído sobre uma rocha com o mesmo nome na Ilha de Quessant, situada a 20 Km da costa francesa. A sua construção começou em 1904 e só terminou em 1940, depois de penosos e complicadíssimos trabalhos. Mede 47 metros, e a sua luz alcança até 39 quilómetros em seu redor.
Foi automatizado em 1991, dois anos depois desta história. Anteriormente era movimentado por um faroleiro, de nome Théodore Malgorne.
Acender, apagar e vigiar, um ritual interminável deste vigia, no meio de um oceano de solidão.
“Ser faroleiro não é uma profissão, é uma forma de vida” – dizia ele.
Conta-se que, nas noites de tempestade, a sua mulher passava o tempo à janela, na sua casa em terra firme, vigiando constantemente a luz do farol, esperando que ela não deixasse de brilhar, o que significava que seu marido continuava vivo.

Não tão famoso como o farol, mas igualmente digno de registo, é o segundo interveniente nesta história, o fotógrafo Jean Guichard.
Jean sempre gostou do mar, e quando cumpria o serviço militar na Marinha Francesa, uma vez que fez escala na Gronelândia comprou uma câmara Nikon que pagou vendendo fotos à tripulação do barco.
A partir de então e até aos anos 90 dedicou-se a fotografar o mar largo, a partir de terra ou do ar.
O destino destes dois homens cruza-se naquela quinta-feira, 21 de Dezembro de 1989.
 
Durante dias o mar açoitara sem clemência o Farol de La Jument.
Seu guardião Theodore sabia que não era um temporal de “trazer por casa”. As ondas, ferozes, movidas por um vento fortíssimo, fizeram em fanicos os vidros das janelas do primeiro piso, alcançando a balaustrada. A água inundava já a zona inferior do interior do farol.
A situação era perigosa, por isso ele deslocou-se para a parte mais alta, no piso superior.
 
Jean Guichard tinha 35 anos e encontrava-se num helicóptero do qual, de câmara em punho, fotografava a Bretanha Francesa, para o seu projecto “Faróis na tempestade”.
E aquela  era das valentes!
O helicóptero aproximou-se o mais possível do farol.
Como um náufrago que vê aparecer um barco, ao ouvir o barulho das pás do helicóptero, Theodore pensou que tinham chegado os serviços de resgate e correu rapidamente para a porta do farol para que o pudessem ver.

 
 
No momento em que vê o helicóptero de Guichard compreende o seu erro, ao mesmo tempo que toma consciência de que uma onda gigantesca envolve o farol.
 
 
 O seu instinto fá-lo retroceder; entra no farol e fecha a porta exactamente no momento em que a onda varre a porta.

Guichard observa, atónito, aquelas imagens ali à sua disposição, e fotografa sem parar.
A vida dum homem esteve à beira do abismo e foi fotografado por aquele que, involuntariamente, provocara a situação.
Com a sequência de fotos fez este pequeno vídeo:
 
Image and video hosting by TinyPic

 
A história deste faroleiro poderia ter ficado no esquecimento, como as de tantos guardiães e ermitões dos mares, seus antecessores, se não fosse a coincidência de se encontrar no local certo, na hora certa, um apaixonado fotógrafo que tudo registou.
 
 
 
Da minha querida amiga Rosita  recebi este lindo selinho que, do coração, agradeço:

  

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Minhas queridas amigas, meus queridos amigos
Encontro-me doente desde há cerca de uma semana, motivo pelo qual, desde o dia 19, raramente, e apenas por breves momentos, tenho passado pelo pc.
Peço que me perdoem não responder/agradecer as vossas visitas, o que farei logo que a saúde mo permita.
Embora a minha doença seja de uma certa gravidade, espero conseguir, aos poucos, ir compondo um post para o dia 14 de Fevereiro.
Muito obrigada a todos pela vossa compreensão e amizade.
Mariazita, 26.01.2013
 
CENAS CAMPESTRES
 
A BESTA QUADRADA

- Não vês o que estás a fazer, ó minha grande besta? És mesmo uma besta quadrada – vociferou o Ti Manel das Coives perante uma qualquer aselhice do seu criado Balbino.
Este tinha ainda na memória uma aula de História, em que a senhora Professora lhes tinha explicado:
- “Besta era, na Idade Média, uma arma composta de um arco colocado sobre um cepo, do qual o arqueiro disparava sobre o inimigo”.
 

(Besteiro – Net)

Mas, o Balbino não se lembrava de ela ter dito que a tal besta era quadrada.
A besta a que se referia o Ti Manel das Coives nada tinha a ver com armas. Ao apelidar o pobre Balbino, que até essa data o servira sempre humildemente, de “besta”, apenas queria significar que o rapaz era desprovido de inteligência, tal como qualquer animal de carga.
Intrigado pelo facto de tantas vezes o seu nome ser trocado pelo de “besta”, e não menos vezes “quadrada”, Balbino dirigiu-se ao estábulo, para alimentar os animais, pondo-se a observar a verdadeira besta.
Lá estava a mula de estimação do Ti Manel, que tantas vezes era favorecida em detrimento do criado, obrigado a tarefas que à mula pertenciam.
Mirando-a por todos os lados, não conseguiu ver no animal nada de quadrado nem rectangular, nem mesmo redondo, exceptuando talvez as ilhargas, arredondadas devido ao bom trato, ração farta e pouco trabalho.


Depois de muito olhar e pensar, concluiu que o patrão andara, desde sempre, a insultá-lo, a rebaixá-lo, comparando-o à mula que, lá nas longínquas berças donde viera para servir na casa do Ti Manel, chamavam simplesmente de “besta”.
Chegando a esta conclusão o Balbino sentiu uma irritação crescendo dentro de si, a ponto de quase o sufocar.
Ao contrário do que o patrão pensava, o rapaz era inteligente. Andava a servir apenas porque a família era muito pobre, e a pequena terra que os pais cultivavam não dava para o sustento de tantas bocas.
Andara na escola apenas quatro anos, até fazer o exame da quarta classe, revelando uma inteligência viva e enorme facilidade de aprendizagem.
Agora, com a raiva dentro de si, ansiava por dar uma lição ao desnaturado patrão.
Aproximando-se da mula levantou-lhe uma pata traseira, colocando uma pequena lasca de madeira, cuidadosamente, entre os cascos.
De seguida segurou o animal pela arreata trazendo-o para o exterior. Tal como previsto o animal vinha a mancar.
O Ti Manel, vendo a mula a coxear, imediatamente se acercou, indagando, alto e com maus modos:
- Ó minha besta quadrada, o que fizeste tu à minha pobre mulinha, para ela não pôr o pé no chão?
Balbino, afivelando no rosto o ar mais inocente possível, respondeu:
- Eu, Ti Manel? Pois o que havera eu de fazer ao animalzinho? Eu só vi que ela estava com o pé no ar, e por isso trouxe-a cá fora, p’ra vocemecê ver o que se passa.
O Ti Manel abeirou-se da traseira do animal, baixou-se para lhe levantar a pata, ficando com o rosto ao nível do joelho do animal. Segurando-lhe na perna, virou o casco para cima, e viu o pedacinho de madeira.
- Ó minha menina, como não havias de coxear, com um tarolo aqui enfiado entre as unhas? Eu já trato de ti.
Ao tentar tirar o bocadinho de madeira, este enterrou-se ainda mais, causando dor. O animal, instintivamente, deu um valente coice, atingindo o dono, em cheio, na cara.
Desequilibrando-se, o Ti Manel caiu de lado, batendo com a cabeça no muro de pedras soltas, acabando por desmaiar.
No meio de grande aflição, e já meio arrependido do que tinha feito, o Balbino pediu socorro, e os vizinhos chamaram uma ambulância que o transportou ao hospital. O criado fez questão de o acompanhar, até porque fora a única testemunha do ocorrido.
Interrogado pelo médico, Balbino relatou o acontecido, omitindo que fora ele próprio que colocara no casco do animal a lasca de madeira.
E, dando-se ares de importância, imitando o patrão, acrescentou:
- A culpa foi toda daquela mula, que é uma verdadeira besta quadrada!
O médico, com um sorriso, esclareceu-o: - Besta quadrada? Já viste alguma besta quadrada? Eu nunca vi, nem quadrada nem redonda.
E com uma gargalhada rematou: -Tu querias dizer “besta ao quadrado”, penso eu, não era?
Não dando parte de fraco, o Balbino respondeu prontamente:
- Claro, senhor doutor, eu estava a brincar… E mostrou um sorriso de orelha a orelha.
No regresso a casa Balbino assobiava satisfeito, pensando:
- Agora, que consegui até enganar um médico, posso dizer que sou mais inteligente do que a “besta ao quadrado” do meu patrão!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

CENAS DA VIDA REAL

A TI MASDÉ

Caminhando pela vereda estreita, com destino à casa da Ti Masdé, a “menina Aurora” ia meditando nos últimos acontecimentos, com especial incidência naquele que mais a tinha afligido – o acidente com a camioneta de passageiros.
Estava em casa, muito descansada a tratar dos seus afazeres, quando, de repente, começou a ouvir gritos e batidas na porta de casa: - Menina Aurora, menina Aurora! Venha depressa! Uma camioneta roçou pela parede do Amaro, e há muitas pessoas feridas.
Não pensou duas vezes. Largou imediatamente o que tinha entre mãos, dirigindo-se apressadamente para o local do acidente, que distava muito pouco de sua casa.
Ali chegada, a cena que viu assustou-a e petrificou-a por momentos: inúmeras pessoas escorrendo sangue dos braços, entre elas várias crianças, algumas quase desmaiadas, todas chorando ou gritando, uma confusão enorme.
Um dos presentes em poucas palavras contou-lhe o que sucedera: “Uma camioneta que regressava de uma peregrinação a Fátima, ao cruzar-se com um automóvel, desviara-se do centro da estrada, não muito larga, encostando-se demasiado à parede de uma casa. Como estava muito calor, (era o mês de Agosto) as janelas iam todas abertas, e as pessoas com os braços pousados nos caixilhos. Quando a camioneta roçou pela parede, os braços foram raspados com toda a violência, causando ferimentos enormes em todos os que iam sentados do lado direito da camioneta. Só escaparam ilesos os que viajavam no lado esquerdo da camioneta, assim como o motorista que, naquela momento levava as mãos à cabeça, em desespero, com um ar completamente descontrolado.
A “menina Aurora” fez um esforço para reagir e dirigiu-se rapidamente a casa. Agarrou um lençol lavado que aguardava ser passado a ferro, e rasgou-o em várias tiras. De seguida segurou a sua saqueta de primeiros socorros, e, em passos apressados, dirigiu-se de novo ao local do acidente.
Depois de recomendar a um dos habitantes locais que haviam acorrido ao local que fosse imediatamente chamar o médico, com gestos precisos e seguros começou a limpar e desinfectar feridas, envolvendo os braços feridos com as tiras do lençol. Tentou dar preferência às crianças, mas as pessoas atropelavam-se com o intuito de receberem tratamento o mais depressa possível.
Já ela tinha atendido um grande número de pessoas quando apareceram o médico e a enfermeira, que se encontravam no consultório médico. Ambos ajudaram a tratar das pessoas que ainda não haviam recebido tratamento. Depois de todos terem sido socorridos foi oferecida água a todos, que, aos poucos, se foram acalmando.
Foi então que o médico pronunciou aquelas palavras que foram a melhor recompensa para a “menina Aurora”:
- Todos têm que agradecer a esta senhora, porque se ela não os tivesse atendido tão prontamente, provavelmente alguns de vocês iriam ter graves problemas de infecções nos vossos braços.

Agora, a caminho da casa da Ti Masdé, a “menina Aurora” esboçou um leve sorriso ao recordar as palavras do médico, e pensando: "Ora, qualquer um teria feito o mesmo; eu apenas reagi mais depressa".
Apressou o passo, pois não queria ser surpreendida pela noite no seu regresso a casa, e para tratar da Ti Masdé ainda demorava algum tempo.
Ao fim da vereda deparou-se com a choupana onde se encontrava a mulher conhecida por “Ti Masdé”, cujo nome era Maria José. Viúva há muitos anos, com os dois filhos emigrados em França e dos quais há muito tempo deixara de saber notícias, vivia da caridade alheia, mais concretamente da caridade de duas senhoras – a “menina Aurora”, e uma sua amiga, a Dona Flor.
Esta, todos os dias mandava uma criada ir levar o almoço à Ti Masdé; a “menina Aurora” ia todas as tardes levar-lhe o jantar, e tratar da sua higiene, já que a pobre mulher se encontrava acamada.
O casebre tinha uma divisão com chão de terra batida, e ao fundo um pequeno quarto onde agora não era possível dormir porque sofrera uma enorme rachadela na parede, separando-o da outra divisão, e ameaçando desmoronar-se a qualquer momento. Na “sala” havia uma lareira, à esquerda, e a seguir, encostada à parede, uma mesa com um ou dois pratos, talheres e canecas em cima; e à direita, ao fundo, um colchão no chão onde se encontrava a Ti Masdé.
Todos os dias a “menina Aurora” cumpria o mesmo ritual:
_ Colocava o jantar em cima da mesa e acendia a lareira. Depois lavava o melhor que podia aquele corpo doente, mudava-lhe a roupa da cama, que levava da sua casa, e vestia-lhe uma camisa lavada. Ajudava-a a sentar-se encostada ao travesseiro, e punha-lhe o prato da comida em frente. Aguardava que ela comesse, recolhia a roupa suja e a louça usada, e despedia-se com um “até amanhã, se Deus quiser”.
Esta senhora, de cerca de cinquenta anos, casada e Mãe de cinco filhos, com a sua casa para tratar e governar, realizou esta tarefa por largos meses, desde que a Ti Masdé caíra à cama, até ao final dos seus dias. Enquanto ela, com maior ou menor dificuldade, se foi movimentando, ia todos os dias almoçar a casa da Dona Florinda, e jantar a casa da “menina Aurora”, para a qual trabalhara quando era nova e tinha saúde para o fazer. Mas, com o avançar da idade e a falta de saúde, vivia dependente dessas duas senhoras.
Não pretendendo menosprezar o bem que praticou a Dona Flor, mandando a criada levar o almoço à Ti Masdé, não posso deixar de realçar a acção da “menina Aurora”, duma bondade extrema, com um coração gigantesco, praticando, ao longo da sua vida, acções que muitas outras pessoas se recusariam a executar.
Numa das férias que sempre lá passei enquanto estudante um dia pedi-lhe para a acompanhar a casa da Ti Masdé.
Entrei naquela “sala” escura, com as paredes negras do fumo da lareira, e um insuportável, irrespirável cheiro, que me deu volta ao estômago e me obrigou a ir para o ar livre passados poucos momentos. Sentei-me no muro de pedras soltas da vereda, e aguardei. Passado algum tempo, que aproveitei para respirar fundo e retirar dos pulmões aquele ar empestado que respirara dentro do casebre, apareceu a “menina Aurora”.
Não me contive sem lhe dizer:
- Não sei como é que a Mamã aguenta fazer isto todos os dias!
Sim, a “menina Aurora” era a minha Mãe, uma Mulher extraordinária, a quem presto esta singela homenagem, do mesmo modo que a homenageavam todos os que a tratavam, carinhosa e respeitosamente, por “menina”, mesmo depois de ela ter completado os oitenta anos.
Ocorreu-me escrevê-la e publicá-la agora, que estamos a duas semanas de homenagear a que foi Mãe de Jesus.
 
 E, como só voltarei no próximo ano, dia 14 de Janeiro de 2013, desejo a todos um feliz Natal e um Ano Novo radioso. 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

PASSEIO A LAS VEGAS

RECORDAR É VIVER

 

É recordando os bons momentos vividos, e repetindo-os, se tal for possível, que se constrói a felicidade, já que esta é a soma de muitos momentos felizes.

Há cerca de um ano, comentando com uma amiga brasileira, com quem me correspondo por email, que tinha visitado Las Vegas, ela pediu-me para lhe mandar algumas fotos. Decidi, em alternativa, formatar um PPS e enviar-lho. É esse mesmo que hoje partilho convosco.

Espero que gostem.

Se quiser ver em «tela cheia», depois de iniciar clic no quadradinho à direita de "Menu", no canto inferior direito. LIGUE O SOM, depois de desligar o som de fundo do blog, na sidebar (barra lateral)

 

PASSEIO A LAS VEGAS


domingo, 14 de outubro de 2012

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE

 
 
 O INÍCIO DAS HOSTILIDADES
 
Quando, há meses, viemos para esta “pretensa” messe foi-nos facultado um jipe para as necessárias idas ao centro da cidade.
Num raio de uns cinco quilómetros do local onde nos encon
tramos não existe uma única casa, e, para ir ao centro da cidade, a pé, demora-se entre 20 a 30 minutos.
..............................
 … Quando chegamos à cidade (centro) sentimo-nos umas aves raras. Os homens que lá se encontram olham-nos como se fossemos almas do outro mundo.
O que acontece é que a cidade está, praticamente, despida de mulheres.
Todas as que tiveram possibilidade, por lá terem família, foram para o sul, e as mais abonadas embarcaram mesmo para o continente.
.............................. 
… a situação tem vindo a agravar-se de dia para dia, receando-se o que possa acontecer a qualquer momento. Por uma questão de prudência interrompemos as nossas idas às senzalas para visitar os doentes e necessitados.
Podemos dizer que estamos num estado de alerta.
Os nossos maridos vêm almoçar vestidos com os camuflados e armados até aos dentes.
Como sabem que nos irrita solenemente ouvir esta frase, logo que estamos todos sentados, dizem, em coro:
- Vamos a ela (refeição) porque pode ser que seja a última…
E riem-se, como se tivessem muita graça. Claro que nós sabemos que é, para eles, uma espécie de escape, uma forma de aliviar a tensão em que vivem.

E, de repente, aconteceu!
Depois do pequeno-almoço os homens dirigem-se, como habitualmente, para os seus postos, despedindo-se de nós até à hora do almoço. Mas, regressam passada meia hora. Apressados, rostos alterados, vêm preparar-se para sair. Rapidamente estão equipados e prontos. Despedem-se, e caminham apressados rumo ao seu destino. Não sabemos quando voltam, nem se voltam…
..............................
...O marido da Natércia foi ao quartel mas não os acompanhou - pertence a um serviço não operacional. Está connosco, comentando o sucedido. Quando a Madalena se afasta, conta-nos, num sussurro, que a coluna comandada pelo marido dela, que saíra numa patrulha normal, fora atacada,

(foto da Net)

 não se sabendo exactamente quais os danos sofridos. Por enquanto é melhor não lhe dizer nada.
..............................
        … Finalmente sabe-se que o marido da Madalena está são e salvo, o mesmo não acontecendo a dois dos seus homens, que foram feridos, um deles com gravidade. Já estão de regresso.
..............................       
        … Cerca de uma hora mais tarde chega a coluna que foi atacada. Imediatamente é pedido auxílio aéreo para evacuar os feridos. Entretanto são-lhes ministrados os cuidados médicos possíveis. Infelizmente um deles, o ferido com maior gravidade, não aguenta o período de espera do avião que os haveria de transportar para a capital da província, e falece.
É um choque terrível para todos nós, este primeiro morto, vítima de emboscada.
Não sei se é medo o sentimento que nos domina. Pânico talvez seja a palavra mais apropriada.
..............................
… Das outras patrulhas que saíram logo cedo não há notícias de ataques, pelo que mantemos a esperança de que não haja motivo para preocupação de maior. O dia decorre numa aparente calma.
..............................
… A meio da tarde tomamos conhecimento de que uma fragata,


que se encontrava ao largo, tinha acostado e desembarcado os fuzileiros navais, que vieram dar apoio aos combatentes de terra. A sua missão é tomar conta da cidade. Aquartelamento, central eléctrica e campo de aviação são os pontos sensíveis.
A noite aproxima-se...
A NOITE

A noite aproxima-se e os maridos sem regressarem. O comandante vem informar que não dispõe de meios suficientes para montar guarda à “messe”. Aconselha, por isso, a que nos reunamos na sua casa, que é bastante grande, para lá passarmos a noite.
A nossa maior preocupação é acomodar as crianças, o que conseguimos deitando três e quatro na mesma cama.
..............................
… No meio de tudo, a maior dificuldade surge com o mais pequeno. O meu bebé, com sete meses, não pode ser “enfiado” no meio dos outros – corria o risco de ser esborrachado… Alguém tem uma ideia luminosa. No quarto de casal há um roupeiro grande, que tem um “gavetão”, onde são guardados os lençóis. Retirados estes, coloca-se no fundo um cobertor, e assim se improvisa uma cama para o bebé.
..............................
...procuramos descansar um pouco distribuindo-nos pelos sofás. E assim vamos passando pelo sono, provocado, em especial, pelo dia de enorme tensão que vivemos.
Cerca da meia-noite vêm pedir-nos para prepararmos umas sandes e refrescos para os fuzileiros que iam chegando, de regresso das suas missões.
E, entre dormitar e fazer sandes e refrescos, se passou uma longa noite.
Por volta das seis ou sete da manhã começaram a chegar os maridos. Cobertos de pó, irreconhecíveis, mas VIVOS!
Foram recebidos com a emoção que se pode imaginar, e algumas lágrimas que não pudemos reprimir.
..............................
...Mas, aparte o incidente da madrugada, com os dois feridos, nada mais houve a lamentar (naquele dia).
.............................
Como quem recolhe um rebanho de cabritinhos fomos reunindo as crianças e, finalmente, pudemos dirigir-nos à “messe”.
Depois dos maridos se tornarem apresentáveis com um bem merecido banho, fomos todos para a sala tomar o pequeno almoço.
Esse dia decorreu relativamente calmo, mas a vida nunca mais foi a mesma enquanto lá estivemos.

(Excertos de dois capítulos do livro que estou escrevendo - elaborados com o apoio do meu marido para os aspectos "técnicos")

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

CENAS DA VIDA REAL


NAS MATAS DE SEIÇA

Tinha começado a escrever este texto em princípios de Maio, com vista à sua publicação depois dos dias “da Mãe”, em Portugal, e “das Mães”, no Brasil. Tinha escrito sensivelmente metade quando deixei de ter oportunidade de continuar devido ao agravamento do estado de saúde do meu marido.
O que se seguiu depois é já do vosso conhecimento.
 
Tenho lutado, dia a dia, por reunir forças para encarar esta minha nova realidade, com a qual terei que conviver até ao fim dos meus dias.
Decidi, pois, retomar a feitura do meu livro. Será como que uma homenagem ao meu marido, que tanto me incentivou, ajudando-me, até, nalguns pormenores em que me surgiam dúvidas. Ele sonhava, tanto como eu, com a publicação do que será (se Deus me der forças para tal) a recordação das minhas memórias de África, dos tempos, inolvidáveis, que lá vivemos.
Devo-lhe este livro!
 
Como que um exercício para retomar o hábito da escrita resolvi acabar este texto. E publicá-lo. Outros se seguirão, assim o espero. Não serão, por certo, muito frequentes, mas sê-lo-ão tanto quanto possível.
 
A todos quantos, entretanto, me visitaram, transmitindo-me conforto e carinho, quero, publicamente, expressar o meu agradecimento: MUITO OBRIGADA!
 
E agora o texto:
 
NAS MATAS DA RIBEIRA DE SEIÇA
 
No meu post de 14 de Abril falei-vos do Mosteiro de Santa Maria de Seiça, em cuja capela, octogonal, existem pinturas relacionadas com várias lendas.
Quando estava a escrever esse texto lembrei-me de um incidente ocorrido quando eu era uma jovenzinha de catorze anos, na época em que conheci o meu amigo Rosindo, e que teve como cenário as matas da Ribeira de Seiça.
A minha Mãe gostava muito de animais, indo a sua preferência para gatos. Eu sempre gostei mais de cães, mas a minha Mãe não podia viver sem gatos.
Entre os vários que teve ao longo da sua vida, houve uma gatinha branca, que ela apelidou de Ritinha. Um belo dia nasceram gatinhos, sendo que um dos pequeninos era branquinho de neve, tal como a mãe. Foram todos distribuídos pela vizinhança, mas o branquinho ficou lá em casa. E, como não podia deixar de ser, passou a chamar-se Ritinho.
Passado algum tempo era um belo gato. Todo branquinho, sempre impecavelmente limpo, enormes olhos azuis, um lindo animal. Cheguei a dizer à minha Mãe que devia tê-lo baptizado de “Branco de Neve”. Até costumava dizer, de brincadeira:
- Lá vai o Ritinho com a sua capa de arminho.
Um dia a minha Mãe chamou-o para comer, mas o Ritinho não apareceu. Estranho! À hora da refeição já ele costumava andar por ali a rondar…
Mas nada de preocupações – foi dar um giro.
Porém, as horas passaram, e o Ritinho não apareceu. A minha Mãe correu a vizinhança, perguntando a toda a gente se tinham visto o seu Ritinho. Não, ninguém lhe tinha posto a vista em cima.
Chegou a noite e o Ritinho sem aparecer.
Acredito que a minha Mãe não tenha dormido nada bem essa noite, tal era a preocupação com a falta do Ritinho.
No dia seguinte passou lá por casa um homem dizendo que tinha visto um gato branco nas matas da Ribeira de Seiça.
A minha Mãe disse logo, dirigindo-se a mim:
- Vamos lá procurá-lo.
Eu limitei-me a obedecer, embora a distância da nossa casa às matas devesse andar pelos 5 ou 6 quilómetros.
Depois de lá chegarmos “corremos montes e vales”, com a minha Mãe sempre chamando: Ritinho! Ritinho! Mas o gatinho não aparecia. Entretanto, avistámos a Capela, e logo me veio à ideia a descoberta do tal livrinho antigo no sótão da casa do Sr. Curado, e a enorme quantidade de lendas relacionadas com o Mosteiro e sua construção.
Propus à minha Mãe fazermos uma pausa, pois já tínhamos passado mais de metade da manhã nas buscas do felino, e as pernas acusavam um certo cansaço.
Escolhemos umas pedras arredondadas no meio de grandes fetos, sentamo-nos, e eu “ataquei” logo:
- Mamã, conhece alguma lenda relacionada com o Mosteiro de Seiça?
Resposta pronta:
- Conheço muitas. Queres que te conte alguma, enquanto descansamos?
Não queria eu outra coisa! Sempre adorei lendas, e continuo a gostar muito (saí à minha Mãe...)
- Vou então contar-te a lenda em que entra o nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques.
 
Lenda da cura miraculosa do pajem de D. Afonso Henriques
 
“Contavam os antigos que um certo dia D. Afonso Henriques andava à caça aqui nas matas de Seiça, quando um pajem que o acompanhava, caiu do cavalo e morreu.

 (Pajem de D. Afonso Henriques caindo do cavalo)
Um dos quadros existentes na Capela de Seiça
 
Nessa altura apenas existia, próximo, uma pequena ermida, para onde transportaram o corpo do nobre cavaleiro. Quando se preparavam para o sepultar, de repente o jovem nobre abriu os olhos e voltou à vida.

(Cura miraculosa do mesmo pajem)
Outro dos quadros existentes na Capela de Seiça
 
Essa cura miraculosa - porque foi um milagre - foi logo atribuída a Nossa Senhora de Seiça. Por isso D. Afonso Henriques mandou construir, ali perto, um Mosteiro em honra de Santa Maria de Seiça.”
 
 
Esta é uma das muitas lendas que eu conheço sobre o Mosteiro de Seiça - disse a minha Mãe. Mas agora não há tempo para mais lendas. Vamos continuar a procurar o meu gatinho.
Continuámos até à hora do almoço, mas em vão. O Ritinho apareceu no dia seguinte, em casa, cheio de ervas secas agarradas àquele pelinho maravilhoso, que agora pouco tinha de “branco de neve”.
  
Oportunamente contarei outras das várias lendas do Mosteiro de Seiça.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

ESTOU DE LUTO

Image and video hosting by TinyPic

Passou mais de um mês desde que vivi o dia mais triste, infeliz e doloroso de toda a minha vida. Perdi o meu companheiro de tantas horas felizes, de tantos anos de companheirismo e amor.
É costume dizer-se que o tempo tudo cura, mas muito tempo mais terá que decorrer até que a minha dor não seja igual ao que tem sido nestes trinta e tal dias decorridos.
Não, o conformismo ainda não me atingiu, nem ao de leve. Será que chega um dia? Só Deus sabe a resposta.
Lentamente tentarei voltar ao vosso convívio. Penso que o estar perto de vós e do vosso carinho me ajudará .
Aproveito para agradecer publicamente a todos que, quer neste blog quer por email, me manifestaram a sua solidariedade.
O meu amigo João , por email, além de lindas palavras de conforto, enviou-me um poema maravilhoso, que vou partilhar convosco:

"Não fiquem junto à minha campa a chorar.
Eu não durmo e não vou lá estar.
Serei mil ventos a soprar.
Serei neve, diamante a cintilar,
A luz do sol nos grãos a amadurecer.
Serei a doce chuva de Outono, caindo.
Quando acordarem, na calma do alvorecer,
Serei estrela suave, na noite, luzindo.
Não fiquem junto à minha campa a chorar.
Eu não morri, Não vou lá estar."
(poema nativo americano)

Voltarei logo que possível.

domingo, 13 de maio de 2012

DIA DAS MÃES NO BRASIL

Image and video hosting by TinyPic

Parabéns e FELIZ DIA DAS MÃES a todas as Mães brasileiras, sem esquecer as que residem fora do Brasil – Itália, Holanda, Japão…

AH, ESSAS MÃES!

Quando nos vem à mente uma figura de mãe, sempre surge acompanhada de um misto de divino e humano.
É muito rara a pessoa que não se comova diante da lembrança de sua mãe.
Meninos que abandonaram o lar, por motivos variados, e vivem nas ruas, quando evocam suas mães, sentem uma onda de ternura a lhes invadir o ser.
Por que será que as mães são essas criaturas tão especiais? Talvez seja porque elas têm o dom da renúncia...
Uma mãe consegue abrir mão de seus interesses para atender esse serzinho indefeso e carente que carrega nos braços.
Mas as mães também têm outras características muito especiais.
Um coração de mãe é compassivo. A mãe sempre encontra um jeito de socorrer seu filho, mesmo quando a vigilância do pai é intensa.
Ela alivia o castigo, esconde as traquinagens, defende, protege, arruma uns trocos a mais.
Sim, uma mãe sempre tem algum dinheiro guardado, mesmo convivendo com extrema necessidade, quando se trata de socorrer um filho.
Mães são excelentes guarda-costas. Estão sempre alerta para defender seu filho do amiguinho “terrorista”, que quer puxar seu cabelo ou obrigá-lo a emprestar seu brinquedo predileto...
Quando a criança tem um pesadelo no meio da noite, e o medo apavora, é a mãe que corre para acudir.
As mães são um pouco fadas, pois um abraço seu cura qualquer sofrimento, e seu beijo é um santo remédio contra a dor...
Para os filhos, mesmo crescidos, a oração de mãe continua tendo o poder de remover qualquer dificuldade, resolver qualquer problema, afastar qualquer mal.
No entender dos filhos, as mães têm ligação direta com Deus, pois tudo o que elas pedem, Deus atende.
O respeito às mães perdura até nos lugares de onde a esperança fugiu.
Onde a polícia não entra, as mães têm livre acesso, ainda que seja para puxar a orelha do filho que se desviou do caminho reto.
Até mesmo o filho bandido respeita sua mãe, e lhe reverencia a imagem quando ela já viajou para o outro lado da vida.
Existem mães que são verdadeiras escultoras. Sabem retirar da pedra bruta que lhe chega aos braços, a mais perfeita escultura, trabalhando com o cinzel do amor e com o cadinho da ternura.

Ah, essas mães!
Ao mesmo tempo em que têm algo de fadas, também têm algo de bruxas...
Elas adivinham coisas a respeito de seus filhos, que eles desejam esconder de si mesmos.
Sabem quando querem fugir dos compromissos, inventam desculpas e tentam enganar com suas falsas histórias...
É que os filhos se esquecem de que ficaram nove meses no ventre de suas mães, e por isso elas os conhecem tão bem.

Ah, essas mães!

Mães são essas criaturas especiais, que Deus dotou com um pouco de cada virtude, para atender as criaturas, não menos especiais, que são as crianças.
As mães adivinham que a sua missão talvez seja a mais importante da face da Terra, pois é em seus braços que Deus deposita suas pedras preciosas, para que sejam buriladas e fiquem mais brilhantes.
Talvez seja por essa razão que Deus dotou as mães com sensibilidade e valentia, coragem e resignação, renúncia e ousadia, afeto e firmeza.
Todas essas são forças para que cumpram a grande missão de ser mãe.
E ser mãe significa ser co-criadora com Deus, e ter a oportunidade de construir um mundo melhor com essas pedras preciosas chamadas filhos...

Texto da Equipe de Redação do Momento Espírita.

domingo, 6 de maio de 2012

DIA DA MÃE EM PORTUGAL

Glitter Photos
Glitterfy.com - Glitter Gráficos
“- Mãe adora ouvir o barulho da fechadura quando o filho chega.”
“ - Mãe tem cheiro de banho, tem cheiro de bolo, tem cheiro de casa limpa. “



ALTA COSTURA
No tecido da história familiar, as mãos da minha mãe reforçaram as costuras para nos protegerem de qualquer empurrão da vida …
As mãos da minha mãe uniram, com um alinhavo, as partes do molde, sem esquecer que cada uma é diferente da outra e que juntas fazem um todo como a família …
As mãos da minha mãe fizeram bainhas para que pudéssemos crescer sem que não nos ficassem curtos os ideais …

As mãos da minha mãe remendaram os estragos para voltarmos a usar o coração … sem fiapos de ressentimentos …



As mãos da minha mãe juntaram retalhos para que tivéssemos uma manta única que nos cobrisse …
As mãos da minha mãe seguraram presilhas e botões para que estivéssemos unidos e não perdêssemos a esperança …


As mãos da minha mãe aplicaram elásticos para nos podermos adaptar folgadamente às mudanças exigidas pelos anos …
As mãos da minha mãe bordaram maravilhas para que a vida nos surpreendesse com as suas contínuas dádivas de beleza …


As mãos da minha mãe coseram bolsos para guardarmos neles as moedas valiosas das melhores recordações e da nossa identidade …
As mãos da minha mãe, quando estavam quietas… zelavam os nossos sonhos para que alimentassem os nossos ideais com o pó das suas estrelas …


As mãos da minha mãe seguraram-nos com linhas mágicas, quando entravamos na vida … para começar a vesti-la!
As mãos da minha mãe nunca abandonaram o seu trabalho… E sei muito bem que hoje, onde estiverem, fazem orações por nós.

E eu …
Eu beijo-as como se recebesse bênçãos!

sábado, 14 de abril de 2012

CENAS DA VIDA REAL

O MOSTEIRO DE SANTA MARIA DE SEIÇA
Andava eu aí pelos quinze anos quando, nas férias grandes, me tornei amiga de Rosindo.
Filho de Emília, empregada na casa da viúva do Sr. Curado, Rosindo tinha sensivelmente a mesma idade que eu.
Logo que nos conhecemos tornámo-nos amigos, e sempre que minha Mãe visitava a viúva, Dona Flor, (o que acontecia com certa frequência, dado serem muito amigas) eu acompanhava-a. Logo que podíamos escapulíamo-nos para o sótão da enorme casa, e passávamos em revista os incontáveis livros que abarrotavam as prateleiras.
Penso que foi nessa altura que me viciei em leitura, pois todas as vezes levava comigo um livro, a maior parte das vezes às escondidas, e que, da próxima vez, trocava por outro. Alguns não seriam muito apropriados para a minha idade, mas mesmo assim eu “devorava-os”.
À data do seu falecimento o sr. Curado era casado, em segundas núpcias, com Dona Flor, com a qual não teve filhos. Talvez por isso a senhora se afeiçoou tanto ao afilhado Rosindo, a quem tratava como um filho, pondo-o, inclusivamente a estudar, a expensas suas.
Do primeiro casamento existiam dois filhos, cujas relações com a madrasta não eram muito amigáveis. Eram pessoas de fraco carácter e maus instintos, que não trabalhavam, limitando-se a viver dos rendimentos que, em pouco tempo, reduziram a escassas propriedades.
Do Sr. Curado, falecido há uns anos, dizia-se ter “sangue azul”.
O certo é que constava que os seus antepassados eram senhores feudais, dos quais herdara as várias propriedades, que, ao que se dizia à boca pequena, nem sempre teriam sido adquiridas, por eles, da forma mais legal.
Dos seus antecessores mais recentes falava-se de um tio e duas tias, acerca dos quais se contavam histórias de arrepiar os cabelos.
Ao contrário de seu Pai, que, dizia quem o conhecera, era uma boa alma, os outros parentes não tinham qualquer ética ou moral. Do tio constava que formara uma quadrilha com uns quantos malfeitores, que assaltavam quem se aventurava a viajar de noite por sítios ermos ou pinhais. Roubavam tudo o que os viajantes levavam e, caso oferecessem resistência, não hesitavam em matar.
As duas tias, conhecidas por “as senhoras”, não tinham carácter melhor do que o irmão.
Uma delas era, para além de sádica, uma autêntica tirana, maltratando os trabalhadores que labutavam nas suas quintas. Montada a cavalo percorria as suas terras impondo o terror, servindo-se, por vezes, do chicote que sempre a acompanhava, para castigar quem fizesse alguma coisa que não lhe agradava.
A outra irmã, que se dedicava mais à parte administrativa, governava a casa e imperava entre os criados e criadas da casa. Ninfomaníaca, nenhum homem lhe escapava: empregava para trabalhos de casa mais homens do que mulheres, os quais submetia aos seus desejos lascivos.
Contava-se que um belo dia surpreendera uma cena de amor entre uma criada e um criado, que se amavam; mas, porque o criado frequentava a sua cama, ela não hesitou em matar a pobre rapariga e depois metê-la no forno, para servir de exemplo às outras.
Eram verdadeiramente horrorosas as histórias que se contavam, parecendo até inacreditáveis, mas a verdade é que, naquele tempo, eles eram amos e senhores de toda a gente que habitava aquelas terras, e acima da sua autoridade só existia a do rei.
Por estranho que pareça, com tais antecedentes o Sr. Curado era o que se pode chamar uma boa alma, muito amigo dos pobres, a quem auxiliava generosamente.
Sem grande jeito para administrar os bens que herdara, a Dona Flor devia o facto de ainda possuir muitas propriedades que, após a sua morte, os filhos se encarregaram de defraudar.
Numa das incursões ao sótão eu e Rosindo descobrimos as cópias de uns manuscritos que provavam a pertença, aos antecessores do sr. Curado, de uma grande propriedade na povoação de Ribeira de Seiça, concelho de Figueira da Foz, que possui, ainda hoje, recantos magníficos.

Ali existiu, em tempos, um convento, o Mosteiro de Santa Maria de Seiça. Uma capela, úníca no país por ser octogonal,
(Capela de Nossa Senhora de Seiça)
faz parte da história do Mosteiro de Santa Maria de Seiça, na qual existem pinturas sobre as lendas relacionadas com a construção do Mosteiro de Montemor-o-Velho.

Com a curiosidade ao rubro, tanto procurámos que acabámos por encontrar um livrinho, com um aspecto antiquíssimo, que contava a história do Mosteiro, cujas terras teriam sido concedidas por D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal.
Como sempre fui apaixonada por História, especialmente História de Portugal, levei o tal livrinho para casa e copiei uma grande parte dos dados lá contidos, que ainda conservo.
Não vou transcrevê-los para aqui porque acredito que não teriam interesse para a maior parte dos meus leitores.

Adenda, a propósito do comentário da minha querida amiga São:
" De arquitectura única entre as construções sacras em Portugal, esta capela apresenta uma forma octogonal, de estilo barroco, cercada de uma colunada dórica, suportando um entablamento do qual sobressai o corpo da capela como se se tratasse de um andar superior em que cada fachada apresenta uma janela, num total de 8." - Informação Wikipedia
Talvez esta informação se deva ao facto de a capela ter sido construída no ano de 850, e talvez, nessa data, fosse a única existente em Portugal

sábado, 24 de março de 2012

NÃO VEIO PARA FICAR

Não, o «Afonsinhos» não veio para ficar.
Tal como informei no final do último post, o texto que apresentei é apenas um excerto daquele que será… talvez… quem sabe?... um dia… um pequeno romance, no qual constarão alguns episódios familiares.
Não se trata de uma biografia, mas da narrativa, mais ou menos romanceada, da vida de pessoas conhecidas e seus ancestrais, e em que, num ou noutro momento, os intervenientes se cruzaram com familiares da autora.
O projecto está, ainda, apenas em embrião, não havendo, de momento, a certeza de se algum dia chegará ao prelo. Foi iniciado há algum tempo mas, perante pedidos (e insistências…) vário(a)s para que eu escrevesse as minhas “memórias” de África, o «Afonsinhos» foi relegado para segundo plano.

Como é do conhecimento de algumas pessoas, por motivos relacionados com problemas de saúde a nível familiar, o tempo de que disponho, por agora, é muito pouco, o que, por um lado tem atrasado as “histórias” de África, e por outro não me tem permitido publicar no blog com a regularidade e pontualidade de que eu fazia questão.
Sei que isso não vai afastar as amigas e os amigos, que são da melhor qualidade Image and video hosting by TinyPic
 
É essa certeza que me dá força para ir continuando, e não fechar o blog, pura e simplesmente.
Mas… voltando ao «Afonsinhos», o que vos queria dizer é que o ‘enredo’ não irá ser publicado, na íntegra, no blog, como aconteceu com o meu primeiro romance. Esse foi apresentado e
m vários episódios (cerca de 50), e só posteriormente decidi transformá-los em livro.
O «Afonsinhos» começou logo a ser escrito com a intenção de ser publicado. O excerto que aparece no meu último post serviu apenas para vos dar uma ideia do género do que me propus escrever.
Não postei o que será o início da obra, como seria lógico, porque ainda não estava bem delineado. Havia pormenores acerca dos quais eu tinha dúvidas, que entretanto consegui esclarecer.
Vou fazê-lo agora, mostrando-vos o que, na versão final, irá figurar imediatamente antes do trecho que é já do vosso conhecimento. (Agora é que se pode dizer que “pus o carro à frente dos bois”…)
O resto ficará no “segredo dos deuses”…

A SAGA DOS AFONSINHOS (título provisório…)


Na primeira metade do século XIX os senhores de Rebordões, vilarejo nos arredores de Barcelos, possuíam vastas propriedades, uma casa solarenga, e muitos assalariados ao seu serviço.
Naquele tempo, nessa zona, mais do que em qualquer outro ponto do País, as condições da vida do povo eram semelhantes às da Idade Média.
Havia um “senhor feudal” que em tudo mandava, possuidor de todas as terras num raio de vários quilómetros.
O analfabetismo reinava entre o povo; eram raríssimas as pessoas que sabiam soletrar algumas palavras.
Trabalhavam de sol a sol nas terras do “fidalgo” que, ao contrário da generalidade dos outros proprietários, era pessoa de bom coração que não faltava com o pagamento, ao qual por vezes juntava alguma ajuda, principalmente quando sabia que havia doença na família do trabalhador.
Ninguém sabia ao certo o seu nome; todos o conheciam pelo “senhor de Rebordões”, e quando se lhe dirigiam tratavam-no por “fidalgo”.
Fora registado com o nome de Rodrigo de Rebordões. No seio familiar era tratado por Rodriguinho, obedecendo a um hábito muito vulgar no Norte do País, principalmente naquela época, em que as terminologias “inha” e “inho” eram sinal de respeito e deferência.
Sua esposa, Dona Teresa – dona Terezinha, como era tratada – era uma senhora muito bondosa, de saúde débil, que dedicava muito do seu tempo a visitar as mulheres que haviam sido mães. Acomodada na sua charrete, percorria as terras de sua pertença, o que, por vezes, demorava horas. As distâncias eram relativamente grandes, especialmente para aquele meio de transporte e os rudes caminhos que havia a percorrer.
Às parturientes levava “mimos”, frutas e bolos a que, de outro modo, nunca teriam acesso; dava-lhes indicações sobre a forma de tratarem melhor os seus bebés, aos quais oferecia casaquinhos e carapins tricotados por si mesma. Nunca se esquecia de levar uma guloseima para os mais velhinhos, geralmente “confeitos”, uma espécie de rebuçados redondos, de superfície não lisa mas irregular, com “altos e baixos”, de cores variadas, feitos com açúcar e farinha. Para as crianças era uma verdadeira festa.
Dona Terezinha era adorada por toda a gente.
Carregava consigo um grande desgosto: não poder oferecer ao marido mais filhos, além do único que tinham.
Depois de uma gravidez bastante atribulada Dona Tereza dera à luz um belo rapaz que era o orgulho dos pais. Na altura o médico, amigo da família, vindo directamente do Porto para acompanhar a gestação, aconselhara a evitar futuras gravidezes, que poderiam pôr em risco a vida da Dona Tereza. Por muito que gostasse de ter mais filhos, o marido opunha-se terminantemente a sacrificar a esposa, que adorava.
Seu filho único foi baptizado com o nome de Pedro Afonso.
Sendo o “ai Jesus” da família e dos trabalhadores que o apaparicavam ao extremo, passou a ser o menino Afonsinho, nome que carregou até depois de adulto, transformando-se então no “senhor Afonsinho”.
Sabendo-se como trabalhavam os registos naquele tempo, não é de estranhar que, quando contraiu matrimónio, figurasse no livro de registos como Pedro Afonsinho.

O linho cultivava-se por toda a região do Minho, mas talvez com maior incidência na zona de Barcelos. As fábricas de fiação e tecelagem começavam a proliferar.
O senhor de Rebordões ligou-se a uma fábrica de têxteis, que existia em Braga, aumentando consideravelmente o seu património.

(Segue-se o que é já do vosso conhecimento:
… Tendo recebido uma educação mais aprimorada do que seu pai, etc. etc. etc…)




quinta-feira, 8 de março de 2012

A SAGA DOS AFONSINHOS

A SAGA DOS AFONSINHOS
(Foto de minha propriedade)

...“Tendo recebido uma educação mais aprimorada do que seu pai, Afonsinho tinha gostos mais requintados, no que era secundado por sua mulher, Beatriz.
Por morte do pai, e com a mãe já anteriormente falecida, Afonsinho, a instâncias da mulher, decidiu ir viver para a cidade, onde se dedicou ao comércio dos têxteis, de cuja fábrica era sócio.
 Contratou capatazes para tomarem conta das suas propriedades, mantendo o solar impecavelmente limpo, pronto a habitar todas as vezes que ali se deslocavam, e onde passavam dois meses por ano, na altura das colheitas.
Encontravam-se na cidade quando lhes nasceu o primeiro filho, a quem deram o nome de Nicolau, que foi registado como Nicolau Afonsinho.
Dois anos passados Beatriz deu à luz uma menina que foi o enlevo da família. Estava, porém, destinado que não passaria muito tempo neste mundo, e, com sete anos de idade, a menina contraiu meningite e morreu.
Nicolau passou a ser tratado com cuidados redobrados, especialmente por parte da mãe, que receava que ele contraísse alguma doença fatal, o que não se verificou.
Bastante inteligente estudou com mestres em casa, adquirindo uma cultura muito acima da média para aquele tempo. Com esta educação, a somar aos seus atributos físicos, não teve dificuldade em escolher noiva entre as meninas mais prendadas da sociedade.
A sua escolha recaiu sobre Rita, uma jovem bonita, de pequena estatura mas de carácter forte.

Rita pertencia a uma conceituada família que possuía várias fábricas têxteis, especialmente de sedas, cujas origens se perdiam nos tempos. Dizia-se, em certos círculos, que possuíam sangue azul. Descendessem ou não de nobres, a verdade é que os pais de Rita nunca o apregoaram, sendo pessoas acessíveis, bastante simpáticas, embora frequentassem a alta sociedade.
Constava que as fábricas lhes garantiam um alto rendimento, e o nível de vida que mantinham assim o indicava.

Encontraram-se num baile no Ateneu quando Rita se apercebeu do interesse que despertara em Nicolau; sentiu-se envaidecida. Nicolau era bastante requisitado pelas mães das jovens casadoiras, já que a sua fama de grande fortuna o precedia onde quer que fosse.
Após as apresentações formais das duas famílias, Nicolau e Rita encetaram um namoro que decorreu em grande harmonia e se prolongou por dois anos.
Com uma cerimónia requintada, sem ser faustosa, uniram-se em matrimónio. Rita adoptou o nome do marido, como era de praxe obrigatória naquela época, passando ambos a formar o casal Afonsinho.

Com seus ancestrais burgueses do Norte do país, por um lado, e o rendimento das fábricas de sedas, por outro, a família Afonsinho era, em finais do século XIX, o que se poderia designar por abastada.
Com assinatura para a Temporada de Ópera, frequentava Concertos, Teatro, sempre nos melhores camarotes, e todos os eventos restritos a pessoas de alto nível social.
Angélica nasceu, assim, no seio de uma família considerada de alta sociedade.
Desde muito cedo Angélica revelou um carácter muito forte, rebelde, difícil de domar.
A sua única irmã, Irina, que no fundo ela adorava, foi sempre vítima da sua prepotência. Sobre ela exercia um domínio absoluto.
Apesar dos esforços da sua mãe, Rita, que a tratava com uma certa severidade, tentando inculcar-lhe hábitos de obediência, Angélica sempre acabava por fazer o que queria.
Passou a infância, a adolescência e a juventude impondo a sua vontade. Só à mãe obedecia, ainda que de má vontade.
O pai, menos severo, acabava por sucumbir aos seus desejos.
A irmã, Irina, limitava-se a viver à sua sombra, anulando-se para lhe agradar.
Muito jovem Angélica apaixonou-se por um desconhecido que avistara quando assistia a um concerto. Achou-o lindo, e logo o seu coração se lhe rendeu.
Estava-se na primeira década do século XX.
Como era de norma naquele tempo, o pai de Angélica tratou de colher informações acerca do homem que roubara o coração de sua filha.
O que soube não lhe agradou.
De condição social inferior e hábitos pouco recomendáveis, frequentava concertos e bailes a reboque dum amigo, na mira de arranjar noiva rica.
Conferenciando com Rita, sua mulher, mandaram chamar a filha. E começou a difícil tarefa de tentar demovê-la da sua grande paixão.
Obstinada, como sempre, Angélica não dava ouvidos aos conselhos acertados de seus pais.
Às escondidas, de conivência com uma das criadas, mantinha vasta correspondência com o seu amado. E assim se passaram uns meses.

Um dia em que o pai fora tratar dos seus negócios e a mãe se deslocara à modista, Angélica, acobertada pela criada, saiu de casa para um encontro com o namorado, que se encontrava de sobreaviso.
Na caleche do amigo, que a pusera à sua disposição, ambos depressa se afastaram da cidade, encaminhando-se para uma pequena paróquia, onde um humilde pároco de aldeia os aguardava e celebrou o seu casamento.
Horas mais tarde Angélica regressou a casa de seus pais, acompanhada do seu recente marido.”

Excerto do meu projecto literário com o título provisório «A saga dos Afonsinhos».

FELIZ DIA DA NULHER

Image and video hosting by TinyPic