domingo, 5 de junho de 2011

CARTA DO ZÉ AGRICULTOR PARA O LUÍS DA CIDADE


Há uns anos (dois ou três) recebi dum amigo brasileiro um texto que achei deveras interessante, e por isso guardei-o.
Trata-se de uma carta escrita por “um” Zé ao seu amigo Luis.
Embora não sendo atuaL… penso que não perdeu atualidade.
Ora vejam:

Prezado Luís, quanto tempo.

Eu sou o Zé, teu colega de ginásio noturno, que chegava atrasado, porque o transporte escolar do sítio sempre atrasava, lembra né? O Zé do sapato sujo? Tinha professor e colega que nunca entenderam que eu tinha de andar a pé mais de meia légua para pegar o caminhão por isso o sapato sujava.

Se não lembrou ainda eu te ajudo. Lembra do Zé Cochilo... hehehe, era eu. Quando eu descia do caminhão de volta pra casa, já era onze e meia da noite, e com a caminhada até em casa, quando eu ia dormi já era mais de meia-noite. De madrugada o pai precisava de ajuda pra tirar leite das vacas. Por isso eu só vivia com sono. Do Zé Cochilo você lembra, né, Luis?

Pois é. Estou pensando em mudar para viver aí na cidade que nem vocês. Não que seja ruim o sítio, aqui é bom. Muito mato, passarinho, ar puro... Só que acho que estou estragando muito a tua vida e a de teus amigos aí da cidade. Tô vendo todo mundo falar que nós, da agricultura familiar, estamos destruindo o meio ambiente.

Veja só. O sítio de pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que parar de estudar) fica só a uma hora de distância da cidade. Todos os matutos daqui já têm luz em casa, mas eu continuo sem ter porque não se pode fincar os postes por dentro duma tal de APPA que criaram aqui na vizinhança.

Minha água é de um poço que meu avô cavou há muitos anos, uma maravilha, mas um homem do governo veio aqui e falou que tenho que fazer uma outorga da água e pagar uma taxa de uso, porque a água vai se acabar. Se ele falou deve ser verdade, né, Luís?

Pra ajudar com as vacas de leite (o pai se foi, né .) contratei Juca, filho de um vizinho muito pobre aqui do lado. Carteira assinada, salário mínimo, tudo direitinho como o contador mandou. Ele morava aqui com nós num quarto dos fundos de casa. Comia com a gente, que nem da família. Mas vieram umas pessoas aqui, do sindicato e da Delegacia do Trabalho, elas falaram que se o Juca fosse tirar leite das vacas às 5 horas tinha que receber hora extra noturna, e que não podia trabalhar nem sábado nem domingo, mas as vacas daqui não sabem os dias da semana ai não param de fazer leite. Ô, bichos aí da cidade sabem se guiar pelo calendário?

Essas pessoas ainda foram ver o quarto de Juca, e disseram que o beliche tava 2 cm menor do que devia. Nossa! Eu não sei como encumpridar uma cama, só comprando outra, né, Luís? O candeeiro eles disseram que não podia acender no quarto, que tem que ser luz elétrica, que eu tenho que ter um gerador pra ter luz boa no quarto do Juca.
Na Capital também é assim né, Luis? Tua empregada vai pra uma casa boa toda noite, de carro, tranquila. Você não deixa ela morá nas tal favela, ou beira de rio, porque senão te multam ou o homem vai aí mandar você dar casa boa, e um montão de outras coisa. É tudo igual aí né?
Disseram ainda que a comida que a gente fazia e comia juntos tinha que fazer parte do salário dele. Bom Luís, tive que pedir ao Juca pra voltar pra casa, desempregado, mas muito bem protegido pelos sindicatos, pelo fiscais e pelas leis. Mas eu acho que não deu muito certo. Semana passada me disseram que ele foi preso na cidade porque botou um chocolate no bolso no supermercado. Levaram ele pra delegacia, bateram nele e não apareceu nem sindicato nem fiscal do trabalho para acudi-lo.

Depois que o Juca saiu eu e Marina (lembra dela, né? casei) tiramos o leite às 5 e meia, ai eu levo o leite de carroça até a beira da estrada onde o carro da cooperativa pega todo dia, isso se não chover. Se chover, perco o leite e dou aos porcos, ou melhor, eu dava, hoje eu jogo fora.

Os porcos eu não tenho mais, pois veio outro homem e disse que a distância do chiqueiro para o riacho não podia ser só 20 metros. Disse que eu tinha que derrubar tudo e só fazer chiqueiro depois dos 30 metros de distância do rio, e ainda tinha que fazer umas coisas pra proteger o rio, um tal de digestor. Achei que ele tava certo e disse que ia fazer, mas só que eu sozinho ia demorar uns trinta dia pra fazer, mesmo assim ele ainda me multou, e pra poder pagar eu tive que vender os porcos as madeiras e as telhas do chiqueiro, fiquei só com as vacas. O promotor disse que desta vez, por esse crime, ele não ia mandar me prender, mas me obrigou a dar 6 cestas básicas pro orfanato da cidade. Ô Luis, ai quando vocês sujam o rio também pagam multa grande, né?

Agora pela água do meu poço eu até posso pagar, mas tô preocupado com a água do rio. Aqui agora o rio todo deve ser como o rio da capital, todo protegido, com mata ciliar dos dois lados. As vacas agora não podem chegar no rio pra não sujar, nem fazer erosão. Tudo vai ficar limpinho como os rios aí da cidade. A pocilga já acabou, as vacas não podem chegar perto. Só que alguma coisa tá errada, quando vou na capital nem vejo mata ciliar, nem rio limpo. Só vejo água fedida e lixo boiando pra todo lado.

Mas não é o povo da cidade que suja o rio, né, Luís? Quem será? Aqui no mato agora quem sujar tem multa grande, e dá até prisão. Cortar árvore então, Nossa Senhora!. Tinha uma árvore grande ao lado de casa que murchou e tava morrendo, então resolvi derrubá-la para aproveitar a madeira antes dela cair por cima da casa.

Fui no escritório daqui pedir autorização, como não tinha ninguém, fui no Ibama da capital, preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vim fazer um laudo, para ver se depois podia autorizar. Passaram 8 meses e ninguém apareceu pra fazer o tal laudo ai eu vi que o pau ia cair em cima da casa e derrubei. Pronto! No outro dia chegou o fiscal e me multou. Já recebi uma intimação do Promotor porque virei criminoso reincidente. Primeiro foi os porcos, e agora foi o pau. Acho que desta vez vou ficar preso.


Tô preocupado Luis, pois no rádio deu que a nova lei vai dá multa de 500 a 20 mil reais por hectare e por dia. Calculei que se eu for multado eu perco o sítio numa semana. Então é melhor vender, e ir morar onde todo mundo cuida da ecologia. Vou para a cidade, ai tem luz, carro, comida, rio limpo. Olha, não quero fazer nada errado, só falei dessas coisas porque tenho certeza que a lei é pra todos.

Eu vou morar aí com vocês, Luís. Mais fique tranquilo, vou usar o dinheiro da venda do sítio primeiro pra comprar essa tal de geladeira. Aqui no sítio eu tenho que pegar tudo na roça. Primeiro a gente planta, cultiva, limpa e só depois colhe pra levar pra casa. Ai é bom que vocês e só abrir a geladeira que tem tudo. Nem dá trabalho, nem planta, nem cuida de galinha, nem porco, nem vaca é só abri a geladeira que a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem precisá de nós, os criminosos aqui da roça.

Até mais Luis.

Ah, desculpe Luis, não pude mandar a carta com papel reciclado pois não existe por aqui, mas me aguarde até eu vender o sítio.


Esta carta, apenas adaptada por Barbosa Melo, foi escrita por Luciano Pizzatto, engenheiro florestal, especialista em direito sócio ambiental e empresário, diretor de Parques Nacionais e Reservas do IBDF – IBAMA 88 – 89, detentor do primeiro Prémio Nacional de Ecologia

Todos os fatos e situações de multas e exigências são baseados em dados verdadeiros. A sátira não visa atenuar responsabilidades, mas alertar o quanto o tratamento ambiental é desigual e discricionário entre o meio rural e o meio urbano.)

Pâmela Gallas Buche
Tecnóloga Ambiental.


domingo, 29 de maio de 2011

MANTA DE RETALHOS

(Reposição de post publicado em 10.08.08, ligeiramente alterado)

Quando se escreve “ao correr da pena”, como se de uma amena conversa se tratasse, corre-se o risco de usar expressões que podem ser mal interpretadas por algum leitor mais atento.
Vem isto a propósito do comentário que um gentil visitante e comentador fez ao post anterior,

- “Sei que a sua intenção não foi dizer ""todos nós"

pelo facto de eu ter escrito “todos nós”.

Daí que eu tenha alterado este início de conversa, que começava assim:

- Todos nós sabemos que uma manta de retalhos é feita de…

A verdade é que nem TODOS sabem como se faz ; apenas alguns, mais provavelmente algumas… saberão que uma manta de retalhos é confeccionada com pequenos bocados de tecido, unidos aleatoriamente…

Mas deixemos isso para a próxima aula de corte e costura!
Vamos ver o que tem a dizer-nos esta simpática velhinha.

SOU UMA VELHINHA GAITEIRA

Sou uma velhinha gaiteira. E daí?

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Isso incomoda-vos? Lamento!
Preferia que vos agradasse. Mas não posso deixar de dizer que “é para o lado que durmo melhor”.
Esta é uma expressão que usam os meus bisnetos - que, aqui para nós, também me chamam, com ternura, “velhotinha gaiteira” – quando querem significar que não se importam com qualquer coisa..


Gosto de vestir roupas de cores garridas, alegres. E daí?


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A claridade faz bem aos ossos, ajuda a combater a osteoporose. O ideal mesmo é a luz do sol, pelo menos quinze minutos por dia. Mas nos dias sem sol, ou para quem não pode expor-se aos raios solares, a claridade é um bom substituto.
A alegria é indispensável à vida. É a ela que devo a minha longevidade.
Não sabem que existem “clínicas do riso” onde as pessoas com uma certa idade vão, apenas rir, quinze minutos todos os dias? Vejam como elas são felizes!
“A alegria é um raio de luz, que deve permanecer sempre aceso, iluminando todos os nossos actos, servindo de guia a todos que nos rodeiam”
A vida é muito importante para ser levada a sério – dizia Óscar Wilde.

Gosto de passear no parque,

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ouvir o chilrear dos passarinhos. E daí?
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Quem disse que os parques só podem ser usados pelos meninos que jogam à bola ou brincam ao pião?
Ou pelas meninas, carregando as sua bonecas, brincando às mamãs?
Ou pelas criadas, impecáveis nas suas fardas acabadas de engomar, aventalzinho branco bordado, empurrando os carrinhos dos bebés, que vêm tomar ar fresco?

Esperem! Estou a fazer uma grande confusão…isto acontecia há muitos anos! Deixei-me embalar pelas recordações…
Estou aqui sentada há tanto tempo e ainda não ouvi o cantar de um pássaro! Ouço, sim, as buzinas dos carros, que fazem um barulho infernal.
E o ar fresco e perfumado? Não se sente…Há, isso sim, um cheiro horrível do gás que sai dos tubos de escape.
E as crianças, as poucas que por aqui se vêem, estão agarradas àquelas maquinetas que lhes entortam os olhos. Mexem constantemente os dedinhos, mordem os lábios nervosamente, e não se apercebem de nada à sua volta…



Preocupo-me com a saúde. E daí?

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Vou ao médico regularmente. Tomo os medicamentos que ele me receita. Faço os exames que prescreve. Sigo, direitinho, todos os seus conselhos.

Dizem-me os mais jovens:
- Eu vendo saúde! Sou forte! Para quê perder tempo com médicos?

Eu também já fui jovem, mas não pensava assim. Sempre me cuidei. Continuem com essa filosofia, e em 2028 cá estaremos, e então conversamos. Bom, EU sei que vou cá estar. Vocês…não sei! Arrisco-me a falar com os vossos ossos, talvez já feitos em pó.
A juventude de agora não pensa! “Esta juventude um espanto!”

Sou vaidosa. E daí?

Olho-me no espelho e vejo um rosto sorridente. As rugazinhas que o enfeitam sorriem comigo. Foi uma oferta do tempo, por tanto que eu soube sorrir.
Os olhos reflectem ternura. E amor. Muito amor. Todo o amor que dei e recebi ao longo de tantos anos.
O peito não é altivo como antigamente…Foi a amamentar os filhos que ele perdeu a altivez. Como os meus filhos gostavam do leitinho da mamã! Era vê-los crescer, fortes, saudáveis, risonhos!
Não há nada como o leite materno para alimentar os bebés.
Hoje há muitas mulheres que não querem amamentar. Dizem que não querem “estragar” o corpo! Como se um filho pudesse estragar a sua mãe!
São jovens, ainda não sabem que, depois de carregarem um filho no ventre durante nove meses, ele ficará para toda a vida no coração.
E esse, o coração, é que é importante não deixar estragar.

Estou a ficar desmemoriada. E daí?

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A semana passada fui ao cinema ver um filme qualquer. Já nem me lembro do nome…dos artistas muito menos. Sei que são muito conhecidos, famosos, mas não me recordo dos nomes. Mas isso que importa? Daqui por algum tempo ninguém se lembrará, também! Eu apenas me antecipo a esquecê-los.
Sei é que havia um cheiro forte, enjoativo, no ar… Pipocas, era isso!
E aquele ruído de fundo – crr, crr, crr…Imaginem o som de duzentas ou trezentas pessoas – não sei quantas comporta uma sala de cinema - a mastigar pipocas!
E o ronco do vizinho do lado que não apreciava o género de filmes de…
Acção? Suspense? Policial? Sei lá!...
Não me lembro. E daí?

OBS. – Para que não me interpretem mal… entenda-se “gaiteira” por – alegre, foliona, brincalhona (adjectivo) e não «tocadora de gaita» (substantivo).


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domingo, 22 de maio de 2011

FALTA DO POST HABITUAL e PRÉMIO "BLOG DA SEMANA"

Da minha querida amiga Lindalva recebi este selinho.
Não é lindo?
Obrigada, amiga.

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Da querida amiga Ana Martins
recebi este selinho, que muito agradeço, e partilho convosco.
Obrigada, minha amiga. Adorei!

Parabéns Mariazita, ser Vencedora do prémio blog da semana, não é para qualquer um!


O meu presente para si Mariazita, não sou grande coisa a fazer selos, mas faço-os
 com carinho e alegria. Oferecê-los então, é um prazer!

Beijinho,





PRÉMIO BLOG DA SEMANA
É com uma certa emoção que vos comunico que, para minha grande surpresa, a «CASA DA MARIQUINHAS» ganhou o prémio “Blog da Semana”, gentilmente atribuído pelo BLOG DO SUPER WILL

Tal não teria sido possível sem o vosso apoio, que agradeço de coração.
Sei que todos se esforçaram, cada um dentro das suas disponibilidades.
Contudo, permitam-me um destaque especial para as minhas amigas Sãozita e Ana Martins que não mediram esforços, sacrificando os seus tempos de lazer com a finalidade de “somar votos”.
Como minha homenagem a todos vós gostaria que aceitassem este selinho.

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Podem ir buscar-me AQUI

O MEU “BEM HAJA!” A TODOS


FALTA DO POST HABITUAL

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Queridas amigas e queridos amigos
Hoje não apresentarei o meu habitual post de domingo, pelo motivo que passo a expor:
Como é já do conhecimento de alguns de vós, na passada sexta feira fui submetida a uma pequena cirurgia ao olho direito.
Não vou maçar-vos com detalhes mas, como sei que este tipo de coisas causa uma certa impressão nalgumas pessoas, (não é verdade, Cris?) vou tentar desmistificar o que não é assim tão grave como pode parecer.
O problema que tenho deve-se a erro médico – pelo menos foi esta a informação que me deram três médicos especialista de renome, um dos quais dos Estados Unidos.
Numa cirurgia anterior, há oito anos, as coisas não correram muito bem, provavelmente por inépcia da pessoa que estava a operar. O seu mau trabalho deu origem a um hematoma macular, dano quase irreversível, que me causa pouca acuidade visual no olho direito.
Entre o tempo que decorreu desde a cirurgia inicial até esta última intervenção fiz vários tratamentos, que têm implicado largo dispêndio monetário. Os resultados não têm sido satisfatórios, mas para este problema não há grandes soluções.
O tratamento que agora fiz (2ª.fase) consiste numa injecção intra vítreo, aplicada directamente na mácula (retina).
Esta será a minha última tentativa. Nos próximos três ou quatro meses poderá, ou não, ocorrer alguma melhoria.
Resta aguardar calmamente.

Alguns de vós estarão, talvez, a interrogar-se porque não agi contra a pessoa que me provocou este problema.
Em primeiro lugar: já alguém viu algum médico, acusado de negligência médica, ser condenado? Eu desconheço, mas se existe é, com certeza, uma raríssima excepção.
Por outro lado, para se dar início a uma “acção acusatória”, é necessário estar-se bem precavido com provas irrefutáveis.
Algum dos médicos que me informou da causa do meu problema ocular estaria disposto a testemunhar? É claro que não.
Isto não é o mesmo que ser operado às pernas e estas ficarem tortas, ou a esquerda trocada com a direita. É um problema que nem todos os oftalmologistas estarão aptos a detectar. Tem que ser, no mínimo, especializado em retinas.
Por tudo isso e mais o que não digo… resolvi seguir o conselho de Franz Kafka, escritor checoslovaco, autor de “O COVIL” e “METAMORFOSE”, entre outros, quando disse:
- “Em luta contra o resto do mundo, aconselho que você se coloque ao lado do resto do mundo”.

Pelo exposto faltou-me tempo e “visão” para compor o post habitual.

Obrigada pela vossa compreensão.
Até ao próximo domingo

domingo, 15 de maio de 2011

PROBLEMAS COM O BLOG/NOMEAÇÃO PARA O SELO “BLOG DA SEMANA”

A exemplo do que aconteceu com a maioria ( se não a totalidade) dos usuários do Blogger, estive sem poder aceder ao meu blog uns quantos dias da última semana.
A explicação fornecida pelo Blogger foi a de que estava a proceder a manutenção. O que é estranho é que, em consequência dessa acção, tivessem “desaparecido” muitos comentários, no último post – não fui a única a quem tal aconteceu.
Procurei recuperá-los e recolocá-los na página de comentários. Não posso garantir que o tenha feito na totalidade… Por isso peço desculpa se alguém, eventualmente, verificar a falta de comentário que tenha feito.
Para além do inconveniente referido, no meu caso acresce que o blog ficou com qualquer defeito que não me permitia aceder a ele como autora, apenas como visitante, ao mesmo tempo que não me deixava comentar noutros blogs, a não ser como “anónimo” – o que não é possível em muitos blogs, incluindo o meu.
Só no sábado à tarde o meu filho conseguiu pôr o blog a funcionar normalmente, o que me permitiu (re)colocar os comentários perdidos.

Todos estes “percalços” contribuíram para uma certa irritação e falta de disposição para preparar o habitual post de domingo.

Peço que me desculpem, mas hoje vou limitar-me a dar-vos conhecimento de um facto que, no meio de toda esta trapalhada, me surpreendeu e encheu de orgulho:
A amiga Van, do blog RETALHOS DO QUE SOU
Indicou o meu blog para o selo “BLOG DA SEMANA, atribuído pelo BLOG DO SUPER WILL
A seguir transcrevo a comunicação que o Will publicou na página de comentários do post anterior.

Will Lukazi disse...
Olá! Tudo bem contigo?
Tenho o prazer de informar que o teu BLOG foi indicado pela Van, do Blog ‘’RETALHOS DO QUE SOU’’ http://retalhosdoquesou.blogspot.com/ ( atual vencedor ) , para concorrer ao Selo ‘’BLOG DA SEMANA ‘’em votação que se inicia hoje amanhã 14/05/2011 às 12:00 HORAS e ficará aberta até o dia 21/05/2011 no BLOG DO SUPER WILL http://wwwwillblog.blogspot.com, idealizador do Selo, tendo por objetivo homenagear e promover a confraternização blogueira através da troca de links, divulgação e experiências, bem como expandir os conhecimentos em relação aos habitantes e amigos da Blogosfera...acreditem:eles existem mesmo!!!
A ferramenta de votação se localizará e estará disponível do lado esquerdo( sidebar) BLOG DO SUPER WILL, logo abaixo dos SEGUIDORES.
Outras informações na página BLOG DA SEMANA no BLOG DO SUPER WILL http://wwwwillblog.blogspot.com
Prestigie e divulgue essa idéia !
Ao final da votação, independente do resultado, garantimos que sua Blogosfera se expandirá e jamais será a mesma.
Não deixe de participar dessa homenagem àqueles que de alguma forma contribuem para a vida inteligente e pensante na REDE. Você e seu Blog estão, sem dúvida nenhuma, incluídos entre eles. E como de costume após ler e degustar um pouco de seu Blog, informo também que estou seguindo-o e visitarei mais vezes.
Parabéns pela indicação e boa sorte!!!

Will Lukazi


(Se quiser ver na íntegra, pode fazê-lo na página dos comentários do post anterior).

A quem quiser votar no meu blog, desde já o meu sincero agradecimento.
Ah! E pode-se votar todos os dias… Mãos à obra!!!

domingo, 8 de maio de 2011

A MENINA GORDA

50.000 VISITAS
Ao completar as 50.000 visitas, agradeço a quantos ajudaram a atingir este lindo número, oferecendo este selinho.
LEVE-ME CONSIGO. ESTOU AQUI

Um grande “Bem haja!” a todos.

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DIA DAS MÃES NO BRASIL (08.05.2011)
O MEU BEIJO PARA TODAS AS MÃES BRASILEIRAS

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Ligue o vídeo e acompanhe o poema, logo abaixo:



Esta menina gorda, gorda, gorda,
Tem um pequenino coração sentimental.
Seu rosto é redondo, redondo, redondo;
Toda ela é redonda, redonda, redonda,
E os olhinhos estão lá no fundo a brilhar.

É menina e moça. Terá quinze anos?
Umas velhas amigas de sua mamãe
Dizem sempre que a encontram, num êxtase longo:
“Como esta menina está gorda, bonita!”
“Como esta menina está gorda, bonita!”
E ela ri de prazer. Seu rosto redondo
Esconde os olhinhos no fundo, a brilhar.

Às vezes no quarto,
Diante do espelho;
Ao ver-se tão gorda, tão gorda, tão gorda,
Ela pensa nas velhas amigas de sua mamãe
E também num rapaz
Que a olha sorrindo,
Quando toda manhã ela vai para a escola:
“– Ele gosta de mim… Ele gosta de mim.
Eu sou gorda, bonita…”
E os dedos gordinhos pegando nas tranças
Têm carícias ingénuas
Diante do espelho.

Rui Ribeiro Couto
(Poema tornado conhecido através da declamação de João Villaret)


Rui Ribeiro Couto

Rui Ribeiro Couto (Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto), brasileiro, foi magistrado, diplomata, jornalista, contista, romancista e poeta .
Nasceu em 12 de Março de 1898, em Santos, e faleceu com 65 anos de idade, em Paris, a 30 de Maio de 1963.
Na sua qualidade de escritor e jornalista colaborou com o Jornal do Brasil e O Globo, e ainda com A Província, de Pernambuco.
Em 1952 foi embaixador do Brasil na Jugoslávia, carreira bem sucedida e que exerceu até se aposentar.
Em 1958 conquistou, em Paris, o Prémio Internacional de Poesia, com o livro “Le jour est long”, que escreveu em francês.
Deixou uma vasta obra, tanto em poesia como em prosa; desta destaca-se A Cabocla adaptada duas vezes para a televisão.

João Villaret



João Villaret (João Henrique Pereira Villaret) nasceu em Lisboa em 10 de Maio de 1913.
Nasceu com a vontade e a capacidade de, em cima do palco, encantar o público.
Foi actor, encenador e declamador.
Depois de frequentar o Conservatório Nacional, começou por integrar o elenco da companhia de teatro lisboeta Rey Colaço - Robles Monteiro.
Em 1954 foi à cena, no extinto Teatro Avenida, em Lisboa, a peça “Esta noite chover prata” que obteve um êxito estrondoso, e ainda hoje é recordada com saudade por quem teve a sorte de a ela assistir. E quem não assistiu, vive hoje das descrições apaixonadas dos que lá estiveram.
No cinema trabalhou com Leitão de Barros em filmes como “Inês de Castro”, “Camões”, “Bocage”… e aquela que terá sido a sua melhor interpretação de sempre em cinema, a de Telmo Pais, em Frei Luís de Sousa (1950).
No final dos anos 50 (século passado) ingressou na televisão.
E assim nasceu a estrela João Villaret.
A experiência que trazia de teatro, cinema e programas radiofónicos contribuiu para que os programas na televisão se tornassem um êxito sem precedentes,
Ele dizia poesia como ninguém. É, sobretudo por isso, que é recordado
Aos domingos ninguém deixava de vê-lo declamar poemas dos maiores autores nacionais, sobretudo Fernando Pessoa e António Botto, dos quais era amigo.
Ficaram célebres, entre outras, as suas interpretações de:
- Procissão, de António Lopes Ribeiro (1955)
- Cântico negro, de José Régio
- O menino de sua mãe, de Fernando Pessoa
De mão no peito e olhar fixo na câmara, prendia as famílias ao pequeno ecrã. Era um homem grande, volumoso. Mas maior ainda era a sua arte
João Villaret morreu aos 48 anos, em 21 de Janeiro de 1961, em Lisboa.
A sua morte causou manifestações de grande pesar em Lisboa, de tal forma que, durante muitos anos, os lisboetas celebraram o aniversário da sua morte com um recital de poemas no Cinema S. Jorge, onde a sua voz se ouvia num palco vazio iluminado apenas por um foco de luz.
Em sua homenagem, Raul Solnado fundou, em 1965, o Teatro Villaret.

domingo, 1 de maio de 2011

DIA DA MÃE

Desde que este blog existe, há três anos, foi aqui lembrado e homenageado, por três vezes, o “Dia da Mãe”.
Este ano, em vez das já conhecidas versões sobre a origem do Dia da Mãe, decidi partilhar convosco dois pequenos textos.
Eis o primeiro, que nos explica como é o

CORAÇÃO DE MÃE

O coração de Mãe não é só um músculo que bate sem parar; é um lugar mágico onde acontecem as mais extraordinárias coisas.
O coração de Mãe está ligado a cada coração de filho por um fio fininho, quase invisível.

É por causa deste fio que tudo o que acontece aos filhos faz acontecer alguma coisa dentro do coração de Mãe.
Quando os filhos dão gargalhadas o coração de Mãe até dança.
Quando um filho está triste o coração de mãe parte-se em mil bocadinhos.


Quando um filho adoece o coração de Mãe fica às pintinhas (e muito mais pequenino…).



Mas o coração de Mãe volta a crescer quando finalmente o filho se sente melhor.
O coração de Mãe fica branco (sem pinga de sangue) quando o filho dá um grande trambolhão.
O coração de Mãe congela quando um filho se perde na multidão.

Quando não compreende os filhos o coração de Mãe é como um novelo embaraçado.
No coração de Mãe passa uma nuvem escura sempre que um filho é mal educado.
O coração de Mãe ganha ferrugem quando não vê um filho há muito tempo.
Mas quando chega a hora de ir buscar os filhos à escola parece um avião a jato.
Quando um filho diz uma piada o coração de Mãe ilumina-se… e lá dentro abre-se uma janela sempre que um filho aprende uma palavra nova.

O coração de Mãe é um vulcão (em erupção) quando um filho faz um grande disparate… mas quando um filho precisa de ajuda é um sino que toca sem parar.
Aliás, quando querem fazer mal aos seus filhos, o coração de Mãe enche-se de garras e dentes afiados.
Quando chegam as férias o coração de Mãe bate mais devagarinho.
Nos dias de piqueniques o coração de Mãe é um passarinho…
E há um dia em que no coração de Mãe nascem flores – é o dia em que descobre que vai ter outro filho.


Afinal… o coração de Mãe não é só um músculo que bate sem parar…
É um lugar mágico onde acontecem as mais extraordinárias coisas.

Isabel Minhós Martins
Bernardo Carvalho

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E, para alegrar o vosso dia, este outro texto bem humorado:

COISAS DE MAMÃE

Conta-se que S. Pedro, muito preocupado ao notar a presença de algumas almas que ele não se lembrava de ter deixado entrar no céu, começou a investigar e encontrou um lugar por onde elas entravam.
Dirigiu-se então ao Senhor e disse:
Senhor Jesus, observei que temos aqui algumas almas que não me lembro de lhes ter aberto as portas para que passassem a desfrutar da felicidade eterna.
Fiz algumas investigações e achei um vão por onde elas entram. Queria que o Senhor mesmo visse…
Jesus acedeu a acompanhá-lo e viu que, desse vão descoberto, se dependurava, vindo da terra, um imenso cordão de pedrinhas, por onde, constantemente, subiam muitas almas.


Alarmado, S. Pedro disse:
- Creio, Senhor, que devemos fechar essa entrada…
- Não, não – respondeu-lhe Jesus. Deixe assim. Isso são coisas de Mamãe.

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Para o final, uns pequenos grandes conselhos:

Não espere pela partida da sua Mãe para lhe dar Amor.
Se a tiver ainda ao seu lado, dê-lhe um beijo e um abraço e diga-lhe o que ela mais gosta de ouvir:
ADORO-TE, MÃE. OBRIGADA(O) POR EXISTIRES!

E se ela já não estiver ao seu lado, se já tiver partido...
Feche os olhos e faça uma prece em seu louvor, agradecendo-lhe pela vida que lhe deu. Pode também dizer que a ama, porque onde ela se encontra vai escutar o que você lhe está dizendo... e vai sentir-se muito feliz.

domingo, 24 de abril de 2011

FELIZ PASCOA

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PÔNCIO PILATOS



Dos Ritos e Cultos Orientais

Minha mulher me falara Dele muitas vezes, antes que Ele fosse trazido diante de mim, mas eu não estava interessado.
Minha mulher é uma sonhadora, e é dada, como muitas mulheres romanas de sua classe, aos cultos e ritos orientais. E esses cultos são perigosos para o Império; e quando encontram um caminho para o coração das mulheres, tornam-se destruidores.
O Egipto chegou ao fim quando os hicsos** da Arábia lhe trouxeram o Deus único de seu deserto. E a Grécia foi submetida e reduzida a pó quando Astarté e suas sete virgens vieram das praias da Síria.
Quanto a Jesus, eu nunca vira o homem antes de me ser Ele trazido como um malfeitor, como um inimigo de Sua própria nação e de Roma.
Foi trazido ao Pretório do Juízo com os braços amarrados ao corpo por umas cordas.
Eu estava sentado na curul*, e Ele caminhou para mim com passos largos e firmes; depois, postou-se ereto, com a cabeça erguida.
E não posso compreender o que me salteou naquele momento; mas foi de súbito meu desejo embora não minha vontade, levantar-me e descer daquela curul* e cair diante Dele.
Senti como se César tivesse entrado no Pretório, um homem maior ainda do que a própria Roma.
Mas isto durou apenas um momento. E depois vi simplesmente um homem que era acusado de traição por Seu próprio povo.
Interroguei-O, mas Ele não respondeu. Apenas olhou para mim. E em seu olhar havia piedade, como se Ele é quem fosse meu governador e meu juiz.
Depois, ergueram-se de fora os gritos do povo. Mas Ele permaneceu silencioso, e continuava a olhar para mim com piedade nos olhos.
Então saí para os degraus do palácio, e quando o povo me viu, parou de gritar. E eu disse: “Que quereis com esse homem?”
E eles bradaram como por uma garganta só: “Queremos crucificá-Lo. É nosso inimigo e o inimigo de Roma.”
E alguns gritaram: Não disse Ele que destruiria o templo? E não foi Ele quem reclamou o reino? Não temos rei senão César.”
Deixei-os e voltei para o Pretório do Juízo, e vi-O ainda de pé ali sozinho, e Sua cabeça estava ainda erguida.
E lembrei-me de que tinha lido que um filósofo grego dissera: “O homem solitário é o mais forte.” Naquele momento, o Nazareno era maior do que a Sua raça.
E não senti clemência para com Ele. Ele estava além de minha clemência.
E perguntei-Lhe: És tu o rei dos judeus?
E Ele não disse uma palavra.
E perguntei-Lhe novamente: “Não disseste que és o rei dos judeus?”
E Ele olhou para mim.
E respondeu com uma voz tranquila: “Tu mesmo me proclamaste rei. Talvez eu tenha nascido para tal fim, e por essa causa vim dar testemunho da verdade.”

Imaginai um homem falando da verdade em tal momento!
Em minha impaciência, falei alto, talvez tanto para mim mesmo como para Ele: “Que é a verdade? E que representa a verdade para o inocente quando a mão do carrasco já está sobre ele?”
Então Jesus disse com poder: “Ninguém governará o mundo senão com o Espírito e a verdade.”
E perguntei-Lhe, dizendo: “És tu do Espírito?”
Ele respondeu: “Assim também o és, embora não o saibas.”
E que era o Espírito e que era a verdade, quando eu, pelo bem do Estado, e eles, por zelo pelos seus ritos antigos, entregamos um homem inocente à morte?
Nenhum homem, nenhuma raça, nenhum império se deixará deter por uma verdade em seu caminho, para se realizar.
Eu disse novamente: “És o rei dos judeus?”
E Ele respondeu: “Tu mesmo o disseste. Eu conquistei o mundo antes desta hora.”
E só isso, de tudo o que Ele disse, era impróprio, porquanto somente Roma conquistou o mundo.
Mas agora as vozes do povo levantavam-se novamente e o barulho era maior do que antes.
E desci de meu acento e disse-Lhe: “Segue-me.”
E novamente apareci sobre os degraus do palácio, e Ele postou-se a meu lado.
Quando o povo O viu, bramiu como o trovão rugidor. E em seu clamor, eu só ouvia: “Crucificai-O! Crucificai-O!”
Então, entreguei-O aos sacerdotes que mo tinham trazido e disse-lhes: “Fazei o que quiserdes com este justo. E se for de vosso desejo, tomai soldados de Roma para guardá-Lo.”
E eles O tomaram, e eu decretei que fosse escrito na cruz, acima de Sua cabeça: “Jesus de Nazaré, rei dos judeus.” Podia, em vez disto, ter posto: “Jesus de Nazaré, um rei.”
E o homem Foi despido, e flagelado, e crucificado.
Ter-me-ia sido possível salvá-Lo, mas salvá-Lo teria provocado uma revolução; e é sempre sábio para o governador de uma província romana não ser intolerante com os escrúpulos religiosos de uma raça conquistada.
Creio, até esta hora, que o homem era mais do que um agitador.
O que decretei, não foi de minha vontade, mas antes pelo bem de Roma.
Não muito depois, deixamos a Síria, e desde esse dia minha esposa se tornou uma mulher de tristeza. Algumas vezes, mesmo aqui neste jardim, vejo uma tragédia em sua face.
Dizem-me que ela fala muito de Jesus às outras mulheres de Roma.
Vede, o homem cuja morte decretei volta do mundo das sombras e entra em minha própria casa.
E, dentro de mim, repito sempre a mesma pergunta: O que é a verdade e o que não é a verdade? Pode dar-se o caso de que o sírio nos esteja conquistando nas horas quietas da noite?
Isto não deve acontecer.
Porque Roma precisa prevalecer contra os pesadelos de nossas esposas.

Gibran Khalil Gibran

*cadeira de marfim reservada outrora a certos magistrados romanos.

**hicsos - foram um povo asiático que invadiu a região oriental do Delta do Nilo durante a décima segunda dinastia do Egito, iniciando o Segundo Período Intermediário da história do Antigo Egito.
Inf. Wikipedia




GIBRAN KAHLIL GIBRAN foi um ilustre poeta libanês, filósofo e artista.
Nasceu em 6 de Dezembro de 1883 em Bsharri, nas montanhas do Líbano, a uma pequena distância dos cedros milenares.
Sua fama e sua influência se derramaram por todo o mundo.
Suas reflexões e sua poesia foram traduzidas para mais de vinte idiomas, e seus desenhos e pinturas são expostos em grandes cidades do mundo.
Faleceu em 10 de Abril de 1931 no Hospital São Vicente, em Nova York, no decorrer de uma crise pulmonar que o deixara inconsciente.

domingo, 17 de abril de 2011

DOMINGO DE RAMOS




O Domingo de Ramos é o domingo imediatamente anterior ao Domingo de Páscoa, e dá início à Semana Santa.
Deve o seu nome à memória litúrgica da entrada solene de Jesus em Jerusalém. Montado num jumentinho, em sinal de humildade,




Ele dirigia-se àquela cidade para ali celebrar a Páscoa.

À chegada, Jesus é aclamado pelo povo, que, agitando folhas de palmeira, e cantando “Hossana ao Filho de Davi!", o aplaude como “Aquele que vem em nome do Senhor”, e o recebe como um rei.
Será este mesmo povo que, na sexta feira santa, irá pedir a Pilatos a sua crucificação.
Assim é a inconstância, a volubilidade do Homem de pouca fé.

A Missa de Domingo de Ramos foi chamada, em tempos, de “Missa seca” porque nela não havia comunhão – consagração do pão e do vinho.

Uma das tradições mais populares em Portugal consiste na “benção dos ramos” ou dos “palmitos” – prática generalizada entre os povos católicos.
Por vezes os ramos, feitos com folhas de palmeira, raminhos de pliveira, alecrim e rosmaninho, e flores como camélias e outras, atados com fitas de cor, são benzidos de véspera, e levados, no dia seguinte, para a missa; outros são benzidos antes de começar a Missa de Ramos.




(Bênção dos ramos - Igreja de S.Francisco-Armação de Pera-Algarve)

Esses ramos são depois guardados em casa durante todo o ano; nalgumas aldeias e vilas ainda se conserva o costume de dependurar os ramos à cabeceira da cama para “proteger dos maus ares”. É também costume colocá-los na sala, junto de uma imagem religiosa ou crucifixo, para receber o “Compasso” durante a visita pascal.
Na Beira Baixa, há um costume muito peculiar: junto com os ramos leva-se à igreja um pão, para ser benzido antes da missa. A crença popular atribuia-lhe poderes divinos e profiláticos.
Ainda hoje, mais ou menos por todo o país, se mantém o costume de queimar algumas folhas do “ramo bento” para afastar as trovoadas. Com o mesmo intuito colocam-se raminhos de oliveira sobre as janelas e portas, e dá-se aos animais um pedacinho do “pão bento”.
As palmas e os ramos que ficam nas igrejas são queimados neste dia e as suas cinzas, guardadas na sacristia, servem para impor o Sinal da Cruz na fronte dos fieis na Missa de Cinzas do ano seguinte.

São comuns as procissões do Domingo de Ramos, em que os fiéis levam consigo ramos de oliveira ou palmeira.
Consta que esta procissão terá surgido depois de um grupo de cristãos da Etéria ter feito uma peregrinação a Jerusalém e, no regresso, ter procedido, na sua região, da mesma forma que o havia feito nos lugares santos, lembrando os momentos da Semana Santa.
O costume foi-se alargando gradualmente a outros lugares e, no final da Idade Média, foi incorporado aos rituais da Semana Santa.

O Domingo de Ramos teve outros nomes, como, por exemplo, os nomes latinos de “Pascha Floridum”; “Pascha Florum” ou “Dies Floridus”, sendo que todos eles têm o mesmo significado: Páscoa das Flores ou, como é o caso do último, Dia das Flores. Isto porque, como ainda hoje acontece em algumas localidades, palmas e ramos de árvores enfeitados com flores são abençoados durante a Procissão dos Ramos.

Outro nome, usado na Idade Média foi “Dominica Hossana” por causa das antífonas (resposta, em geral cantada em canto gregoriano a um salmo ou a outra parte da liturgia) que eram cantadas durante a Bênção de Ramos e mesmo durante a procissão dos ramos. As antífonas tinham o refrão “Hossana ao filho de Davi”.

Chamava-se ainda de “Dies indulgentiae” pois neste dia, no tempo em que na Igreja havia a prática da penitência pública, eram anunciados os nomes dos pecadores públicos que seriam reconciliados com a Igreja na Páscoa.

O sentido da festa do Domingo de Ramos tratar tanto da entrada triunfal de Cristo em Jerusalém, e depois recordar sua Paixão, é que essas duas datas estão intrinsecamente unidas. A Igreja recorda que o mesmo Cristo que foi aclamado como Rei pela multidão no Domingo, é crucificado sob o pedido da mesma multidão na Sexta. Assim, o Domingo de Ramos é um resumo dos acontecimentos da Semana Santa, e também sua solene abertura. (Inf. Wikipedia)

A seguir veja o vídeo que escolhi para este dia

domingo, 10 de abril de 2011

FUGA DO PARAÍSO

Há dois ou três anos, encontrando-me de férias em Espanha, ao folhear uma revista espanhola do hotel, li uma reportagem que achei extraordinária.


Ainda tentei comprar uma revista igual mas não consegui encontrar. Decidi então tomar apontamentos, o mais detalhadamente possível, e trouxe-os comigo. Esqueci por completo o assunto.
Há dias, ao mexer numas papeladas, encontrei-os. Procurei e descobri fotos na Net, para documentar, e compus a história. Partilho-a convosco.


Em 20 de Março de 1991 largava de uma base aérea cubana o comandante Orestes Lorenzo




num “caça MIG-23”, o avião mais moderno da Força Aérea Cubana.
A toda a velocidade e a baixa altitude atravessou, em menos de 10 minutos, os 150 quilómetros que separam Cuba dos Estados Unidos.

Como voava quase rente à água nem os radares cubanos nem os norte americanos se aperceberam da sua presença.

Orestes pode aterrar sem problemas na base aeronaval de Boca Chica, na Florida. Ali pediu asilo político e, depois de submetido a interrogatórios, recebeu o estatuto de refugiado político.

A deserção de Orestes Lorenzo foi uma bofetada no regime castrista. O comandante Lorenzo era um dos pilotos de elite da Força Aérea. Veterano da Guerra de Angola, tinha efectuado dois períodos de treinamento na União Soviética.
Foi durante o último destes períodos, já com a “perestroika” de Gorbachov em marcha, que Orestes começou a questionar o regime comunista e a sua vida em Cuba. Na União Soviética começavam a soprar os ventos da Liberdade.
No regresso começou a planear a sua deserção com a esperança de que, uma vez nos Estados Unidos, a sua mulher, Victória, e os seus dois filhos pudessem juntar-se a ele.
Depois da fuga no avião, e na qualidade de refugiado, pediu a saída da sua família da ilha, mas deparou-se com a recusa de Raul Castro, à data Comandante das Forças Armadas.
Castro de maneira nenhuma permitiria a saída de Cuba da família dum militar de elite que havia atraiçoado a confiança que nele tinham depositado, e havia posto a ridículo o regime.


Orestes recorreu à Comissão de Direitos Humanos da ONU, sem qualquer resultado. Coincidindo com a cimeira ibero-americana celebrada em Madrid em 1992, com a presença de Fidel Castro, começou um protesto às portas do Parque del Retiro.
A rainha Sofia




empenhou-se pessoalmente, junto de Fidel, para conseguir a saída de Victória e seus filhos de Cuba. Inclusivamente, o assunto foi a despacho a Mijaíl Gorbachov.
Tudo foi em vão. Raul Castro, por intermédio de seu ajudante pessoal, fez chegar a sua resposta a Victória:
- Diga ao seu marido que, se teve cojones para desviar um avião, que os tenha também para vir buscar-vos pessoalmente.
Orestes chegou a publicar uma “carta aberta” a Fidel Castro no "Wall Street Journal", na qual se propunha apresentar-se em tribunal em Cuba se ele permitisse que a sua mulher e os seus filhos viajassem para os Estados Unidos. Não obteve resposta.

Ante as escassas perspectivas das demarches internacionais, o ex militar cubano começou a entrar em desespero.
Decidiu então que, se não obtinha êxito a bem iria ele mesmo buscar a sua família a Cuba.
Conhecia os aviões russos, mas tinha que treinar-se nos modelos convencionais ocidentais.



Em pouco tempo conseguiu o brevet de piloto desportivo e, com 30.000 dólares emprestados por uma organização humanitária de exilados cubanos, comprou uma velha avioneta bimotor “Cessna 310” em bom estado.
Por intermédio de duas amigas mexicanas que foram a Cuba, fez chegar secretamente à sua família a data, o lugar e a hora exacta onde deviam esperá-lo para o resgate que tinha planeado.
O dia escolhido foi 19 de Dezembro às cinco da tarde.
Largou de um pequeno aeroclube nos arredores de Miami, advertindo que, se não regressasse no prazo de duas horas, o considerassem morto.
Voando a muito baixa altitude (2 metros sobre o oceano) para evitar os radares, a avioneta aproximou-se da ilha ao entardecer e dirigiu-se à estreita estrada em frente à praia El Mamey, muito perto de Varadero, a cerca de 150 quilómetros a Este de Havana.

Imediatamente a sua mulher e filhos, que esperavam na estrada, conforme combinado, escutaram o ronco do motor e viram o aparelho.

O que Lorenzo não tinha previsto, no seu minucioso plano, era que a estrada, àquela hora, estivesse com trânsito. O cenário não podia ser pior: no troço escolhido para a aterragem circulavam um carro, um tractor, um autocarro com turistas, e uma gigantesca pedra encontrava-se no meio da via.
Balançando as asas o piloto quase roçou o tecto do automóvel, tocou em terra e deteve-se a uns 8 metros do autocarro com turistas, petrificados nos seus assentos e com os olhos a ponto de lhes saírem das órbitas.

Quase dois anos depois da separação Lorenzo viu aparecer a sua família correndo em frente ao avião.

Na estrada, Alexandre, o menino mais novo, perdeu um sapato. Para evitar um acidente com as hélices e preparar a descolagem, Orestes inverteu a direcção do avião e abriu a portinhola da cabine. Tudo em menos de um minuto.
Orestes conseguiu descolar, mas dentro do avião o medo paralisava os seus ocupantes.

Victória não despegava os olhos do céu, temendo que aparecessem os caças cubanos. Rezava.
Os meninos estavam assustados, confusos, choravam.
Só quando a avioneta ultrapassou o paralelo 24, limite do espaço aéreo de Cuba, a tensão baixou.
Quase uma hora mais tarde a avioneta aterrava de volta à Florida.




O alvoroço mediático que causou a façanha de Orestes foi tremendo, já que, pela segunda vez, tinha ridicularizado o regime castrista.
Na primeira conferência de imprensa disse:
- Digam a Raul castro que lhe peguei na palavra e fui pessoalmente buscar a minha família.



Presentemente Orestes é um próspero empresário que dirige a sua própria empresa de construção em Miami, algo que em Cuba jamais poderia ter feito.

domingo, 3 de abril de 2011

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE



(Este texto foi publicado há três anos; é, portanto, uma reedição [com ligeiras alterações] )

FALAR PORTUGUÊS

NÓS É QUE OS ENSINÁMOS

Uns dias melhor, outros pior, o tempo vai-se passando, nesta cidade que poderia ser o paraíso.
Há até um simpático impala que diversas vezes vem visitar o meu jardim. Caminha calmamente. Através da janela aberta olha para dentro da sala. Em seguida examina o jardim. Terminada a inspecção retira-se tão tranquilamente como chegou.


(Foto minha - no meu jardim)

Contudo, temos sempre presente o que se passa lá para o norte, na chamada «zona de intervenção».
Mas, entre um e outro sobressalto, a vida continua, e todos temos deveres a cumprir.
Lá mais para o sul há empregadas domésticas, mulheres que vão trabalhar às casas dos “brancos”
Aqui, não. São homens que fazem esses serviços. A troco de um salário estabelecido e comida, às vezes também dormida, executam as tarefas domésticas que normalmente são atribuídas às mulheres: cozinham, lavam e engomam a roupa, limpam a casa.
São homens, adultos, muitas vezes casados, ou jovens que rondam os vinte anos.
Há casos em que se tem um adulto para cozinhar e tratar das roupas, e um mais jovem para limpar a casa.
Há ainda uns garotos, (normalmente rapazes, embora por vezes apareçam meninas), que muitas vezes nos batem à porta perguntando:
Senhora precisa miúdo?
São meninos pobres que não têm o que comer em suas casas, e bem cedo começam a lutar pela subsistência.
Dá-se-lhes comida, dormida e roupas (geralmente só têm a que trazem no corpo, e em muito mau estado), e, em troca, eles brincam com as nossas crianças, vigiando para que nada de mal lhes aconteça.


São crianças sombras de crianças. Só se vão deitar depois que os meninos vão para a cama, o que, aqui, acontece bastante cedo.
Todos falam português. Os “miúdos”, por vezes não sabem muito, mas é o bastante para se fazerem entender. E como a linguagem das crianças é universal, conseguem estabelecer longas conversas com as nossas crianças, nas suas brincadeiras.
Na minha casa, para além do miúdo, há um cozinheiro e um rapaz, o Albino, que trata da limpeza da casa e serve à mesa.
Não sei bem a idade de um e de outro. Não é nada fácil calcular. (Tratando-se de pessoas bem avançadas na idade, já de carapinha branca, torna-se ainda mais difícil. E se perguntamos a uma dessas pessoas quantos anos tem, a resposta é sempre: - Não sei, senhora. Tenho muitos!)
O Albino aparenta dezoito a vinte anos. É um rapaz já com prática de trabalho, que me foi recomendado por uma amiga.
Cumpridor dos seus deveres, pouco falador, vai desempenhando bem as suas funções.
Embora fale o indispensável de português para se fazer entender, por vezes não compreende muito bem o que se lhe diz.
Há dias estávamos a almoçar e eu pedi-lhe que fosse buscar água ao frigorífico, pois tinha-se esquecido de a pôr na mesa. Dirigiu-se à cozinha, ouvi-o abrir a porta do frigorífico, mas não aparecia com a água. Depois de esperar uns minutos, chamei-o. Apresentou-se sem nada nas mãos. Perguntei-lhe:
- Então???
Respondeu-me:
- Não encontro, senhora.
- Não encontras o quê???
- Não sabe, senhora…
Calculo que fosse bastante difícil encontrar uma coisa que ele próprio não sabia o que era!...

Cenas como esta acontecem de vez em quando. Nós ensinámos-lhes a nossa língua, mas não todas as palavras, com certeza. No entanto há certos vocábulos que toda a gente aprende muito facilmente.
Todos os dias, a meio da manhã, o Albino pede me para ir tratar das suas necessidades fisiológicas.
- Senhora, pode ir no mato?
- Podes sim, vai lá no mato.
E ele vai. E volta.
Um dia o Albino “foi no mato” mas, contra o costume, demorou-se muito tempo. Eu já pensava: encontrou algum conhecido e ficou à conversa. Quando finalmente apareceu, achei que deveria fazer-lhe um reparo:
- Meu Deus, Albino, demoraste tanto tempo para ir no mato!
Resposta pronta:
- Senhora, não pode ir ca**r aqui no pé de casa !
Engoli em seco, e dei a conversa por terminada.

Quando o Albino veio para minha casa eu não sabia praticamente nada a seu respeito, a não ser que era de confiança. E tanto me bastava. Cerca de um mês depois de estar ao meu serviço, um dia resolvi meter conversa com ele, e perguntei-lhe:
- Albino, tu és casado?
- Não, senhora, ainda sou menino.
- E porque não te casas?
- Porque as mulheres da cidade são todas p*t**.

Também desta vez engoli em seco, e encerrei o assunto.
E jurei a mim mesma não voltar a fazer perguntas indiscretas!

Eles apenas repetem as palavras que lhes ensinámos.

domingo, 27 de março de 2011

CENAS DA VIDA REAL

AS CALCINHAS DA MARIA EUGÉNIA



Maria Eugénia era um doce de pessoa!
Sempre com um sorriso no rosto a todos acolhia com carinho e ternura, pronta a proporcionar todo o auxílio a quem dele necessitasse, simplesmente dar um conselho ou oferecer um ombro amigo para um eventual derrame de lágrimas.
Tendo sido uma alegre bebé gorducha, transformou-se numa adolescente rechonchudinha e, mais tarde, numa jovem de formas redondinhas.
Sem qualquer complexo em relação ao seu aspecto um pouco “anafado”, quando alguém lhe dizia que talvez devesse perder um pouquinho de peso, respondia alegremente:
- Gordura é formosura.
Atingiu assim os dezoito anos, sempre alegre e feliz.
Em breve conheceu um jovem, António, com quem simpatizou bastante e que a cortejou.
Tratava-se dum rapaz com muito boa aparência e bem instalado na vida, que, com a aprovação da família, começou a namorar a Maria Eugénia.
Decorridos três ou quatro anos de namoro, o tempo que naquela altura se considerava normal, realizou-se o casamento.
As “amigas” achavam que, tratando-se de um rapaz tão bonito, bem poderia escolher noiva mais apresentável. Não que Maria Eugénia fosse feia, pois tinha um rosto muito bonito; mas não devia nada à elegância.
O que as “amigas” não sabiam era que, o que tinha prendido António era o enorme coração de Maria Eugénia, ao qual se rendera incondicionalmente.
Foram felizes até ao fim dos seus dias.
António trabalhava com importações de tecidos finos (sedas, veludos, tules…) o que, naquela época, contribuía para engrossar a sua conta bancária.
Mais tarde abriu uma loja onde vendia vestidos para noivas e acompanhantes, costurados nas traseiras da loja, onde montara uma pequena fabriqueta.
Com o tempo, e com o seu dom especial para os negócios, em breve abria mais lojas e montava uma fábrica de confecção a sério.
Neste tipo de trabalho em que se ocupava António, a sua clientela era sobretudo feminina. E porque ele era de facto um homem muito atraente, a quem o casamento fizera aumentar os atributos físicos, as suas clientes não raras vezes tentavam insinuar-se junto dele. Porém António, com um sorriso constante nos lábios, contornava a situação conseguindo manter-se fiel ao casamento. Não perdia a cliente e não traía Maria Eugénia.
Por vezes, despeitadas, e porque conheciam Maria Eugénia, quando a encontravam tentavam intrigar, insinuando que António fora visto aqui e ali, em companhias mais que suspeitas.
Maria Eugénia ouvia-as com toda a atenção e delicadeza, próprias da sua maneira de ser, e no fim, esboçando o maior sorriso que podia ostentar, respondia:
- Ora! O que é que isso importa? Depois de lavado fica como novo!
E assim desarmava as “amigas de Peniche”.

Maria Eugénia teve dois filhos, que eram o encantamento dos pais.
As duas gestações não favoreceram nada o físico de Maria Eugénia que apresentava agora umas formas mais redondas ainda.
Isso não parecia preocupá-la minimamente, e a sua felicidade familiar era completa.
Com o desenvolvimento dos negócios António arranjou clientes na Madeira e Açores, os quais visitava no princípio das estações, levando-lhes mostruários das suas colecções de tecidos e figurinos dos vestidos de noiva.
Enquanto as crianças foram pequenas António viajava sozinho porque Maria Eugénia, mãe extremosa, não os queria deixar entregues às criadas.
Porém, quando eles já eram mais crescidos, e porque tinham sido educados segundo valores éticos responsáveis, Maria Eugénia começou a acompanhar o marido.
Numa dessas viagens à Madeira quando chegaram ao hotel e se instalaram no quarto, Maria Eugénia verificou, horrorizada, que se tinha esquecido de meter calcinhas na mala. Ficou aflita.
As estadias, tanto na Madeira como nos Açores, demoravam sempre duas semanas e eram feitas entre fins de Janeiro princípios de Março.
Seria impensável andar todas as noites a lavar as calcinhas, até porque era inverno e o mais provável seria não secarem durante a noite.
O marido, que entretanto ficara à conversa com um conhecido no hall do hotel, foi encontrá-la bastante contrariada. Mas logo encontrou solução:
- Depois de almoço, quando eu for visitar o cliente “X”, tu aproveitas o tempo, vais às lojas e compras todas as calcinhas que achares necessárias.
Maria Eugénia respirou aliviada. No meio da aflição e aborrecimento por se ter esquecido duma coisa tão básica, nem lhe ocorrera uma solução tão simples.
Tal como combinado, de tarde Maria Eugénia pôs-se em campo à procura de lojas de lingerie. Entrou na primeira que encontrou onde um amável senhor a cumprimentou com um sorriso.
Quando Maria Eugénia lhe disse o que pretendia o senhor perguntou-lhe qual o número que ela queria, coisa que ela disse desconhecer. E acrescentou:
- São para mim.
O senhor mirou-a com toda a atenção, como que a tirar-lhe as medidas. Voltou-se e retirou da prateleira uma caixa de calcinhas. E disse, olhando-a novamente.
- Penso que este tamanho deve estar bem, e até lhe dá até ao fim do tempo (gravidez).
Maria Eugénia engoliu em seco, pagou e retirou-se.
À noite, ao contar ao marido o sucedido, com uma gargalhada ela comentou:
- Ainda bem que ele pensou que eu estava grávida. É bem melhor do que pensar que a minha gordura é simplesmente gordura.


domingo, 20 de março de 2011

A SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA

(A Primavera – Botticcelli)

Para assinalar o início da Primavera ocorre-me falar-vos um pouco sobre uma obra musical associada a esta estação do ano, cujos acordes foram objecto de grande discórdia no passado século XX, mas que, apesar de tudo, é ainda considerada uma obra prima no campo musical.

A «Sagração da Primavera», também conhecida pelo seu título em Francês "Le Sacre du Printemps" é um ballet em dois atos que conta a história da imolação de uma jovem que deve ser sacrificada como oferenda ao deus da primavera num ritual primitivo, a fim de trazer boas colheitas para a tribo.
A música, da autoria do russo Igor Stravinsky, é amplamente conhecida como uma das maiores, mais influentes e mais reproduzidas composições da história da música do Século XX.

Igor Stravinsky concebeu a obra em 1910, quando, segundo as suas palavras, "sonhou com uma cena de ritual pagão em que uma virgem eleita para o sacrifício dança até morrer".
A maior parte da música foi composta em 1911.
Nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, A «Sagração da Primavera» libertou os impulsos musicais selvagens, subliminares, que pressagiavam a história posterior do violento século XX.

Em Paris, em 1913, aquando da primeira execução da Sagração da Primavera, ocorreu o que, na opinião de muitos, se pode considerar o maior escândalo musical de sempre.
O compositor russo foi logo definido como «revolucionário por excelência», e a sua obra como um dos símbolos mais típicos do «moderno» - no sentido de irritante, chocante, escandaloso.
Com o tempo tudo que é novo perde a sua força de embate; contudo, apesar de, posteriormente, essa música ser considerada como uma obra prima, para muitos conserva ainda algo do seu original carácter provocatório.
Da música de Stravinsky costumo dizer: ou se ama ou se odeia, não há meio termo.
De qualquer forma considero a Sagração da Primavera como uma explosão de vida, em que o ventre da Natureza se abre para receber a semente de mais um ciclo que se inicia.
De entre as várias interpretações de «A Sagração da Primavera» escolhi uma que me parece mais acessível a todos – os que amam e os que odeiam :)