domingo, 18 de julho de 2010

CARTA PARA JOSEFA

Completa-se hoje, dia 18 de Julho, um mês sobre a morte de José Saramago.
À data do seu falecimento abstive-me de publicar qualquer notícia sobre o Nobel da Literatura Português. Muitos blogs o fizeram, muitos foram os comentários que fiz nalguns desses mesmos blogs.
Passados estes trinta dias apraz-me relembrar aquele que é considerado um dos maiores, senão o maior, escritor de língua portuguesa.
Nesse sentido lembrei-me de partilhar convosco um texto, talvez dos menos conhecidos de Saramago, que tem por título

“Carta a Josefa, minha avó”

Avó Josefa e Avô Jerónimo, no dia do nascimento do seu neto mais novo, José Saramago



Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.

José Saramago, in “Deste Mundo e do Outro”


Saramago, aos 76 anos de idade, recebe o Prêmio Nobel das mãos do rei da Suécia.
Estocolmo, 1998

domingo, 11 de julho de 2010

PARA INGLÊS VER

A maioria das pessoas já ouviu a expressão “para inglês ver”, mas, provavelmente, poucas saberão a sua origem.
Veja a explicação que é apresentada como muito provável:

A origem deste ditado situa-se, quem diria, pela época da Abolição da Escravatura. Em termos geográficos, mais precisamente pertinho de Conservatória (RJ) na divisa de Minas Gerais com o Rio de Janeiro em Santa Rita de Jacutinga..
Pelo lado mineiro, nas margens do Rio Preto, existe uma secular Fazenda, a Santa Clara.

Sua sede majestosa (foto), entre outros detalhes arquitetônicos típicos da época relativa ao Ciclo do Café, conta com mais de 100 janelas voltadas para a sua fachada.
Pois bem, a Inglaterra era a maior credora da dívida externa brasileira e, pelo fato da abolição da escravatura no Brasil ter demorado por demais na sua finalização, segundo o gosto inglês, este país condicionou a continuidade dos negócios com os Tupiniquins à exigência de exterminação de quaiquer resquícios de escravidão humana.
A Fazenda Santa Clara foi alvo de uma severa fiscalização por parte da Coroa Inglesa que anunciara para breve uma vistoria nas suas instalações, mercê de denúncias de ainda praticar-se por lá o uso de mão de obra escrava e principalmente, pela existência de senzalas que continuavam a abrigar, agora clandestinamente, estes escravos.
Senzalas não tinham janelas e possuíam uma única entrada e só.
Aproximava-se a data prevista para a tão temida vistoria dos Ingleses.
Alguém teve, então, a idéia de desenhar várias janelas (umas abertas, outras fechadas e outras tantas semi-abertas), nas paredes frontais às senzalas.

Assim pensado, assim feito. O pessoal da fazenda tinha conhecimento que a comitiva dos auditores Ingleses passaria pela margem oposta do Rio Preto, no Rio de Janeiro, haja a vista que o acesso para Minas Gerais (margem da Fazenda Santa Clara) só poderia ser acessada em um local muito distante. Isto tomaria um tempo precioso e a Santa Clara não era a única a ser submetida a tal cometimento. Todas a fazendas da região de Vassouras, Barra do Piraí, Valença e Paraíba do Sul, ou quase todas, estavam incriminadas. Portanto a vistoria tinha que ser rápida;
E assim os Ingleses, na margem oposta do Rio, fiscalizaram a Fazenda Santa Clara e constataram que as reformas necessárias foram executadas. Não mais senzalas. Vistosas janelas foram colocadas no, antes, hediondo local, tornando-o humanizado segundo os padrões habitacionais.
Notava-se inclusive que algumas das janelas estavam entreabertas, permitindo uma ventilação refrescante ..

E agora você já sabe: -Toda vez que ouvir alguém dizer “isto é para inglês ver”, foi lá na Fazenda Santa Clara que tudo aconteceu. Se tiver oportunidade vá ao local e poderá ver as “janelas” perfeitamente colocadas.

M.Turbay (Vila Velha, ES, 01/01/2009)

História
A Fazenda Santa Clara foi construída a partir de 1760 pelo governador de Minas Gerais e a família Bustamante Fortes, de São João Del Rey.


O lugar é repleto de rituais, tais como: uma janela para cada dia do ano, ou seja, 365 janelas; a escada da oração "Pai Nosso", na qual o fiel subia rezando uma frase para cada degrau (acertando, podia fazer um pedido para Santa Clara e seria atendido); a prisão conserva até hoje os instrumentos de torturas, os troncos, marcas de unhas nas paredes (prova do padecimento dos escravos), a senzala com suas janelas pintadas para que a fazenda não perdesse a estética (não poderiam ser verdadeiras para não facilitarem a fuga dos cativos) e os salões com móveis portugueses e italianos da época. Tudo isso guarda a história dos tempos da colonização e da escravidão. A fazenda serve de palco para grandes produções da Rede Globo. Ali foi rodada a mini-série "Abolição" e também parte da novela "Terra Nostra", sendo cenário da fazenda de Gumercindo (Antôni Fagundes). Está aberta à visitação pública, acompanhada por um guia da fazenda, mostrando todo seu interior e contando toda a sua história.

domingo, 4 de julho de 2010

JÁ INAUGUREI O VERÃO

Não sei se convosco o verão já foi inaugurado (os residentes em Portugal; no Brasil começou há pouco o inverno)
Comigo, sim!
Para mim, inaugurar o verão significa praia, sol, areia, passeios à beira mar,

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uns belos mergulhos quando a água não está gelada ...Image and video hosting by TinyPic
Resumindo, tudo coisas agradáveis, que me dão muito prazer e me transmitem uma boa disposição que no inverno nem sempre me acompanha.
Tem apenas um pequenino contra: o tempo disponível para o computador fica substancialmente reduzido.
As visitas aos blogs amigos começam a rarear e a ser mais “a despachar”, mas isso não tem importância porque logo chega o inverno para serem recompensados.
Geralmente publico menos textos de minha autoria, recorrendo a autores diversos que merecem o meu respeito e admiração.
E porque o tempo é de boa disposição, vamos a um texto que acho incrivelmente engraçado, e que espero seja também do vosso agrado.
O autor é um dos meus predilectos (brasileiros)


INTERNET
- Zé, vem pra cama. São mais de três horas!
- Peraí Flavinha... Tô quase acabando...
- Essa coisa de Internet vai te deixar internado num manicômio!
- É pra faculdade. Trabalho de economia. Tô pesquisando em vários jornais do mundo é o Asahi Shimbun.
- Saúde!
- Saúde o que?
- Você espirrou.
- Não sacaneia! Asahi Shimbun é um jornal japonês!
- E desde quando você sabe ler aqueles pauzinhos?
- Essa edição está em inglês. E não são pauzinhos, são ideogramas.
- Quanta erudição!
- Para de perturbar e volta pra cama, senão a pesquisa não sai hoje..
- Como é que eu vou dormir com essa impressora fazendo tanto barulho?
- Tá eu desligo a impressora, passo tudo pro C e amanhã imprimo o resto.
- Passa PRA MIM o quê?
- Não é PARA VOCÊ, é para o C, que representa o HD onde a gente guarda tudo no computador... Ah esquece.
- Esquece por que? Você acha que eu sou burra demais pra aprender essas coisas?
- Não é isso. É que a gente precisa de um conhecimento específico pra entender o funcionamento dessas máquinas, e de mais a mais, a essa hora da madrugada não dá pra raciocinar direito. Vai pra cama.
- Zé... Só mais uma coisa rapidinho: como é que você consegue achar aí um jornal do Japão?
- Fácil Pelo Browse a gente entra em alguns sites que fazem o papel de catálogos e Home Pages. Você digita um nome ou um assunto e faz uma pesquisa...
-Traduz.
-Tem uns... Uns... Uns programas que têm todos os endereços de páginas na Internet.
- O que que é um BRAUSE? É grande?
- Ô Flávia, você vai sacanear ou prestar atenção?
- Cumé que eu vou entender essa língua que você tá falando? É bráulio,romipeige,saite...
- Não é bráulio: é Browse. E vê se cala essa boca e presta um pouquinho de atenção. Tem uns programas que servem de catálogos, então a gente escolhe o assunto e pesquisa através do Browse, aí aparecem na tela os endereços e é só escolher um, clicar duas vezes em cima com o mouse que aparece a Home Page... A página que você quer.
- Página? Não é tela?
- A gente chama de página o programa que aparece na tela. Ou Home Page.
- Outra coisa: esse tal de brause dá só o endereço? A Internet não é pelo telefone?
- Ai meu cacete!
- Que grossura! Custa explicar?
- Endereço na Internet é um código que se digita para acessar as páginas.É claro que é por telefone. Agora chega! Não vou mais fazer pesquisa nenhuma. Deixa pra amanhã, que eu já enchi o saco. Aliás, amanhã eu juro:vou comprar um Pentium para deixar lá no escritório e.....
- Pra quê um pente no escritório? Você passou máquina zero no cabelo ontem...!!!
- Vai pra "PQP"...

(Luis Fernando Verissimo)

domingo, 27 de junho de 2010

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE (1/03)


ACÇÃO SOCIAL

Poucos meses depois de aqui chegarmos consegue-se uma casa com meia dúzia de quartos para onde se mudam as famílias. Funciona como messe.
A cada casal é atribuído um quarto, maior ou menor consoante o número de filhos.
Uma pequena cozinha serve apenas para preparar comida para os mais pequeninos.
As refeições são tomadas numa sala separada da casa, que tem as paredes de rede por causa dos mosquitos e outros insectos que, à noite, aparecem aos milhares, atraídos pela luz.
Aqui comem não só as famílias mas também os solteiros. É uma sala espaçosa que comunica, por um passadiço coberto, com uma enorme tenda onde funciona a cozinha. Aí, um cozinheiro e dois ajudantes, preparam a comida para vinte ou trinta pessoas.
Estamos bem situados. A uns quinhentos ou seiscentos metros encontra-se a praia. Atravessamos um capinzal, e deparamo-nos com um areal extenso, de areia branca e fina, e uma água maravilhosa, de temperatura agradável, onde mergulhamos uma e outra vez,



e as crianças se divertem em segurança.



Com os homens todo o dia ocupados nas suas acções, as mulheres passam os dias cuidando dos filhos. Dos trabalhos domésticos, que se resumem a pouco mais do que tratar das roupas, já que vivemos numa espécie de comunidade, tratam os criados.
Deste modo, temos muito tempo livre – tratar das crianças não ocupa o dia todo.
Há dias estávamos a conversar e surgiu-nos a ideia de fazer como que um complemento à acção dos homens – prestar assistência aos necessitados.
Perante alguma surpresa nossa, os homens concordam com a ideia.
Recorremos a quem de direito para nos arranjar transporte a fim de visitarmos as senzalas. Foi posto à nossa disposição um jipe com motorista, que, nas picadas esburacadas, nos faz bater com a cabeça na capota.



Mas, todas jovens e imbuídas duma enorme vontade de colaborar, não são uns miseráveis buracos que nos vão fazer desistir.
A primeira coisa a fazer é tentar arranjar ajuda, de preferência em dinheiro, para comprar o necessário (mantimentos, medicamentos, eventualmente roupa para os bebés) para distribuir pelos necessitados.
Esta é a parte mais difícil e custosa, e só o nosso espírito de jovens com grande vontade de socorrer quem precisa nos dá força para a enfrentar.
Percorremos as ruas da cidade batendo às portas das casas, explicando ao que vamos, qual o nosso propósito, pedindo, enfim, uma ajuda.
Se há pessoas, (a maioria, felizmente) que nos recebem bem, compreendem os nossos motivos e nos dão o que podem ou querem, outras há que chegam a ser malcriadas. Houve um homem que foi especialmente mal-educado, dizendo-nos que “fôssemos mas é para casa cuidar dos maridos”, e “esses madraços (referia-se aos pretos) que vão mas é trabalhar”.
No final, o saldo é positivo.
Depois de nos abastecermos do que sabíamos que eles mais apreciavam – sal, por exemplo, que eles têm dificuldade em conseguir – percorremos as senzalas, vendo quem é mais pobre e precisa de auxílio, assim como verificando se há doentes.
Uma das componentes do grupo é enfermeira e sabe, melhor do que nós, detectar a doença e calcular a sua gravidade.
Levamos connosco aqueles medicamentos mais básicos, como aspirina ou qualquer outro analgésico. Para os outros casos falamos depois com o médico, explicando os sintomas, e no dia seguinte levamos os medicamentos que ele indica. Em casos mais graves, raros, levamos o doente para o hospital, cujo director faz o favor de apoiar a nossa causa.
Um dia encontramos um homem doente, já velhote, com cabelos brancos, a quem perguntamos quantos anos tem:
- Não sabe, senhora. Tem muitosssssssss!
De seguida pedimos que nos diga o que sente, o que o incomoda, e ele lá explica o melhor que sabe. É um dos tais casos que teremos que relatar ao médico. Este aconselha um medicamento em supositórios que, no dia seguinte, levamos à palhota.
E agora, como explicar ao homem como tomar, ou antes, não tomar ;) os supositórios? Foi complicado. Empurramos umas para as outras, até que decidimos, por unanimidade, eleger a enfermeira para executar essa tarefa.
Ela procurou escusar-se mas por fim teve que o fazer. Experimentou mil gestos, mas o velhote não dava sinais de estar a compreender. Foi salva por uma criancinha pequena que apareceu. Agarrou-a rapidamente, pô-la sobre os joelhos com o rabito voltado para cima, e indicou ao velhote onde deveria colocar o supositório.
Mas não se esqueceu de frisar que não era na criança, mas sim nele, que os devia aplicar.
O velhote abriu a boca desdentada numa enorme gargalhada.
Acabámos todas a rir.

domingo, 20 de junho de 2010

FIM DOS PROFESSORES



Embora o tema “Educação” me seja particularmente caro, há bastante tempo – uns largos meses – que não o trago a este espaço. Mas agora, que o ano escolar está no seu término, parece-me relevante fazermos uma pequena e despretensiosa reflexão.
Com a remodelação do governo, em Outubro passado, e a nomeação da nova Ministra da Educação, Isabel Alçada, nasceu, nalguns professores, a esperança de que haveria mudanças que conduziriam a melhores condições educativas e consequentes resultados escolares.
Essa esperança foi esmorecendo com o passar dos dias, em que nada de positivo “saía” do ministério; nalguns casos, até, será a machadada final nas suas esperanças, o projecto de lei que permite “aos alunos que frequentem o 8º.ano e tenham completado já 15 anos de idade, transitarem directamente para o 10º.ano, sem passagem pelo 9º.ano, apenas, talvez (disto não tenho a certeza) tendo que prestar uma qualquer prova”.
Penso que isto será a preparação para um futuro que se avizinha, em que os professores serão absolutamente dispensáveis, e, aos poucos, dispensados.
Convido-vos a apreciarem, comigo, esta visão do futuro:

Fim Dos Professores

A cena passa-se por volta de 2210, ou seja, dentro de duzentos anos, o que equivale a, apenas, umas 10 gerações.
(Em Educação, geração é o nome dado ao conjunto de estudantes que iniciam ou terminam os seus estudos numa mesma data).
Estamos, portanto, em 2210, quando um menino pergunta:

- Vovô, porque é que o mundo está acabando?
O avô responde, calmamente:
- Porque já não existem PROFESSORES, meu anjo.
– Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor?

O velho responde, então, que professores eram homens e mulheres elegantes e dedicados, que se expressavam sempre de maneira muito culta e que, há muitos anos atrás, transmitiam conhecimentos e ensinavam as pessoas a ler, falar, escrever, comportar-se, localizar-se no mundo e na história, entre muitas outras coisas. Principalmente, ensinavam as pessoas a pensar.

– Eles ensinavam tudo isso? Mas eles eram sábios?
– Sim, ensinavam, mas não eram todos sábios. Apenas alguns, os grandes professores, que ensinavam outros professores, e eram amados pelos alunos.
– E como foi que eles desapareceram, vovô?
– Ah, foi tudo parte de um plano secreto e genial, que foi executado, aos poucos, por alguns vilões da sociedade. O vovô não se lembra bem do que surgiu primeiro, mas, sem dúvida, os políticos ajudaram muito.
Eles acabaram com todas as formas de avaliação dos alunos, apenas para mostrar estatísticas de aprovação. Assim, sabendo ou não sabendo alguma coisa, os alunos eram aprovados. Isso liquidou o estímulo para o estudo e apenas os alunos mais interessados conseguiam aprender alguma coisa.

Depois, muitas famílias estimularam a falta de respeito pelos professores, que passaram a ser vistos como empregados dos seus filhos.
Estes foram ensinados a dizer:
- Eu estou pagando e você tem que me ensinar, ou
- Para quê estudar se o meu pai não estudou e ganha muito mais do que você?”- ou ainda

- O meu pai dá-me mais de mesada do que você ganha num mês.
Isso quando não iam os próprios pais gritar com os professores nas escolas. Para isso muito ajudou a multiplicação de escolas particulares, as quais, mais interessadas nas mensalidades que na qualidade do ensino, quando recebiam reclamações dos pais, pressionavam os professores, dizendo que eles não estavam conseguindo “gerenciar a relação com o aluno”.
Os professores eram vítimas de violência – física, verbal e moral – que lhes era destinada por pobres e ricos. Transformaram-se em “saco de pancada” de toda a gente.
Além disso, qualquer proposta de ensino sério e inovador sempre esbarrava na obsessão dos pais pela a aprovação dos filhos, quer fosse nas Faculdades, nas básicas ou nas secundárias.
- Eu quero saber se isso que vocês estão ensinando vai fazer o meu filho passar de ano - diziam os pais nas reuniões com as escolas.
E assim, praticamente todo o ensino foi orientado para os alunos passarem ano após ano. Lá se foi toda a aprendizagem de conceitos; as discussões de ideias, tudo, enfim, se resumiu ao decorar de fórmulas. Com a Internet, os trabalhos escolares e as fórmulas ficaram acessíveis a todos, e nunca mais ninguém precisou de ir à escola para estudar a sério.
Em seguida, os professores foram desmoralizados. Os seus salários foram gradativamente sendo esquecidos e ninguém mais queria dedicar-se à profissão. Quando alguém criticava a qualidade do ensino, sempre vinha algum tonto dizer que a culpa era do professor.
As pessoas também se tornaram descrentes da educação, pois viam que as pessoas “bem sucedidas” eram políticos e empresários que os financiavam, modelos, jogadores de futebol, artistas de novelas da televisão, sindicalistas – enfim, pessoas sem nenhuma formação especial ou contribuição real para a sociedade.

Ah, mas estava a esquecer-me de um factor chave nessa história toda.
Houve uma época longa chamada ditadura; os militares colocaram os professores “debaixo de olho” e quase acabaram com eles. Foram perseguidos, aposentados, expulsos do país, em nome do combate aos subversivos e à instalação de uma república sindical no país.
Eles fracassaram, porque essa tal república sindical se instalou, os tais subversivos tomaram o poder, implantaram uma tal de “educação libertadora” que nunca ninguém soube o que é, e fizeram a aprovação automática dos alunos com apoio dos políticos... Foi o tiro de misericórdia nos professores.
Não sei o que foi pior –se os militares se os tais subversivos.

– Militar? Não conheço essa palavra. O que é um militar, vovô?

– Era, meu filho, era; agora já não é. Também já não existem...

domingo, 13 de junho de 2010

SENTIDO INVERSO

Quarta e última parte

Perante a minha passividade, ela avançou a outra mão e começou a desabotoar-me os botões da blusa.



Abri repentinamente os olhos e “vi” que ao meu lado estava UMA princesa, não UM príncipe.
Com suavidade mas também com firmeza, retirei a mão que tinha sobre o meu peito e afastei-me dela. Segurando-a pelos ombros, olhos nos olhos, disse-lhe, claramente:
- Eu gosto muito de ti, tu sabes. Adoro-te! Mas entre nós nunca poderá existir nada para além de uma grande mas fraternal amizade.
- Pois aí é que está a questão. Tu vês-me como uma irmã, e qualquer envolvimento entre nós ia ter, para ti, o cariz de incesto.
Mas tu não imaginas como pode ser doce mas também arrebatador o Amor entre mulheres. Aquela minha amiga que avistaste ontem é fantástica. Deixa-me apresentar-ta. Tenho a certeza que mudarás de ideia. Eu senti, ainda há pouco, que estavas a ter prazer…
- Sim, é verdade que por breves momentos fiquei excitada. Mas sabes porquê? Porque me imaginei nos braços de um homem.
Não, minha amiga, não quero que me apresentes ninguém. Eu sei que, definitivamente, gosto de homens, e serei incapaz de ter qualquer ligação íntima com uma mulher.

A minha amiga notou o tom firme em que falei. Não insistiu. Continuámos, e ainda somos, excelentes amigas.
Este incidente não me afectou minimamente. Talvez fizesse com que me viesse à memória, com maior frequência, o que aconteceu quando andava na escola.
Será que, se aquela experiência se tivesse consumado, eu hoje seria como a minha amiga? Gostaria só de mulheres, seria lésbica? Para esta pergunta não encontro resposta.
Eu e a minha colega ainda partilhámos o apartamento por dois ou três anos. Depois ela foi viver com outra amiga, com quem estabeleceu uma relação estável, que dura até hoje.
A nossa amizade não foi afectada com a separação. Continuamos grandes amigas. Respeito a sua opção de vida tal como ela respeita a minha.
Eu continuei com os estudos, acabei o curso, e fiquei a estagiar no escritório do meu “patrão”. Namorei muito, mas sem compromissos sérios.
Há dois anos, quando festejei os meus 35 anos, conheci alguém especial. Muito especial. Houve química entre nós. Iniciámos uma relação de Amor sem sobressaltos, com os seus momentos de paixão intensa, e sentimos que “fomos feitos um para o outro”. Estamos ambos convencidos de que acabaremos os nossos dias juntos.

Entretanto, alguns meses depois de o conhecer, uma noite sonhei que era homem. Nesse sonho a minha Mãe aparecia olhando-me com enlevo e orgulho, e de repente notei que estávamos vestidos de cerimónia, e a minha Mãe segurava o meu braço, caminhando lentamente ao meu lado. Ao longe avistei o vulto, que não identifiquei, de alguém usando um vestido de noiva, o que me causou um grande sobressalto. Era o meu casamento!
Acordei subitamente, impressionada com um sonho tão disparatado.
Durante o dia várias vezes o mesmo me veio à ideia. E pensava:
- Como será ser homem? Os homens serão assim tão diferentes das mulheres? Deveria eu ter nascido homem? Nesse caso eu gostaria, naturalmente, de mulheres…
Nessa mesma noite tomei uma decisão.
- Quero experimentar a sensação de ser homem!

Inscrevi-me num site social (não vou dizer qual porque não alinho em publicidade grátis) com um perfil masculino.
Como domino razoavelmente bem a técnica da imagem em computador “construí” uma foto dum homem jovem, muito charmoso, que causa um verdadeiro delírio especialmente entre as teenagers.
Todas as noites abro o site e respondo às inúmeras mensagens das minhas admiradoras, a cada dia aprimorando a minha figura masculina, contando histórias fantásticas que as põe ao rubro.
Mas o mais estranho é que faço isto com prazer, e sinto-me cada vez mais presa ao personagem que todas as noites encarno.

Está nos meus planos constituir família com o meu actual namorado. Mas, antes, tenho que lhe contar este meu segredo. Se ele o aceitar…seremos felizes para sempre.



O meu maior desejo é que a minha prole, em número ainda não definido, seja constituída apenas por meninas. Vou vingar-me cobrindo-as de laços, lacinhos e laçarotes, flores e passarinhos, e corações, atravessados ou não por setas! Sem esquecer os folhinhos e os cabelos pela cintura.

Hoje eu pergunto-me: eu seria uma pessoa diferente, mais estável, mais segura, com menos dúvidas que, constantemente invadem o meu espírito, se a minha Mãe não tivesse tentado empurrar-me num SENTIDO INVERSO?

FINAL


Nota: Porque alguns comentadores manifestaram curiosidade, havendo mesmo uma comentadora que declarou abertamente que gostaria que no final houvesse um esclarecimento, sinto ser meu dever informar-vos do seguinte:
O “conto” que agora chegou ao final não é autobiográfico; nem sequer, a exemplo do que se passou com “Anita”, é baseado em factos reais.
Trata-se de pura ficção, fruto de observação de casos do dia-a-dia, com os quais construí esta história.
Nasci numa família de cinco irmãos, dois do sexo masculino e três do feminino. A minha Mãe não tinha preferência por meninos ou meninas, o que viesse era bem recebido; já o meu Pai tinha preferência por meninas. Dizia que não se importava de ter apenas filhas.
Quero ainda dizer-vos que me senti muito lisonjeada por alguns de vós terdes pensado tratar-se dum caso verídico, e, em particular, autobiográfico, porque isso me leva a concluir que fui convincente na forma como conduzi a história.

A todos o meu sincero “Obrigada”.

domingo, 6 de junho de 2010

SENTIDO INVERSO

Terceira (e penúltima) parte

Não foi bem isso que aconteceu. Com os meus 18 anos feitos iniciei a minha libertação, que implicava o corte do cordão umbilical.
Comecei a sair à noite com as minhas amigas, uma vez por outra, mas tendo sempre o cuidado de não chegar muito tarde.
A minha Mãe chamava-me sempre a atenção, não usando já aquele tom de exigência a que me habituara. Eu respondia-lhe alegremente, com um ar que queria significar: a meninice já lá vai, agora sou senhora do meu nariz.

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Embora eu fosse muito obediente, ou talvez por isso mesmo, sempre fui muito orgulhosa. Não gostava de mendigar; e se alguma coisa que eu pedia me era recusada, eu simplesmente não insistia. O meu orgulho não me deixava rebaixar-me. Recordo-me de cenas que aconteceram e provam o que acabo de dizer, ainda eu era bem pequena.
Com esta maneira de ser e pensar não me sentia bem comigo mesma ao querer liberdade para proceder a meu bel-prazer e ao mesmo tempo ser dependente, economicamente, dos meus Pais.

Com 18 anos incompletos entrei para a Faculdade de Direito, e, ao mesmo tempo que estudava consegui arranjar trabalho no escritório dum advogado amigo. De início fui ganhar muito pouco, mas em breve o ordenado foi aumentado. Com a educação que recebera só podia ser cumpridora… e o patrão era uma pessoa muito justa e honesta.
Foi assim que, aos 20 anos, já tinha amealhado o suficiente para pensar em desligar-me completamente da casa paterna, alugando um apartamento a meias com uma amiga.

Tinha, entretanto, arranjado um namorado do qual desisti quando ele começou a querer um relacionamento mais íntimo, o que não me atraía de modo algum.
Foi uma época bastante complicada, emocionalmente. Lembrava-me, frequentemente, do incidente com a minha amiga de escola.



E, sempre que o meu namorado tentava uma maior aproximação, eu sentia uma espécie de repulsa que me levava a afastar-me dele.
A minha colega de apartamento tinha algumas amigas que eu não conhecia, e que a visitavam de vez em quando. Como eu não mostrava interesse especial em conhecê-las, retiravam-se para o quarto para não me incomodarem. Geralmente eu estudava na sala.

Um dia que eu tinha ido sair e voltei a casa porque me esquecera de um livro que me fazia falta, surpreendi a minha colega no quarto com uma amiga. Tinham deixado a porta aberta e os sons que pude ouvir não me deixaram dúvidas sobre as actividades em que se encontravam.
Quando fechei a porta, depois de entrar, a minha colega espreitou para fora do quarto e, ao ver-me, ficou com um ar muito comprometido.
Para mim foi um grande choque, não pelo facto em si, mas por ela nunca me ter dito ou sequer insinuado que era lésbica. Afinal, vivíamos no mesmo apartamento…

No dia seguinte eu não trabalhei à noite e fiquei na sala. Acomodei-me no sofá e liguei a televisão.
A minha amiga veio sentar-se junto de mim e começou a falar:
- Sabes o que significa o que surpreendeste ontem?
- Calculo que sim… Ou haverá outra explicação diferente daquilo que pensei?
- Não, o que pensaste está correcto. Eu sou lésbica, e não me envergonho…
- E porque haverias de te envergonhar? Se há algum motivo para te envergonhares é o não teres sido franca comigo, quando pensámos em alugar o apartamento e passarmos a viver juntas.
- Se soubesses que eu era lésbica não terias vindo viver comigo?
- Provavelmente isso não me faria mudar de ideias, viria viver contigo, sim, mas não teria feito figura de parva…
- Mas tu não fizeste figura de parva coisa nenhuma. Quando é que tal aconteceu?
- Olha, todas as vezes que recebeste amigas no teu quarto e eu não desconfiei de nada. Achas pouco?

Nesta altura ela agarrou a minha mão, meigamente, acariciando-a com um ar perfeitamente inocente.
Eu não vi nesse gesto qualquer segunda intenção, por isso não retirei a mão.

A minha amiga disse:
- Perdoa-me. Acredita que não queria magoar-te. Eu gosto muito, muito, de ti. Há muito tempo, desde o primeiro ano da Faculdade, que eu sentia uma atracção enorme por ti. Mas nunca tive coragem para te dizer. O facto de sermos tão amigas ainda me intimidava mais.

À medida que falava ia se aproximando, e em breve estava a dar-me pequenos beijos no pescoço, entrecortado de curtas frases - “ Deixa-me fazer-te feliz”…
Senti um frémito de prazer percorrer-me o corpo. Fechei os olhos e imaginei-me nos braços dum príncipe encantado, acariciando-me ternamente.

Continua

domingo, 30 de maio de 2010

SENTIDO INVERSO

SENTIDO INVERSO
Segunda parte

Os pais dela trabalhavam, ela não tinha irmãos, portanto a casa estava por nossa conta.
Começámos a estudar na sala



mas, pouco tempo depois, ela propôs que descansássemos um pouco e fôssemos para o seu quarto ver fotos ou qualquer outra coisa que agora não recordo; não fiz qualquer objecção . Fomos!
Aí chegadas a minha amiga começou a queixar-se com calor, dizendo que ia pôr-se à vontade, e insistindo para que eu fizesse o mesmo. Tudo bem, porque não?
Ficamos, portanto, apenas com as calcinhas e os sutiãs.
Sentámo-nos na beira da cama a ver qualquer coisa, e de repente, sem eu esperar, ela, com a mão direita puxou-me pelo pescoço e deu-me um beijo na boca, ao mesmo tempo que, com a mão esquerda, acariciava a minha coxa.
Qualquer coisa em mim entrou em alerta! Eu nunca havia tido qualquer contacto mais íntimo, e em casa os meus pais eram bastante discretos, embora muitas vezes trocassem carinhos.
Penso que a minha sexualidade ainda não tinha despertado, o que só viria a acontecer, na prática e fisicamente, depois dos dezoito anos.
Naquela altura, com a minha amiga, não sei o que senti. Espanto, talvez.



A verdade é que eu era, com certeza, muito infantil, e com a educação algo severa dos meus pais, não tinha ainda tido devaneios amorosos…
A minha reacção foi, portanto, afastar-me um pouco; mas ela puxou-me carinhosamente para si e começou a beijar-me o pescoço ao mesmo tempo que tentava acariciar-me o peito, que já se notava perfeitamente, denotando o que viria a ser dentro de pouco tempo.

Fui salva pelo gongo, como se costuma dizer. O telefone começou a tocar e a minha amiga foi à sala atender. Eu aproveitei para rapidamente me vestir, e quando ela regressou disse-lhe que era melhor ir-me embora porque não avisara a minha Mãe de que ia chegar mais tarde e “sabes como ela é exigente com os horários”. (A minha Mãe trabalhava em casa como tradutora, por isso quando eu saía da escola encontrava-a sempre em casa).

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A minha amiga mostrou-se muito compreensiva e não insistiu para eu ficar; apenas me disse que gostava que eu fosse novamente estudar com ela, mas que avisasse disso a minha Mãe.

Saí dali com as pernas a tremer. Tinha a sensação de que o que se passara não era tão inocente como a minha amiga me queria fazer crer. O meu sistema de alerta funcionara na perfeição, evitando que eu pudesse ter a minha primeira experiência homossexual, para a qual não estava minimamente preparada, e que poderia ser bastante traumatizante.

Ela ainda voltou a convidar-me meia dúzia de vezes para ir a sua casa; mas, perante as minhas escusas, acabou por desistir.
Não deixei de ser amiga dessa garota, embora evitasse, daí para o futuro, encontrar-me a sós com ela, e recusasse, sistematicamente, todos os seus convites que implicassem uma maior aproximação.

Nos anos que se seguiram até aos meus 18 anos nada de especial aconteceu no que respeita a experiências sexuais.
Penso que para isso muito contribuiu a educação que a minha Mãe me dava: muito carinho, muito amor, mas muita severidade também. Ela conhecia perfeitamente os meus horários escolares, e não admitia que eu chegasse a casa mais tarde do que o tempo necessário para a deslocação. Para que tal acontecesse, tinha que ser previamente avisada.
À medida que os anos passavam as minhas formas iam-se arredondando, a cintura ficando mais fina e os traços do rosto mais harmoniosos.
Contra isso a minha Mãe nada podia fazer, a não ser comprar-me roupas bastante folgadas, que disfarçavam as minhas elegantes formas.
Fora dos seus olhares eu colocava um cinto que ajustava a roupa à cintura, porque cada dia sentia mais vontade de me libertar daquela maneira de vestir arrapazada. Mas com a minha Mãe não valia a pena insistir: a sua vontade era soberana. E depois ela tinha uma maneira de se impor, uma autoridade tão natural, que eu nem sentia que estava a ser contrariada, mas sim convencida a fazer o que não me agradava.
As amigas, quando a iam visitar e eu aparecia para as cumprimentar, não me poupavam elogios:
- Carminha (era a minha Mãe), mas como a tua filha está bonita! E tão elegante! É uma verdadeira estátua! Só é pena que tenhas tão mau gosto para a vestir… Deve andar uma multidão de rapazes atrás dela…
Já tens namorado? – perguntavam, dirigindo-se a mim.
Eu simplesmente corava e baixava a cabeça; e antes que pronunciasse uma palavra a minha Mãe atalhava logo:
- Era só o que faltava! Ela tem é que pensar em estudar, tirar o seu curso, estabelecer-se na vida, e depois então pensar em namoricos. E ainda vai cedo! Eu casei-me com 28 anos e tenho tido tempo para realizar todos os meus sonhos. Portanto ela fará o mesmo.

Continua

domingo, 23 de maio de 2010

SENTIDO INVERSO


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Quando eu nasci os meus pais não tiveram a alegria que normalmente os pais têm com o nascimento de um filho, isso porque eu era uma filha.

Na realidade eles desejavam que o primeiro filho fosse um rapaz, com o que, provavelmente, encerrariam as actividades de procriação.

Coitados! Tiveram azar, e apareci eu, uma menina, linda, ao que dizem, e como posso comprovar pelas fotografias, não muitas, que me tiraram em criança.

Acabaram por se conformar; não havia mais nada a fazer, a não ser uma outra tentativa para conseguirem um rapaz.

Foram bem sucedidos, e o meu irmão nasceu quando eu já tinha cinco anos. (demoraram um certo tempo a refazer-se e ganhar coragem para nova investida…)

O facto de eu ser uma menina não me prejudicou em nada. Os meus pais trataram-me sempre com o maior carinho e desvelo, e, mesmo depois de o meu irmão nascer, os seus cuidados para comigo não diminuíram. Não passou a haver qualquer diferença de tratamento entre o meu irmão e eu.

Há apenas um pormenor, relativo á minha infância, que me causa um certo desconforto quando o recordo:

A minha Mãe vestia-me sempre com roupas bem arrapazadas – calças ou jardineiras, mas sem aquele toque feminino que geralmente têm estas peças de roupa quando destinadas a meninas, e que se traduz por umas florinhas, ou cãezinhos, ou corações, enfim, qualquer floreado que é colocado no bolso ou no peitilho.

O cabelo andava sempre muito curto. Nada de tranças ou totós, nem mesmo as “palmeirinhas” que todas as meninas usam no topo da cabeça, quando o cabelinho começa a crescer, por volta dos dois anitos, e que as mães enfeitam com vistosos laçarotes.

Recordo-me que isso me causava um certo desgosto. Via as minhas amigas com alegres vestidos rodados, cabelos caindo pelas costas ou apanhados em totós, à “ Pipi das meias altas”, e sentia-me inferiorizada, feia e sem graça.

As amigas da minha mãe às vezes comentavam:

- Credo, tu não tens gosto nenhum para vestir a tua filha. Nunca se lhe vê um vestidinho…parece sempre uma Maria-rapaz!

- Assim é que ela anda bem, pode correr e saltar à vontade sem precisar preocupar-se com as roupas! A Liberdade começa por aí…

As amigas não insistiam porque sabiam que não valia mesmo a pena.

A minha Mãe parecia querer encaminhar-me num sentido inverso àquele para que eu havia nascido – ser Mulher.

Quando fiz 18 anos pude, finalmente, começar a decidir o que vestir.

Comprei um lindo vestido vermelho, todo moderno, bem feminino, que me marcava as formas que Deus, na sua infinita misericórdia, fizera semelhantes às de uma estátua!


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A minha Mãe esboçou um ligeiro esgar ao ver-me aparecer assim vestida na festa que me preparara com todo o esmero. Fiquei na dúvida se era desagrado ou espanto ao ver a filha como nunca a vira antes.

Mas eu estava demasiado feliz para me preocupar com esses pormenores. Foi um dia muito lindo na minha vida, que marcou o início duma grande reviravolta.

Num primeiro gesto de rebeldia comecei logo a deixar crescer o cabelo, e durante um ano a cabeleireira não lhe pôs as mãos.

Quando já me pousava nos ombros passei a deixar que fosse tratado por mãos de profissionais.

E pude, finalmente ser, mas muito especialmente sentir-me, mulher!

Recuando um pouco até à pré-adolescência, altura em que começa a despontar a sexualidade, recordo-me que as meninas andavam pelos cantos aos beijinhos aos rapazes, numa total inocência, mas já revelando o aproximar do desenvolvimento das hormonas.


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Talvez devido aos meus modos arrapazados incentivados pela minha mãe, os rapazes não manifestavam por mim qualquer interesse para além do jogo da bola – eu era sempre integrada numa das suas equipas. Acho que eles me viam como “um dos deles”…

Assim fui crescendo, e quando andava pelos treze anos, em que, se não acontece antes, é altura de despertar a grande curiosidade pelo misterioso sexo, tudo para mim continuava na mesma, pois os rapazes viam-me com os mesmos olhos de sempre, e não denotavam sentir por mim qualquer atracção física.

Foi então que uma amiga começou a insinuar-se mais junto a mim, e um dia convidou-me para ir estudar para casa dela. Fui, contente e feliz.

Lembro-me que era um dia de muito calor.

Continua...

domingo, 16 de maio de 2010

MINHA IDA AO DERMATOLOGISTA


Visita de rotina aos médicos. Todos os anos a mesma peregrinação:
Mastologista, ginecologista, oftalmologista, dentista…
Mas um dia resolvo incluir um ISTA novo na minha odisseia – um DERMATOLOGISTA.

Já era hora de procurar uns creminhos mágicos para tentar retardar ao máximo as marcas da inevitável entrada nos ENTA.
Para ser sincera e nem um pouco modesta, entrei gloriosa nesta seita. Com direito a uma festa memorável, que durou até às 10 horas da manhã do dia seguinte. Festa com música ao vivo, Los Años Dorados, na melhor boite da cidade, todos os amigos, fotografias… tudo maravilhoso.
Na verdade sentia-me espetacular. Tudo certo. Ninguém podia cantar para mim a ridícula frase da Calcanhoto: “nada ficou no seu lugar”...

Mas não sei o que deu no espelho lá de casa, que resolveu, do dia para a noite, tomar ares de conto de fadas. Aliás, de bruxas. E mostrar coisinhas que nunca haviam aparecido. (Ou eu não havia notado?) Pontinhos azuis nos tornozelos, pintinhas negras no colo, nos braços, bolinhas vermelhas na bunda… olheiras mais profundas… Como assim???
Assim...sem avisar nem nada. De repente, o idiota resolveu mostrar e pronto.
Ah, não! Isso não vai ficar assim. ISTA novo na lista do convênio. O melhor. Queria o melhor especialista de todos os ISTAS... Achei. Marquei. E fui tão nervosa quanto para um encontro ‘bem intencionado' daqueles em que a gente escolhe a roupa íntima com cuidado, que é para não fazer feio...nem parecer que foi uma escolha proposital… sabe como é, né?

Pois sim. O sujeito era um dermatologista famoso. Via e futucava a pele de toda a nata feminina e masculina da cidade. Assim, me armei de humildade. Disposta a mostrar cada defeitinho novo que estava observando, através do maquiavélico e ex-amigo espelho de meu quarto. Depois de fazer uma ficha com meus dados, o 'doutor' me olhou, finalmente, nos olhos, e perguntou: 'O que lhe trouxe aqui?'

Fiquei vermelha como um tomate. E muda. Ele sorriu e esperou.
Quase de olhos fechados, desfiei minhas queixas. Ele observou ' in loco' cada uma delas, com uma luz de 200wtz e uma lupa... e começou o seu diagnóstico.

- “As pintinhas são sinais de sol, por todo o sol que já tomou na vida.
Com a IDADE (tóin!) elas vão aparecendo, cada vez mais numerosas. Vai precisar de um protetor solar para sair de casa pela manhã, mesmo sem ir à praia. Para dirigir mesmo. Braços e pernas e rosto e pescoço. “
- E praia?
- “Evite. Só de 6 às 10 da manhã, sob proteção máxima, guarda sol, óculos e chapéu. Bronzear-se, nunca mais!”
- Ahmmm… (a turma só chega às 11:00…!!!)
- “Os pontinhos azuis são pequenos vasos que não suportam a pressão do corpo sobre os saltos altos. Evite. Sapatos com solado anabela ou baixos, de preferência. Compre uma meia elástica, Kendall, para quando tiver que usar os saltos altos”
- Ahmmmaaa… (Kendall??? E as minhas preciosas sandalinhas???)
- “As bolinhas na bunda são normais, por causa do calor. Para evitá-las use mais saias do que calças. Evite o jeans e as calcinhas de Lycra. As de algodão puro são as melhores… e folgadas.”
- Ahmnunght??? (e pude “ver” as de minha mãe, enormes, na cintura, de florzinhas cor de rosa… vou chorar!)
- “As olheiras são de família. Não há muito o que fazer. Use esse creminho à noite, antes de dormir, e procure não dormir tarde. Alimentação leve, com muita fruta e verdura, pouca carne e muito peixe. Nada de tabaco, nem álcool… nem café.”

E a histérica aqui começou a rir…

Agradeci, peguei suas receitinhas, e saí rindo, rindo, me dobrando de tanto rir!

No carro comecei a falar sozinha... tudo o que deveria ter dito e não disse:
Trabalho muito, doutor... muitas noites vou dormir às 2h, escrevendo e lendo. Bebo e fumo. Tomo café. Saio pelas noites de boémia com os amigos e os violões para as serenatas de lua cheia....e que noites!!!

Adoro os saltos, principalmente nas sandálias fininhas. Impossível a meia elástica (argh!!).
Calcinhas de algodão? E folgadas??? Adoro as justinhas e rendadas.. E não abandono meu jeans nem sob ameaça de morte!!! É meu melhor amigo!!!!
Dormir lambuzada? Neste calor? E minhas duchas frias com sabonete Johnson para ficar fresquinha como um bebê, cada noite?
E nada de praia??? O senhor está louco é???? Endoideceu, foi??? Moro em Rio de Janeiro, com esse mar e tudo…e tenho só 50 anos… meia vida inteira pela frente!!!
Doutor Fulustreco, na minha idade não vou viver como se tivesse feito trinta anos em um!!! Até um dia desses tinha 49... e agora em vez de 50 estou fazendo 70???
Inclua aí¬ na sua lista de remédios para as de
50 a 70: MEIA LUZ... Acho que é só disso que eu preciso. Um bom abajour com uma luz de 15wts...E um namorado que use óculos...É isso… só isso!!! Entendeu???

Parei no sinal e olhei de lado... e um garoto de uns 25 anos piscou o olho para mim. Ah... e ele nem usava óculos! Nunca fiz o que me recomendou o fulustreco ISTA... Minhas olheiras são parte de meu charme.
E valem o que faço pelas noites a dentro... ah!!! se valem!
As bolinhas da bunda desapareceram com uma solução caseira de vitamina A, que quase todas as mulheres usavam e eu não sabia, até que contei minha historinha do 'bruxo mau'.
Os sinaizinhos estão aqui... sem grandes alardes... e até que já acho bonitinho.
O espelho é muito menor… o outro, eu dei a minha filha.
E meu namorado diz que estou cada dia mais linda Principalmente quando estou de saltos e rendas, disposta a encarar uma noite de vinhos e música.
É claro que ele usa óculos. Mas quando quero ficar fatal, tiro os seus óculos… e acendo o abat-jour.

ESQUEÇA OS ISTAS E TENHA UMA BOA SEMANA.

domingo, 9 de maio de 2010

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE (1/02)

O INCONVENIENTE DE SE FALAR FRANCÊS

Quando cheguei tinha acontecido, poucos dias antes, a independência do Congo Belga. A cidade estava repleta de refugiados que tinham vindo acolher-se num sítio para eles seguro, dado que, após a independência, o vizinho Congo Belga viveu tempos muito conturbados.
Da varanda do apart-hotel onde eu me encontrava, e onde permaneci por cerca de um mês, podia vê-los, com enormes túnicas brancas contrastando com o negro da pele. Para quem, como eu, não estava habituada a vê-los em tão grande número e em tais roupagens, era um pouco assustador. Quase não me atrevia a sair à rua, a não ser acompanhada, o que só podia acontecer ao final do dia, quando o marido regressava dos seus afazeres.
A primeira semana foi um pouco complicada. O marido encontrava-se destacado numa povoação a alguns quilómetros de distância, e só regressou uma semana depois. Fez-me companhia no dia da chegada e no dia seguinte, mas logo a seguir voltou para o seu posto.
Acho que foi a semana mais comprida da minha vida, mas chegou ao seu termo, como tudo…
Decorrido cerca de um mês conseguimos alugar um apartamento num prédio que ainda estava em construção. O construtor deu prioridade aos dois apartamentos do rés-do-chão – esquerdo e direito – onde se instalaram duas famílias nossas conhecidas, e ao primeiro andar direito, para onde nós fomos viver.
Como o dia em África começa muito cedo, quando dei à luz, às nove horas da manhã, os trabalhos decorriam a ritmo acelerado nos andares de cima. As marteladas ouviam-se a distância e faziam estremecer o prédio. E foi no meio de toda esta algazarra que o meu bebé tomou contacto com o mundo pela primeira vez.
Os dias que se seguiram não foram mais silenciosos; só quando as obras foram subindo de patamar é que o barulho se começou a ouvir mais ao longe.
Ainda hoje me espanta como é que o meu filho consegue ser uma pessoa tão calma e serena tendo nascido no meio de tanta barulheira.
A casa onde morávamos era bastante espaçosa. Para além duma sala grande que funcionava como sala de estar e de jantar, tinha dois quartos, e as restantes divisões normais numa casa.
Cerca de um mês depois de lá estarmos a minha cunhada foi juntar-se a nós,

e aí permaneceu até que o marido, colocado mais ao norte, conseguiu reunir condições para ter a família junto de si. Vinha à cidade apenas aos fins-de-semana gozar a companhia da mulher e dos dois filhitos pequenos.
Tínhamos um criado que passava a ferro e cozinhava divinalmente. Lembro-me que lhe lia receitas do meu livro de cozinha que me tinha acompanhado – inexperiente como eu era não sabia cozinhar e tinha que me valer do livro de receitas, gentil oferta do marido no primeiro Natal que passamos casados !!!
O Francisco, assim se chamava o criado – pelo menos dava por esse nome – ouvia a receita uma vez apenas e reproduzia os cozinhados quantas vezes quiséssemos, com mão de mestre.
Era um homem alto, bonito, de pele excepcionalmente escura, quase azulada, com um semblante impenetrável.
Naturalmente educado, cortês, de poucas falas mas atencioso, levava-nos a pensar que teria ascendência de elite.
Um dia em que eu e minha cunhada nos encontrávamos na sala, cuidando dos bebés, o Francisco encontrava-se lá também, a passar a ferro.
A minha cunhada dirigiu-se-me:
- Mariazita, já reparaste como “ele” passa tão bem a ferro?
Para que ele não percebesse, ela tinha falado em francês, e dito “ele” em vez de “Francisco”.
Já anteriormente tínhamos usado este estratagema quando queríamos dizer alguma coisa que preferíamos que ele não percebesse.
Antes que eu respondesse à minha cunhada, o Francisco disse, em português:
- Aprendi com a minha mãe, senhora. Era ela que cuidava pessoalmente dos fatos do meu pai.
Apanhadas de surpresa, a nossa reacção imediata foi de estranheza, que lhe fizemos sentir:
- Ah! Então o Francisco sabe falar francês?
- Sim, senhora, melhor do que português, porque eu sou do Congo Francês.
Àquela data, depois da independência do Congo Belga e consequentes distúrbios, havia uma atenção especial à fronteira, a norte, com o Congo Francês – Ponta Negra – que viria a tornar-se independente pouco tempo depois.
Postos ao corrente deste “incidente” com o Francisco, devido ao clima instável que se vivia no Congo Francês, os maridos acharam mais prudente “dispensá-lo” do serviço.
Apanhámos um pequeno (…) susto, mas, no fundo, o que mais nos custou foi perdermos os belíssimos cozinhados do Francisco.
E tudo isto por nos termos lembrado de falar em francês!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

ALERGIAS

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Alergias! Quem não as tem... Noites sem dormir...com um pacote de lenços de papel na mesinha de cabeceira...
E aqueles momentos em que se dorme profundamente e de repente: "atchiiiim!!" "atchiiim!!" "atchiiiim!!""atchiiiim!!""atchiiiim!!"
No dia seguinte os olhos parecem dois repolhos, de tão inchados que estão, ao mesmo tempo que escorrem água como uma nascente. O nariz completa o cenário – pena que não se lhe possa pôr uma rolha…
É assim que estou, minhas amigas e meus amigos. Por isso não vou poder corresponder, atempadamente, aos vossos amáveis comentários.
Logo que me encontre melhor visitarei todos, um por um.

Um grande beijinho virtual (sem micróbios…)

domingo, 2 de maio de 2010

DIA DA MÃE

"Em geral, as mães, mais que amar os filhos, amam-se nos filhos."
(Friedrich Nietzsche)


MÃES SÓ MORREM QUANDO QUEREM

"Eu tinha 7 anos quando matei minha mãe pela primeira vez.

Eu não a queria junto a mim quando chegasse à escola em meu 1º dia de aula.
Eu me achava forte o suficiente para enfrentar os desafios que a nova vida iria me trazer.
Poucas semanas depois descobri, aliviado, que ela ainda estava lá, pronta para me defender não somente daqueles garotos brutamontes que me ameaçavam, como das dificuldades intransponíveis da tabuada.

Quando fiz 14 anos eu a matei novamente.

Não a queria me impondo regras ou limites, nem que me impedisse de viver a plenitude dos vôos juvenis.
Mas logo no primeiro porre eu felizmente a redescobri viva; foi quando ela não só me curou da ressaca, como impediu que eu levasse uma vergonhosa surra de meu pai.

Aos 18 anos chei que mataria minha mãe definitivamente, sem chances para ressurreição.

Entrara na faculdade,iria morar em república, faria política estudantil, atividades em que a presença materna não cabia em nenhuma hipótese.
Ledo engano: quando me descobri confuso sobre qual rumo seguir voltei à casa materna, único espaço possível de guarida e compreensão.

Aos 23 anos me dei conta de que a morte materna era possível, apenas requeria lentidão...

Foi quando me casei, finquei bandeira de independência e segui viagem.
Mas bastou nascer a primeira filha para descobrir que o bicho mãe se transformara num espécime ainda mais vigoroso chamado avó.
Para quem ainda não viveu a experiência, avó é mãe em dose dupla...
Apesar de tudo continuei acreditando na tese da morte lenta e demorada, e aos poucos fui me sentindo mais distante e autônomo, mesmo que a intervalos regulares ela reaparecesse em minha vida desempenhando papéis importantes e únicos, papéis que somente ela poderia protagonizar...

Mas o final dessa história, ao contrário do que eu sempre imaginei, foi ela quem definiu: quando eu menos esperava, ela decidiu morrer.
Assim, sem mais nem menos, sem pedir licença ou permissão, sem data marcada ou ocasião para despedida.
Ela simplesmente se foi, deixando a lição de que “mães são para sempre”.

Ao contrário do que sempre imaginei, são elas que decidem o quanto esta eternidade pode durar em vida, e o quanto fica relegado para o etéreo terreno da saudade..

Desconheço a autoria

Não espere pela partida da sua Mãe para lhe dar Amor.
Se a tiver ainda ao seu lado, dê-lhe um beijo e um abraço e diga-lhe o que ela mais gosta de ouvir:
ADORO-TE, MÃE. OBRIGADA POR EXISTIRES!

E se ela já não estiver ao seu lado, se já tiver partido...
Feche os olhos e faça uma prece em seu louvor, agradecendo-lhe pela vida que lhe deu. Pode também dizer que a ama, porque onde ela se encontra vai escutar o que você lhe está dizendo... e vai sentir-se muito feliz.

domingo, 25 de abril de 2010

CENAS DA VIDA REAL

A ÁGUA COADA

Foi com alguma tristeza e preocupação que o jovem alferes recebeu a notícia da sua transferência para uma pequena cidade de província, onde iria permanecer por tempo indeterminado.
O seu vencimento não lhe permitiria alojar-se num hotel – que, muito provavelmente nem existiria na cidade.
Em conversa com camaradas que já lá haviam estado, tomou conhecimento de que era habitual algumas famílias disponibilizarem quartos que alugavam aos jovens oficiais. Desse modo, ao chegar à cidade, levava consigo as moradas de duas ou três famílias que alugavam quartos.
Deu uma volta pelas ruas indicadas e escolheu a que lhe pareceu com melhor aspecto.
Tratava-se da residência duma senhora viúva e sua filha, de condição modesta mas educadas e simpáticas.
Depois de visto o quarto que era bastante acolhedor e acertado o preço, o jovem apressou-se a trazer a sua reduzida bagagem para a sua nova “morada”.
A dona da casa mostrou-lhe a casa de banho que ficava contígua ao quarto de dormir, frisando que "o senhor alferes pode estar perfeitamente à vontade porque eu e a minha filha usamos um outro quarto de banho”.
Óptimo – pensou o alferes – pelo menos tenho privacidade. E logo ali dispôs os seus utensílios de higiene.
Como a maioria das casas da cidade, também aquela não possuía água quente canalizada.
Para os banhos existia, colocado ao meio da banheira, suspenso do tecto, um balde com um chuveiro incorporado, como creio que ainda se usam no campismo selvagem (fora dos parques).

Esses “baldes-chuveiro” têm na base uma torneira para fechar e abrir a água. Enchem-se com água à temperatura desejada e quando se vai tomar o banho roda-se a torneira para a água correr e molhar o corpo.
O nosso jovem alferes mostrou ao “impedido” onde era a casa de banho, recomendando-lhe que a x horas lhe preparasse a água para o banho, que ele tomaria logo que chegasse a casa.
E de seguida podia ir-se embora.
As ordens foram cumpridas.
Quando o alferes entrou na casa de banho e se dirigiu à banheira, verificou que a mesma tinha água no fundo. Abrindo a torneira do “balde-chuveiro” não escorreu nem uma gota. Pensou para consigo:
- O rapaz não percebeu que devia colocar a água dentro do balde. Amanhã tenho que lhe explicar como deve fazer.
No dia seguinte, quando o alferes começava a explicar os passos a dar para a preparação do banho, frisando que ele deveria ter em atenção a torneira, que tinha que ficar fechada, o pobre rapaz, com ar de espanto, exclamou:
- Então a torneira é para ficar fechada?!!! Ontem eu até pensei:
- Mas porque será que o nosso alferes quer a água do banho coada?

Mariazita, Abril de 2010

( Gostaria que me acompanhasse na minha homenagem ao “25 de Abril” em OLHAI OS LÍRIOS DO MACUÁ )

domingo, 18 de abril de 2010

LUZ E ESCURIDÃO

O MENINO QUE TROUXE LUZ AO MUNDO DA ESCURIDÃO

Um dia um menino de três anos estava na oficina do Pai vendo-o fazer arreios e selas. Quando crescesse queria ser igual ao Pai.
Tentando imitá-lo, agarrou um instrumento pontiagudo e começou a bater numa tira de couro.
O instrumento escapou da pequena mão, atingindo-o no olho esquerdo.
Logo de seguida uma infecção atingiu o olho direito, e o menino ficou totalmente cego.
Com o passar do tempo, embora se esforçasse para se lembrar, as imagens foram gradualmente desaparecendo, e em breve ele não se lembrava mais das cores.
Aprendeu a ajudar o Pai na oficina, trazendo ferramentas e peças de couro.
Ia para a escola e todos se admiravam da sua memória.
Na verdade ele não estava feliz com os seus estudos. Queria ler livros, escrever cartas, como os seus colegas.
Um dia ouviu falar de uma escola para cegos.
Aos dez anos Louis chegou a Paris levado pelo Pai, e matriculou-se no Instituto Nacional para crianças cegas.
Ali havia livros com letras grandes, em relevo.
Os estudantes sentiam, pelo tacto, as formas das letras, e aprendiam as palavras e frases.
Logo o jovem Louis descobriu que era um método limitado. As letras eram muito grandes. Uma história curta enchia muitas páginas.
O processo de leitura era muito demorado.
A impressão de tais volumes era muito cara.
Em pouco tempo o menino tinha lido tudo o que havia na biblioteca. Queria mais.
Como adorava música tornou-se estudante de piano e violoncelo.
O amor à música aguçou o seu desejo pela leitura. Queria ler também notas musicais.
Passava noites acordado, pensando em como resolver o problema.
Ouviu falar de um capitão do exército que tinha desenvolvido um método para ler mensagens no escuro.
A escrita nocturna consistia em conjuntos de pontos e traços em relevo no papel.

Os soldados podiam, correndo os dedos sobre os códigos, ler sem precisar de luz.
Ora, se os soldados podiam, os cegos também podiam – pensou o garoto.
Procurou o capitão Barbier que lhe mostrou como funcionava o método:
Fez uma série de furinhos numa folha de papel com um furador semelhante ao que cegara o pequeno Louis.
Noite após noite e dia após dia Louis trabalhou no sistema de Barbier, fazendo adaptações e aperfeiçoando-o. Suportou muita resistência.
Os donos do Instituto tinham gasto uma fortuna na impressão dos livros com as letras em relevo. Não queriam que tudo fosse por água abaixo.
Com persistência, Louis Braille foi mostrando o seu método. Os meninos do Instituto interessavam-se. À noite, às escondidas, iam ao seu quarto para aprender.
Finalmente, aos vinte anos de idade, Louis chegou a um alfabeto legível, com combinações variadas, de um a seis pontos.
O método Braille estava pronto.
O sistema permitia também ler e escrever música.
A ideia acabou por encontrar aceitação.
Semanas antes de morrer, no leito do hospital Louis disse a um amigo:
- Tenho a certeza que a minha missão na terra terminou.
Louis Braille faleceu dois dias depois de completar 43 anos.

Nos anos seguintes à sua morte o método espalhou-se por vários países.
Finalmente foi aceite como método oficial de leitura e escrita para invisuais.
Assim, os livros puderam passar a fazer parte da vida dos cegos.
Tudo graças a um menino imerso em trevas, que dedicou a sua vida a fazer luz para enriquecer a sua vida e a de todos que se encontram privados da visão.

Há quem use as suas limitações como desculpa para nada fazer.

Louis Braille nasceu a 4 de Janeiro de 1809, em Coupvray, França; faleceu a 6 de Janeiro de 1852.


Autor: William J. Bennett – Livro das Virtudes II, Capítulo “O menino que trouxe luz ao mundo da escuridão”
William J. Bennett

William John Bennett, (nasceu dia 31 de julho de 1943 - ), político estadunidense, foi Secretário de Educação dos Estados Unidos da América, entre 1985 a 1988.

domingo, 11 de abril de 2010

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE (3/01)

CHEGADA À "LUA"

Após uma viagem de uma semana num “mar de azeite”, como dizem os marinheiros, aproximamo-nos do nosso destino.

Ao longe, apenas se vislumbravam umas sombras esfumadas no horizonte.
Agora, que estamos relativamente perto, a paisagem torna-se nítida – montes escalvados, de cor avermelhada, sem vestígios de vegetação, uma verdadeira paisagem lunar.

Temos a sensação de que estamos a chegar à lua!

Depois das manobras habituais, que nos parecem infindáveis, finalmente o navio encosta ao cais.
Com a bagagem de camarote há muito preparada, as três crianças controladas, apressamo-nos a descer o portaló.

O cais fervilha de gente, na sua maioria naturais da terra, táxis buzinando, um burburinho tremendo.
Finalmente pomos pé em terra.

Após beijos e abraços efusivos, - que as saudades já eram muitas – aguardamos o carro que nos transportará para casa.

Ao meu lado, um autóctone, de pé, vê de repente um carro passar muito perto, chegando mesmo a roçar-lhe o corpo. Recuando de um salto, com receio de que o pneu lhe passasse em cima do pé descalço, grita, assustado:
- Ai nha pé!
Este é o meu primeiro contacto com a linguagem local.

O “nha”, que significa meu ou minha ( nha pai, nha mãe) irá fazer parte do meu dia-a-dia durante os próximos dois anos.

Vamos então p’ra nha casa!

Situada num ponto elevado, a moradia, acompanhada à esquerda e à direita por outras casas igualmente independentes, tem na parte da frente um arremedo de jardim, com uma ou outra planta enfezada, que, durante os dois anos da minha permanência aqui, irei, teimosamente, tentar recuperar.
Luta inglória! O ar é extremamente seco, com ventos fortes nove meses por ano, a falta de água é enorme; mesmo regando-as todos os dias, a terra absorve completamente a água muito para além se onde as raízes a possam alcançar.
Apesar de todos os esforços, o meu jardim nunca deixou de ter este aspecto desértico.

Em frente, do lado de lá da estrada, há um vasto espaço coberto de terra vermelha, que termina num declive em direcção ao mar.

Da porta de casa, à qual se acede subindo três degraus de pedra, avista-se, não muito ao longe, o mar, vindo do qual se pode sentir, em certos dias, o cheiro a maresia.

Algum tempo depois de aqui estar irei assistir a verdadeiras batalhas campais travadas entre grupos de cães, provavelmente inimigos, nesse espaço existente em frente à casa.
Sem qualquer aviso prévio, uns chegam da direita, outros aproximam-se pela esquerda, acabando por juntar-se no centro do terreno.
Entre ladridos e rosnares, engalfinham-se ferozmente, levantando incríveis nuvens de poeira vermelha que chega a escurecer o céu.
Depois de alguns minutos de luta abandonam o campo de batalha, retrocedendo cada grupo pelo mesmo caminho por onde chegara.
Da refrega, felizmente, não resultam mortos; apenas alguns ferimentos se revelam nas pernas que vão manquitando no regresso ao lar.

Nunca consegui descobrir por que razão, de tempos a tempos, se envolviam em contenda.
Certo é que, chegará o dia em que também eu regressarei ao local de partida, sem que eles tenham resolvido os seus diferendos.

Mas, por agora, há que nos instalarmos na que vai ser a nossa moradia durante os próximos dois anos.
Não se trata de nenhum palácio, mas, depois de arrumada a nosso gosto, ornamentada com objectos que nos acompanharam, torna-se bastante confortável.

Tudo leva a crer que, aqui, pelo menos, viveremos em paz, perspectiva por demais aliciante para quem passou os últimos cinco anos em clima de guerra.

domingo, 4 de abril de 2010

O SERMÃO DA MONTANHA

O SERMÃO DA MONTANHA
(Versão para educadores)

Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem. Ele os preparava para serem os educadores capazes de transmitir a lição da Boa Nova a todos os homens.

Tomando a palavra, disse-lhes:
- Em verdade, em verdade vos digo: Felizes os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque eles...
Pedro o interrompeu:
- Mestre, vamos ter que saber isso de cor?
André disse:
- É p’ra copiar no caderno?
Filipe lamentou-se:
- Esqueci meu papiro!
Bartolomeu quis saber:
- Vai cair na prova?
João levantou a mão:
- Posso ir ao banheiro?
Judas Escariotes resmungou:
- O que é que a gente vai ganhar com isso?
Judas Tadeu defendeu-se:
- Foi o outro Judas que perguntou!
Tomé questionou:
- Tem uma fórmula p’ra provar que isso está certo?
Tiago Maior indagou:
- Vai valer nota?
Tiago Menor reclamou:
- Não ouvi nada, com esse grandão na minha frente.
Simão Zelote gritou, nervoso:
- Mas porque é que não dá logo a resposta e pronto1?
Mateus queixou-se:
- Eu não entendi nada, ninguém entendeu nada!
Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus, dizendo:
- Isso que o senhor está fazendo é uma aula? Onde está o seu plano de curso e a avaliação diagnóstica? Quais são os objetivos gerais e específicos? Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos prévios?
Caifás emendou:
- Fez uma programação que inclua os temas transversais e atividades integradoras com outras disciplinas? E os espaços para incluir os parâmetros curriculares gerais? Elaborou os conteúdos conceituais, processuais e atitudinais?
Pilatos, sentado lá no fundão, disse a Jesus:
- Quero ver as avaliações da primeira, segunda e terceira etapas e reservo-me o direito de, ao final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as promessas do Imperador de um ensino de qualidade. Nem pensar em números e estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projeto.
E vê lá se não vai reprovar alguém! Lembre-se que você ainda não é professor titular…
Jesus deu um suspiro profundo, pensou em ir à sinagoga e pedir aposentadoria proporcional aos trinta e três anos. Mas, tendo em vista o fator previdenciário e a regra dos 95, desistiu.
Pensou em pegar um empréstimo consignado com Zaqueu, voltar p’ra Nazaré e montar uma padaria…
Mas olhou de novo a multidão. Eram como ovelhas sem pastor… Seu coração de educador se enterneceu e Ele continuou:
- “Felizes vocês, se forem desrespeitados e perseguidos, se disserem mentiras contra vocês por causa da Educação. Fiquem alegres e contentes porque será grande a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram outros educadores que vieram antes de vocês”.
Tomé, sempre resmungão, reclamou:
- Mas só no céu, Senhor?
- Tem razão, Tomé – disse Jesus – há quem queira transformar minhas palavras em conformismo e alienação… Eu lhes digo NÃO! Não se acomodem. Não fiquem esperando, de braços cruzados, uma recompensa do Além. É preciso construir o Paraíso aqui e agora, para merecer o que vem depois…
E Jesus concluiu:
- Vocês, meus queridos educadores, são o sal da terra e a luz do mundo…

Professor Eduardo Machado


Professor Eduardo Machado, professor de profissão, é natural de
Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil
Outubro 2009