segunda-feira, 27 de junho de 2016

MOMENTO DE POESIA - QUANDO NADA MAIS RESTAR

QUANDO NADA MAIS RESTAR

Quando nada mais restar desse sonho lindo
E duas lágrimas rolarem no teu rosto
Esquece o que passou, não lembres o desgosto
Observa a Natureza, em festa se abrindo.

  Quando ao crepúsculo divisares as sombras
E as recordações te acudirem ao espírito
Agradece aos deuses, que estão no infinito,
Princípio imaterial de doces alfombras.
 

 Quando olvidares todo o tempo passado
Sem qualquer futuro a ensombrar-te o olhar
O sonho mais lindo surgirá renovado.

 Escuta o silêncio na noite. E a Morfeu
Sorri com enlevo. E sem pestanejar
Ergue de mansinho as mãos. E agradece ao céu!

  Mariazita
 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

"IN MEMORIAM"

Esta postagem constitui uma espécie de “memorial” em homenagem a quem partiu, faz hoje, DIA 6 DE JUNHO, quatro anos, mas permanece vivo na minha memória e no meu coração – o meu Marido.


ENCONTRO MEDIÚNICO

Despidos de roupas e preconceitos, frente a frente, olhamo-nos em silêncio.
Vejo nos teus olhos, envolto numa enorme ternura, um desejo sem fim.
Lentamente dirijo-me para ti.
Colocando-me a teu lado, pressiono o meu corpo, seios e ventre, contra o teu lado esquerdo.
Não te moves. Apenas um ligeiro arrepio denuncia que notaste a minha presença, o meu contacto.
Avanço a mão esquerda em direcção ao teu peito. Suavemente acaricio-te, primeiro do lado esquerdo e de seguida do lado direito, lenta e demoradamente, como quem tem todo o tempo do mundo.
Ao mesmo tempo a minha mão direita, colocada na parte de trás do teu pescoço, faz uma ligeira pressão desde a base dos teus cabelos, deslizando pelas costas, ao longo da coluna.
Com as pontas dos dedos contorno, suavemente, cada uma das tuas vértebras.
Sem pressas, as minhas mãos vão descendo, divagando, ao longo do teu corpo.
Alcançado o baixo-ventre dirigem-se, lentamente, para a parte interna da tua coxa esquerda, desviando-se da tua fonte da vida, que tocam, muito ao de leve, com a sua parte exterior. Um frémito percorre todo o teu corpo.
Docemente coloco-me à tua frente, elevando as minhas mãos até aos teus quadris. Uno o meu corpo ao teu e deslizo para o lado direito.
Os meus movimentos são lentos, suaves, quase diáfanos, como se nos encontrássemos em "slow motion".

Não me deixas prosseguir.
Levantas o braço, passa-lo por cima do meu ombro, bem junto ao meu pescoço, e comprimes o meu corpo contra o teu flanco.
Inclinas-te para o meu lado e, profundamente conhecedor, beijas-me o pescoço.
Sinto o desejo irromper dentro de ti como um vulcão subitamente desperto do seu sono.
A lava incandescente do teu corpo invade-me; no meu ventre surgem labaredas, qual sarça-ardente.
Murmuro-te ao ouvido palavras meigas e sensuais:
- Não resistas, meu amor; deixa-te invadir por estas ondas de fogo que ateiam o nosso desejo.
Procurando, como só eu sei, os teus pontos mais sensíveis, levanto a minha mão direita e acaricio a tua orelha, continuando a murmurar palavras inflamadas, que te provocam arrepios:
- Quero fundir o meu corpo no teu, em comunhão total.
- Quero ser tua, para toda a eternidade…
Correspondes com ansiedade redobrada:
- Quero receber o teu corpo como num altar do Amor.
- Quero que os nossos corpos se unam para sempre.
Prosseguimos com frases que só os amantes conhecem e entendem.

Passou-se um minuto, um ano, um século… O tempo não conta. Pararam todos os relógios do Universo.
Agora sabemos que a dança da sedução está prestes a terminar. Lentamente, caminhamos para um final sem retorno.

Abraçamos o céu com as mãos. Somos únicos à face da Terra.
No clímax que nos atinge, inesperadamente violento, miríades de fogos-fátuos enfeitam os nossos corpos.


Exaustos, olhamo-nos ainda: tu, lá tão longe… eu aqui, tão longe! Separa-nos a distância de um profundo céu negro, polvilhado de estrelas brilhantes.
Ao meu lado, a cama vazia. No ar, o perfume da tua presença.

A morte não é um impedimento intransponível para a comunicação entre aqueles que se amam verdadeiramente.

Texto de Mariazita

quarta-feira, 18 de maio de 2016

MOMENTO DE POESIA - PRESENÇA NA AUSÊNCIA


PRESENÇA NA AUSÊNCIA

Gosto de ouvir o silêncio
Que, logo que a noite cai,
Em nossa casa se instala.

É a madeira que estala
Um cão que ao longe ladra
O vento que anda rondando
E tu!

A tua presença,
Que de dia se dilui
À noite torna-se viva, palpável.

O teu perfume, o abraço,
O teu carinho ao olhar-me,
A ternura do teu beijo…
De noite faz-se sentir
Muito melhor que de dia.

Então, no plasma dos sonhos,
Ouço o respirar das águas
Que caiem bem devagar…
Porque a casa é o lugar
Onde os átomos do delírio
Me falam melhor de ti!

Tua voz ecoa pelo espaço
Como um hino…
Afago-te, e vejo,
Em puro assombro,
Num derradeiro espanto,
O teu sorriso divino.


Mariazita

sexta-feira, 29 de abril de 2016

DIA DA MÃE


Aproxima-se o dia em que, em Portugal, se comemora o dia dedicado à Mãe – o primeiro Domingo de Maio – DIA DA MÃE
É a todas as Mães - as que o são, as que o virão a ser e as que o foram… em Portugal e em todo o Mundo, que dedico este texto a que dei o nome de “Chamada para a vida”

CHAMADA PARA A VIDA

Depois de termos estado uns anos sem nos vermos, quando a minha amiga Márcia se aproximou, verifiquei, com prazer, que conservava aquele corpo escultural que sempre lhe conhecera.
Apesar de rondar os quarenta anos, o seu andar elegante no sapato de sato alto e no caro tailleur de executiva, atraía os olhares de quem com ela se cruzava.
Abraçamo-nos efusivamente, mitigando as saudades acumuladas ao longo de tanto tempo, e que os frequentes telefonemas não conseguiam atenuar.
Impaciente, logo que nos instalámos no restaurante onde iríamos almoçar, perguntei-lhe:
- Afinal que assunto é esse, assim tão urgente, que não podia ser adiado nem um minuto e nem tratado por telefone? – perguntei, com um sorriso.
Márcia assume um ar sério, compenetrado, e responde:
- Sabes? Já há um certo tempo eu e o José temos vindo a falar sobre a questão de formar uma família. A verdade é que nunca pensámos nisso muito a sério. Mas nos últimos dias… a ideia não me tem saído da cabeça. E, na qualidade de minha maior amiga, e com a tua experiência de mãe, gostava que me desses a tua opinião…
Imediatamente penso: o seu relógio biológico começou a contagem decrescente, e ela encara, pela primeira vez com seriedade, a perspectiva de ser mãe.
Márcia continua:
- O que é que tu achas? Ultimamente, eu e o José falamos muitas vezes sobre o assunto, mas estamos indecisos…Por isso pensei em falar contigo, trocar umas ideias, como sempre fazemos quando temos dúvidas. Achas que eu devia ter um bebé?
Com todo o cuidado, sem querer denunciar o que realmente penso, respondo-lhe:
- Bem… isso vai alterar completamente a tua vida…
- Sim, eu sei. Aquelas saborosas manhãs de sábado e domingo na cama, os fins-de-semana fora, sempre que nos apetece… tudo isso se acaba.

Mas não é bem isso que me preocupa – penso para mim mesma.
Gostaria de lhe dizer que as marcas físicas, próprias da gravidez, passam com o tempo, mas o acto de ser mãe deixa uma marca emocional tão grande, tão viva, que a tornará totalmente vulnerável.
Olho para as suas unhas bem tratadas e o fato elegante, e penso que, na qualidade de sua melhor amiga, tenho o dever de a alertar para certos factos. E penso:
- Não há elegância que resista a teres que mudar uma fralda. Se for apenas de chichi, até se suporta. Mas… se estiver suja? Vais ter uma certa dificuldade em te adaptar… 
Contudo… - continuo a pensar – a sensação de tocar aquela pele tão suave, acariciar aquele corpinho morno e macio, beijar aqueles pés pequeninos, de dedinhos minúsculos…

O meu pensamento continua a divagar:
- Nunca mais poderás ler uma má notícia no jornal, sem pensares, angustiada: “E se fosse o meu filho?”.
- Todo o tipo de acidentes, incêndios, naufrágios, irão fazer o teu coração apertar-se de ansiedade e pensar: haverá algo pior do que ver um filho morrer?
Porém… em contrapartida… haverá alguma coisa que se possa comparar à alegria de vê-lo chegar a casa são e salvo, depois da ansiedade da espera? Não, não existe maior  felicidade do que esta!

E penso ainda:
- Sempre que houver uma nota de urgência no apelo - Mamã! - largarás, sem pensar um segundo, a melhor peça de cristal que tenhas entre mãos.
- A tua carreira, na qual investiste os melhores anos da tua vida, será relegada para segundo plano – a maternidade assim o exige.
- Poderás até conseguir uma boa ama para o bebé, na qual confias cegamente; mas muitas serão as vezes em que terás que recorrer a toda a tua auto disciplina para não «dar um pulinho a casa» apenas para te certificares de que tudo está bem com o teu filho. E não raras vezes te questionarás se, afinal, o alto cargo que desempenhas na empresa será, mesmo, mais importante do que o teu papel de mãe.
São estes os pensamentos que me ocorrem enquanto observo a minha amiga, tão atraente.

Devo também dizer-lhe:
- Ainda que percas o peso acumulado durante a gravidez nunca mais te sentirás a mesma.
- A tua vida, tão importante para ti neste momento, terá muito menos valor quando houver um filho. Ele passará a ocupar o PRIMEIRO lugar.
- A relação com o teu marido também sofrerá alterações. É imprescindível que compreendas que se pode amar ainda mais um homem que está sempre pronto para mudar uma fralda, e que nunca hesita quando o filho reclama a sua atenção…
Para tudo isto e muito mais devo alertar a minha amiga. Mas… tenho também que lhe falar na alegria da mãe ao ver:
- O riso descontrolado do bebé ao tocar no pêlo de um cão pela primeira vez;
- Ao ver o bebé aprender a dar os primeiros passos;
- A observar o filho a aprender a jogar à bola…

Absorta nos meus pensamentos só o olhar irónico da minha amiga me faz perceber que tenho os olhos rasos de água.
- É a melhor decisão da tua vida. Nunca te arrependerás! digo-lhe, com a voz embargada. E não acrescento mais nada.

Depois seguro-lhe na mão e, juntas, erguemos uma prece por ela e por todas as mulheres que respondem ou algum dia responderam à «Chamada para a vida». 


PS - ESCLARECIMENTO,  PARA QUE NÃO SURJAM CONFUSÕES:
        ESTE TEXTO É FICCIONADO, FRUTO DA IMAGINAÇÃO DA AUTORA DO                   BLOG - MARIAZITA

domingo, 10 de abril de 2016

MOMENTO DE POESIA - SONHO BREVE

SONHO BREVE




SONHO BREVE

Nem tu, amor, me deste
Aquela paz tão desejada!

No palco imenso que é a vida
Os acenos e sorrisos recebidos
Foram tantos, que me cansei
A responder
A todos e a nenhum.

Braços pendidos
Sem alento, parados, não vi o teu olhar
Na multidão de vultos esfumados.

Por fim, chegaste.

Exaltação!
Puro delírio!
Puros impossíveis!
Pura miragem,
Aos poucos me deixaste.

E ali fiquei, no palco, já sem vida,
Braços caídos, sem alento,
E sem paz!




terça-feira, 22 de março de 2016

O PINHEIRO

A pensar na época que se aproxima, em que muita gente gosta de fazer picnics à sombra das árvores, escrevi esta espécie de “fábula vegetal” que partilho convosco)

O PINHEIRO
- Com tantos anos de vida ainda não consegui perceber porque me apelidaram de “manso” -  Pinheiro Manso – murmurou o frondoso Pinheiro, voltando as verdes e finas agulhas na direcção de uma raquítica árvore que se encontrava a pequena distância.
- Ora, porquê! – respondeu a enfezada. Já tivemos esta conversa tantas vezes! Está muito bom de ver. Deram-te esse nome porque não tens a braveza dos teus primos, esses altivos pinheiros bravos, que não se dão com os mansos, os baixotes, só querem viver nas alturas…
- Acho essa explicação demasiado simplista…
- Sabes qual é o teu problema? – continuou a enfezadita – é quereres sempre saber a razão de tudo. As coisas são porque são, e pronto. Senão, repara:
- Sempre vivi aqui ao teu lado, respirando o mesmo ar puro que respiras, sugando o mesmo alimento puro com que te sustentas, recebendo o mesmo sol radioso que te ilumina…
Entretanto…põe os olhos em mim e responde:
- És capaz de me dizer porque é que eu sou assim tão raquítica? Não és, pois não? Eu também não sei, e vê lá se me preocupo…
- Xiu! – advertiu o Pinheiro. Aproximam-se pessoas. A conversa tem que ficar para mais logo. Agora cala-te, que eu faço o mesmo.
E ficaram em silêncio.
Um grupo de jovens caminhava alegremente em direcção ao Pinheiro.
Um deles, o mais alto, loiro e de olhos da cor do céu, aparentando ser o líder, abriu os braços ao alto e exclamou:
- Eu não vos dizia? Este Pinheiro não é um espectáculo?
- Sim – responderam em uníssono os outros jovens. Tu és o maior!
- Claro que sou. Por isso sou o chefe. E é como chefe que vos digo:
- Abram os braços, respirem fundo este ar puro, aspirem este delicioso cheiro a pinheiro…
E falando assim ele próprio executava os movimentos que convidava as companheiras e companheiros a fazerem.
Por breves momentos só se ouvia o seu respirar profundo. Mas logo de seguida recomeçou a algazarra, rindo e falando muito alto, como se todos fossem surdos.
Um dos rapazes tinha levado um “Tablet” e em breve o silêncio da mata se encheu com os sons, em tom altíssimo, de uma canção em voga. A maior parte deles acompanhou a música em altos berros. Até os insectos fugiam espavoridos.
Pouco depois o líder disse:
- E se tratássemos das barriguinhas? A minha já está a roncar…
- Excelente ideia! – responderam em coro.
E todos, rapazes e raparigas, abriram as mochilas e retiraram de lá comida, copos de plástico, garrafas de refrigerantes e até uma toalha de papel, que estenderam cuidadosamente no chão e nela colocaram o lanche.
Sentaram-se todos em círculo debaixo da copa densa, arredondada, em forma de guarda-sol, do Pinheiro, e iniciaram o lanche alegremente.
Eram já cinco horas da tarde, tinham feito uma grande caminhada para lá chegar, e o almoço há muito tempo tinha sido digerido. Todos comeram com grande apetite.
Como estava muito calor e a sede era muita, rapidamente esvaziaram as garrafas dos refrigerantes.
Saciados o apetite e a sede, colocaram junto ao tronco do Pinheiro as garrafas vazias, copos, guardanapos… e até restos de sandes mordiscadas. Estenderam-se no chão, à sombra. Uns conversando outros dormitando nem deram pelo tempo passar, de tal modo se sentiam satisfeitos.
O sol começava a esconder-se quando o líder exclamou:
- Ei, malta! Temos que nos pôr a milhas! Não se esqueçam que nos espera uma boa caminhada. Já vamos chegar a casa de noite…
Puseram-se todos de pé e, sem mais demoras, iniciaram a descida. Ninguém se lembrou de recolher o lixo que tinham colocado junto ao Pinheiro.
Ouviu-se um profundo suspiro. O Pinheiro murmurou, tristemente:
- Já viste, vizinha? Respiraram o nosso ar puro, sorveram o nosso belo aroma, aproveitaram a minha sombra, nem sequer respeitaram a paz e o silêncio de todos estes seres que aqui vivem e, como agradecimento, foram-se todos embora deixando para trás o lixo que trouxeram com eles…
- Já devias estar habituado, Pinheiro. É sempre assim…

Algum tempo depois podiam ver-se numerosas gotas transparentes pendendo das agulhas, agora escuras.
- Orvalho – dizia quem passava.
Não, não era orvalho, eram lágrimas de tristeza.
Lágrimas, sim, que as árvores também têm sentimentos.

Mariazita