domingo, 30 de outubro de 2011

A DANÇA DAS BRUXAS

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Quando eu era estudante no colégio, interna, ansiava pelas férias para ir para casa dos meus pais. O período mais desejado era o das férias grandes, três longos meses em que não pensava em livros nem cadernos, e o tempo voava entre brincadeiras, passeios de bicicleta, encontros com as amigas de infância…
Nesta altura eu andava pelos onze, doze anos, mas, ainda adorava ouvir contar histórias.
Lá em casa havia uma criada que sabia muitas histórias, que contava com grandes pormenores, e faziam as minhas delícias.
À noite, depois de jantar, quando apanhava os meus pais distraídos a ouvir rádio (naquele tempo ainda não havia televisão…), esgueirava-me para a cozinha onde a criada, a Conceição, se encontrava lavando e arrumando a loiça.
Quando ela me via sorria – já sabia ao que eu ia, e tinha um prazer especial em me contar aquelas histórias rocambolescas, que eu ouvia de olhos arregalados, e às vezes me faziam ter pesadelos, como aquela…

Era uma vez uma bruxa que se casou com um sapateiro que vivia noutra terra. Ele não sabia que ela era bruxa, nem mesmo as suas vizinhas o sabiam.
Alguns dias depois de casados, numa sexta feira de lua cheia, foram deitar-se, como de costume, e pouco depois o homem adormeceu. Sem saber porquê, pouco tempo depois de ter adormecido acordou, com uma sensação estranha. Estendeu o braço e verificou que o lugar ao seu lado estava vazio.
Intrigado e até certo ponto preocupado, receando que a sua mulher estivesse passando mal, levantou-se e foi procurá-la. Mas não a encontrou em nenhum canto da casa. E pensou:
- Onde é que aquela mulher foi a uma hora destas?
Sem encontrar resposta, meteu-se na cama mas manteve-se acordado. Nem conseguia dormir a pensar onde é que sua mulher podia ter ido. A certa altura saiu da cama e sentou-se no escuro, para a surpreender quando ela chegasse.
Pela madrugada ouviu um ligeiro ruído na cozinha, e, assombrado, viu a sua mulher desmontar da vassoura e colocá-la no seu lugar. Meteu-se precipitadamente na cama.
A mulher veio pé ante pé, e, fazendo os gestos mínimos para não o acordar, deitou-se. O marido, que fingia dormir, manteve-se quieto até à hora de se levantar.
No dia seguinte esperou que a mulher lhe explicasse o que andara a fazer; mas ela manteve silêncio em relação à noite anterior. E ele não fez perguntas. Mas passou a estar atento todas as noites.
Na noite de lua cheia seguinte, depois de se deitarem, rapidamente o marido fingiu dormir. Com todas as cautelas a mulher levantou-se, no que foi de imediato seguida pelo marido, no maior silêncio, e às escuras. Só na cozinha a mulher acendeu uma pequena lamparina.
Escondido, o homem viu a mulher pegar numa vassoura, montá-la, e dizer:
- Por cima da folha vai! – e logo de seguida subir pela chaminé e desaparecer dos seus olhos.
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Sem pensar duas vezes o homem agarrou noutra vassoura, pôs-se em cima dela, e pronunciou, com convicção:
- Por cima da folha vai – e imediatamente foi arrebatado pelos ares.
Sobrevoou árvores e arbustos até que acabou por “aterrar” numa clareira dum denso pinhal. Escondendo-se atrás dum pinheiro, ficou boquiaberto com a cena que se desenrolava ante os seus olhos:
Numa cadeira semelhante a um trono encontrava-se o diabo, com uns pequenos “cornichos”, e um manto vermelho sobre um fato de malha preto. À sua volta pequenos diabinhos tocavam uma música infernal, e em frente, na clareira, cerca de vinte ou trinta bruxas dançavam com um entusiasmo diabólico.
A certa altura o diabo levantou-se do seu trono e colocou-se no centro da roda de dança. Baixando as calças e inclinando-se para a frente, pôs o rabo à mostra.
As bruxas, uma a uma, sem perderem o ritmo da dança, iam passando junto ao diabo e, inclinando-se, davam-lhe um beijo no rabo.
O homem, por ser sapateiro, andava sempre com uma sovela no bolso. Ao ver aquele espectáculo ficou indignado, e resolveu vingar-se.
Introduziu-se na roda de dança e, quando chegou a sua vez, retirou a sovela do bolso e espetou-a no rabo do diabo. Este deu um salto, e gritou:
- Arre, que esta tem as barbas rijas!"
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Esta era uma das muitas histórias, sempre de bruxas, que a Conceição me contava.

Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay




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domingo, 23 de outubro de 2011

PRAZERES DA VIDA CAMPESTRE

PRAZERES DA VIDA CAMPESTRE II


Com o decorrer dos dias viemos a verificar que as cabras Lulu e Lulubela afinal eram ovelhas. O fornecedor a quem as compráramos havia-se enganado, e trocara o nosso pedido com o de outros “supostos agricultores”, que, tal como nós, só passado algum tempo verificaram que as ovelhas que haviam comprado afinal eram cabras!
Apesar de serem muito loucas as ovelhas Lulu e Lulubela eram de raça pura – Damara – uma raça que não cria lã e por isso não precisa ser tosquiada. Para nós isto representava um grande benefício, já que não possuíamos os apetrechos necessários nem estávamos interessados em toda essa trabalheira da tosquia. Se o tentássemos seria, com certeza, mais uma experiência fracassada. Fora, aliás, essa a razão por que havíamos encomendado cabras e não ovelhas.
O tempo passava e Lulu e Lulubela não davam mostras de ganhar juízo – as suas “cabriolices” eram cada vez mais atrevidas. Cheguei mesmo a pensar se não seriam o resultado de algum cruzamento de cabra com bode ou ovelha com carneiro.
Até que, a certa altura, comecei a notar que Lulubela, a mais louca das duas, não acompanhava a irmã nos seus saltos e correrias, preferindo refastelar-se à sombra das árvores. Deitada de lado apenas esticava o pescoço para comer alguma erva que se encontrava ao seu alcance. E comecei a notar também que ela estava a ficar muito gorda.
- Não admira, passa os dias deitada à sombra… Andará ela doente?
Depressa descobri que a doença de Lulubela afinal era gravidez, confirmada pelo veterinário. Fora o resultado das suas visitas conjugais ao bode Bucky, que, apesar de muito poucas, deram os seus frutos – ou viriam a dar, dentro do tempo regulamentar.

Numa noite particularmente fria o meu marido levantou a gola de raposa da samarra, e resmungou:
- Porque será que estes animais escolhem sempre o tempo mais frio para terem as crias?
Era meia noite, estávamos deitados, quando ouvimos os gemidos aflitivos da Lulubela. Pensamos que tinha, finalmente, chegado a hora.
A gravidez da Lulubela tinha decorrido sem problemas. Contudo, já havia ultrapassado em um mês o tempo de gestação, o que nos trazia preocupados.
Ao contrário dos outros animais que davam à luz em campo aberto, Lulubela estava a ser tratada com todos os cuidados, tendo-lhe nós arranjado um canto no estábulo, com palha fofa, para ela estar instalada confortavelmente.
Ao fim de três horas de trabalho de parto, em que Lulubela se debateu com todas as suas forças, apareceu a cabeça, seguida do resto do corpo, dum lindo cordeirinho cor de champanhe.
Com Lulubela extenuada mas feliz, lambendo a sua cria, fomos novamente para a cama, para aproveitar as poucas horas que restavam até ao alvorecer.
Logo que apareceram os primeiros raios de sol saltei da cama e dirigi-me ao estábulo, para ver Lulubela e o seu bebé.
Na semi-obscuridade que ainda reinava no estábulo ouvi o som do cordeirinho a mamar, o que me deu a certeza de que tudo estava bem. Aproximei-me cautelosamente para não o assustar.
Foi então que o meu pé pisou qualquer coisa que se escondia debaixo da palha. Um berro penetrante rasgou a escuridão.
Automaticamente recuei e corri a acender a luz.
Foi então que o vi. Um ser hediondo, um cordeiro negro, gémeo do primeiro, mas grotescamente deformado, que se agitava no solo, mal se aguentando nas pernas magras e tortas.
Pelo seu tamanho calculei que pesaria cerca de 5 quilos, quando o peso normal num cordeiro recém-nascido ronda os 4 quilos.
Vencendo o horror inicial invadiu-me uma grande piedade por aquele ser disforme. Baixando-me peguei-lhe ao colo e aconcheguei-o. Reparei então que o pequeno animal tinha apenas um olho, encimado por um pequeno cornicho, mesmo no meio da testa. Como a Natureza fora cruel ao permitir que fosse gerado um ser assim!
Ainda hoje me admiro de como não o abatemos à nascença, mas ainda bem que o não fizemos.
Os primeiros dias foram bastante difíceis. O gémeo cor de champanhe assustava-se sempre que o negro tentava aproximar-se. Lulubela rejeitava-o, não o deixando mamar. Se ele insistia dava-lhe cabeçadas e atirava-o ao chão.
Mas, mesmo a sangrar, o pequeno ser levantava-se e insistia. Era um vencedor nato! Até que, apanhando a mãe a dormitar, aproximava-se e começava a mamar. E assim conseguiu vencer a resistência de Lulubela.
Ao princípio os nossos filhos não gostavam do animal. Mas quando o viram lutar para se manter vivo, começaram a admirá-lo.
Um dia a nossa filha veio a correr da escola, e quase sem fôlego, contou que na aula tinham lido uma história de um gigante que tinha só um olho e se chamava Ciclope.
- É um nome muito bonito para o cordeirinho preto. Podemos chamar-lhe assim, mamã?
Claro que concordei, e Ciclope passou a ser tratado como um animal de estimação. Andava sempre atrás das crianças; parecia até que os desafiava para jogar às escondidas.
Os miúdos tapavam-lhe o olho com um pano e escondiam-se. Ciclope procurava-os, tropeçando e desequilibrando-se, mas não desistia até os encontrar. Quando isso acontecia era abraçado carinhosamente e recompensado com um torrão de açúcar, que ele agradecia lambendo a mão ou a face rosada de quem o premiava.
- Olha, mamã, o Ciclope gosta tanto de mim!
Depois de ter nascido com um peso muito superior ao normal, era agora um animal grande, bastante maior do que o gémeo.
Com o passar do tempo reparamos que ele se tornara favorito de alguns animais. No inverno o gato encostava-se a ele, todo enroscado, recebendo o calor do seu corpo; no verão as galinhas e os cães abrigavam-se à sua sombra. Mas o seu preferido era um pintainho que tínhamos criado na incubadora. Quando Ciclope se deitava, o pintainho saltava-lhe para cima da cabeça, e começava a debicá-lo para o catar; em seguida aninhava-se junto ao cornicho. Bastantes meses depois, o pintainho já transformado num belo galo, ainda mantinha este hábito. Foram amigos até ao fim.
Chegou o Natal e os pequenos andavam entusiasmados a preparar a árvore de Natal. Quando chegou a altura de colocar as luzinhas, a menina lembrou-se:
- Vamos por luzinhas na cabeça do Ciclope.
E saíram com um conjunto de lâmpadas. Uns minutos depois ouvi grandes risadas, e espreitei pela janela. Tinham prendido uma bateria e os fios ao cornicho de Ciclope, espalhando as luzinhas pelas costas do animal.
Lulubela e o gémeo que sempre o rejeitaram, aproximaram-se, provavelmente atraídos pelas luzinhas, e começaram a cheirá-lo. Ciclope parecia sorrir. Notando-o, os pequenos exclamaram:
- Agora já tem amigos, e está a sorrir porque sabe que gostam dele.
Quando Ciclope atingiu os três anos era um animal bastante grande, mas, ao contrário de todos os outros, não tinha qualquer utilidade para a quinta – era apenas um animal de estimação. Mas, devido ao seu tamanho anormal, a sua alimentação ficava bastante cara, pois só as ervas que comia aqui e ali não eram suficientes; tínhamos que lhe dar feno que comprávamos e era caro. Tratava-se, portanto, de um animal bastante dispendioso.
Esforçamo-nos por não pensar na despesa que ele representava, pois seríamos incapazes de o abater.
Um dia em que ele andava a brincar com as crianças, correndo atrás delas, notei que parava de vez em quando, respirando com dificuldade. Chamei o veterinário para o examinar, que declarou:
- O Ciclope tem um coração muito grande, demasiado grande para o espaço onde se encontra. Por isso é natural ele cansar-se. Mas não há nada que possamos fazer. É congénito, terá que viver assim.

O Ciclope tinha 4 anos e meio quando morreu. Descobrimo-lo debaixo da sua árvore preferida. Parecia dormir, mas o coração deixara de bater. Baixei-me para o acariciar e senti um nó na garganta. Olhando para cima vi os miúdos com os olhos rasos de lágrimas.
Apercebi-me então de como Ciclope fora importante nas nossas vidas: com a sua constante necessidade de carinho ensinara-nos a amar os menos afortunados, os “diferentes”, os enjeitados…
Ele amava-nos e nós retribuíamos-lhe.

domingo, 16 de outubro de 2011

PASSEIO NO ALGARVE

Nos poucos momentos livres que tenho estou organizando os meus álbuns fotográficos.
Olhando para as fotos veio-me de repente à ideia um comentário da minha querida amiga Carla Ceres, aquando da publicação do meu passeio a Itália:

Carla Ceres disse...
Que lindo, Mariazita! Adorei. Por favor, faça uma apresentação com seus passeios em Portugal também. Minha mãe já esteve aí e diz que é maravilhoso. Beijos!
4 de Julho de 2011 17:32

A minha resposta foi “que sim”, que oportunamente o faria.
Eis a primeira. Comecei pela província mais ao sul de Portugal. Outras se seguirão, “oportunamente” …

**********

Como tem acontecido de há uns tempos para cá, há dois ou três anos fomos, com familiares, passar as duas primeiras semanas de Junho ao Algarve.

Com algumas das várias fotos feitas criei um PPS que vou partilhar convosco. Espero que gostem do passeio.

Se quiser ver em «tela cheia», depois de iniciar clic no quadradinho à direita de "Menu", no canto inferior, à direita. LIGUE O SOM.

domingo, 9 de outubro de 2011

ORAÇÃO DO COMPUTADOR




ORAÇÃO DO COMPUTADOR

Deus, abençoe a humanidade e proteja sempre meus
amigos(as), que tanta alegria me trazem...

Deus! caso não se oponha, peço para abençoar também
o meu computador...

Sei que não é normal abençoar engenhocas de aço,


mas eu lhe explico o motivo do pedido:

Sabe, essa caixinha não encerra apenas uma

barafunda de dados...

Dentro de cada um desses componentes diminutos

está um(a)amigo(a) que aprecio muito.



É verdade que alguns eu nunca vi...Nunca nos
olhamos
ou um abraço demos, mas enfim...


Eu sei do carinho deles(as) por 
mim e o meu por eles(as),
pelo afeto que trocamos e é por esta maquininha de 
metal que eu chego até onde eles estão...


Portanto, Deus, estando OK com o Senhor,
reserva um minutinho a mais para abençoar esta 
torrezinha de lata, cujo recheio é puro amor.

Deus! Abençoa o meu computador, e, especialmente
as pessoas queridas que encontro através dele!
Amém!


(autoria desconhecida)...

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

PRESENTE DA MINHA QUERIDA AMIGA SÃOZITA


 Querida Mariazita, aqui deixo este selinho, como lembrança da passagem de mais um aniversário. Que este seja mais um de muitos dias felizes, junto de todos que te amam.
Mil beijinhos com muito carinho, desta tua filhota do coração.
Sãozita

DA MINHA QUERIDA AMIGA FERNANDA - NA CASA DO RAU


domingo, 25 de setembro de 2011

A COR DA LÁGRIMA

(Alguém disse: “A lágrima é o sumo de um coração espremido”.)


A COR DA LÁGRIMA


Por que a lágrima não tem cor?
Enquanto chorava, me pus a pensar.
Se fosse vermelha como sangue,
as minhas vestes poderiam manchar.

Se a lágrima fosse amarela,
a cor da alegria,
expressar tristeza
jamais poderia.

Se fosse azul,
a cor da serenidade,
eu não choraria jamais.
Seria só tranqüilidade.

Se fosse branca
como pétalas de rosas,
não seriam lágrimas...
Mas pérolas preciosas

Ainda mais uma vez
fiquei me questionando...
Por que a lágrima não tem cor?
Se ela fosse preta,
só expressaria o horror?
Por que será que a lágrima não tem cor?

A lágrima não tem cor...
Porque nem sempre exprime dor.
E se ela fosse roxa, como poderia
expressar a alegria?

As lágrimas não têm cor
porque são expressões da alma.
Quando o espírito está chorando,
o coração diz: tenha calma!

Se a lágrima tivesse cor
deveria ter a cor do amor.
Ou mesmo a cor da paixão,
que as vezes invade o coração.

Ou talvez a cor da tristeza
que abala a alma e tira a calma,
mas faz em meu ser uma limpeza.

A lágrima não tem cor,
porque ela nos aproxima do nosso Criador.
Se a lágrima tivesse cor,
eu só iria chorar de alegria.

Mas, e a lágrima da saudade?
De que cor ela seria?
E a lágrima da decepção,
de que cor seria então?

Se a lágrima tivesse cor
deveria ter a cor de um brilhante.
Como a lágrima é preciosa,
Deus deu-lhe a cor do diamante.

Wayne W. Dyer



Dr. Wayne W. Dyer nasceu a 10 de Maio de 1940, em Detroit, Michigan, USA, é professor e escritor.
Autor de livros de auto ajuda, passou grande parte da sua adolescência num orfanato de Detroit.
Psicoterapeuta, Wayne tem um doutorado em aconselhamento educacional da Wayne State University e foi professor associado da Universidade St. John, em Nova York.
De renome internacional e palestrante na área de auto-desenvolvimento, é autor de 30 livros, criou inúmeros programas de áudio e vídeos, e já apareceu em milhares de programas de televisão e rádio.

domingo, 18 de setembro de 2011

O TEMPO E O RELÓGIO

Desde tempos imemoriais que o Homem tenta aprisionar o tempo, seja em relógios, seja em ampulhetas ou quaisquer outros engenhos. Contudo, o tempo sempre lhe escapa, e continua, impávido e sereno, o seu destino.
Imagine um encontro entre o Tempo e o Relógio…

Vera Regina Marçallo Gaetani descreve-o assim:

Certa vez o tempo e o relógio se encontraram (embora estejam todo o tempo juntos)
O tempo, revoltado há muito tempo, disse ao relógio tudo aquilo que, há tempos, vinha guardando.
Que ele, tempo, tinha saudades daqueles tempos em que não existiam relógios e todo o mundo tinha tempo.
Mas quando o homem, ingrato, fabricou o relógio que começou a marcar tempo, ninguém mais conseguiu ter tempo.
O homem ficou reduzido a horas, minutos e segundos.


- Antes, naqueles tempos – disse o tempo – todo o homem tinha tempo de curtir a Natureza. Vivia com o sol de dia, dormia com a lua à noite.
Quando a lua, caprichosa, não queria aparecer, era m bando de estrelas que piscavam, brincalhonas, dando tempo para o sol nascer.
Mas agora, nestes tempos, ninguém mais tem tempo de ver se a lua vem sorrindo para a direita ou para a esquerda, se está de cara cheia ou de mau humor, sem querer aparecer.
O tempo prosseguiu, com um sorriso de tristeza:
-Antigamente – que tempos! – os homens nasciam no tempo certo em que tinham que nascer. Não havia incubadora para os fora de tempo, nem cesariana para os que passavam do tempo.
A Natureza sabia, em tempo, quando era tempo.
Hoje, o homem já obedece a você, mesmo antes de nascer.
Os médicos estão apressados e sem tempo para perder.
O relógio só ouvia e, apressado, prosseguia no sei tic-tac, sem tempo de retrucar, com medo de se atrasar.
- Noutros tempos – disse o tempo – o homem crescia sem pressa, com tempo de amadurecer. Comia sem ter horário, dormia quando tinha sono.
Fazia amor ao relento, como flores que se beijam, como aves que se aninham.
Envelhecia aos pouquinhos, como um calmo entardecer. Depois, dormia o sono profundo e, no outro despertar, abraçava-me com carinho, no infinito, no infinito…
O tempo enxugou uma lágrima, talvez de orvalho. A voz, que estava embargada, tomou uma conotação de revolta:
- Hoje, vai logo para a escola, e traz para casa um horário. Quando aprende a ler as horas recebe do pai um relógio, e, assim, ensinam-lhe, bem cedo, a maneira mais correcta de nunca ter tempo na vida.
O tempo não se preocupava mais com o tic-tac do relógio que não retrucava para não se atrasar. Continuou a sofismar com voz mais branda:
- Come apressado, sem tempo. Dorme ainda sem sono, pois, de manhã bem cedinho, você começa a gritar, arrancando-o da cama, quando ainda queria dormir.
Amor? Nem sei se ainda faz… há gente que nem tem tempo. Quando faz é no zás-trás.
Quando vê já envelheceu, sem ver o tempo passar.
Na hora do sono profundo, enterram-no apressados, para a vida continuar. E, no outro despertar, chega tão apatetado que não consegue me achar.
Ao relógio, sem nunca poder parar, só restava se calar.
Além do sentimento de culpa, que passou a carregar, a partir desse tempo, quando bate as doze badaladas no silencia da meia noite, o canto é tão melancólico que até parece chorar.


Vera Regina Marçallo Gaetani nasceu em Curitiba, Paraná.
Em 1956 casou-se e foi morar em Ribeirão Preto, São Paulo, onde reside até hoje.
É membro da ALARP – Academia de Letras e Artes de Ribeirão Preto, e pertence à Academia Ribeirãopretana de Letras, Casa do Poeta e Escritor de Ribeirão Preto e à Academia Feminina de Letras do Paraná e é membro do Centro Paranaense Feminino de Cultura, sendo ainda Conselheira da Sociedade Lítero Musical de Ribeirão Preto, e responsável pela Orquestra Sinfónica de Ribeirão Preto.
Em 1996 participou, pela primeira vez, de um concurso literário nacional, promovido pela Revista Brasília, do Grupo Brasília de Comunicações, obtendo dois prémios: um em conto e outro em poesia. Em 1997 conquistou seu terceiro prêmio, na modalidade "conto", no mesmo certame literário.
Tem diversas obras publicadas.

“Tudo o que fiz, em minha vida, foi por idealismo. Continuarei realizando meus trabalhos, despretensiosamente".
Vera Regina

domingo, 11 de setembro de 2011

REGRESSO DE FÉRIAS / CHAMAMENTO



Regressei, trazendo na boca um gostinho de “quero mais”…

Durante este período de férias encontrei-me com uma grande amiga, que já não via há um certo tempo. Falamos frequentemente por telefone, mas os encontros pessoais são cada vez mais escassos. A correria da vida moderna a isso nos conduz.
Este encontro trouxe à minha ideia um outro, ocorrido há bastante anos…

Quando a minha amiga Joana me falou no assunto rondava já os quarenta anos; não podia, por isso, adiar demasiado uma tomada de decisão.
Enquanto almoçamos juntas, fala, como que por acaso, na ideia que ela e o marido têm de «formar uma família».
No fundo, o que acontece é que o seu relógio biológico começou a contagem decrescente, e ela encara, pela primeira vez com seriedade, a perspectiva de ser mãe.
- O que é que tu achas? Eu e o José estamos a estudar a situação, mas gostava de ouvir a tua opinião. Achas que eu devia ter um bebé?
Com todo o cuidado, sem querer denunciar as minhas dúvidas, respondo-lhe:
- Bem… isso vai alterar completamente a tua vida…
- Sim, eu sei. Aquelas saborosas manhãs de sábado e domingo na cama, os fins de semana fora sempre que nos apetece… tudo isso se acaba.
Mas não é bem nisso que estou a pensar. Gostaria de lhe dizer que as feridas físicas da gravidez passam, mas o acto de ser mãe deixa uma marca emocional tão grande, tão viva, que ela ficará totalmente vulnerável.
Olho para as suas unhas bem tratadas e o fato elegante, e penso que, na qualidade de sua melhor amiga, tenho o dever de a alertar para certos factos. E penso:
- Não há elegância que resista a teres que mudar uma fralda. Se for apenas de chichi, até se suporta. Mas… se estiver suja? Até o estômago se revolta…
No entanto… tocar naquela pele tão suave, acariciar aquele corpinho morno e macio, beijar aqueles pequenos pés de dedinhos pequeninos…
Continuo a pensar:
- Nunca mais poderás ler uma má notícia no jornal, sem pensares: “E se fosse o meu filho?”
Todo o tipo de acidentes, incêndios, naufrágios, irão fazer o teu coração apertar-se de ansiedade e pensar: haverá algo pior do que ver um filho morrer?
Mas… e a alegria de vê-lo chegar a casa são e salvo? Nenhuma felicidade é comparável a esta.
E penso ainda:
- Sempre que houver uma nota de urgência no apelo -«Mamã!» - largarás, sem pensar um segundo, a melhor peça de cristal que tenhas entre mãos.
- A tua carreira, na qual investiste os melhores anos da tua vida, será relegada para segundo plano – a maternidade assim o exige.
Poderás até conseguir uma boa ama para o bebé, na qual confias cegamente; mas muitas serão as vezes em que terás que recorrer a toda a tua auto disciplina para não «dar um pulinho a casa» apenas para te certificares de que tudo está bem com o teu filho. E não raras vezes te questionarás se, afinal, o alto cargo que desempenhas na empresa será, «mesmo», mais importante do que o teu papel de mãe.
São estes os pensamentos que me ocorrem enquanto observo a minha amiga, tão atraente.
Devo também dizer-lhe:
- Ainda que percas o peso acumulado durante a gravidez nunca mais te sentirás a mesma.
- A tua vida, tão importante para ti neste momento, terá muito menos valor quando houver um filho.
- A relação com o teu marido também sofrerá alterações. É imprescindível que compreendas que se pode amar ainda mais um homem que está sempre pronto para mudar uma fralda, e que nunca hesita quando o filho reclama a sua atenção…
Para tudo isto e muito mais devo alertar a minha amiga. Mas… tenho também que lhe falar na alegria da mãe ao ver:
- O riso descontrolado de um bebé que toca no pêlo de um cão pela primeira vez;
- O bebé aprender a dar os primeiros passos;
- O filho aprender a jogar à bola…
Absorta nos meus pensamentos só o olhar irónico da minha amiga me faz perceber que tenho os olhos rasos de água.
- Nunca te arrependerás – digo-lhe apenas, por fim.
Depois seguro-lhe na mão e juntas erguemos uma prece por ela e por todas as mulheres que respondem ao «chamamento».

Este encontro ocorreu há muitos anos, mas recordo ainda todos os pormenores.

Agradeço, de coração, a quantos me visitaram e deixaram comentário na minha ausência. 
Bem hajam!
Visitarei TODOS tão breve quanto possível.

domingo, 7 de agosto de 2011

GUARDADO NO BAÚ

PRAZERES DA VIDA CAMPESTRE

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O meu marido e eu sempre sonháramos produzir os nossos próprios alimentos. Antes de termos comprado a quinta, imaginávamo-nos a encher travessas de legumes frescos com a modesta mensagem: “Cultivados por nós”.
Mas hoje cambaleamos os dois, carregados com sacos de 25kg de comida para 45 animais gordos, que pouco mais fazem do que viver em transe digestivo.

Como pude eu, uma citadina,

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transformar-me em empregada de mesa destas criaturas horrorosas e inúteis?
Começamos com a «nossa horta», um desastre com o qual nada aprendemos.
Após uma estação a arar, adubar, colocar cercas até ficar com as costas partidas, produzimos apenas o «tomate especial». Era um bom tomate, e foi poupado pelas toupeiras, que deixaram as suas impressões dentais em todos os outros legumes.
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A seguir vieram as cabras. Sempre havíamos gostado de leite de cabra e imaginámos que umas quantas cabeças nos forneceriam o queijo enquanto cabriolavam, como adoráveis animais de estimação.
Assim, encomendamos duas irmãs completamente loucas: a Lulu e a Lulubela.

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Embora soubesse que as cabras não davam directamente bocados de queijo branco, não sabia que esses “bichinhos” implicavam plataformas leiteiras, problemas de tetas e, o pior de tudo, ligações sexuais. As cabras só produzem leite se acasalarem, e o único bode que existia lá na terra, era o Bucky, um ser cornudo e barbudo, com um odor corporal de cortar à faca!

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Na sua primeira visita conjugal ele e as “miúdas” fizeram uma tal bagunça que causaram avultados prejuízos no celeiro, antes de comerem os peitoris das janelas.
O namoro foi cancelado.
A Lulu e a Lulubela entretêm-nos agora, de vez em quando, com travessuras no relvado da frente, batendo com as cabeças e executando alguns passos de dança que recordam ritos dionisíacos. Mas a maior parte do tempo limitam-se a mascar (geralmente com ruído) e a aliviar-se.

A seguir veio o sonho dos ovos frescos, recolhidos de manhãzinha, ainda quentes – um sonho que deu lugar à realidade de 38 galinhas irritantes. Após um vultuoso investimento em ração para galinhas, uma manhã, quando fui tirar um ovo – amarelo, sedoso e quente – a galinha quase me arrancou a mão.
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Depressa descobri que as galinhas são seres esquisitos. Até o galo nos desapontou. Esperávamos que ele nos acordasse com o seu canto orgulhoso. Mas, na Quinta Dimensão (que é o nome da nossa propriedade) o galo tem de ser abanado para acordar, ao meio dia.

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Com as galinhas vieram os gansos, que não fazem o menor sentido. Encomendámo-los num impulso, ao ver o catálogo de aves de capoeira, e ao lermos a lista de nomes: gansinhos de Toulouse.
Gansinhos! A palavra fazia-nos lembrar qualquer coisa pequenina. Mas os meus cinco bebezinhos gansos, de penugem verde amarelada, depressa se transformaram em gansos gorduchos, com 9 kg.

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Durante algum tempo agarrei-me à ilusão de que eles voariam para o Sul quando o inverno chegasse. Vira o documentário «O Voo Incrível dos Gansos da Neve» e pensei gravá-lo em vídeo para o passar aos meus gansos. Mas eles voam praticamente tanto como eu – derrapando alguns metros até à piscina de plástico dos miúdos.
Resignei-me a dirigir um balneário de gansos, mas o meu marido tinha outras ideias.
- O Natal está a chegar e os gansos estão a engordar – rosnou ele, com uma expressão diabólica à Jack Nicholson no olhar.

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Fiquei aterrada. Como podia ele pensar em assar um animal que me considerava a Mãe Gansa?
Os gansos haviam-me seguido até um lago próximo, onde os vizinhos me tinham assegurado que os podia deixar.
- Mal toquem na água, nunca mais quererão de lá sair.
Mas, quando me vim embora, eles seguiram-me em fila indiana. Voltei-me e vi-os com as cabeças cinzentas acima da erva alta, procurando seguir-me as pisadas.
Fiquei comovida. Para toda a vida. Sem penugem, com as vozes estridentes, os gansos haviam se transformado numa espécie de animais repulsivos. O único macho, Arnold, chegou mesmo a picar-me o rabo quando lhe voltei as costas. O pior é que eles estão para durar pelo menos 30 anos.

Hoje em dia compro a minha «alimentação caseira». Escolho o ganso na secção da melhor carne do mercado, e encontro ovos «acabadinhos de pôr» e «queijo natural de cabra» nas boas lojas.
Os ovos são caros, mas saem, mesmo assim, mais baratos do que os meus, que eram muito mais caros, tendo em conta coisas como os galinheiros.
Mas o melhor é poder assar um ganso, regá-lo com molho, aspirar-lhe o aroma e saber que não é o Arnold. Esse está lá fora, ocupado em relações incestuosas com as irmãs, na piscina.

ESTA É A MINHA ÚLTIMA POSTAGEM ANTES DE FÉRIAS. VOLTAREI EM MEADOS DE SETEMBRO.
ATÉ LÁ DESEJO-VOS TUDO DE BOM, E BOAS FÉRIAS A QUEM AS GOZAR NESTE MESMO PERÍODO.
BEIJINHOS PARA TODOS.

domingo, 31 de julho de 2011

LENDA DO XÁ DE SAMARKANDA



Em tempos longínquos houve, em Samarkanda, um Xá, que ficou conhecido pela sua bondade e sentido de justiça.
Um dia, resolvendo viajar, saiu da sua cidade, à data capital do Turquestão, acompanhado do seu fiel criado.

Naqueles tempos as viagens eram demoradas e cansativas, por isso o Xá resolveu fazer uma paragem.
Depois de devidamente acomodados na estalagem, disse para o seu criado:
- Vai ao mercado e traz-me fruta fresca.

O criado obedeceu prontamente.
A caminho do mercado apareceu-lhe, de súbito, a Morte, com um ar lívido, disforme, uma boca enorme.
Olhou para o criado com um enorme ar de espanto estampado no rosto.

Aterrorizado, sem fala, o criado, sem pensar em cumprir as ordens de seu amo, retrocedeu de imediato.

Ao vê-lo naquele estado, e sem a fruta, o Xá perguntou o que acontecera, ao que ele respondeu:
- Vi a morte! E ela olhava-me duma maneira assustadora.
Preciso voltar hoje mesmo para Samarkanda, encontrar a minha família. Tens que me deixar sair daqui!
O Xá deixou-o partir, mas ficou a pensar:
– Porque é que a Morte fez isto?
Como desejava mesmo a fruta, pôs de parte os seus pergaminhos, - no fundo, ele era o Xá do Turquestão – e encaminhou-se para o mercado.

Encontrando a Morte, tal como o seu criado a descrevera, perguntou-lhe:
- O que é que o meu criado te fez, ou disse, para o assustares daquela maneira, que o fez fugir sem sequer me levar a fruta?
A Morte respondeu:
- Eu não lhe disse nada! Apenas me admirei de o ver aqui, esta manhã.
É que eu tinha um encontro marcado com ele para esta noite, em Samarkanda.
É para lá que vou já de seguida.

Esta é uma lenda que, a meu ver, transmite esta mensagem:
- NINGUÉM FOGE AO SEU DESTINO


SamarKanda é uma cidade do UZBEQUISTÃO,
ex-república soviética da Ásia Central. 



No século VII Samarkanda tornou-se um ponto de escala na Rota da Seda.

Aqui se encontravam algumas das principais etapas da Rota da Seda

(Reedição da publicação no meu blog HISTÓRIAS DE  ENCANTAR)

domingo, 24 de julho de 2011

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE



A FEBRE E A FOTO DO TOMÁS

A FEBRE

Aqui só os homens nativos trabalham na casa dos brancos. As mulheres autóctones permanecem nas senzalas, tratam dos filhos e cultivam a machamba cujos produtos vão vender ao mercado.
Os nossos criados são, portanto, autótones, conhecidos por mainatos.
Embora, em rigor, mainato seja a pessoa que trata das roupas, no nosso caso eles tratam também da limpeza dos quartos e, por vezes, se não têm mais o que fazer, brincam com as crianças.
Cada casal tem o seu próprio mainato pago do seu bolso. Como vivem aqui cinco casais juntam-se aqui cinco mainatos.
Já que têm hora de entrada ao serviço e hora de saída, e a maior parte dos dias acabam o serviço antes da hora de sair, é vê-los todos felizes a brincar com as crianças.
O meu mainato chama-se Tomás; adora o meu filho, que conheceu com três mesitos, e o bebé tem verdadeira paixão pelo “Tmá”, que ele aprendeu rapidamente a chamar pelo nome (mais ou menos…).
A maior alegria que posso dar ao Tomás é deixá-lo cuidar do bebé. Às vezes faço-lhe a vontade, sob a minha supervisão. Lembro-me do dia em que consenti que ele desse a papa ao bebé. Ele já me tinha pedido inúmeras vezes para o fazer, até que um dia decidi experimentar.
O Tomás quase chorava de alegria!
Senti uma espécie de ciúmes pela forma como ele deu a papa ao bebé, que irradiava felicidade por ter ali tão perto o seu querido “Tmá”.
A verdade é que os negros têm pelas crianças, especialmente se são pequeninas, um carinho tão grande que é algo raro e lindo de se ver.

Os mainatos vêm para o trabalho de bicicleta, pois as povoações onde moram são um pouco distantes.
De manhã dá gosto vê-los chegar, de calça preta e camisa branca, impecavelmente limpa e passada a ferro. E de sapatos pretos!
Mas antes de começarem a trabalhar vão trocar essa roupa por outra. Aparecem então com uns calções rotos e camisas esfarrapadas, embora limpas.
A minha amiga Natércia passa tempos infinitos a explicar ao seu mainato que não deve passar a ferro alguma peça de roupa que esteja rota ou descosida. Ele diz sempre que sim, mas na prática parece não entender as explicações pois frequentemente ela encontra, no tabuleiro para guardar, roupa já passada a ferro que precisa ser cosida.
Há dias ela estava a lastimar-se dizendo que já não sabia como havia de lhe explicar que “roupa rota não se passa a ferro sem ser cosida”, porque ele não compreendia. Foi aí que o marido da Natércia disse:
- Tu não entendes que a noção de roto para ti é muito diferente do que é para ele?
Era exactamente aí que estava o problema. Para ele, roto devia ser “em farrapos” 

O Tomás é um trabalhador impecável. Para além da limpeza do quarto, cujo chão é lavado todos os dias já que é de tijoleira, lava e passa a ferro muito bem. Tem apenas um defeito: à segunda feira quase não trabalha, está de ressaca.
Eu faço-me desentendida, e pergunto-lhe o que tem.
- Está muito doente, senhora.
- Sim, mas o que é que você tem?
- Tem febre no corpo todo.
Decido abrir o jogo, e digo-lhe que o que ele sente é motivado por ter bebido demais no dia anterior. Concorda. Então eu sugiro:
- O Tomás vai passar a beber ao sábado; no domingo cura a febre, e na segunda feira já está bom.
- Não pode, senhora – responde-me.
- Não pode porquê?
- Não vai beber sozinho… e no sábado não tem amigo para beber. Está todo no trabalho dele, só não trabalha no domingo, que é quando nós bebe…

Se os amigos do Tomás não trabalhassem ao sábado, ele não teria febre no corpo todo à segunda feira.
Ora aqui está um inconveniente de alguns trabalhadores não terem “semana inglesa”.


A FOTO

Há dias tive uma ideia luminosa.
Já que o Tomás gosta tanto do bebé vou tirar uma foto aos dois. Ofereço-lhe uma cópia, com o que, por certo, vai ficar muito feliz. Para o meu bebé será, mais tarde, uma linda recordação.
Escolhi o local, entre umas árvores que me pareceram bonitas, e aí vamos nós: o Tomás, que vestiu a camisa branca com que vem para o trabalho, com o bebé ao colo, eu de máquina em punho.
O Tomás, apesar da sua camisa branca, conservava os calções de trabalho, todos esfarrapados nas pernas. Foquei de modo a não apanhar a parte rota dos calções.


Como estamos nos anos 60 não há ainda máquinas digitais. Vamos ter que esperar muitos anos até que elas apareçam.
Assim, tenho que acabar de gastar o rolo e depois levá-lo ao fotógrafo para revelar e fazer as fotos.
Finalmente, as fotos ficaram prontas.
Peguei na que se destinava ao Tomás, chamei-o, e entreguei-lha.
Ele segurou-a entre os dedos, olhou-a longamente, e, com lágrimas nos olhos, disse-me:
- Muito obrigado, senhora. Este retrato vai andar sempre comigo. Aqui, junto do meu coração. - E apontou para o bolso da camisa rasgada.
Voltou a mirar a foto, enlevado.
O mainato da Natércia pôs-se atrás dele e, espreitando por cima do ombro, com inveja disse, despeitado:
- Ora, senhora cortou pernas…
O Tomás olhou para ele muito sério, e respondeu:
- Ainda bem que senhora cortou pernas porque naquele dia eu estava sem sapato!

É esta singeleza, esta ingenuidade sem mácula, que me faz adorar viver aqui.
Que importância têm umas pernas cortadas comparadas com uns pés sem sapato???

domingo, 10 de julho de 2011

GUARDADO NO BAÚ

ACONTECEU HÁ 22 ANOS


Era sexta feira, 11 de Agosto de 1989, o terceiro dia de marcha de cinco dias, através dos 3.000 Km2 do Parque Florestal de Roosevelt.
Mary O’Leary tremia de frio enquanto retirava a última estaca da sua tenda redonda. Na pequena clareira da montanha o céu apresentava-se fechado, cinzento, e a temperatura não ultrapassava os 4º C.
Mary, de 23 anos, finalista universitária, sempre amara a Natureza, mas só recentemente começara a fazer estas marchas, de mochila às costas. Aquela seria a sua caminhada mais longa até àquela data.
Enquanto as nuvens, ameaçando trovoada, se acumulavam no céu, Mary prendeu as correias da grande mochila de aros de metal e começou a subir a trilha solitária.
Por volta das 11 H da manhã chegou a um prado verdejante, bem alto na montanha Middle Bald. Deixou escorregar a pesada mochila e encostou-se a um penedo, a descansar.
Vestira um fato de treino grosso por cima dos calções e da blusa, e tinha esperança de que o frio que se fazia sentir, passasse. No entanto, o ar estava cada vez mais frio e o vento mais agreste. Quando o primeiro trovão ribombou à distância, levantou-se.
- É melhor pôr-me a caminho – pensou. Não quero ser apanhada pela tempestade.
Escalou rapidamente a distância que a separava do pico da montanha, e ficou ali a admirar a paisagem. Reparou na crista que se estendia mais abaixo, correndo para sul, recortada pelas árvores. Pareceu-lhe que faria uma descida mais rápida se saísse da trilha principal, e cortasse através da crista em direcção a um pico próximo. Ia já a descer quando caíram as primeiras gotas geladas. Fez uma pausa e vestiu o impermeável vermelho. Quando chegou às árvores chuviscava regularmente.
Após o primeiro relâmpago contou 5 segundos antes do trovão: a tempestade estava ainda a uma milha de distância.
- O melhor é continuar a andar enquanto puder – pensou.
Em breve, contudo, a tempestade desabou, com o ribombar ensurdecedor do trovão. Correu a abrigar-se debaixo das árvores, mas a chuva e o granizo atingiam-na na mesma.
A chuva continuou durante uma hora, tendo parado por volta da 1H da tarde. Quando o sol voltou, Mary abandonou a protecção das árvores gotejantes.
Estava a olhar para baixo, para ajustar uma correia ao peito, quando um raio atravessou o céu como uma flecha, em direcção à estrutura metálica da mochila. No momento seguinte o mundo à sua volta explodiu numa luz forte e paralisante.
O sulco vibrante do raio penetrou no corpo de Mary com um ruído ensurdecedor, levantando-a do solo. Os músculos contraíram-se-lhe violentamente e a electricidade provocou-lhe espasmos nos vasos sanguíneos, cortando-lhe a circulação nas extremidades. O cabelo pôs-se-lhe em pé.
Quando a descarga lhe abanou as pernas, crestando-lhe os nervos e os músculos, o cheiro a carne queimada invadiu-lhe as narinas e ela ficou ofuscada pela incandescência.
Por fim, o choque parou, e Mary caiu por terra. Sentia um formigueiro na cabeça e no tronco, mas abaixo do peito não tinha qualquer sensação. Os seus lábios soltaram um suspiro rouco e quase imperceptível: Socorro!
Mary sabia o que devia ter acontecido. O raio fora uma surpresa total, que partira de uma nuvem invisível a diversos quilómetros de distância, antes de descrever um arco desde o céu aberto em direcção a ela. Convencida de que estava a morrer Mary começou a chorar.
- Oh; meu Deus, não me abandones, por favor!
As palavras tiveram um efeito tranquilizante. No espaço de minutos a zoada passou e ela levantou lentamente a cabeça.
- Ainda devo estar viva – pensou, aturdida e pouco convencida.
Rolou sobre o lado direito e conseguiu desembaraçar os braços da mochila. No entanto não conseguia mexer as pernas. Uma imagem terrível atravessou-lhe a mente: E se dentro das botas apenas estivessem pedaços queimados dos seus pés? Ou cinzas?
Arrepiada, reprimiu as lágrimas de medo: Que faço agora?
Gravemente ferida e fora da trilha normal, Mary sabia que morreria, a menos que conseguisse ajuda. As suas hipóteses de sobrevivência, nem que fosse a uma só noite gelada nas montanhas, eram mínimas. Chovia de novo e soprava um vento frio. Apesar do seu estado debilitado, precisava chegar a um caminho onde pudesse passar um guarda florestal ou um lenhador.
Primeiro que tudo, vou precisar de água – raciocinou. Encontrou o cantil e meteu-o no fundo do bolso do blusão. E comida? Decidiu não levar pois sabia que, sem poder usar as pernas, pouco podia transportar.
Mary lembrava-se de que, ladeira abaixo e para sul, havia uma trilha para jipes. Incapaz de se manter de pé, começou a rastejar lentamente sobre o peito, arrastando as pernas inertes e tentando evitar as rochas afiadas. Todavia, em breve teve uma alarmante sensação de frio, e, ao olhar para trás, reparou que raspara com a perna esquerda numa rocha aguçada. Não devia ter esta sensação de frio – pensou. Devia doer. Que me terá acontecido? Primeiro tocou suavemente na perna e em seguida com força. Estava completamente entorpecida.
Decidiu experimentar uma técnica diferente. Pôs as pernas para a frente e deslizou avançando primeiro os pés, de modo a tactear o terreno onde iam passar as pernas inertes. Não tardou a deparar-se com um obstáculo aparentemente intransponível – uma árvore derrubada, com 20 metros de comprimento. Contorná-la demoraria uma eternidade, e o tronco tinha 1 metro de diâmetro. Com as pernas neste estado nunca vou conseguir passar – pensou, desanimada.
Mas, embora hesitasse, parecia que no seu íntimo uma voz a incitava: Não pares, vais ver que consegues! Respirou fundo e ergueu e empurrou os pés em direcção à superfície lateral do tronco. Depois, com as palmas das mãos assentes no chão, tentou erguer-se sobre os pés, arqueando o dorso de modo a impulsionar as pernas e as ancas para a frente, passando por cima do tronco.
Vá lá – encorajou-se a si mesma. Estás quase a conseguir. Soergueu o dorso para diante, agarrando-se com força à casca rugosa. Os músculos do abdómen contraíram-se de dor, mas conseguiu ficar em cima do tronco. Depois deslizou para o lado oposto.
Eram agora 2H da tarde. Só mais um bocadinho – pensou, esforçando-se mais. Tinha as mãos esfoladas e feridas, e os arrepios haviam-se transformado num tremor constante. De súbito veio-lhe à ideia uma recordação da infância: “lá estava ela, com a hipersensibilidade dos seus 12 anos, desfeita em lágrimas, a dizer ao treinador de basquetebol que ia desistir por se ter sentido humilhada com os comentários sarcásticos de uma colega”. Tudo bem, Mary – respondeu-lhe ele, calmamente. Mas, se desistires agora, nunca mais deixarás de te considerar uma falhada.
Mary permaneceu na equipa e jamais esqueceu as palavras do treinador.
Vamos lá, mulher – quase gritou. Toca a andar!
Cem metros adiante avistou uma zona semeada de pedras. Quando se aproximou apercebeu-se de que se tratava de uma estrada de terra. Tentou rastejar mais depressa, receosa de que algum veículo pudesse passar sem a ver. Pareceu-lhe que os últimos 50 mts demoraram anos a percorrer. Não vou conseguir. É muito longe. Contudo, ignorando as dores, continuou a arrastar as pernas para a frente, uma de cada vez.
Quando atingiu a estrada, estava exausta e não conseguia controlar as tremuras. Deixou-se cair ao lado de uma rocha, fechou os olhos, e ergueu o rosto para a chuva fria. Fiz tudo o que podia – pensou. Agora só depende de Deus.
Um pouco mais à frente, Scott Anderson e Gary Long, ambos trabalhadores de uma serração, tinham feito uma batida ao terreno em busca de uma madeira invulgar. Quando a violenta tempestade se desencadeou refugiaram-se na camioneta de Scott, e aí esperaram que ela passasse. Por volta das 3H da tarde regressaram ao local de trabalho. Mas, como o céu voltou a escurecer, guardaram as ferramentas e meteram-se à estrada, de regresso a casa. Gary conduzia uma carrinha e Scott seguia-o ao volante da camioneta.
Ambos se aperceberam da silhueta enlameada e encolhida, debaixo de chuva, à beira da estrada. Gary saltou da carrinha e correu para ela, seguido de perto por Scott. Ajudem-me, por favor – soluçou Mary. Fui atingida por um raio!
Vamos levá-la até à estrada principal – disse Scott. Precisamos de uma ambulância.
Mary estava semiconsciente e gemeu quando eles a estenderam no banco da camioneta .
Enquanto percorriam a estrada esburacada Scott, preocupado, olhava de vez em quando para a rapariga, pálida e a tremer. Não está nada bem – pensou. Tenho de a manter consciente até encontrarmos auxílio. Perguntou-lhe então o nome, de onde era, tudo que a obrigasse a dar uma resposta. Quando ela não respondia Scott insistia, gentilmente: Mary, fale comigo! De cada vez que ela respondia sentia-se aliviado.
A meio do caminho cruzaram-se com um guarda florestal, que pediu ajuda pelo rádio. Poucos minutos depois conduzia-a rapidamente até ao helicóptero que a levaria ao hospital.
Quando, por volta das 5H da tarde Mary chegou ao hospital, a sua temperatura era inferior a 35,5º C, tremia convulsivamente, e tinha a tensão arterial demasiado baixa. Tinha queimaduras nas costas e na extremidade do pé esquerdo, e também queimaduras e contusões nos quadris. Quanto às pernas estavam violáceas e inchadas.
Na sala de traumatismos o Dr. Daniel Turner ficou surpreendido ao saber que Mary rastejara mais de 1,5 Km em terreno montanhoso, para procurar ajuda. Parecia-lhe impossível que ela ainda estivesse viva. Uma simples descarga de um raio pode ter para cima de 100 milhões de vóltios e alcançar uma temperatura de 28.000 º C.
O Dr. Turner deu-lhe uma injecção intravenosa e mandou que a cobrissem com cobertores aquecidos, após o que começou a tratar as queimaduras. O facto de ela permanecer consciente e lúcida era animador, mas quando Mary lhe perguntou se voltaria a andar, não lhe foi fácil responder: Vamos ter de esperar e ver.
Sensacionalmente, nos dias seguintes passados no hospital, a sua circulação sanguínea normalizou-se na parte inferior do corpo, e ela voltou a conseguir mover e sentir as pernas. Escassos cinco dias após a terrível experiência, Mary O’Leary conseguiu pôr-se de pé e caminhar.
É um milagre! – diz o seu médico assistente, o Dr. James Bush. Mas a Mary é uma lutadora.
Embora as cicatrizes das costas, dos quadris e do pé nunca vão permitir que Mary se esqueça da sua experiência penosa, ela não tenciona desistir das caminhadas, e está mais determinada do que nunca a fazer frente aos desafios da vida. Agora tenho muito medo dos raios – confessa ela – mas não posso permitir que o medo me domine. Aprendi que sou muito mais forte do que pensava. Não me dou facilmente por vencida.

domingo, 3 de julho de 2011

PASSEIO A ITÁLIA

Como estamos atravessando uma grave crise económica,  as férias, este ano, terão que ser gozadas em território nacional.

Vou, por isso, recordar um passeio que dei a Itália. Convido-vos para me acompanharem, esperando que apreciem a viagem.

Se quiser ver em «tela cheia», depois de iniciar clic no quadradinho à direita de "Menu", no canto inferior, à direita. LIGUE O SOM.

domingo, 26 de junho de 2011

O QUE É UM MENINO?/O QUE É UMA MENINA?

O QUE É UM MENINO?

Os meninos vêm em tamanhos, pesos e cores variados.
Eles estão em toda parte: em cima, em baixo, lá dentro, lá fora, pulando, correndo…
As mães naturalmente os adoram, as meninas os detestam, os irmãos mais velhos também, os estranhos os ignoram e o céu os protege

Um menino é a verdade de cara suja, a sabedoria de cabelos desgrenhados e a esperança com uma rã no bolso.
Os meninos tem um apetite de cavalo, a digestão de um avestruz, a energia de uma bomba atómica, a curiosidade de um gato, os pulmões de um político, a imaginação de Julio Verne, e quando fazem algo, têm cinco polegares em cada mão.
Adoram: sorvetes, canivetes, serras, novidades, histórias em quadradrinhos, o filho do vizinho, o campo, a água (menos a do banho), os animais, o pai, comboios, domingos de manhã e carros de bombeiros.

Detestam: visitas, rezas, escola, livros sem figura, salas de música, gravatas, o barbeiro, meninas, casacos, adultos e a hora de dormir.

Não há quem se levante tão cedo, nem quem se sente à mesa tão tarde.

Não há ninguém como eles para meter num só bolso: um canivete enferrujado, uma fruta pela metade, um pedaço de cordão, um saco de pano vazio, dois bombons, seis moedas, um pedaço de algo desconhecido, e um autêntico anel supersónico, de plástico e com um compartimento secreto.

Um menino é uma criatura mágica.
Você pode fechar-lhe a porta do armário, mas não a do seu coração; pode expulsá-lo do escritório, mas não da sua mente.

Todo o poder do mundo a ele se rende.

Ele é nosso amo e chefe, ele, que é só um monte de ruídos com a cara suja.

Porém, quando você chega a casa à noite, com as suas esperanças e ambições destruídas, ele pode tudo remediar, com seu sorridente...
- Olá Papá!
- Olá Mamã!



O QUE É UMA MENINA?

Desde o início sabemos: As meninas nascem cheias de fitas, laços e mimos. Ninguém se engana com elas.

Com poucos dias de vida adere à mãe e começa a manobrá-la. Entre os 2 e os 3 anos faz gato-sapato do pai.

Dos 4 aos 5 em diante aciona: padrinhos, tios, avós e amigos da casa, com a maior naturalidade.

Enquanto for menina (e daí pela vida fora) jurará de pés juntos que não pretende manobrar ninguém. E é verdade.

A partir dos 3 anos está habilitada a tomar conta de uma boneca como uma pequena mãezinha.

Aos 5 fará comidinhas e agitará vassouras duas vezes maiores do que ela.

Aos 6 pode atuar como ama de irmãos mais pequenos e aos 7 estará dirigindo a casa, estrelando ovos para o pai, ralhando com as empregadas.


Para os meninos, as meninas são trambolhos, quando se metem nos “brinquedos de homens”; mas quando não há companheiros são parceiras ideais na maquinação de travessuras, nas grandes expedições de territórios, nos encargos de ordenanças.

Como  as rolinhas, as meninas formam bandos que estão sempre juntos.



A despeito das predileções, fofocas e discriminações que agitam essas pequenas colméias, elas não se desmancham nunca, pois são feitas para isso mesmo.

Um dia a menina vai vestir o vestido de baile da mamã, calçar os seus sapatos de salto alto, pintar o rosto de rouge e batom, perfumar-se com o frasco inteiro de Chanel nº 5.

Outro dia a menina desfará todo o guarda-roupa para polvilhar de talco os lençóis, as colchas, as fronhas, os guardanapos, as toalhas de banho, de rosto, de mesa e, por, fim também a irmãzinha mais pequena.

Nessa última operação o talco poderá vir a ser eventualmente substituído por creme hidratante, mel de abelhas e até mesmo por molho de macarronada.

As meninas gostam de vestidos e sapatos novos. Principalmente de sapatos. Adoram colares, anéis e pulseiras, dos quais se livram logo que a mãe não esteja olhando.

Entram em salões de festas como princesas caminhando para o altar, e quinze minutos depois transformam-se miraculosamente em gatas-borralheiras.

Nas casas onde há meninas, as mães vestem-se e cuidam-se melhor, a fim de não serem passadas para trás.

Os meninos não se comportam melhor (pelo contrário), mas aprendem a dar flores de presente.

Os pais se tornam mais meigos e gentis, para não perderem a sua posição de principe e a sua imagem de rei.

Uma menina é uma flor, uma mensagem de pureza, uma beleza gratuita e permanente, um gesto sempre inesperado de bondade e de carinho.

Uma menina nunca dará a ninguém a dureza necessária à vida, mas estará sempre irradiando uma advertência de encanto, de alegria de que – apesar de tudo – vale a pena.

Nos casos de catástrofe, perseguição, fúria, violência e morte, basta a presença de uma menina e seu sorriso ou seu pranto, para nos restituir aceitação, humildade, o senso íntimo da necessidade e da importância de viver, a crença na permanência e na força do amor.

Autor: Yan Marten