domingo, 27 de março de 2011

CENAS DA VIDA REAL

AS CALCINHAS DA MARIA EUGÉNIA



Maria Eugénia era um doce de pessoa!
Sempre com um sorriso no rosto a todos acolhia com carinho e ternura, pronta a proporcionar todo o auxílio a quem dele necessitasse, simplesmente dar um conselho ou oferecer um ombro amigo para um eventual derrame de lágrimas.
Tendo sido uma alegre bebé gorducha, transformou-se numa adolescente rechonchudinha e, mais tarde, numa jovem de formas redondinhas.
Sem qualquer complexo em relação ao seu aspecto um pouco “anafado”, quando alguém lhe dizia que talvez devesse perder um pouquinho de peso, respondia alegremente:
- Gordura é formosura.
Atingiu assim os dezoito anos, sempre alegre e feliz.
Em breve conheceu um jovem, António, com quem simpatizou bastante e que a cortejou.
Tratava-se dum rapaz com muito boa aparência e bem instalado na vida, que, com a aprovação da família, começou a namorar a Maria Eugénia.
Decorridos três ou quatro anos de namoro, o tempo que naquela altura se considerava normal, realizou-se o casamento.
As “amigas” achavam que, tratando-se de um rapaz tão bonito, bem poderia escolher noiva mais apresentável. Não que Maria Eugénia fosse feia, pois tinha um rosto muito bonito; mas não devia nada à elegância.
O que as “amigas” não sabiam era que, o que tinha prendido António era o enorme coração de Maria Eugénia, ao qual se rendera incondicionalmente.
Foram felizes até ao fim dos seus dias.
António trabalhava com importações de tecidos finos (sedas, veludos, tules…) o que, naquela época, contribuía para engrossar a sua conta bancária.
Mais tarde abriu uma loja onde vendia vestidos para noivas e acompanhantes, costurados nas traseiras da loja, onde montara uma pequena fabriqueta.
Com o tempo, e com o seu dom especial para os negócios, em breve abria mais lojas e montava uma fábrica de confecção a sério.
Neste tipo de trabalho em que se ocupava António, a sua clientela era sobretudo feminina. E porque ele era de facto um homem muito atraente, a quem o casamento fizera aumentar os atributos físicos, as suas clientes não raras vezes tentavam insinuar-se junto dele. Porém António, com um sorriso constante nos lábios, contornava a situação conseguindo manter-se fiel ao casamento. Não perdia a cliente e não traía Maria Eugénia.
Por vezes, despeitadas, e porque conheciam Maria Eugénia, quando a encontravam tentavam intrigar, insinuando que António fora visto aqui e ali, em companhias mais que suspeitas.
Maria Eugénia ouvia-as com toda a atenção e delicadeza, próprias da sua maneira de ser, e no fim, esboçando o maior sorriso que podia ostentar, respondia:
- Ora! O que é que isso importa? Depois de lavado fica como novo!
E assim desarmava as “amigas de Peniche”.

Maria Eugénia teve dois filhos, que eram o encantamento dos pais.
As duas gestações não favoreceram nada o físico de Maria Eugénia que apresentava agora umas formas mais redondas ainda.
Isso não parecia preocupá-la minimamente, e a sua felicidade familiar era completa.
Com o desenvolvimento dos negócios António arranjou clientes na Madeira e Açores, os quais visitava no princípio das estações, levando-lhes mostruários das suas colecções de tecidos e figurinos dos vestidos de noiva.
Enquanto as crianças foram pequenas António viajava sozinho porque Maria Eugénia, mãe extremosa, não os queria deixar entregues às criadas.
Porém, quando eles já eram mais crescidos, e porque tinham sido educados segundo valores éticos responsáveis, Maria Eugénia começou a acompanhar o marido.
Numa dessas viagens à Madeira quando chegaram ao hotel e se instalaram no quarto, Maria Eugénia verificou, horrorizada, que se tinha esquecido de meter calcinhas na mala. Ficou aflita.
As estadias, tanto na Madeira como nos Açores, demoravam sempre duas semanas e eram feitas entre fins de Janeiro princípios de Março.
Seria impensável andar todas as noites a lavar as calcinhas, até porque era inverno e o mais provável seria não secarem durante a noite.
O marido, que entretanto ficara à conversa com um conhecido no hall do hotel, foi encontrá-la bastante contrariada. Mas logo encontrou solução:
- Depois de almoço, quando eu for visitar o cliente “X”, tu aproveitas o tempo, vais às lojas e compras todas as calcinhas que achares necessárias.
Maria Eugénia respirou aliviada. No meio da aflição e aborrecimento por se ter esquecido duma coisa tão básica, nem lhe ocorrera uma solução tão simples.
Tal como combinado, de tarde Maria Eugénia pôs-se em campo à procura de lojas de lingerie. Entrou na primeira que encontrou onde um amável senhor a cumprimentou com um sorriso.
Quando Maria Eugénia lhe disse o que pretendia o senhor perguntou-lhe qual o número que ela queria, coisa que ela disse desconhecer. E acrescentou:
- São para mim.
O senhor mirou-a com toda a atenção, como que a tirar-lhe as medidas. Voltou-se e retirou da prateleira uma caixa de calcinhas. E disse, olhando-a novamente.
- Penso que este tamanho deve estar bem, e até lhe dá até ao fim do tempo (gravidez).
Maria Eugénia engoliu em seco, pagou e retirou-se.
À noite, ao contar ao marido o sucedido, com uma gargalhada ela comentou:
- Ainda bem que ele pensou que eu estava grávida. É bem melhor do que pensar que a minha gordura é simplesmente gordura.


domingo, 20 de março de 2011

A SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA

(A Primavera – Botticcelli)

Para assinalar o início da Primavera ocorre-me falar-vos um pouco sobre uma obra musical associada a esta estação do ano, cujos acordes foram objecto de grande discórdia no passado século XX, mas que, apesar de tudo, é ainda considerada uma obra prima no campo musical.

A «Sagração da Primavera», também conhecida pelo seu título em Francês "Le Sacre du Printemps" é um ballet em dois atos que conta a história da imolação de uma jovem que deve ser sacrificada como oferenda ao deus da primavera num ritual primitivo, a fim de trazer boas colheitas para a tribo.
A música, da autoria do russo Igor Stravinsky, é amplamente conhecida como uma das maiores, mais influentes e mais reproduzidas composições da história da música do Século XX.

Igor Stravinsky concebeu a obra em 1910, quando, segundo as suas palavras, "sonhou com uma cena de ritual pagão em que uma virgem eleita para o sacrifício dança até morrer".
A maior parte da música foi composta em 1911.
Nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, A «Sagração da Primavera» libertou os impulsos musicais selvagens, subliminares, que pressagiavam a história posterior do violento século XX.

Em Paris, em 1913, aquando da primeira execução da Sagração da Primavera, ocorreu o que, na opinião de muitos, se pode considerar o maior escândalo musical de sempre.
O compositor russo foi logo definido como «revolucionário por excelência», e a sua obra como um dos símbolos mais típicos do «moderno» - no sentido de irritante, chocante, escandaloso.
Com o tempo tudo que é novo perde a sua força de embate; contudo, apesar de, posteriormente, essa música ser considerada como uma obra prima, para muitos conserva ainda algo do seu original carácter provocatório.
Da música de Stravinsky costumo dizer: ou se ama ou se odeia, não há meio termo.
De qualquer forma considero a Sagração da Primavera como uma explosão de vida, em que o ventre da Natureza se abre para receber a semente de mais um ciclo que se inicia.
De entre as várias interpretações de «A Sagração da Primavera» escolhi uma que me parece mais acessível a todos – os que amam e os que odeiam :)

domingo, 13 de março de 2011

LENDA DAS SETE COLINAS DE LISBOA

Embora Roma seja também conhecida pela “cidade das sete colinas”, a verdade é que este epíteto pertence, por direito que lhe é conferido pela antiguidade, à cidade de Lisboa.
Espero não estar a ser muito “bairrista” ao fazer esta declaração 
Acerca da origem das colinas de Lisboa existem várias lendas, cada qual a mais interessante, e, em muitos pontos, coincidentes.
Escolhi esta que vou partilhar convosco por ser a que mais me agrada.
Em época que se perde nos tempos, ainda antes de ser ocupada por romanos e gregos, e até fenícios, existia aqui um reino chamado Ofiusa, que era governado por serpentes gigantescas.
Ao contrário dos outros elementos do governo, que eram serpentes normais, a rainha era diferente. Possuía cabeça e tronco de mulher, tendo as pernas substituídas por cauda de serpente.
Não deixando de ter, no seu íntimo, as características inerentes à serpente, era, contudo, um ser muito gentil e afável, com um enorme poder de sedução, que usava para atrair todos que aportavam ao seu reino.

Nas suas longas viagens aconteceu que Ulisses

e os seus companheiros passaram pelo Rio Tejo e, encantados com a sua beleza, resolveram ancorar e passar aqui alguns dias descansando, quem sabe, até, fundando uma cidade, a que seria dado o nome de Ulisseia.

Logo que viu Ulisses a rainha apaixonou-se perdidamente por ele. Propôs-lhe que se mantivesse no reino e, em troca, ela o desposaria.
Ulisses, receando a fúria de Ofiusa, com a qual podia correr até risco de vida, pois não esquecia que ela era meio serpente, fingiu aceitar, até que ele e os seus homens pudessem descansar e abastecer a nau com mantimentos necessários ao prosseguimento da viagem.

Alguns dias depois a nau encontrava-se perfeitamente abastecida; podiam, portanto, pôr-se a caminho.

Numa manhã bem cedo, ainda a rainha se encontrava a dormir, Ulisses conseguiu enganá-la e fugir para o mar alto.

Ao ver-se só, enraivecida por ter sido enganada, a rainha lançou-se da colina onde vivia em direcção ao mar. A sua longa cauda não lhe permitia mover-se com grande velocidade, mas não a impediu de serpentear até ao rio, deixando atrás de si, como prova do enorme esforço, as sete colinas que ainda hoje existem em Lisboa.
Chegada ao rio ainda continuou algum tempo nadando até ao mar, mas acabou por desistir, sem forças para continuar perseguindo Ulisses, que entretanto já se encontrava longe.

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- A primeira colina é a de S. Vicente de Fora – pertence ao Bairro de
Alfama
- À esquerda desta levanta-se uma outra que sobe até ao Postigo de Stº.
André – pertence ao Bairro da Graça

(Miradouro da Graça)

- A terceira colina é a mais alta de todas, a colina de S. Jorge, que tem
no cimo o Castelo de S. Jorge – pertence ao Bairro da Mouraria

(Miradouro do Castelo de S. Jorge)

- A quarta elevação tem o nome de Sant’Ana – pertence ao Bairro da
Anunciada
- A quinta é a de S. Roque – pertence ao Bairro Alto
- A sexta colina é a das Chagas, que deve o seu nome à igreja que ali
edificaram os marinheiros da rota da índia, em louvor às chagas de
Cristo – pertence ao Bairro do Carmo
- Finalmente a sétima colina é a de Santa Catarina – pertence ao bairro
Camões.

(Miradouro de Santa Catarina)

Ainda hoje se conservam aí os 7 principais templos de Lisboa.

As sete colinas de Lisboa continuam a dirigir-se todas para o rio Tejo, em busca dum amor eterno.

domingo, 6 de março de 2011

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE

O CHEIRO DE ÁFRICA
O meu olhar vagueia pela lonjura da planície. Rodo, olhando em volta. Descrevo um ângulo de 360 graus. Até onde a vista alcança apenas mato se vislumbra. Giro de novo. A paisagem mantém-se inalterável. Numa extensão de quilómetros estou rodeada de mato. Salpicado, aqui e ali, de árvores de pequeno porte. São poucas, as árvores, e de aspecto raquítico. A casa, ao estilo bem colonial, tem um alpendre de um dos lados, a todo o comprimento. Aí se encontram uns cadeirões de braços, em madeira, com almofadas gastas pelo tempo, desbotadas pelo sol, com um ou outro rasgão, como que a dizer: terminou o nosso prazo de validade. Não primam pela macieza, as almofadas, mas tornam os cadeirões um pouco menos desconfortáveis. Herdei-as, como tudo o resto, dos antigos moradores. Detenho-me um momento a pensar – precisam de ser substituídas. Encosto-me ao varandim, e aspiro o ar fresco da manhã. Que paz. Que tranquilidade ! E que cheiro! Sobretudo o cheiro… (Em nenhum lugar do mundo se pode sentir o cheiro de África. É o que melhor retenho na memória. Por vezes ainda consigo senti-lo). Quem já cheirou África nunca mais esquece. O sol começa a levantar-se no horizonte. A temperatura depressa subirá; o calor vai apertar. Mas a casa mantém-se fresca. Já se ouvem os rumores dos criados preparando a mesa para o mata-bicho. Aqui as mulheres não trabalham para os “brancos”. Mantêm-se nas suas palhotas, cuidam dos filhos, tratam da machamba, vendem no mercado os produtos que cultivam. Só os homens vêm para nossas casas, por vezes com dormida incluída, visitando a família aos fins de semana. Executam todo o trabalho doméstico, como cozinhar, tratar das roupas, limpar… À senhora da casa compete ensinar, orientar, fiscalizar… Os tempos de lazer ocupa-os com o que lhe dá prazer – cuidar dos filhos, se os tem, ler, ouvir música…tudo o que possa contribuir para afastar a sensação de isolamento em que vive. O isolamento, por vezes, custa a suportar, prega as suas partidas. A alguns quilómetros daqui há um pequeno destacamento, cujo “responsável” é substituído de duas em duas semanas. Um desses jovens é particularmente sensível à solidão que o oprime. Quando se sente sufocar, sobe a um morro ali existente, e grita a plenos pulmões tudo o que lhe vem à cabeça. Em resposta ouve o eco das suas próprias palavras. E sente-se reconfortado… Foi a forma que encontrou para aguentar o tempo de espera até ser substituído. Começo a sentir o perfume do café acabadinho de fazer. Não consigo habituar-me ao tradicional mata-bicho de África – uma refeição de garfo, completíssima. Mantenho-me fiel ao café com leite (em pó – não há outro), e as torradas com manteiga (em lata, importada da África do Sul). Mais um dia se passou. À noite sentamo-nos no alpendre, nos cadeirões com almofadas rasgadas – precisam mesmo ser substituídas… Assim nos protegemos do cacimbo que sempre aparece pela noite. À nossa volta tudo é silêncio, escuridão, tranquilidade. Mas não estamos tranquilos. Sabemos que essa paz não reinará para sempre. Na realidade tem apenas dois ou três meses de vida… Sabemos que estamos a viver sobre um barril de pólvora. E porque terça feira é o Dia Internacional da Mulher deixo-vos com alguns pensamentos relativos à Mulher (por ordem cronológica do nascimento dos autores): A natureza deu tanto poder à mulher que a lei, por prudência, deu-lhe pouco. Autor: Samuel Johnson Escritor - Inglaterra [1709-1784] A mulher é a mais bela metade do mundo. Autor: Rousseau - Jean Jacques Rousseau Filósofo, Escritor - França [1712-1778] Sinto-me feliz por não ser homem, porque, se o fosse, teria de casar com uma mulher. Autor: Madame de Stael - Anne Louise Gemaine Necker Escritora - França [1766-1817] Tirai do mundo a mulher e a ambição desaparecerá de todas as almas generosas. Autor: Alexandre Herculano Escritor - Portugal [1810-1877] Difícil é amar uma mulher e simultaneamente fazer alguma coisa com juízo. Autor: Léon Tolstoi Escritor - Russia [1828-1910] A mulher alimenta-se de carícias, como a abelha das flores. Autor: Anatole France Crítico, Escritor - França [1844-1924] As mulheres existem para que as amemos, e não para que as compreendamos. Autor: Oscar Wilde - Oscar Fingall O'Flahertie Wills Wilde Escritor/Poeta/Dramaturgo/Ensaísta - Irlanda [1854-1900] Ser mulher é algo difícil, já que consiste basicamente em lidar com homens. Autor: Joseph Conrad Escritor - Inglaterra [1857-1924] A mulher deve ser lentamente decifrada, como o enigma que é: encanto a encanto. Autor: Coelho Neto - Henrique Maximiano Coelho Neto Escritor, político e professor - Brasil [1864-1934] Do amor para com a mulher, nasceu tudo o que há de mais belo no mundo. Autor: Máximo Gorky - Aleksei Maksimovitch Pechkov Escritor - Russia [1868-1936] A mulher existe para que o homem se torne inteligente graças a ela. Autor: Karl Kraus Escritor - Austria [1874-1936] Somente a mulher sabe do que a mulher é capaz. Autor: William Maugham - William Somerset Maugham Escritor – Inglaterra [1874-1965] E terminou com chave d’ouro – o que considero “o melhor de todos” (fora da ordem cronológica...) Frequentemente a mulher tem medo de um rato, mas sobe ao patíbulo heroicamente; grita ao ver uma cobra, mas lança-se nas chamas para salvar um filho. Autor: Paolo Mantegazza Antropólogo/Fisiologista - Itália [1831-1910]


domingo, 27 de fevereiro de 2011

POEMA DO MENINO JESUS


A poesia de Fernando Pessoa ou de qualquer dos seus heterónimos dispensa apresentações.
Deste poema que convosco partilho, de Alberto Caeiro, direi apenas que é um excerto do oitavo poema de «O Guardador de Rebanhos», que na íntegra possui mais de 150 versos.


Ligue o vídeo abaixo e acompanhe o poema impecavelmente declamado por Maria Betânia.




POEMA DO MENINO JESUS

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.

Depois fugiu para o Sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Que levam as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as cores que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos os dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos às cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um perigo muito grande
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios


Depois ele adormece e eu
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o na minha cama,
despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sonho.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
E deita-me na tua cama.
Despe o meu ser cansado e humano
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar

Alberto Caeiro

domingo, 20 de fevereiro de 2011

UMA HISTÓRIA DO IMPERADOR KRU WON


Hoje vou propor-lhe um jogo.
Começarei por contar uma história passada em tempos antigos.
A certa altura vou sugerir-lhe que faça uma escolha. De acordo?
Então continuemos para ver o resultado

Era uma vez um imperador da China Antiga chamado Kru Won, governante inteligente mas cruel, que liderava o seu povo com mão-de-ferro. Tinha muitas esposas guardadas por eunucos reais, enquanto ele se divertia jogando; ao mesmo tempo divertia os seus súbditos com jogos públicos.
Para seu mal, um dos generais de maior confiança do imperador apaixonou-se por uma das esposas predilectas de Kru Won e fugiu com ela.
Foram capturados e voltaram à corte de Kru Won, para receberem o castigo.
Era costume, em casos semelhantes, mandar cortar a cabeça do prevaricador.
Porém, desta vez, o imperador resolveu divertir-se com a situação, e proporcionar à sua corte um espectáculo diferente.
Ordenou que o general se colocasse no meio de um anfiteatro que tinha duas portas.
Debruçando-se do balcão onde se encontrava, o imperador falou para o general:
"- Atrás de uma daquelas duas portas mandei colocar uma donzela: atrás da outra encontra-se um tigre faminto.
Tu, general, terás que abrir uma daquelas portas. Assim, ou te casarás com uma bela donzela ou serás comido vivo.
A minha esposa, que partilhou a tua cama e se encontra aqui a meu lado, sabe atrás de que porta se encontra a donzela e qual a do tigre.
Como vocês dois sentem um profundo amor um pelo outro, dei-lhe permissão para que ela te indique qual a porta que deverás abrir."

O general olhou para a mulher amada, e ela indicou a porta à esquerda. Ele correu e abriu-a imediatamente.

QUEM É QUE ELE ENCONTROU ATRÁS DA PORTA? A DONZELA OU O TIGRE?

Chegou o momento de escolher

Obs. - A história foi escrita com o intuito de que a sua atitude interior em relação à vida surgisse naturalmente.
A sua resposta apenas vai evidenciar, de acordo com a sua escolha, qual o tipo de atitude natural que você tem em relação à vida e às pessoas.
Através da sua resposta, você poderá ter uma noção do seu QE (Inteligência Emocional).



TIGRE




Se você acha que atrás da porta escolhida pelo general se encontra o Tigre, significa que não confia na esposa do imperador, revelando uma atitude de desconfiança em relação ao mundo e às pessoas com quem convive.
Acredita, por exemplo, que sempre que uma pessoa lhe oferece ajuda está querendo alguma coisa em troca. *


DONZELA

Se você optou pela donzela demonstra que confia na esposa do imperador, e revela uma atitude positiva em relação à vida e às pessoas.
A simples presença de optimismo na personalidade é, por si só, um factor de maturidade e equilíbrio emocional, principal responsável pelo sucesso e pela felicidade das pessoas.
Atitudes positivas e optimistas aproximam as pessoas cada vez mais dos seus objectivos, facilitando a conquista de metas e a realização de projectos. * *


Voltando ao conto:
Imaginemos que o malvado imperador deixava sua esposa fujona indicar a porta e em seguida trocava as posições da donzela e do tigre…
Assim que o general seguisse o conselho da sua amada, ele não apenas morreria como a deixaria assombrada por ter indicado a porta errada.
Seria a forma mais cruel de punir ambos.

Mas se, no último momento, o general desconfiasse da indicação e optasse pela porta contrária à que a sua amada lhe indicava?
Nesse caso ele ficaria com a donzela, mas perderia para sempre a confiança na amante, pois sempre se lembraria que ela lhe indicara a porta onde se encontrava o tigre.

Portanto, num caso ou noutro, o imperador teria sempre a sua vingança.


** Segundo os cientistas entrevistados e citados por Daniel Goleman no seu livro «Inteligência Emocional» o optimismo na personalidade de uma pessoa é um factor essencial para o seu sucesso.
Está provado que pessoas optimistas e positivas são mais felizes e realizadas, desenvolvem relacionamentos afectivos, amorosos, sociais, profissionais e familiares mais equilibrados e gratificantes.
Em suma, a opção pela "Donzela" indica bom nível de maturidade e equilíbrio, emocionais que, somado a outros factores pode indicar alto nível de Q.E.

* Se a sua opção foi pelo "tigre", pense um pouco nisso. Será que você tem explorado todas as oportunidades que têm surgido na sua vida, ou está se limitando para não enfrentar os problemas que imagina que vão surgir?
De facto a opção pelo Tigre indica uma tendência pessimista em relação a possíveis resultados, que pode levar você a perder boas oportunidades de sucesso.
Pode parecer que nada dá certo para si, mas na verdade a sua atitude negativa é que é a verdadeira responsável pelos resultados insatisfatórios que vivencia.
Daniel Goleman

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

TERCEIRO ANIVERSÁRIO

O dia 14 de Fevereiro é-me particularmente caro devido a dois acontecimentos muito importantes ocorridos neste dia:

- O nascimento dos meus dois últimos netos, os gémeos:

- A abertura do meu blog:

O meu blog “A Casa da Mariquinhas” nasceu faz hoje três anos, precisamente no dia 14 de Fevereiro de 2008.
Iniciei a minha actividade no mundo da blogosfera, com a criação de um blog no Windows Live, que, apenas dois dias depois, transferi para o Sapo.
Ali permaneci por dois meses; instâncias várias de amigas e amigos que tinham blogs no Blogger influenciaram-me a mudar.
Aqui me encontro, portanto, desde o dia 13 de Março de 2008.

Tem sido um percurso agradável, dum modo geral, com um ou outro aborrecimento de somenos importância.
Destaco, destes, o facto de o Blogger ter suspendido o meu blog em Junho de 2010. Aborreceu-me bastante especialmente por ter sido injusto, e se há coisa que não suporto é injustiça.
Acabaram por pedir desculpa, mas o mal já estava feito.

"Após análise, determinámos que o sistema automático marcou incorrectamente o seu blogue como tendo violado os Termos de utilização e, por conseguinte, o blogue foi reposto. Lamentamos o incómodo que esta situação possa ter causado e agradecemos a sua compreensão durante o decorrer do processo de análise. "

Sei que o mesmo aconteceu com muitas outras pessoas, o que em nada diminui o que, na altura, senti.
Mas continuei em frente, e, assim nos encontramos hoje a festejar três anos.
Quero fazer alvos desses festejos, antes de mais:
- Os comentadores que me têm acompanhado desde a primeira hora, e se mantêm, com maior ou menor assiduidade.
- Todos os outros comentadores, uns regulares outros não, que conseguiram perfazer o lindo número de 6.128 comentários.
- Os visitantes dum modo geral, aos quais se deve uma quantidade apreciável de visitas – 43.500 e tal

(Permito-me aqui destacar:
- O primeiro comentador, João Soares, autor de vários blogs, entre os quais o Do miradouro
- A mais recente comentadora, Evanir, autora do blog A Viagem )

A todos agradeço, de coração.

Como vivemos tempos de crise, para além de estar a aproximar-se o verão e, consequentemente, ser necessário manter alinha, não trouxe para a festa nenhum bolinho nem champanhe.
Contente-se, se quiser, com uma cerveja

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e este selinho que tenho todo o prazer em lhe oferecer:

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A todos muito obrigada e até sempre.
Obs. Pode ir buscar o selinho a A MINHA COLECÇÃO DE SELOS

A minha querida amiga Sãozita, do blog NO LIVRO DA VIDA
e seu marido Victor, do blog A VOZ DO POVO
presentearam-me com este lindo vídeo, que partilho convosco.
Aos dois o meu “Muito, muito obrigada!”.








A querida amiga Ana Martins, do blog AVE SEM ASAS
acaba de me enviar este delicioso mimo, que partilho convosco.



Muito obrigada, Amiga.

Também a minha querida amiga Fernanda, do blog NA CASA DO RAU
me ofertou este lindo selinho:



Bem hajas, Amiga.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

NO DIA EM QUE NASCESTE

NO DIA EM QUE NASCESTE
(Dedicado à minha neta pouco depois do seu nascimento)

No dia em que nasceste,
Meu amor,
Eu renasci!

O sol brilhou
com nova intensidade.
Nas árvores, cobertas de verdes folhas,
os pássaros entoaram canções,
duma outra felicidade.

Houve alegria no céu.
Todos os anjos, reunidos,
desejaram boa viagem
ao companheiro que partia
para habitar teu corpinho,
que na terra aparecia.

Vieste bem de mansinho
para o lar que te acolheu.
Trouxeste alegria infinda.
Só podias vir do céu.

Ao ver-te, meu amor, eu murmurei
mil promessas de carinho,
que vou cumprir uma a uma.

Enfeitarei o teu caminho
com belas flores perfumadas.

Colocarei estrelas mil,
coloridas,
em todas as estradas
por onde irás passar.

E uma fonte de água cristalina
se ouvirá cantar
quando passares.

O ar vais perfumar.
Com as mais lindas cores o vais pintar.
E o céu vai-se alegrar
com teu cantar.

E quando forças mais já não tiver
meu amor continuarás a ver
através do meu olhar cansado
que apenas para ti estará voltado.

Maispa Luz

domingo, 30 de janeiro de 2011

PASSEIO A GRACELAND

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UM PASSEIO A GRACELAND – USA

Quando vamos aos Estados Unidos ficamos instalados em New Jersey, numa simpática cidade nos arredores de New York City.
A partir daí viajamos para diversos pontos do país.

Irei partilhar convosco alguns desses passeios, (e outros...) começando hoje pela visita a Graceland, situada em Memphis, a maior cidade do estado do Tennessee, a cerca de 1.800Kms. a sudoeste de N.Y.

Se quiser ver em «tela cheia», depois de iniciar clic no quadradinho à direita de "Menu", no canto inferior, à direita. LIGUE O SOM.


domingo, 23 de janeiro de 2011

LENDA DO GALO DE BARCELOS











LENDA DO GALO DE BARCELOS

Igreja do Senhor da Cruz - Barcelos
(Foto minha)


Quando eu era criança vivi uns anos nos arredores de Barcelos.
Lá ouvi contar uma lenda acerca do «galo de Barcelos» que, naquele tempo, ainda não tinha a notoriedade que hoje lhe é atribuída, a ponto de alguns o considerarem como um símbolo de Portugal.
Não vou tão longe, sendo contudo certo que os turistas que passam por essa cidade do norte do nosso país não deixam de levar consigo, como recordação, o famoso galo.
Vou tentar “compor” a história que ouvi, se para tanto a memória me não falhar.
Ora ouçam:

Em tempos remotos aconteceu, no norte de Portugal, um crime de morte, que jamais se conseguiu esclarecer.
Foram inúmeras as investigações realizadas, mas todas em vão. Nunca se descobriu o assassino.

Algum tempo depois deste acontecimento, quando tudo tinha caído no esquecimento, apareceu na então povoação (hoje cidade municipal) de Barcelos um peregrino, oriundo da Galiza, que se dirigia a Santiago de Compostela.
Ao ver a figura do romeiro alguém se lembrou do já quase esquecido caso do assassínio, e se dirigiu às autoridades declarando a sua desconfiança.
Não tardou que houvesse logo quem afirmasse tê-lo visto na noite do crime junto ao local onde o mesmo fora praticado.
Perante afirmações tão seguras o romeiro foi preso.
Apesar de submetido a grandes torturas e suplícios, o galego afirmou-se sempre inocente. Mas todas as evidências e coincidências o apontavam como o verdadeiro criminoso.
Sem ter como comprovar a sua inocência o romeiro foi julgado e condenado à morte pela forca.
Finalmente chegou o dia da execução da sentença do homem, que, em vão, continuou jurando estar inocente.
No centro do povoado de Barcelos foi erguida a forca.
Ao ser questionado acerca do seu último desejo, o pobre homem declarou desejar ser conduzido à presença do juiz.
À chegada, o malogrado homem encontrou o juiz numa grande jantarada, rodeado dos seus amigos e admiradores.
De fronte do juiz o galego voltou a afirmar a sua inocência, suplicando, pela fé cristã, que tivessem misericórdia e não o enforcassem.
O magistrado, que aprendera as leis em Salamanca, acabou por ficar confuso com as veementes declarações de inocência do romeiro. Mas nada pode fazer pois que já houvera julgamento e o homem fora condenado à forca. Portanto, havia que se cumprir a sentença.
Ao ver que não conseguia demover o juiz, e que os seus convidados se riam da sua tentativa, avistanto um frango assado em cima da mesa, interpelou São Tiago, o santo que ele se propusera visitar quando fora interrompido na sua caminhada:
- São Tiago, vós sabeis que estou inocente. Para o comprovar fazei com que esse galo, que está em cima da mesa, morto e assado, cante antes que eu seja enforcado.
Todos se riram das palavras do galego. O juiz ordenou que o homem fosse levado para a forca e que a sentença fosse cumprida.
Assim foi feito.
Passado o mal estar inicial todos continuaram a comer e a beber alegremente. Mas, por uma estranha superstição, ninguém se atreveu a tocar no galo nomeado pelo galego.
Todos estavam ansiosos para que terminasse o suplício do romeiro, cumprindo-se finalmente a sentença.
De repente, perante o espanto geral, o galo assado começou a cobrir-se de penas transformando-se numa bela ave, tão viva quanto todos eles, e começou a cantar alegremente.
Toda a gente ficou boquiaberta. O juiz e os seus convidados acorreram ao local da forca.
Encontraram o galego suspenso no ar com a corda do pescoço solta. E, perante a admiração geral, descobriram que ele ainda estava vivo.
Imediatamente libertaram o preso, deixando que ele seguisse para Santiago de Compostela a fim de cumprir a sua promessa de romeiro.
Meses depois o galego regressou já com a sua promessa cumprida.
Em sinal de agradecimento aos que atestaram a sua inocência mandou erguer um padrão, que se encontra na zona histórica da cidade,


que tem de um dos lados São Paulo e a Virgem, o sol, a lua e um dragão; do outro lado vê-se Cristo crucificado, um galo e São Tiago sustentando no ar um enforcado.

A justiça fora feita através do canto do galo ressuscitado, que se tornaria o símbolo de Barcelos.

domingo, 16 de janeiro de 2011

ODE A FERNANDO PESSOA











ODE A FERNANDO PESSOA


Quando a gente lê Pessoa
nosso estro sobrevoa
édens de intensa beleza!
Além dessa realidade,
lê-se nele a nua verdade
de que a palavra saudade
só podia ser portuguesa!

Do seu verso a alacridade
se mescla àquela humildade
da flor que nasce no brejo!
E nele a alma lusa entoa
da Mouraria à Madragoa
as cantigas de Lisboa
debruçada sobre o Tejo!

Tudo amou como poeta,
até mesmo a luz discreta
desses lusos arrebóis...
Mesmo ao zizio das cigarras
cantava, em rimas bizarras,
o soluçar das guitarras
e o trinar dos rouxinóis!

Ler nele os descobrimentos,
é ver épicos momentos
que tod'alma lusa entoa!
É ouvir a voz magistral
dessa "Severa" imortal,
isto é fado, é Portugal,
isto é Fernando Pessoa


Humberto Rodrigues Neto


Humberto-Poeta fala de si:
Meu nome: Humberto Rodrigues Neto - nick - Humberto – Poeta
Nasci em São Paulo, Brasil, a 11 de novembro de 1935
Escrevo desde 1948 - estilo de minha escrita: Parnasiano
Meus poetas preferidos; Olavo Bilac - Guilherme de Almeida - Cruz e Souza - Vicente de Carvalho - Florbela Espanca

domingo, 9 de janeiro de 2011

CENAS DA VIDA REAL

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A BARATA“A barata diz que tem…sapatinhos de veludo”

Eu acredito que tem mesmo!

“É mentira da barata O pé dela é que é peludo”

Também pode ser isso…
Por um motivo ou por outro, a verdade é que o seu caminhar é suave e leve, causando a sensação de veludo ou seda a deslizar na pele.
Foi assim que apanhei um tremendo susto, e só não comecei a gritar a plenos pulmões porque me encontrava dentro dum edifício de culto.

A cena passou-se há uns anitos (poucos!!!), quando eu estava grávida do meu primeiro filho.
Jovenzinha, casada havia cinco meses e gestante de três, aconteceu encontrar-me em Lisboa, procurando casa para alugar.
Nos dias que decorreram até conseguir esse intento, o que demorou umas duas semanas, pernoitávamos numa pensão baratucha, que o dinheiro não chegava para mais.
Foi uma época emocionalmente complicada. O meu estado, só por si, originava uma extrema sensibilidade. O facto de andar um dia após outro de pé dum lado para outro à procura de casa, causava-me um cansaço enorme e consequente irritação.
Levantava-me ainda com as luzes da rua acesas porque o marido tinha que se apresentar cedo ao serviço. Para não ficar sozinha na tal pensão baratucha, saía da cama à mesma hora que ele e seguia para casa de uma tia, onde, sentada no sofá, completava o sono interrompido. Depois de lá tomar o pequeno-almoço ia comprar o jornal e via os anúncios de casas para alugar. Quando havia alguma coisa que me parecia poder interessar a minha tia ia comigo ver.
Finalmente conseguimos descobrir uma casa que nos servia e cujo preço podíamos aguentar.
Como decorreram seguramente duas semanas nestas andanças, resultou que apanhamos um sábado e um domingo a ter que dormir na pensão. O quarto era bastante modesto e não primava pela limpeza. Para além da mobília habitual havia um cabide fixo à parede, onde dependurávamos os casacos.
Isto passava-se em Fevereiro, e nesse ano o inverno foi bastante rigoroso. Eu usava um casaco comprido, de fazenda grossa; e com uma camisola de lã por baixo, sentia-me confortável.
À chegada à pensão os casacos eram postos no tal cabide, e aí passavam a noite.

No domingo resolvemos ir à missa.
Havia uma igreja relativamente perto para onde nos dirigimos.
Ficamos em dois lugares da coxia, eu no lugar de fora, junto ao corredor central.
Alguns minutos depois de lá estar comecei a sentir qualquer coisa mexer no meu braço, por dentro da roupa, junto à pele. O meu coração deu um salto, sem saber o que poderia ser. Alguma pulga, talvez…
Mas a sensação não era bem essa, parecia-me ser algo maior.
Sacudi o braço para o lado do corredor, e vejo uma barata enorme a correr por ali fora.
Não sei como consegui reprimir um grito.

Contrariamente ao que é habitual nas mulheres, os ratos não me fazem a mínima impressão, mas as baratas causam-me horror. Parece alergia. Não as suporto!
Podem, por isso, imaginar como ficou o meu pobre coração à vista daquela «baratona», que depois de passear no meu braço, corria feliz e contente pela nave central da igreja!

Nos poucos dias em que, depois desta cena, ainda tivemos que dormir na pensão, nunca mais vesti o casaco sem antes lhe dar uma valente sacudidela.

BARATA

A barata diz que tem
Sapatinhos de veludo
É mentira da barata

O pé dela é que é peludo
AH, AH, AH, EH, EH, EH
O pé dela é que é peludo


A barata diz que tem
Uma cama de marfim
É mentira da barata
Ela dorme é no copim

AH, AH, AH, EH, EH, EH
Ela dorme é no copim


A barata diz que tem

Sapatinhos de fivela
É mentira da barata
AH, AH, AH, EH, EH, EH
Os sapatos não são dela

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

FELIZ ANO NOVO

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FELIZ ANO NOVO


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

NATAL : JESUS OU PAPAI NOEL?

Aproxima-se o Natal. Curioso como, numa sociedade tão laicizada como a nossa, na qual predomina a tendência de escantear a religião para a esfera privada, uma festa religiosa ainda possa constituir um marco no calendário dos países do Ocidente.
Há nisso uma questão de fundo: o ser humano é, por natureza, lúdico e sociável, o que o induz a ritualizar seus mais atávicos gestos, como alimentar-se ou se relacionar sexualmente. Além de elaborar, condimentar e enfeitar sua comida, o que nenhum outro animal faz, o ser humano exige mesa e protocolo, como talheres e a sequência prato forte e sobremesa.
No sexo, não se restringe ao acasalamento associado à procriação. Faz dele expressão de amor e o reveste de erotismo e liturgia, embora o pratique também como degradação (prostituição, pornografia e pedofilia) e violência (jogo de poder entre parceiros).
O Carnaval, como o Natal, era originariamente uma festa religiosa. Nos três dias que antecedem a Quaresma, período de jejum e abstinência recomendados pela Igreja, os cristãos se fartavam de carnes – daí o termo Carnaval, festival da carne. Resume-se, hoje, a uma festa meramente profana, onde a carne predomina em outro sentido...
Essa transmutação ocorre também com o Natal. Por ser festa de origem cristã, para celebrar o nascimento de Jesus, a sociedade laica e religiosamente plural a descaracteriza pela introdução da figura consumista de Papai Noel. O que deveria ser memória da presença de Deus na história humana, passa a ser mero período de miniférias centrada em muita comilança e troca compulsiva e compulsória de presentes.
Daí o desconforto que todo Natal nos traz. Como se o nosso inconsciente denunciasse o blefe. Sonegamos a espiritualidade e realçamos o consumismo. Ótimo para o mercado. Mas o será também para as crianças que crescem sem referências espirituais e valores subjetivos, sem ritos de passagem e senso de celebração?
Longe de mim pretender restaurar a religiosidade repressiva do passado. Mas se há algo tão inerente à condição humana, como a manutenção (comer) e a procriação (sexo) da vida, é a espiritualidade. Ela existe há cerca de um milhão de anos, desde que o símio deu o salto para o homo sapiens. As religiões são recentes, surgiram há menos de dez mil anos.
Se a espiritualidade não é fomentada na linha da interiorização subjetiva e da expressão de conexão com o Transcendente, ela corre o sério risco de, apropriada e redirecionada pelo sistema, cair na idolatria de bens materiais (patrimônio) e de bens simbólicos (prestígio, poder, estética pessoal etc). Talvez isso explique por que a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas similares a catedrais pós-modernas...
Já não são princípios religiosos que norteiam a nossa vida. Desestimulados ao altruísmo e à solidariedade, centramos a existência no próprio umbigo – o que certamente explica, na expressão de Freud, “o mal-estar da civilização”, hoje acrescido desse vazio interior que gera tanta angústia, ansiedade e depressão.
Com certeza o Natal é ocasião propícia para, como propôs Jesus a Nicodemos, nascer de novo...



Frei Betto.
Natal de 2010




quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

COMO ERA A PESSOA DE JESUS CRISTO


COMO ERA A PESSOA DE JESUS CRISTO

Gravura pintada pelo próprio Públios Lentulus

(Conforme Documento existente em Roma)



O governador da Judeia, Públios Lentulus, ao César Romano:

- Soube, ó César, que desejavas informações acerca desse homem virtuoso que se chama Jesus, que o povo considera um profeta, e seus discípulos o filho de Deus, criador do céu e da terra.
Com efeito, César, todos os dias se ouvem contar dele coisas maravilhosas.
Numa palavra, ele ressuscita os mortos e cura os enfermos.
É um homem de estatura regular, em cuja fisionomia se reflete tal doçura e tal dignidade que a gente se sente obrigado a amá-lo e temê-lo ao mesmo tempo.
A sua cabeleira tem, até às orelhas, a cor das nozes maduras e, daí aos ombros, tingem-se de um louro claro e brilhante; divide-se numa risca ao meio, á moda nazarena.
A sua barba, da mesma cor da cabeleira, é encaracolada, não longa e também repartida ao meio.
Os seus olhos severos têm o brilho de um raio de sol; ninguém o pode olhar em face. Quando ele acusa ou verbera, inspira o temor, mas logo se põe a chorar.
Até nos rigores é afável e benévolo.
Diz-se que nunca ninguém o viu rir, mas muitas vezes foi visto chorando. As suas mãos são belas como seus braços, toda a gente acha sua conversação agradável e sedutora.
Não é visto amiúde em público e, quando aparece, apresenta-se modestissimamente vestido. O seu porte é muito distinto. É belo.
Sua mãe, aliás, é a mais bela das mulheres que já se viu neste país…

Maria, Mãe de Jesus

Se o queres conhecer, ó César, como uma vez me escreveste, repete a tua ordem e eu te o mandarei.
Se bem que nunca houvesse estudado, esse homem conhece todas as ciências.
Anda descalço e de cabeça descoberta.
Muitos riem, quando ao longe o enxergam; desde que, porém, se encontram face a face com ele, tremem-no e admiram-no.
Dizem os hebreus que nunca viram um homem semelhante, nem doutrinas iguais às suas. Muitos crêem que ele seja Deus, outros afirmam que é teu inimigo, ó César.
Diz-se ainda que ele nunca desgostou ninguém, antes se esforça para fazer toda a gente venturosa.

OBS 1

A descrição acima foi traduzida de uma carta de Públius Lentulus a César Augusto, Imperador de Roma.
Públius Lentulus foi predecessor de Pôncio Pilatos como governador da Judeia,
na época em que Jesus Cristo iniciou seu ministério. O texto original encontra- se na biblioteca do Vaticano. Comprovada sua autenticidade, tornou-se, fora da
Bíblia, o documento mais importante sobre a pessoa do Senhor Jesus.

OBS 2

Sabemos também que, após a crucificação de Cristo, Públius Lentulus tornou-se seu seguidor e, juntamente com sua filha Lívia, levava a palavra de Deus aos povos da época.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

CENAS DA VIDA REAL

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A CASA DA MARIQUINHAS


APRENDER A LER

Tive, há anos, uma empregada doméstica que era analfabeta. Não conhecia uma letra, nem que fosse, como se costuma dizer, do tamanho de um boi!
Como trabalhava interna na minha casa, onde tinha, como também se costuma dizer, cama, mesa e roupa lavada, não gastava praticamente nenhum dinheiro do seu salário, pelo que, em breve, tinha “uns tostões” amealhados.
A certa altura pensou - no que teve todo o meu apoio – que seria interessante abrir uma conta no Banco para lá depositar o seu dinheirito.
Fui ao Banco buscar os impressos para preencher, e nessa altura é que me lembrei que a Lina não sabia assinar.
Para não passar pela vergonha de colocar, no local da assinatura, a sua impressão digital, decidimos que eu iria ensiná-la a ler e escrever.
Em criança, na idade escolar, frequentara a Escola na sua terra natal, Cabo Verde. Mas não conseguira aprender absolutamente nada. Como já disse, não distinguia o “A” do “B”.
Isto causava-me uma certa estranheza porque ela revelava bastante inteligência para aprender os trabalhos domésticos. Quando veio para minha casa tinha uns conhecimentos bastante rudes do que seriam as suas tarefas; contudo rapidamente aprendeu, e executava-os na perfeição. Inclusivamente quis aprender a cozinhar. Ensinei-a com todo o gosto, e até mesmo receitas que obedeciam a quantidades certas, ela decorava-as (sabia-as de cor) e não tinha qualquer dificuldade em fazê-las.
Pensei, portanto, que o seu analfabetismo se devesse, em parte, a falta de jeito da professora – talvez não tivesse descoberto o modo certo de a ensinar…, ou a grande quantidade de alunos não lhe deixasse tempo para lhe dedicar maior atenção, que talvez a aluna necessitasse.
Foi, pois, com algum entusiasmo que iniciei a tarefa que, a breve trecho, veio a revelar-se árdua!
Sempre que tínhamos algum tempo livre lá ia a boa da Lina buscar livro, caderno e lápis, para mais uma lição.

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Não arrepelei os cabelos muitas vezes porque não sou dada a essas manifestações exteriores de fúria interior. Respirava fundo, muiiiiiito fundo (!!!), e arremetia de novo:
- Vamos lá mais uma vez. Isto é um…
- B – respondia a Lina, radiante, ao ver, na minha expressão, que tinha acertado. Acertado, sim, porque aquele B era atirado à sorte, e lá calhava acertar…
- E isto é um…
- A – A Lina rejubilava! Tinha acertado uma vez mais.
- Muito bem! Então… um B e um A lê-se…
- MI – respondia, mas logo entristecia ao ver, na minha cara, que uma vez mais tinha saído asneira.
Cenas idênticas repetiram-se lição após lição, até que um dia a Lina achou que o melhor seria apenas aprender a escrever o seu nome, para poder assinar o que fosse necessário.
Concordei de imediato, até porque os meus cabelos estavam a tornar-se brancos de dia para dia…
Começou então a enorme dificuldade de segurar convenientemente no lápis – só mais tarde iniciou a esferográfica.
É realmente extraordinário verificar que um gesto tão simples como segurar num lápis para escrever, para quem sabe fazê-lo, pode representar um esforço quase sobre-humano para um analfabeto.
Não se apresentou nada mais fácil aprender a escrever do que tinha sido aprender a ler, actividade que, entretanto, não tínhamos posto de parte – apenas lhe dávamos menos atenção do que à escrita.
Certo dia eu encontrava-me menos bem disposta do que habitualmente, e, perante mais uma calinada da Lina, juntei as mãos em atitude de reza, ergui os olhos ao céu, e disse:
- Ó Deus, dá-me paciência!
A Lina olhou para mim com atenção, e em seguida, com um certo ar de espanto, falou assim:
- Minha senhora tem coragem de pedir a Deus mais paciência do que minha senhora tem? Desculpa, senhora, mas isso é pecado!
Fiquei completamente desconcertada. Apeteceu-me abraçá-la e beijá-la por tanta ingenuidade. Mas limitei-me a engolir em seco, aclarar a voz, e dizer:
- Bem, bem, vamos lá continuar!
Demorou um certo tempo, mas alcancei a grande vitória de conseguir que a Lina passasse a assinar o seu nome.

Mariazita, Março de 2010