quarta-feira, 1 de julho de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XXII


SEGREDOS – CAPÍTULO XXI
 “… Entretanto já trocara de roupa e, pronta para se deitar, olhou enternecida, como todas as noites fazia, para a foto dos seus dois filhos, bebés, que tinha sobre a cómoda.
Pensou no neto, no seu filho Miguel, nos tempos idos de recém casada, e adormeceu. …”

SEGREDOS – CAPÍTULO XXII
A noite foi agitada. Dormiu mal e pouco, e custou-lhe levantar-se. Só pensava “é só mais um bocadinho…” e ia retardando a hora de sair da cama.
O despertador não parava de tocar. Só lhe apetecia atirá-lo contra a parede. Mas para o fazer teria de movimentar o braço, e nem para isso sentia forças. “Não quero ir trabalhar hoje”- pensou. “Apetece-me ficar em casa, ir para a cozinha fazer um belo petisco, que não faço há tanto tempo, ouvir música, levar o Tejo a passear – também não faço isso há tanto tempo! – apanhar o vento fresco da manhã no rosto, sentir o sol a beijar-me a pele…”
“Mas porque é que aquela imbecil, nos princípios do século passado,  teve a ideia de reivindicar os direitos da mulher, a igualdade… essas tretas todas que nos obrigam a sair da cama quando a vontade é ficar aqui no quentinho? As nossas avós – as avós talvez não… mais as bisavós… -é que tinham sorte! Quais direitos da Mulher quais quê? Passavam o dia a bordar, a trocar receitas de cozinhados com as amigas, a ler bons livros, tratando das flores, educando os filhos… enfim, umas fadas do lar.
E as atenções que recebiam dos homens? “Faça favor de passar, minha senhora” – diziam, segurando a porta, ou  então, afastando a cadeira para elas se sentarem. Ofereciam flores e faziam serenatas à janela.
Que românticos, aqueles tempos!... “
De repente deu um salto na cama, olhou para o relógio e começou a barafustar. “Mas o que é que se passa comigo? A pensar disparates a estas horas da manhã? É certo que dormi muito mal de noite, mas isso não serve de desculpa para ficar na cama a pensar na morte da bezerra! Ora esta! Estou a ficar velha, é o que é. Preciso arranjar um namorado urgentemente, a ver se rejuvenesço…” – e sorriu à ideia.
À medida que se ia preparando para sair ia recuperando o habitual bom humor.
Estava a tomar o iogurte magro com granola quando a empregada chegou, sinal de que começava a estar atrasada. Depois de um cumprimento rápido saiu em passo acelerado, pois detestava chegar atrasada.
À saída encontrou no hall de entrada a sua amiga Carla, a vizinha da frente, que ia ao centro comercial fazer umas compras. Seguiram juntas.
- Então, Carla, está preparada para a festa do Carlos? – perguntou Nanda.
- A festa do Carlos? Não sei a que se refere…
- O Carlos vai dar uma festinha no próximo sábado, e convida sempre todos os vizinhos… A Carla nunca lá foi?
- Não, nunca. Mas não foi por falta de convite – respondeu Carla, rapidamente. As duas últimas festas que ele deu e para as quais me convidou, não pude ir porque, por azar, o meu marido teve de fazer serão. Como a Nanda sabe ele trabalha muito, não só na empresa mas também porque dá uma ajudinha, a nível informático, lá na Polícia. E agora que estão a informatizar tudo… não tem mãos a medir.
- Bem, eu espero que desta vez consiga ir… Mesmo que tenha de ir sozinha, é melhor que nada. Os gémeos já estão crescidinhos, pode levá-los, e, se lhes der o sono, pode pôr as cadeirinhas no quarto do Carlos. Tenho a certeza de que ele não se importa. E a Carla aproveita para se distrair um pouco…
- É tentador… Vou fazer os possíveis por ir.
Chegadas ao centro comercial separam-se. Nanda segue para a Ourivesaria e Carla para as suas compras. Estas excedem a lista que trazia daquilo que precisava, o que acontece frequentemente. Vendo que não é fácil transportar, a pé, todos os sacos, acaba por apanhar um táxi.
 Ao entrar em casa encontra o vizinho do segundo andar esquerdo, Carlos Manuel, que se apressa a ajudá-la com os sacos, saudando-a com um largo sorriso:
- Boa tarde, doutora Carla. Como está a senhora e os seus meninos?
Carla responde-lhe também com um sorriso:
- Eu estou bem, obrigada. E os meninos, traquinas como sempre… E você, bem-disposto, como é habitual…
- É verdade, doutora, é muito raro eu estar mal disposto. A vida tem de ser levada assim, não podemos deixar-nos ir abaixo, nem ter pensamentos negativos. Precisamos de ter muita energia positiva para dar apoio a quem tanto precisa de nós.
- Essa maneira de pensar é muito boa, e o resultado está à vista – o Carlos tem ocupações muito meritórias, exactamente por pôr em prática essa linha de pensamento – comentou Carla, com um misto de admiração e respeito.
- Ora, doutora, eu não faço nada que não me tenham feito a mim, noutras circunstâncias. Mas… deixemos isso de lado. Ainda bem que a encontrei, pois assim evita-me o constrangimento de lhe ir bater à porta – e o seu rosto abriu-se num sorriso luminoso.
- Não estou a ver por que isso possa ser constrangedor, mas parece que assim, cara a cara,  as coisas estão facilitadas…
- É isso, doutora, é que eu queria convidá-la para a festinha que vou dar no próximo sábado…
- Ah! A Nanda já me falou nisso, e a verdade é que fiquei cheia de vontade de ir… O problema são os gémeos.
- Mas não seja por isso. Se lhes der o sono podemos pô-los no meu quarto. Se quiser até pode pô-los na minha cama, que é muito larga, não correm o risco de cair. Então está combinado, conto consigo! E acrescenta, despedindo-se:
- Bom, tenho de ir andando, que o trabalho espera-me. Gostei de a ver, doutora.
- Eu também, Carlos. Tenha um bom resto de dia – e Carla entrou na sua casa, não se esquecendo de agradecer a ajuda que o vizinho lhe prestara com os sacos das compras.
Os dois dias que faltavam para sábado decorreram da forma habitual.
Nesse dia, de manhã, Nanda bateu à porta de Carla.
- Bom dia, Carla. Desculpe mas, quando,  há dias, falámos na festinha do Carlos, esqueci-me de referir um pormenor que, com certeza, a minha amiga desconhece…
- Sim? Pois então diga, Nanda. Os gémeos tinham chegado à porta, com as caritas lambuzadas do pequeno almoço, e olhavam para Nanda com toda a atenção. Já viu isto? Aparecerem assim à porta com estas caras todas sujas? Não têm vergonha, seus safadinhos? – repreendeu a mãe.
Nanda, fazendo-lhes uma festa nas cabecitas, respondeu:
- Com caras sujas ou com caras lavadas são sempre lindos! E acrescentou: Mas o motivo que me trouxe cá, a estas horas da manhã, é um pequeno esclarecimento acerca da festa do Carlos…
- Pois claro! Diga, diga, Nanda.
- Com certeza a amiga não sabe, mas, para estas festas, nós costumamos contribuir com qualquer coisa para petiscar… doce ou salgado, tanto faz. Bebidas é que não, pois dessa parte encarrega-se o Carlos, que tem sempre bebidas alcoólicas e sem álcool.
- Agradeço-lhe imenso ter-me avisado. Com os gémeos em casa não me é muito fácil cozinhar, mas vou ali ao Estrela comprar qualquer coisa…
- Pois, mas não esteja com a preocupação de levar coisa muito… sofisticada… É uma festinha caseira, só com os vizinhos e, normalmente, duas miúdas amigas do Carlos.
No ar reinava um agradável e  pouco usual cheiro a comida em todo o prédio, em que sobressaía o aroma a limão e canela, que se sentia vir por debaixo da porta da casa da Nanda. Ela levava sempre o seu arroz doce, uma especialidade que mais parecia um doce de ovos.
Por volta das sete da tarde todos os vizinhos se encaminharam para a  casa do Carlos, onde já se encontravam as duas amigas dele. Amélia foi das primeiras a chegar, logo seguida de Carla e Nanda, que ajudou a levar os gémeos.
Uma música suave tornava o ambiente muito acolhedor. Dispostas as comidas na mesa da cozinha, juntaram-se todos na sala.
Jorge e Rui estavam sentados em almofadas, no chão, ao lado um do outro, mas tão discretos que ninguém diria que tinham um relacionamento e viviam juntos há tantos anos.
A conversa decorria fluída, e todos participavam dando a sua opinião. As amigas de Carlos é que se mantinham mais caladas, o que era natural pois, sendo as mais novas do grupo, preferiam ouvir os mais velhos. Os gémeos circulavam pela sala, calmamente, confraternizando especialmente com as duas miúdas, Lara, de 17 anos, e Margarida, de 20. No meio da conversa ouve-se o toque da campainha.
Carlos, com um rápido e cúmplice olhar para Nanda, foi abrir a porta.
Como calculavam era António, o vizinho da frente, empunhando uma caixa com um bolo.
Cumprimentou todos com um ligeiro aceno de cabeça e um sorridente. “boa noite!”. Notava-se que se esmerara na roupa que vestia, um estilo ligeiro mas elegante, e ostentava no rosto um sorriso que não lhe era muito usual.
Ao vê-lo, Amélia deu um salto na cadeira. Mas, recompondo-se rapidamente, exclamou, olhando para Nanda:
- Acho que me esqueci de pôr o gelado no frigorífico! Quando fôssemos comê-lo estava líquido - E dirigiu-se apressadamente para a cozinha, tentando esconder o rubor que lhe coloria o rosto.
A festa decorreu animadamente. Depois de saborearem os petiscos na cozinha, Carlos colocou música de dança, e alguns começaram a mostrar as suas habilidades, enquanto outros preferiam continuar a conversar.
Amélia e António tinham decidido “dar uma trégua” e conversavam civilizadamente, sentados lado a lado no sofá. Ambos sorriam um para o outro com frequência, como pôde constatar Nanda, que os espiava pelo canto do olho.
A determinada altura Jorge e António pareciam estar a altercar em voz baixa. Carlos, apercebendo-se, aproximou-se e perguntou:
- Está tudo bem?
- Bem, bem, não está – apressou-se a responder Jorge. O Rui está a exagerar na bebida, mas, casmurro como é, não aceita que eu lhe chame a atenção. Vê lá se tem jeito este disparate. Lembrou-se agora que é mais velho do que eu e por isso não tenho o direito de lhe estar a pregar sermões. É o álcool a falar…
- Não vale a pena zangarem-se por tão pouco. Há tantos anos que vocês vivem juntos e nunca ninguém vos viu uma zanga… Não é agora que vão começar, com certeza. Não acredito que escolham a minha festa para o fazerem pela primeira vez…
Tudo isto se passava em tom tão baixo que, com o som da música, ninguém se tinha apercebido.
- De maneira nenhuma, Carlos. Desculpa. O Rui tem razão. Tu sabes que eu não sou de beber demais, mas o dia correu-me tão mal lá no bar que me descontrolei um pouco – Jorge falava em tom pesaroso.
_ Sem problema – respondeu Carlos. Respirem fundo que tudo passa… - colocou a mão no ombro de Jorge, num gesto amistoso.
- Se não te importas… vamos andando – acrescentou Rui. O Jorge teve um dia muito cansativo e precisa de descansar.
- Tudo bem! Vemo-nos amanhã – nem que seja só na escada – riu o anfitrião.
- Levantaram-se das almofadas, fizeram um aceno de despedida a todos os presentes e, com um afável “até amanhã” retiraram-se e desceram as escadas até ao 1º. Andar esquerdo, onde moram.
Rui meteu a chave na fechadura mas teve alguma dificuldade em fazê-la funcionar. Resmungou:
- Há muito tempo que esta fechadura devia ter sido mudada. Parece o portão de uma quinta abandonada. Range por tudo quanto é sítio.
- Não te ponhas p’r’aí com indirectas. A casa é tanto minha como tua. Tens a mania que eu é que tenho de tratar de tudo – defendeu-se Jorge.
- Não é nada disso, não sejas parvo. Mas a verdade é que tu passas muito mais tempo em casa do que eu. “Tás” te a esquecer que tenho de estar às oito no salão? E olha que, quando lá chego, muitas vezes já tenho senhoras à minha espera, pois só gostam que seja eu a penteá-las. E não te esqueças que só saio às sete da tarde… – lamuriou Rui.
- E tu “tás” te a esquecer que eu é que faço tudo cá em casa, é ou não é? – Jorge começava a ficar amuado.
- Ouve lá, e se deixássemos os dois de ser parvos? - Rui aproxima-se de Jorge e abraça-o. Lembras-te que eu te prometi uma surpresa para hoje?
- Lembro, sim, não me esqueci, mas “tava” a ver que já não havia nada p’ra ninguém – respondeu Jorge, em tom magoado.
- E alguma vez eu faltei às minhas promessas? Senta-te aí no sofá, põe-te à vontade, relaxa… e aguarda-me – disse Rui, com ar misterioso.
Foi à cozinha, abriu o frigorífico, tirou uma caixa de bombons e uma garrafa de champanhe. Colocou tudo na mesinha ao lado do sofá e foi ao louceiro buscar dois flutes.
- Sim senhor! – comentou Jorge. Isto promete…
- Ainda não viste nada – e dizendo isto Rui dirigiu-se ao quarto.
Passados alguns minutos entreabriu a porta, murmurando:
- Fecha os olhos e não os abras enquanto eu não mandar – e entrando na sala pôs o CD a tocar baixinho. Colocou-se então em frente do companheiro:
- Já podes abrir os olhos e dizer o que achas…
Jorge obedeceu, mas, mudo de espanto, encantado com a visão que lhe parecia um sonho, não conseguiu pronunciar uma palavra.
Sentiu-se como se estivesse vivendo uma história das “Mil e uma noites”, com uma sedutora odalisca movendo-se lenta e sensualmente à sua frente, causando-lhe sensações inconfessáveis...
Levantou-se a custo e abraçando Rui, emocionado, puxou-o por um braço em direcção ao quarto, murmurando-lhe ao ouvido:
- Vamos comemorar!  


Maria Caiano Azevedo  

segunda-feira, 1 de junho de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XXI


SEGREDOS – CAPÍTULO XX

“…- A madrinha aprova – respondeu Bela, com um grande sorriso. Miguel é um nome muito bonito.
Menos de um mês depois Miguel viu a luz do dia.
Embalada nestas recordações Nanda acabou por adormecer com um sorriso nos lábios…”

SEGREDOS – CAPÍTULO XXI

Depois de uma noite passada a sonhar com os tempos idos da sua juventude, enquanto tomava o seu banho e se preparava para ir trabalhar, os seus pensamentos continuaram os sonhos. Lembrava-se nitidamente da conversa com a Bela…
- Desculpa, mas não posso deixar de te fazer uma pergunta. Sei que é muito indiscreta mas não consigo descansar enquanto não ouvir a tua resposta…
- Para estares com tantos rodeios e com esse ar tão sisudo… vem aí coisa grossa… Pergunta o que tens a perguntar. Como sabes, não há perguntas indiscretas, as respostas é que podem ser – pelo menos sempre ouvi dizer isto – Nanda tentava aliviar a tensão  que sentia na amiga.
- Então, aí vai. Tu casares-te com o Tó Zé foi para mim uma surpresa enorme, pois até há pouco tempo eu sabia-te apaixonada pelo Alessandro…
- Na vida tudo muda, minha querida, especialmente os sentimentos.
- Claro que sim! Mas… entre vós, tu e o teu marido, existe amor?
- O amor pode revestir-se das mais estranhas e diversas formas. O que nos une, a ti e a mim, por exemplo, não é amor?
- Evidentemente que sim! – apressou-se a responder Bela -  Não tenho a mínima dúvida a esse respeito. Mas… é diferente, nós sempre nos amámos, desde crianças. Tu e o Tó Zé sempre foram grandes amigos, mas apenas isso. Inclusivamente, o teu “grande amor” era o Alessandro.
- Volto a repetir-te que os sentimentos não são imutáveis. Eu aprendi a amar o Tó Zé, transformei a grande amizade que sentia por ele em amor. E ele… tu sabes… sempre foi apaixonado por mim.
- Está tudo muito certo mas… desculpa-me se sou demasiado insistente, faz-me confusão como é que esqueceste o Alessandro com essa facilidade toda. Tu eras tão apaixonada por ele…
- E tu já me ouviste dizer que esqueci o Alessandro? Não, não o esqueci e, provavelmente, nunca o vou esquecer – e pensou para si mesma “como poderia esquecê-lo se tenho um filho dele?”
Apenas decidi arrumá-lo muito bem num cantinho do coração, onde ninguém entra, pois cheguei à conclusão de que nunca mais vou vê-lo, e a minha vida tinha de seguir em frente. Não podia viver de recordações…
- Nisso tens toda a razão – concordou Bela. Por vezes somos forçadas a fazer coisas que, não sendo do nosso total agrado, são o melhor para tranquilidade de todos…
Nanda estranhou o tom em que a amiga falou, assim como o seu semblante. Tinha adoptado um ar meio ausente e com alguma tristeza.
De resto, desde que  Bela regressara, ela achava a amiga diferente, não sabia bem dizer porquê, mas qualquer coisa nela se alterara. Parecia que tinha amadurecido, como se tivessem passado muitos anos. Mas não disse nada disto, pelo contrário, tentou aligeirar a conversa:
- Olha para nós! Com menos de vinte anos e parecemos umas velhas!
- Tens toda a razão! Vamos mudar de assunto. Como tem sido na Faculdade?
- Oh! Muito mau, tenho faltado imenso, por causa da gravidez e consequentes enjoos. Estou convencida que vai ser um ano perdido…
- Sabes uma coisa? – respondeu Bela. Não te preocupes, voltas a ficar a par comigo, já que, para mim, mais de metade das aulas foram ao ar… No próximo ano voltaremos a ser colegas e poderemos matar as saudades do tempo do liceu.
- A ideia até que me agrada… embora as coisas agora sejam totalmente diferentes. Com a chegada do teu afilhado … o trabalho vai redobrar.
- Eu ajudo-te, não te preocupes – Bela juntou às suas palavras um sorriso luminoso.
O ruído da chave a abrir a porta da rua interrompeu os pensamentos de Nanda. Era a empregada, que ia todos os dias tratar do Tejo, levando-o a passear de manhã e à tarde. Além disso ia lá um dia completo, por semana, para as limpezas e tratamento das roupas.
“Agora, com o ordenado que tenho, não se justificava ter de me sacrificar e levantar-me cedíssimo para passear o Tejo, e à noite fazê-lo já com as luzes acesas. Também mereço umas certas mordomias, depois de tantas horas na loja “ – pensava, enquanto se dirigia ao centro comercial para cumprir mais um dia de trabalho.
Na ourivesaria tudo corria bem. O engenheiro Araújo mostrava-se muito satisfeito com os resultados obtidos. Passava por lá de vez em quando, examinava as contas, e mostrava o seu reconhecimento pelo bom trabalho das funcionárias, agradecendo-lhes. Quanto a Nanda, muitas vezes convidava-a para almoçar. Era sempre ela que tinha de lembrar que “os horários são para cumprir”, porque ele adorava conversar com ela, e esquecia-se das horas.
- Tem razão, já estamos aqui há bastante tempo, e o seu patrão pode descontar-lhe no ordenado os minutos de atraso – brincava ele.
- Ele talvez não faça isso – Nanda entrava na brincadeira. Mas sujeito-me a apanhar um bom raspanete da gerente…
O ambiente entre ambos continuava muito bom, não exactamente como entre patrão e empregada, mas como se de dois amigos se tratasse. Nanda sentia-se grata, não só porque o ordenado que auferia era muitíssimo bom, mas também porque Araújo estava sempre a pô-la à vontade para se ausentar da loja quando precisasse. Por seu lado, ele também lhe era reconhecido pela dedicação com que ela se entregava às suas tarefas, tratando dos assuntos da ourivesaria como se esta lhe pertencesse.
Terminado o dia de trabalho, passou pelo café Estrela, perto de sua casa, e comeu uma torrada acompanhando-a com um chá de camomila; não se sentia com coragem para ir, ainda, fazer jantar.
Ao entrar em casa encontrou, preparando-se para subir a escada, o seu vizinho do segundo andar direito, Carlos Manuel. É um homem de 27 anos, altíssimo - deve ter pouco menos de dois metros de altura – negro, com o cabelo completamente rapado, muito boa figura, duma simpatia enorme.
Ao aperceber-se da entrada de Nanda voltou-se para a cumprimentar.
- Boa noite, D. Nanda. Como está a senhora?
Seria difícil imaginar que de um homenzarrão como Carlos saísse uma voz tão suave.
Apresenta-se impecavelmente vestido com calças e blusão pretos e uma t-shirt branca, pois vem a chegar do trabalho, um restaurante onde exerce as funções de cozinheiro chefe.
Nanda gosta muito dele. Responde com um sorriso:
- Tudo bem, Carlos. E consigo, como vão as coisas?
- Oh, sempre igual. Entre Bombeiros e “sem abrigo” o tempo passa veloz. Às vezes vejo-me aflito para conseguir cozinhar – responde, sorridente, em ar de brincadeira.
- Isso é que não pode ser… Os seus cozinhados fazem muita falta, pois são deliciosos.
- Eu falei por brincadeira, mas sabe, D. Nanda? Às vezes custa-me fazer comida tão requintada, para, no fim, só ser acessível a pessoas com um nível económico bem confortável. Depois, ver aqueles “sem abrigo” passando tantas necessidades… é confrangedor.
- Acredito que lhe custe, sofre com a dor dos outros… Mas não podemos remediar essa situação, não está nas nossas mãos, e o que o Carlos faz, dando-lhes todo o apoio possível, é muito louvável, e demonstra o seu bom coração.
- Oh, D. Nanda, o que eu faço não é nada comparado com as dificuldades deles.
- Não é nada… é o que você diz, mas  não é verdade. Isso a juntar ao facto de ser bombeiro voluntário faz de si uma boa pessoa. Mas, como não quero envergonhá-lo – sei que não gosta que lhe ponham as virtudes a nu – vou mudar de assunto. Há muito tempo que não ouço as suas canções…
Carlos gosta muito de cantar. Como só vai para o restaurante por volta das onze horas, muitas vezes ouve-se no prédio a sua linda voz tendo como fundo música apenas instrumental, que ele acompanha, com todo o entusiasmo. Isto provoca alguma animosidade e uma certa inveja em António, seu vizinho do lado, que também gosta muito de cantar, o que faz muitas vezes, com a sua bela voz de barítono. Mas não tem qualquer razão para invejar Carlos que, embora cante num grupo coral, não tem a voz potente e educada de António.
Ao ouvir Nanda referir-se às suas “cantorias” – como ele próprio se refere às suas canções – ele deu uma gargalhada.
- Ultimamente não tenho estado muito tempo em casa. Arranjei aí um trabalhito para fazer de manhã, por isso saio de casa muito cedo. Mas olhe, tenho de recomeçar com as minhas festas, tão habituais neste prédio. Estou a pensar numa festinha no próximo sábado, e fica já o convite feito. Conto consigo! Vou também convidar a Amélia, como de costume, e, desta vez, vou acrescentar uma pessoa – o António, o meu vizinho da frente.
- Ai meu Deus! A Amélia e o António juntos? – exclamou Nanda, com assombro, e baixando a voz. Não sei, não… Aproximar a palha do fogo, pode causar incêndio – ambos riram, coniventes.
No prédio todos conheciam as querelas entre Amélia e António, o que os fazia rir, pois não os levavam a sério. Demais sabiam eles que aquelas escaramuças escondiam uma atracção que só mesmo eles não queriam admitir publicamente.
Carlos despediu-se com a recomendação “não marque nada para o próximo sábado, D. Nanda, olhe que não faço a festa sem a sua presença”, o que provocou nela um sorriso bem disposto.
O Tejo recebeu-a com efusivos ganidos de satisfação, como era habitual. Tinha uma verdadeira adoração pela sua dona, que lhe retribuía com muito amor.
Nanda encaminhou-se para o quarto. Só então se apercebeu verdadeiramente do cansaço que tinha. “Parece-me que os anos estão a começar a fazer sentir os seus efeitos. Acho que vou ter de me convencer que já não tenho vinte anos e preciso ir doseando o esforço. Afinal, tendo um Araújo por patrão – sorriu involuntariamente – posso bem meter uma folgazinha de vez em quando. É mesmo isso que vou começar a fazer”.
Entretanto já trocara de roupa e, pronta para se deitar, olhou enternecida, como todas as noites fazia, para a foto dos seus dois filhos, bebés, que tinha sobre a cómoda.
Pensou no neto, no seu filho Miguel, nos tempos idos de recém casada, em Alessandro, e adormeceu tranquilamente.

Maria Caiano Azevedo

sexta-feira, 1 de maio de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XX

SEGREDOS – CAPÍTULO XIX

“… Despediram-se com o beijo habitual.
Nanda foi para dentro e, na sala, encontrou o pai sentado junto à mãe, nitidamente à sua espera…”

SEGREDOS – CAPÍTULO XX
Nanda sentiu um forte aperto no peito ao ver o pai. O coração disparou a toda a velocidade. Não esperava encontrá-lo ali e não se sentia ainda preparada para o encarar. Olhou-o, a medo, na expectativa de tentar perceber qual iria ser a sua reacção. Viu-lhe, nos olhos, uma expressão de infinita tristeza. Não conseguiu conter as lágrimas, que começaram a rolar, silenciosas.
O pai levantou-se, aproximou-se e, sem dizer uma palavra, abraçou-a fortemente, juntando às dela as suas próprias lágrimas.
A mãe levantou-se num impulso, e, em voz sarcástica, quase histérica, exclamou:
- Mas que cena tão comovente! Não sei qual é mais inconsciente, se a filha se o pai. A filha com uma criança na barriga que, com certeza nem sabe quem é o progenitor, e a reacção do pai é abraçá-la!
- Uma criança é sempre uma bênção de Deus, seja em que circunstância for, e esta, que ainda está por nascer, vai ser, e já é, muito amada.
Nanda sentiu-se desmoronar por dentro ao ouvir as palavras do pai. As lágrimas silenciosas transformaram-se em soluços convulsivos.
- Acalma-te minha querida, esse choro não é bom para o meu neto… ou neta. E eu quero que essa criança nasça muito saudável.
A dona Lucinda começava a sentir-se emocionada. Mas, não querendo dar o braço a torcer, resolveu intervir:
- Bem, quando terminarem a choradeira falaremos de coisas práticas.
Pai e filha afastaram-se, recompondo-se.
- Podes falar, Cindinha (era assim que o pai tratava a mãe quando queria amansá-la). Queremos ouvir o que tens para dizer.
- O que tenho para dizer é muito simples. Filha minha não sai desta casa para a igreja com a barriga empinada. Portanto, ou tratas de dizer quem é o pai e apressam o casamento ou procuras lugar para morar. Não quero na minha casa mães solteiras!
Lembrando-se da conversa com o Tó Zé, Nanda pensou, rapidamente, que o melhor seria aceitar a sugestão dele, e declará-lo como pai do seu bebé. E assim tratariam do casamento o mais depressa possível.
Com um fundo suspiro, como que a ganhar coragem, respondeu:
- Não vale a pena estar com mais rodeios. A mãe adivinhou quanto ao pai do meu bebé. É o Tó Zé, sim. E até já falámos em casamento… O único problema é que o ordenado dele não é muito grande, e para alugar uma casa e sustentarmo-nos… não vai ser nada fácil…
O pai reagiu de imediato:
- Não quero que tu, e muito menos o bebé, passem a mais pequena dificuldade. Eu ajudo no que for preciso. Procurem uma casa para alugar, ou… se preferirem… eu não me importava que ficassem a viver cá em casa. Que te parece, Cindinha?
- Sempre ouvi dizer que quem casa quer casa – respondeu, com azedume na voz.
- Pai, não me leve a mal, mas eu também preferia ter casa minha… - apressou-se a esclarecer Nanda. E acrescentou: É claro que quero ver-vos lá muitas vezes, assim como, se quiserem, virei cá ver-vos…
D. Lucinda interveio, em tom mais cordato:
- Ninguém sugeriu ficarmos de relações cortadas…
Adiante. O pormenor da casa está resolvido, é só vocês encontrarem uma que vos agrade. Resta, portanto, o casamento. Vocês já pensaram no que querem fazer?
- Não, Mãe, não pensámos em nada de concreto, apenas aflorámos o assunto. Mas, se tanto a mãe como o pai concordarem… eu gostaria de uma cerimónia simples… só no cartório.
- Por mim, concordo – apressou-se a responder D. Lucinda. O que é que tu achas, José?
José Sanches, pai de Nanda, tinha pela filha verdadeira adoração. Sempre sonhara conduzir a sua menina ao altar, onde a esperaria o seu príncipe encantado. Uma igreja cheia de flores e convidados, seguindo-se um faustoso copo d’água… um casamento digno duma princesa.  Mas, dadas as circunstâncias, esse sonho caía por terra.
- O que a Nanda quiser… por mim acho bem. Afinal… ela é a principal interessada. – respondeu, a custo.
- Então, estamos entendidos – rematou D. Lucinda. Tratem de alugar casa sem demora.
No dia seguinte Nanda apressou-se a telefonar ao Tó Zé dizendo-lhe que tinha urgência em lhe falar. Quando lhe contou o que se passara com os pais, ele mal conseguiu disfarçar a alegria que a notícia do casamente lhe causava.
- Então… temos de nos apressar. Vou ver no jornal anúncios de casas para alugar. E tu também podias fazer o mesmo. Afinal, ainda estás de férias – disse, com um sorriso de orelha a orelha.
- Claro que posso. O meu pai compra sempre dois ou três jornais… Vou ver se vejo por lá alguma coisa. Para além disso, penso que concordas com o que disse à minha mãe acerca do casamento ser uma cerimónia muito simples, e apenas no cartório…
- Evidentemente que concordo, querida. Tu sabes que eu não ligo muito a essas coisas. Por mim até podíamos ir viver juntos sem casamento, se tu quisesses que assim fosse… - acrescentou, bem disposto.
- Eu também não me importava… mas seria um desgosto muito grande para os meus pais.
- Compreende-se… Os pais têm sonhos para os filhos, que nem sempre coincidem com o que estes desejam… Mas nada melhor que chegar a um consenso: uns cedem um bocadinho, os outros cedem por outro lado… e tudo corre bem – Tó Zé sentia-se tão feliz que era capaz de concordar fosse com o que fosse. Sabes o que vou fazer? Pedir uma semana por conta das férias para tratarmos do casamento. É que é muita coisa… E, para já, vou passar por casa para contar à minha mãe. Acho que ela vai ficar radiante.
Nanda foi para dentro, encontrando a mãe na sala, sentada, como se estivesse à sua espera, e não com aspecto de ir sair para as suas habituais visitas aos que necessitavam de companhia. Pediu a Nanda que se sentasse a seu lado. Ela acedeu, preparando-se, mentalmente, para ouvir mais alguns desaforos.
D. Lucinda estendeu a mão segurando a da filha. Com voz que teimava em não parecer comovida, disse:
- Minha filha, certamente estás zangada comigo.
- Não, mãe, eu compreendo-a…
- Não me interrompas, por favor – cada vez adoçava mais a voz. Eu entendo que te possas sentir aborrecida. Eu tenho sido muito agressiva contigo, e peço-te que me perdoes. Sabes? Eu sofri um choque enorme quando verifiquei que estavas grávida. Sempre sonhei que a minha menina – és a minha única filha – fizesse um casamento semelhante ao meu. Foi tão lindo, o meu casamento! Via-te vestida de branco, com um vestido longo, lindíssimo, um noivo maravilhoso; depois partias para a lua de mel… e só algum tempo depois começarias a encher esta casa de crianças… - D. Lucinda falava com um ar sonhador.
Mas, enfim, quis o destino que nada disto se concretizasse. A minha reacção foi de egoísmo puro, por ver o meu sonho desmoronar-se. Mas o que conta é que sejas feliz. E, se realmente gostas desse rapaz, vai em frente. Nós, eu e o pai, cá estaremos para te apoiar em tudo o que for preciso.
Nanda nem sabia como reagir. Estava tão espantada e sentia uma alegria tão grande com a atitude da mãe, que lhe apetecia agarrar-se a ela e dançar até mais não poder. Abraçou a mãe com toda a força e, não contendo as lágrimas, murmurou:
- Eu amo-a tanto, minha mãe!
D. Lucinda, extremamente comovida e também com a lagrimita ao canto do olho, respondeu:
- Vá, vá, nada de emoções fortes, que isso não faz bem ao meu netinho – ou netinha…
Os dias seguintes passaram a correr. Entre os quatro, noivos e pais da noiva, encontraram um apartamento de que todos gostaram; marcaram o casamento no cartório e o restaurante para o almoço, aos quais, casamento e almoço, compareceram apenas os familiares mais próximos – os pais de ambos os lados e a irmã e cunhado do Tó Zé, num total de oito pessoas. Nanda lembrou-se muito da sua querida amiga Bela, com quem falava uma vez por outra por telefone, lamentando não a ter presente num dos momentos mais marcantes da sua vida. Contudo a amiga continuava, alegadamente, a acompanhar a mãe no estrangeiro, sem saber quando regressaria.
Tudo se passou num abrir e fechar de olhos, e, antes mesmo que tomassem bem consciência disso, Nanda e Tó Zé estavam casados.
José Sanches fizera a surpresa de marcar uns dias num hotel para a filha e o genro passarem a lua de mel. Ambos ficaram agradavelmente surpreendidos.
Começaram calmamente a sua vida de casados. Tó Zé voltou ao trabalho. Como era muito eficiente no que fazia e desempenhava as suas funções sem uma falta ao serviço, o patrão promoveu-o, dando-lhe um cargo de chefia. Por seu lado Nanda começou com as aulas na Faculdade.
Aos Domingos reuniam-se sempre com os pais de Nanda, para o almoço. Não mantinham relações muito regulares com os pais de Tó Zé. Muito cedo este se desligara da família, “declarando” a sua independência. Exceptuava-se a irmã, de quem gostava muito
Poucos meses depois Bela regressou. A alegria do reencontro das duas amigas foi indescritível! Nanda, olhando a amiga nos olhos, exclamou:
- Parece que passaram anos desde a última vez que nos vimos! Não sei o que te noto… mas acho-te diferente, talvez mais adulta… Parece que que perdeste aquele ar de menina mimada que tinhas…
- Menina mimada, eu? Olha quem fala, a menina do papá… - troçou Bela. E, dizendo isto, acariciava a barriga de Nanda, que estava já bastante proeminente. – E quanto tempo falta para termos este bebezão cá fora? Estou ansiosa para conhecer o meu afilhado. Já sabes como vai chamar-se?
- Eu gosto muito do nome Miguel, e, em princípio, o Tó Zé não se opõe. E a madrinha o que acha?
- A madrinha aprova – respondeu Bela, com um grande sorriso. Miguel é um nome muito bonito.
Menos de um mês depois Miguel viu a luz do dia.
Embalada nestas recordações Nanda acabou por adormecer com um sorriso nos lábios.

Maria Caiano Azevedo 

quarta-feira, 1 de abril de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XIX

SEGREDOS – CAPÍTULO XVIII

"...- Ai, Tejo, Tejo, tu consegues imaginar o amor que sinto por ti? Só mesmo um amor muito grande me faria vir para o parque a estas horas da manhã…
Ao ouvir o seu nome o animal levantou a cabeça olhando para ela e, como se percebesse as suas palavras, abanou a cabeça como que em sinal de concordância..."

SEGREDOS – CAPÍTULO XIX
Rapidamente se passou um mês. Entre estar com a família e o seu emprego, Nanda nem se apercebeu de que o tempo corria veloz.
A inauguração da “Orvalho de Prata” fora um êxito. Empresário exímio, Araújo mandara fazer umas pequeninas rosas em prata que foram oferecidas, como presente de inauguração, aos clientes que efectuaram alguma compra. Todos os clientes saíram satisfeitos, tanto pela lembrança como pela simpatia das empregadas, duas senhoras já na casa dos quarenta anos, mas com uma apresentação impecável.
O dia a dia de Nanda era quase rotineiro. De manhã levava o Tejo a passear, o que repetia à noite, já tarde, pois que a loja fechava às 22 horas. À hora do almoço, muitas vezes aproveitava para ir ver o neto, e ao Domingo não dispensava o almoço em família. Nestes eventos era frequente a presença de Tó Zé, que se mostrava verdadeiramente apaixonado pelo neto. Isso levava a que Nanda, ao regressar a casa, sozinha no seu apartamento, infalivelmente recordasse o passado…
***
“…- Essa mania que vocês têm de comer porcarias, e ainda por cima à noite! Se calhar era melhor ires ao médico…
- Não é preciso, Mãe. É só eu fazer um pouco de dieta, e fico boa.
- Bem, vamos ver. Mas olha que com a saúde não se brinca…”
Dona Lucinda ficou com a pulga atrás da orelha e nos dias que se seguiram esteve ainda mais atenta ao estado da filha, que não mostrava qualquer melhoria. Antes pelo contrário, a cada dia que passava Nanda sentia mais náuseas e várias vezes teve de interromper o pequeno almoço para ir vomitar.
Um dia a mãe decidiu esclarecer o assunto duma vez por todas. Colocando no rosto um ar severo, logo a seguir ao pequeno almoço, interpelou a filha:
- Ora vamos lá falar como duas pessoas crescidas, minha menina. Sim, que tu já és bem crescidinha!
Nanda estremeceu. Todas as vezes que a mãe lhe chamava “minha menina” era sinal de que vinha por aí raspanete. E, com este tom tão rígido, tinha de se preparar para o pior.
Foi sentar-se em frente da mãe, dizendo com ar contrito:
- Sim, Mãe. Quer falar de quê?
- De ti, evidentemente. Essa tua suposta doença que se manifesta apenas por vómitos já dura há tempo suficiente para me deixar desconfiada.
Nanda, interiormente, tremia de medo antevendo o que viria a seguir, mas fazia os possíveis por aparentar uma calma que estava longe de sentir.
- Queres contar-me a verdadeira razão desse teu “mal estar” ou preferes que seja eu a adivinhar?
O tom de voz da mãe endurecia à medida que ela falava. Nanda sentia que não havia escapatória possível. Chegara a hora da verdade. E pensava, aflita – “Isto tinha de acontecer, mais tarde ou mais cedo. No fundo, até me parece que mais vale contar tudo de uma vez…”
A mãe insistia:
- Então? Queres falar ou não?
- Eu gostava de falar, sim, Mãe. Mas falta-me coragem….
A mãe respirou fundo como se precisasse de se acalmar. Quase a gritar, exclamou:
- Falta-te coragem? Mas para fazer o que fizeste não te faltou coragem!
Voltou a respirar fundo, e, num tom mais comedido, continuou:
- Vamos pôr as cartas na mesa. Tu estás grávida, não é verdade?
Nanda começou a chorar. As lágrimas deslizavam em silêncio pelo seu rosto. Não conseguia responder. A mãe continuou.
- Pelo teu silêncio já percebi que não estou errada. Pois muito bem, agora vais me dizer quem é o pai desse desgraçado que trazes no ventre.
Nessa altura Nanda conseguiu forças para dizer, em tom magoado:
- Não é nenhum desgraçado, é um bebé que está para nascer!
A mãe pareceu acalmar-se ligeiramente, mas continuou com tom muito duro:
- Pois que seja! Agora quero saber quem é o pai.
Nanda continuou a chorar em silêncio. Não conseguia articular uma palavra.
Mas a Dona Lucinda não lhe deu tréguas.
- Não penses que me comoves com essas lágrimas. E, para que saibas, essas são apenas o começo de muitas que ainda hás-de chorar. Queres ou não queres dizer-me quem é o pai dessa criança?
Novo silêncio e mais lágrimas no rosto de Nanda.
- Tu não queres dizer, mas eu posso bem adivinhar de quem se trata.
Ao ouvir estas palavras Nanda sentiu-se gelar, mas continuou silenciosa. “A mãe estaria a pensar no Alessandro?”
- Essas noitadas ao portão foi no que deram! E eu que confiava tanto naquele rapaz! Para mim era como se fosse teu irmão. E vê o resultado que deu a confiança que eu tinha nele! Ah! Mas ele vai ouvir-me das boas, não perde pela demora…
Interiormente, Nanda estava boquiaberta. Não era possível! A mãe estava a pensar no Tó Zé? Não sabia se se sentia aliviada se indignada. Tinha de falar urgentemente com o seu amigo, avisá-lo do que se estava a passar.
Fingindo uma nova náusea, levantou-se, ainda chorosa, e fez sinal de que precisava ir à casa de banho.
- Vai, vai, e escusas de voltar que a nossa conversa, por agora, está terminada. Mas isto não fica assim – disse, com voz gelada.
Quando regressou a mãe já tinha saído da sala. Nanda dirigiu-se ao seu quarto e ligou de imediato para o Tó Zé, que estava a trabalhar. Sem lhe dizer do que se tratava avisou-o que tinha muita urgência em falar com ele, mas só pessoalmente. Ele estava cheio de trabalho e não poderia vê-la a não ser à noite. “A não ser que queiras vir ter comigo e falamos por uns momentos”. Mas Nanda preferiu esperar pela noite.
Quando se encontraram depois de jantar Nanda abraçou-o com força e começou a soluçar. Tó Zé não sabia como reagir. Limitou-se a retribuir o forte abraço e a falar-lhe em tom suave, quase como se a embalasse.
- Então, então, mas o que é que se passa? Porquê esse choro assim tão descontrolado? Acalma-te, por favor, estás-me a pôr louco. Vá lá, tem calma e conta-me o que aconteceu. Eu quero ajudar-te, mas assim não posso…
Enquanto falava ia-lhe acariciando o rosto e enxugando-lhe as lágrimas que pareciam não ter fim. Aos poucos os soluços foram rareando, e Nanda conseguiu falar:
- Tu não vais acreditar no que aconteceu. A minha mãe descobriu tudo.
- Tudo, o quê?
- A gravidez, que mais querias que fosse?
- Olha, por um lado ainda bem que isso aconteceu. Afinal, tu não podias esconder para sempre… Eu acho que estar a guardar segredo não tinha grande sentido…
Continuava a abraçá-la, alisando-lhe os longos cabelos, na tentativa de que ela não voltasse a chorar. Nanda retomou a palavra, agora mais calma:
- Pois, só que tu não sabes quem é que ela pensa que é o pai do bebé.
- Então, não é o Alessandro? – perguntou Tó Zé.
- Não, muito longe disso. Ela pensa que és tu.
- Eu? – não podia haver maior espanto no rosto e na voz dele. Mas a que propósito é que ela pensou isso?
- Acha que aproveitámos – e pelos vistos muito bem - as noites que passámos aqui ao portão.
- Santo Deus! Não podia imaginar que ela fosse pensar tal coisa… Então e agora?
- Agora prepara-te porque ela prometeu dar-te um belo sermão…
- Isso não me preocupa nada. Nanda, sabes como gosto de ti, e chegou o momento de te dizer, com o coração nas mãos, que sempre fui apaixonado por ti. Perante esta situação, se te sentires mais confortável podemos fazer crer à tua mãe que ela está certa, que eu sou o pai do bebé, e, inclusivamente, que podemos casar, se ela assim o desejar, e se tu quiseres, claro. Talvez isso a acalme…
Foi a vez de Nanda ficar muda de espanto. Tinha por Tó Zé uma grande amizade, considerava-o o seu melhor amigo, e confiava nele cegamente. Mas daí a pensar que ele iria ter esta atitude… ia uma grande distância.
Encostou a cabeça no ombro dele e de novo as lágrimas assomaram aos seus olhos. Ele, limpando-lhe suavemente  o rosto, estranhou:
- Então fiz-te chorar? A minha intenção não era essa…
-Estas lágrimas não são de tristeza, são de comoção. Nunca pensei que fosses capaz de uma atitude tão nobre. Mas… não sei se devo aceitar. Tu estás a tomar essa atitude debaixo de uma grande tensão. Vamos fazer o seguinte – tu vais pensar bem no assunto, auscultas a tua família, e depois decides. Para todo o efeito eu não confirmei à minha mãe que és tu o pai do bebé…
- Não confirmaste mas também não desmentiste, não é verdade? Para além disso… sabes que a opinião da minha família não é importante. Tenho 19 anos mas sou de maior idade, como sabes, e há muito tempo que me oriento sozinho. O que me interessa verdadeiramente é o que tu sentes e pensas do assunto. Portanto… tu é que deves pensar… e confirmar, ou não, junto da tua mãe. Eu aceito o que tu decidires.
Despediram-se com o beijo habitual.
Nanda foi para dentro e, na sala, encontrou o pai sentado junto à mãe, nitidamente à sua espera.

Maria Caiano Azevedo