terça-feira, 1 de setembro de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XXIII

Quase cedia ao impulso de me dar um abraço… mas deteve-se a tempo:
- Há tanto tempo que não te via! Que pena não poder abraçar-te, querida. Não imaginas as saudades que senti, Mariazita!
- Mas que exagerada, minha querida Nanda. Não passou assim tanto tempo como isso…
- Talvez tenhas razão. Mas, sabes? É que gosto muito de falar contigo, desabafar… Diz-me: com quem mais posso fazê-lo? Só contigo! E não ter  contado o resto da festa do Carlos faz-me sentir formigueiros…
E naquele rosto bonito aparece o esplendoroso sorriso!
- Vamos lá então ouvir o resto – respondo, complacente.
*
SEGREDOS - CAPÍTULO XXII

                        

“… Sentiu-se como se estivesse vivendo uma história das “Mil e uma noites”, com uma sedutora odalisca movendo-se lenta e sensualmente à sua frente.
Levantou-se a custo e abraçando Rui, emocionado, puxando-o por um braço em direcção ao quarto, murmurou-lhe ao ouvido:
SEGREDOS – CAPÍTULO XXIII
Ao regressar do trabalho, perto da meia noite,  Diogo verifica, com alguma preocupação, que a sua mulher, Carla, e os gémeos, não se encontram em casa. De repente lembra-se da festa do Carlos e galga os degraus até ao 2º. Andar.
Recebido afavelmente por Carlos, beija a mulher ao mesmo tempo que pergunta pelos filhos.
- Estão na cama do Carlos. Mantiveram-se acordados e  bem dispostos até tarde, mas acabaram sendo vencidos pelo sono – respondeu Carla.
- Ainda bem! Mas agora, querida, se não te importas, é só acabar esta bebida que o Carlos me ofereceu e vamos embora. Estou a morrer de cansaço!
- Nem outra coisa seria de esperar, depois de tantas horas seguidas a trabalhar. Mas vamos embora, sim. Aliás, já estava a preparar-me para o fazer. A Nanda ia ajudar-me com os meninos… -  sorriu para Nanda.
Feitas as despedidas prepararam-se para sair. Nanda foi com eles, assim como Margarida, a amiga mais velha de Carlos, que recusou a oferta dele para a acompanhar.
- Eu já sou grande, não se nota? - disse, com um sorriso. Além disso moro ao virar da esquina. Demoro menos tempo a chegar a casa do que tu a desceres as escadas…
Saíram. Restavam, na festa, Amélia e António, e Lara, a amiga mais nova de Carlos, que nutria por ele uma paixoneta não correspondida.
A festa estava a chegar ao fim. Amélia, contristada por não poder prolongar por mais tempo aquela noite que acabara por se revelar tão agradável, fez o gesto de se levantar, no que foi secundada por António.
- Bom, a festa foi muito agradável, Carlos. Há muito tempo que não passava momentos tão bons. Mas vão sendo horas de me retirar…
- Fico muito feliz por saber que se divertiu, Amélia. Brevemente havemos de pensar noutra reunião.
- Pode contar sempre comigo, Carlos. Até amanhã. – e, baixita como era, esticou-se para dar um beijo ao anfitrião.
- Se me dá licença, Carlos, eu aproveito a boleia – disse António, sorridente – e vou também retirar-me.
Carlos agradeceu a presença dos dois e acabou por ficar a sós com Lara.
- Bem, minha menina, vai buscar o teu casaco para eu te acompanhar a casa. É muito tarde para andares por aí sozinha.
- Por favor, Carlos, é cedíssimo! Estás a pôr-me fora da tua casa? – Lara falava num tom mimado
- Não é nada disso, mas já toda a gente se foi embora …
- Mas eu não sou toda a gente, eu sou a tua amiga especial, ou não?
- Claro que és, mas isso não significa que eu te faça todas as vontadinhas.
Lara, com todo o ardor dos seus 17 anos,  sentia-se completamente apaixonada por Carlos, embora ele nunca tivesse para com ela qualquer gesto que a incentivasse. Apenas nutria por ela uma grande amizade e sentido de protecção, pois que ela vivia sozinha num quarto alugado,  e a família, que ele conhecia, morava na província.
Lara resolveu mudar de táctica:
- Olha, podíamos dar uma arrumadela a esta bagunça e a seguir víamos um filme.
Normalmente, nos dias a seguir às festas a Nanda e a Amélia iam ajudá-lo  a pôr tudo em ordem.
Mas, perante a perspectiva de ter ajuda para arrumar a casa  antes de se deitar, convenceu-o.
- De acordo. Vamos lá então arrumar as coisas e depois vemos um vídeo. Mas aviso-te já de que logo que o filme termine vou levar-te a casa!
- Ok, chefe – brincou Lara. E começou a levar os copos e pratos para a cozinha.
Com o vídeo preparado para arrancar sentou-se no sofá enquanto Carlos foi fazer pipocas, vindo, depois, sentar-se a seu lado.
Começaram a ver o filme. A certa altura ela acariciou o braço de Carlos, murmurando:
- Tens a pele tão macia!
- É próprio da raça negra, não sabias?
- Não, não sabia, mas a tua pele parece veludo…
- Os negros são todos assim. Mas, não te distraias, o filme está numa parte muito emocionante – advertiu-a Carlos.
Quando o filme chegou ao fim ele disse:
- Vou-te levar a casa.
- Para quê? É muito mais simples eu ficar cá… - Lara adoçou a voz.
- Não venhas de novo com essa conversa…
- Porquê? Não gostas de mim? – ela pôs um ar de amuo.
- Já te disse mil vezes o que penso do assunto! Cresce, e quando fores uma mulher adulta, falamos sobre isso – respondeu Carlos, ligeiramente irritado.
Ele tinha muitas amigas jovens, com quem gostava de conviver. Algumas eram menores, tal como Lara, mas a todas respeitava sem o mais leve atrevimento.
Segurando-a por um braço, quase a arrastou para a porta. Desceram as escadas com muito cuidado, até porque alguns degraus, de madeira e com mais de trinta anos, já se ressentiam da idade.
Lara mora relativamente perto pelo que, pouco depois, Carlos voltou. Adormeceu tranquilamente.
Entretanto, quando Amélia e António saíram da casa de Carlos, ele, timidamente, perguntou-lhe se podia acompanhá-la a casa.
Amélia reprimiu uma gargalhada.
- Ó António, até parece que eu moro muito longe! Mas por mim tudo bem, até tenho muito gosto em que me acompanhe. Mas olhe que depois tem de regressar sozinho… - ambos riram , baixinho.
- Um dia destes convido-a para conhecer a minha casa – se a Amélia quiser, evidentemente – apressou-se a acrescentar.
- E porque não? Afinal, somos vizinhos há tantos anos, e mal nos conhecemos – respondeu Amélia.
Vagarosamente, iam descendo as escadas.
Chegados ao patamar, António, olhando-a fixamente,  começou a entoar, a meia voz, no seu belo tom de barítono:
“Amélia dos olhos doces
“Quem é que te trouxe grávida de esperança?
“Um gosto de flor na boca
“Na pele e na roupa, perfumes de França”
Fez uma breve pausa. Acercou-se de Amélia e, segurando-lhe suavemente na mão, continuou:
“ Amélia gaivota, amante, poeta
“Rosa de café
“Amélia gaiata do bairro da lata
“Do Cais do Sodré”
Instintivamente Amélia colocou-lhe um dedo sobre os lábios, murmurando:
- Xiu! Vai acordar o prédio todo!
- Desculpe, mas não consegui resistir, Amélia. Os seus olhos são tão doces que foram eles, por certo, que inspiraram o poeta que produziu tão lindos versos…
- O Joaquim Pessoa, autor desse poema, nunca me viu mais gorda – riu Amélia, baixinho.
Completamente rendida, pensava: “A Nanda tinha razão. É amor, mesmo”.
Numa última resistência, disse, baixinho:
- António, adoro ouvi-lo cantar. Mas aqui, e agora, não é o local. Os vizinhos estão todos a descansar, não podemos acordá-los…
- Por favor, Amélia, não me mande embora; não agora, que sinto que não posso separar-me de si.
- Para isso temos um bom remédio – respondeu ela, afoitamente. E abrindo a porta, segurou-lhe a mão e puxou-o para dentro.
António mal podia acreditar no que lhe estava acontecendo. “Há, apenas, vinte e quatro horas ainda estávamos tentando agredir-nos - no fundo só para chamarmos a atenção um do outro, é certo – e, num repente, a situação altera-se por completo…” “Abençoada festa do Carlos!”
Amélia sugeriu:
- Podemos tratar-nos por tu? Então deixa-me mostrar-te o motivo das tuas questiúnculas…
- Não me recordes como fui estúpido… Eu só queria que reparasses em mim, e fazia-o da maneira mais errada possível, reconheço-o agora – respondeu, em tom contrito.
- Vamos esquecer isso. Vem conhecer o que te servia de pretexto para resmungares – um sorriso luminoso iluminava-lhe a face.
Puxando-o por um braço quase o arrasta para o pequeno estúdio onde dá as suas aulas. Comprimindo-lhe as costas contra o varão, prende-lhe as mãos atrás das costas e murmura, excitada:
- Agora vou ensinar-te a dança do varão! Vais ver como é bonita.
- Vais sequestrar-me? Olha que eu grito! – tentou brincar, enquanto a sua voz reflectia uma excitação incontrolável.
- Podes gritar à vontade. Ninguém sabe que estás aqui. E, para além disso, sei que morres de curiosidade para conhecer esta misteriosa dança – Amélia continuava a comprimi-lo contra o varão.
- Tens toda a razão. Mas, do mesmo modo que não posso cantar, também não podes fazer barulho com danças…
Soltando-se repentinamente das mãos frouxas de Amélia, agarrou-a fortemente pela cintura, murmurando num tom de voz apaixonado:
- Vamos ver quem é que ensina o quê a quem!
Tomou-a nos braços encaminhando-se para o que lhe parecia ser o quarto.
Pára, por segundos, e olhando-a nos olhos, diz, enlevado:
- Para que andámos a perder tanto tempo?

Nanda ajudara Carla a deitar os gémeos nas suas caminhas.
Os amigos agradeceram a ajuda:
- Com eles a dormir a tarefa torna-se um pouco mais complicada. Parece que os corpos ficam mais pesados – comentou Diogo.
- Eles já têm dois anos e alguns meses… - justificou Carla.
- E estão muito bem desenvolvidos, diga-se em abono da verdade. Vão ser uns rapagões, altos como o pai – sorriu Nanda. E imediatamente se calou, meio embaraçada, lembrando-se de que os meninos eram adoptados.
- Não fique assim, minha amiga – apressou-se Carla a tranquilizá-la. Eles sabem que são adoptados. Claro que ainda são muito pequeninos para entenderem isso, mas já se vão habituando à ideia.
- Na minha opinião é o melhor a fazer. Assim, quando forem crescidos, não têm surpresas desagradáveis. – concordou Nanada
Em casa, enquanto se preparava para se deitar, revia os corpinhos dos gémeos a dormir, o que lhe trouxe à memória os seus próprios filhos quando pequeninos.
“O Miguel tinha dois aninhos quando nasceu o Luís. Meu Deus! Como o tempo voa! Parece que foi ontem…
Tenho de reconhecer que, apesar de todas as dificuldades e aflições por que passei, a vida acabou por me compensar, e vivi momentos muito felizes com o Tó Zé. E agora voltaram tempos muito bons com o meu netinho… Quando será que o Miguel contribui para o crescimento da família? “
E, a pensar no Miguel e em como deveria estar prestes a vir de férias, tranquilamente entregou-se aos braços de Morfeu.
Uma ou duas horas mais tarde, quem passasse por perto ouviria o respirar profundo do prédio adormecido.

Maria Caiano Azevedo

sábado, 1 de agosto de 2020

EM TEMPOS DE PANDEMIA

EM TEMPOS DE PANDEMIA

Com pandemia ou sem ela o tempo decorre sem interrupções – os dias sucedem-se um ao outro e os meses seguem-lhe o exemplo.
Toda a gente sabe que, pelo menos em Portugal, o mês de Agosto é considerado como preferencial e/ou obrigatório para férias – vejamos o exemplo dos professores que só podem ter férias nesse mês.
Seguindo esta linha de pensamento… a Nanda resolveu ausentar-se para férias – espero que seguindo as regras de segurança!!!
Como ela me pregou esta partida e não me fez as suas habituais confidências (que eu partilho sempre convosco) tive de me socorrer de… férias. E, como este ano “vou para fora cá dentro”, recorri às do ano passado, que foram maravilhosas.
Vejam se não tenho razão, e tenham BOAS FÉRIAS!


quarta-feira, 1 de julho de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XXII


SEGREDOS – CAPÍTULO XXI
 “… Entretanto já trocara de roupa e, pronta para se deitar, olhou enternecida, como todas as noites fazia, para a foto dos seus dois filhos, bebés, que tinha sobre a cómoda.
Pensou no neto, no seu filho Miguel, nos tempos idos de recém casada, e adormeceu. …”

SEGREDOS – CAPÍTULO XXII
A noite foi agitada. Dormiu mal e pouco, e custou-lhe levantar-se. Só pensava “é só mais um bocadinho…” e ia retardando a hora de sair da cama.
O despertador não parava de tocar. Só lhe apetecia atirá-lo contra a parede. Mas para o fazer teria de movimentar o braço, e nem para isso sentia forças. “Não quero ir trabalhar hoje”- pensou. “Apetece-me ficar em casa, ir para a cozinha fazer um belo petisco, que não faço há tanto tempo, ouvir música, levar o Tejo a passear – também não faço isso há tanto tempo! – apanhar o vento fresco da manhã no rosto, sentir o sol a beijar-me a pele…”
“Mas porque é que aquela imbecil, nos princípios do século passado,  teve a ideia de reivindicar os direitos da mulher, a igualdade… essas tretas todas que nos obrigam a sair da cama quando a vontade é ficar aqui no quentinho? As nossas avós – as avós talvez não… mais as bisavós… -é que tinham sorte! Quais direitos da Mulher quais quê? Passavam o dia a bordar, a trocar receitas de cozinhados com as amigas, a ler bons livros, tratando das flores, educando os filhos… enfim, umas fadas do lar.
E as atenções que recebiam dos homens? “Faça favor de passar, minha senhora” – diziam, segurando a porta, ou  então, afastando a cadeira para elas se sentarem. Ofereciam flores e faziam serenatas à janela.
Que românticos, aqueles tempos!... “
De repente deu um salto na cama, olhou para o relógio e começou a barafustar. “Mas o que é que se passa comigo? A pensar disparates a estas horas da manhã? É certo que dormi muito mal de noite, mas isso não serve de desculpa para ficar na cama a pensar na morte da bezerra! Ora esta! Estou a ficar velha, é o que é. Preciso arranjar um namorado urgentemente, a ver se rejuvenesço…” – e sorriu à ideia.
À medida que se ia preparando para sair ia recuperando o habitual bom humor.
Estava a tomar o iogurte magro com granola quando a empregada chegou, sinal de que começava a estar atrasada. Depois de um cumprimento rápido saiu em passo acelerado, pois detestava chegar atrasada.
À saída encontrou no hall de entrada a sua amiga Carla, a vizinha da frente, que ia ao centro comercial fazer umas compras. Seguiram juntas.
- Então, Carla, está preparada para a festa do Carlos? – perguntou Nanda.
- A festa do Carlos? Não sei a que se refere…
- O Carlos vai dar uma festinha no próximo sábado, e convida sempre todos os vizinhos… A Carla nunca lá foi?
- Não, nunca. Mas não foi por falta de convite – respondeu Carla, rapidamente. As duas últimas festas que ele deu e para as quais me convidou, não pude ir porque, por azar, o meu marido teve de fazer serão. Como a Nanda sabe ele trabalha muito, não só na empresa mas também porque dá uma ajudinha, a nível informático, lá na Polícia. E agora que estão a informatizar tudo… não tem mãos a medir.
- Bem, eu espero que desta vez consiga ir… Mesmo que tenha de ir sozinha, é melhor que nada. Os gémeos já estão crescidinhos, pode levá-los, e, se lhes der o sono, pode pôr as cadeirinhas no quarto do Carlos. Tenho a certeza de que ele não se importa. E a Carla aproveita para se distrair um pouco…
- É tentador… Vou fazer os possíveis por ir.
Chegadas ao centro comercial separam-se. Nanda segue para a Ourivesaria e Carla para as suas compras. Estas excedem a lista que trazia daquilo que precisava, o que acontece frequentemente. Vendo que não é fácil transportar, a pé, todos os sacos, acaba por apanhar um táxi.
 Ao entrar em casa encontra o vizinho do segundo andar esquerdo, Carlos Manuel, que se apressa a ajudá-la com os sacos, saudando-a com um largo sorriso:
- Boa tarde, doutora Carla. Como está a senhora e os seus meninos?
Carla responde-lhe também com um sorriso:
- Eu estou bem, obrigada. E os meninos, traquinas como sempre… E você, bem-disposto, como é habitual…
- É verdade, doutora, é muito raro eu estar mal disposto. A vida tem de ser levada assim, não podemos deixar-nos ir abaixo, nem ter pensamentos negativos. Precisamos de ter muita energia positiva para dar apoio a quem tanto precisa de nós.
- Essa maneira de pensar é muito boa, e o resultado está à vista – o Carlos tem ocupações muito meritórias, exactamente por pôr em prática essa linha de pensamento – comentou Carla, com um misto de admiração e respeito.
- Ora, doutora, eu não faço nada que não me tenham feito a mim, noutras circunstâncias. Mas… deixemos isso de lado. Ainda bem que a encontrei, pois assim evita-me o constrangimento de lhe ir bater à porta – e o seu rosto abriu-se num sorriso luminoso.
- Não estou a ver por que isso possa ser constrangedor, mas parece que assim, cara a cara,  as coisas estão facilitadas…
- É isso, doutora, é que eu queria convidá-la para a festinha que vou dar no próximo sábado…
- Ah! A Nanda já me falou nisso, e a verdade é que fiquei cheia de vontade de ir… O problema são os gémeos.
- Mas não seja por isso. Se lhes der o sono podemos pô-los no meu quarto. Se quiser até pode pô-los na minha cama, que é muito larga, não correm o risco de cair. Então está combinado, conto consigo! E acrescenta, despedindo-se:
- Bom, tenho de ir andando, que o trabalho espera-me. Gostei de a ver, doutora.
- Eu também, Carlos. Tenha um bom resto de dia – e Carla entrou na sua casa, não se esquecendo de agradecer a ajuda que o vizinho lhe prestara com os sacos das compras.
Os dois dias que faltavam para sábado decorreram da forma habitual.
Nesse dia, de manhã, Nanda bateu à porta de Carla.
- Bom dia, Carla. Desculpe mas, quando,  há dias, falámos na festinha do Carlos, esqueci-me de referir um pormenor que, com certeza, a minha amiga desconhece…
- Sim? Pois então diga, Nanda. Os gémeos tinham chegado à porta, com as caritas lambuzadas do pequeno almoço, e olhavam para Nanda com toda a atenção. Já viu isto? Aparecerem assim à porta com estas caras todas sujas? Não têm vergonha, seus safadinhos? – repreendeu a mãe.
Nanda, fazendo-lhes uma festa nas cabecitas, respondeu:
- Com caras sujas ou com caras lavadas são sempre lindos! E acrescentou: Mas o motivo que me trouxe cá, a estas horas da manhã, é um pequeno esclarecimento acerca da festa do Carlos…
- Pois claro! Diga, diga, Nanda.
- Com certeza a amiga não sabe, mas, para estas festas, nós costumamos contribuir com qualquer coisa para petiscar… doce ou salgado, tanto faz. Bebidas é que não, pois dessa parte encarrega-se o Carlos, que tem sempre bebidas alcoólicas e sem álcool.
- Agradeço-lhe imenso ter-me avisado. Com os gémeos em casa não me é muito fácil cozinhar, mas vou ali ao Estrela comprar qualquer coisa…
- Pois, mas não esteja com a preocupação de levar coisa muito… sofisticada… É uma festinha caseira, só com os vizinhos e, normalmente, duas miúdas amigas do Carlos.
No ar reinava um agradável e  pouco usual cheiro a comida em todo o prédio, em que sobressaía o aroma a limão e canela, que se sentia vir por debaixo da porta da casa da Nanda. Ela levava sempre o seu arroz doce, uma especialidade que mais parecia um doce de ovos.
Por volta das sete da tarde todos os vizinhos se encaminharam para a  casa do Carlos, onde já se encontravam as duas amigas dele. Amélia foi das primeiras a chegar, logo seguida de Carla e Nanda, que ajudou a levar os gémeos.
Uma música suave tornava o ambiente muito acolhedor. Dispostas as comidas na mesa da cozinha, juntaram-se todos na sala.
Jorge e Rui estavam sentados em almofadas, no chão, ao lado um do outro, mas tão discretos que ninguém diria que tinham um relacionamento e viviam juntos há tantos anos.
A conversa decorria fluída, e todos participavam dando a sua opinião. As amigas de Carlos é que se mantinham mais caladas, o que era natural pois, sendo as mais novas do grupo, preferiam ouvir os mais velhos. Os gémeos circulavam pela sala, calmamente, confraternizando especialmente com as duas miúdas, Lara, de 17 anos, e Margarida, de 20. No meio da conversa ouve-se o toque da campainha.
Carlos, com um rápido e cúmplice olhar para Nanda, foi abrir a porta.
Como calculavam era António, o vizinho da frente, empunhando uma caixa com um bolo.
Cumprimentou todos com um ligeiro aceno de cabeça e um sorridente. “boa noite!”. Notava-se que se esmerara na roupa que vestia, um estilo ligeiro mas elegante, e ostentava no rosto um sorriso que não lhe era muito usual.
Ao vê-lo, Amélia deu um salto na cadeira. Mas, recompondo-se rapidamente, exclamou, olhando para Nanda:
- Acho que me esqueci de pôr o gelado no frigorífico! Quando fôssemos comê-lo estava líquido - E dirigiu-se apressadamente para a cozinha, tentando esconder o rubor que lhe coloria o rosto.
A festa decorreu animadamente. Depois de saborearem os petiscos na cozinha, Carlos colocou música de dança, e alguns começaram a mostrar as suas habilidades, enquanto outros preferiam continuar a conversar.
Amélia e António tinham decidido “dar uma trégua” e conversavam civilizadamente, sentados lado a lado no sofá. Ambos sorriam um para o outro com frequência, como pôde constatar Nanda, que os espiava pelo canto do olho.
A determinada altura Jorge e Rui pareciam estar a altercar em voz baixa. Carlos, apercebendo-se, aproximou-se e perguntou:
- Está tudo bem?
- Bem, bem, não está – apressou-se a responder Jorge. O Rui está a exagerar na bebida, mas, casmurro como é, não aceita que eu lhe chame a atenção. Vê lá se tem jeito este disparate. Lembrou-se agora que é mais velho do que eu e por isso não tenho o direito de lhe estar a pregar sermões. É o álcool a falar…
- Não vale a pena zangarem-se por tão pouco. Há tantos anos que vocês vivem juntos e nunca ninguém vos viu uma zanga… Não é agora que vão começar, com certeza. Não acredito que escolham a minha festa para o fazerem pela primeira vez…
Tudo isto se passava em tom tão baixo que, com o som da música, ninguém se tinha apercebido.
- De maneira nenhuma, Carlos. Desculpa. O Rui tem razão. Tu sabes que eu não sou de beber demais, mas o dia correu-me tão mal lá no bar que me descontrolei um pouco – Jorge falava em tom pesaroso.
_ Sem problema – respondeu Carlos. Respirem fundo que tudo passa… - colocou a mão no ombro de Jorge, num gesto amistoso.
- Se não te importas… vamos andando – acrescentou Rui. O Jorge teve um dia muito cansativo e precisa de descansar.
- Tudo bem! Vemo-nos amanhã – nem que seja só na escada – riu o anfitrião.
- Levantaram-se das almofadas, fizeram um aceno de despedida a todos os presentes e, com um afável “até amanhã” retiraram-se e desceram as escadas até ao 1º. Andar esquerdo, onde moram.
Rui meteu a chave na fechadura mas teve alguma dificuldade em fazê-la funcionar. Resmungou:
- Há muito tempo que esta fechadura devia ter sido mudada. Parece o portão de uma quinta abandonada. Range por tudo quanto é sítio.
- Não te ponhas p’r’aí com indirectas. A casa é tanto minha como tua. Tens a mania que eu é que tenho de tratar de tudo – defendeu-se Jorge.
- Não é nada disso, não sejas parvo. Mas a verdade é que tu passas muito mais tempo em casa do que eu. “Tás” te a esquecer que tenho de estar às oito no salão? E olha que, quando lá chego, muitas vezes já tenho senhoras à minha espera, pois só gostam que seja eu a penteá-las. E não te esqueças que só saio às sete da tarde… – lamuriou Rui.
- E tu “tás” te a esquecer que eu é que faço tudo cá em casa, é ou não é? – Jorge começava a ficar amuado.
- Ouve lá, e se deixássemos os dois de ser parvos? - Rui aproxima-se de Jorge e abraça-o. Lembras-te que eu te prometi uma surpresa para hoje?
- Lembro, sim, não me esqueci, mas “tava” a ver que já não havia nada p’ra ninguém – respondeu Jorge, em tom magoado.
- E alguma vez eu faltei às minhas promessas? Senta-te aí no sofá, põe-te à vontade, relaxa… e aguarda-me – disse Rui, com ar misterioso.
Foi à cozinha, abriu o frigorífico, tirou uma caixa de bombons e uma garrafa de champanhe. Colocou tudo na mesinha ao lado do sofá e foi ao louceiro buscar dois flutes.
- Sim senhor! – comentou Jorge. Isto promete…
- Ainda não viste nada – e dizendo isto Rui dirigiu-se ao quarto.
Passados alguns minutos entreabriu a porta, murmurando:
- Fecha os olhos e não os abras enquanto eu não mandar – e entrando na sala pôs o CD a tocar baixinho. Colocou-se então em frente do companheiro:
- Já podes abrir os olhos e dizer o que achas…
Jorge obedeceu, mas, mudo de espanto, encantado com a visão que lhe parecia um sonho, não conseguiu pronunciar uma palavra.
Sentiu-se como se estivesse vivendo uma história das “Mil e uma noites”, com uma sedutora odalisca movendo-se lenta e sensualmente à sua frente, causando-lhe sensações inconfessáveis...
Levantou-se a custo e abraçando Rui, emocionado, puxou-o por um braço em direcção ao quarto, murmurando-lhe ao ouvido:
- Vamos comemorar!  



Maria Caiano Azevedo  

segunda-feira, 1 de junho de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XXI


SEGREDOS – CAPÍTULO XX

“…- A madrinha aprova – respondeu Bela, com um grande sorriso. Miguel é um nome muito bonito.
Menos de um mês depois Miguel viu a luz do dia.
Embalada nestas recordações Nanda acabou por adormecer com um sorriso nos lábios…”

SEGREDOS – CAPÍTULO XXI

Depois de uma noite passada a sonhar com os tempos idos da sua juventude, enquanto tomava o seu banho e se preparava para ir trabalhar, os seus pensamentos continuaram os sonhos. Lembrava-se nitidamente da conversa com a Bela…
- Desculpa, mas não posso deixar de te fazer uma pergunta. Sei que é muito indiscreta mas não consigo descansar enquanto não ouvir a tua resposta…
- Para estares com tantos rodeios e com esse ar tão sisudo… vem aí coisa grossa… Pergunta o que tens a perguntar. Como sabes, não há perguntas indiscretas, as respostas é que podem ser – pelo menos sempre ouvi dizer isto – Nanda tentava aliviar a tensão  que sentia na amiga.
- Então, aí vai. Tu casares-te com o Tó Zé foi para mim uma surpresa enorme, pois até há pouco tempo eu sabia-te apaixonada pelo Alessandro…
- Na vida tudo muda, minha querida, especialmente os sentimentos.
- Claro que sim! Mas… entre vós, tu e o teu marido, existe amor?
- O amor pode revestir-se das mais estranhas e diversas formas. O que nos une, a ti e a mim, por exemplo, não é amor?
- Evidentemente que sim! – apressou-se a responder Bela -  Não tenho a mínima dúvida a esse respeito. Mas… é diferente, nós sempre nos amámos, desde crianças. Tu e o Tó Zé sempre foram grandes amigos, mas apenas isso. Inclusivamente, o teu “grande amor” era o Alessandro.
- Volto a repetir-te que os sentimentos não são imutáveis. Eu aprendi a amar o Tó Zé, transformei a grande amizade que sentia por ele em amor. E ele… tu sabes… sempre foi apaixonado por mim.
- Está tudo muito certo mas… desculpa-me se sou demasiado insistente, faz-me confusão como é que esqueceste o Alessandro com essa facilidade toda. Tu eras tão apaixonada por ele…
- E tu já me ouviste dizer que esqueci o Alessandro? Não, não o esqueci e, provavelmente, nunca o vou esquecer – e pensou para si mesma “como poderia esquecê-lo se tenho um filho dele?”
Apenas decidi arrumá-lo muito bem num cantinho do coração, onde ninguém entra, pois cheguei à conclusão de que nunca mais vou vê-lo, e a minha vida tinha de seguir em frente. Não podia viver de recordações…
- Nisso tens toda a razão – concordou Bela. Por vezes somos forçadas a fazer coisas que, não sendo do nosso total agrado, são o melhor para tranquilidade de todos…
Nanda estranhou o tom em que a amiga falou, assim como o seu semblante. Tinha adoptado um ar meio ausente e com alguma tristeza.
De resto, desde que  Bela regressara, ela achava a amiga diferente, não sabia bem dizer porquê, mas qualquer coisa nela se alterara. Parecia que tinha amadurecido, como se tivessem passado muitos anos. Mas não disse nada disto, pelo contrário, tentou aligeirar a conversa:
- Olha para nós! Com menos de vinte anos e parecemos umas velhas!
- Tens toda a razão! Vamos mudar de assunto. Como tem sido na Faculdade?
- Oh! Muito mau, tenho faltado imenso, por causa da gravidez e consequentes enjoos. Estou convencida que vai ser um ano perdido…
- Sabes uma coisa? – respondeu Bela. Não te preocupes, voltas a ficar a par comigo, já que, para mim, mais de metade das aulas foram ao ar… No próximo ano voltaremos a ser colegas e poderemos matar as saudades do tempo do liceu.
- A ideia até que me agrada… embora as coisas agora sejam totalmente diferentes. Com a chegada do teu afilhado … o trabalho vai redobrar.
- Eu ajudo-te, não te preocupes – Bela juntou às suas palavras um sorriso luminoso.
O ruído da chave a abrir a porta da rua interrompeu os pensamentos de Nanda. Era a empregada, que ia todos os dias tratar do Tejo, levando-o a passear de manhã e à tarde. Além disso ia lá um dia completo, por semana, para as limpezas e tratamento das roupas.
“Agora, com o ordenado que tenho, não se justificava ter de me sacrificar e levantar-me cedíssimo para passear o Tejo, e à noite fazê-lo já com as luzes acesas. Também mereço umas certas mordomias, depois de tantas horas na loja “ – pensava, enquanto se dirigia ao centro comercial para cumprir mais um dia de trabalho.
Na ourivesaria tudo corria bem. O engenheiro Araújo mostrava-se muito satisfeito com os resultados obtidos. Passava por lá de vez em quando, examinava as contas, e mostrava o seu reconhecimento pelo bom trabalho das funcionárias, agradecendo-lhes. Quanto a Nanda, muitas vezes convidava-a para almoçar. Era sempre ela que tinha de lembrar que “os horários são para cumprir”, porque ele adorava conversar com ela, e esquecia-se das horas.
- Tem razão, já estamos aqui há bastante tempo, e o seu patrão pode descontar-lhe no ordenado os minutos de atraso – brincava ele.
- Ele talvez não faça isso – Nanda entrava na brincadeira. Mas sujeito-me a apanhar um bom raspanete da gerente…
O ambiente entre ambos continuava muito bom, não exactamente como entre patrão e empregada, mas como se de dois amigos se tratasse. Nanda sentia-se grata, não só porque o ordenado que auferia era muitíssimo bom, mas também porque Araújo estava sempre a pô-la à vontade para se ausentar da loja quando precisasse. Por seu lado, ele também lhe era reconhecido pela dedicação com que ela se entregava às suas tarefas, tratando dos assuntos da ourivesaria como se esta lhe pertencesse.
Terminado o dia de trabalho, passou pelo café Estrela, perto de sua casa, e comeu uma torrada acompanhando-a com um chá de camomila; não se sentia com coragem para ir, ainda, fazer jantar.
Ao entrar em casa encontrou, preparando-se para subir a escada, o seu vizinho do segundo andar direito, Carlos Manuel. É um homem de 27 anos, altíssimo - deve ter pouco menos de dois metros de altura – negro, com o cabelo completamente rapado, muito boa figura, duma simpatia enorme.
Ao aperceber-se da entrada de Nanda voltou-se para a cumprimentar.
- Boa noite, D. Nanda. Como está a senhora?
Seria difícil imaginar que de um homenzarrão como Carlos saísse uma voz tão suave.
Apresenta-se impecavelmente vestido com calças e blusão pretos e uma t-shirt branca, pois vem a chegar do trabalho, um restaurante onde exerce as funções de cozinheiro chefe.
Nanda gosta muito dele. Responde com um sorriso:
- Tudo bem, Carlos. E consigo, como vão as coisas?
- Oh, sempre igual. Entre Bombeiros e “sem abrigo” o tempo passa veloz. Às vezes vejo-me aflito para conseguir cozinhar – responde, sorridente, em ar de brincadeira.
- Isso é que não pode ser… Os seus cozinhados fazem muita falta, pois são deliciosos.
- Eu falei por brincadeira, mas sabe, D. Nanda? Às vezes custa-me fazer comida tão requintada, para, no fim, só ser acessível a pessoas com um nível económico bem confortável. Depois, ver aqueles “sem abrigo” passando tantas necessidades… é confrangedor.
- Acredito que lhe custe, sofre com a dor dos outros… Mas não podemos remediar essa situação, não está nas nossas mãos, e o que o Carlos faz, dando-lhes todo o apoio possível, é muito louvável, e demonstra o seu bom coração.
- Oh, D. Nanda, o que eu faço não é nada comparado com as dificuldades deles.
- Não é nada… é o que você diz, mas  não é verdade. Isso a juntar ao facto de ser bombeiro voluntário faz de si uma boa pessoa. Mas, como não quero envergonhá-lo – sei que não gosta que lhe ponham as virtudes a nu – vou mudar de assunto. Há muito tempo que não ouço as suas canções…
Carlos gosta muito de cantar. Como só vai para o restaurante por volta das onze horas, muitas vezes ouve-se no prédio a sua linda voz tendo como fundo música apenas instrumental, que ele acompanha, com todo o entusiasmo. Isto provoca alguma animosidade e uma certa inveja em António, seu vizinho do lado, que também gosta muito de cantar, o que faz muitas vezes, com a sua bela voz de barítono. Mas não tem qualquer razão para invejar Carlos que, embora cante num grupo coral, não tem a voz potente e educada de António.
Ao ouvir Nanda referir-se às suas “cantorias” – como ele próprio se refere às suas canções – ele deu uma gargalhada.
- Ultimamente não tenho estado muito tempo em casa. Arranjei aí um trabalhito para fazer de manhã, por isso saio de casa muito cedo. Mas olhe, tenho de recomeçar com as minhas festas, tão habituais neste prédio. Estou a pensar numa festinha no próximo sábado, e fica já o convite feito. Conto consigo! Vou também convidar a Amélia, como de costume, e, desta vez, vou acrescentar uma pessoa – o António, o meu vizinho da frente.
- Ai meu Deus! A Amélia e o António juntos? – exclamou Nanda, com assombro, e baixando a voz. Não sei, não… Aproximar a palha do fogo, pode causar incêndio – ambos riram, coniventes.
No prédio todos conheciam as querelas entre Amélia e António, o que os fazia rir, pois não os levavam a sério. Demais sabiam eles que aquelas escaramuças escondiam uma atracção que só mesmo eles não queriam admitir publicamente.
Carlos despediu-se com a recomendação “não marque nada para o próximo sábado, D. Nanda, olhe que não faço a festa sem a sua presença”, o que provocou nela um sorriso bem disposto.
O Tejo recebeu-a com efusivos ganidos de satisfação, como era habitual. Tinha uma verdadeira adoração pela sua dona, que lhe retribuía com muito amor.
Nanda encaminhou-se para o quarto. Só então se apercebeu verdadeiramente do cansaço que tinha. “Parece-me que os anos estão a começar a fazer sentir os seus efeitos. Acho que vou ter de me convencer que já não tenho vinte anos e preciso ir doseando o esforço. Afinal, tendo um Araújo por patrão – sorriu involuntariamente – posso bem meter uma folgazinha de vez em quando. É mesmo isso que vou começar a fazer”.
Entretanto já trocara de roupa e, pronta para se deitar, olhou enternecida, como todas as noites fazia, para a foto dos seus dois filhos, bebés, que tinha sobre a cómoda.
Pensou no neto, no seu filho Miguel, nos tempos idos de recém casada, em Alessandro, e adormeceu tranquilamente.

Maria Caiano Azevedo