domingo, 24 de abril de 2011

FELIZ PASCOA

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PÔNCIO PILATOS



Dos Ritos e Cultos Orientais

Minha mulher me falara Dele muitas vezes, antes que Ele fosse trazido diante de mim, mas eu não estava interessado.
Minha mulher é uma sonhadora, e é dada, como muitas mulheres romanas de sua classe, aos cultos e ritos orientais. E esses cultos são perigosos para o Império; e quando encontram um caminho para o coração das mulheres, tornam-se destruidores.
O Egipto chegou ao fim quando os hicsos** da Arábia lhe trouxeram o Deus único de seu deserto. E a Grécia foi submetida e reduzida a pó quando Astarté e suas sete virgens vieram das praias da Síria.
Quanto a Jesus, eu nunca vira o homem antes de me ser Ele trazido como um malfeitor, como um inimigo de Sua própria nação e de Roma.
Foi trazido ao Pretório do Juízo com os braços amarrados ao corpo por umas cordas.
Eu estava sentado na curul*, e Ele caminhou para mim com passos largos e firmes; depois, postou-se ereto, com a cabeça erguida.
E não posso compreender o que me salteou naquele momento; mas foi de súbito meu desejo embora não minha vontade, levantar-me e descer daquela curul* e cair diante Dele.
Senti como se César tivesse entrado no Pretório, um homem maior ainda do que a própria Roma.
Mas isto durou apenas um momento. E depois vi simplesmente um homem que era acusado de traição por Seu próprio povo.
Interroguei-O, mas Ele não respondeu. Apenas olhou para mim. E em seu olhar havia piedade, como se Ele é quem fosse meu governador e meu juiz.
Depois, ergueram-se de fora os gritos do povo. Mas Ele permaneceu silencioso, e continuava a olhar para mim com piedade nos olhos.
Então saí para os degraus do palácio, e quando o povo me viu, parou de gritar. E eu disse: “Que quereis com esse homem?”
E eles bradaram como por uma garganta só: “Queremos crucificá-Lo. É nosso inimigo e o inimigo de Roma.”
E alguns gritaram: Não disse Ele que destruiria o templo? E não foi Ele quem reclamou o reino? Não temos rei senão César.”
Deixei-os e voltei para o Pretório do Juízo, e vi-O ainda de pé ali sozinho, e Sua cabeça estava ainda erguida.
E lembrei-me de que tinha lido que um filósofo grego dissera: “O homem solitário é o mais forte.” Naquele momento, o Nazareno era maior do que a Sua raça.
E não senti clemência para com Ele. Ele estava além de minha clemência.
E perguntei-Lhe: És tu o rei dos judeus?
E Ele não disse uma palavra.
E perguntei-Lhe novamente: “Não disseste que és o rei dos judeus?”
E Ele olhou para mim.
E respondeu com uma voz tranquila: “Tu mesmo me proclamaste rei. Talvez eu tenha nascido para tal fim, e por essa causa vim dar testemunho da verdade.”

Imaginai um homem falando da verdade em tal momento!
Em minha impaciência, falei alto, talvez tanto para mim mesmo como para Ele: “Que é a verdade? E que representa a verdade para o inocente quando a mão do carrasco já está sobre ele?”
Então Jesus disse com poder: “Ninguém governará o mundo senão com o Espírito e a verdade.”
E perguntei-Lhe, dizendo: “És tu do Espírito?”
Ele respondeu: “Assim também o és, embora não o saibas.”
E que era o Espírito e que era a verdade, quando eu, pelo bem do Estado, e eles, por zelo pelos seus ritos antigos, entregamos um homem inocente à morte?
Nenhum homem, nenhuma raça, nenhum império se deixará deter por uma verdade em seu caminho, para se realizar.
Eu disse novamente: “És o rei dos judeus?”
E Ele respondeu: “Tu mesmo o disseste. Eu conquistei o mundo antes desta hora.”
E só isso, de tudo o que Ele disse, era impróprio, porquanto somente Roma conquistou o mundo.
Mas agora as vozes do povo levantavam-se novamente e o barulho era maior do que antes.
E desci de meu acento e disse-Lhe: “Segue-me.”
E novamente apareci sobre os degraus do palácio, e Ele postou-se a meu lado.
Quando o povo O viu, bramiu como o trovão rugidor. E em seu clamor, eu só ouvia: “Crucificai-O! Crucificai-O!”
Então, entreguei-O aos sacerdotes que mo tinham trazido e disse-lhes: “Fazei o que quiserdes com este justo. E se for de vosso desejo, tomai soldados de Roma para guardá-Lo.”
E eles O tomaram, e eu decretei que fosse escrito na cruz, acima de Sua cabeça: “Jesus de Nazaré, rei dos judeus.” Podia, em vez disto, ter posto: “Jesus de Nazaré, um rei.”
E o homem Foi despido, e flagelado, e crucificado.
Ter-me-ia sido possível salvá-Lo, mas salvá-Lo teria provocado uma revolução; e é sempre sábio para o governador de uma província romana não ser intolerante com os escrúpulos religiosos de uma raça conquistada.
Creio, até esta hora, que o homem era mais do que um agitador.
O que decretei, não foi de minha vontade, mas antes pelo bem de Roma.
Não muito depois, deixamos a Síria, e desde esse dia minha esposa se tornou uma mulher de tristeza. Algumas vezes, mesmo aqui neste jardim, vejo uma tragédia em sua face.
Dizem-me que ela fala muito de Jesus às outras mulheres de Roma.
Vede, o homem cuja morte decretei volta do mundo das sombras e entra em minha própria casa.
E, dentro de mim, repito sempre a mesma pergunta: O que é a verdade e o que não é a verdade? Pode dar-se o caso de que o sírio nos esteja conquistando nas horas quietas da noite?
Isto não deve acontecer.
Porque Roma precisa prevalecer contra os pesadelos de nossas esposas.

Gibran Khalil Gibran

*cadeira de marfim reservada outrora a certos magistrados romanos.

**hicsos - foram um povo asiático que invadiu a região oriental do Delta do Nilo durante a décima segunda dinastia do Egito, iniciando o Segundo Período Intermediário da história do Antigo Egito.
Inf. Wikipedia




GIBRAN KAHLIL GIBRAN foi um ilustre poeta libanês, filósofo e artista.
Nasceu em 6 de Dezembro de 1883 em Bsharri, nas montanhas do Líbano, a uma pequena distância dos cedros milenares.
Sua fama e sua influência se derramaram por todo o mundo.
Suas reflexões e sua poesia foram traduzidas para mais de vinte idiomas, e seus desenhos e pinturas são expostos em grandes cidades do mundo.
Faleceu em 10 de Abril de 1931 no Hospital São Vicente, em Nova York, no decorrer de uma crise pulmonar que o deixara inconsciente.

domingo, 17 de abril de 2011

DOMINGO DE RAMOS




O Domingo de Ramos é o domingo imediatamente anterior ao Domingo de Páscoa, e dá início à Semana Santa.
Deve o seu nome à memória litúrgica da entrada solene de Jesus em Jerusalém. Montado num jumentinho, em sinal de humildade,




Ele dirigia-se àquela cidade para ali celebrar a Páscoa.

À chegada, Jesus é aclamado pelo povo, que, agitando folhas de palmeira, e cantando “Hossana ao Filho de Davi!", o aplaude como “Aquele que vem em nome do Senhor”, e o recebe como um rei.
Será este mesmo povo que, na sexta feira santa, irá pedir a Pilatos a sua crucificação.
Assim é a inconstância, a volubilidade do Homem de pouca fé.

A Missa de Domingo de Ramos foi chamada, em tempos, de “Missa seca” porque nela não havia comunhão – consagração do pão e do vinho.

Uma das tradições mais populares em Portugal consiste na “benção dos ramos” ou dos “palmitos” – prática generalizada entre os povos católicos.
Por vezes os ramos, feitos com folhas de palmeira, raminhos de pliveira, alecrim e rosmaninho, e flores como camélias e outras, atados com fitas de cor, são benzidos de véspera, e levados, no dia seguinte, para a missa; outros são benzidos antes de começar a Missa de Ramos.




(Bênção dos ramos - Igreja de S.Francisco-Armação de Pera-Algarve)

Esses ramos são depois guardados em casa durante todo o ano; nalgumas aldeias e vilas ainda se conserva o costume de dependurar os ramos à cabeceira da cama para “proteger dos maus ares”. É também costume colocá-los na sala, junto de uma imagem religiosa ou crucifixo, para receber o “Compasso” durante a visita pascal.
Na Beira Baixa, há um costume muito peculiar: junto com os ramos leva-se à igreja um pão, para ser benzido antes da missa. A crença popular atribuia-lhe poderes divinos e profiláticos.
Ainda hoje, mais ou menos por todo o país, se mantém o costume de queimar algumas folhas do “ramo bento” para afastar as trovoadas. Com o mesmo intuito colocam-se raminhos de oliveira sobre as janelas e portas, e dá-se aos animais um pedacinho do “pão bento”.
As palmas e os ramos que ficam nas igrejas são queimados neste dia e as suas cinzas, guardadas na sacristia, servem para impor o Sinal da Cruz na fronte dos fieis na Missa de Cinzas do ano seguinte.

São comuns as procissões do Domingo de Ramos, em que os fiéis levam consigo ramos de oliveira ou palmeira.
Consta que esta procissão terá surgido depois de um grupo de cristãos da Etéria ter feito uma peregrinação a Jerusalém e, no regresso, ter procedido, na sua região, da mesma forma que o havia feito nos lugares santos, lembrando os momentos da Semana Santa.
O costume foi-se alargando gradualmente a outros lugares e, no final da Idade Média, foi incorporado aos rituais da Semana Santa.

O Domingo de Ramos teve outros nomes, como, por exemplo, os nomes latinos de “Pascha Floridum”; “Pascha Florum” ou “Dies Floridus”, sendo que todos eles têm o mesmo significado: Páscoa das Flores ou, como é o caso do último, Dia das Flores. Isto porque, como ainda hoje acontece em algumas localidades, palmas e ramos de árvores enfeitados com flores são abençoados durante a Procissão dos Ramos.

Outro nome, usado na Idade Média foi “Dominica Hossana” por causa das antífonas (resposta, em geral cantada em canto gregoriano a um salmo ou a outra parte da liturgia) que eram cantadas durante a Bênção de Ramos e mesmo durante a procissão dos ramos. As antífonas tinham o refrão “Hossana ao filho de Davi”.

Chamava-se ainda de “Dies indulgentiae” pois neste dia, no tempo em que na Igreja havia a prática da penitência pública, eram anunciados os nomes dos pecadores públicos que seriam reconciliados com a Igreja na Páscoa.

O sentido da festa do Domingo de Ramos tratar tanto da entrada triunfal de Cristo em Jerusalém, e depois recordar sua Paixão, é que essas duas datas estão intrinsecamente unidas. A Igreja recorda que o mesmo Cristo que foi aclamado como Rei pela multidão no Domingo, é crucificado sob o pedido da mesma multidão na Sexta. Assim, o Domingo de Ramos é um resumo dos acontecimentos da Semana Santa, e também sua solene abertura. (Inf. Wikipedia)

A seguir veja o vídeo que escolhi para este dia

domingo, 10 de abril de 2011

FUGA DO PARAÍSO

Há dois ou três anos, encontrando-me de férias em Espanha, ao folhear uma revista espanhola do hotel, li uma reportagem que achei extraordinária.


Ainda tentei comprar uma revista igual mas não consegui encontrar. Decidi então tomar apontamentos, o mais detalhadamente possível, e trouxe-os comigo. Esqueci por completo o assunto.
Há dias, ao mexer numas papeladas, encontrei-os. Procurei e descobri fotos na Net, para documentar, e compus a história. Partilho-a convosco.


Em 20 de Março de 1991 largava de uma base aérea cubana o comandante Orestes Lorenzo




num “caça MIG-23”, o avião mais moderno da Força Aérea Cubana.
A toda a velocidade e a baixa altitude atravessou, em menos de 10 minutos, os 150 quilómetros que separam Cuba dos Estados Unidos.

Como voava quase rente à água nem os radares cubanos nem os norte americanos se aperceberam da sua presença.

Orestes pode aterrar sem problemas na base aeronaval de Boca Chica, na Florida. Ali pediu asilo político e, depois de submetido a interrogatórios, recebeu o estatuto de refugiado político.

A deserção de Orestes Lorenzo foi uma bofetada no regime castrista. O comandante Lorenzo era um dos pilotos de elite da Força Aérea. Veterano da Guerra de Angola, tinha efectuado dois períodos de treinamento na União Soviética.
Foi durante o último destes períodos, já com a “perestroika” de Gorbachov em marcha, que Orestes começou a questionar o regime comunista e a sua vida em Cuba. Na União Soviética começavam a soprar os ventos da Liberdade.
No regresso começou a planear a sua deserção com a esperança de que, uma vez nos Estados Unidos, a sua mulher, Victória, e os seus dois filhos pudessem juntar-se a ele.
Depois da fuga no avião, e na qualidade de refugiado, pediu a saída da sua família da ilha, mas deparou-se com a recusa de Raul Castro, à data Comandante das Forças Armadas.
Castro de maneira nenhuma permitiria a saída de Cuba da família dum militar de elite que havia atraiçoado a confiança que nele tinham depositado, e havia posto a ridículo o regime.


Orestes recorreu à Comissão de Direitos Humanos da ONU, sem qualquer resultado. Coincidindo com a cimeira ibero-americana celebrada em Madrid em 1992, com a presença de Fidel Castro, começou um protesto às portas do Parque del Retiro.
A rainha Sofia




empenhou-se pessoalmente, junto de Fidel, para conseguir a saída de Victória e seus filhos de Cuba. Inclusivamente, o assunto foi a despacho a Mijaíl Gorbachov.
Tudo foi em vão. Raul Castro, por intermédio de seu ajudante pessoal, fez chegar a sua resposta a Victória:
- Diga ao seu marido que, se teve cojones para desviar um avião, que os tenha também para vir buscar-vos pessoalmente.
Orestes chegou a publicar uma “carta aberta” a Fidel Castro no "Wall Street Journal", na qual se propunha apresentar-se em tribunal em Cuba se ele permitisse que a sua mulher e os seus filhos viajassem para os Estados Unidos. Não obteve resposta.

Ante as escassas perspectivas das demarches internacionais, o ex militar cubano começou a entrar em desespero.
Decidiu então que, se não obtinha êxito a bem iria ele mesmo buscar a sua família a Cuba.
Conhecia os aviões russos, mas tinha que treinar-se nos modelos convencionais ocidentais.



Em pouco tempo conseguiu o brevet de piloto desportivo e, com 30.000 dólares emprestados por uma organização humanitária de exilados cubanos, comprou uma velha avioneta bimotor “Cessna 310” em bom estado.
Por intermédio de duas amigas mexicanas que foram a Cuba, fez chegar secretamente à sua família a data, o lugar e a hora exacta onde deviam esperá-lo para o resgate que tinha planeado.
O dia escolhido foi 19 de Dezembro às cinco da tarde.
Largou de um pequeno aeroclube nos arredores de Miami, advertindo que, se não regressasse no prazo de duas horas, o considerassem morto.
Voando a muito baixa altitude (2 metros sobre o oceano) para evitar os radares, a avioneta aproximou-se da ilha ao entardecer e dirigiu-se à estreita estrada em frente à praia El Mamey, muito perto de Varadero, a cerca de 150 quilómetros a Este de Havana.

Imediatamente a sua mulher e filhos, que esperavam na estrada, conforme combinado, escutaram o ronco do motor e viram o aparelho.

O que Lorenzo não tinha previsto, no seu minucioso plano, era que a estrada, àquela hora, estivesse com trânsito. O cenário não podia ser pior: no troço escolhido para a aterragem circulavam um carro, um tractor, um autocarro com turistas, e uma gigantesca pedra encontrava-se no meio da via.
Balançando as asas o piloto quase roçou o tecto do automóvel, tocou em terra e deteve-se a uns 8 metros do autocarro com turistas, petrificados nos seus assentos e com os olhos a ponto de lhes saírem das órbitas.

Quase dois anos depois da separação Lorenzo viu aparecer a sua família correndo em frente ao avião.

Na estrada, Alexandre, o menino mais novo, perdeu um sapato. Para evitar um acidente com as hélices e preparar a descolagem, Orestes inverteu a direcção do avião e abriu a portinhola da cabine. Tudo em menos de um minuto.
Orestes conseguiu descolar, mas dentro do avião o medo paralisava os seus ocupantes.

Victória não despegava os olhos do céu, temendo que aparecessem os caças cubanos. Rezava.
Os meninos estavam assustados, confusos, choravam.
Só quando a avioneta ultrapassou o paralelo 24, limite do espaço aéreo de Cuba, a tensão baixou.
Quase uma hora mais tarde a avioneta aterrava de volta à Florida.




O alvoroço mediático que causou a façanha de Orestes foi tremendo, já que, pela segunda vez, tinha ridicularizado o regime castrista.
Na primeira conferência de imprensa disse:
- Digam a Raul castro que lhe peguei na palavra e fui pessoalmente buscar a minha família.



Presentemente Orestes é um próspero empresário que dirige a sua própria empresa de construção em Miami, algo que em Cuba jamais poderia ter feito.

domingo, 3 de abril de 2011

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE



(Este texto foi publicado há três anos; é, portanto, uma reedição [com ligeiras alterações] )

FALAR PORTUGUÊS

NÓS É QUE OS ENSINÁMOS

Uns dias melhor, outros pior, o tempo vai-se passando, nesta cidade que poderia ser o paraíso.
Há até um simpático impala que diversas vezes vem visitar o meu jardim. Caminha calmamente. Através da janela aberta olha para dentro da sala. Em seguida examina o jardim. Terminada a inspecção retira-se tão tranquilamente como chegou.


(Foto minha - no meu jardim)

Contudo, temos sempre presente o que se passa lá para o norte, na chamada «zona de intervenção».
Mas, entre um e outro sobressalto, a vida continua, e todos temos deveres a cumprir.
Lá mais para o sul há empregadas domésticas, mulheres que vão trabalhar às casas dos “brancos”
Aqui, não. São homens que fazem esses serviços. A troco de um salário estabelecido e comida, às vezes também dormida, executam as tarefas domésticas que normalmente são atribuídas às mulheres: cozinham, lavam e engomam a roupa, limpam a casa.
São homens, adultos, muitas vezes casados, ou jovens que rondam os vinte anos.
Há casos em que se tem um adulto para cozinhar e tratar das roupas, e um mais jovem para limpar a casa.
Há ainda uns garotos, (normalmente rapazes, embora por vezes apareçam meninas), que muitas vezes nos batem à porta perguntando:
Senhora precisa miúdo?
São meninos pobres que não têm o que comer em suas casas, e bem cedo começam a lutar pela subsistência.
Dá-se-lhes comida, dormida e roupas (geralmente só têm a que trazem no corpo, e em muito mau estado), e, em troca, eles brincam com as nossas crianças, vigiando para que nada de mal lhes aconteça.


São crianças sombras de crianças. Só se vão deitar depois que os meninos vão para a cama, o que, aqui, acontece bastante cedo.
Todos falam português. Os “miúdos”, por vezes não sabem muito, mas é o bastante para se fazerem entender. E como a linguagem das crianças é universal, conseguem estabelecer longas conversas com as nossas crianças, nas suas brincadeiras.
Na minha casa, para além do miúdo, há um cozinheiro e um rapaz, o Albino, que trata da limpeza da casa e serve à mesa.
Não sei bem a idade de um e de outro. Não é nada fácil calcular. (Tratando-se de pessoas bem avançadas na idade, já de carapinha branca, torna-se ainda mais difícil. E se perguntamos a uma dessas pessoas quantos anos tem, a resposta é sempre: - Não sei, senhora. Tenho muitos!)
O Albino aparenta dezoito a vinte anos. É um rapaz já com prática de trabalho, que me foi recomendado por uma amiga.
Cumpridor dos seus deveres, pouco falador, vai desempenhando bem as suas funções.
Embora fale o indispensável de português para se fazer entender, por vezes não compreende muito bem o que se lhe diz.
Há dias estávamos a almoçar e eu pedi-lhe que fosse buscar água ao frigorífico, pois tinha-se esquecido de a pôr na mesa. Dirigiu-se à cozinha, ouvi-o abrir a porta do frigorífico, mas não aparecia com a água. Depois de esperar uns minutos, chamei-o. Apresentou-se sem nada nas mãos. Perguntei-lhe:
- Então???
Respondeu-me:
- Não encontro, senhora.
- Não encontras o quê???
- Não sabe, senhora…
Calculo que fosse bastante difícil encontrar uma coisa que ele próprio não sabia o que era!...

Cenas como esta acontecem de vez em quando. Nós ensinámos-lhes a nossa língua, mas não todas as palavras, com certeza. No entanto há certos vocábulos que toda a gente aprende muito facilmente.
Todos os dias, a meio da manhã, o Albino pede me para ir tratar das suas necessidades fisiológicas.
- Senhora, pode ir no mato?
- Podes sim, vai lá no mato.
E ele vai. E volta.
Um dia o Albino “foi no mato” mas, contra o costume, demorou-se muito tempo. Eu já pensava: encontrou algum conhecido e ficou à conversa. Quando finalmente apareceu, achei que deveria fazer-lhe um reparo:
- Meu Deus, Albino, demoraste tanto tempo para ir no mato!
Resposta pronta:
- Senhora, não pode ir ca**r aqui no pé de casa !
Engoli em seco, e dei a conversa por terminada.

Quando o Albino veio para minha casa eu não sabia praticamente nada a seu respeito, a não ser que era de confiança. E tanto me bastava. Cerca de um mês depois de estar ao meu serviço, um dia resolvi meter conversa com ele, e perguntei-lhe:
- Albino, tu és casado?
- Não, senhora, ainda sou menino.
- E porque não te casas?
- Porque as mulheres da cidade são todas p*t**.

Também desta vez engoli em seco, e encerrei o assunto.
E jurei a mim mesma não voltar a fazer perguntas indiscretas!

Eles apenas repetem as palavras que lhes ensinámos.

domingo, 27 de março de 2011

CENAS DA VIDA REAL

AS CALCINHAS DA MARIA EUGÉNIA



Maria Eugénia era um doce de pessoa!
Sempre com um sorriso no rosto a todos acolhia com carinho e ternura, pronta a proporcionar todo o auxílio a quem dele necessitasse, simplesmente dar um conselho ou oferecer um ombro amigo para um eventual derrame de lágrimas.
Tendo sido uma alegre bebé gorducha, transformou-se numa adolescente rechonchudinha e, mais tarde, numa jovem de formas redondinhas.
Sem qualquer complexo em relação ao seu aspecto um pouco “anafado”, quando alguém lhe dizia que talvez devesse perder um pouquinho de peso, respondia alegremente:
- Gordura é formosura.
Atingiu assim os dezoito anos, sempre alegre e feliz.
Em breve conheceu um jovem, António, com quem simpatizou bastante e que a cortejou.
Tratava-se dum rapaz com muito boa aparência e bem instalado na vida, que, com a aprovação da família, começou a namorar a Maria Eugénia.
Decorridos três ou quatro anos de namoro, o tempo que naquela altura se considerava normal, realizou-se o casamento.
As “amigas” achavam que, tratando-se de um rapaz tão bonito, bem poderia escolher noiva mais apresentável. Não que Maria Eugénia fosse feia, pois tinha um rosto muito bonito; mas não devia nada à elegância.
O que as “amigas” não sabiam era que, o que tinha prendido António era o enorme coração de Maria Eugénia, ao qual se rendera incondicionalmente.
Foram felizes até ao fim dos seus dias.
António trabalhava com importações de tecidos finos (sedas, veludos, tules…) o que, naquela época, contribuía para engrossar a sua conta bancária.
Mais tarde abriu uma loja onde vendia vestidos para noivas e acompanhantes, costurados nas traseiras da loja, onde montara uma pequena fabriqueta.
Com o tempo, e com o seu dom especial para os negócios, em breve abria mais lojas e montava uma fábrica de confecção a sério.
Neste tipo de trabalho em que se ocupava António, a sua clientela era sobretudo feminina. E porque ele era de facto um homem muito atraente, a quem o casamento fizera aumentar os atributos físicos, as suas clientes não raras vezes tentavam insinuar-se junto dele. Porém António, com um sorriso constante nos lábios, contornava a situação conseguindo manter-se fiel ao casamento. Não perdia a cliente e não traía Maria Eugénia.
Por vezes, despeitadas, e porque conheciam Maria Eugénia, quando a encontravam tentavam intrigar, insinuando que António fora visto aqui e ali, em companhias mais que suspeitas.
Maria Eugénia ouvia-as com toda a atenção e delicadeza, próprias da sua maneira de ser, e no fim, esboçando o maior sorriso que podia ostentar, respondia:
- Ora! O que é que isso importa? Depois de lavado fica como novo!
E assim desarmava as “amigas de Peniche”.

Maria Eugénia teve dois filhos, que eram o encantamento dos pais.
As duas gestações não favoreceram nada o físico de Maria Eugénia que apresentava agora umas formas mais redondas ainda.
Isso não parecia preocupá-la minimamente, e a sua felicidade familiar era completa.
Com o desenvolvimento dos negócios António arranjou clientes na Madeira e Açores, os quais visitava no princípio das estações, levando-lhes mostruários das suas colecções de tecidos e figurinos dos vestidos de noiva.
Enquanto as crianças foram pequenas António viajava sozinho porque Maria Eugénia, mãe extremosa, não os queria deixar entregues às criadas.
Porém, quando eles já eram mais crescidos, e porque tinham sido educados segundo valores éticos responsáveis, Maria Eugénia começou a acompanhar o marido.
Numa dessas viagens à Madeira quando chegaram ao hotel e se instalaram no quarto, Maria Eugénia verificou, horrorizada, que se tinha esquecido de meter calcinhas na mala. Ficou aflita.
As estadias, tanto na Madeira como nos Açores, demoravam sempre duas semanas e eram feitas entre fins de Janeiro princípios de Março.
Seria impensável andar todas as noites a lavar as calcinhas, até porque era inverno e o mais provável seria não secarem durante a noite.
O marido, que entretanto ficara à conversa com um conhecido no hall do hotel, foi encontrá-la bastante contrariada. Mas logo encontrou solução:
- Depois de almoço, quando eu for visitar o cliente “X”, tu aproveitas o tempo, vais às lojas e compras todas as calcinhas que achares necessárias.
Maria Eugénia respirou aliviada. No meio da aflição e aborrecimento por se ter esquecido duma coisa tão básica, nem lhe ocorrera uma solução tão simples.
Tal como combinado, de tarde Maria Eugénia pôs-se em campo à procura de lojas de lingerie. Entrou na primeira que encontrou onde um amável senhor a cumprimentou com um sorriso.
Quando Maria Eugénia lhe disse o que pretendia o senhor perguntou-lhe qual o número que ela queria, coisa que ela disse desconhecer. E acrescentou:
- São para mim.
O senhor mirou-a com toda a atenção, como que a tirar-lhe as medidas. Voltou-se e retirou da prateleira uma caixa de calcinhas. E disse, olhando-a novamente.
- Penso que este tamanho deve estar bem, e até lhe dá até ao fim do tempo (gravidez).
Maria Eugénia engoliu em seco, pagou e retirou-se.
À noite, ao contar ao marido o sucedido, com uma gargalhada ela comentou:
- Ainda bem que ele pensou que eu estava grávida. É bem melhor do que pensar que a minha gordura é simplesmente gordura.


domingo, 20 de março de 2011

A SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA

(A Primavera – Botticcelli)

Para assinalar o início da Primavera ocorre-me falar-vos um pouco sobre uma obra musical associada a esta estação do ano, cujos acordes foram objecto de grande discórdia no passado século XX, mas que, apesar de tudo, é ainda considerada uma obra prima no campo musical.

A «Sagração da Primavera», também conhecida pelo seu título em Francês "Le Sacre du Printemps" é um ballet em dois atos que conta a história da imolação de uma jovem que deve ser sacrificada como oferenda ao deus da primavera num ritual primitivo, a fim de trazer boas colheitas para a tribo.
A música, da autoria do russo Igor Stravinsky, é amplamente conhecida como uma das maiores, mais influentes e mais reproduzidas composições da história da música do Século XX.

Igor Stravinsky concebeu a obra em 1910, quando, segundo as suas palavras, "sonhou com uma cena de ritual pagão em que uma virgem eleita para o sacrifício dança até morrer".
A maior parte da música foi composta em 1911.
Nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, A «Sagração da Primavera» libertou os impulsos musicais selvagens, subliminares, que pressagiavam a história posterior do violento século XX.

Em Paris, em 1913, aquando da primeira execução da Sagração da Primavera, ocorreu o que, na opinião de muitos, se pode considerar o maior escândalo musical de sempre.
O compositor russo foi logo definido como «revolucionário por excelência», e a sua obra como um dos símbolos mais típicos do «moderno» - no sentido de irritante, chocante, escandaloso.
Com o tempo tudo que é novo perde a sua força de embate; contudo, apesar de, posteriormente, essa música ser considerada como uma obra prima, para muitos conserva ainda algo do seu original carácter provocatório.
Da música de Stravinsky costumo dizer: ou se ama ou se odeia, não há meio termo.
De qualquer forma considero a Sagração da Primavera como uma explosão de vida, em que o ventre da Natureza se abre para receber a semente de mais um ciclo que se inicia.
De entre as várias interpretações de «A Sagração da Primavera» escolhi uma que me parece mais acessível a todos – os que amam e os que odeiam :)

domingo, 13 de março de 2011

LENDA DAS SETE COLINAS DE LISBOA

Embora Roma seja também conhecida pela “cidade das sete colinas”, a verdade é que este epíteto pertence, por direito que lhe é conferido pela antiguidade, à cidade de Lisboa.
Espero não estar a ser muito “bairrista” ao fazer esta declaração 
Acerca da origem das colinas de Lisboa existem várias lendas, cada qual a mais interessante, e, em muitos pontos, coincidentes.
Escolhi esta que vou partilhar convosco por ser a que mais me agrada.
Em época que se perde nos tempos, ainda antes de ser ocupada por romanos e gregos, e até fenícios, existia aqui um reino chamado Ofiusa, que era governado por serpentes gigantescas.
Ao contrário dos outros elementos do governo, que eram serpentes normais, a rainha era diferente. Possuía cabeça e tronco de mulher, tendo as pernas substituídas por cauda de serpente.
Não deixando de ter, no seu íntimo, as características inerentes à serpente, era, contudo, um ser muito gentil e afável, com um enorme poder de sedução, que usava para atrair todos que aportavam ao seu reino.

Nas suas longas viagens aconteceu que Ulisses

e os seus companheiros passaram pelo Rio Tejo e, encantados com a sua beleza, resolveram ancorar e passar aqui alguns dias descansando, quem sabe, até, fundando uma cidade, a que seria dado o nome de Ulisseia.

Logo que viu Ulisses a rainha apaixonou-se perdidamente por ele. Propôs-lhe que se mantivesse no reino e, em troca, ela o desposaria.
Ulisses, receando a fúria de Ofiusa, com a qual podia correr até risco de vida, pois não esquecia que ela era meio serpente, fingiu aceitar, até que ele e os seus homens pudessem descansar e abastecer a nau com mantimentos necessários ao prosseguimento da viagem.

Alguns dias depois a nau encontrava-se perfeitamente abastecida; podiam, portanto, pôr-se a caminho.

Numa manhã bem cedo, ainda a rainha se encontrava a dormir, Ulisses conseguiu enganá-la e fugir para o mar alto.

Ao ver-se só, enraivecida por ter sido enganada, a rainha lançou-se da colina onde vivia em direcção ao mar. A sua longa cauda não lhe permitia mover-se com grande velocidade, mas não a impediu de serpentear até ao rio, deixando atrás de si, como prova do enorme esforço, as sete colinas que ainda hoje existem em Lisboa.
Chegada ao rio ainda continuou algum tempo nadando até ao mar, mas acabou por desistir, sem forças para continuar perseguindo Ulisses, que entretanto já se encontrava longe.

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- A primeira colina é a de S. Vicente de Fora – pertence ao Bairro de
Alfama
- À esquerda desta levanta-se uma outra que sobe até ao Postigo de Stº.
André – pertence ao Bairro da Graça

(Miradouro da Graça)

- A terceira colina é a mais alta de todas, a colina de S. Jorge, que tem
no cimo o Castelo de S. Jorge – pertence ao Bairro da Mouraria

(Miradouro do Castelo de S. Jorge)

- A quarta elevação tem o nome de Sant’Ana – pertence ao Bairro da
Anunciada
- A quinta é a de S. Roque – pertence ao Bairro Alto
- A sexta colina é a das Chagas, que deve o seu nome à igreja que ali
edificaram os marinheiros da rota da índia, em louvor às chagas de
Cristo – pertence ao Bairro do Carmo
- Finalmente a sétima colina é a de Santa Catarina – pertence ao bairro
Camões.

(Miradouro de Santa Catarina)

Ainda hoje se conservam aí os 7 principais templos de Lisboa.

As sete colinas de Lisboa continuam a dirigir-se todas para o rio Tejo, em busca dum amor eterno.

domingo, 6 de março de 2011

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE

O CHEIRO DE ÁFRICA
O meu olhar vagueia pela lonjura da planície. Rodo, olhando em volta. Descrevo um ângulo de 360 graus. Até onde a vista alcança apenas mato se vislumbra. Giro de novo. A paisagem mantém-se inalterável. Numa extensão de quilómetros estou rodeada de mato. Salpicado, aqui e ali, de árvores de pequeno porte. São poucas, as árvores, e de aspecto raquítico. A casa, ao estilo bem colonial, tem um alpendre de um dos lados, a todo o comprimento. Aí se encontram uns cadeirões de braços, em madeira, com almofadas gastas pelo tempo, desbotadas pelo sol, com um ou outro rasgão, como que a dizer: terminou o nosso prazo de validade. Não primam pela macieza, as almofadas, mas tornam os cadeirões um pouco menos desconfortáveis. Herdei-as, como tudo o resto, dos antigos moradores. Detenho-me um momento a pensar – precisam de ser substituídas. Encosto-me ao varandim, e aspiro o ar fresco da manhã. Que paz. Que tranquilidade ! E que cheiro! Sobretudo o cheiro… (Em nenhum lugar do mundo se pode sentir o cheiro de África. É o que melhor retenho na memória. Por vezes ainda consigo senti-lo). Quem já cheirou África nunca mais esquece. O sol começa a levantar-se no horizonte. A temperatura depressa subirá; o calor vai apertar. Mas a casa mantém-se fresca. Já se ouvem os rumores dos criados preparando a mesa para o mata-bicho. Aqui as mulheres não trabalham para os “brancos”. Mantêm-se nas suas palhotas, cuidam dos filhos, tratam da machamba, vendem no mercado os produtos que cultivam. Só os homens vêm para nossas casas, por vezes com dormida incluída, visitando a família aos fins de semana. Executam todo o trabalho doméstico, como cozinhar, tratar das roupas, limpar… À senhora da casa compete ensinar, orientar, fiscalizar… Os tempos de lazer ocupa-os com o que lhe dá prazer – cuidar dos filhos, se os tem, ler, ouvir música…tudo o que possa contribuir para afastar a sensação de isolamento em que vive. O isolamento, por vezes, custa a suportar, prega as suas partidas. A alguns quilómetros daqui há um pequeno destacamento, cujo “responsável” é substituído de duas em duas semanas. Um desses jovens é particularmente sensível à solidão que o oprime. Quando se sente sufocar, sobe a um morro ali existente, e grita a plenos pulmões tudo o que lhe vem à cabeça. Em resposta ouve o eco das suas próprias palavras. E sente-se reconfortado… Foi a forma que encontrou para aguentar o tempo de espera até ser substituído. Começo a sentir o perfume do café acabadinho de fazer. Não consigo habituar-me ao tradicional mata-bicho de África – uma refeição de garfo, completíssima. Mantenho-me fiel ao café com leite (em pó – não há outro), e as torradas com manteiga (em lata, importada da África do Sul). Mais um dia se passou. À noite sentamo-nos no alpendre, nos cadeirões com almofadas rasgadas – precisam mesmo ser substituídas… Assim nos protegemos do cacimbo que sempre aparece pela noite. À nossa volta tudo é silêncio, escuridão, tranquilidade. Mas não estamos tranquilos. Sabemos que essa paz não reinará para sempre. Na realidade tem apenas dois ou três meses de vida… Sabemos que estamos a viver sobre um barril de pólvora. E porque terça feira é o Dia Internacional da Mulher deixo-vos com alguns pensamentos relativos à Mulher (por ordem cronológica do nascimento dos autores): A natureza deu tanto poder à mulher que a lei, por prudência, deu-lhe pouco. Autor: Samuel Johnson Escritor - Inglaterra [1709-1784] A mulher é a mais bela metade do mundo. Autor: Rousseau - Jean Jacques Rousseau Filósofo, Escritor - França [1712-1778] Sinto-me feliz por não ser homem, porque, se o fosse, teria de casar com uma mulher. Autor: Madame de Stael - Anne Louise Gemaine Necker Escritora - França [1766-1817] Tirai do mundo a mulher e a ambição desaparecerá de todas as almas generosas. Autor: Alexandre Herculano Escritor - Portugal [1810-1877] Difícil é amar uma mulher e simultaneamente fazer alguma coisa com juízo. Autor: Léon Tolstoi Escritor - Russia [1828-1910] A mulher alimenta-se de carícias, como a abelha das flores. Autor: Anatole France Crítico, Escritor - França [1844-1924] As mulheres existem para que as amemos, e não para que as compreendamos. Autor: Oscar Wilde - Oscar Fingall O'Flahertie Wills Wilde Escritor/Poeta/Dramaturgo/Ensaísta - Irlanda [1854-1900] Ser mulher é algo difícil, já que consiste basicamente em lidar com homens. Autor: Joseph Conrad Escritor - Inglaterra [1857-1924] A mulher deve ser lentamente decifrada, como o enigma que é: encanto a encanto. Autor: Coelho Neto - Henrique Maximiano Coelho Neto Escritor, político e professor - Brasil [1864-1934] Do amor para com a mulher, nasceu tudo o que há de mais belo no mundo. Autor: Máximo Gorky - Aleksei Maksimovitch Pechkov Escritor - Russia [1868-1936] A mulher existe para que o homem se torne inteligente graças a ela. Autor: Karl Kraus Escritor - Austria [1874-1936] Somente a mulher sabe do que a mulher é capaz. Autor: William Maugham - William Somerset Maugham Escritor – Inglaterra [1874-1965] E terminou com chave d’ouro – o que considero “o melhor de todos” (fora da ordem cronológica...) Frequentemente a mulher tem medo de um rato, mas sobe ao patíbulo heroicamente; grita ao ver uma cobra, mas lança-se nas chamas para salvar um filho. Autor: Paolo Mantegazza Antropólogo/Fisiologista - Itália [1831-1910]


domingo, 27 de fevereiro de 2011

POEMA DO MENINO JESUS


A poesia de Fernando Pessoa ou de qualquer dos seus heterónimos dispensa apresentações.
Deste poema que convosco partilho, de Alberto Caeiro, direi apenas que é um excerto do oitavo poema de «O Guardador de Rebanhos», que na íntegra possui mais de 150 versos.


Ligue o vídeo abaixo e acompanhe o poema impecavelmente declamado por Maria Betânia.




POEMA DO MENINO JESUS

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.

Depois fugiu para o Sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Que levam as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as cores que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos os dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos às cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um perigo muito grande
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios


Depois ele adormece e eu
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o na minha cama,
despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sonho.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
E deita-me na tua cama.
Despe o meu ser cansado e humano
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar

Alberto Caeiro

domingo, 20 de fevereiro de 2011

UMA HISTÓRIA DO IMPERADOR KRU WON


Hoje vou propor-lhe um jogo.
Começarei por contar uma história passada em tempos antigos.
A certa altura vou sugerir-lhe que faça uma escolha. De acordo?
Então continuemos para ver o resultado

Era uma vez um imperador da China Antiga chamado Kru Won, governante inteligente mas cruel, que liderava o seu povo com mão-de-ferro. Tinha muitas esposas guardadas por eunucos reais, enquanto ele se divertia jogando; ao mesmo tempo divertia os seus súbditos com jogos públicos.
Para seu mal, um dos generais de maior confiança do imperador apaixonou-se por uma das esposas predilectas de Kru Won e fugiu com ela.
Foram capturados e voltaram à corte de Kru Won, para receberem o castigo.
Era costume, em casos semelhantes, mandar cortar a cabeça do prevaricador.
Porém, desta vez, o imperador resolveu divertir-se com a situação, e proporcionar à sua corte um espectáculo diferente.
Ordenou que o general se colocasse no meio de um anfiteatro que tinha duas portas.
Debruçando-se do balcão onde se encontrava, o imperador falou para o general:
"- Atrás de uma daquelas duas portas mandei colocar uma donzela: atrás da outra encontra-se um tigre faminto.
Tu, general, terás que abrir uma daquelas portas. Assim, ou te casarás com uma bela donzela ou serás comido vivo.
A minha esposa, que partilhou a tua cama e se encontra aqui a meu lado, sabe atrás de que porta se encontra a donzela e qual a do tigre.
Como vocês dois sentem um profundo amor um pelo outro, dei-lhe permissão para que ela te indique qual a porta que deverás abrir."

O general olhou para a mulher amada, e ela indicou a porta à esquerda. Ele correu e abriu-a imediatamente.

QUEM É QUE ELE ENCONTROU ATRÁS DA PORTA? A DONZELA OU O TIGRE?

Chegou o momento de escolher

Obs. - A história foi escrita com o intuito de que a sua atitude interior em relação à vida surgisse naturalmente.
A sua resposta apenas vai evidenciar, de acordo com a sua escolha, qual o tipo de atitude natural que você tem em relação à vida e às pessoas.
Através da sua resposta, você poderá ter uma noção do seu QE (Inteligência Emocional).



TIGRE




Se você acha que atrás da porta escolhida pelo general se encontra o Tigre, significa que não confia na esposa do imperador, revelando uma atitude de desconfiança em relação ao mundo e às pessoas com quem convive.
Acredita, por exemplo, que sempre que uma pessoa lhe oferece ajuda está querendo alguma coisa em troca. *


DONZELA

Se você optou pela donzela demonstra que confia na esposa do imperador, e revela uma atitude positiva em relação à vida e às pessoas.
A simples presença de optimismo na personalidade é, por si só, um factor de maturidade e equilíbrio emocional, principal responsável pelo sucesso e pela felicidade das pessoas.
Atitudes positivas e optimistas aproximam as pessoas cada vez mais dos seus objectivos, facilitando a conquista de metas e a realização de projectos. * *


Voltando ao conto:
Imaginemos que o malvado imperador deixava sua esposa fujona indicar a porta e em seguida trocava as posições da donzela e do tigre…
Assim que o general seguisse o conselho da sua amada, ele não apenas morreria como a deixaria assombrada por ter indicado a porta errada.
Seria a forma mais cruel de punir ambos.

Mas se, no último momento, o general desconfiasse da indicação e optasse pela porta contrária à que a sua amada lhe indicava?
Nesse caso ele ficaria com a donzela, mas perderia para sempre a confiança na amante, pois sempre se lembraria que ela lhe indicara a porta onde se encontrava o tigre.

Portanto, num caso ou noutro, o imperador teria sempre a sua vingança.


** Segundo os cientistas entrevistados e citados por Daniel Goleman no seu livro «Inteligência Emocional» o optimismo na personalidade de uma pessoa é um factor essencial para o seu sucesso.
Está provado que pessoas optimistas e positivas são mais felizes e realizadas, desenvolvem relacionamentos afectivos, amorosos, sociais, profissionais e familiares mais equilibrados e gratificantes.
Em suma, a opção pela "Donzela" indica bom nível de maturidade e equilíbrio, emocionais que, somado a outros factores pode indicar alto nível de Q.E.

* Se a sua opção foi pelo "tigre", pense um pouco nisso. Será que você tem explorado todas as oportunidades que têm surgido na sua vida, ou está se limitando para não enfrentar os problemas que imagina que vão surgir?
De facto a opção pelo Tigre indica uma tendência pessimista em relação a possíveis resultados, que pode levar você a perder boas oportunidades de sucesso.
Pode parecer que nada dá certo para si, mas na verdade a sua atitude negativa é que é a verdadeira responsável pelos resultados insatisfatórios que vivencia.
Daniel Goleman

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

TERCEIRO ANIVERSÁRIO

O dia 14 de Fevereiro é-me particularmente caro devido a dois acontecimentos muito importantes ocorridos neste dia:

- O nascimento dos meus dois últimos netos, os gémeos:

- A abertura do meu blog:

O meu blog “A Casa da Mariquinhas” nasceu faz hoje três anos, precisamente no dia 14 de Fevereiro de 2008.
Iniciei a minha actividade no mundo da blogosfera, com a criação de um blog no Windows Live, que, apenas dois dias depois, transferi para o Sapo.
Ali permaneci por dois meses; instâncias várias de amigas e amigos que tinham blogs no Blogger influenciaram-me a mudar.
Aqui me encontro, portanto, desde o dia 13 de Março de 2008.

Tem sido um percurso agradável, dum modo geral, com um ou outro aborrecimento de somenos importância.
Destaco, destes, o facto de o Blogger ter suspendido o meu blog em Junho de 2010. Aborreceu-me bastante especialmente por ter sido injusto, e se há coisa que não suporto é injustiça.
Acabaram por pedir desculpa, mas o mal já estava feito.

"Após análise, determinámos que o sistema automático marcou incorrectamente o seu blogue como tendo violado os Termos de utilização e, por conseguinte, o blogue foi reposto. Lamentamos o incómodo que esta situação possa ter causado e agradecemos a sua compreensão durante o decorrer do processo de análise. "

Sei que o mesmo aconteceu com muitas outras pessoas, o que em nada diminui o que, na altura, senti.
Mas continuei em frente, e, assim nos encontramos hoje a festejar três anos.
Quero fazer alvos desses festejos, antes de mais:
- Os comentadores que me têm acompanhado desde a primeira hora, e se mantêm, com maior ou menor assiduidade.
- Todos os outros comentadores, uns regulares outros não, que conseguiram perfazer o lindo número de 6.128 comentários.
- Os visitantes dum modo geral, aos quais se deve uma quantidade apreciável de visitas – 43.500 e tal

(Permito-me aqui destacar:
- O primeiro comentador, João Soares, autor de vários blogs, entre os quais o Do miradouro
- A mais recente comentadora, Evanir, autora do blog A Viagem )

A todos agradeço, de coração.

Como vivemos tempos de crise, para além de estar a aproximar-se o verão e, consequentemente, ser necessário manter alinha, não trouxe para a festa nenhum bolinho nem champanhe.
Contente-se, se quiser, com uma cerveja

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e este selinho que tenho todo o prazer em lhe oferecer:

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A todos muito obrigada e até sempre.
Obs. Pode ir buscar o selinho a A MINHA COLECÇÃO DE SELOS

A minha querida amiga Sãozita, do blog NO LIVRO DA VIDA
e seu marido Victor, do blog A VOZ DO POVO
presentearam-me com este lindo vídeo, que partilho convosco.
Aos dois o meu “Muito, muito obrigada!”.








A querida amiga Ana Martins, do blog AVE SEM ASAS
acaba de me enviar este delicioso mimo, que partilho convosco.



Muito obrigada, Amiga.

Também a minha querida amiga Fernanda, do blog NA CASA DO RAU
me ofertou este lindo selinho:



Bem hajas, Amiga.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

NO DIA EM QUE NASCESTE

NO DIA EM QUE NASCESTE
(Dedicado à minha neta pouco depois do seu nascimento)

No dia em que nasceste,
Meu amor,
Eu renasci!

O sol brilhou
com nova intensidade.
Nas árvores, cobertas de verdes folhas,
os pássaros entoaram canções,
duma outra felicidade.

Houve alegria no céu.
Todos os anjos, reunidos,
desejaram boa viagem
ao companheiro que partia
para habitar teu corpinho,
que na terra aparecia.

Vieste bem de mansinho
para o lar que te acolheu.
Trouxeste alegria infinda.
Só podias vir do céu.

Ao ver-te, meu amor, eu murmurei
mil promessas de carinho,
que vou cumprir uma a uma.

Enfeitarei o teu caminho
com belas flores perfumadas.

Colocarei estrelas mil,
coloridas,
em todas as estradas
por onde irás passar.

E uma fonte de água cristalina
se ouvirá cantar
quando passares.

O ar vais perfumar.
Com as mais lindas cores o vais pintar.
E o céu vai-se alegrar
com teu cantar.

E quando forças mais já não tiver
meu amor continuarás a ver
através do meu olhar cansado
que apenas para ti estará voltado.

Maispa Luz

domingo, 30 de janeiro de 2011

PASSEIO A GRACELAND

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UM PASSEIO A GRACELAND – USA

Quando vamos aos Estados Unidos ficamos instalados em New Jersey, numa simpática cidade nos arredores de New York City.
A partir daí viajamos para diversos pontos do país.

Irei partilhar convosco alguns desses passeios, (e outros...) começando hoje pela visita a Graceland, situada em Memphis, a maior cidade do estado do Tennessee, a cerca de 1.800Kms. a sudoeste de N.Y.

Se quiser ver em «tela cheia», depois de iniciar clic no quadradinho à direita de "Menu", no canto inferior, à direita. LIGUE O SOM.


domingo, 23 de janeiro de 2011

LENDA DO GALO DE BARCELOS











LENDA DO GALO DE BARCELOS

Igreja do Senhor da Cruz - Barcelos
(Foto minha)


Quando eu era criança vivi uns anos nos arredores de Barcelos.
Lá ouvi contar uma lenda acerca do «galo de Barcelos» que, naquele tempo, ainda não tinha a notoriedade que hoje lhe é atribuída, a ponto de alguns o considerarem como um símbolo de Portugal.
Não vou tão longe, sendo contudo certo que os turistas que passam por essa cidade do norte do nosso país não deixam de levar consigo, como recordação, o famoso galo.
Vou tentar “compor” a história que ouvi, se para tanto a memória me não falhar.
Ora ouçam:

Em tempos remotos aconteceu, no norte de Portugal, um crime de morte, que jamais se conseguiu esclarecer.
Foram inúmeras as investigações realizadas, mas todas em vão. Nunca se descobriu o assassino.

Algum tempo depois deste acontecimento, quando tudo tinha caído no esquecimento, apareceu na então povoação (hoje cidade municipal) de Barcelos um peregrino, oriundo da Galiza, que se dirigia a Santiago de Compostela.
Ao ver a figura do romeiro alguém se lembrou do já quase esquecido caso do assassínio, e se dirigiu às autoridades declarando a sua desconfiança.
Não tardou que houvesse logo quem afirmasse tê-lo visto na noite do crime junto ao local onde o mesmo fora praticado.
Perante afirmações tão seguras o romeiro foi preso.
Apesar de submetido a grandes torturas e suplícios, o galego afirmou-se sempre inocente. Mas todas as evidências e coincidências o apontavam como o verdadeiro criminoso.
Sem ter como comprovar a sua inocência o romeiro foi julgado e condenado à morte pela forca.
Finalmente chegou o dia da execução da sentença do homem, que, em vão, continuou jurando estar inocente.
No centro do povoado de Barcelos foi erguida a forca.
Ao ser questionado acerca do seu último desejo, o pobre homem declarou desejar ser conduzido à presença do juiz.
À chegada, o malogrado homem encontrou o juiz numa grande jantarada, rodeado dos seus amigos e admiradores.
De fronte do juiz o galego voltou a afirmar a sua inocência, suplicando, pela fé cristã, que tivessem misericórdia e não o enforcassem.
O magistrado, que aprendera as leis em Salamanca, acabou por ficar confuso com as veementes declarações de inocência do romeiro. Mas nada pode fazer pois que já houvera julgamento e o homem fora condenado à forca. Portanto, havia que se cumprir a sentença.
Ao ver que não conseguia demover o juiz, e que os seus convidados se riam da sua tentativa, avistanto um frango assado em cima da mesa, interpelou São Tiago, o santo que ele se propusera visitar quando fora interrompido na sua caminhada:
- São Tiago, vós sabeis que estou inocente. Para o comprovar fazei com que esse galo, que está em cima da mesa, morto e assado, cante antes que eu seja enforcado.
Todos se riram das palavras do galego. O juiz ordenou que o homem fosse levado para a forca e que a sentença fosse cumprida.
Assim foi feito.
Passado o mal estar inicial todos continuaram a comer e a beber alegremente. Mas, por uma estranha superstição, ninguém se atreveu a tocar no galo nomeado pelo galego.
Todos estavam ansiosos para que terminasse o suplício do romeiro, cumprindo-se finalmente a sentença.
De repente, perante o espanto geral, o galo assado começou a cobrir-se de penas transformando-se numa bela ave, tão viva quanto todos eles, e começou a cantar alegremente.
Toda a gente ficou boquiaberta. O juiz e os seus convidados acorreram ao local da forca.
Encontraram o galego suspenso no ar com a corda do pescoço solta. E, perante a admiração geral, descobriram que ele ainda estava vivo.
Imediatamente libertaram o preso, deixando que ele seguisse para Santiago de Compostela a fim de cumprir a sua promessa de romeiro.
Meses depois o galego regressou já com a sua promessa cumprida.
Em sinal de agradecimento aos que atestaram a sua inocência mandou erguer um padrão, que se encontra na zona histórica da cidade,


que tem de um dos lados São Paulo e a Virgem, o sol, a lua e um dragão; do outro lado vê-se Cristo crucificado, um galo e São Tiago sustentando no ar um enforcado.

A justiça fora feita através do canto do galo ressuscitado, que se tornaria o símbolo de Barcelos.