domingo, 31 de outubro de 2010

ESTOU DOENTE

É com grande tristeza que comunico que hoje não haverá aqui o habitual post de domingo. Custa-me muito faltar a um compromisso que assumi para comigo mesma: vir aqui todos os domingos conversar convosco. Mas….
desde a tarde de quinta-feira que me encontro doente.

Uma forte gripe, em conluio com uma atrevida constipação, deixou-me de rastos (de quatro …).
Mal consigo ver as teclas por entre as lágrimas que me escorrem dos olhos. Espero que as letras não fiquem esborratadas.
Normalmente este tipo de coisas demora uma semana a passar, ou, pelo menos, a aliviar os sintomas. Se assim for no próximo domingo cá nos encontraremos.
Peço aos meus queridos visitantes/comentadores que me perdoem.
Não deixo beijinhos para não espalhar os vírus :)

domingo, 24 de outubro de 2010

LANÇAMENTO DO LIVRO

Por sugestão de um querido amigo fiz um selinho, à imagem do convite, para comemorar este evento, que coloquei em A MINHA COLECÇÃO DE SELOS
Gostaria muito que o levasse para o seu blog.
Obrigada.


É com o maior prazer que vos comunico o lançamento do meu livro LUZ AO ENTARDECER, que ocorrerá no próximo dia 13 de Novembro, em Almada.
A quem quiser/puder honrar-me com a sua presença no evento, o meu “Muito obrigada”!

Foi com grande emoção que recebi do Amigo MACHADO DE CARLOS um poema em homenagem a este lançamento.

É com a maior gratidão para com o grande Poeta, e com o seu consentimento, que partilho convosco este belíssimo soneto.

"Olá Mariazita!
Realmente gostaria muito de participar da tua festa, juntamente com o teu livro, que faz parte do teu coração, mas as águas do Oceano não nos permitem.
Em tua homenagem e também em homenagem ao teu livro segue aqui um soneto, espero que gostes:"

Teu Coração

O teu livro é tua alma que perfuma
Em cada letra... beijo-te de joelhos!...
Longe...Contemplo teus lábios vermelhos
a cantar a tua prosa entre brumas...

Brindo! E em cada verso, na escuma,
alimento-me no teor do teu texto.
Decoro as tuas lições, e, no espelho
não perco um só ponto ou coisa alguma.

Lembras-te daquele bem-te-vi, a voar?
... Juntou-se a mil aves a revoar
E em toda brisa aquele ar me salva.

Teu nome ecoa pelo espaço como hino;
Teu sorriso é um canto divino!
Afago-te e mergulho em tua alma!...


Machado de Carlos


16 de Outubro de 2010 23:50

domingo, 17 de outubro de 2010

MULHERES POSSÍVEIS

Martha Medeiros é uma jornalista e escritora brasileira que muito aprecio.
Tem textos escritos que considero muito bons. É um desses textos que hoje vou partilhar convosco.

Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes.
Sou a Miss Imperfeita, muito prazer!
Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado três vezes por semana, decido o cardápio das refeições, levo os filhos no colégio e busco, almoço com eles, estudo com eles, telefono para minha mãe todas as noites, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos, participo de eventos e reuniões ligados à minha profissão e ainda faço escova toda semana - e as unhas!
E, entre uma coisa e outra, leio livros.

Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic. Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO!

Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO!
Culpa por nada, aliás.

Existe Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero.

Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.

Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que, a partir daquele momento, você seria modelo para os outros.
Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.
Você não é Nossa Senhora.

Você é, humildemente, uma Mulher.

E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante.
Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável.
É ter tempo.
Tempo para fazer nada.

Tempo para fazer tudo.
Tempo para dançar sozinha na sala.

Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.

Tempo para sumir dois dias com seu amor.

Três di
as…
Cinco dias!
Tempo para uma massagem.

Tempo para ver a novela.
Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.

Tempo para fazer um trabalho voluntário.
Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.
Tempo para conhecer outras pessoas.
Voltar a estudar.

Para engravidar.

Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.

Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.

Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa
postal.
Existir, a que será que se destina?
Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.

A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-se-quem.
Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.
Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo! Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente. Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores. E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante'.

Texto na Revista do Jornal O Globo


Martha Medeiros, nascida em Porto Alegre, em 20 de Agosto de 1961, é uma jornalista, cronista e escritora brasileira
Filha de José Bernardo Barreto de Medeiros e Isabel Mattos de Medeiros, é colunista do jornal Zero Hora de Porto Alegre, e de O Globo, do Rio de Janeiro.
Formou-se em 1982 na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre.
Tem várias obras publicadas, a primeira, “Strip-Tease , em 1985

domingo, 10 de outubro de 2010

SER CRIANÇA HOJE

Quem me conhece sabe que tudo que se relaciona com a criança constitui uma das minhas maiores preocupações.
Confrange-me e revolta-me pensar nos maus-tratos, injustiças e atropelos cometidos contra a criança.
Muito se tem falado e escrito acerca deste tema. Há instituições vocacionadas para a defesa da criança. Contudo, um aspecto que é pouco debatido, e não é menos importante, é o da criança vítima de problemas familiares. São inúmeras as crianças que sofrem na pele as consequências do mau entendimento entre os pais que, não raras vezes, conduz à separação.
Dentro deste contexto hoje vou partilhar convosco a opinião do Pediatra Dr. José Carlos Palha.


SER CRIANÇA HOJE

É impressionante o aumento, nos últimos anos, das crianças da minha consulta, vítimas de problemas familiares.
Na maioria dos casos os pais estão separados e vivem com a mãe; noutros são os avós que "aguentam" a situação. Chego a ter tardes de consulta de uma total monotonia pois as queixas são sobreponíveis e o pano de fundo também.
As mães, numa ansiedade crescente, sem quererem perceber as razões das queixas dos filhos, pedem desesperadamente análises, radiografias e, pasme-se! T.A.C. para as crianças, na esperança de encontrarem uma causa física para a doença do filho ou filha. É tal a insegurança destas mães que chegam a dizer-me que aquele filho não pode estar doente ou muito menos morrer um dia porque ele vai ser a sua única companhia pela vida fora; por isso é nele ou nela que investem tudo, em exclusividade, em termos afectivos!
As crianças, "afogadas" neste proteccionismo "selvagem" e contraditório, sofrendo já com a ausência do pai como figura de referência imprescindível, neste beco sem saída, somatizam toda a ansiedade em apelos constantes para que lhes dêem atenção... quando o que realmente lhes falta é tão simplesmente uma família normal!...

Às vezes, quando as mães me perguntam se não seria melhor pedir uma T.A.C. ao filho ou filha, eu, sinceramente, o que me apetecia responder-lhes, por ironia, era se elas não quereriam antes fazer um exame profundo e doloroso, uma T.A.C., quiçá, à sua própria família...
Ah! Que grande radiografia ou T.A.C. social não são estas minhas consultas diárias!...
Mas que remédios, meu Deus, posso eu ter para, ao menos, minimizar as dores desta terrível doença social?

Ainda hoje uma mulher foi-me trazida pela Assistência Social com um bebé de 5 meses que nunca tinha sido observado, desde o nascimento. Não tinha ainda vacinas, não tomava vitaminas, bebia leite de vaca inteiro, estava sujo e andrajoso...
A mãe, pelo seu lado, não tinha mãe, nem pai, nem família, vivia sozinha e foi "descoberta" assim pelos vizinhos.
Perguntei-lhe, a medo, quem era o pai da criança, respondeu-me que isso não interessava para nada.
Perguntei-lhe, ainda com menos convicção, como tinha contraído em plena gravidez a hepatite B; respondeu-me que toda a gente sabe que a hepatite B se pode apanhar com toda a facilidade quando se está grávida...
Não lhe perguntei mais nada...
Calado, observei a criança.
No meu pensamento milhares de imagens passaram em turbilhão - discursos em praças e em púlpitos, comícios revolucionários e outros menos, guerras reais e das estrelas, festas de pouca e muita caridade, sei lá eu que mais...
Qual destes eventos pôde tocar, alguma vez, esta mulher?
Quem lhe pode devolver a dignidade?...

Neste final de século ter pena das crianças e temer pelo seu futuro é muito pouco... Porque há várias misérias misturadas. Já nada é linear como outrora... Porque hoje é preciso ter sorte para ser criança a vários níveis, não só o da miséria material!... Talvez a miséria moral, a falta de valores na sociedade seja, para a formação das crianças, o mais importante.
Porque hoje em dia é preciso ter sorte, acima de tudo, para viver em amor!...

José Carlos Palha
V. N. Gaia, Portugal

Dr. José Carlos Palha é pediatra e exerce a sua profissão em Vila Nova de Gaia.

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domingo, 3 de outubro de 2010

AGRADECIMENTO

Do meu Amigo Álvaro, a quem muito agradeço
04.10.10
Do blog "Álvaro Oliveira Poesia"




A amiga Mariazita do blog A Casa da Mariquinhas está completando mais um ciclo de vida e lhe desejo muitas felicidades e que muito em breve esteja nos convidando par o lançamento do seu primeiro livro. Com certeza um livroo que nos deixará imersos até o o seu final, pois para quem não conhece o seu blog não sabe o que está perdendo porque temos aí uma escritora de mão cheia e adoro ler seus posts com suas histórias que não sentimos o tempo passar.



MUITO OBRIGADA, IRENE. DE CORAÇÃO, OBRIGADA!




Apenas por absoluta falta de tempo não me é possível redigir um agradecimento individualizado a cada uma das pessoas que tiveram a gentileza de me felicitar pelo meu aniversário.

Independentemente da visita à casa de cada um de vós, quero aqui deixar expresso o quanto me sensibilizou o vosso carinho, que excedeu todas as minhas expectativas.

Permitam-me um agradecimento especial às minhas amigas (por ordem alfabética):

- Ana Martins, do blog AVE SEM ASAS
que me ofereceu este lindo selinho


- Fernanda (Ná) do blog NA CASA DO RAU
autora do selinho seguinte, com que me presenteou






- e Sãozita, do blog NO LIVRO DA VIDA
que me mimoseou com o vídeo que publiquei no post anterior.

Como se isso fosse pouco…preparou-me uma surpresa que me sensibilizou deveras: fez-me ouvir, por telefone, dois anjinhos loiros, na sua vozinha amorosa a cantarem “parabéns a você”. Fiquei muito emocionada ao ouvi-los.

Para as três um grande “Bem haja!”, que torno extensivo a toda(o)s quanta(o)s me visitaram e felicitaram.

Preparei -vos este selinho que gostaria que aceitassem.
É uma lembrança muito modesta, de quem nem sequer vos ofereceu um bolinho ou uma taça de champanhe... mas a crise é real e séria :)))




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Muito obrigada, e que o futuro vos reserve, em dobro, tudo o que me desejastes.
Muitas felicidades.
Mariazita



PS – Aproveito a oportunidade para agradecer, também, a sua visita e comentário ao meu post anterior “Acontecimento Inesperado”.





PS, PS – Quem quiser levar o meu selinho tem que fazer o favor de ir buscá-lo à A MINHA COLECÇÃO DE SELOS

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

ANIVERSÁRIO

Saozita disse...
Olá minha querida e doce amiga, desejo que tenhas um dia feliz, na companhia de todos os que te amam . Eu estarei contigo em pensamento.
Recebe um abraço bem apertado desta tua filhota mais nova e um beijinho com muito carinho.
Cumprimentos ao marido.

Sãozita

30 de Setembro de 2010 11:17

Mariazita disse
30 de setembro de 2010 03:53
Filhotinha querida
O que posso eu dizer?
Que me emocionei? É claro que sim!
Que uma lagrimita atrevida queria espreitar? É claro que sim!
Não digo mais nada a não ser:
Obrigada! Obrigada! Obrigada!
Que o céu te dê, em dobro (a ti e aos teus) tudo o que me desejas.

Beijinhos e o meu carinho.

domingo, 26 de setembro de 2010

ACONTECIMENTO INESPERADO

Inesperadamente, surgiu-me a oportunidade de publicar um livro.


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“Ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore” - desta máxima falta-me cumprir a última parte – plantar uma árvore.
Calculo que plantas de maior ou menor porte não contarão para o efeito; na verdade, por muito grandes que sejam, não passam de plantas, quando muito poderão transformar-se em arbustos, e o obrigatório será uma árvore. (Talvez devesse ter começado por aí, para ter tempo de vê-la crescer frondosa e altiva…)

Voltando ao início da nossa conversa, quero dizer-vos que estou em negociações para a publicação do meu primeiro livro. E digo primeiro porque, nestas coisas, viciantes, “a questão é começar”. Talvez se siga um outro… e mais outro… Depois de uma batalha começada não se sabe quando irá acabar.

Como sabeis, ou podeis imaginar, nestas andanças de publicações há muitos trâmites a seguir, (o registo do ISBN, o depósito legal, etc., etc.) o que consome muito tempo.
Por esse motivo, até ao lançamento do livro, que prevejo para meados ou finais de Outubro (data a anunciar) “alimentarei” este meu blog apenas com textos que não serão de minha autoria, mas de autores que me merecem consideração, e que espero vão ao encontro dos vossos gostos. Pela mesma razão não poderei visitar-vos com a assiduidade habitual, sem que, contudo, deixe de retribuir as vossas tão queridas visitas.

E por agora ofereço-vos algumas citações de grandes pensadores .


Há tantos livros, mas há tão pouco tempo.
Frank Zappa

Uma pessoa, seja ela cavalheiro ou senhorita, que não sinta prazer ao ler um bom romance, deve ser intoleravelmente estúpida.
Jane Austen, em Northanger Abbey

Eu acho a televisão muito educativa. Toda vez que alguém a liga, eu vou para a outra sala e leio um livro.
Groucho
Marx

Não há amigo tão leal quanto um livro.
Ernest Hemingway

Se alguém não tiver prazer em ler um livro várias e várias vezes, não há motivos para lê-lo, afinal.
Oscar Wilde

Eu sempre imaginei que o paraíso deve ser algum tipo de biblioteca.
Jorge Luis Borges

Numa boa biblioteca, você sente, de alguma forma misteriosa, que você está absorvendo, através da pele, a sabedoria contida em todos aqueles livros, mesmo sem os abrir.
Mark Twain

Você nunca poderá ter uma xícara de chá grande o suficiente, ou um livro longo o suficiente.
C. S. Lewis

Nunca confie em ninguém que não trouxe um livro consigo.
Lemony Snicket

Se há um livro que você queira ler, mas ainda não foi escrito, então você deve escrevê-lo.
Toni Morrison

Há dois motivos para ler um livro; um, é o prazer em lê-lo; o outro, é a possibilidade de melhorá-lo.
Bertrand Russell

Uma casa sem livros é como uma sala sem janelas.
Heinrich Mann

Há livros que devem ser provados, outros devorados, mas só alguns devem ser mastigados e digeridos.
Cornelia Funke

A ficção revela a verdade que a realidade esconde.
Jessamyn West

Há crimes piores do que queimar livros. Um deles é não lê-los.
Joseph Alexandrovitch Brodsky

Os livros servem para mostrar para um homem que aqueles seus “pensamentos originais”, não são tão novos assim, afinal.

Abraham Lincoln

Se você tem um jardim e uma biblioteca, você tem tudo que precisa.

Marcus Tullius Cicero

domingo, 19 de setembro de 2010

NORMOSE

Recebi por email, de um amigo, e como achei muito interessante, vou partilhar convosco.

Entrevista do Professor Hermógenes, 86 anos, sobre uma palavra inventada por ele, que me pareceu muito procedente.
Ele disse que o ser humano está sofrendo de “Normose”, a doença de ser normal.

"Todo o mundo quer se encaixar num padrão, só que o padrão propagado não é exactamente fácil de alcançar.
O sujeito “normal” é magro, belo, alegre, sociável e bem sucedido. Bebe socialmente, está de bem com a vida, não pode parecer de forma alguma que está passando por algum problema.
Quem não se “normaliza”, quem não se encaixa nesses padrões, acaba adoecendo.
A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não enquadramento.
A pergunta a ser feita é:
- Quem espera o quê de nós? Quem são esses ditadores de comportamento a quem estamos outorgando tanto poder sobre nossas vidas?
Eles não existem.
Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado.
Quem nos exige é uma colectividade abstrata que ganha “presença” através de modelos de comportamento amplamente divulgados.
Só que não existe lei que obrigue você a ser do mesmo jeito que todos, seja lá quem for todos.
Melhor se preocupar em ser você mesmo.
A “Normose” não é brincadeira.
Ela estimula a inveja, a auto depreciação e a ânsia de querer o que não se precisa.
- Você precisa de quantos pares de sapatos?
- Comparecer em quantas festas por mês?
- Pesar quantos quilos até o verão chegar?
- Frequentar terapeuta para bater papo?
Não é necessário fazer curso de nada para aprender a se desapegar de exigências fictícias.
Um pouco de auto estima basta.
Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras bovinamente, e sim aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo. Criaram o seu “normal” e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não passaram adiante.
O “normal” de cada um tem que ser original.
Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros.
É fraude.
E uma vida fraudulenta faz sofrer demais.
Eu simpatizo cada vez mais com aqueles que lutam para remover obstáculos mentais e emocionais, e para viver de forma mais íntegra, simples e sincera. Para mim são os verdadeiros “normais” porque não conseguem colocar máscaras ou simular situações.
Se parecem sofrer é porque estão sofrendo.
E se estão sorrindo é porque a alma lhes é iluminada.
Por isso divulgo o alerta: a “Normose” está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes.
Ser feliz é ser você mesmo, sofrendo ou sorrindo, pois esta vida é passageira e o importante é ter emoções claras e definidas".

Professor Hermógenes

José Hermógenes de Andrade Filho, nascido em Natal, Brasil, a 9 de Março de 1921,mais conhecido como Prof. Hermógenes, é um escritor, professor e divulgador brasileiro de hatha ioga.*

*(O hata-ioga (Hatha Yoga) é uma forma de ioga pré-clássico).

O Professor Hermógenes , foi o pioneiro em Medicina Holística no Brasil. Dedica-se ao crescimento espiritual dos seres humanos.

É doutorado em Yogaterapia pelo World Development Parliament da Índia e é Doutor Honoris Causa pela Open University for Complementary Medicine.
Escolhido o Cidadão da Paz do Rio de Janeiro, em 1988, o Professor Hermógenes recebeu a Medalha Tiradente em 8 de maio de 2000.

domingo, 12 de setembro de 2010

AS DROGAS



De acordo com o prometido no domingo passado, hoje vou partilhar convosco o segundo ponto das minhas duas principais preocupações no início do ano escolar.
Como já disse considero o problema das drogas bastante grave e de muito difícil solução.
Analisemos um pouco o percurso desta “chaga social”:
Este terrível mal que aflige a humanidade dos nossos dias, a toxicodependência – não é de agora.
Na realidade o uso de drogas remonta a tempos muito antigos.

As narrativas dos bacanais de Dionísio, as célebres festas e orgias de César, na antiga Roma, referem o uso de substâncias intoxicantes.

As antigas civilizações asiáticas extraíam o ópio da papoila; os incas usavam a coca, que retiravam das folhas do arbusto com o mesmo nome, e utilizavam como estimulante.

Aquando da chegada dos espanhóis àquele território, já os astecas, no México, mascavam um cacto de sabor amargo a que se chamou mescalina, que lhes provocava visões fantásticas.

Cerca de mil anos antes de Cristo os hindus consideravam a canábis uma planta sagrada, pelos efeitos que produzia.

Contudo, foi no Sec.XX que o uso de todos esses produtos mais se desenvolveu e disseminou.

E chegamos aos dias de hoje com um gravíssimo problema, de difícil resolução, e cujo fim não está à vista.
Com tanta informação existente, o que pode levar os jovens de hoje a drogarem-se?
Os entendidos referem que são muitos os motivos que os levam a iniciar-se nas drogas, desde a simples curiosidade ao receio de serem excluídos dum determinado grupo a que gostariam de pertencer.
Um dos principais atractivos é o prometido prazer imediato em discotecas ou outros centros de diversão. Há ainda o factor de problemas familiares.
Daí à dependência total é um salto muito curto.

Há quem defenda que a dependência é inata: o indivíduo nasce ou não adicto. Isso explicaria casos que todos nós conhecemos de jovens que, nascidos dos mesmos pais, vivendo sempre no mesmo ambiente, recebendo o mesmo tipo de educação, uns se tornem dependentes de drogas e outros não. Pessoalmente conheço vários casos assim.
Depois da dependência instalada só uma grande força de vontade e a ajuda de técnicos especializados poderão reverter a situação.
Torna-se, por isso, urgente investir a fundo na prevenção.
Pais, avós, outros familiares e amigos podem e devem ter um papel muito importante neste campo de acção.
Esclarecer os jovens mais desprevenidos, mostrar exemplos, fazer circular informação. E sobretudos alertá-los para o perigo duma primeira vez, a tal curiosidade da experiência que tantas vezes é fatal.

Para terminar, aprecie o poema de Marcial Salaverry, poeta com vasta obra publicada, inspirado no depoimento de um rapaz de 23 anos, já no estádio terminal de dependência, recolhido ao vivo na sua cama do hospital.


NÃO ÀS DROGAS

“Adopte seu filho, antes que um traficante o faça…”

Por um fui adoptado, para minha desgraça.

Tenho que dizer não às drogas
,
pois já nem sei quem sou…
Vou pelo mundo, todo imundo.

Que faço aqui?

As pessoas passam por mim, e não me olham.

Enfim, só ocupo um lugar…
Vivo drogado, sou um viciado.
Minha vida desgraçada, pelo vício atrapalhada,

totalmente perdida.
Atrapalho a passagem,
perdido na viagem,
em que eu mesmo embarquei…

sumido na voragem de tudo que me cerca.
Ver-me não quero.
Se me vejo, me desespero.

Cansei…perco-me no mundo, que continua imundo…
Não consigo dizer não às drogas.
E a droga, transformou a vida numa droga…


Marcial Salaverry

domingo, 5 de setembro de 2010

REGRESSOS

Depois de três semanas de férias, duas das quais passadas numa praia maravilhosa,

em que a temperatura da água é cálida, e se pode permanecer à beira mar confortavelmente instalados em cadeiras de praia,

refrescar os pesinhos acalorados,

dar um belo passeio de “gaivota”,

e, ao fim do dia, o imprescindível banho nas salsas ondas,

depois de tudo isto, cá estou de novo para mais uma etapa.

O meu regresso à blogosfera coincide com o “regresso às aulas”.
Nesta época do ano há sempre dois aspectos que, na minha qualidade de avó, me causam grande apreensão:

- O uso das mochilas às costas
- As drogas

Penso que estas preocupações referentes às crianças serão comuns a quem tem filhos e netos em idade escolar, o que me leva a partilhá-las convosco.
No que diz respeito às mochilas, já que, infelizmente, passou de moda, o uso das que tinham rodinhas e não eram prejudiciais à saúde, há que ter um certo cuidado na aquisição da mochila que as crianças irão transportar às costas, a maioria das vezes com um peso largamente superior ao que seria aconselhável.
É nosso dever tentar minimizar os danos que a mochila, inadequada, pode provocar na coluna vertebral da criança.

Escolha um modelo confortável, anatómico, do tamanho adequado à estatura da criança, com alças largas, em que as mesmas, e também as costas, sejam acolchoadas, e que não seja demasiado pesado.
Uma mochila, vazia, não deve pesar mais que meio quilo; e depois de cheia, com o material necessário para as aulas, não deve ultrapassar 10% do peso corporal da criança.
Para isso verifique, com o seu filho, que ele apenas leva, na mochila, coisas de que vai, realmente, precisar.
Ao arrumar o material na mochila, coloque os objectos mais pesados e volumosos (geralmente, os livros) na vertical, o mais próximo possível das costas. O peso deve estar bem repartido, colocando as alças da mochila nos dois ombros. Para poupar as costas nunca se deve levar a mochila pela mão ou num só ombro (como tantas crianças fazem).
Ajuste as alças para que a mochila fique sempre acima das ancas.
As alças devem ter, pelo menos, 4 centímetros de largura na zona dos ombros, e não devem estar muito juntas, (para que não rocem no pescoço da criança) nem muito afastadas (para que não caiam dos ombros). Devem ser reguláveis para que se possa ajustar bem a mochila às costas da criança.

Um cinto regulável ao nível da cintura é útil pois evita que a mochila oscile, ajudando a repartir o peso entre os ombros e a zona lombar.
Estes são pequenos conselhos que podem fazer com que o regresso às aulas não implique uma sobrecarga para as costas dos vossos filhos.

Obs. Escrevi este texto sobre mochilas com base em informações colhidas em vários sites da Net.

O segundo ponto, as drogas, é bastante mais grave, e de muito mais difícil solução.
Para não tornar este post demasiado extenso deixaremos este assunto para o próximo domingo.

Por último, mas nem por isso menos importante, quero agradecer a todos que me visitaram e comentaram. Retribuirei todas as visitas tão breve quanto possível.
Obrigada!

domingo, 8 de agosto de 2010

DESPEÇO-ME ATÉ SETEMBRO

Este é o último post que publico antes de me ausentar para férias, o que ocorrerá no próximo fim-de-semana, sábado ou domingo…

Voltaremos a “ver-nos” aqui, na “CASA”, no dia 5 de Setembro, se tudo correr como programado. Provavelmente publicarei ainda um post no LÍRIOS, na próxima quarta-feira.
Espero poder contar com a vossa boa memória para não me esquecerem nestas duas/três semanas de ausência… ou pensarei que os vossos neurónios estão em baixo de forma. Vou deixar-nos numa companhia óptima – a de Carlos Drummond de Andrade, de quem sou fã declarada.

Carlos Drummond de Andrade é por demais conhecido para necessitar de apresentações. Por isso direi apenas que:
- Nasceu em Minas Gerais, na cidade de Itabira, em 31 de Outubro de 1902, e faleceu no Rio de Janeiro, a 17 de Agosto de 1987.
- Foi um poeta, contista e cronista brasileiro, tendo produzido uma das obras mais significativas da poesia brasileira do século XX.
Além de poesia, escreveu livros infantis, contos e crónicas.

- No mesmo ano em que publica a primeira obra poética, "Alguma poesia" (1930), o seu poema Sentimental é declamado na conferência "Poesia Moderníssima do Brasil", feita no curso de férias da Faculdade de Letras de Coimbra, pelo professor da Cadeira de Estudos Brasileiros, Dr. Manoel de Souza Pinto, no contexto da política de difusão da literatura brasileira nas Universidades Portuguesas.

E agora retiro-me, deixando-vos na companhia do Grande Drummond.

AS MULHERES SÃO FANTÁSTICAS

A Mãe e o Pai estavam a ver televisão, quando a Mãe disse:
- Estou cansada e já é tarde. Vou-me deitar!
Foi à cozinha fazer as sandes para o lanche do dia seguinte na escola, passou água nas taças das pipocas, tirou a carne do congelador para o jantar do dia seguinte, confirmou se as caixas dos cereais estavam vazias, encheu o açucareiro, pôs tigelas e talheres na mesa e preparou a cafeteira do café para estar pronta para ligar no dia seguinte.

Pôs ainda umas roupas na máquina de lavar, passou uma camisa a ferro, pregou um botão que estava a cair. Guardou umas peças de jogo que ficaram em cima da mesa.
Regou as plantas, despejou o lixo, e pendurou uma toalha para secar.
Bocejou, espreguiçando-se, e foi para o quarto.
Parou ainda no escritório e escreveu uma nota para o Professor do filho, pôs num envelope junto com o dinheiro para pagamento de uma visita de estudo, e apanhou um caderno que estava caído debaixo da cadeira.
Assinou um cartão de aniversário para uma amiga, selou o envelope, e fez uma pequena lista para o supermercado. Colocou-os ambos perto da carteira.
Nessa altura o Pai disse, lá da sala:
- Pensei que tinhas ido deitar-te!...
- Estou a caminho – respondeu ela.

Pôs água na tigela do cão e chamou o gato para dentro de casa.
Certificou-se de que as portas estavam fechadas.
Espreitou para o quarto de cada um dos filhos, apagou a luz do corredor, pendurou uma camisa, atirou umas meias para o cesto de roupa suja e conversou um bocadinho com o mais velho que ainda estava a estudar no quarto.
Já no seu quarto, acertou o despertador, preparou a roupa para o dia seguinte e arrumou os sapatos. Depois lavou o rosto, pôs creme, escovou os dentes e acertou uma unha quebrada.
A essa altura, o pai desligou a televisão e disse: “Vou-me deitar”. E foi. Sem mais nada.

Notaram aqui alguma coisa de extraordinário?

Ainda perguntam por que é que as mulheres vivem mais... e são tão MARAVILHOSAS?

PORQUE SÃO MAIS FORTES… FEITAS PARA RESISTIR…

Conte essa história às mulheres fantásticas que conhece. Elas vão adorar!

E para aos homens também: pode ser que eles percebam alguma coisa...
“Existem muitos motivos para não se amar uma pessoa, mas apenas um para amá-la”.

Carlos Drummond de Andrade

(31.10.1902- 17.08.1987)

domingo, 1 de agosto de 2010

QUATRO MESES

Outro dia foi o aniversário da partida de uma senhora por muitos conhecida e muito querida.
Algum tempo antes, chegando de uma das dezenas de consultas médicas que já fizera, ela disse aos familiares:
- Pedi franqueza à junta médica que me examinou, pedi-lhes que não me poupassem de saber a verdade sobre meu estado de saúde.
Eu sinto que me resta pouco tempo.

Diante dos olhares ansiosos, ela continuou:
- Eles me revelaram que sou portadora de uma moléstia incurável e que minha previsão de vida é de aproximadamente 4 meses.
- E a senhora nos conta isso com essa naturalidade ? - perguntou uma das filhas, em prantos.
Continuou a senhora, com muita serenidade:
- Ora, eu tenho um bom tempo para fazer tudo que já devia ter feito há muito:
- Arrumarei todos os meus armários, guardarei o que realmente uso e o resto jogarei fora ou doarei a quem precisa.
- Colocarei belas cortinas em todas as janelas e elas me impedirão de ficar olhando a vida alheia.
- Todos os dias tirarei o pó da casa e, durante esse trabalho, pensarei: - Estou me livrando das sujeiras que guardei do passado
- Evitarei ouvir e assistir a más notícias e alimentarei o meu espírito com leituras saudáveis, conversas amigáveis, dispensarei fofocas e não criticarei a mais ninguém.
- Pensarei naqueles que já me magoaram e, com sinceridade, os perdoarei.
- Todas as noites agradecerei a Deus por tudo que estarei conseguindo fazer nestes últimos 4 meses que me restam.
- Todas as manhãs, ao acordar, perguntarei a mim mesma: - O que posso fazer para tornar o dia de hoje um dia melhor?
- E farei de tudo para transmitir felicidade àqueles que de mim se aproximarem.
- E a cada dia que passar farei pelo menos uma boa ação.

Quatro meses são mais de 120 dias, portanto, quando eu fechar os olhos para nunca mais abri-los, eu terei feito no mínimo 120 boas ações.

Todos que a ouviam, pouco a pouco se retiraram dali, indo cada um para um canto, para chorar sozinho.
A mulher ali ficou e nos seus olhos havia um brilho de alegria.
Pensava consigo mesma:
- " não posso curar meu corpo, mas posso mudar a vida que me resta "
Ela tinha uma grande tarefa: transformar seu mundo interior, tornar-se uma pessoa totalmente diferente do que já fora. Em apenas 4 meses ela conseguiu cumpri-la plenamente.
O mais curioso dessa história é que, após a notícia dada aos familiares, ela viveu mais 23 anos.
Ela curou a sua própria alma e sua moléstia desapareceu; ela morreu de velhice.

Silvia Schmidt


Silvia Schmidt é conhecida na Internet pelo nickname "Humancat". Natural de São Paulo, Capital, é professora de Português, Inglês e Literatura. É formada pela Universidade de São Paulo.
Com centenas de mensagens em PPS e páginas na internet, Silvia é, sem dúvida, uma das poetisas brasileiras contemporâneas mais lidas do mundo virtual.

domingo, 25 de julho de 2010

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE – (3/02)

O Francisco

Em frente à nossa casa, do lado de lá da estrada, a seguir ao “campo de batalha” dos cães, há um declive que termina junto ao mar.
Ali existe a “pomposamente” chamada Praia da Matiota.
Na realidade não há qualquer porção de areia, o que se pressupõe quando se usa o termo “praia”. Há apenas uns quantos rochedos com acesso ao mar, no qual, em dias de semana, damos agradáveis mergulhos.
Esta é a nossa praia de semana.

Estendemos as toalhas sobre os penedos e aí tomamos o nosso banho de sol.

Temos outra praia, muito boa, para os domingos… a Baía das Gatas. Noutra altura falaremos dela.

Aqui são as mulheres que trabalham nas casas dos “senhores do continente”.
Parecendo fazer parte da mobília, já se encontrava na casa uma cozinheira, uma mulher simpática, que, vim a descobrir, tinha um coração do tamanho do mundo.
Bondosa, extremamente carinhosa com as crianças, gostava muito de animais. Em pouco tempo trouxe-me para casa um cachorro, ainda pequeno, que conservei até regressar.
Nessa altura levou-o para sua casa. Com aquele enorme coração tinha mesmo que o adoptar, não o podia abandonar.

Nas traseiras havia um pátio murado, com umas casotas onde se podiam criar animais – galinhas, patos, talvez coelhos.
Luísa, a cozinheira, pediu-me para criar galinhas. Algum tempo depois havia uma quantidade de pintainhos, parecendo novelos de algodão, passeando pelo pátio, acompanhados da mãe galinha.

Crescem depressa, estes animaizinhos. Duas ou três semanas depois já não havia novelos de algodão, mas uns frangotes de pernas exageradamente altas para o corpo, onde despontavam penas de cores variadas.
Um dia a Luísa apareceu-me com um frangote nas mãos, dizendo:
- Senhora, este está doente, vai morrer.
- Mas que doença é que ele tem? – perguntei.
- Não sei como se chama a doença, mas é devida ao frio; quando eles a apanham não se aguentam em pé.
E, dizendo isto, colocou o animal no chão. De imediato ele dobrou as pernas pelo meio, quase como se ficasse sentado com as pernas para a frente. Não conseguia manter-se de pé.
Agarrei-o, e senti-o frio.
- Coitadinho! Mas ele está mesmo gelado!

Eu costumava usar em casa umas saias com uns bolsos grandes, que serviam para ir guardando pequenas peças dos brinquedos que as crianças deixavam caídas aqui e ali.
Meti o franguinho dentro do bolso, encostado ao meu corpo. Algum tempo depois já não estava tão frio.
À noite meti-o dentro duma caixa pequena, aconchegado num pano quente.

Apliquei-lhe este “tratamento” uma semana, talvez um pouco mais: de dia no meu bolso, à noite na caixa.

E o milagre (do calor, penso eu) aconteceu: o franguinho recuperou a saúde e tinha as pernas mais fortes de todos.

Entretanto tinha-o “baptizado” de Francisco.
Acreditem, se quiserem. Depois que saiu do meu bolso, o Francisco passou a seguir os meus passos por toda a casa, e à noite encaminhava-se prontamente para a sua “cama”, que estava, naturalmente, no meu quarto.

Fez-se um galo lindo, o Francisco! Com penas lustrosas, que pareciam envernizadas, um ar altaneiro, era mesmo o rei da capoeira!

Quando regressei ofereci-o à Luísa.

domingo, 18 de julho de 2010

CARTA PARA JOSEFA

Completa-se hoje, dia 18 de Julho, um mês sobre a morte de José Saramago.
À data do seu falecimento abstive-me de publicar qualquer notícia sobre o Nobel da Literatura Português. Muitos blogs o fizeram, muitos foram os comentários que fiz nalguns desses mesmos blogs.
Passados estes trinta dias apraz-me relembrar aquele que é considerado um dos maiores, senão o maior, escritor de língua portuguesa.
Nesse sentido lembrei-me de partilhar convosco um texto, talvez dos menos conhecidos de Saramago, que tem por título

“Carta a Josefa, minha avó”

Avó Josefa e Avô Jerónimo, no dia do nascimento do seu neto mais novo, José Saramago



Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.

José Saramago, in “Deste Mundo e do Outro”


Saramago, aos 76 anos de idade, recebe o Prêmio Nobel das mãos do rei da Suécia.
Estocolmo, 1998

domingo, 11 de julho de 2010

PARA INGLÊS VER

A maioria das pessoas já ouviu a expressão “para inglês ver”, mas, provavelmente, poucas saberão a sua origem.
Veja a explicação que é apresentada como muito provável:

A origem deste ditado situa-se, quem diria, pela época da Abolição da Escravatura. Em termos geográficos, mais precisamente pertinho de Conservatória (RJ) na divisa de Minas Gerais com o Rio de Janeiro em Santa Rita de Jacutinga..
Pelo lado mineiro, nas margens do Rio Preto, existe uma secular Fazenda, a Santa Clara.

Sua sede majestosa (foto), entre outros detalhes arquitetônicos típicos da época relativa ao Ciclo do Café, conta com mais de 100 janelas voltadas para a sua fachada.
Pois bem, a Inglaterra era a maior credora da dívida externa brasileira e, pelo fato da abolição da escravatura no Brasil ter demorado por demais na sua finalização, segundo o gosto inglês, este país condicionou a continuidade dos negócios com os Tupiniquins à exigência de exterminação de quaiquer resquícios de escravidão humana.
A Fazenda Santa Clara foi alvo de uma severa fiscalização por parte da Coroa Inglesa que anunciara para breve uma vistoria nas suas instalações, mercê de denúncias de ainda praticar-se por lá o uso de mão de obra escrava e principalmente, pela existência de senzalas que continuavam a abrigar, agora clandestinamente, estes escravos.
Senzalas não tinham janelas e possuíam uma única entrada e só.
Aproximava-se a data prevista para a tão temida vistoria dos Ingleses.
Alguém teve, então, a idéia de desenhar várias janelas (umas abertas, outras fechadas e outras tantas semi-abertas), nas paredes frontais às senzalas.

Assim pensado, assim feito. O pessoal da fazenda tinha conhecimento que a comitiva dos auditores Ingleses passaria pela margem oposta do Rio Preto, no Rio de Janeiro, haja a vista que o acesso para Minas Gerais (margem da Fazenda Santa Clara) só poderia ser acessada em um local muito distante. Isto tomaria um tempo precioso e a Santa Clara não era a única a ser submetida a tal cometimento. Todas a fazendas da região de Vassouras, Barra do Piraí, Valença e Paraíba do Sul, ou quase todas, estavam incriminadas. Portanto a vistoria tinha que ser rápida;
E assim os Ingleses, na margem oposta do Rio, fiscalizaram a Fazenda Santa Clara e constataram que as reformas necessárias foram executadas. Não mais senzalas. Vistosas janelas foram colocadas no, antes, hediondo local, tornando-o humanizado segundo os padrões habitacionais.
Notava-se inclusive que algumas das janelas estavam entreabertas, permitindo uma ventilação refrescante ..

E agora você já sabe: -Toda vez que ouvir alguém dizer “isto é para inglês ver”, foi lá na Fazenda Santa Clara que tudo aconteceu. Se tiver oportunidade vá ao local e poderá ver as “janelas” perfeitamente colocadas.

M.Turbay (Vila Velha, ES, 01/01/2009)

História
A Fazenda Santa Clara foi construída a partir de 1760 pelo governador de Minas Gerais e a família Bustamante Fortes, de São João Del Rey.


O lugar é repleto de rituais, tais como: uma janela para cada dia do ano, ou seja, 365 janelas; a escada da oração "Pai Nosso", na qual o fiel subia rezando uma frase para cada degrau (acertando, podia fazer um pedido para Santa Clara e seria atendido); a prisão conserva até hoje os instrumentos de torturas, os troncos, marcas de unhas nas paredes (prova do padecimento dos escravos), a senzala com suas janelas pintadas para que a fazenda não perdesse a estética (não poderiam ser verdadeiras para não facilitarem a fuga dos cativos) e os salões com móveis portugueses e italianos da época. Tudo isso guarda a história dos tempos da colonização e da escravidão. A fazenda serve de palco para grandes produções da Rede Globo. Ali foi rodada a mini-série "Abolição" e também parte da novela "Terra Nostra", sendo cenário da fazenda de Gumercindo (Antôni Fagundes). Está aberta à visitação pública, acompanhada por um guia da fazenda, mostrando todo seu interior e contando toda a sua história.

domingo, 4 de julho de 2010

JÁ INAUGUREI O VERÃO

Não sei se convosco o verão já foi inaugurado (os residentes em Portugal; no Brasil começou há pouco o inverno)
Comigo, sim!
Para mim, inaugurar o verão significa praia, sol, areia, passeios à beira mar,

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uns belos mergulhos quando a água não está gelada ...Image and video hosting by TinyPic
Resumindo, tudo coisas agradáveis, que me dão muito prazer e me transmitem uma boa disposição que no inverno nem sempre me acompanha.
Tem apenas um pequenino contra: o tempo disponível para o computador fica substancialmente reduzido.
As visitas aos blogs amigos começam a rarear e a ser mais “a despachar”, mas isso não tem importância porque logo chega o inverno para serem recompensados.
Geralmente publico menos textos de minha autoria, recorrendo a autores diversos que merecem o meu respeito e admiração.
E porque o tempo é de boa disposição, vamos a um texto que acho incrivelmente engraçado, e que espero seja também do vosso agrado.
O autor é um dos meus predilectos (brasileiros)


INTERNET
- Zé, vem pra cama. São mais de três horas!
- Peraí Flavinha... Tô quase acabando...
- Essa coisa de Internet vai te deixar internado num manicômio!
- É pra faculdade. Trabalho de economia. Tô pesquisando em vários jornais do mundo é o Asahi Shimbun.
- Saúde!
- Saúde o que?
- Você espirrou.
- Não sacaneia! Asahi Shimbun é um jornal japonês!
- E desde quando você sabe ler aqueles pauzinhos?
- Essa edição está em inglês. E não são pauzinhos, são ideogramas.
- Quanta erudição!
- Para de perturbar e volta pra cama, senão a pesquisa não sai hoje..
- Como é que eu vou dormir com essa impressora fazendo tanto barulho?
- Tá eu desligo a impressora, passo tudo pro C e amanhã imprimo o resto.
- Passa PRA MIM o quê?
- Não é PARA VOCÊ, é para o C, que representa o HD onde a gente guarda tudo no computador... Ah esquece.
- Esquece por que? Você acha que eu sou burra demais pra aprender essas coisas?
- Não é isso. É que a gente precisa de um conhecimento específico pra entender o funcionamento dessas máquinas, e de mais a mais, a essa hora da madrugada não dá pra raciocinar direito. Vai pra cama.
- Zé... Só mais uma coisa rapidinho: como é que você consegue achar aí um jornal do Japão?
- Fácil Pelo Browse a gente entra em alguns sites que fazem o papel de catálogos e Home Pages. Você digita um nome ou um assunto e faz uma pesquisa...
-Traduz.
-Tem uns... Uns... Uns programas que têm todos os endereços de páginas na Internet.
- O que que é um BRAUSE? É grande?
- Ô Flávia, você vai sacanear ou prestar atenção?
- Cumé que eu vou entender essa língua que você tá falando? É bráulio,romipeige,saite...
- Não é bráulio: é Browse. E vê se cala essa boca e presta um pouquinho de atenção. Tem uns programas que servem de catálogos, então a gente escolhe o assunto e pesquisa através do Browse, aí aparecem na tela os endereços e é só escolher um, clicar duas vezes em cima com o mouse que aparece a Home Page... A página que você quer.
- Página? Não é tela?
- A gente chama de página o programa que aparece na tela. Ou Home Page.
- Outra coisa: esse tal de brause dá só o endereço? A Internet não é pelo telefone?
- Ai meu cacete!
- Que grossura! Custa explicar?
- Endereço na Internet é um código que se digita para acessar as páginas.É claro que é por telefone. Agora chega! Não vou mais fazer pesquisa nenhuma. Deixa pra amanhã, que eu já enchi o saco. Aliás, amanhã eu juro:vou comprar um Pentium para deixar lá no escritório e.....
- Pra quê um pente no escritório? Você passou máquina zero no cabelo ontem...!!!
- Vai pra "PQP"...

(Luis Fernando Verissimo)

domingo, 27 de junho de 2010

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE (1/03)


ACÇÃO SOCIAL

Poucos meses depois de aqui chegarmos consegue-se uma casa com meia dúzia de quartos para onde se mudam as famílias. Funciona como messe.
A cada casal é atribuído um quarto, maior ou menor consoante o número de filhos.
Uma pequena cozinha serve apenas para preparar comida para os mais pequeninos.
As refeições são tomadas numa sala separada da casa, que tem as paredes de rede por causa dos mosquitos e outros insectos que, à noite, aparecem aos milhares, atraídos pela luz.
Aqui comem não só as famílias mas também os solteiros. É uma sala espaçosa que comunica, por um passadiço coberto, com uma enorme tenda onde funciona a cozinha. Aí, um cozinheiro e dois ajudantes, preparam a comida para vinte ou trinta pessoas.
Estamos bem situados. A uns quinhentos ou seiscentos metros encontra-se a praia. Atravessamos um capinzal, e deparamo-nos com um areal extenso, de areia branca e fina, e uma água maravilhosa, de temperatura agradável, onde mergulhamos uma e outra vez,



e as crianças se divertem em segurança.



Com os homens todo o dia ocupados nas suas acções, as mulheres passam os dias cuidando dos filhos. Dos trabalhos domésticos, que se resumem a pouco mais do que tratar das roupas, já que vivemos numa espécie de comunidade, tratam os criados.
Deste modo, temos muito tempo livre – tratar das crianças não ocupa o dia todo.
Há dias estávamos a conversar e surgiu-nos a ideia de fazer como que um complemento à acção dos homens – prestar assistência aos necessitados.
Perante alguma surpresa nossa, os homens concordam com a ideia.
Recorremos a quem de direito para nos arranjar transporte a fim de visitarmos as senzalas. Foi posto à nossa disposição um jipe com motorista, que, nas picadas esburacadas, nos faz bater com a cabeça na capota.



Mas, todas jovens e imbuídas duma enorme vontade de colaborar, não são uns miseráveis buracos que nos vão fazer desistir.
A primeira coisa a fazer é tentar arranjar ajuda, de preferência em dinheiro, para comprar o necessário (mantimentos, medicamentos, eventualmente roupa para os bebés) para distribuir pelos necessitados.
Esta é a parte mais difícil e custosa, e só o nosso espírito de jovens com grande vontade de socorrer quem precisa nos dá força para a enfrentar.
Percorremos as ruas da cidade batendo às portas das casas, explicando ao que vamos, qual o nosso propósito, pedindo, enfim, uma ajuda.
Se há pessoas, (a maioria, felizmente) que nos recebem bem, compreendem os nossos motivos e nos dão o que podem ou querem, outras há que chegam a ser malcriadas. Houve um homem que foi especialmente mal-educado, dizendo-nos que “fôssemos mas é para casa cuidar dos maridos”, e “esses madraços (referia-se aos pretos) que vão mas é trabalhar”.
No final, o saldo é positivo.
Depois de nos abastecermos do que sabíamos que eles mais apreciavam – sal, por exemplo, que eles têm dificuldade em conseguir – percorremos as senzalas, vendo quem é mais pobre e precisa de auxílio, assim como verificando se há doentes.
Uma das componentes do grupo é enfermeira e sabe, melhor do que nós, detectar a doença e calcular a sua gravidade.
Levamos connosco aqueles medicamentos mais básicos, como aspirina ou qualquer outro analgésico. Para os outros casos falamos depois com o médico, explicando os sintomas, e no dia seguinte levamos os medicamentos que ele indica. Em casos mais graves, raros, levamos o doente para o hospital, cujo director faz o favor de apoiar a nossa causa.
Um dia encontramos um homem doente, já velhote, com cabelos brancos, a quem perguntamos quantos anos tem:
- Não sabe, senhora. Tem muitosssssssss!
De seguida pedimos que nos diga o que sente, o que o incomoda, e ele lá explica o melhor que sabe. É um dos tais casos que teremos que relatar ao médico. Este aconselha um medicamento em supositórios que, no dia seguinte, levamos à palhota.
E agora, como explicar ao homem como tomar, ou antes, não tomar ;) os supositórios? Foi complicado. Empurramos umas para as outras, até que decidimos, por unanimidade, eleger a enfermeira para executar essa tarefa.
Ela procurou escusar-se mas por fim teve que o fazer. Experimentou mil gestos, mas o velhote não dava sinais de estar a compreender. Foi salva por uma criancinha pequena que apareceu. Agarrou-a rapidamente, pô-la sobre os joelhos com o rabito voltado para cima, e indicou ao velhote onde deveria colocar o supositório.
Mas não se esqueceu de frisar que não era na criança, mas sim nele, que os devia aplicar.
O velhote abriu a boca desdentada numa enorme gargalhada.
Acabámos todas a rir.

domingo, 20 de junho de 2010

FIM DOS PROFESSORES



Embora o tema “Educação” me seja particularmente caro, há bastante tempo – uns largos meses – que não o trago a este espaço. Mas agora, que o ano escolar está no seu término, parece-me relevante fazermos uma pequena e despretensiosa reflexão.
Com a remodelação do governo, em Outubro passado, e a nomeação da nova Ministra da Educação, Isabel Alçada, nasceu, nalguns professores, a esperança de que haveria mudanças que conduziriam a melhores condições educativas e consequentes resultados escolares.
Essa esperança foi esmorecendo com o passar dos dias, em que nada de positivo “saía” do ministério; nalguns casos, até, será a machadada final nas suas esperanças, o projecto de lei que permite “aos alunos que frequentem o 8º.ano e tenham completado já 15 anos de idade, transitarem directamente para o 10º.ano, sem passagem pelo 9º.ano, apenas, talvez (disto não tenho a certeza) tendo que prestar uma qualquer prova”.
Penso que isto será a preparação para um futuro que se avizinha, em que os professores serão absolutamente dispensáveis, e, aos poucos, dispensados.
Convido-vos a apreciarem, comigo, esta visão do futuro:

Fim Dos Professores

A cena passa-se por volta de 2210, ou seja, dentro de duzentos anos, o que equivale a, apenas, umas 10 gerações.
(Em Educação, geração é o nome dado ao conjunto de estudantes que iniciam ou terminam os seus estudos numa mesma data).
Estamos, portanto, em 2210, quando um menino pergunta:

- Vovô, porque é que o mundo está acabando?
O avô responde, calmamente:
- Porque já não existem PROFESSORES, meu anjo.
– Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor?

O velho responde, então, que professores eram homens e mulheres elegantes e dedicados, que se expressavam sempre de maneira muito culta e que, há muitos anos atrás, transmitiam conhecimentos e ensinavam as pessoas a ler, falar, escrever, comportar-se, localizar-se no mundo e na história, entre muitas outras coisas. Principalmente, ensinavam as pessoas a pensar.

– Eles ensinavam tudo isso? Mas eles eram sábios?
– Sim, ensinavam, mas não eram todos sábios. Apenas alguns, os grandes professores, que ensinavam outros professores, e eram amados pelos alunos.
– E como foi que eles desapareceram, vovô?
– Ah, foi tudo parte de um plano secreto e genial, que foi executado, aos poucos, por alguns vilões da sociedade. O vovô não se lembra bem do que surgiu primeiro, mas, sem dúvida, os políticos ajudaram muito.
Eles acabaram com todas as formas de avaliação dos alunos, apenas para mostrar estatísticas de aprovação. Assim, sabendo ou não sabendo alguma coisa, os alunos eram aprovados. Isso liquidou o estímulo para o estudo e apenas os alunos mais interessados conseguiam aprender alguma coisa.

Depois, muitas famílias estimularam a falta de respeito pelos professores, que passaram a ser vistos como empregados dos seus filhos.
Estes foram ensinados a dizer:
- Eu estou pagando e você tem que me ensinar, ou
- Para quê estudar se o meu pai não estudou e ganha muito mais do que você?”- ou ainda

- O meu pai dá-me mais de mesada do que você ganha num mês.
Isso quando não iam os próprios pais gritar com os professores nas escolas. Para isso muito ajudou a multiplicação de escolas particulares, as quais, mais interessadas nas mensalidades que na qualidade do ensino, quando recebiam reclamações dos pais, pressionavam os professores, dizendo que eles não estavam conseguindo “gerenciar a relação com o aluno”.
Os professores eram vítimas de violência – física, verbal e moral – que lhes era destinada por pobres e ricos. Transformaram-se em “saco de pancada” de toda a gente.
Além disso, qualquer proposta de ensino sério e inovador sempre esbarrava na obsessão dos pais pela a aprovação dos filhos, quer fosse nas Faculdades, nas básicas ou nas secundárias.
- Eu quero saber se isso que vocês estão ensinando vai fazer o meu filho passar de ano - diziam os pais nas reuniões com as escolas.
E assim, praticamente todo o ensino foi orientado para os alunos passarem ano após ano. Lá se foi toda a aprendizagem de conceitos; as discussões de ideias, tudo, enfim, se resumiu ao decorar de fórmulas. Com a Internet, os trabalhos escolares e as fórmulas ficaram acessíveis a todos, e nunca mais ninguém precisou de ir à escola para estudar a sério.
Em seguida, os professores foram desmoralizados. Os seus salários foram gradativamente sendo esquecidos e ninguém mais queria dedicar-se à profissão. Quando alguém criticava a qualidade do ensino, sempre vinha algum tonto dizer que a culpa era do professor.
As pessoas também se tornaram descrentes da educação, pois viam que as pessoas “bem sucedidas” eram políticos e empresários que os financiavam, modelos, jogadores de futebol, artistas de novelas da televisão, sindicalistas – enfim, pessoas sem nenhuma formação especial ou contribuição real para a sociedade.

Ah, mas estava a esquecer-me de um factor chave nessa história toda.
Houve uma época longa chamada ditadura; os militares colocaram os professores “debaixo de olho” e quase acabaram com eles. Foram perseguidos, aposentados, expulsos do país, em nome do combate aos subversivos e à instalação de uma república sindical no país.
Eles fracassaram, porque essa tal república sindical se instalou, os tais subversivos tomaram o poder, implantaram uma tal de “educação libertadora” que nunca ninguém soube o que é, e fizeram a aprovação automática dos alunos com apoio dos políticos... Foi o tiro de misericórdia nos professores.
Não sei o que foi pior –se os militares se os tais subversivos.

– Militar? Não conheço essa palavra. O que é um militar, vovô?

– Era, meu filho, era; agora já não é. Também já não existem...