A CASA DA MARIQUINHAS
APRENDER A LER
Tive, há anos, uma empregada doméstica que era analfabeta. Não conhecia uma letra, nem que fosse, como se costuma dizer, do tamanho de um boi!Como trabalhava interna na minha casa, onde tinha, como também se costuma dizer, cama, mesa e roupa lavada, não gastava praticamente nenhum dinheiro do seu salário, pelo que, em breve, tinha “uns tostões” amealhados.
A certa altura pensou - no que teve todo o meu apoio – que seria interessante abrir uma conta no Banco para lá depositar o seu dinheirito.
Fui ao Banco buscar os impressos para preencher, e nessa altura é que me lembrei que a Lina não sabia assinar.
Para não passar pela vergonha de colocar, no local da assinatura, a sua impressão digital, decidimos que eu iria ensiná-la a ler e escrever.
Em criança, na idade escolar, frequentara a Escola na sua terra natal, Cabo Verde. Mas não conseguira aprender absolutamente nada. Como já disse, não distinguia o “A” do “B”.
Isto causava-me uma certa estranheza porque ela revelava bastante inteligência para aprender os trabalhos domésticos. Quando veio para minha casa tinha uns conhecimentos bastante rudes do que seriam as suas tarefas; contudo rapidamente aprendeu, e executava-os na perfeição. Inclusivamente quis aprender a cozinhar. Ensinei-a com todo o gosto, e até mesmo receitas que obedeciam a quantidades certas, ela decorava-as (sabia-as de cor) e não tinha qualquer dificuldade em fazê-las.
Pensei, portanto, que o seu analfabetismo se devesse, em parte, a falta de jeito da professora – talvez não tivesse descoberto o modo certo de a ensinar…, ou a grande quantidade de alunos não lhe deixasse tempo para lhe dedicar maior atenção, que talvez a aluna necessitasse.
Foi, pois, com algum entusiasmo que iniciei a tarefa que, a breve trecho, veio a revelar-se árdua!
Sempre que tínhamos algum tempo livre lá ia a boa da Lina buscar livro, caderno e lápis, para mais uma lição.
Não arrepelei os cabelos muitas vezes porque não sou dada a essas manifestações exteriores de fúria interior. Respirava fundo, muiiiiiito fundo (!!!), e arremetia de novo:
- Vamos lá mais uma vez. Isto é um…
- B – respondia a Lina, radiante, ao ver, na minha expressão, que tinha acertado. Acertado, sim, porque aquele B era atirado à sorte, e lá calhava acertar…
- E isto é um…
- A – A Lina rejubilava! Tinha acertado uma vez mais.
- Muito bem! Então… um B e um A lê-se…
- MI – respondia, mas logo entristecia ao ver, na minha cara, que uma vez mais tinha saído asneira.
Cenas idênticas repetiram-se lição após lição, até que um dia a Lina achou que o melhor seria apenas aprender a escrever o seu nome, para poder assinar o que fosse necessário.
Concordei de imediato, até porque os meus cabelos estavam a tornar-se brancos de dia para dia…
Começou então a enorme dificuldade de segurar convenientemente no lápis – só mais tarde iniciou a esferográfica.
É realmente extraordinário verificar que um gesto tão simples como segurar num lápis para escrever, para quem sabe fazê-lo, pode representar um esforço quase sobre-humano para um analfabeto.
Não se apresentou nada mais fácil aprender a escrever do que tinha sido aprender a ler, actividade que, entretanto, não tínhamos posto de parte – apenas lhe dávamos menos atenção do que à escrita.
Certo dia eu encontrava-me menos bem disposta do que habitualmente, e, perante mais uma calinada da Lina, juntei as mãos em atitude de reza, ergui os olhos ao céu, e disse:
- Ó Deus, dá-me paciência!
A Lina olhou para mim com atenção, e em seguida, com um certo ar de espanto, falou assim:
- Minha senhora tem coragem de pedir a Deus mais paciência do que minha senhora tem? Desculpa, senhora, mas isso é pecado!
Fiquei completamente desconcertada. Apeteceu-me abraçá-la e beijá-la por tanta ingenuidade. Mas limitei-me a engolir em seco, aclarar a voz, e dizer:
- Bem, bem, vamos lá continuar!
Demorou um certo tempo, mas alcancei a grande vitória de conseguir que a Lina passasse a assinar o seu nome.
Mariazita, Março de 2010


























Do blog "Álvaro Oliveira Poesia"
MUITO OBRIGADA, IRENE. DE CORAÇÃO, OBRIGADA!












