domingo, 5 de setembro de 2010

REGRESSOS

Depois de três semanas de férias, duas das quais passadas numa praia maravilhosa,

em que a temperatura da água é cálida, e se pode permanecer à beira mar confortavelmente instalados em cadeiras de praia,

refrescar os pesinhos acalorados,

dar um belo passeio de “gaivota”,

e, ao fim do dia, o imprescindível banho nas salsas ondas,

depois de tudo isto, cá estou de novo para mais uma etapa.

O meu regresso à blogosfera coincide com o “regresso às aulas”.
Nesta época do ano há sempre dois aspectos que, na minha qualidade de avó, me causam grande apreensão:

- O uso das mochilas às costas
- As drogas

Penso que estas preocupações referentes às crianças serão comuns a quem tem filhos e netos em idade escolar, o que me leva a partilhá-las convosco.
No que diz respeito às mochilas, já que, infelizmente, passou de moda, o uso das que tinham rodinhas e não eram prejudiciais à saúde, há que ter um certo cuidado na aquisição da mochila que as crianças irão transportar às costas, a maioria das vezes com um peso largamente superior ao que seria aconselhável.
É nosso dever tentar minimizar os danos que a mochila, inadequada, pode provocar na coluna vertebral da criança.

Escolha um modelo confortável, anatómico, do tamanho adequado à estatura da criança, com alças largas, em que as mesmas, e também as costas, sejam acolchoadas, e que não seja demasiado pesado.
Uma mochila, vazia, não deve pesar mais que meio quilo; e depois de cheia, com o material necessário para as aulas, não deve ultrapassar 10% do peso corporal da criança.
Para isso verifique, com o seu filho, que ele apenas leva, na mochila, coisas de que vai, realmente, precisar.
Ao arrumar o material na mochila, coloque os objectos mais pesados e volumosos (geralmente, os livros) na vertical, o mais próximo possível das costas. O peso deve estar bem repartido, colocando as alças da mochila nos dois ombros. Para poupar as costas nunca se deve levar a mochila pela mão ou num só ombro (como tantas crianças fazem).
Ajuste as alças para que a mochila fique sempre acima das ancas.
As alças devem ter, pelo menos, 4 centímetros de largura na zona dos ombros, e não devem estar muito juntas, (para que não rocem no pescoço da criança) nem muito afastadas (para que não caiam dos ombros). Devem ser reguláveis para que se possa ajustar bem a mochila às costas da criança.

Um cinto regulável ao nível da cintura é útil pois evita que a mochila oscile, ajudando a repartir o peso entre os ombros e a zona lombar.
Estes são pequenos conselhos que podem fazer com que o regresso às aulas não implique uma sobrecarga para as costas dos vossos filhos.

Obs. Escrevi este texto sobre mochilas com base em informações colhidas em vários sites da Net.

O segundo ponto, as drogas, é bastante mais grave, e de muito mais difícil solução.
Para não tornar este post demasiado extenso deixaremos este assunto para o próximo domingo.

Por último, mas nem por isso menos importante, quero agradecer a todos que me visitaram e comentaram. Retribuirei todas as visitas tão breve quanto possível.
Obrigada!

domingo, 8 de agosto de 2010

DESPEÇO-ME ATÉ SETEMBRO

Este é o último post que publico antes de me ausentar para férias, o que ocorrerá no próximo fim-de-semana, sábado ou domingo…

Voltaremos a “ver-nos” aqui, na “CASA”, no dia 5 de Setembro, se tudo correr como programado. Provavelmente publicarei ainda um post no LÍRIOS, na próxima quarta-feira.
Espero poder contar com a vossa boa memória para não me esquecerem nestas duas/três semanas de ausência… ou pensarei que os vossos neurónios estão em baixo de forma. Vou deixar-nos numa companhia óptima – a de Carlos Drummond de Andrade, de quem sou fã declarada.

Carlos Drummond de Andrade é por demais conhecido para necessitar de apresentações. Por isso direi apenas que:
- Nasceu em Minas Gerais, na cidade de Itabira, em 31 de Outubro de 1902, e faleceu no Rio de Janeiro, a 17 de Agosto de 1987.
- Foi um poeta, contista e cronista brasileiro, tendo produzido uma das obras mais significativas da poesia brasileira do século XX.
Além de poesia, escreveu livros infantis, contos e crónicas.

- No mesmo ano em que publica a primeira obra poética, "Alguma poesia" (1930), o seu poema Sentimental é declamado na conferência "Poesia Moderníssima do Brasil", feita no curso de férias da Faculdade de Letras de Coimbra, pelo professor da Cadeira de Estudos Brasileiros, Dr. Manoel de Souza Pinto, no contexto da política de difusão da literatura brasileira nas Universidades Portuguesas.

E agora retiro-me, deixando-vos na companhia do Grande Drummond.

AS MULHERES SÃO FANTÁSTICAS

A Mãe e o Pai estavam a ver televisão, quando a Mãe disse:
- Estou cansada e já é tarde. Vou-me deitar!
Foi à cozinha fazer as sandes para o lanche do dia seguinte na escola, passou água nas taças das pipocas, tirou a carne do congelador para o jantar do dia seguinte, confirmou se as caixas dos cereais estavam vazias, encheu o açucareiro, pôs tigelas e talheres na mesa e preparou a cafeteira do café para estar pronta para ligar no dia seguinte.

Pôs ainda umas roupas na máquina de lavar, passou uma camisa a ferro, pregou um botão que estava a cair. Guardou umas peças de jogo que ficaram em cima da mesa.
Regou as plantas, despejou o lixo, e pendurou uma toalha para secar.
Bocejou, espreguiçando-se, e foi para o quarto.
Parou ainda no escritório e escreveu uma nota para o Professor do filho, pôs num envelope junto com o dinheiro para pagamento de uma visita de estudo, e apanhou um caderno que estava caído debaixo da cadeira.
Assinou um cartão de aniversário para uma amiga, selou o envelope, e fez uma pequena lista para o supermercado. Colocou-os ambos perto da carteira.
Nessa altura o Pai disse, lá da sala:
- Pensei que tinhas ido deitar-te!...
- Estou a caminho – respondeu ela.

Pôs água na tigela do cão e chamou o gato para dentro de casa.
Certificou-se de que as portas estavam fechadas.
Espreitou para o quarto de cada um dos filhos, apagou a luz do corredor, pendurou uma camisa, atirou umas meias para o cesto de roupa suja e conversou um bocadinho com o mais velho que ainda estava a estudar no quarto.
Já no seu quarto, acertou o despertador, preparou a roupa para o dia seguinte e arrumou os sapatos. Depois lavou o rosto, pôs creme, escovou os dentes e acertou uma unha quebrada.
A essa altura, o pai desligou a televisão e disse: “Vou-me deitar”. E foi. Sem mais nada.

Notaram aqui alguma coisa de extraordinário?

Ainda perguntam por que é que as mulheres vivem mais... e são tão MARAVILHOSAS?

PORQUE SÃO MAIS FORTES… FEITAS PARA RESISTIR…

Conte essa história às mulheres fantásticas que conhece. Elas vão adorar!

E para aos homens também: pode ser que eles percebam alguma coisa...
“Existem muitos motivos para não se amar uma pessoa, mas apenas um para amá-la”.

Carlos Drummond de Andrade

(31.10.1902- 17.08.1987)

domingo, 1 de agosto de 2010

QUATRO MESES

Outro dia foi o aniversário da partida de uma senhora por muitos conhecida e muito querida.
Algum tempo antes, chegando de uma das dezenas de consultas médicas que já fizera, ela disse aos familiares:
- Pedi franqueza à junta médica que me examinou, pedi-lhes que não me poupassem de saber a verdade sobre meu estado de saúde.
Eu sinto que me resta pouco tempo.

Diante dos olhares ansiosos, ela continuou:
- Eles me revelaram que sou portadora de uma moléstia incurável e que minha previsão de vida é de aproximadamente 4 meses.
- E a senhora nos conta isso com essa naturalidade ? - perguntou uma das filhas, em prantos.
Continuou a senhora, com muita serenidade:
- Ora, eu tenho um bom tempo para fazer tudo que já devia ter feito há muito:
- Arrumarei todos os meus armários, guardarei o que realmente uso e o resto jogarei fora ou doarei a quem precisa.
- Colocarei belas cortinas em todas as janelas e elas me impedirão de ficar olhando a vida alheia.
- Todos os dias tirarei o pó da casa e, durante esse trabalho, pensarei: - Estou me livrando das sujeiras que guardei do passado
- Evitarei ouvir e assistir a más notícias e alimentarei o meu espírito com leituras saudáveis, conversas amigáveis, dispensarei fofocas e não criticarei a mais ninguém.
- Pensarei naqueles que já me magoaram e, com sinceridade, os perdoarei.
- Todas as noites agradecerei a Deus por tudo que estarei conseguindo fazer nestes últimos 4 meses que me restam.
- Todas as manhãs, ao acordar, perguntarei a mim mesma: - O que posso fazer para tornar o dia de hoje um dia melhor?
- E farei de tudo para transmitir felicidade àqueles que de mim se aproximarem.
- E a cada dia que passar farei pelo menos uma boa ação.

Quatro meses são mais de 120 dias, portanto, quando eu fechar os olhos para nunca mais abri-los, eu terei feito no mínimo 120 boas ações.

Todos que a ouviam, pouco a pouco se retiraram dali, indo cada um para um canto, para chorar sozinho.
A mulher ali ficou e nos seus olhos havia um brilho de alegria.
Pensava consigo mesma:
- " não posso curar meu corpo, mas posso mudar a vida que me resta "
Ela tinha uma grande tarefa: transformar seu mundo interior, tornar-se uma pessoa totalmente diferente do que já fora. Em apenas 4 meses ela conseguiu cumpri-la plenamente.
O mais curioso dessa história é que, após a notícia dada aos familiares, ela viveu mais 23 anos.
Ela curou a sua própria alma e sua moléstia desapareceu; ela morreu de velhice.

Silvia Schmidt


Silvia Schmidt é conhecida na Internet pelo nickname "Humancat". Natural de São Paulo, Capital, é professora de Português, Inglês e Literatura. É formada pela Universidade de São Paulo.
Com centenas de mensagens em PPS e páginas na internet, Silvia é, sem dúvida, uma das poetisas brasileiras contemporâneas mais lidas do mundo virtual.

domingo, 25 de julho de 2010

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE – (3/02)

O Francisco

Em frente à nossa casa, do lado de lá da estrada, a seguir ao “campo de batalha” dos cães, há um declive que termina junto ao mar.
Ali existe a “pomposamente” chamada Praia da Matiota.
Na realidade não há qualquer porção de areia, o que se pressupõe quando se usa o termo “praia”. Há apenas uns quantos rochedos com acesso ao mar, no qual, em dias de semana, damos agradáveis mergulhos.
Esta é a nossa praia de semana.

Estendemos as toalhas sobre os penedos e aí tomamos o nosso banho de sol.

Temos outra praia, muito boa, para os domingos… a Baía das Gatas. Noutra altura falaremos dela.

Aqui são as mulheres que trabalham nas casas dos “senhores do continente”.
Parecendo fazer parte da mobília, já se encontrava na casa uma cozinheira, uma mulher simpática, que, vim a descobrir, tinha um coração do tamanho do mundo.
Bondosa, extremamente carinhosa com as crianças, gostava muito de animais. Em pouco tempo trouxe-me para casa um cachorro, ainda pequeno, que conservei até regressar.
Nessa altura levou-o para sua casa. Com aquele enorme coração tinha mesmo que o adoptar, não o podia abandonar.

Nas traseiras havia um pátio murado, com umas casotas onde se podiam criar animais – galinhas, patos, talvez coelhos.
Luísa, a cozinheira, pediu-me para criar galinhas. Algum tempo depois havia uma quantidade de pintainhos, parecendo novelos de algodão, passeando pelo pátio, acompanhados da mãe galinha.

Crescem depressa, estes animaizinhos. Duas ou três semanas depois já não havia novelos de algodão, mas uns frangotes de pernas exageradamente altas para o corpo, onde despontavam penas de cores variadas.
Um dia a Luísa apareceu-me com um frangote nas mãos, dizendo:
- Senhora, este está doente, vai morrer.
- Mas que doença é que ele tem? – perguntei.
- Não sei como se chama a doença, mas é devida ao frio; quando eles a apanham não se aguentam em pé.
E, dizendo isto, colocou o animal no chão. De imediato ele dobrou as pernas pelo meio, quase como se ficasse sentado com as pernas para a frente. Não conseguia manter-se de pé.
Agarrei-o, e senti-o frio.
- Coitadinho! Mas ele está mesmo gelado!

Eu costumava usar em casa umas saias com uns bolsos grandes, que serviam para ir guardando pequenas peças dos brinquedos que as crianças deixavam caídas aqui e ali.
Meti o franguinho dentro do bolso, encostado ao meu corpo. Algum tempo depois já não estava tão frio.
À noite meti-o dentro duma caixa pequena, aconchegado num pano quente.

Apliquei-lhe este “tratamento” uma semana, talvez um pouco mais: de dia no meu bolso, à noite na caixa.

E o milagre (do calor, penso eu) aconteceu: o franguinho recuperou a saúde e tinha as pernas mais fortes de todos.

Entretanto tinha-o “baptizado” de Francisco.
Acreditem, se quiserem. Depois que saiu do meu bolso, o Francisco passou a seguir os meus passos por toda a casa, e à noite encaminhava-se prontamente para a sua “cama”, que estava, naturalmente, no meu quarto.

Fez-se um galo lindo, o Francisco! Com penas lustrosas, que pareciam envernizadas, um ar altaneiro, era mesmo o rei da capoeira!

Quando regressei ofereci-o à Luísa.

domingo, 18 de julho de 2010

CARTA PARA JOSEFA

Completa-se hoje, dia 18 de Julho, um mês sobre a morte de José Saramago.
À data do seu falecimento abstive-me de publicar qualquer notícia sobre o Nobel da Literatura Português. Muitos blogs o fizeram, muitos foram os comentários que fiz nalguns desses mesmos blogs.
Passados estes trinta dias apraz-me relembrar aquele que é considerado um dos maiores, senão o maior, escritor de língua portuguesa.
Nesse sentido lembrei-me de partilhar convosco um texto, talvez dos menos conhecidos de Saramago, que tem por título

“Carta a Josefa, minha avó”

Avó Josefa e Avô Jerónimo, no dia do nascimento do seu neto mais novo, José Saramago



Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.

José Saramago, in “Deste Mundo e do Outro”


Saramago, aos 76 anos de idade, recebe o Prêmio Nobel das mãos do rei da Suécia.
Estocolmo, 1998

domingo, 11 de julho de 2010

PARA INGLÊS VER

A maioria das pessoas já ouviu a expressão “para inglês ver”, mas, provavelmente, poucas saberão a sua origem.
Veja a explicação que é apresentada como muito provável:

A origem deste ditado situa-se, quem diria, pela época da Abolição da Escravatura. Em termos geográficos, mais precisamente pertinho de Conservatória (RJ) na divisa de Minas Gerais com o Rio de Janeiro em Santa Rita de Jacutinga..
Pelo lado mineiro, nas margens do Rio Preto, existe uma secular Fazenda, a Santa Clara.

Sua sede majestosa (foto), entre outros detalhes arquitetônicos típicos da época relativa ao Ciclo do Café, conta com mais de 100 janelas voltadas para a sua fachada.
Pois bem, a Inglaterra era a maior credora da dívida externa brasileira e, pelo fato da abolição da escravatura no Brasil ter demorado por demais na sua finalização, segundo o gosto inglês, este país condicionou a continuidade dos negócios com os Tupiniquins à exigência de exterminação de quaiquer resquícios de escravidão humana.
A Fazenda Santa Clara foi alvo de uma severa fiscalização por parte da Coroa Inglesa que anunciara para breve uma vistoria nas suas instalações, mercê de denúncias de ainda praticar-se por lá o uso de mão de obra escrava e principalmente, pela existência de senzalas que continuavam a abrigar, agora clandestinamente, estes escravos.
Senzalas não tinham janelas e possuíam uma única entrada e só.
Aproximava-se a data prevista para a tão temida vistoria dos Ingleses.
Alguém teve, então, a idéia de desenhar várias janelas (umas abertas, outras fechadas e outras tantas semi-abertas), nas paredes frontais às senzalas.

Assim pensado, assim feito. O pessoal da fazenda tinha conhecimento que a comitiva dos auditores Ingleses passaria pela margem oposta do Rio Preto, no Rio de Janeiro, haja a vista que o acesso para Minas Gerais (margem da Fazenda Santa Clara) só poderia ser acessada em um local muito distante. Isto tomaria um tempo precioso e a Santa Clara não era a única a ser submetida a tal cometimento. Todas a fazendas da região de Vassouras, Barra do Piraí, Valença e Paraíba do Sul, ou quase todas, estavam incriminadas. Portanto a vistoria tinha que ser rápida;
E assim os Ingleses, na margem oposta do Rio, fiscalizaram a Fazenda Santa Clara e constataram que as reformas necessárias foram executadas. Não mais senzalas. Vistosas janelas foram colocadas no, antes, hediondo local, tornando-o humanizado segundo os padrões habitacionais.
Notava-se inclusive que algumas das janelas estavam entreabertas, permitindo uma ventilação refrescante ..

E agora você já sabe: -Toda vez que ouvir alguém dizer “isto é para inglês ver”, foi lá na Fazenda Santa Clara que tudo aconteceu. Se tiver oportunidade vá ao local e poderá ver as “janelas” perfeitamente colocadas.

M.Turbay (Vila Velha, ES, 01/01/2009)

História
A Fazenda Santa Clara foi construída a partir de 1760 pelo governador de Minas Gerais e a família Bustamante Fortes, de São João Del Rey.


O lugar é repleto de rituais, tais como: uma janela para cada dia do ano, ou seja, 365 janelas; a escada da oração "Pai Nosso", na qual o fiel subia rezando uma frase para cada degrau (acertando, podia fazer um pedido para Santa Clara e seria atendido); a prisão conserva até hoje os instrumentos de torturas, os troncos, marcas de unhas nas paredes (prova do padecimento dos escravos), a senzala com suas janelas pintadas para que a fazenda não perdesse a estética (não poderiam ser verdadeiras para não facilitarem a fuga dos cativos) e os salões com móveis portugueses e italianos da época. Tudo isso guarda a história dos tempos da colonização e da escravidão. A fazenda serve de palco para grandes produções da Rede Globo. Ali foi rodada a mini-série "Abolição" e também parte da novela "Terra Nostra", sendo cenário da fazenda de Gumercindo (Antôni Fagundes). Está aberta à visitação pública, acompanhada por um guia da fazenda, mostrando todo seu interior e contando toda a sua história.

domingo, 4 de julho de 2010

JÁ INAUGUREI O VERÃO

Não sei se convosco o verão já foi inaugurado (os residentes em Portugal; no Brasil começou há pouco o inverno)
Comigo, sim!
Para mim, inaugurar o verão significa praia, sol, areia, passeios à beira mar,

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uns belos mergulhos quando a água não está gelada ...Image and video hosting by TinyPic
Resumindo, tudo coisas agradáveis, que me dão muito prazer e me transmitem uma boa disposição que no inverno nem sempre me acompanha.
Tem apenas um pequenino contra: o tempo disponível para o computador fica substancialmente reduzido.
As visitas aos blogs amigos começam a rarear e a ser mais “a despachar”, mas isso não tem importância porque logo chega o inverno para serem recompensados.
Geralmente publico menos textos de minha autoria, recorrendo a autores diversos que merecem o meu respeito e admiração.
E porque o tempo é de boa disposição, vamos a um texto que acho incrivelmente engraçado, e que espero seja também do vosso agrado.
O autor é um dos meus predilectos (brasileiros)


INTERNET
- Zé, vem pra cama. São mais de três horas!
- Peraí Flavinha... Tô quase acabando...
- Essa coisa de Internet vai te deixar internado num manicômio!
- É pra faculdade. Trabalho de economia. Tô pesquisando em vários jornais do mundo é o Asahi Shimbun.
- Saúde!
- Saúde o que?
- Você espirrou.
- Não sacaneia! Asahi Shimbun é um jornal japonês!
- E desde quando você sabe ler aqueles pauzinhos?
- Essa edição está em inglês. E não são pauzinhos, são ideogramas.
- Quanta erudição!
- Para de perturbar e volta pra cama, senão a pesquisa não sai hoje..
- Como é que eu vou dormir com essa impressora fazendo tanto barulho?
- Tá eu desligo a impressora, passo tudo pro C e amanhã imprimo o resto.
- Passa PRA MIM o quê?
- Não é PARA VOCÊ, é para o C, que representa o HD onde a gente guarda tudo no computador... Ah esquece.
- Esquece por que? Você acha que eu sou burra demais pra aprender essas coisas?
- Não é isso. É que a gente precisa de um conhecimento específico pra entender o funcionamento dessas máquinas, e de mais a mais, a essa hora da madrugada não dá pra raciocinar direito. Vai pra cama.
- Zé... Só mais uma coisa rapidinho: como é que você consegue achar aí um jornal do Japão?
- Fácil Pelo Browse a gente entra em alguns sites que fazem o papel de catálogos e Home Pages. Você digita um nome ou um assunto e faz uma pesquisa...
-Traduz.
-Tem uns... Uns... Uns programas que têm todos os endereços de páginas na Internet.
- O que que é um BRAUSE? É grande?
- Ô Flávia, você vai sacanear ou prestar atenção?
- Cumé que eu vou entender essa língua que você tá falando? É bráulio,romipeige,saite...
- Não é bráulio: é Browse. E vê se cala essa boca e presta um pouquinho de atenção. Tem uns programas que servem de catálogos, então a gente escolhe o assunto e pesquisa através do Browse, aí aparecem na tela os endereços e é só escolher um, clicar duas vezes em cima com o mouse que aparece a Home Page... A página que você quer.
- Página? Não é tela?
- A gente chama de página o programa que aparece na tela. Ou Home Page.
- Outra coisa: esse tal de brause dá só o endereço? A Internet não é pelo telefone?
- Ai meu cacete!
- Que grossura! Custa explicar?
- Endereço na Internet é um código que se digita para acessar as páginas.É claro que é por telefone. Agora chega! Não vou mais fazer pesquisa nenhuma. Deixa pra amanhã, que eu já enchi o saco. Aliás, amanhã eu juro:vou comprar um Pentium para deixar lá no escritório e.....
- Pra quê um pente no escritório? Você passou máquina zero no cabelo ontem...!!!
- Vai pra "PQP"...

(Luis Fernando Verissimo)

domingo, 27 de junho de 2010

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE (1/03)


ACÇÃO SOCIAL

Poucos meses depois de aqui chegarmos consegue-se uma casa com meia dúzia de quartos para onde se mudam as famílias. Funciona como messe.
A cada casal é atribuído um quarto, maior ou menor consoante o número de filhos.
Uma pequena cozinha serve apenas para preparar comida para os mais pequeninos.
As refeições são tomadas numa sala separada da casa, que tem as paredes de rede por causa dos mosquitos e outros insectos que, à noite, aparecem aos milhares, atraídos pela luz.
Aqui comem não só as famílias mas também os solteiros. É uma sala espaçosa que comunica, por um passadiço coberto, com uma enorme tenda onde funciona a cozinha. Aí, um cozinheiro e dois ajudantes, preparam a comida para vinte ou trinta pessoas.
Estamos bem situados. A uns quinhentos ou seiscentos metros encontra-se a praia. Atravessamos um capinzal, e deparamo-nos com um areal extenso, de areia branca e fina, e uma água maravilhosa, de temperatura agradável, onde mergulhamos uma e outra vez,



e as crianças se divertem em segurança.



Com os homens todo o dia ocupados nas suas acções, as mulheres passam os dias cuidando dos filhos. Dos trabalhos domésticos, que se resumem a pouco mais do que tratar das roupas, já que vivemos numa espécie de comunidade, tratam os criados.
Deste modo, temos muito tempo livre – tratar das crianças não ocupa o dia todo.
Há dias estávamos a conversar e surgiu-nos a ideia de fazer como que um complemento à acção dos homens – prestar assistência aos necessitados.
Perante alguma surpresa nossa, os homens concordam com a ideia.
Recorremos a quem de direito para nos arranjar transporte a fim de visitarmos as senzalas. Foi posto à nossa disposição um jipe com motorista, que, nas picadas esburacadas, nos faz bater com a cabeça na capota.



Mas, todas jovens e imbuídas duma enorme vontade de colaborar, não são uns miseráveis buracos que nos vão fazer desistir.
A primeira coisa a fazer é tentar arranjar ajuda, de preferência em dinheiro, para comprar o necessário (mantimentos, medicamentos, eventualmente roupa para os bebés) para distribuir pelos necessitados.
Esta é a parte mais difícil e custosa, e só o nosso espírito de jovens com grande vontade de socorrer quem precisa nos dá força para a enfrentar.
Percorremos as ruas da cidade batendo às portas das casas, explicando ao que vamos, qual o nosso propósito, pedindo, enfim, uma ajuda.
Se há pessoas, (a maioria, felizmente) que nos recebem bem, compreendem os nossos motivos e nos dão o que podem ou querem, outras há que chegam a ser malcriadas. Houve um homem que foi especialmente mal-educado, dizendo-nos que “fôssemos mas é para casa cuidar dos maridos”, e “esses madraços (referia-se aos pretos) que vão mas é trabalhar”.
No final, o saldo é positivo.
Depois de nos abastecermos do que sabíamos que eles mais apreciavam – sal, por exemplo, que eles têm dificuldade em conseguir – percorremos as senzalas, vendo quem é mais pobre e precisa de auxílio, assim como verificando se há doentes.
Uma das componentes do grupo é enfermeira e sabe, melhor do que nós, detectar a doença e calcular a sua gravidade.
Levamos connosco aqueles medicamentos mais básicos, como aspirina ou qualquer outro analgésico. Para os outros casos falamos depois com o médico, explicando os sintomas, e no dia seguinte levamos os medicamentos que ele indica. Em casos mais graves, raros, levamos o doente para o hospital, cujo director faz o favor de apoiar a nossa causa.
Um dia encontramos um homem doente, já velhote, com cabelos brancos, a quem perguntamos quantos anos tem:
- Não sabe, senhora. Tem muitosssssssss!
De seguida pedimos que nos diga o que sente, o que o incomoda, e ele lá explica o melhor que sabe. É um dos tais casos que teremos que relatar ao médico. Este aconselha um medicamento em supositórios que, no dia seguinte, levamos à palhota.
E agora, como explicar ao homem como tomar, ou antes, não tomar ;) os supositórios? Foi complicado. Empurramos umas para as outras, até que decidimos, por unanimidade, eleger a enfermeira para executar essa tarefa.
Ela procurou escusar-se mas por fim teve que o fazer. Experimentou mil gestos, mas o velhote não dava sinais de estar a compreender. Foi salva por uma criancinha pequena que apareceu. Agarrou-a rapidamente, pô-la sobre os joelhos com o rabito voltado para cima, e indicou ao velhote onde deveria colocar o supositório.
Mas não se esqueceu de frisar que não era na criança, mas sim nele, que os devia aplicar.
O velhote abriu a boca desdentada numa enorme gargalhada.
Acabámos todas a rir.

domingo, 20 de junho de 2010

FIM DOS PROFESSORES



Embora o tema “Educação” me seja particularmente caro, há bastante tempo – uns largos meses – que não o trago a este espaço. Mas agora, que o ano escolar está no seu término, parece-me relevante fazermos uma pequena e despretensiosa reflexão.
Com a remodelação do governo, em Outubro passado, e a nomeação da nova Ministra da Educação, Isabel Alçada, nasceu, nalguns professores, a esperança de que haveria mudanças que conduziriam a melhores condições educativas e consequentes resultados escolares.
Essa esperança foi esmorecendo com o passar dos dias, em que nada de positivo “saía” do ministério; nalguns casos, até, será a machadada final nas suas esperanças, o projecto de lei que permite “aos alunos que frequentem o 8º.ano e tenham completado já 15 anos de idade, transitarem directamente para o 10º.ano, sem passagem pelo 9º.ano, apenas, talvez (disto não tenho a certeza) tendo que prestar uma qualquer prova”.
Penso que isto será a preparação para um futuro que se avizinha, em que os professores serão absolutamente dispensáveis, e, aos poucos, dispensados.
Convido-vos a apreciarem, comigo, esta visão do futuro:

Fim Dos Professores

A cena passa-se por volta de 2210, ou seja, dentro de duzentos anos, o que equivale a, apenas, umas 10 gerações.
(Em Educação, geração é o nome dado ao conjunto de estudantes que iniciam ou terminam os seus estudos numa mesma data).
Estamos, portanto, em 2210, quando um menino pergunta:

- Vovô, porque é que o mundo está acabando?
O avô responde, calmamente:
- Porque já não existem PROFESSORES, meu anjo.
– Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor?

O velho responde, então, que professores eram homens e mulheres elegantes e dedicados, que se expressavam sempre de maneira muito culta e que, há muitos anos atrás, transmitiam conhecimentos e ensinavam as pessoas a ler, falar, escrever, comportar-se, localizar-se no mundo e na história, entre muitas outras coisas. Principalmente, ensinavam as pessoas a pensar.

– Eles ensinavam tudo isso? Mas eles eram sábios?
– Sim, ensinavam, mas não eram todos sábios. Apenas alguns, os grandes professores, que ensinavam outros professores, e eram amados pelos alunos.
– E como foi que eles desapareceram, vovô?
– Ah, foi tudo parte de um plano secreto e genial, que foi executado, aos poucos, por alguns vilões da sociedade. O vovô não se lembra bem do que surgiu primeiro, mas, sem dúvida, os políticos ajudaram muito.
Eles acabaram com todas as formas de avaliação dos alunos, apenas para mostrar estatísticas de aprovação. Assim, sabendo ou não sabendo alguma coisa, os alunos eram aprovados. Isso liquidou o estímulo para o estudo e apenas os alunos mais interessados conseguiam aprender alguma coisa.

Depois, muitas famílias estimularam a falta de respeito pelos professores, que passaram a ser vistos como empregados dos seus filhos.
Estes foram ensinados a dizer:
- Eu estou pagando e você tem que me ensinar, ou
- Para quê estudar se o meu pai não estudou e ganha muito mais do que você?”- ou ainda

- O meu pai dá-me mais de mesada do que você ganha num mês.
Isso quando não iam os próprios pais gritar com os professores nas escolas. Para isso muito ajudou a multiplicação de escolas particulares, as quais, mais interessadas nas mensalidades que na qualidade do ensino, quando recebiam reclamações dos pais, pressionavam os professores, dizendo que eles não estavam conseguindo “gerenciar a relação com o aluno”.
Os professores eram vítimas de violência – física, verbal e moral – que lhes era destinada por pobres e ricos. Transformaram-se em “saco de pancada” de toda a gente.
Além disso, qualquer proposta de ensino sério e inovador sempre esbarrava na obsessão dos pais pela a aprovação dos filhos, quer fosse nas Faculdades, nas básicas ou nas secundárias.
- Eu quero saber se isso que vocês estão ensinando vai fazer o meu filho passar de ano - diziam os pais nas reuniões com as escolas.
E assim, praticamente todo o ensino foi orientado para os alunos passarem ano após ano. Lá se foi toda a aprendizagem de conceitos; as discussões de ideias, tudo, enfim, se resumiu ao decorar de fórmulas. Com a Internet, os trabalhos escolares e as fórmulas ficaram acessíveis a todos, e nunca mais ninguém precisou de ir à escola para estudar a sério.
Em seguida, os professores foram desmoralizados. Os seus salários foram gradativamente sendo esquecidos e ninguém mais queria dedicar-se à profissão. Quando alguém criticava a qualidade do ensino, sempre vinha algum tonto dizer que a culpa era do professor.
As pessoas também se tornaram descrentes da educação, pois viam que as pessoas “bem sucedidas” eram políticos e empresários que os financiavam, modelos, jogadores de futebol, artistas de novelas da televisão, sindicalistas – enfim, pessoas sem nenhuma formação especial ou contribuição real para a sociedade.

Ah, mas estava a esquecer-me de um factor chave nessa história toda.
Houve uma época longa chamada ditadura; os militares colocaram os professores “debaixo de olho” e quase acabaram com eles. Foram perseguidos, aposentados, expulsos do país, em nome do combate aos subversivos e à instalação de uma república sindical no país.
Eles fracassaram, porque essa tal república sindical se instalou, os tais subversivos tomaram o poder, implantaram uma tal de “educação libertadora” que nunca ninguém soube o que é, e fizeram a aprovação automática dos alunos com apoio dos políticos... Foi o tiro de misericórdia nos professores.
Não sei o que foi pior –se os militares se os tais subversivos.

– Militar? Não conheço essa palavra. O que é um militar, vovô?

– Era, meu filho, era; agora já não é. Também já não existem...

domingo, 13 de junho de 2010

SENTIDO INVERSO

Quarta e última parte

Perante a minha passividade, ela avançou a outra mão e começou a desabotoar-me os botões da blusa.



Abri repentinamente os olhos e “vi” que ao meu lado estava UMA princesa, não UM príncipe.
Com suavidade mas também com firmeza, retirei a mão que tinha sobre o meu peito e afastei-me dela. Segurando-a pelos ombros, olhos nos olhos, disse-lhe, claramente:
- Eu gosto muito de ti, tu sabes. Adoro-te! Mas entre nós nunca poderá existir nada para além de uma grande mas fraternal amizade.
- Pois aí é que está a questão. Tu vês-me como uma irmã, e qualquer envolvimento entre nós ia ter, para ti, o cariz de incesto.
Mas tu não imaginas como pode ser doce mas também arrebatador o Amor entre mulheres. Aquela minha amiga que avistaste ontem é fantástica. Deixa-me apresentar-ta. Tenho a certeza que mudarás de ideia. Eu senti, ainda há pouco, que estavas a ter prazer…
- Sim, é verdade que por breves momentos fiquei excitada. Mas sabes porquê? Porque me imaginei nos braços de um homem.
Não, minha amiga, não quero que me apresentes ninguém. Eu sei que, definitivamente, gosto de homens, e serei incapaz de ter qualquer ligação íntima com uma mulher.

A minha amiga notou o tom firme em que falei. Não insistiu. Continuámos, e ainda somos, excelentes amigas.
Este incidente não me afectou minimamente. Talvez fizesse com que me viesse à memória, com maior frequência, o que aconteceu quando andava na escola.
Será que, se aquela experiência se tivesse consumado, eu hoje seria como a minha amiga? Gostaria só de mulheres, seria lésbica? Para esta pergunta não encontro resposta.
Eu e a minha colega ainda partilhámos o apartamento por dois ou três anos. Depois ela foi viver com outra amiga, com quem estabeleceu uma relação estável, que dura até hoje.
A nossa amizade não foi afectada com a separação. Continuamos grandes amigas. Respeito a sua opção de vida tal como ela respeita a minha.
Eu continuei com os estudos, acabei o curso, e fiquei a estagiar no escritório do meu “patrão”. Namorei muito, mas sem compromissos sérios.
Há dois anos, quando festejei os meus 35 anos, conheci alguém especial. Muito especial. Houve química entre nós. Iniciámos uma relação de Amor sem sobressaltos, com os seus momentos de paixão intensa, e sentimos que “fomos feitos um para o outro”. Estamos ambos convencidos de que acabaremos os nossos dias juntos.

Entretanto, alguns meses depois de o conhecer, uma noite sonhei que era homem. Nesse sonho a minha Mãe aparecia olhando-me com enlevo e orgulho, e de repente notei que estávamos vestidos de cerimónia, e a minha Mãe segurava o meu braço, caminhando lentamente ao meu lado. Ao longe avistei o vulto, que não identifiquei, de alguém usando um vestido de noiva, o que me causou um grande sobressalto. Era o meu casamento!
Acordei subitamente, impressionada com um sonho tão disparatado.
Durante o dia várias vezes o mesmo me veio à ideia. E pensava:
- Como será ser homem? Os homens serão assim tão diferentes das mulheres? Deveria eu ter nascido homem? Nesse caso eu gostaria, naturalmente, de mulheres…
Nessa mesma noite tomei uma decisão.
- Quero experimentar a sensação de ser homem!

Inscrevi-me num site social (não vou dizer qual porque não alinho em publicidade grátis) com um perfil masculino.
Como domino razoavelmente bem a técnica da imagem em computador “construí” uma foto dum homem jovem, muito charmoso, que causa um verdadeiro delírio especialmente entre as teenagers.
Todas as noites abro o site e respondo às inúmeras mensagens das minhas admiradoras, a cada dia aprimorando a minha figura masculina, contando histórias fantásticas que as põe ao rubro.
Mas o mais estranho é que faço isto com prazer, e sinto-me cada vez mais presa ao personagem que todas as noites encarno.

Está nos meus planos constituir família com o meu actual namorado. Mas, antes, tenho que lhe contar este meu segredo. Se ele o aceitar…seremos felizes para sempre.



O meu maior desejo é que a minha prole, em número ainda não definido, seja constituída apenas por meninas. Vou vingar-me cobrindo-as de laços, lacinhos e laçarotes, flores e passarinhos, e corações, atravessados ou não por setas! Sem esquecer os folhinhos e os cabelos pela cintura.

Hoje eu pergunto-me: eu seria uma pessoa diferente, mais estável, mais segura, com menos dúvidas que, constantemente invadem o meu espírito, se a minha Mãe não tivesse tentado empurrar-me num SENTIDO INVERSO?

FINAL


Nota: Porque alguns comentadores manifestaram curiosidade, havendo mesmo uma comentadora que declarou abertamente que gostaria que no final houvesse um esclarecimento, sinto ser meu dever informar-vos do seguinte:
O “conto” que agora chegou ao final não é autobiográfico; nem sequer, a exemplo do que se passou com “Anita”, é baseado em factos reais.
Trata-se de pura ficção, fruto de observação de casos do dia-a-dia, com os quais construí esta história.
Nasci numa família de cinco irmãos, dois do sexo masculino e três do feminino. A minha Mãe não tinha preferência por meninos ou meninas, o que viesse era bem recebido; já o meu Pai tinha preferência por meninas. Dizia que não se importava de ter apenas filhas.
Quero ainda dizer-vos que me senti muito lisonjeada por alguns de vós terdes pensado tratar-se dum caso verídico, e, em particular, autobiográfico, porque isso me leva a concluir que fui convincente na forma como conduzi a história.

A todos o meu sincero “Obrigada”.

domingo, 6 de junho de 2010

SENTIDO INVERSO

Terceira (e penúltima) parte

Não foi bem isso que aconteceu. Com os meus 18 anos feitos iniciei a minha libertação, que implicava o corte do cordão umbilical.
Comecei a sair à noite com as minhas amigas, uma vez por outra, mas tendo sempre o cuidado de não chegar muito tarde.
A minha Mãe chamava-me sempre a atenção, não usando já aquele tom de exigência a que me habituara. Eu respondia-lhe alegremente, com um ar que queria significar: a meninice já lá vai, agora sou senhora do meu nariz.

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Embora eu fosse muito obediente, ou talvez por isso mesmo, sempre fui muito orgulhosa. Não gostava de mendigar; e se alguma coisa que eu pedia me era recusada, eu simplesmente não insistia. O meu orgulho não me deixava rebaixar-me. Recordo-me de cenas que aconteceram e provam o que acabo de dizer, ainda eu era bem pequena.
Com esta maneira de ser e pensar não me sentia bem comigo mesma ao querer liberdade para proceder a meu bel-prazer e ao mesmo tempo ser dependente, economicamente, dos meus Pais.

Com 18 anos incompletos entrei para a Faculdade de Direito, e, ao mesmo tempo que estudava consegui arranjar trabalho no escritório dum advogado amigo. De início fui ganhar muito pouco, mas em breve o ordenado foi aumentado. Com a educação que recebera só podia ser cumpridora… e o patrão era uma pessoa muito justa e honesta.
Foi assim que, aos 20 anos, já tinha amealhado o suficiente para pensar em desligar-me completamente da casa paterna, alugando um apartamento a meias com uma amiga.

Tinha, entretanto, arranjado um namorado do qual desisti quando ele começou a querer um relacionamento mais íntimo, o que não me atraía de modo algum.
Foi uma época bastante complicada, emocionalmente. Lembrava-me, frequentemente, do incidente com a minha amiga de escola.



E, sempre que o meu namorado tentava uma maior aproximação, eu sentia uma espécie de repulsa que me levava a afastar-me dele.
A minha colega de apartamento tinha algumas amigas que eu não conhecia, e que a visitavam de vez em quando. Como eu não mostrava interesse especial em conhecê-las, retiravam-se para o quarto para não me incomodarem. Geralmente eu estudava na sala.

Um dia que eu tinha ido sair e voltei a casa porque me esquecera de um livro que me fazia falta, surpreendi a minha colega no quarto com uma amiga. Tinham deixado a porta aberta e os sons que pude ouvir não me deixaram dúvidas sobre as actividades em que se encontravam.
Quando fechei a porta, depois de entrar, a minha colega espreitou para fora do quarto e, ao ver-me, ficou com um ar muito comprometido.
Para mim foi um grande choque, não pelo facto em si, mas por ela nunca me ter dito ou sequer insinuado que era lésbica. Afinal, vivíamos no mesmo apartamento…

No dia seguinte eu não trabalhei à noite e fiquei na sala. Acomodei-me no sofá e liguei a televisão.
A minha amiga veio sentar-se junto de mim e começou a falar:
- Sabes o que significa o que surpreendeste ontem?
- Calculo que sim… Ou haverá outra explicação diferente daquilo que pensei?
- Não, o que pensaste está correcto. Eu sou lésbica, e não me envergonho…
- E porque haverias de te envergonhar? Se há algum motivo para te envergonhares é o não teres sido franca comigo, quando pensámos em alugar o apartamento e passarmos a viver juntas.
- Se soubesses que eu era lésbica não terias vindo viver comigo?
- Provavelmente isso não me faria mudar de ideias, viria viver contigo, sim, mas não teria feito figura de parva…
- Mas tu não fizeste figura de parva coisa nenhuma. Quando é que tal aconteceu?
- Olha, todas as vezes que recebeste amigas no teu quarto e eu não desconfiei de nada. Achas pouco?

Nesta altura ela agarrou a minha mão, meigamente, acariciando-a com um ar perfeitamente inocente.
Eu não vi nesse gesto qualquer segunda intenção, por isso não retirei a mão.

A minha amiga disse:
- Perdoa-me. Acredita que não queria magoar-te. Eu gosto muito, muito, de ti. Há muito tempo, desde o primeiro ano da Faculdade, que eu sentia uma atracção enorme por ti. Mas nunca tive coragem para te dizer. O facto de sermos tão amigas ainda me intimidava mais.

À medida que falava ia se aproximando, e em breve estava a dar-me pequenos beijos no pescoço, entrecortado de curtas frases - “ Deixa-me fazer-te feliz”…
Senti um frémito de prazer percorrer-me o corpo. Fechei os olhos e imaginei-me nos braços dum príncipe encantado, acariciando-me ternamente.

Continua

domingo, 30 de maio de 2010

SENTIDO INVERSO

SENTIDO INVERSO
Segunda parte

Os pais dela trabalhavam, ela não tinha irmãos, portanto a casa estava por nossa conta.
Começámos a estudar na sala



mas, pouco tempo depois, ela propôs que descansássemos um pouco e fôssemos para o seu quarto ver fotos ou qualquer outra coisa que agora não recordo; não fiz qualquer objecção . Fomos!
Aí chegadas a minha amiga começou a queixar-se com calor, dizendo que ia pôr-se à vontade, e insistindo para que eu fizesse o mesmo. Tudo bem, porque não?
Ficamos, portanto, apenas com as calcinhas e os sutiãs.
Sentámo-nos na beira da cama a ver qualquer coisa, e de repente, sem eu esperar, ela, com a mão direita puxou-me pelo pescoço e deu-me um beijo na boca, ao mesmo tempo que, com a mão esquerda, acariciava a minha coxa.
Qualquer coisa em mim entrou em alerta! Eu nunca havia tido qualquer contacto mais íntimo, e em casa os meus pais eram bastante discretos, embora muitas vezes trocassem carinhos.
Penso que a minha sexualidade ainda não tinha despertado, o que só viria a acontecer, na prática e fisicamente, depois dos dezoito anos.
Naquela altura, com a minha amiga, não sei o que senti. Espanto, talvez.



A verdade é que eu era, com certeza, muito infantil, e com a educação algo severa dos meus pais, não tinha ainda tido devaneios amorosos…
A minha reacção foi, portanto, afastar-me um pouco; mas ela puxou-me carinhosamente para si e começou a beijar-me o pescoço ao mesmo tempo que tentava acariciar-me o peito, que já se notava perfeitamente, denotando o que viria a ser dentro de pouco tempo.

Fui salva pelo gongo, como se costuma dizer. O telefone começou a tocar e a minha amiga foi à sala atender. Eu aproveitei para rapidamente me vestir, e quando ela regressou disse-lhe que era melhor ir-me embora porque não avisara a minha Mãe de que ia chegar mais tarde e “sabes como ela é exigente com os horários”. (A minha Mãe trabalhava em casa como tradutora, por isso quando eu saía da escola encontrava-a sempre em casa).

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A minha amiga mostrou-se muito compreensiva e não insistiu para eu ficar; apenas me disse que gostava que eu fosse novamente estudar com ela, mas que avisasse disso a minha Mãe.

Saí dali com as pernas a tremer. Tinha a sensação de que o que se passara não era tão inocente como a minha amiga me queria fazer crer. O meu sistema de alerta funcionara na perfeição, evitando que eu pudesse ter a minha primeira experiência homossexual, para a qual não estava minimamente preparada, e que poderia ser bastante traumatizante.

Ela ainda voltou a convidar-me meia dúzia de vezes para ir a sua casa; mas, perante as minhas escusas, acabou por desistir.
Não deixei de ser amiga dessa garota, embora evitasse, daí para o futuro, encontrar-me a sós com ela, e recusasse, sistematicamente, todos os seus convites que implicassem uma maior aproximação.

Nos anos que se seguiram até aos meus 18 anos nada de especial aconteceu no que respeita a experiências sexuais.
Penso que para isso muito contribuiu a educação que a minha Mãe me dava: muito carinho, muito amor, mas muita severidade também. Ela conhecia perfeitamente os meus horários escolares, e não admitia que eu chegasse a casa mais tarde do que o tempo necessário para a deslocação. Para que tal acontecesse, tinha que ser previamente avisada.
À medida que os anos passavam as minhas formas iam-se arredondando, a cintura ficando mais fina e os traços do rosto mais harmoniosos.
Contra isso a minha Mãe nada podia fazer, a não ser comprar-me roupas bastante folgadas, que disfarçavam as minhas elegantes formas.
Fora dos seus olhares eu colocava um cinto que ajustava a roupa à cintura, porque cada dia sentia mais vontade de me libertar daquela maneira de vestir arrapazada. Mas com a minha Mãe não valia a pena insistir: a sua vontade era soberana. E depois ela tinha uma maneira de se impor, uma autoridade tão natural, que eu nem sentia que estava a ser contrariada, mas sim convencida a fazer o que não me agradava.
As amigas, quando a iam visitar e eu aparecia para as cumprimentar, não me poupavam elogios:
- Carminha (era a minha Mãe), mas como a tua filha está bonita! E tão elegante! É uma verdadeira estátua! Só é pena que tenhas tão mau gosto para a vestir… Deve andar uma multidão de rapazes atrás dela…
Já tens namorado? – perguntavam, dirigindo-se a mim.
Eu simplesmente corava e baixava a cabeça; e antes que pronunciasse uma palavra a minha Mãe atalhava logo:
- Era só o que faltava! Ela tem é que pensar em estudar, tirar o seu curso, estabelecer-se na vida, e depois então pensar em namoricos. E ainda vai cedo! Eu casei-me com 28 anos e tenho tido tempo para realizar todos os meus sonhos. Portanto ela fará o mesmo.

Continua

domingo, 23 de maio de 2010

SENTIDO INVERSO


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Quando eu nasci os meus pais não tiveram a alegria que normalmente os pais têm com o nascimento de um filho, isso porque eu era uma filha.

Na realidade eles desejavam que o primeiro filho fosse um rapaz, com o que, provavelmente, encerrariam as actividades de procriação.

Coitados! Tiveram azar, e apareci eu, uma menina, linda, ao que dizem, e como posso comprovar pelas fotografias, não muitas, que me tiraram em criança.

Acabaram por se conformar; não havia mais nada a fazer, a não ser uma outra tentativa para conseguirem um rapaz.

Foram bem sucedidos, e o meu irmão nasceu quando eu já tinha cinco anos. (demoraram um certo tempo a refazer-se e ganhar coragem para nova investida…)

O facto de eu ser uma menina não me prejudicou em nada. Os meus pais trataram-me sempre com o maior carinho e desvelo, e, mesmo depois de o meu irmão nascer, os seus cuidados para comigo não diminuíram. Não passou a haver qualquer diferença de tratamento entre o meu irmão e eu.

Há apenas um pormenor, relativo á minha infância, que me causa um certo desconforto quando o recordo:

A minha Mãe vestia-me sempre com roupas bem arrapazadas – calças ou jardineiras, mas sem aquele toque feminino que geralmente têm estas peças de roupa quando destinadas a meninas, e que se traduz por umas florinhas, ou cãezinhos, ou corações, enfim, qualquer floreado que é colocado no bolso ou no peitilho.

O cabelo andava sempre muito curto. Nada de tranças ou totós, nem mesmo as “palmeirinhas” que todas as meninas usam no topo da cabeça, quando o cabelinho começa a crescer, por volta dos dois anitos, e que as mães enfeitam com vistosos laçarotes.

Recordo-me que isso me causava um certo desgosto. Via as minhas amigas com alegres vestidos rodados, cabelos caindo pelas costas ou apanhados em totós, à “ Pipi das meias altas”, e sentia-me inferiorizada, feia e sem graça.

As amigas da minha mãe às vezes comentavam:

- Credo, tu não tens gosto nenhum para vestir a tua filha. Nunca se lhe vê um vestidinho…parece sempre uma Maria-rapaz!

- Assim é que ela anda bem, pode correr e saltar à vontade sem precisar preocupar-se com as roupas! A Liberdade começa por aí…

As amigas não insistiam porque sabiam que não valia mesmo a pena.

A minha Mãe parecia querer encaminhar-me num sentido inverso àquele para que eu havia nascido – ser Mulher.

Quando fiz 18 anos pude, finalmente, começar a decidir o que vestir.

Comprei um lindo vestido vermelho, todo moderno, bem feminino, que me marcava as formas que Deus, na sua infinita misericórdia, fizera semelhantes às de uma estátua!


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A minha Mãe esboçou um ligeiro esgar ao ver-me aparecer assim vestida na festa que me preparara com todo o esmero. Fiquei na dúvida se era desagrado ou espanto ao ver a filha como nunca a vira antes.

Mas eu estava demasiado feliz para me preocupar com esses pormenores. Foi um dia muito lindo na minha vida, que marcou o início duma grande reviravolta.

Num primeiro gesto de rebeldia comecei logo a deixar crescer o cabelo, e durante um ano a cabeleireira não lhe pôs as mãos.

Quando já me pousava nos ombros passei a deixar que fosse tratado por mãos de profissionais.

E pude, finalmente ser, mas muito especialmente sentir-me, mulher!

Recuando um pouco até à pré-adolescência, altura em que começa a despontar a sexualidade, recordo-me que as meninas andavam pelos cantos aos beijinhos aos rapazes, numa total inocência, mas já revelando o aproximar do desenvolvimento das hormonas.


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Talvez devido aos meus modos arrapazados incentivados pela minha mãe, os rapazes não manifestavam por mim qualquer interesse para além do jogo da bola – eu era sempre integrada numa das suas equipas. Acho que eles me viam como “um dos deles”…

Assim fui crescendo, e quando andava pelos treze anos, em que, se não acontece antes, é altura de despertar a grande curiosidade pelo misterioso sexo, tudo para mim continuava na mesma, pois os rapazes viam-me com os mesmos olhos de sempre, e não denotavam sentir por mim qualquer atracção física.

Foi então que uma amiga começou a insinuar-se mais junto a mim, e um dia convidou-me para ir estudar para casa dela. Fui, contente e feliz.

Lembro-me que era um dia de muito calor.

Continua...

domingo, 16 de maio de 2010

MINHA IDA AO DERMATOLOGISTA


Visita de rotina aos médicos. Todos os anos a mesma peregrinação:
Mastologista, ginecologista, oftalmologista, dentista…
Mas um dia resolvo incluir um ISTA novo na minha odisseia – um DERMATOLOGISTA.

Já era hora de procurar uns creminhos mágicos para tentar retardar ao máximo as marcas da inevitável entrada nos ENTA.
Para ser sincera e nem um pouco modesta, entrei gloriosa nesta seita. Com direito a uma festa memorável, que durou até às 10 horas da manhã do dia seguinte. Festa com música ao vivo, Los Años Dorados, na melhor boite da cidade, todos os amigos, fotografias… tudo maravilhoso.
Na verdade sentia-me espetacular. Tudo certo. Ninguém podia cantar para mim a ridícula frase da Calcanhoto: “nada ficou no seu lugar”...

Mas não sei o que deu no espelho lá de casa, que resolveu, do dia para a noite, tomar ares de conto de fadas. Aliás, de bruxas. E mostrar coisinhas que nunca haviam aparecido. (Ou eu não havia notado?) Pontinhos azuis nos tornozelos, pintinhas negras no colo, nos braços, bolinhas vermelhas na bunda… olheiras mais profundas… Como assim???
Assim...sem avisar nem nada. De repente, o idiota resolveu mostrar e pronto.
Ah, não! Isso não vai ficar assim. ISTA novo na lista do convênio. O melhor. Queria o melhor especialista de todos os ISTAS... Achei. Marquei. E fui tão nervosa quanto para um encontro ‘bem intencionado' daqueles em que a gente escolhe a roupa íntima com cuidado, que é para não fazer feio...nem parecer que foi uma escolha proposital… sabe como é, né?

Pois sim. O sujeito era um dermatologista famoso. Via e futucava a pele de toda a nata feminina e masculina da cidade. Assim, me armei de humildade. Disposta a mostrar cada defeitinho novo que estava observando, através do maquiavélico e ex-amigo espelho de meu quarto. Depois de fazer uma ficha com meus dados, o 'doutor' me olhou, finalmente, nos olhos, e perguntou: 'O que lhe trouxe aqui?'

Fiquei vermelha como um tomate. E muda. Ele sorriu e esperou.
Quase de olhos fechados, desfiei minhas queixas. Ele observou ' in loco' cada uma delas, com uma luz de 200wtz e uma lupa... e começou o seu diagnóstico.

- “As pintinhas são sinais de sol, por todo o sol que já tomou na vida.
Com a IDADE (tóin!) elas vão aparecendo, cada vez mais numerosas. Vai precisar de um protetor solar para sair de casa pela manhã, mesmo sem ir à praia. Para dirigir mesmo. Braços e pernas e rosto e pescoço. “
- E praia?
- “Evite. Só de 6 às 10 da manhã, sob proteção máxima, guarda sol, óculos e chapéu. Bronzear-se, nunca mais!”
- Ahmmm… (a turma só chega às 11:00…!!!)
- “Os pontinhos azuis são pequenos vasos que não suportam a pressão do corpo sobre os saltos altos. Evite. Sapatos com solado anabela ou baixos, de preferência. Compre uma meia elástica, Kendall, para quando tiver que usar os saltos altos”
- Ahmmmaaa… (Kendall??? E as minhas preciosas sandalinhas???)
- “As bolinhas na bunda são normais, por causa do calor. Para evitá-las use mais saias do que calças. Evite o jeans e as calcinhas de Lycra. As de algodão puro são as melhores… e folgadas.”
- Ahmnunght??? (e pude “ver” as de minha mãe, enormes, na cintura, de florzinhas cor de rosa… vou chorar!)
- “As olheiras são de família. Não há muito o que fazer. Use esse creminho à noite, antes de dormir, e procure não dormir tarde. Alimentação leve, com muita fruta e verdura, pouca carne e muito peixe. Nada de tabaco, nem álcool… nem café.”

E a histérica aqui começou a rir…

Agradeci, peguei suas receitinhas, e saí rindo, rindo, me dobrando de tanto rir!

No carro comecei a falar sozinha... tudo o que deveria ter dito e não disse:
Trabalho muito, doutor... muitas noites vou dormir às 2h, escrevendo e lendo. Bebo e fumo. Tomo café. Saio pelas noites de boémia com os amigos e os violões para as serenatas de lua cheia....e que noites!!!

Adoro os saltos, principalmente nas sandálias fininhas. Impossível a meia elástica (argh!!).
Calcinhas de algodão? E folgadas??? Adoro as justinhas e rendadas.. E não abandono meu jeans nem sob ameaça de morte!!! É meu melhor amigo!!!!
Dormir lambuzada? Neste calor? E minhas duchas frias com sabonete Johnson para ficar fresquinha como um bebê, cada noite?
E nada de praia??? O senhor está louco é???? Endoideceu, foi??? Moro em Rio de Janeiro, com esse mar e tudo…e tenho só 50 anos… meia vida inteira pela frente!!!
Doutor Fulustreco, na minha idade não vou viver como se tivesse feito trinta anos em um!!! Até um dia desses tinha 49... e agora em vez de 50 estou fazendo 70???
Inclua aí¬ na sua lista de remédios para as de
50 a 70: MEIA LUZ... Acho que é só disso que eu preciso. Um bom abajour com uma luz de 15wts...E um namorado que use óculos...É isso… só isso!!! Entendeu???

Parei no sinal e olhei de lado... e um garoto de uns 25 anos piscou o olho para mim. Ah... e ele nem usava óculos! Nunca fiz o que me recomendou o fulustreco ISTA... Minhas olheiras são parte de meu charme.
E valem o que faço pelas noites a dentro... ah!!! se valem!
As bolinhas da bunda desapareceram com uma solução caseira de vitamina A, que quase todas as mulheres usavam e eu não sabia, até que contei minha historinha do 'bruxo mau'.
Os sinaizinhos estão aqui... sem grandes alardes... e até que já acho bonitinho.
O espelho é muito menor… o outro, eu dei a minha filha.
E meu namorado diz que estou cada dia mais linda Principalmente quando estou de saltos e rendas, disposta a encarar uma noite de vinhos e música.
É claro que ele usa óculos. Mas quando quero ficar fatal, tiro os seus óculos… e acendo o abat-jour.

ESQUEÇA OS ISTAS E TENHA UMA BOA SEMANA.

domingo, 9 de maio de 2010

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE (1/02)

O INCONVENIENTE DE SE FALAR FRANCÊS

Quando cheguei tinha acontecido, poucos dias antes, a independência do Congo Belga. A cidade estava repleta de refugiados que tinham vindo acolher-se num sítio para eles seguro, dado que, após a independência, o vizinho Congo Belga viveu tempos muito conturbados.
Da varanda do apart-hotel onde eu me encontrava, e onde permaneci por cerca de um mês, podia vê-los, com enormes túnicas brancas contrastando com o negro da pele. Para quem, como eu, não estava habituada a vê-los em tão grande número e em tais roupagens, era um pouco assustador. Quase não me atrevia a sair à rua, a não ser acompanhada, o que só podia acontecer ao final do dia, quando o marido regressava dos seus afazeres.
A primeira semana foi um pouco complicada. O marido encontrava-se destacado numa povoação a alguns quilómetros de distância, e só regressou uma semana depois. Fez-me companhia no dia da chegada e no dia seguinte, mas logo a seguir voltou para o seu posto.
Acho que foi a semana mais comprida da minha vida, mas chegou ao seu termo, como tudo…
Decorrido cerca de um mês conseguimos alugar um apartamento num prédio que ainda estava em construção. O construtor deu prioridade aos dois apartamentos do rés-do-chão – esquerdo e direito – onde se instalaram duas famílias nossas conhecidas, e ao primeiro andar direito, para onde nós fomos viver.
Como o dia em África começa muito cedo, quando dei à luz, às nove horas da manhã, os trabalhos decorriam a ritmo acelerado nos andares de cima. As marteladas ouviam-se a distância e faziam estremecer o prédio. E foi no meio de toda esta algazarra que o meu bebé tomou contacto com o mundo pela primeira vez.
Os dias que se seguiram não foram mais silenciosos; só quando as obras foram subindo de patamar é que o barulho se começou a ouvir mais ao longe.
Ainda hoje me espanta como é que o meu filho consegue ser uma pessoa tão calma e serena tendo nascido no meio de tanta barulheira.
A casa onde morávamos era bastante espaçosa. Para além duma sala grande que funcionava como sala de estar e de jantar, tinha dois quartos, e as restantes divisões normais numa casa.
Cerca de um mês depois de lá estarmos a minha cunhada foi juntar-se a nós,

e aí permaneceu até que o marido, colocado mais ao norte, conseguiu reunir condições para ter a família junto de si. Vinha à cidade apenas aos fins-de-semana gozar a companhia da mulher e dos dois filhitos pequenos.
Tínhamos um criado que passava a ferro e cozinhava divinalmente. Lembro-me que lhe lia receitas do meu livro de cozinha que me tinha acompanhado – inexperiente como eu era não sabia cozinhar e tinha que me valer do livro de receitas, gentil oferta do marido no primeiro Natal que passamos casados !!!
O Francisco, assim se chamava o criado – pelo menos dava por esse nome – ouvia a receita uma vez apenas e reproduzia os cozinhados quantas vezes quiséssemos, com mão de mestre.
Era um homem alto, bonito, de pele excepcionalmente escura, quase azulada, com um semblante impenetrável.
Naturalmente educado, cortês, de poucas falas mas atencioso, levava-nos a pensar que teria ascendência de elite.
Um dia em que eu e minha cunhada nos encontrávamos na sala, cuidando dos bebés, o Francisco encontrava-se lá também, a passar a ferro.
A minha cunhada dirigiu-se-me:
- Mariazita, já reparaste como “ele” passa tão bem a ferro?
Para que ele não percebesse, ela tinha falado em francês, e dito “ele” em vez de “Francisco”.
Já anteriormente tínhamos usado este estratagema quando queríamos dizer alguma coisa que preferíamos que ele não percebesse.
Antes que eu respondesse à minha cunhada, o Francisco disse, em português:
- Aprendi com a minha mãe, senhora. Era ela que cuidava pessoalmente dos fatos do meu pai.
Apanhadas de surpresa, a nossa reacção imediata foi de estranheza, que lhe fizemos sentir:
- Ah! Então o Francisco sabe falar francês?
- Sim, senhora, melhor do que português, porque eu sou do Congo Francês.
Àquela data, depois da independência do Congo Belga e consequentes distúrbios, havia uma atenção especial à fronteira, a norte, com o Congo Francês – Ponta Negra – que viria a tornar-se independente pouco tempo depois.
Postos ao corrente deste “incidente” com o Francisco, devido ao clima instável que se vivia no Congo Francês, os maridos acharam mais prudente “dispensá-lo” do serviço.
Apanhámos um pequeno (…) susto, mas, no fundo, o que mais nos custou foi perdermos os belíssimos cozinhados do Francisco.
E tudo isto por nos termos lembrado de falar em francês!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

ALERGIAS

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Alergias! Quem não as tem... Noites sem dormir...com um pacote de lenços de papel na mesinha de cabeceira...
E aqueles momentos em que se dorme profundamente e de repente: "atchiiiim!!" "atchiiim!!" "atchiiiim!!""atchiiiim!!""atchiiiim!!"
No dia seguinte os olhos parecem dois repolhos, de tão inchados que estão, ao mesmo tempo que escorrem água como uma nascente. O nariz completa o cenário – pena que não se lhe possa pôr uma rolha…
É assim que estou, minhas amigas e meus amigos. Por isso não vou poder corresponder, atempadamente, aos vossos amáveis comentários.
Logo que me encontre melhor visitarei todos, um por um.

Um grande beijinho virtual (sem micróbios…)

domingo, 2 de maio de 2010

DIA DA MÃE

"Em geral, as mães, mais que amar os filhos, amam-se nos filhos."
(Friedrich Nietzsche)


MÃES SÓ MORREM QUANDO QUEREM

"Eu tinha 7 anos quando matei minha mãe pela primeira vez.

Eu não a queria junto a mim quando chegasse à escola em meu 1º dia de aula.
Eu me achava forte o suficiente para enfrentar os desafios que a nova vida iria me trazer.
Poucas semanas depois descobri, aliviado, que ela ainda estava lá, pronta para me defender não somente daqueles garotos brutamontes que me ameaçavam, como das dificuldades intransponíveis da tabuada.

Quando fiz 14 anos eu a matei novamente.

Não a queria me impondo regras ou limites, nem que me impedisse de viver a plenitude dos vôos juvenis.
Mas logo no primeiro porre eu felizmente a redescobri viva; foi quando ela não só me curou da ressaca, como impediu que eu levasse uma vergonhosa surra de meu pai.

Aos 18 anos chei que mataria minha mãe definitivamente, sem chances para ressurreição.

Entrara na faculdade,iria morar em república, faria política estudantil, atividades em que a presença materna não cabia em nenhuma hipótese.
Ledo engano: quando me descobri confuso sobre qual rumo seguir voltei à casa materna, único espaço possível de guarida e compreensão.

Aos 23 anos me dei conta de que a morte materna era possível, apenas requeria lentidão...

Foi quando me casei, finquei bandeira de independência e segui viagem.
Mas bastou nascer a primeira filha para descobrir que o bicho mãe se transformara num espécime ainda mais vigoroso chamado avó.
Para quem ainda não viveu a experiência, avó é mãe em dose dupla...
Apesar de tudo continuei acreditando na tese da morte lenta e demorada, e aos poucos fui me sentindo mais distante e autônomo, mesmo que a intervalos regulares ela reaparecesse em minha vida desempenhando papéis importantes e únicos, papéis que somente ela poderia protagonizar...

Mas o final dessa história, ao contrário do que eu sempre imaginei, foi ela quem definiu: quando eu menos esperava, ela decidiu morrer.
Assim, sem mais nem menos, sem pedir licença ou permissão, sem data marcada ou ocasião para despedida.
Ela simplesmente se foi, deixando a lição de que “mães são para sempre”.

Ao contrário do que sempre imaginei, são elas que decidem o quanto esta eternidade pode durar em vida, e o quanto fica relegado para o etéreo terreno da saudade..

Desconheço a autoria

Não espere pela partida da sua Mãe para lhe dar Amor.
Se a tiver ainda ao seu lado, dê-lhe um beijo e um abraço e diga-lhe o que ela mais gosta de ouvir:
ADORO-TE, MÃE. OBRIGADA POR EXISTIRES!

E se ela já não estiver ao seu lado, se já tiver partido...
Feche os olhos e faça uma prece em seu louvor, agradecendo-lhe pela vida que lhe deu. Pode também dizer que a ama, porque onde ela se encontra vai escutar o que você lhe está dizendo... e vai sentir-se muito feliz.