(Ficção baseada em factos reais)
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Anita estremeceu, como se tivesse sentido um choque. Fechou os olhos por momentos, saboreando aquelas palavras que lhe provocavam um calor interior, um bem-estar, uma paz como há muito tempo não sentia.
FIM DO EPISÓDIO XLIII
EPISÓDIO XLIVQueria dizer alguma coisa, mas parecia ter medo de falar, medo de que qualquer som quebrasse o encantamento daquele momento mágico.
Sem uma palavra, desprendeu uma das mãos que Humberto mantinha entre as suas,
e, apelando às poucas forças que lhe restavam, acariciou-lhe o rosto suavemente.Olhando-o nos olhos, murmurou:
- Como pude ser tão cega, e nunca perceber o amor que sentias por mim?
- Tu não foste cega, minha querida, eu é que me esforcei muito para ocultar esse amor.
Primeiro, porque não queria, de modo algum, levar-te a cometer nenhum acto que considerasses menos digno. Eras casada com meu Pai, e por muito que eu, nessa altura, o detestasse, tu, para mim, eras sagrada, intocável.
Depois, quando na tua vida surgiu o padre João, senti que nunca poderias retribuir o meu amor.
Foi a partir desse momento que decidi afastar-me de ti o mais possível, tentando, em vão, esquecer-te.
Se bem te recordas foi nessa altura que comecei a espaçar as minhas idas à Ilha, e a encurtar o tempo de permanência lá.
- Sim, lembro-me bem, e recordo-me que me custou bastante essa alteração que fizeste aos hábitos anteriores.
Agora eu considero-o um período negro da minha vida.
A propósito, quero pedir-te um favor: Como te mandei dizer por carta, o padre João preferiu ir para uma Missão em África a vir viver comigo.
- Sim, eu sei. Mas, por favor, Anita, não fiques agora a remexer nesse assunto – interrompeu-a Humberto.
- É preciso, Humberto. Mas não te preocupes, que “esse assunto”, como lhe chamas, já não me incomoda; apenas me causa desconforto, e só não o abomino porque existe a Eduarda.
É exactamente por isso, por ela existir, que quero pedir-te um favor.
- Não imagino o que possa ser…mas, seja o que for, sabes que farei tudo o que me pedires – respondeu Humberto.
- Como tu sabes, Eduarda viveu sempre pensando que Vicente era o seu Pai…
- Sim, eu sei…
- Pois o que te quero pedir é que me jures que, aconteça o que acontecer, nunca revelarás a Eduarda quem é o seu verdadeiro Pai.
Além de mim, tu és a única pessoa a conhecer a verdade.
Humberto estremeceu. Pelo tom em que Anita falou, sentiu que ela “sabia” que o seu fim estava próximo.
Anita insistiu:
- Tens que me jurar, Humberto. Por favor…
- Juro, sim, mas apenas porque me pedes. Não vejo qualquer motivo para esse teu pedido…
- As mulheres, às vezes, têm caprichos meio estranhos, não sabes?
E quero também que me prometas que serás sempre o “irmão querido” da Eduarda… - acrescentou, já com um ar cansado.
Humberto apressou-se a prometer tudo. Começava a sentir-se de tal modo oprimido, que receava que os seus nervos o traíssem. Precisava sair dali rapidamente, para respirar fundo, e recuperar forças para continuar junto de Anita.
A enfermeira veio trazer o almoço, e Humberto aproveitou para sair, alegando que precisava ir comer.
Anita concordou, mas com a condição de que voltasse bem depressa…
Humberto, inteirando-se de que Eduarda estava em casa, foi ter com ela, e dali telefonou para Inglaterra.
Pelo seu assistente ficou a saber que haviam conseguido localizar Tiago, e que o tinham avisado que devia regressar imediatamente ao escritório. Humberto informou que telefonaria ao cair da tarde, e que Tiago deveria aguardar, lá, o seu telefonema.
Depois de comerem, sem apetite, Eduarda e Humberto voltaram para a clínica.
Encontraram Anita semi-adormecida, depois de lhe terem recolhido sangue para análises, com vista à cirurgia no dia seguinte.
Logo que sentiu a sua presença Anita abriu os olhos, o que, notoriamente, lhe exigiu um certo esforço.
Apesar do seu estado de extrema fraqueza e cansaço conseguiu ostentar um sorriso que envolvia os dois num grande carinho.
Sentaram-se cada um de seu lado da cama. Anita segurou as mãos de ambos, e assim se conservaram, conversando com aparente calma, cada um engolindo as suas próprias lágrimas, tentando fingir que tudo iria correr bem.
Pouco depois de a enfermeira ter trazido o lanche, ouviram-se umas pancadas suaves na porta.
FIM DO EPISÓDIO XLIV





















