quinta-feira, 1 de agosto de 2019

UM CONTO

O AMOR É ETERNO
 

Como não tive oportunidade de ouvir as confidências da Nanda (e que, como boa coscuvilheira que sou, logo venho partilhar convosco…) fui procurar no meu baú e descobri um conto que escrevi há pouco tempo, e de que gosto particularmente.
Para substituir as ditas confidências (ou inconfidências, melhor dizendo) submeto-o à vossa apreciação.
Espero não vos defraudar com a troca.
O AMOR É ETERNO
Marta caminhava lentamente em direcção à sala. Parou à entrada, olhando tristemente para o sofá de dois lugares, agora vazio. Quantas horas felizes ali passara, ao lado do grande amor da sua vida, que a acompanhara por mais de quarenta anos…
Não pôde deixar de lembrar o que acontecia neste dia, o do seu aniversário. Quando ali chegava já encontrava, sobre a sua cadeira, um lindo ramo de rosas vermelhas. Este ritual cumpriu-se, ano após ano, ao longo da sua vida de casada. Luís, o marido, estava escondido atrás da porta, mostrando-se apenas quando ela pegava nas flores. Pé ante pé aproximava-se por detrás, enlaçando-a pela cintura. Ela voltava-se e, com um terno beijo, agradecia-lhe aquele gesto de carinho. Só depois de as rosas terem sido depositada s numa linda jarra de cristal, enchendo a sala com o seu intenso perfume, é que Luís lhe entregava a prenda de anos. E o cuidado com que ele a escolhia! Sabia adivinhar-lhe os desejos, que ela nunca revelava; ele parecia ter um sexto sentido que lhe indicava as coisas que ela mais desejava.
Este era o seu primeiro aniversário em que o lugar dele no sofá estava vazio. Partira há cinco meses, deixando um vazio impossível de preencher. Sentia uma saudade enorme dos serões que ali haviam passado, de mãos dadas, conversando sobre os acontecimentos do dia, ouvindo música ou vendo televisão.
Cerca das dez horas cumpria-se o ritual do chá. Ela levantava-se e, sem nada dizer, dirigia-se à cozinha. Pouco depois sentia-se no ar um agradável aroma a hortelã, ou erva príncipe, ou limão… por vezes camomila.
Voltava da cozinha com um tabuleiro onde colocara uma pequena taça com saborosos biscoitos de canela, ou de manteiga… às vezes de amêndoa…  que fizera à tarde, o bule do chá e duas chávenas de porcelana. A sala ficava impregnada do odor que saía pelo bico do bule.
Invariavelmente Luís comentava, fosse qual fosse o chá que ela tivesse feito:
- Como foi que adivinhaste que era exactamente esse o chá que me estava a apetecer hoje?
Ela sorria e, invariavelmente também, respondia, interiormente feliz pela subtileza com que ele sabia agradecer:
- Tu sabes que eu tenho um dedo que adivinha…
E sorriam ambos, felizes.
Não tiveram filhos. Não sabiam se a dificuldade dela em engravidar se devia a algum problema seu ou dele. Nunca o quiseram saber. Deixavam o tempo passar, sempre com a esperança de que um dia acontecesse serem surpreendidos com a vinda de um bebé. Tal não aconteceu. E à medida que o tempo foi passando aceitaram esse facto sem amargura ou desconforto. Viviam um para o outro; ele trabalhando num escritório de advocacia, ela cuidando do lar e do pequeno jardim em frente à casa onde moravam.
Tinham amigos com quem conviviam sempre que se proporcionava, embora gostassem muito de estar os dois sozinhos. Tinham-se dedicado inteiramente um ao outro…
Interrompendo os seus pensamentos o toque da campainha da porta fê-la estremecer.
Levemente contrariada dirigiu-se ao hall de entrada. À porta encontravam-se dois estafetas. Um deles empunhava uma caixa de cartão rectangular, com cerca de 40 centímetros de lado e furos na parte superior; o outro segurava cuidadosamente um ramo de perfumadas rosas vermelhas.
Marta sentiu um aperto no coração. Não, não era possível As rosas vermelhas sempre lhe tinham sido oferecidas pelo marido, ao longo dos seus 43 anos de casada.
Fazendo um esforço enorme para disfarçar a sua consternação, disse:
- Com certeza os senhores enganaram-se na morada… Eu não encomendei nada, e não existe qualquer outra pessoa cá em casa…
- Não, não há engano, é mesmo esta a direcção – responderam, quase em uníssono, os dois estafetas.
- Desculpem, mas isto só pode ser uma brincadeira de mau gosto… - insistiu ela.
- Não, minha senhora, não é nenhuma brincadeira – respondeu o rapaz que empunhava as rosas, estendendo-lhas. E continuou:
- Estas rosas foram encomendadas por um senhor há seis meses, com a indicação expressa de que deveriam ser entregues neste dia, sem falta. Repare que até tem um cartãozinho escrito, que o senhor lá deixou, recomendando que o juntássemos às flores…
Marta, dominando a sua enorme comoção, segurou as flores e abriu o pequeno envelope, retirando dele um cartão onde, reconhecendo a letra de Luís,  pôde ler:
- Com o meu eterno Amor.
Dificilmente conseguia controlar-se. Foi a vez do outro estafeta se lhe dirigir:
- Connosco passou-se exactamente o mesmo, minha senhora. Há seis meses foi à nossa loja um senhor fazer esta encomenda, com a mesma recomendação: “Que fosse entregue hoje, sem falta”. E também deixou um cartão…
Marta sentia que o coração ia explodir-lhe no peito. O que poderia estar dentro daquela caixa? Começou por ler o cartão, que dizia:
- Com todo o meu Amor, para te fazer companhia nas longas noites de Inverno.
Tremendo, foi colocar as rosas na sala, voltando para receber a caixa. Segurando-a com cuidado percebeu que, no seu interior, alguma coisa se mexia. Abriu-a sem demora. Lá de dentro saltou uma pequena bola de pêlo branco que imediatamente correu para a sala, indo sentar-se no sofá, no lugar que sempre fora ocupado pelo marido.
Marta ficou paralisada. Mesmo encontrando-se do outro lado da vida, Luís adivinhara o que ela teria desejado que ele lhe oferecesse naquele aniversário – um cãozinho!
Dirigindo-se ao sofá sentou-se ao lado da prenda acabada de receber. Fez-lhe uma festinha na cabeça. O pequeno animal agradeceu lambendo-lhe a mão.
Marta sentiu o coração apaziguado como há muito tempo não acreditava ser possível…
E dirigindo-se ao seu novo amigo, murmurou, pensativamente:
- Como havemos de te chamar? Talvez… Luisinho… Gostas?

Maria Caiano Azevedo
 25/03/20019

43 comentários:

chica disse...

Lindo ,doce e terno conto e o presente um amor! bjs praianos,chica

Mary - Strawberrycandy disse...

Maravilhoso!
Beijinhos,
Espero por ti em:
strawberrycandymoreira.blogspot.pt
http://www.facebook.com/omeurefugioculinario
https://www.instagram.com/marysolianimoreira/

Roselia Bezerra disse...

Bom dia de paz, querida amiga Mariazita!
Um conto espetacular que revela um 💝 amoroso por tras do buque. Quem enviou e quem o recebeu...
Muito bem escrito e envolvente.
Gosto do jogo de afeto embutido.
Tenha dias abencoados!
Bjm carinhoso e fraterno de paz e bem

Daniel Costa disse...

Querida Amiga Mariazita mais uma vez, achei o conto lindo, e sobretudo muito positivista. De notar a previdência das prendas aprovisionadas antes de ... Gosto sempre dos contos deste quilate.
Boas féria e beijos de amizade.

esteban lob disse...

Una vez más el perro, Mariazita, se convierte en nuestro mejor amigo.
Linda historia.

Un beso austral.

Berço do Mundo disse...

Que conto mais terno. Haverá maridos assim, atenciosos mesmo na morte? De olhos húmidos, deste lado.
Continuação de boas férias.
Beijinhos
Ruthis d' O Berço do Mundo

Duarte disse...

Fizeste bem, pois gostei muito. Se não tens inconveniente vou empregar nas aulas do próximo ano académico.
Fizeste-me recordar, obviamente, a Hannah, quanta ternura!
Por isso, e com razão, o cão é o amigo mais fiel do ser humano. Sempre falando de comportamentos normais.
Abraços de vida, continuação dum bom verão e com umas férias inolvidáveis.

Lídia disse...

Gostei muito, Parabéns!!!

Os olhares da Gracinha! disse...

Também gosto por isso o meu aplauso!!! Bj

Tais Luso disse...

Querida amiga, confesso que esse belo e terno conto me deu um nó na garganta! Tão triste e ao mesmo tempo tão belo!
Quanta criação, amiga...
Aplausos e mais aplausos para teu conto.
Beijo, querida.

Pedro Coimbra disse...

Coração solto e aos pulos.
Beijinhos, bfds

Portugalredecouvertes disse...

Volta ler mais tarde Mariazita,
deixo um beijinho grande :)

Jaime Portela disse...

Querida amiga, este conto é de mestre.
Os meus aplausos pelo teu talento para as letras.
Escusado será dizer que fiquei comovido com o final.
Mariazita, tem um bom fim de semana.
Beijo.

Amélia disse...

Querida Mariazita, conto maravilhoso que adorei ler, ao mesmo tempo emocionante.
Aplausos para uma escritora talentosa.
Desejo um excelente fim de semana.
Beijinhos

Fá menor disse...

Muito bonito, amiga!
Amores assim são difíceis de encontrar.

Beijinhos.

Elvira Carvalho disse...

um conto muito bonito. Há amores assim. Perduram para além da morte.
Abraço

Manuel Luis disse...

Fizeste-me recordar as caravanas, numa delas estava um cãozinho, deitado numa cadeira.
Um belo e terno conto.
Bjs

Lúcia disse...

Senti falta de notícias da Nanda mas quando logo que vi a imagem de um lindo POODLE, de entrada, veio-me à lembrança o primeiro presente VIVO que recebi do meu eterno amor: REX meu primeiro e querido 'filho'. Além de muito bonito, considerei o seu conto um lindo presente, querida amiga Mariazita.
Um abraço acompanhado de beijos,desde o Ceará!

Beatriz Bragança disse...

Querida Mariazita
Começo por lhe agradecer as belas e tocantes palavras que sempre me deixa, quando me visita.
Em relação a este conto maravilhoso, devo dizer que me comoveu imenso. Que bela história de Amor eterno, algo tão raro nos nossos dias.
As minhas felicitações pela sua escrita e pelo modo compo o faz. Sempre cativa, provoca sentimentos e desperta sensações de todo o tipo. Neste caso, parece-me que até senti o perfume das rosas e o aroma do chá:obrigada.
Um beijinho
Beatriz

Eliane disse...

querida Mariazita:
seu conto me emocionou!
adoro seu estilo de escrever, mas este conto me tocou muito a alma.
Só um grande amor para ser eterno !
grande abraço.
:o)

Emília Pinto disse...

Claro que a Nanda precisa de férias e, olha, o começar de novo, pediu-lhe licença e foi atrás dela. Assim fazem companhia um ao outro, Adorei o conto, querida amiga, tão belo e ternurento e que voltarei a ler com toda a certeza. Triste, mas muito doce. Um beijinho, querida Amiga e espero que já tenhas descansado da primeira parte das tuas férias. Férias também cansam!
Emilia

Lilazdavioleta disse...

Querida Mariazita ,
obrigada por ter conseguido , com a sua escrita irrepreensível , que umas lágrimas que se encontravam presas na garganta se soltassem .

Um amigo de quatro patas é o melhor presente . . .

Um forte abraço e mais uma vez agradeço este conto carregado de sensibilidade .
Continuação de boas férias ,
Maria

Graça Pires disse...

Um conto emocionante e muito bem narrado.
Uma boa semana.
Um beijo.

Franziska disse...

Me ha dejado con una enorme paz este cuento. Es una joya. Me ha emocionado, ha merecido la pena llegar para leerlo. Te agradezco que me sigas teniendo en tu lista de lectores y te ruego que no tengas en cuenta si siempre no es posible que te conteste: tengo serios problemas con mis ojos y, estoy camino de una ceguera, ahora aún puedo ver, pero no es bueno que invierta mucho tiempo delante del ordenador como he venido haciendo durante estos últimos años de mi ya larga vida: tengo 85 años.

Si puedo, volveré a leerte para mí es un placer que no quisiera perderme mientras pueda. Un abrazo.

Reflexos Espelhando Espalhando Amig disse...

Bom dia e ótima nova semana.
Linda publicação.
Bjins
CatiahoAlc.
Conhece também meu Blog e Frases
aqui https://frasesemreflexos.blogspot.com/

O Árabe disse...

Pelo pouco que sei, Mariazita, acredito que haja muito de biográfico neste lindo conto, que, confesso, tocou-me o coração. Bem disseste que eu iria gostar! Meu abraço, amiga; bom resto de semana.

betonicou disse...

Ei Mariazita! A ternura fez morada nesse belíssimo conto, Mariazita. Singeleza que nos atrai para dentro! Gostei imenso. GRande beijo. Feliz continuação de semana.

Quase Cinderela disse...

Olá Mariazita
Adorei a história.
Acredito no amor eterno
Obrigada por me inspirar
Um enorme beijinho

Kasioles disse...

De principio a fin es precioso tu cuento, me encanta comprobar que el amor es eterno.
Según iba leyendo cada párrafo, sin darme cuenta, me fui sintiendo la protagonista de la historia y, a medida que avanzaba tu relato, he notado que me emocionaba.
Me has hecho recordar que yo también siempre tenía un regalo de aniversario, de cumpleaños, del día de los enamorados y ramitos de violetas, lilas y glicinias en cualquier día del año.
Abrazos.
Kasioles

Jaime Portela disse...

Passei apenas para te desejar um bom fim de semana.
Beijo, querida amiga Mariazita.

Ana Tapadas disse...

Uma ternura, este conto!
Espero que as férias estejam a correr bem.
Beijinho

SOL da Esteva disse...

É mesmo eterno, o Amor
Qualquer que seja o momento.
Jamais houve Amor sem dor
Com paixão a seu contento.


Beijo
SOL

Maria Rodrigues disse...

Querida amiga fiquei emocionada com a sua história.
Duas pessoas que caminharam pela vida com amor na alma e no coração.
Realmente um amor maravilhoso e eterno, o Luís sabia que não havia nada melhor para fazer companhia, do que um cãozinho.
Adorei!!!
Beijinhos
Maria

Olinda Melo disse...


Querida Mariazita


Um conto maravilhoso, de um grande amor que atravessa a própria vida.
Adorei lê-lo e fiquei com uma lagrimita no canto do olho.

Espero que as tuas férias tenham sido boas.

No próximo mês terás a segunda parte. Será que daqui até lá
haverá tempo para a Nanda te fazer algumas confidências. :)

Resto de um bom domingo.

Beijinhos

Olinda



Lúcia Silva Poetisa do Sertão disse...

Adorei ler este conto que expressa um amor tão forte e verdadeira que ultrapassou os limites do tempo. O gesto da rosa e o presente do cachorrinho, emocionou-me muito.
Beijos carinhosos!

Marina Filgueira disse...

Me emociona inmensamente esta historia o cuento, qué más da, precisamente por el amor profundo que mana de algún corazón autentico y dura hasta la eternidad.
El amor puro y la pasión, es magia nace dentro del alma, es esa llama que prende una vez y nunca se apaga, por más que pase el tiempo. cuando uno queda sólo, la mejor compañía por supuesto, es una mascota.

Encantada de leerte. Un abrazo y mi inmensa gratitud.

Se muy, muy feliz y vivamos la vida, pues tenemos una sola.

Às margens de mim. disse...

Bom dia!
As vezes o amor está ocupado, tão ocupado que flutua nas nuvens e não ver a beleza dos dias passarem.

O Árabe disse...

Espero que estejas bem, amiga; deixo-te um abraço e aguardo o próximo post. Boa semana!

Olinda Melo disse...


Querida Mariazita

Muito obrigada pelo teu belo comentário.
Desejo-te Boas Férias lá naquelas Ilhas
maravilhosas de São Tomé e Príncipe.

Quando voltares trataremos das nossas
conversas com a "Nanda" que adivinho
serão, como sempre, estimulantes.

Beijinhos. Boa viagem

Olinda

Ana Tapadas disse...

Uma história emocionante e terna.

Desejo-lhe uma óptima segunda etapa de férias!

Beijinho

Ana Freire disse...

Uma história linda e deveras emocionante, Mariazita!...
E o verdadeiro amor é isto... um encontro de almas, que perdura para além do tempo... e de alguma forma, se faz sentir sempre presente!...
Adorei!!!!
Deixo um beijinho, aproveitando para me despedir, por algum tempo, na minha habitual pausa de Verão... contando estar de volta, lá para meados de Outubro... primeiro férias, depois obras por lá na Ericeira... por isso, será muito pouco provável, conseguir voltar ao blogue antes...
Um beijinho grande, e estimando que passe igualmente umas boas férias, Mariazita... como creio que ainda fará, mais alguns dias, em breve!...
Tudo de bom! Até breve!
Ana

SOL da Esteva disse...

Há gente coscuvilheira
Que escuta tudo o que é dito.
Não cria nada á maneira
Mas age como o palito.




Beijo
SOL

Kasioles disse...

Querida amiga: Agradezco tu largo comentario y te pido disculpas por no haberte contestado antes.
Te cuento: Acabo de regresar de unos días de vacaciones por Cantabria, el tiempo no ha sido para ir a la playa, pero he disfrutado de la brisa del mar y del paisaje que parece de película, he ido con dos de mis hijas y visitamos varios pueblos de los alrededores, todos con gran encanto.
Disfruta tú de esos días de ferias.
Te dejo cariños en un fuerte abrazo.
Kasioles