sexta-feira, 1 de maio de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XX

SEGREDOS – CAPÍTULO XIX

“… Despediram-se com o beijo habitual.
Nanda foi para dentro e, na sala, encontrou o pai sentado junto à mãe, nitidamente à sua espera…”

SEGREDOS – CAPÍTULO XX
Nanda sentiu um forte aperto no peito ao ver o pai. O coração disparou a toda a velocidade. Não esperava encontrá-lo ali e não se sentia ainda preparada para o encarar. Olhou-o, a medo, na expectativa de tentar perceber qual iria ser a sua reacção. Viu-lhe, nos olhos, uma expressão de infinita tristeza. Não conseguiu conter as lágrimas, que começaram a rolar, silenciosas.
O pai levantou-se, aproximou-se e, sem dizer uma palavra, abraçou-a fortemente, juntando às dela as suas próprias lágrimas.
A mãe levantou-se num impulso, e, em voz sarcástica, quase histérica, exclamou:
- Mas que cena tão comovente! Não sei qual é mais inconsciente, se a filha se o pai. A filha com uma criança na barriga que, com certeza nem sabe quem é o progenitor, e a reacção do pai é abraçá-la!
- Uma criança é sempre uma bênção de Deus, seja em que circunstância for, e esta, que ainda está por nascer, vai ser, e já é, muito amada.
Nanda sentiu-se desmoronar por dentro ao ouvir as palavras do pai. As lágrimas silenciosas transformaram-se em soluços convulsivos.
- Acalma-te minha querida, esse choro não é bom para o meu neto… ou neta. E eu quero que essa criança nasça muito saudável.
A dona Lucinda começava a sentir-se emocionada. Mas, não querendo dar o braço a torcer, resolveu intervir:
- Bem, quando terminarem a choradeira falaremos de coisas práticas.
Pai e filha afastaram-se, recompondo-se.
- Podes falar, Cindinha (era assim que o pai tratava a mãe quando queria amansá-la). Queremos ouvir o que tens para dizer.
- O que tenho para dizer é muito simples. Filha minha não sai desta casa para a igreja com a barriga empinada. Portanto, ou tratas de dizer quem é o pai e apressam o casamento ou procuras lugar para morar. Não quero na minha casa mães solteiras!
Lembrando-se da conversa com o Tó Zé, Nanda pensou, rapidamente, que o melhor seria aceitar a sugestão dele, e declará-lo como pai do seu bebé. E assim tratariam do casamento o mais depressa possível.
Com um fundo suspiro, como que a ganhar coragem, respondeu:
- Não vale a pena estar com mais rodeios. A mãe adivinhou quanto ao pai do meu bebé. É o Tó Zé, sim. E até já falámos em casamento… O único problema é que o ordenado dele não é muito grande, e para alugar uma casa e sustentarmo-nos… não vai ser nada fácil…
O pai reagiu de imediato:
- Não quero que tu, e muito menos o bebé, passem a mais pequena dificuldade. Eu ajudo no que for preciso. Procurem uma casa para alugar, ou… se preferirem… eu não me importava que ficassem a viver cá em casa. Que te parece, Cindinha?
- Sempre ouvi dizer que quem casa quer casa – respondeu, com azedume na voz.
- Pai, não me leve a mal, mas eu também preferia ter casa minha… - apressou-se a esclarecer Nanda. E acrescentou: É claro que quero ver-vos lá muitas vezes, assim como, se quiserem, virei cá ver-vos…
D. Lucinda interveio, em tom mais cordato:
- Ninguém sugeriu ficarmos de relações cortadas…
Adiante. O pormenor da casa está resolvido, é só vocês encontrarem uma que vos agrade. Resta, portanto, o casamento. Vocês já pensaram no que querem fazer?
- Não, Mãe, não pensámos em nada de concreto, apenas aflorámos o assunto. Mas, se tanto a mãe como o pai concordarem… eu gostaria de uma cerimónia simples… só no cartório.
- Por mim, concordo – apressou-se a responder D. Lucinda. O que é que tu achas, José?
José Sanches, pai de Nanda, tinha pela filha verdadeira adoração. Sempre sonhara conduzir a sua menina ao altar, onde a esperaria o seu príncipe encantado. Uma igreja cheia de flores e convidados, seguindo-se um faustoso copo d’água… um casamento digno duma princesa.  Mas, dadas as circunstâncias, esse sonho caía por terra.
- O que a Nanda quiser… por mim acho bem. Afinal… ela é a principal interessada. – respondeu, a custo.
- Então, estamos entendidos – rematou D. Lucinda. Tratem de alugar casa sem demora.
No dia seguinte Nanda apressou-se a telefonar ao Tó Zé dizendo-lhe que tinha urgência em lhe falar. Quando lhe contou o que se passara com os pais, ele mal conseguiu disfarçar a alegria que a notícia do casamente lhe causava.
- Então… temos de nos apressar. Vou ver no jornal anúncios de casas para alugar. E tu também podias fazer o mesmo. Afinal, ainda estás de férias – disse, com um sorriso de orelha a orelha.
- Claro que posso. O meu pai compra sempre dois ou três jornais… Vou ver se vejo por lá alguma coisa. Para além disso, penso que concordas com o que disse à minha mãe acerca do casamento ser uma cerimónia muito simples, e apenas no cartório…
- Evidentemente que concordo, querida. Tu sabes que eu não ligo muito a essas coisas. Por mim até podíamos ir viver juntos sem casamento, se tu quisesses que assim fosse… - acrescentou, bem disposto.
- Eu também não me importava… mas seria um desgosto muito grande para os meus pais.
- Compreende-se… Os pais têm sonhos para os filhos, que nem sempre coincidem com o que estes desejam… Mas nada melhor que chegar a um consenso: uns cedem um bocadinho, os outros cedem por outro lado… e tudo corre bem – Tó Zé sentia-se tão feliz que era capaz de concordar fosse com o que fosse. Sabes o que vou fazer? Pedir uma semana por conta das férias para tratarmos do casamento. É que é muita coisa… E, para já, vou passar por casa para contar à minha mãe. Acho que ela vai ficar radiante.
Nanda foi para dentro, encontrando a mãe na sala, sentada, como se estivesse à sua espera, e não com aspecto de ir sair para as suas habituais visitas aos que necessitavam de companhia. Pediu a Nanda que se sentasse a seu lado. Ela acedeu, preparando-se, mentalmente, para ouvir mais alguns desaforos.
D. Lucinda estendeu a mão segurando a da filha. Com voz que teimava em não parecer comovida, disse:
- Minha filha, certamente estás zangada comigo.
- Não, mãe, eu compreendo-a…
- Não me interrompas, por favor – cada vez adoçava mais a voz. Eu entendo que te possas sentir aborrecida. Eu tenho sido muito agressiva contigo, e peço-te que me perdoes. Sabes? Eu sofri um choque enorme quando verifiquei que estavas grávida. Sempre sonhei que a minha menina – és a minha única filha – fizesse um casamento semelhante ao meu. Foi tão lindo, o meu casamento! Via-te vestida de branco, com um vestido longo, lindíssimo, um noivo maravilhoso; depois partias para a lua de mel… e só algum tempo depois começarias a encher esta casa de crianças… - D. Lucinda falava com um ar sonhador.
Mas, enfim, quis o destino que nada disto se concretizasse. A minha reacção foi de egoísmo puro, por ver o meu sonho desmoronar-se. Mas o que conta é que sejas feliz. E, se realmente gostas desse rapaz, vai em frente. Nós, eu e o pai, cá estaremos para te apoiar em tudo o que for preciso.
Nanda nem sabia como reagir. Estava tão espantada e sentia uma alegria tão grande com a atitude da mãe, que lhe apetecia agarrar-se a ela e dançar até mais não poder. Abraçou a mãe com toda a força e, não contendo as lágrimas, murmurou:
- Eu amo-a tanto, minha mãe!
D. Lucinda, extremamente comovida e também com a lagrimita ao canto do olho, respondeu:
- Vá, vá, nada de emoções fortes, que isso não faz bem ao meu netinho – ou netinha…
Os dias seguintes passaram a correr. Entre os quatro, noivos e pais da noiva, encontraram um apartamento de que todos gostaram; marcaram o casamento no cartório e o restaurante para o almoço, aos quais, casamento e almoço, compareceram apenas os familiares mais próximos – os pais de ambos os lados e a irmã e cunhado do Tó Zé, num total de oito pessoas. Nanda lembrou-se muito da sua querida amiga Bela, com quem falava uma vez por outra por telefone, lamentando não a ter presente num dos momentos mais marcantes da sua vida. Contudo a amiga continuava, alegadamente, a acompanhar a mãe no estrangeiro, sem saber quando regressaria.
Tudo se passou num abrir e fechar de olhos, e, antes mesmo que tomassem bem consciência disso, Nanda e Tó Zé estavam casados.
José Sanches fizera a surpresa de marcar uns dias num hotel para a filha e o genro passarem a lua de mel. Ambos ficaram agradavelmente surpreendidos.
Começaram calmamente a sua vida de casados. Tó Zé voltou ao trabalho. Como era muito eficiente no que fazia e desempenhava as suas funções sem uma falta ao serviço, o patrão promoveu-o, dando-lhe um cargo de chefia. Por seu lado Nanda começou com as aulas na Faculdade.
Aos Domingos reuniam-se sempre com os pais de Nanda, para o almoço. Não mantinham relações muito regulares com os pais de Tó Zé. Muito cedo este se desligara da família, “declarando” a sua independência. Exceptuava-se a irmã, de quem gostava muito
Poucos meses depois Bela regressou. A alegria do reencontro das duas amigas foi indescritível! Nanda, olhando a amiga nos olhos, exclamou:
- Parece que passaram anos desde a última vez que nos vimos! Não sei o que te noto… mas acho-te diferente, talvez mais adulta… Parece que que perdeste aquele ar de menina mimada que tinhas…
- Menina mimada, eu? Olha quem fala, a menina do papá… - troçou Bela. E, dizendo isto, acariciava a barriga de Nanda, que estava já bastante proeminente. – E quanto tempo falta para termos este bebezão cá fora? Estou ansiosa para conhecer o meu afilhado. Já sabes como vai chamar-se?
- Eu gosto muito do nome Miguel, e, em princípio, o Tó Zé não se opõe. E a madrinha o que acha?
- A madrinha aprova – respondeu Bela, com um grande sorriso. Miguel é um nome muito bonito.
Menos de um mês depois Miguel viu a luz do dia.
Embalada nestas recordações Nanda acabou por adormecer com um sorriso nos lábios.

Maria Caiano Azevedo 

quarta-feira, 1 de abril de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XIX

SEGREDOS – CAPÍTULO XVIII

"...- Ai, Tejo, Tejo, tu consegues imaginar o amor que sinto por ti? Só mesmo um amor muito grande me faria vir para o parque a estas horas da manhã…
Ao ouvir o seu nome o animal levantou a cabeça olhando para ela e, como se percebesse as suas palavras, abanou a cabeça como que em sinal de concordância..."

SEGREDOS – CAPÍTULO XIX
Rapidamente se passou um mês. Entre estar com a família e o seu emprego, Nanda nem se apercebeu de que o tempo corria veloz.
A inauguração da “Orvalho de Prata” fora um êxito. Empresário exímio, Araújo mandara fazer umas pequeninas rosas em prata que foram oferecidas, como presente de inauguração, aos clientes que efectuaram alguma compra. Todos os clientes saíram satisfeitos, tanto pela lembrança como pela simpatia das empregadas, duas senhoras já na casa dos quarenta anos, mas com uma apresentação impecável.
O dia a dia de Nanda era quase rotineiro. De manhã levava o Tejo a passear, o que repetia à noite, já tarde, pois que a loja fechava às 22 horas. À hora do almoço, muitas vezes aproveitava para ir ver o neto, e ao Domingo não dispensava o almoço em família. Nestes eventos era frequente a presença de Tó Zé, que se mostrava verdadeiramente apaixonado pelo neto. Isso levava a que Nanda, ao regressar a casa, sozinha no seu apartamento, infalivelmente recordasse o passado…
***
“…- Essa mania que vocês têm de comer porcarias, e ainda por cima à noite! Se calhar era melhor ires ao médico…
- Não é preciso, Mãe. É só eu fazer um pouco de dieta, e fico boa.
- Bem, vamos ver. Mas olha que com a saúde não se brinca…”
Dona Lucinda ficou com a pulga atrás da orelha e nos dias que se seguiram esteve ainda mais atenta ao estado da filha, que não mostrava qualquer melhoria. Antes pelo contrário, a cada dia que passava Nanda sentia mais náuseas e várias vezes teve de interromper o pequeno almoço para ir vomitar.
Um dia a mãe decidiu esclarecer o assunto duma vez por todas. Colocando no rosto um ar severo, logo a seguir ao pequeno almoço, interpelou a filha:
- Ora vamos lá falar como duas pessoas crescidas, minha menina. Sim, que tu já és bem crescidinha!
Nanda estremeceu. Todas as vezes que a mãe lhe chamava “minha menina” era sinal de que vinha por aí raspanete. E, com este tom tão rígido, tinha de se preparar para o pior.
Foi sentar-se em frente da mãe, dizendo com ar contrito:
- Sim, Mãe. Quer falar de quê?
- De ti, evidentemente. Essa tua suposta doença que se manifesta apenas por vómitos já dura há tempo suficiente para me deixar desconfiada.
Nanda, interiormente, tremia de medo antevendo o que viria a seguir, mas fazia os possíveis por aparentar uma calma que estava longe de sentir.
- Queres contar-me a verdadeira razão desse teu “mal estar” ou preferes que seja eu a adivinhar?
O tom de voz da mãe endurecia à medida que ela falava. Nanda sentia que não havia escapatória possível. Chegara a hora da verdade. E pensava, aflita – “Isto tinha de acontecer, mais tarde ou mais cedo. No fundo, até me parece que mais vale contar tudo de uma vez…”
A mãe insistia:
- Então? Queres falar ou não?
- Eu gostava de falar, sim, Mãe. Mas falta-me coragem….
A mãe respirou fundo como se precisasse de se acalmar. Quase a gritar, exclamou:
- Falta-te coragem? Mas para fazer o que fizeste não te faltou coragem!
Voltou a respirar fundo, e, num tom mais comedido, continuou:
- Vamos pôr as cartas na mesa. Tu estás grávida, não é verdade?
Nanda começou a chorar. As lágrimas deslizavam em silêncio pelo seu rosto. Não conseguia responder. A mãe continuou.
- Pelo teu silêncio já percebi que não estou errada. Pois muito bem, agora vais me dizer quem é o pai desse desgraçado que trazes no ventre.
Nessa altura Nanda conseguiu forças para dizer, em tom magoado:
- Não é nenhum desgraçado, é um bebé que está para nascer!
A mãe pareceu acalmar-se ligeiramente, mas continuou com tom muito duro:
- Pois que seja! Agora quero saber quem é o pai.
Nanda continuou a chorar em silêncio. Não conseguia articular uma palavra.
Mas a Dona Lucinda não lhe deu tréguas.
- Não penses que me comoves com essas lágrimas. E, para que saibas, essas são apenas o começo de muitas que ainda hás-de chorar. Queres ou não queres dizer-me quem é o pai dessa criança?
Novo silêncio e mais lágrimas no rosto de Nanda.
- Tu não queres dizer, mas eu posso bem adivinhar de quem se trata.
Ao ouvir estas palavras Nanda sentiu-se gelar, mas continuou silenciosa. “A mãe estaria a pensar no Alessandro?”
- Essas noitadas ao portão foi no que deram! E eu que confiava tanto naquele rapaz! Para mim era como se fosse teu irmão. E vê o resultado que deu a confiança que eu tinha nele! Ah! Mas ele vai ouvir-me das boas, não perde pela demora…
Interiormente, Nanda estava boquiaberta. Não era possível! A mãe estava a pensar no Tó Zé? Não sabia se se sentia aliviada se indignada. Tinha de falar urgentemente com o seu amigo, avisá-lo do que se estava a passar.
Fingindo uma nova náusea, levantou-se, ainda chorosa, e fez sinal de que precisava ir à casa de banho.
- Vai, vai, e escusas de voltar que a nossa conversa, por agora, está terminada. Mas isto não fica assim – disse, com voz gelada.
Quando regressou a mãe já tinha saído da sala. Nanda dirigiu-se ao seu quarto e ligou de imediato para o Tó Zé, que estava a trabalhar. Sem lhe dizer do que se tratava avisou-o que tinha muita urgência em falar com ele, mas só pessoalmente. Ele estava cheio de trabalho e não poderia vê-la a não ser à noite. “A não ser que queiras vir ter comigo e falamos por uns momentos”. Mas Nanda preferiu esperar pela noite.
Quando se encontraram depois de jantar Nanda abraçou-o com força e começou a soluçar. Tó Zé não sabia como reagir. Limitou-se a retribuir o forte abraço e a falar-lhe em tom suave, quase como se a embalasse.
- Então, então, mas o que é que se passa? Porquê esse choro assim tão descontrolado? Acalma-te, por favor, estás-me a pôr louco. Vá lá, tem calma e conta-me o que aconteceu. Eu quero ajudar-te, mas assim não posso…
Enquanto falava ia-lhe acariciando o rosto e enxugando-lhe as lágrimas que pareciam não ter fim. Aos poucos os soluços foram rareando, e Nanda conseguiu falar:
- Tu não vais acreditar no que aconteceu. A minha mãe descobriu tudo.
- Tudo, o quê?
- A gravidez, que mais querias que fosse?
- Olha, por um lado ainda bem que isso aconteceu. Afinal, tu não podias esconder para sempre… Eu acho que estar a guardar segredo não tinha grande sentido…
Continuava a abraçá-la, alisando-lhe os longos cabelos, na tentativa de que ela não voltasse a chorar. Nanda retomou a palavra, agora mais calma:
- Pois, só que tu não sabes quem é que ela pensa que é o pai do bebé.
- Então, não é o Alessandro? – perguntou Tó Zé.
- Não, muito longe disso. Ela pensa que és tu.
- Eu? – não podia haver maior espanto no rosto e na voz dele. Mas a que propósito é que ela pensou isso?
- Acha que aproveitámos – e pelos vistos muito bem - as noites que passámos aqui ao portão.
- Santo Deus! Não podia imaginar que ela fosse pensar tal coisa… Então e agora?
- Agora prepara-te porque ela prometeu dar-te um belo sermão…
- Isso não me preocupa nada. Nanda, sabes como gosto de ti, e chegou o momento de te dizer, com o coração nas mãos, que sempre fui apaixonado por ti. Perante esta situação, se te sentires mais confortável podemos fazer crer à tua mãe que ela está certa, que eu sou o pai do bebé, e, inclusivamente, que podemos casar, se ela assim o desejar, e se tu quiseres, claro. Talvez isso a acalme…
Foi a vez de Nanda ficar muda de espanto. Tinha por Tó Zé uma grande amizade, considerava-o o seu melhor amigo, e confiava nele cegamente. Mas daí a pensar que ele iria ter esta atitude… ia uma grande distância.
Encostou a cabeça no ombro dele e de novo as lágrimas assomaram aos seus olhos. Ele, limpando-lhe suavemente  o rosto, estranhou:
- Então fiz-te chorar? A minha intenção não era essa…
-Estas lágrimas não são de tristeza, são de comoção. Nunca pensei que fosses capaz de uma atitude tão nobre. Mas… não sei se devo aceitar. Tu estás a tomar essa atitude debaixo de uma grande tensão. Vamos fazer o seguinte – tu vais pensar bem no assunto, auscultas a tua família, e depois decides. Para todo o efeito eu não confirmei à minha mãe que és tu o pai do bebé…
- Não confirmaste mas também não desmentiste, não é verdade? Para além disso… sabes que a opinião da minha família não é importante. Tenho 19 anos mas sou de maior idade, como sabes, e há muito tempo que me oriento sozinho. O que me interessa verdadeiramente é o que tu sentes e pensas do assunto. Portanto… tu é que deves pensar… e confirmar, ou não, junto da tua mãe. Eu aceito o que tu decidires.
Despediram-se com o beijo habitual.
Nanda foi para dentro e, na sala, encontrou o pai sentado junto à mãe, nitidamente à sua espera.

Maria Caiano Azevedo

domingo, 1 de março de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XVIII


SEGREDOS – CAPÍTULO XVIII

SEGREDOS – CAPÍTULO XVII
“… Nanda sentiu um aperto no coração. Num flash muito rápido viu-se, com os seus filhos recém-nascidos no colo, e o ex-marido junto dela, acarinhando-os.
Com um imperceptível encolher de ombros afastou-se lentamente e não pronunciou uma palavra. Não o conseguiria fazer sem denunciar a sua emoção…” 

SEGREDOS – CAPÍTULO XVIII
Encaminharam-se todos para o apartamento que Tó Zé tinha preparado.
Foi notório o espanto e admiração do casal. Luís mal conseguia falar, com tanto contentamento. Por fim, recomposto, voltando-se para o pai, disse, com voz perturbada:
- Pai, eu não imaginava que conseguisses fazer este palácio! Não tenho palavras para te agradecer, e o mesmo se passa com a Catarina, tenho a certeza. Não é, amor? – acrescentou voltando-se para a mulher.
- Eu também estou como tu. O meu sogro merece todo o nosso reconhecimento. Acho que nunca vivi numa casa tão linda… - Catarina estava deveras emocionada.
Nanda resolveu intervir, tentando desanuviar o clima tenso que ela própria sentia.
- Pois, os louros são todos para o pai… Mas ninguém agradece à mãe o trabalhão que teve com a decoração…
Catarina abraçou-a carinhosamente, com o cuidado necessário para não apertar o bebé, que continuava no colo da avó.
- Vocês, meus sogros, são as pessoas mais maravilhosas que já conheci.
Nunca poderemos agradecer tudo o que estão fazendo por nós.
O ambiente estava a tornar-se pesado. Nanda resolveu mudar de assunto. Dirigiu-se à mesinha da pequena sala, onde depositara umas caixas com bolos e sandes, e pediu ao Tó Zé que trouxesse os refrigerantes do frigorífico. Sentou-se, aconselhando todos a fazerem o mesmo.
- Ora então vamos lá saber. Já registaram este menino?
- Ainda não. Como temos trinta dias para o fazer… preferimos esperar e registá-lo cá – respondeu Luís.
- Boa ideia! E qual vai ser o nome do meu neto? – perguntou Nanda.
- TEU neto? Então ele não é também meu? – interveio Tó Zé, que até aí se mostrara pouco falador, mas apenas porque não queria denunciar a emoção que lhe causava ver a família reunida.
- Claro que sim! – apressou-se Nanda a responder. Desculpa, não tive qualquer intenção de te pôr de fora… Mas, voltando ao nome, já pensaram como se vai chamar o nosso principezinho?
- Sim, já pensámos e vamos chamar-lhe Fernando António.
- Fernando António? Como se lembraram de tal nome – Nanda e Tó Zé perguntaram quase ao mesmo tempo.
- Então não estão a ver? É uma homenagem aos avós paternos: Fernando, da avó – não podia ser Fernanda – e António do avô – esclareceu Luís.
- Ah! Estou tão habituada a ser tratada por Nanda que nem me lembro que o meu verdadeiro nome é Fernanda. Quanto ao teu pai… sempre foi e continua a ser Tó Zé – respondeu Nanda, com um sorriso. Nem me lembro que o primeiro nome dele é António. Mas gosto do nome que vocês escolheram! Que achas, Tó Zé?
- Eu acho bonito, e pode-se arranjar um diminutivo engraçado…
- Como, por exemplo… incitou-o Nanda.
- Nani – a primeira sílaba de Nanda e a última de António.
- Já sabia que tens uma imaginação muito fértil – riu Nanda. Mas até que não está nada mal… Gosto, sim senhor.
- Então não se mexe mais – riu, por sua vez, Tó Zé.
Todos comeram e beberam, pois o almoço tinha sido há bastantes horas. Nanda achou que era tempo de o filho e a nora ficarem a sós.
- Vou vos deixar descansar. Como já não é nada cedo, falamos amanhã. Tratem de pôr o vosso ninho ao vosso gosto, e amanhã combinamos alguma coisa.
Tó Zé aproveitou para também sair, acompanhando-a até à porta. À  despedida, comentou:
- Acabei de viver os momentos mais felizes dos últimos tempos. Espero que os nossos filhos se sintam bem na sua nova casa.
Deu um beijo na testa de Nanda, e, ainda emocionado, murmurou:
- Até breve, minha querida.
Nanda afastou-se, com o coração aos saltos. Tudo o que acabara de vivenciar trouxera-lhe à lembrança tempos passados, em que Tó Zé tivera um papel muito importante…
***
“… - Não brinques, que o caso é muito sério – repreendeu-o Nanda.
- Desculpa, não penses que não te levo a sério. Vá lá, podes falar que te ouvirei com toda a atenção – agora ele adoptara um tom contrito…”
- Desconfio que estou grávida – atirou ela, de chofre.
Tó Zé ficou mudo. Não sabia o que responder. Com os seus 19 anos não tinha ainda a experiência necessária para saber como reagir numa situação assim tão grave.
Mantiveram o silêncio por largos minutos até, que, finalmente, ele perguntou:
- O pai é o Alessandro?
- Quem querias tu que fosse? – respondeu Nanda, num tom meio ofendido.
- Desculpa. Claro que só podia ser ele. Tu nunca tiveste outro namorado. Mas… ainda não tens a certeza?
- A certeza, certeza, não tenho, mas é quase como se tivesse.
- O melhor é tu ires ao médico. Se quiseres posso falar com a minha irmã para marcar uma consulta para o ginecologista dela. Digo-lhe que é para uma amiga minha, sem dizer o teu nome. Isto, é claro, partindo do princípio de que não queres pedir isso à tua mãe… 
- Nem pensar em dizer à minha mãe! Mal consigo imaginar a reacção dela quando tiver mesmo de lhe contar…
- Então fica combinado. Chegando a casa já falo com a minha irmã. Mas, por favor, acalma-te. Não podes estar nesse estado de ansiedade. Só te faz mal, e além disso, a tua mãe pode desconfiar. E até, quem sabe? Pode ser que estejas enganada – Tó Zé tentava confortar a amiga, por quem tinha verdadeira adoração.
- Era bom que tivesses razão, mas, infelizmente, não acredito.
Despediram-se com um abraço mais apertado do que habitualmente. Ele seguiu a caminho de casa num estado de grande preocupação.
Tó Zé vivia eternamente apaixonado por Nanda. Ainda na escola primária, onde se tinham conhecido, já ele se declarava namorado da Nanda. Andava sempre perto dela, defendia-a quando os outros miúdos queriam pregar alguma partida, e sentia-se frustrado todas as vezes que Bela se lhes vinha juntar. Também era amigo de Bela, mas preferia vê-la longe deles, apesar de andarem muitas vezes os três juntos.
Depois da escola primária separaram-se, já que Tó Zé não seguiu o liceu, preferindo o curso industrial. Contudo, ele e Nanda continuaram a encontrar-se frequentemente, pois moravam relativamente perto um do outro. Viam-se quase todos os dias. Bela morava um pouco mais afastada por isso convivia menos com ele.
A paixão de Tó Zé não esmoreceu quando apareceu Alessandro. Continuou a amá-la em silêncio, não tendo, nunca, a coragem de lhe confessar os seus sentimentos.  Contudo, no fundo, acalentava a esperança de que ela acabasse por se cansar do italiano.
Agora, com a hipótese de gravidez e a ausência do namorado, renascia em Tó Zé a esperança de que Nanda viesse a ser sua. Sentia-se mal, ao pensar nisso, achava-se egoísta e indigno, mas não conseguia evitar tais pensamentos.
A ida ao médico veio confirmar as suspeitas – Nanda estava grávida!
Entrou num estado de grande aflição. Não saía de casa, excepto à noite para se encontrar com Tó Zé. Comia pouquíssimo, com grande esforço.
Fechava-se no quarto, a dormir – sentia-se sempre com sono – esforçando-se por esconder da mãe as náuseas que por vezes a acometiam , mas que,  por sorte, eram pouco frequentes.
Nem sequer podia desabafar com a sua melhor amiga, a Bela, que andava com a mãe não se sabia bem por onde.
O único conforto que recebia era do seu amigo Tó Zé, que a rodeava do maior carinho, consolando-a o melhor que podia.
Um dia ele perguntou-lhe:
- Já disseste alguma coisa ao Alessandro?
- Não, nem lhe vou dizer por carta. Se ele conseguir vir cá, como me tem prometido, nessa altura conto-lhe.
- Mas imagina que o trabalho não lhe permite vir tão depressa… Vais-lhe dar a novidade só depois de o bebé nascer?
- Não me fales nisso! Não quero pensar nesse assunto. Tenho muitas preocupações e problemas bem mais urgentes para resolver e nem sei que volta lhes dar…
E lágrimas começaram a rolar-lhe pela face. Tó Zé não insistiu mais no assunto. Abraçou-a carinhosamente, tentando confortá-la, dizendo que tudo se haveria de resolver
 As férias de Verão estavam a acabar, as aulas na Faculdade quase a começar, e Nanda sentia-se apavorada.
Um dia, inesperadamente, Dona Lucinda perguntou:
- Nanda, o que se passa contigo? Tenho vindo a reparar que, nos últimos dias mal tocas no pequeno almoço. E já te ouvi vomitar algumas vezes…
- Não se passa nada, Mãe – apressou-se ela a responder. Há uns dias fui com o Tó Zé comer uma pizza que não me caiu nada bem… E ainda não me recompus completamente, por isso às vezes tenho náuseas.
- Essa mania que vocês têm de comer porcarias, e ainda por cima à noite! Se calhar era melhor ires ao médico…
- Não é preciso, Mãe. É só eu fazer um pouco de dieta, e fico boa.
- Bem, vamos ver. Mas olha que com a saúde não se brinca…
***
No dia seguinte Nanda levantou-se com um certo esforço. Apetecia-lhe continuar na cama, mas não podia fazer a vontade ao corpo. Tinha de ir levar o Tejo à rua e depois arranjar-se para ir à Ourivesaria. Não tinha combinado nenhuma hora com o engenheiro, mas não queria que ele pensasse que ela era uma irresponsável. Afinal… Araújo dera a entender que o contrato de trabalho começaria a funcionar a partir do momento em que o haviam assinado, o que a levava a pensar que ele lhe pagaria desde essa data.
Assim sendo, e embora pouco houvesse a fazer na loja enquanto esta não fosse inaugurada, ela achava de bom tom aparecer lá cedo.
Fazendo das tripas coração… levantou-se, pôs um fato de treino e, com a trela do Tejo na mão, saiu.
- Ai, Tejo, Tejo, tu consegues imaginar o amor que sinto por ti? Só mesmo um amor muito grande me faria vir para o parque a estas horas da manhã…
Ao ouvir o seu nome o animal levantou a cabeça olhando para ela e, como se percebesse as suas palavras, abanou a cabeça como que em sinal de concordância.

Maria Caiano Azevedo 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

DIA DE ANIVERSÁRIO


12º. ANIVERSÁRIO

Aniversário?
Alguém falou em Aniversário?
Nem pensar! Já somei anos bastantes para estar agora a acrescentar mais um…!
A continuar nesse ritmo não tardaria muito para eu andar de cadeira de rodas, ou pelo menos munido de uma simpática bengala.
Não! Recuso-me! Daqui para a frente vou começar a desfazer anos. Portanto, como nasci há 12 anos, tirando 1, este ano faço 11. A isto chama-se Retro-Aniversário, ou seja, andar para trás nos anos. Não é uma ideia luminosa?
Para além de não querer envelhecer há , pelo menos, mais duas razões que me levaram a tomar esta decisão: o trabalho e a despesa.
Já pensaram bem no trabalhão que dá organizar um Aniversário? É descomunal!!!
Idealizar os convites (só isto gasta-me metade dos neurónios) , mandar para a impressora para imprimir, endereçar os envelopes, metê-los no correio… é uma maçada sem fim.
E a despesa? Nem é bom pensar!!!
Taças – agora usam-se flutes, cuja forma é mais alongada, mas fazem o mesmo efeito, ou seja, é por eles que se bebe o champanhe. Como nos finais das festas se partem muitos… devido aos vapores etílicos… todos os anos têm de ser repostos os que se partiram.
Depois… há o champanhe propriamente dito. Para não ser uma zurrapa… custa caro.
E o bolo, que custa um dinheirão?! Só por ser de Aniversário cobram-nos o dobro ou o triplo do valor normal sem velas.
Mas isso é apenas o final da festa porque  antes há que reunir uma parafernália de coisas que me cansa só de pensar:
Mesas, toalhas, cadeiras, balõezinhos… Não! É demais! E as comidas? São os salgadinhos, os frios, os quentes, as sobremesas… um nunca acabar de dinheiro gasto.
Por tudo isto, decidi, e está decidido: Acabaram-se os Aniversários! Só Retro-Aniversários.
Bem feitas as contas, como este ano desfaço um, em vez de 12 fico com 11. A este ritmo… em 2031 alcanço o ano ZERO. O que acontecerá nessa altura? Será que volto para a barriga da mãe? Mas… hum, hum… estará ela em idade de me receber de volta??? Veremos. Não vamos agora pensar nisso.
Para finalizar espero que ergam a vossa taça (ou flute) à minha saúde e à minha decisão de me manter jovem para sempre!!!
Tchim, tchim…



sábado, 1 de fevereiro de 2020

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XVII


SEGREDOS – CAPÍTULO XVII

SEGREDOS – CAPÍTULO XVI
“…A custo, separaram-se. A pedido de Alessandro Nanda saiu, como se fossem encontrar-se mais tarde, talvez para almoçar…
Foi a última vez que se viram. O contacto, por carta, manteve-se por largos meses, mas mesmo esse elo acabou por se quebrar. Nanda ficou com uma recordação para toda a vida…”

SEGREDOS – CAPÍTULO XVII
Imersa nos seus pensamentos que, ao mesmo tempo que lhe causavam uma saudade enorme também a tornavam, inexplicavelmente, feliz, percorreu o caminho até sua casa.
Depois de tomar um banho para tentar acalmar toda a excitação que ainda a dominava, trocou a elegante roupa que usara para o encontro com o Araújo por outra mais confortável e levou o Tejo ao seu habitual passeio matinal. Ele já estava ansioso à sua espera, o que a levou a pensar que teria de começar a levantar-se mais cedo para o levar à rua antes de ir para o trabalho. O pobrezinho não podia estar à espera de que ela voltasse para ir fazer as suas necessidades fisiológicas…
Eram já horas de ir ao encontro de Bela, com quem combinara almoçar, para lhe contar as novidades. Aliás, já estava ligeiramente atrasada relativamente à hora que tinham marcado. Nanda pensou consigo mesma: “Parece que hoje é o dia de eu chegar atrasada a todo o lado…”
Assim, quando chegou ao “Caminho de Casa”, o restaurante onde habitualmente comiam, a amiga já a aguardava na esplanada.
Abraçaram-se efusivamente e, depois de se beijocarem, escolheram uma mesa e sentaram-se.
A conversa só foi interrompida para encomendarem o almoço. Escolheram salada para ambas já que andavam a tentar perder peso.
Nem uma nem outra precisava disso, mas preocupavam-se com umas gordurinhas embirrantes que teimavam em alojar-se “naquela zona da cintura”. Sonhavam voltar a ter as “cinturinhas de vespa” dos seus vinte anos…
Falaram de tudo e de nada, como se há muito tempo não se vissem.
Nem parecia que conversavam todos os dias, faziam caminhada juntas, e de vez em quando encontravam-se para almoçar. Mas nunca lhes faltava assunto.
Esgotadas todas as banalidades, Bela quis saber como tinha decorrido a entrevista com o engenheiro Araújo. Fez questão de acentuar o “engenheiro” como forma de o colocar à distância. Nanda percebeu perfeitamente a intenção dela, mas fez-se desentendida.
- Correu lindamente, muito melhor do que eu poderia esperar.
E descreveu, em traços largos, quais iriam ser as suas funções.
- Vou ficar com uma responsabilidade bastante grande, o que, até certo ponto, me preocupa um pouco…
- Não vejo qualquer razão para isso – atacou Bela, de imediato. Tu és competentíssima; tenho a certeza de que é ele, o engenheiro, quem mais fica a ganhar com o negócio – e emendou rapidamente – quero dizer, com o facto de ires trabalhar com ele.
Havia um certo azedume na sua expressão. Ainda lhe custava aceitar que Nanda não tivesse querido ir trabalhar com o seu pai.
Nanda ignorou o tom da amiga, e acrescentou:
- É claro que vou ser muito bem paga, por isso não me posso queixar…
- Ai sim? E pode-se saber qual é a fortuna que o engenheiro te vai pagar? – acentuou o “fortuna”, em tom depreciativo e ao mesmo tempo duvidoso.
- Claro que tu podes saber, mas não quero que se fale no assunto.
E acercando a boca do ouvido da amiga murmurou a quantia, num tom em que só ela pudesse ouvir.
Bela arregalou os olhos, ficou uns momentos sem dizer nada, e só depois como que gaguejou:
- Bem, isso nunca ganharias na empresa do meu pai… É certo que a responsabilidade também seria muito menor… Mas, à primeira vista,  tenho de concordar que o engenheiro é bastante generoso.
E, logo de seguida, olhando Nanda nos olhos, acrescentou:
- Minha querida, tu já ouviste dizer que “quando a esmola é grande o pobre desconfia”, certo? Pois eu não posso deixar de te alertar para o que receio venha a verificar-se.
- E que é… - incentivou-a Nanda.
- Que pode haver outro interesse por detrás de tudo isso…
- Mas que interesse queres tu que haja? – Nanda não estava mesmo a ver onde a amiga queria chegar.
- Ó meu amor, então tu não tens espelhos em casa? Linda e elegante como tu és, com todo esse charme de mulher que arrebata corações, não estás a perceber o que eu quero dizer? Eu tenho muito medo de que ele tenha segundas intenções a teu respeito…
Nanda soltou uma sonora gargalhada.
- Mas que ideia tão estapafúrdia! Quando tu conheceres o Araújo mudas radicalmente de opinião. Ele é uma pessoa correctíssima, educada, sem o mais leve indício de brejeirice. Não, minha querida, quanto a isso estás completamente enganada.
- Até pode ser… mas alguma coisa me diz que “anda mouro na costa” (*)
- Tu e as tuas ideias… - rematou Nanda. Mas agora, minha querida, tenho de me ir embora. O Tó Zé ligou-me do Alentejo a dizer que estavam mesmo a acabar de almoçar e logo de seguida punham-se a caminho, pois já tinham arrumado na carrinha tudo o que é para trazer. No fundo… devem ser as roupas deles e pouco mais, já que estavam a viver num anexo do pai da Catarina.
- Espero bem que agora fiquem em melhores condições. Já viste o que o Tó Zé lhes arranjou?
- Sim, estive lá há dias e confesso-te que diquei admirada. O espaço ficou muito jeitoso, bem melhor do que eu podia imaginar. Desta vez o Tó Zé excedeu as minhas expectativas - acrescentou Nanda, sorrindo.
Despediram-se com abraços e beijos efusivos como era habitual entre elas.
Enquanto caminhava Nanda ia pensando em como era grande a amizade que as unia. Há tantos anos que eram amigas e só muito raramente se zangavam. E a verdade é que as zangas entre elas nunca duravam muito tempo. “Eu nem consigo imaginar a minha vida sem a amizade de Bela. Muitas vezes penso que se fossemos irmãs não nos amaríamos mais” – Nanda sorria a esta ideia. “É engraçado que, sempre que penso nisto, me acode a sensação de que há um segredo qualquer na vida de Bela que ela nunca me contou. Mas… se comigo acontece isso… tenho de aceitar que o mesmo se passe com ela…”
Acelerando o passo não demorou muito tempo a chegar próximo do armazém onde Tó Zé preparara o apartamento para o filho. Não vendo a carrinha nas proximidades foi sentar-se na esplanada dum café próximo, a aguardar a chegada do seu ex-marido, que agora lhe trazia uma carga preciosa – o seu neto.
O pensamento voou-lhe para o passado…
***
“Depois do terrível desgosto da separação, Nanda passava os dias ansiando pela chegada do correio. Alessandro escrevia bastantes vezes, mas as suas cartas eram sempre muito pequenas, e não chegavam a mitigar a saudade imensa de Nanda. Pedia-lhe sempre desculpa por não se alongar tanto como seria seu desejo, mas o tempo de que dispunha era muito pouco. O trabalho absorvia-o dia e noite; o laboratório estava na eminência de uma descoberta muito importante, em que o seu papel era fundamental.
- Mia cara, mi dispiace, ma sto lavorando molto.
Quando passar esta fase já poderei escrever mais e até, talvez, ir passar uns dias a Lisboa, nem que seja só um fim de semana.
Ela escrevia-lhe longas cartas apaixonadas, onde deixava transparecer as saudades imensas e o desejo ardente de voltar a vê-lo em breve. Expressava-lhe a esperança de que o acréscimo de trabalho no laboratório terminasse depressa e ele pudesse voltar a Portugal, nem que fosse apenas por alguns dias.
Nanda continuava a encontrar-se todos os dias com Tó Zé. Depois de jantar ia até ao portão do jardim onde, normalmente, ele já se encontrava, esperando-a.
Nas longas conversas que travavam ela confidenciava-lhe as grandes saudades que sentia de Alessandro, a tristeza que a ia consumindo cada vez mais, à medida que os dias passavam. Tó Zé confortava-a com o seu carinho, aparando-lhe as lágrimas que se iam tornando cada vez mais frequentes.
Numa dessa noites Nanda abraçou-o com muita força, murmurando baixinho:
- Tó Zé, tenho um segredo para te contar, mas tens de me prometer que não dizes nada a ninguém.
- E achas que é preciso recomendares-me isso? Sou ou não sou o teu melhor amigo?
- Claro que és. Sempre o foste e continuarás a ser. Mas é que se trata de uma coisa muito grave, que até tenho medo de dizer em voz alta…
- Pois então diz-me baixinho, ao ouvido – tentou ele brincar, para aliviar a enorme tensão que sentia nela.
- Não brinques, que o caso é muito sério – repreendeu-o Nanda.
- Desculpa, não penses que não te levo a sério. Vá lá, podes falar que te ouvirei com toda a atenção – agora ele adoptara um tom contrito.
***
Ao ouvir chamar, em voz bem alta e alvoroçada: Mãe!,  o pensamento desviou-se imediatamente. Olhando para o outro lado da rua viu Luís ao lado da carrinha. Tinham acabado de chegar.
Imediatamente correu para ele, abraçando-o fortemente. Sem querer, as lágrimas assomaram aos seus olhas, mas não se deu ao trabalho de as reprimir.
Ao lado de Luís, com o bebé ao colo, a nora esperava, sorrindo. Por fim, Nanda voltou-se para ela dizendo:
- Tu és a Catarina, é claro! – e envolveu ambos, nora e neto, num apertado abraço. Depois, suavemente, tirou-lhe o bebé do colo, olhando-o com uma ternura infinita.
Duas senhoras que passavam, detiveram-se por momentos, olhando-os.
- Que cena comovente – comentou uma
- Parece um daqueles quadros antigos representativos da maternidade – respondeu a outra.
Na verdade, o amor do olhar de Nanda, observando o bebé, mais parecia uma expressão maternal do que “avóternal” … (**)
Tó Zé, junto à carrinha, observava-a. Repentinamente acercou-se de Nanda e, abraçando-a, juntamente com o neto, murmurou:
- Há muito tempo que eu não via uma cena tão bela e comovente. Sinto--me tão feliz ao ver-vos, minha querida! – e os olhos encheram-se-lhe de lágrimas, que tentou disfarçar.
Nanda sentiu um aperto no coração. Num flash muito rápido viu-se, com os seus filhos recém-nascidos no colo, e o ex-marido junto dela, acarinhando-os.
Com um imperceptível encolher de ombros afastou-se lentamente e não pronunciou uma palavra. Não o conseguiria fazer sem denunciar a sua emoção. 

(*) – “Anda mouro na costa” tem dois sentidos:
        a) Há indícios da iminência de algo inesperado e muito   
        problemático.
        b) Há hipótese de aparecer um pretendente amoroso.

(**) – Esta palavra não existe, evidentemente. Trata-se de uma
         liberdade linguística da autora.

 Maria Caiano Azevedo

NO PRÓXIMO DIA 14 HAVERÁ POSTAGEM EXTRA – É DIA DE ANIVERSÁRIO, 12 ANOS!