(Ficção baseada em factos reais)
…
E foi assim que Tiaguinho passou a ir à sexta-feira dormir a casa dos avós, e Anita pôde alimentar o seu amor.
Finalmente chegou a tão esperada carta de Humberto.
EPISÓDIO XXIV
Com o coração alvoroçado, Anita foi para o seu quarto para ler a carta sossegadamente.
Ficou decepcionada ao abrir o envelope e ver apenas umas linhas que pareciam escritas à pressa.
Humberto declarava-se muito preocupado com as notícias que recebera, manifestando o seu receio de que Anita viesse a ter alguma desilusão e consequente desgosto, pois que lhe parecia que o seu futuro estava bastante nebuloso.
Terminava dizendo que tinha o tempo muito ocupado, pois arranjara um local de trabalho onde podia ir aperfeiçoando, com a prática, os conhecimentos adquiridos no curso; e que, por esse motivo, as suas cartas, daí em diante, seriam, forçosamente, menos longas.
Quando terminou a leitura Anita sentiu-se desconsolada.
A carta de Humberto não trazia as habituais palavras de carinho, nem a descrição do seu dia-a-dia, como as anteriores.
Sentiu-se subitamente muito triste, ao pensar que, por causa do seu amor, poderia perder a amizade de Humberto, que para ela era tão importante.
Contrariando um impulso inicial, decidiu que esperaria alguns dias antes de escrever a Humberto. Precisava pôr as ideias em ordem, e só depois tentar fazer-lhe sentir como era feliz, e tinha esperança no futuro.
Um dia, ao levantar-se, Anita sentiu uma forte tontura e náuseas.
Lembrou-se que, na noite anterior, quase não tocara no jantar, porque se sentia sem apetite. Atribuiu esse mal-estar ao facto de ter o estômago vazio. Dirigiu-se à sala de jantar, mas, à vista da comida, o estômago revolveu-se-lhe, obrigando-a a ir vomitar.
De repente, uma ideia acudiu ao seu pensamento: estou grávida!
– Não, não pode ser; alguma coisa eu comi que me fez mal. Quando chegar à creche, as colegas vão queixar-se do mesmo, com certeza.
Mas não; ninguém tinha passado mal, toda a gente estava de perfeita saúde. Anita começou a ficar preocupada.
Nos dias que se seguiram, contudo, não voltou a ter qualquer indisposição. Convenceu-se, então, de que tivera mesmo qualquer pequeno problema de digestão.
À medida que o tempo foi passando começou a notar alterações no seu físico – sentia a roupa mais apertada, uma enorme sonolência e uma vez por outra davam-lhe tonturas que a obrigavam a sentar-se, para não cair.
Dois meses depois acabou por se convencer da sua gravidez.
Na sexta-feira seguinte, na casa paroquial, comunicou ao padre João que tinha um assunto muito sério para tratar com ele.
Aparentando uma calma que não sentia, falou-lhe das suas desconfianças, quase certezas. E, ao contrário do que esperava, ele ouviu-a tranquilamente, sem manifestar espanto ou desagrado.
Por fim abraçou-a, carinhosamente, e só depois levantou uma dúvida:
- E como fazemos com o teu marido? Ele precisa saber a verdade, quanto antes. Não podemos esperar que se note, ou que ele venha a saber por outras pessoas. Temos que lhe dizer.
Anita sentiu-se estranhamente calma perante esta reacção inesperada.
Tinha imaginado que ele, pelo menos, se mostrasse preocupado, desorientado, mesmo, e afinal isso não acontecera. Respondeu:
- João, se não te importas prefiro tratar disso sozinha. Hoje mesmo, ou amanhã, o mais tardar, falarei com Vicente.
- Tu sabes muito melhor do que eu o que é melhor. Mas quero que saibas que tens todo o meu apoio, E, se mudares de ideias, é só dizeres-me, que estarei presente quando falares com ele.
Anita estava-lhe tão agradecida interiormente que lhe pareceu que o seu amor tinha redobrado.
Nessa noite amaram-se com uma intensidade renovada. Anita sentia-se a mulher mais feliz do mundo.
No dia seguinte, aproveitando o facto de ser sábado e Tiaguinho estar em casa dos avós, regressou a sua casa mais cedo do que nas vezes anteriores, com a intenção de falar com o marido.
Vendo-o entrar em casa de manhã, interpelou-o:
- Vicente, preciso falar contigo
- Agora vou tomar um banho. Podemos conversar depois?
- Com certeza. Eu aguardo.






O escritor colombiano Santiago Gamboa nasceu em Bogotá, em 1965.






















