domingo, 24 de maio de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXIV

(Ficção baseada em factos reais)

E foi assim que Tiaguinho passou a ir à sexta-feira dormir a casa dos avós, e Anita pôde alimentar o seu amor.
Finalmente chegou a tão esperada carta de Humberto.

FIM DO.EPISÓDIO XXIII

EPISÓDIO XXIV

Com o coração alvoroçado, Anita foi para o seu quarto para ler a carta sossegadamente.
Ficou decepcionada ao abrir o envelope e ver apenas umas linhas que pareciam escritas à pressa.
Humberto declarava-se muito preocupado com as notícias que recebera, manifestando o seu receio de que Anita viesse a ter alguma desilusão e consequente desgosto, pois que lhe parecia que o seu futuro estava bastante nebuloso.
Terminava dizendo que tinha o tempo muito ocupado, pois arranjara um local de trabalho onde podia ir aperfeiçoando, com a prática, os conhecimentos adquiridos no curso; e que, por esse motivo, as suas cartas, daí em diante, seriam, forçosamente, menos longas.

Quando terminou a leitura Anita sentiu-se desconsolada.
A carta de Humberto não trazia as habituais palavras de carinho, nem a descrição do seu dia-a-dia, como as anteriores.
Sentiu-se subitamente muito triste, ao pensar que, por causa do seu amor, poderia perder a amizade de Humberto, que para ela era tão importante.

Contrariando um impulso inicial, decidiu que esperaria alguns dias antes de escrever a Humberto. Precisava pôr as ideias em ordem, e só depois tentar fazer-lhe sentir como era feliz, e tinha esperança no futuro.

Um dia, ao levantar-se, Anita sentiu uma forte tontura e náuseas.
Lembrou-se que, na noite anterior, quase não tocara no jantar, porque se sentia sem apetite. Atribuiu esse mal-estar ao facto de ter o estômago vazio. Dirigiu-se à sala de jantar, mas, à vista da comida, o estômago revolveu-se-lhe, obrigando-a a ir vomitar.

De repente, uma ideia acudiu ao seu pensamento: estou grávida!
– Não, não pode ser; alguma coisa eu comi que me fez mal. Quando chegar à creche, as colegas vão queixar-se do mesmo, com certeza.
Mas não; ninguém tinha passado mal, toda a gente estava de perfeita saúde. Anita começou a ficar preocupada.

Nos dias que se seguiram, contudo, não voltou a ter qualquer indisposição. Convenceu-se, então, de que tivera mesmo qualquer pequeno problema de digestão.
À medida que o tempo foi passando começou a notar alterações no seu físico – sentia a roupa mais apertada, uma enorme sonolência e uma vez por outra davam-lhe tonturas que a obrigavam a sentar-se, para não cair.
Dois meses depois acabou por se convencer da sua gravidez.

Na sexta-feira seguinte, na casa paroquial, comunicou ao padre João que tinha um assunto muito sério para tratar com ele.
Aparentando uma calma que não sentia, falou-lhe das suas desconfianças, quase certezas. E, ao contrário do que esperava, ele ouviu-a tranquilamente, sem manifestar espanto ou desagrado.
Por fim abraçou-a, carinhosamente, e só depois levantou uma dúvida:

- E como fazemos com o teu marido? Ele precisa saber a verdade, quanto antes. Não podemos esperar que se note, ou que ele venha a saber por outras pessoas. Temos que lhe dizer.

Anita sentiu-se estranhamente calma perante esta reacção inesperada.
Tinha imaginado que ele, pelo menos, se mostrasse preocupado, desorientado, mesmo, e afinal isso não acontecera. Respondeu:

- João, se não te importas prefiro tratar disso sozinha. Hoje mesmo, ou amanhã, o mais tardar, falarei com Vicente.
- Tu sabes muito melhor do que eu o que é melhor. Mas quero que saibas que tens todo o meu apoio, E, se mudares de ideias, é só dizeres-me, que estarei presente quando falares com ele.

Anita estava-lhe tão agradecida interiormente que lhe pareceu que o seu amor tinha redobrado.
Nessa noite amaram-se com uma intensidade renovada. Anita sentia-se a mulher mais feliz do mundo.

No dia seguinte, aproveitando o facto de ser sábado e Tiaguinho estar em casa dos avós, regressou a sua casa mais cedo do que nas vezes anteriores, com a intenção de falar com o marido.

Vendo-o entrar em casa de manhã, interpelou-o:
- Vicente, preciso falar contigo

- Agora vou tomar um banho. Podemos conversar depois?
- Com certeza. Eu aguardo.

FIM DO EPISÓDIO XXIV

domingo, 17 de maio de 2009

O TRIUNFO DOS PORCOS

Deixei de fazer terapia no dia em que comecei a sentir-me culpado por não me sentir culpado.
O analista esperava confissões pungentes sobre horrores vários e infantis.Nada tinha para lhe dizer.
E essa ausência de esqueletos no armário começou a alimentar uma angústia sem nome. Eu era um caso dramático de ansiedade por falta de ansiedade. E ainda sou .
E assim se entende o meu estado de espírito sempre que o ano avança e não existe nenhum apocalipse pronto para exterminar a raça humana. Os meses passavam : janeiro , fevereiro, março . E as autoridades mundiais não lançavam gritos lancinantes sobre uma doença, uma anomalia técnica, um vírus descontrolado e mortal. Nem sequer um espirro!
Sei do que falo. Vocês, leitores, também.
Nos últimos dez, 15 anos, praticamente não tivemos sossego. Basta consultar “Scared to Death”, um livro notável que Christopher Booker e Richard North publicaram recentemente no Reino Unido.
Antes mesmo do século 21 começar, os perigos estavam nas vacas e na carne delas. A doença tinha nome divertido (“doença da vaca louca”)



e conseqüências menos divertidas: uma doença neurológica degenerativa e incurável que prometia condenar meio milhão de seres humanos a uma morte precoce e terrível.



Lembro-me bem: imagens de vacas trêmulas, a dançar o twist; a matança de milhares delas, com ou sem sintomas; os criadores de gado arruinados. Muitos optaram pelo suicídio. Pobrezinhos. Ainda hoje está por provar que a encefalopatia espongiforme bovina seja a causa da doença de Creutzfeld - Jacob nos seres humanos.

Veio o milênio. E com o milênio vieram novos perigos. Não de origem animal. Mas humana. Ou, se preferirem,tecnológica. Na virada de 1999 para 2000, um “bug” informático iria paralisar as cidades, os transportes, o sistema bancário e financeiro.



Aviões cairiam do céu. Milhões de doentes não resistiriam á paragem das máquinas. Os países mais desenvolvidos gastaram US$300 bilhões de dólares (estimativa conservadora) para evitarem o colapso. Quando a meia-noite soou, o mundo , inexplicavelmente, continuou. Suspirou-se de alívio. Ou de desilusão ?

Os suspiros duraram pouco tempo . Se a humanidade resistira ao “bug”informático, não iria sobreviver à “gripe das aves”. A Organização Mundial de Saúde garantia que 7 milhões de pessoas estavam condenadas. As Nações Unidas , não contentes com 7 milhões, falavam já em 150 milhões.
Moral da história ?
Morreram 200 pessoas, sobretudo na Ásia rural, onde a pobreza e a desnutrição não ajudam. Morreram incomparavelmente menos pessoas do que as vítimas normais que a gripe normal provoca todos os anos, em todos os paises do mundo.

Eis a verdade; andamos há muito tempo a fantasiar a nossa própria destruição coletiva.
São as vacas.
As aves.
O “bug” informático.
A pneumonia atípica.
A catástrofe ecológica e climatérica nos espera.
Ou para sermos mais atuais,uma gripe de origem suína e mexicana que, nas palavras de Margaret Chan, diretora-geral da Organização Mundial de Saúde,coloca toda a humanidade em risco.
Que essa “gripe suína” esteja sobretudo confinada ao México, pouco importa.
Que as vítimas do México sejam praticamente insignificantes quando comparadas com as vítimas regulares de gripe regular, também não.
E que os infectados fora do México estejam a responder aos medicamentos disponíveis, muito menos.
A realidade dos fatos não altera a nossa histeria.

E não altera porque a nossa histeria é profunda e incurável.
Hoje vivemos melhor. Mas apesar disso, ou sobretudo por causa disso, entramos em pânico sempre que a morte ameaça o nosso único deus : o corpo, o nosso corpo, e a “Religião da Saúde” que substituiu todas as outras teologias tradicionais.

Tememos a nossa destruição física. Mas, como em qualquer temor, recriamos e até desejamos essa mesma destruição, como se isso redimisse a radical solidão dos homens de hoje.
Tão modernos que somos.
E tão entediados que nos sentimos.

Um conselho: nada nesta vida se faz sem perseverança. Quem sabe? Se desejarmos muito que algo aconteça, talvez um dia alguém lá de cima se lembre de responder às nossas preces...


Texto de João Pereira Coutinho. Publicado na Folha de São Paulo (ILUSTRADA) em 05/05/2009

JOÃO PEREIRA COUTINHO


João Pereira Coutinho, nascido no Porto em 1976, é jornalista e comentador político português.
Licenciou-se em História, na variante de História da Arte, na Universidade do Porto, e obteve o grau de Doutor em Ciência Política na Universidade Católica Portuguesa, onde lecciona, como Professor Convidado.
Frequentou igualmente a Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa.

“João Pereira Coutinho é uma alma pura, um conversador de primeira, um performer artist, um excelente professor, um humorista impagável, um grande conferencista , um escritor de primeira”…tudo isto dito em entrevista à Folha de S.Paulo.

Se quiser, assista à entrevista em vídeo no youtube

http://www.youtube.com/watch?v=6QKNT917dSE

quinta-feira, 14 de maio de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXIII

(Ficção baseada em factos reais)

O Amor nunca pode ser um erro. E eu amo-te muito, Anita; tanto que, ainda que tu não sentisses nada por mim, só o meu Amor chegaria para nós dois.

FIM DO.EPISÓDIO XXII

EPISÓDIO XXIII

E com estas palavras o Amor de ambos foi consumado.

Como Tiaguinho estava em casa dos avós, Anita não se preocupou em ir para sua casa, o que fez apenas no dia seguinte.

Durante o trajecto estranhou que tudo estivesse exactamente igual, que nada tivesse mudado; e ao entrar em sua casa, encontrou-a arrumada da mesma maneira de sempre.

Isto causou-lhe uma certa estranheza. Parecia-lhe que tudo deveria ter mudado, mas afinal nada de estranho acontecera. A mudança ocorrera apenas dentro de si. Sentia que era uma outra mulher.

O dia decorreu normalmente, apenas com a diferença da ausência de Tiaguinho, que lhe custou a suportar. À tarde resolveu ir a casa da mãe, onde encontrou avós e neto felizes e contentes, à mesa de um apetitoso lanche. Conservou-se ali até ao anoitecer; nessa altura regressou a sua casa, sozinha, já que tinha prometido ao filho deixá-lo passar na casa dos avós o fim-de-semana completo.

Ao entrar em casa sentiu o peso da solidão.

Como era já habitual, Vicente não se encontrava em casa.
Teve que fazer um esforço grande para não ceder à tentação de ir ao encontro do padre João.
Sentiu uma saudade muito viva de Humberto, e lamentou, mais do que nunca, não ter o amigo junto de si. Quando terminou de jantar resolveu escrever-lhe.
A vontade de contar ao enteado tudo o que lhe acontecera era enorme. Mas, por maior à vontade que tivesse com ele, hesitou muitas vezes, sem encontrar a melhor forma de relatar o sucedido.
Por fim respirou fundo, soltou um suspiro, e, com determinação, começou a escrever. A partir desse momento as palavras fluíam sem dificuldade, e nada ficou esquecido. Terminava dizendo:

- Só te peço que não me condenes, nem a mim nem ao João, pois o que fizemos não foi uma acção leviana; é apenas a sequência lógica do nosso amor. Eu amo-o, Humberto, tenho a certeza, e sei que ele também me ama. Sei que vais considerar o que nos une como “amor impossível”, mas até isso vai ser ultrapassado, porque nós conversamos, e o João considera a hipótese de abandonar o sacerdócio. E a partir daí tudo será fácil. Divorcio-me do teu Pai e irei viver com o João, casados ou não, não importa. Diz que me apoias, meu querido Humberto; que me compreendes, que queres que eu seja feliz, e que estarás sempre do meu lado. Tu fazes parte da minha felicidade, sabes isso…
E terminava com as despedidas habituais.

Quando Humberto leu esta carta sentiu o mundo desmoronar-se à sua volta. Leu-a e releu-a vezes sem conta, na esperança de que não tivesse entendido bem o que lá estava escrito.
Quando se convenceu de que era mesmo verdade o que os seus olhos lhe mostravam, grossas lágrimas rolaram pelo seu rosto. Nada fez para as reprimir; ao contrário, deixou-as deslizar, pensando que ajudariam a lavar o seu enorme desgosto.

Durante umas semanas não arranjou coragem para responder a Anita.

Entretanto, na ilha tudo decorria dentro da calma habitual.
Anita continuava a ir todos os dias para a creche, onde cumpria as suas obrigações, como se nada se tivesse alterado na sua vida.
O padre João aparecia à hora do almoço e à tarde, pontualmente; sempre que podia, trocava olhares apaixonados com Anita. Quando havia papeis a entregar, arranjavam maneira de as suas mãos se tocarem, o que lhes provocava arrepios de prazer.
Ansiavam por se encontrar de novo, mas as oportunidades não eram muitas.

Tiaguinho, que tinha adorado o fim-de-semana que passara com os avós, todos os dias pedia à mãe que o deixasse ir novamente dormir lá.
Anita viu aí a oportunidade que faltava ao seu amor.

A meio da semana, à saída da creche, em vez de ir para sua casa foi visitar a mãe. Como era de esperar, Tiaguinho dependurou-se no pescoço da avó, a pedir-lhe para dormir lá em casa.
Anita fingiu-se contrariada, e, para não levantar suspeitas respondeu que só no fim-de-semana, se entretanto ele se portasse bem.

E foi assim que Tiaguinho passou a ir à sexta-feira dormir a casa dos avós, e Anita pôde alimentar o seu amor.

Finalmente chegou a tão esperada carta de Humberto.

FIM DO EPISÓDIO XXIII

domingo, 10 de maio de 2009

AS MULHERES DA MINHA GERAÇÃO

Hoje têm quarenta e muitos anos, inclusive cinqüenta e tal, e são belas, muito belas, porém também serenas, compreensivas, sensatas e sobretudo diabòlicamente sedutoras, isto, apesar dos seus incipientes pés-de-galinha ou desta afetuosa celulite que capitaneia as suas coxas, mas que as fazem tão humanas, tão reais.
Formosamente reais.
Quase todas, hoje, estão casadas ou divorciadas, ou divorciadas e casadas, com a intenção de não se equivocar no segundo intento, que às vezes é um modo de acercar-se do terceiro e do quarto intento.
Que importa?

Outras, ainda que poucas, mantêm um pertinaz celibatarismo, protegendo-o como uma fortaleza sitiada que, de qualquer modo, de vez em quando, abre as suas portas a algum visitante.

Que belas são, por Deus, as mulheres da minha geração!

Nascidas sob a era de Aquário, com influência da música dos Beatles, de Bob Dylan, de Lou Reed, do melhor cinema de Kubrick e do início do boom latino-americano, são seres excepcionais.

Herdeiras da revolução sexual da década de 60 e das correntes feministas, elas souberam combinar liberdade com coqueteria, emancipação com paixão, reivindicação com sedução.
Jamais viram no homem um inimigo, apesar de lhe cantarem algumas verdades, pois compreenderam que a sua emancipação era algo mais do que pôr o homem a lavar a louça .

São maravilhosas e têm estilo, mesmo quando nos fazem sofrer, quando nos enganam ou nos deixam.

Usaram saias indianas aos 18 anos, enfeitaram-se com colares andinos,

cobriram-se com suéteres de lã e perderam a sua parecença com Maria, a Virgem, numa noite de sexta-feira ou de sábado, depois de dançar El Raton com algum amigo que lhes falou de Kafka, de Neruda e do cinema de Bergman.

Falaram com paixão de política e quiseram mudar o mundo, beberam rum cubano e aprenderam de cor as canções de Sílvio Rodriguez e de Pablo Milanez, conhecerem os sítios arqueológicos, foram com seus namorados às praias, dormindo em barracas e deixando-se picar pelos mosquitos, porque adoravam a liberdade e, sobretudo, juraram amar-nos por toda a vida, algo que sem dúvida fizeram e que hoje continuam a fazer na sua formosa e sedutora madureza.

No fundo das suas mochilas traziam pacotes de rouge, livros de Simone de Beauvoir e fitas de Victor Jara, e, ao deixar-nos, quando não havia mais remédio senão deixar-nos, dedicavam-nos aquela canção, que é ao mesmo tempo um clássico do jornalismo e do despeito, que se chama "Teu amor é um jornal de ontem".

Souberam ser, apesar de sua beleza, rainhas bem educadas, pouco caprichosas ou egoístas.
Deusas com sangue humano.

O tipo de mulher que, quando lhe abrem a porta do carro para que suba, se inclina sobre o assento e, por sua vez, abre a do seu companheiro por dentro.

A que recebe um amigo que sofre às quatro da manhã, ainda que seja seu ex-noivo, porque são maravilhosas e têm estilo, ainda que nos façam sofrer, quando nos enganam, ou nos deixam, pois o seu sangue não é suficientemente gelado para não nos escutar nessa salvadora e última noite, na qual estão dispostas a servir-nos o oitavo uísque e a colocar, pela sexta vez, aquela melodia de Santana.

Por isso, para os que nascemos entre as décadas de 40 e 60, o dia da mulher é, na verdade, todos os dias do ano, cada um dos dias com suas noites e seus manheceres, que são mais belos, como diz o bolero, quando está você.

Que belas são, por Deus, as mulheres da minha geração!


(Santiago Gamboa-escritor Colombiano)



Santiago Gamboa

O escritor colombiano Santiago Gamboa nasceu em Bogotá, em 1965.
Estudou literatura na “Universidade Javeriana de Bogotá” e licenciou-se na “Complutense de Madrid”.
Publicou o seu primeiro livro em 1995.
Com um livro adaptado ao cinema, é considerado um dos mais notáveis autores da sua geração.
“A Síndrome de Ulisses” é um dos quatro livros de sua autoria traduzidos para português, e publicados no nosso país.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXII

(Ficção baseada em factos reais)

Alguns dias mais tarde, e antes que chegasse carta de Humberto, sucedeu o que seria de esperar.

FIM DO EPISÓDIO XXI
EPISÓDIO XXII

Era uma sexta-feira. Anita encontrava-se na sala, rodeada de crianças, a quem, pacientemente, ensinava uma nova lengalenga.
Eulália apareceu à porta da sala, e imediatamente Tiaguinho correu para os seus braços. E foi logo perguntando:
- É hoje, vó? É hoje que vou dormir na tua casa?
Apertando-o nos braços, e olhando de lado para Anita, respondeu:
- É hoje, sim, meu amor, é hoje. Não é, Mamã? – continuou, dirigindo-se a Anita.

Anita compreendeu que não podia continuar a recusar o pedido de avó e neto. Ainda tentou falar na falta de roupa de Tiaguinho, tendo perfeita noção de que era apenas uma desculpa, já que o filho tinha algumas roupas na casa dos avós.
Acabou por concordar, não sem que pelos seus olhos perpassasse uma ligeira nuvem de tristeza.
E, como que para se habituar à ideia, insistiu para que Tiaguinho ficasse até à hora normal da saída.

Quando o padre chegou notou que Anita estava um pouco tensa, e perguntou se havia algum problema especial.
- Não, não há problema algum; apenas uma mãe que, pela primeira vez, se separa do filho, e que não imaginava como isso pode ser doloroso.
- Quem foi a mãe que se separou do filho?
- Eu mesma, que autorizei o Tiaguinho a dormir em casa dos avós.
- Mas…por favor! Isso não é uma separação. São apenas algumas horas…
- Eu sei, e não é propriamente ficar sem o meu filho por umas horas que me preocupa, mas o que isso significa: ele está a ganhar asas, e em breve poderá voar sozinho. É isso que dói.
- Mas essa é a ordem natural da vida. As crianças crescem, e aos pais compete acompanhá-los no seu voo, não cortar-lhes as asas para que não voem…
- Eu seu que é assim que tem que ser. Mas o saber isso não me ajuda a não ficar triste com a ideia.

Entretanto todos se tinham retirado com desejos de bom fim-de-semana. De súbito aperceberam-se de que estavam sozinhos.
O padre João estendeu as mãos segurando as de Anita, que tremiam ligeiramente. Desde o primeiro beijo nunca mais tinham estado a sós. Havia um certo constrangimento entre eles.
Sem largar as mãos de Anita, o padre falou:
- Sinto que estás muito nervosa, Anita. Vamos até à minha casa, bebemos um refresco, tu acalmas-te, e podemos, se quiseres, continuar a conversa que estávamos tendo, sobre a educação a dar aos filhos…
Anita sentiu uma tentação enorme de o acompanhar, de prolongar um pouco mais a sua companhia, de não ter que ir enfrentar a solidão da sua casa, onde nem Tiaguinho estaria para a distrair.
Contudo, hesitou:
- E se alguém nos vê, o que irá pensar?
- E quem poderá ver-nos? É só atravessar este caminhito, e estamos lá. E ainda que vissem, que mal é que tem? Recebo em minha casa muitas paroquianas e paroquianos…
Anita anuiu, dirigindo-se à porta.

No momento seguinte encontravam-se na casa paroquial, que Anita já conhecia, de ter lá ido muitas vezes nos tempos do pároco velho, que falecera.
Mas, ao contrário do que acontecera de todas as outras vezes, agora não se sentia à vontade.
Para disfarçar o seu nervosismo começou a falar das mudanças que notava na casa., mas o padre João interrompeu-a com um beijo.
Anita rendeu-se. Só quando, alguns momentos depois ele a encaminhava para o quarto, ela objectou:

- João, tens a certeza que não é errado o que vamos fazer?

- Deus, pela boca de Seu amado Filho, pregou o Amor, e não lhe impôs limites nem condições. “Amai-vos uns aos outros” foram as Suas palavras. O Amor nunca pode ser um erro. E eu amo-te muito, Anita; tanto que, ainda que tu não sentisses nada por mim, só o meu Amor chegaria para nós dois.

FIM DO EPISÓDIO XXII

domingo, 3 de maio de 2009

DIA DA MÃE

DIA DA MÃE EM PORTUGAL

ALGUÉM DISSE

Alguém disse que um filho está no ventre durante nove meses.
Esse alguém não sabe que um filho está no coração por toda a vida.

Alguém disse que seis semanas depois de se dar à luz se volta à normalidade.
Esse alguém não sabe que depois de se dar à luz não existe normalidade.

Alguém disse que se aprende a ser mãe instintivamente.
Esse alguém nunca foi às compras com uma criança de três anos.

Alguém disse que “bons pais” fazem “bons filhos”.
Esse alguém pensa que as crianças vêm com manual de instruções e garantia.

Alguém disse que as “boas” mães nunca gritam.
Esse alguém nunca viu o filho a partir a janela do vizinho com a bola.

Alguém disse que não é necessário uma boa educação para se ser mãe.
Esse alguém nunca ajudou o filho a estudar matemática.

Alguém disse que não se pode amar o quarto filho como o primeiro.
Esse alguém não teve quatro filhos.


Alguém disse que não se pode encontrar nos livros todas as respostas às perguntas sobre como criar filhos.
Esse alguém nunca teve um filho que meteu um feijão no nariz.

Alguém disse que o mais difícil de se ser mãe é o parto.
Esse alguém nunca deixou o filho no primeiro dia de creche.

Alguém disse que uma mãe pode fazer o seu trabalho com os olhos fechados e uma mão atada atrás das costas.
Esse alguém nunca organizou uma festa de aniversário para a sua filha.

Alguém disse que uma mãe pode deixar de se preocupar com os filhos quando se casam.
Esse alguém não sabe que o casamento agrega genros e noras ao coração de uma mãe.

Alguém disse que o trabalho de uma mãe termina quando o último filho sai de casa.
Esse alguém não tem netos.

Alguém disse que uma mãe não necessita da compreensão e do “eu gosto muito de ti” de um filho.
Esse alguém não é filho.


Caminhava com a minha filha de 4 anos, quando ela apanhou qualquer coisa do chão e ia pô-la na boca.
Ralhei com ela e disse-lhe para nunca fazer isso.
- Mas porquê? - perguntou ela.
Respondi que se estava no chão estava sujo e cheio de micróbios.
Nesse momento, a minha filha olhou-me com admiração e perguntou:
- Mamã, como sabes tudo isso? És tão inteligente!
Rapidamente reflecti, e respondi-lhe:
- Todas as mães sabem estas coisas. Quando alguém quer ser mãe, tem que fazer um teste e tem que saber todas estas coisas, senão, não pode
ser mãe.
Caminhamos em silêncio cerca de 2, 3 minutos. Vi que ela pensava ainda sobre o assunto, e de repente disse:
- Ah, já entendi. Se não passasses no teste, tu eras o pai!
- Exactamente – respondi com um enorme sorriso...

E agora, quando você parar de rir, conte isto a todas as outras mães…
E também aos pais que tenham humor.

FELIZ DIA DA MÃE

quinta-feira, 30 de abril de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXI

(Ficção baseada em factos reais)

Anita olhou atentamente para a mãe, pensando:
- A minha mãe é tão inteligente, tão conhecedora da vida, e quando mais precisei dela, quando estava apaixonada por Arnaldo, falhou-me.

FIM DO EPISÓDIO XX



EPISÓDIO XXI

E de repente apercebeu-se de que tinha pensado na sua paixão por Arnaldo…como uma coisa passada.
Sentiu-se completamente confusa quanto aos seus sentimentos.
Disse:

- A mãe deve ter razão. Afinal, tem mais experiência do que eu. Já passou por isso, quando eu tinha a idade do Tiaguinho.
Vou ter que me habituar à ideia de que ele está a crescer, e a não precisar tanto de mim…
Mas de qualquer maneira hoje ele não dorme cá. Nem sequer trouxe pijama…
- Não seja por isso. Há cá roupas dele…
- Deixe, mãe. É melhor assim. Outro dia ele vem já preparado para ficar – respondeu Anita, já com uma certa mágoa na voz.

Decorreram alguns dias, até que chegou carta de Humberto, respondendo àquela onde Anita relatara o “quase abraço” do padre João.
Com enorme prudência o enteado aconselhava-a a ter muito cuidado para evitar situações que pudessem tornar-se comprometedoras, o que acabaria por ser desagradável, tanto para ela própria como para o pároco.
E terminava a sua longa missiva, dizendo:

- Por favor, Anita, promete-me que vais ser muito prudente quanto a este assunto. Ainda faltam uns meses para eu regressar e podermos falar de viva voz. Portanto, tens que me prometer o que te estou a pedir. Conta-me tudo o que for acontecendo. Sabes como vivo preocupado contigo, não sabes?
Anita, não te esqueças que só te tenho a ti e ao Tiaguinho neste mundo. Sim, porque para o meu pai…basta-lhe pagar-me os estudos e a estadia aqui para sentir a consciência tranquila.
Anita, confio em ti.

Anita sentiu um aperto na garganta e uma enorme vontade de chorar ao ler a carta do enteado.

Como se apegara a Humberto, a ponto de sentir tanta dificuldade em relatar-lhe o que entretanto sucedera!
Não podia esconder-lhe nada. Isso não! Mas sabia que, ao contar-lhe que beijara o padre, e que isso a fizera muito feliz, ia fazer com que Humberto ficasse ainda mais preocupado, e não queria que isso acontecesse…
Mas como poderia evitá-lo? Se Humberto estivesse ali seria tudo muito mais fácil. Não teria nenhuma dificuldade em contar-lhe, e ele, vendo-a tão feliz, iria deixar de se preocupar e ficar muito contente por ela.

Enchendo-se de coragem, escreveu ao enteado relatando-lhe tudo, com o maior número de pormenores de que se lembrava.
E rematava:

- Não quero que fiques preocupado comigo, meu querido enteado. Isto pode parecer-te uma loucura, e o mais certo é até ser, mas não quero, por agora, pensar em nada.
Desde há muito tempo que não me sentia assim.
Deixa-me viver a minha loucura. Deixa-me não ser ajuizada nem convencional uma vez na vida.
Sempre obedeci a tudo e a todos, calcando os meus sentimentos bem fundo. Agora vou viver este sonho.
Sim, eu sei que é um sonho, apenas, que não passa disso. Mas sonhar faz parte da vida, e os meus sonhos há muito que me tinham abandonado. Cortaram-mos, impediram-me de os realizar. Este também não vai realizar-se, eu sei, mas enquanto durar vou ser feliz.
Deixa-me ser feliz, meu querido Humberto, e sê tu também feliz, por mim.

Os dias decorriam calmamente, Anita indo para a creche de manhã, com Tiaguinho pela mão, e regressando à tardinha para casa.

Como sempre, sem alteração, o padre ia todas as tardes receber de Anita o relatório do dia, trocando com ela, a medo, olhares carregados de amor, sentindo um frémito de desejo quando, por acaso, ou propositadamente, as suas mãos se tocavam ao entregar os papeis.

E, também como sempre, desde há muito tempo, Anita encontrava, ao chegar a casa, apenas as empregadas.
Vicente agora raramente aparecia antes de jantar, e, quando o fazia, era por breves momentos, para ir buscar alguma coisa que lhe fazia falta.

Dava um beijo de fugida em Anita e no filho, e nem perdia tempo com qualquer explicação.

Saía novamente, para aparecer no dia seguinte, muitas vezes já depois de Anita ter saído de casa. Passavam-se dias que mal trocavam meia dúzia de palavras.
Anita não se sentia nada incomodada com isso, pelo contrário, até agradecia que assim fosse, dado que não tinha qualquer interesse em conversar com o marido.

Alguns dias mais tarde, e antes que chegasse carta de Humberto, sucedeu o que seria de esperar.


FIM DO EPISÓDIO XXI

sábado, 25 de abril de 2009

25 DE ABRIL – DIA DA LIBERDADE

25 DE ABRIL – DIA DA LIBERDADE


A VOLTA DOS MOSQUETEIROS


(Agora, cumprindo a História, com o 4º Mosqueteiro, D'Artagnan)

Eugénio de Sá Carmo Vasconcelos Joaquim Marques Humberto Neto

Ah! PORTUGAL, PORTUGAL
Eugénio de Sá (Athos)

Ah! Portugal, Portugal,
como podes continuar
a eleger e aturar
quem te afoga em tanto mal?

Quisera eu conhecer
que a gente do meu país
vivia alegre, feliz
sem fome, sem padecer.

Que os velhos fossem achados
figuras a resguardar
protegidos e cuidados;

E que olhariam o mar
com sorrisos estampados
de quem o voltou a amar.


AH! PORTUGAL, PORTUGAL
Carmo Vasconcelos (Aramis)

Ah! Portugal, Portugal
quisera eu ver também
que acabasse o arraial
dos inflados zés-ninguém

Falsos donos da verdade
verdade que lhes convém
falam com tanta vaidade
mas não convencem, porém

Gastos já estão seus discursos
duma melhor progressão
não passam d'inchados ursos
com penas vãs de pavão

E as crianças sem escolas
aquecidas no Inverno
carregam gelo e sacolas
pra aprenderem num inferno

E os velhos que foram braços
construtivos no passado
recebem trocos escassos
em pensões de mel-coado

Haja fé e paciência
futebol e eurovisão
pra calar a incongruência
que envergonha esta Nação

Somos de costumes brandos
reclamamos em gemidos
urge que os surdos nefandos
ouçam brados destemidos

Que voltem Athos e Porthos
Aramis e D'Artagnan
espadeirando ventos tortos
para brisas de amanhã


Ah! PORTUGAL, PORTUGAL
©Joaquim Marques (Porthos)

Ah! minha Pátria querida
Onde tens os amigos afinal?
Uns parecem estar de partida
Para irem foliar no Carnaval!...

Será que os vindouros são iguais?
Serão teus amigos de coração?
Ou serão os futuros carnavais...
Que vais ter, Portugal, nobre nação?


Em que confusão estás metida...
Tantas promessas, sem ter solução
E tantos portugueses sem ter pão!


Venham mosqueteiros, nobres, leais!
Bradai ao Mundo vossos ideais...
Portugal é pequeno mas é nação!


AH! PORTUGAL, PORTUGAL
Humberto Rodrigues Neto (D'Artagnan)


O peito sinto repleto
de sentimentos soezes,
pois também sou filho e neto
de pai e avós portugueses!

Me espanta ver Portugal
transformado num covil
de mandantes sem moral,
tais e quais os do Brasil!

Que diriam Vasco da Gama,
Serpa Pinto, Afonso Henriques,
desse imenso mar de lama,
de conchavos e trambiques?

Que adiantou Sancho II
varrer o dominio mouro,
se hoje reina um vagabundo
que esbulha o pátrio tesouro?

Cambada de mafarricos,
que em raivas mil me consome:
canalhas ficando ricos
e a plebe morrendo à fome!

Mosqueteiros de alma acesa,
será vosso o meu afã!
Juntai, pois, à vossa empresa
a espada de D'Artagnan!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XX

(Ficção baseada em factos reais)

Mantiveram-se assim por um momento, em suspenso, olhando-se nos olhos, sem saber que atitude tomar.

FIM DO EPISÓDIO IXX
div style="text-align: justify;">Obs.
Receio que, daqui em diante, o relato da vida de Anita possa ferir algumas susceptibilidades, dado que trata do amor entre ela e um padre.
Como tenho o cuidado de mencionar sempre, no início dos episódios, esta história é baseada em factos reais. Não posso, portanto, omitir estas passagens, aliás das mais importantes na vida de Anita.
Pensei na hipótese de interromper a publicação. Pareceu-me, no entanto, que não seria muito correcto para com os leitores interessados na continuação.
A quem sentir que o relato vai colidir com os seus princípios ou sentimentos, ou a sua maneira de pensar, aconselho não continuar a acompanhar a história.
Pessoalmente devo dizer que este tema (o amor entre uma mulher e um padre) não me perturba minimamente. São apenas dois seres humanos que se amam – o padre não deixa de ser homem quando faz os seus votos, estando, por isso, sujeito às tentações da carne como qualquer outra pessoa.
Não tenho qualquer preconceito em relação a isso. Mas, como respeito todas as opiniões…fica o aviso feito.

EPISÓDIO XX

Lentamente, o padre João segurou o rosto de Anita e beijou-lhe levemente os lábios, com uma ternura contida.
Anita sentiu-se desfalecer, não opondo resistência.
Ajudando-a a pôr-se de pé, o padre João envolveu-a num abraço ansioso, esforçando-se por se acalmar e não deixar extravasar a sua ânsia de a apertar nos braços, apaixonadamente.
Anita deixou-se envolver, retribuindo com a mesma intensidade. Deixou de pensar no que estavam fazendo, não lhe interessando nada além do momento maravilhoso que estava vivendo.

Pouco depois, Anita sentiu se ruborizar ao ouvir o padre João dizer, num tom emocionado:

- Anita, eu lutei com todas as minhas forças. Deus é testemunha do quanto eu Lhe pedi que me ajudasse a arrancar-te do meu peito. Mas foi tudo em vão.
Há muito tempo que te amo, Anita; penso mesmo que comecei a amar-te a primeira vez que te vi…porque desde esse dia muitas vezes me surpreendia a pensar em ti e a desejar que aparecesses.

Enquanto pronunciava estas palavras, o padre olhava Anita nos olhos, segurando o seu rosto entre as mãos, docemente.
Anita sentia-se incapaz de pronunciar uma palavra. Estava demasiado emocionada e feliz; queria apenas viver em pleno o momento presente, sem pensar no certo e no errado.
Isso surgiria mais tarde.

Estendendo os lábios beijou ao de leve a boca do padre João e desprendeu o rosto das suas mãos, afastando-se em seguida.

- É muito tarde, tenho que ir para casa…

O padre não tentou retê-la, concordando que era, de facto, tarde, e o atraso de Anita poderia suscitar suspeitas em casa.

Depois de ter jantado sozinha, Anita dirigiu-se a casa dos pais para ir buscar Tiaguinho.

Encontrou-o felicíssimo, brincando com o avô, trocando “figurinhas”.
Quando a mãe lhe lembrou que eram horas de ir para a caminha, Tiaguinho pediu:

- Mãe, posso dormir aqui em casa dos vôs?
- Claro que não, Tiaguinho. Mas que ideia é essa agora?
- A vó disse que tem muitas saudades minhas, que só o jantar não chega, precisa mais tempo para matar as saudades…

Anita voltou-se para Eulália:

- O que é que a mãe anda a meter-lhe na cabeça? Que disparate é esse de dormir cá em casa?
- Não é disparate nenhum. Até parece que não tens confiança em mim para tomar conta do teu filho… - retorquiu Eulália, em tom de amuo.

- Oh mãe! Claro que tenho em si toda a confiança do mundo! Não é nada disso, é que não estava nada à espera dum pedido destes… Apanhou-me mesmo de surpresa…
- Eu entendo-te muito bem, minha filha. Estás a passar pelo mesmo que eu passei: o teu filho está a crescer, a querer ganhar asas, e tu não estás preparada para isso. Mas tens que te habituar.

Quando perguntei ao Tiaguinho se ele queria dormir cá, porque eu tinha muitas saudades, ele pôs-se aos saltos e disse logo que sim.
Se lhe tivesse feito a mesma pergunta há tempos atrás, possivelmente pensaria numa desculpa para recusar. Vinha logo com a conversa de que não queria deixar-te sozinha, ou qualquer outra coisa que não me magoasse. Sempre foi um menino muito amoroso.

Anita olhou atentamente para a mãe, pensando:

- A minha mãe é tão inteligente, tão conhecedora da vida, e quando mais precisei dela, quando estava apaixonada por Arnaldo, falhou-me.

FIM DO EPISÓDIO XX

PRÉMIO AMIZADE E INFORMAÇÃO

A minha amiga Ana, do blogue AVE SEM ASAS honrou-me com este prémio que muito me alegrou.

REGRAS A SEGUIR PARA QUEM RECEBE O SELO

1 - Exibir a imagem
2 - Postar o link do blog que o premiou
3 - Publicar regras
4 - Indicar 10 blogs para receber o selo
5 - Avisar os blogues nomeados.

Passo então a citar a minha lista de premiados:

ZÉLIA
RENATA
MEG
SÃO

ZÉ CARLOS
VÍCTOR
CALADO
LUNA
CARLOS

domingo, 19 de abril de 2009

Faxina na Alma

Aproveitando os últimos perfumes da Páscoa que ainda se sentem no ar, convido-vos a apreciar este belo texto de Carlos Drummond de Andrade, que nos fala de Recomeço, Renovação, Reinício…

Faxina na Alma

Não importa onde você parou, em que momento da vida você cansou. Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo, é renovar as esperanças na vida e o mais importante, acreditar em você de novo.
Sofreu muito nesse período? Foi aprendizado.
Chorou muito? Foi limpeza da alma.
Ficou com raiva das pessoas? Foi para perdoá-las um dia.
Sentiu-se só por diversas vezes? É porque fechou a porta até para os anjos.
Acreditou que tudo estava perdido? Era o início de sua melhora.
Pois é... agora é hora de reiniciar, de pensar na luz, de encontrar prazer nas coisas simples de novo.

Um corte de cabelo arrojado, diferente?
Um novo curso, ou aquele velho desejo de aprender:
pintar, desenhar, dominar o computador, ou qualquer outra coisa.
Olha quanto desafio, quanta coisa nova, nesse mundão de meu Deus te esperando.

Está se sentindo sozinho? Besteira...
Tem tanta gente que você afastou com o seu "período de isolamento".
Tem tanta gente esperando, apenas um sorriso teu, para "chegar" perto de você.

Quando nos trancamos na tristeza, nem nós mesmos nos suportamos; ficamos horríveis, o mal humor vai comendo nosso fígado, até a boca fica amarga.
Recomeçar...
Hoje é um bom dia para começar novos desafios. Onde você quer chegar? Ir alto, sonhe alto. Queira o melhor do melhor. Queira coisas boas para a vida.
Pensando assim trazemos para nós, aquilo que desejamos...

Se pensamos pequeno, coisas pequenas teremos.
Já se desejarmos fortemente o melhor e principalmente lutarmos pelo melhor, o melhor vai se instalar na nossa vida.

E é hoje o dia da faxina mental. Joga fora tudo que te prende ao assado, ao mundinho de coisas tristes: fotos, peças de roupa, papel de bala, ingressos de cinema, bilhetes de viagens, e toda aquela tranqueira que guardamos quando nos julgamos apaixonados... Jogue tudo fora.
Mas principalmente, esvazie seu coração, fique pronto para a vida, para um novo amor!
Lembre-se somos apaixonáveis, somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes. Afinal de contas, nós somos o "Amor"...

Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura.

Carlos Drummond de Andrade

Itabira do Mato Dentro [Itabira] MG
1902/10/31 - 1987/08/17

quinta-feira, 16 de abril de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO IXX

(Ficção baseada em factos reais)

- Porquê nos afastamos precipitadamente, como se o contacto mútuo pudesse queimar-nos?
- Porquê? Porquê? Porquê?

FIM DO.EPISÓDIO XVIII

EPISÓDIO IXX

Como uma luz que, de repente, se acende na escuridão, Anita lembrou-se de Arnaldo.
- Não, não pode ser! Eu não estou a apaixonar-me pelo padre João!

Pôs rapidamente no chão a criança que tinha no colo, e levantando-se precipitadamente, gritou: NÃO!
Todas as cabeças se voltaram para ela.
Balbuciou um rápido “desculpem, preciso ir já a casa, não me demoro”, - e saiu quase a correr para a rua.

Por cerca de meia hora caminhou sem destino, tentando acalmar aquela verdade que lhe martelava o cérebro: estou apaixonada!

Não queria acreditar, mas a sensação que tinha era exactamente igual à dos tempos em que amara Arnaldo.
Sentiu-se horrorizada.

Encaminhou-se para a Igreja, que não distava muito da creche, ajoelhou-se e, com os olhos fechados e as mãos apertadas convulsivamente, apenas conseguiu murmurar:



- Meu Deus, por favor! Faz com que isto não seja verdade. Isto não pode acontecer. Ajuda-me, Senhor!

Silenciosamente engoliu as lágrimas que teimavam em assomar aos seus olhos. Manteve-se assim uns minutos.
Mais calma dirigiu-se à creche, onde se notava uma ligeira agitação, motivada pela sua saída intempestiva.

À hora da saída não esperou a habitual chegada do padre. Pediu a dona Teresinha que a desculpasse junto dele por não lhe fazer o habitual relatório do dia, mas tinha urgência em sair.
- Amanhã falarei com ele - rematou.

Em casa voltou a sentir-se muito angustiada, e lamentou não ter Humberto junto de si, para poder desabafar e aconselhar-se.
Depois de jantar resolveu escrever-lhe.
Contou-lhe o sucedido nessa manhã; falou da desconfiança acerca dos seus próprios sentimentos, ao mesmo tempo que os repudiava; jurava que não queria apaixonar-se, e muito menos por um padre.

Toda a carta era um grito, um pedido de socorro!

Nos dias que se seguiram, Anita tentou proceder com naturalidade.
Com grande esforço conseguia, todas as tarde, esperar pelo padre, a quem fazia, como sempre, o relatório do dia. Mas agora tinha o cuidado de conservar Tiaguinho junto de si, ao contrário do que acontecia anteriormente. O menino começara por refilar mas, habituado a obedecer às ordens da mãe, rapidamente se aquietara.

Uma semana mais tarde Eulália apareceu na creche. Precisava falar com o padre – na realidade ia apenas entregar-lhe uma contribuição para as suas obras – e lembrara-se de passar por ali para ver a filha e o netinho.
Tiaguinho adorava a avó, que lhe fazia todas as vontades.
Logo que a viu atirou-se-lhe ao pescoço, beijocando-a, e pedindo: vovó, quero ir jantar contigo e com o vô.
Eulália olhou interrogativamente para Anita que, sorrindo, aquiesceu.

À hora habitual apareceu o padre João que se dirigiu a Eulália com o melhor dos sorrisos.
Chamando-o um pouco à parte, entregou-lhe o envelope que o marido mandara.
Dirigindo-se a Tiaguinho, segurou a sua mãozinha e encaminhou-se para a saída. Rapidamente Anita disse:

- Minha mãe, espere um pouco. Vou só apresentar o relatório ao padre João, e saio já convosco.

- Não, minha filha. Tenho que ir já para ultimar o jantar. Com o Tiaguinho lá preciso fazer aquela sobremesa que ele adora…

Anita foi, assim, forçada a aceitar a resposta da mãe.

Todos tinham saído. Anita encontrava-se, pela primeira vez desde há uma semana, a sós com o padre João.

Este sentia-se tão pouco à vontade e contraído quanto Anita que, falando precipitadamente, começou a contar-lhe como tinha decorrido o dia, ao mesmo tempo que lhe mostrava as facturas das contas para pagar, que o carteiro havia trazido naquele dia.

As suas mãos tremiam de tal modo que deixou cair ao chão parte dos papéis. Ambos se baixaram ao mesmo tempo para os apanhar, e, nesse movimento, ficaram muito próximos um do outro, quase a tocarem-se, e as mãos tão próximas que sentiam o calor dumas nas outras.
Mantiveram-se assim por um momento, em suspenso, olhando-se nos olhos, sem saberem que atitude tomar.

FIM DO EPISÓDIO IXX

terça-feira, 14 de abril de 2009

BEIJOS

Porque hoje é o dia Nacional do Beijo, no Brasil, apresento-vos um poema do meu amigo poeta brasileiro Humberto-Poeta



domingo, 12 de abril de 2009

PÁSCOA

PÁSCOA



Quando eu era criança não entendia muito bem a Páscoa. Só adorava procurar os ovinhos de chocolate que o coelhinho escondia.
Mas, o que tem a ver coelho com ovos, seus símbolos, com a ressurreição de Jesus ou a fuga dos hebreus do Egito comandada por Moisés?
Agora sei qual a relação de tudo isto. Os ovos são o símbolo do nascimento.
Ali dentro, uma vida por vir ao mundo.
É o eterno milagre da vida que renasce todos os dias.
O coelho é o animal que se reproduz com uma velocidade estonteante.
É uma ode à família, uma declaração de amor que a natureza faz todos dias.
Renascer é nascer, somos nós mesmos que renascemos nos nossos filhos, é a vida que se pereniza na prole.
A fuga dos hebreus é o fim da escravidão de um povo.
A escravidão equivale à morte; escravizar equivale a tirar a vontade e a alma de alguém, equivale a tirar a sua vida.
Libertar-se da escravidão é viver de novo, é renascer, é estar sempre começando tudo de novo.
Por fim, Jesus é a ressurreição.
Quer prova mais clara do que digo?
Este eterno milagre que nos encanta é o milagre da vida que a Páscoa nos relembra.
A Páscoa é a ressurreição das nossas almas.
Este é o dia de renascer, começar tudo de novo.
De nos libertamos do mal que corrompeu nossas almas e nos recobrirmos com o véu da pureza da alma que tivemos um dia.
Abandonar tudo o que é velho e antigo e olhar para a frente com coragem.
Dedicarmo-nos à vida como quem sorve o sumo de um fruto saboroso.
Hoje é dia de renascer.
Feliz Páscoa para todos.






sexta-feira, 10 de abril de 2009

9 DE ABRIL – DIA DO SOLDADO DESCONHECIDO

DEVIDO A DIFICULDADES DE ACESSO AO MEU BLOG NÃO PUDE PUBLICAR ONTEM, COMO TENCIONAVA, ESTE POST DE HOMENAGEM AO “SOLDADO DESCONHECIDO”.

APRESENTANDO DESCULPAS AO AUTOR PELA ANOMALIA A QUE SOU ALHEIA, PUBLICO-O HOJE.

Recebi por email, de Eugénio de Sá, e resolvi partilhar convosco.


Repasso aos meus amigos, com uma (desculpável) pontinha de orgulho português, esta bela e poética evocação histórica de Humberto Rodrigues Neto sobre factos reais que tiveram lugar nos primórdios do século XIX, quando quarenta mil soldados portugueses e uns poucos milhares de ingleses seus aliados de sempre, se confrontaram vitoriosamente com três sucessivas invasões francesas, cada uma delas muito superior em número de tropas ao exército luso-britânico, seu oponente no terreno.
Em nome de Portugal, os meus agradecimentos ao grande Poeta Humberto Rodrigues Neto.
Uma palavra ainda para felicitar e agradecer a minha esposa Olga Kapatti, pela sua magnifica e inspirada visualização e Arte.
Eugénio de Sá



O soneto que se publica abaixo, da autoria de Humberto Poeta, resulta numa elegia ao soldado português, e refere-se à heroicidade lusa, face às incursões militares de tropas francesas de Napoleão Bonaparte em território português, que tiveram lugar nos anos de 1807-1808, 1809 e 1810-1811, sob o comando directo respectivamente, dos marechais de França; Junot, Soult e Massena. (imagens seguem a ordem)

A propósito da expressão atribuída a Bonaparte que resultou numa censura aos sucessivos fracassos dos seus marechais face aos objectivos por ele definidos para Portugal, informa-nos Humberto Poeta: "Não há menção a este episódio nas enciclopédias. Foi-me relatado por um intelectual português do Minho, que também viveu longos anos em Goa, a lecionar Português e Matemática. Disse-me que o fato era contado de boca em boca por seus avós e demais contemporâneos da célebre resistência, devendo, pois, ser verídicas as explosões de cólera de Napoleão e a célebre frase com que procurou espicaçar os brios da infantaria francesa."

Eugénio de Sá



EPICÉDIO AO SOLDADO PORTUGUÊS
Humberto Rodrigues Neto
Há flagrantes que fogem ao registo

dos fatos que marcaram a humana História;

um deles ainda guardo na memória,
por isso animo-me a falar-vos disto.

Pra arruinar o comércio da angla terra,
impondo-lhe o Bloqueio Continental,
não cria Napoleão que Portugal
se mantivesse aliado da Inglaterra.

Pra se impor à arrogância dos bretões,
tomar resolve, então, a Portugal;
com cem mil homens e um forte arsenal
declara guerra à pátria de Camões!


A terra lusa havia de ser tomada
em poucos dias, como então pensara,
mas os quarenta mil que ali depara
opõem-lhe resistência encarniçada!


Contrariado em seus planos e iracundo,
dá breve trégua aos seus cem mil soldados

e em rosto lança-lhes, em rudes brados:

“Com cem mil destes conquistava o mundo”!

Notas:

A razão imediata das invasões relacionou-se com a recusa portuguesa em aderir ao Bloqueio Continental decretado por Napoleão em relação à Inglaterra, no ano de 1806. Para agravar a situação, em Agosto do ano seguinte, a França apresentou um ultimato ao governo português: ou este declarava guerra à Inglaterra até dia 1 de Setembro ou as fronteiras nacionais portuguesas seriam cruzadas pelos soldados franceses.
Na medida em que a aliança anglo-lusa não foi quebrada, a ameaça foi cumprida em meados de Novembro.

Nas várias batalhas que tiveram lugar, os franceses foram sempre derrotados pelo exército luso-britânico comandado pelo General Sir Artur Wellesley (doravante conhecido como Lord Wellington), e obrigados a retirar-se do território português.

Em 1810, os franceses perderam a batalha do Buçaco. O exército napoleónico foi depois obrigado a suster o seu avanço ante as linhas de Torres(a), acabando por se retirar definitivamente na Primavera de 1811, uma vez mais derrotado.


(a): As Linhas de Torres Vedras eram um sistema defensivo de fortificações mandado construir em 1809 por Wellesley, comandante do exército anglo-luso, para defender Lisboa das tropas napoleónicas. Localizadas na baixa Estremadura, pretendiam barrar todos os acessos à capital, num eixo que ia do Tejo à costa atlântica.

Concluídas apenas em 1812, subdividiam-se em duas linhas mais avançadas e uma mais recuada, todas pontuadas por fortes estrategicamente situados (como os de São Julião da Barra, Sobral, Torres Vedras, Mafra, Montachique, Bucelas e Vialonga ).

Após a derrota na batalha do Buçaco (1810), a terceira invasão francesa, liderada por Massena, não conseguiu transpor as fortificações das linhas de Torres, confirmando-se assim a utilidade das obras levadas a cabo pela engenharia aliada.



quinta-feira, 9 de abril de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XVIII

(Ficção baseada em factos reais)

Sem que nenhum deles se apercebesse estava surgindo uma grande cumplicidade entre ambos, e, a cada dia que passava, tornavam-se mais agradáveis os momentos que passavam juntos, os quais, inconscientemente, tentavam prolongar o mais possível.

FIM DO.EPISÓDIO XVII

EPISÓDIO XVIII

Anita continuava a manter a mesma correspondência de sempre com Humberto, a quem relatava tudo o que ia acontecendo.
O enteado respondia-lhe com a regularidade habitual, manifestando o seu contentamento por ver como Anita se sentia feliz e quase realizada.
Notava, contudo, nas entrelinhas, que havia momentos em que o espinho chamado Arnaldo ainda a magoava.

De facto, ultimamente, nas suas cartas, Anita aludia muitas vezes, embora de forma velada, ao que fora o grande amor da sua vida.

Isto devia-se ao facto de, nos últimos tempos, especialmente depois das conversas com o pároco, ela se lembrar de Arnaldo com mais frequência.
Quando chegou o final do ano escolar Humberto regressou à sua ilha, e, como de todas as vezes, ele e Anita uniram-se num forte abraço, cheio de ternura.

Como na época de verão havia menos crianças na creche porque as mães gozavam as suas licenças e ficavam com os filhos em casa, Anita e as duas companheiras dividiam os dias de forma a poderem, também elas, terem os seus dias de férias.

Não recebendo qualquer remuneração pelo seu trabalho, Anita não queria, contudo, gozar de qualquer privilégio, e assim, o seu período de férias era igual ao das suas duas companheiras.

Como acontecera no ano anterior, quando Humberto viera passar as suas férias escolares à ilha, também agora davam belos passeios, sempre na companhia de Tiaguinho.
Anita sentia-se verdadeiramente feliz, como não o era desde há muitos anos.

Humberto achou-a diferente, mais madura, mais segura de si, ao mesmo tempo que sentia que Anita, por vezes, se alheava enquanto conversavam. Ao fazer-lho notar, apercebeu-se de um ligeiro rubor na sua face, e um certo constrangimento ao responder:

- Não sei porque dizes isso…Eu ouço-te com a mesma atenção de sempre.
O que notas é talvez um certo cansaço. Bem sabes que eu não estava habituada a trabalhar ao ritmo a que trabalho agora. E ao fim do ano escolar todos os professores, e também os alunos, se sentem cansados. Não se passa o mesmo contigo?

Humberto, olhando-a muito sério, retorquiu:

- Anita, sabes que a minha amizade por ti não me deixa mentir-te. O que noto em ti não tem nada a ver com cansaço. Tu estás diferente;
sinto-te distante, como se alguma coisa se nos tivesse entreposto, causando-te um certo afastamento…
Por favor, confia em mim, como sempre fizeste. Diz-me o que se está passando.

- Mas o que queres que te diga? A sério, não se passa nada de especial. Sinto-me muito bem, realizada, agora que estou ajudando a construir um futuro melhor para aquelas crianças e as suas mães…
Acredita que não tenho nada, apenas me sinto um pouco cansada.
Eu não me tinha apercebido, mas estava mesmo a precisar de férias.

Humberto não insistiu, mas todo o tempo que esteve na ilha não serviu para dissipar a preocupação que manifestara à madrasta.
E regressou a Inglaterra convicto de que Anita estava a esconder-lhe algo.

Quando Anita retornou ao trabalho sentiu que, à medida que se aproximava da creche, o seu coração batia a um ritmo cada vez mais acelerado, e pensou consigo mesma:
- Mas que disparate. Pareço uma menina de 15 anos, que vai encontrar-se com o namoradinho. Tem juízo, Anita! És uma mulher com vinte e seis anos, casada, com um filho… porquê todo esse alvoroço? Vais apenas retomar o teu trabalho, nada mais.

Mas de nada valeu a auto admoestação. Com Tiaguinho pela mão, sentia-se a tremer interiormente, com as pernas a fraquejar. Resolveu sentar-se uns momentos no banco do jardim que havia perto da creche.
Foi Tiaguinho que a obrigou a levantar-se, puxando-a pela mão, excitado com a ideia de ir encontrar-se com os seus coleguinhas.
Ao aproximar-se viu que o padre João já a aguardava, junto à porta.

Sem pensar, encaminharam-se ambos para um abraço, que interromperam, contrafeitos, ao aperceberem-se de que não seria um procedimento muito correcto.
Ficaram ambos sem saber o que dizer, até que Tiaguinho salvou a situação, chamando a mãe para entrarem.

Anita passou todo o dia ansiosa e preocupada com o que acontecera nessa manhã.
Os seus sentimentos estavam num verdadeiro torvelinho; sentia-se incapaz de entender o se passava consigo.
Pensava, angustiada:
- Porquê me perturbou tanto a aproximação do padre João?
- Porquê não demos naturalmente um abraço como dois bons amigos que estiveram uma temporada sem se ver?
- Porquê nos afastamos precipitadamente, como se o contacto mútuo pudesse queimar-nos?
- Porquê? Porquê? Porquê?

FIM DO EPISÓDIO XVIII


quarta-feira, 8 de abril de 2009

PRÉMIO PAPO CALCINHA

Fui presenteada pela São, do blogue O RENASCER DA FÉNIX com o selo Papo Calcinha.



Agradeço a preferência. Agora resta-me seguir as regras e passar a outras.

Aqui estão as regras:
1- Escrever uma frase, citar um título ou contar uma história sobre seis assuntos nos seguintes segmentos: VIDA, CINEMA, LITERATURA, VIAGEM, AMOR E SEXO;
2- Convidar seis colegas de blogs que você realmente considere femininas e inteligentes;
3- Linkar o blog que a convidou;
4- Postar as regras para que outras as repassem;
5- Inserir o selo que se recebeu do Papo Calcinha.

As minhas respostas ao ponto 1:
VIDA – Um presente que nos é oferecido à nascença, que é preciso saber preservar até ao fim da viagem.

CINEMA – Já teve dias melhores… Prefiro teatro.

LITERATURA – Como em muitas outras coisas, gosto do que é bom, independentemente do género. Mas tenho as minhas preferências.

VIAGEM – Gosto muito de conhecer novas terras, suas gentes, seus usos e costumes.

AMOR – O sentimento mais nobre, base de todos os outros bons sentimentos.

SEXO – Feito com amor, aconselhável para uma mente sã num corpo são.

As minhas 6 nomeadas:

- Gi – Blog da Gi
– Mara - Crepúsculo
- Ana Siqueira – Pelos caminhos da vida
- Ana Maria - Quotidi-Ana-Mente
- Rebeca – Rebeca e Jotacê
- Sónia – Um vento na ilha

Uma boa semana e “bom seguimento”…

domingo, 5 de abril de 2009

TOQUE DE SILÊNCIO

Perde-se na memória dos tempos quem terá sido o autor da música “Toque do Silêncio”, da qual se diz:

O toque triste, que é a última nota do mundo, a ferir os umbrais da eternidade…” e

O toque de silêncio, com corneteiro ou clarim postado junto ao túmulo, será também executado ao baixar o ataúde à sepultura

Talvez porque esta música é tocada inúmeras vezes nos Estados Unidos (por exemplo, sempre que se realizam funerais militares), é vulgar pensar-se que ela é de origem americana, acabando por tornar-se conhecida no mundo inteiro.
Há, contudo, quem defenda que tenha sido composta por um soldado mexicano, obedecendo a ordens do General António Lopes de Santa Anna.

António de Pádua Maria Severino Lopez de Santa Anna y Perez de Lebron, foi um general mexicano que se autoproclamou ditador do México, ficando famoso por ter vencido a Batalha de El Álamo, em 1836.

Consta que, depois da Batalha da qual saiu vencedor, e ainda antes de prestar honras à bandeira mexicana, o General de Santa Ana ordenou ao seu “corneteiro” que compusesse uma melodia que prestasse homenagem aos soldados mortos em combate.

Conta a lenda (*) que, devido à bravura demonstrada pelos combatentes, o General Santa Anna ordenou ao seu corneteiro que compusesse uma melodia que prestasse homenagem aos soldados mortos em combate.
Ordenou que se guardasse silêncio enquanto a música era tocada, ameaçando com a pena de morte quem desrespeitasse esta ordem; e ordenou ainda que a bandeira mexicana fosse desfraldada durante a cerimónia.

Actualmente essa música é conhecida, em português, como “Toque de Silêncio”.

Desconhece-se o nome do soldado mexicano que compôs tão emotivo toque militar.
A única coisa que se sabe dele é o seguinte:

Quando o General Santa Anna regressou do exílio, em 1874, com 80 anos de idade, durante a madrugada do seu aniversário escutou-se um clarim à porta da sua casa, que interpretava uma série de toques militares mexicanos, que lhe provocaram uma grande emoção.
Era o, também já velho, corneteiro, que acompanhou o General em todas as batalhas em que este participou.
Vinha fazer-lhe uma serenata por ser um dia tão significativo para o velho, quase cego, meio surdo e mutilado general.
Depois de conversar um bom bocado e recordar as aventuras por ambos vividas em tantas acções de guerra, o corneteiro pediu a Santa Anna ajuda económica, pois encontrava-se na mais completa miséria.
Mas como Santa Anna já não tinha fortuna para ajudá-lo, convidou-o para ficar a viver em sua casa.
A fazer fé em depoimentos de investigadores estrangeiros, pode afirmar-se que o General participou em mais batalhas do que Napoleão e George Washington juntos.
É justamente considerado um dos militares de toda a história, a nível mundial, que participou em acções bélicas durante mais tempo, desde os 16 aos 61 anos de idade.

(*) – Chamo-lhe lenda porque não encontrei confirmação oficial.


Convido-vos agora a apreciarem o maravilhoso “Toque de Silêncio”, numa magnífica interpretação de Melissa Venema,



acompanhada pela orquestra de André Rieu.

NÃO ESQUEÇA DE DESLIGAR A MÚSICA DE FUNDO ANTES DE LIGAR O VÍDEO.

Il Silenzio - Melissa Venema and Andre Rieu


quinta-feira, 2 de abril de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XVII

(Ficção baseada em factos reais)

Lá fora respirou fundo. Sentia o coração a transbordar de amor por Anita, e não queria que ela se apercebesse.
Pouco tempo depois regressou, já calmo, para passar o serão com a madrasta.

FIM DO.EPISÓDIO XVI

EPISÓDIO XVII

No dia seguinte Anita comunicou a Vicente o que planeara fazer relativamente à creche da igreja.
Falou num tom aparentemente seguro e convicto, disfarçando o receio que sentia pela reacção que ele poderia ter.
Mas, contra as suas expectativas, Vicente apoiou a ideia, até com certo entusiasmo, acrescentando:

- Acho que é uma óptima ideia. E podes dizer ao padre João que ajudarei em tudo o que for necessário. É urgente a abertura dessa tão prometida creche. A cidade ficará beneficiada, e as mães trabalhadoras poderão dedicar-se mais ao trabalho, sabendo que seus filhos estão bem entregues, e em segurança. O padre que me diga depois o que é que precisa.

E dando um beijo ao de leve na mulher, foi, como sempre, tratar dos seus negócios.

Anita, exultando de alegria, dirigiu-se de imediato à Igreja, para comunicar ao padre tudo o que seu marido dissera, expondo-lhe o seu plano para trabalhar na creche.

O padre, mal podendo acreditar no que ouvia, exultou, de alegria.

Cheios de entusiasmo começaram logo a traçar planos, anotando todos os materiais necessários para que, sem perda de tempo, pudessem começar as obras no edifício que viria a ser a creche, e que ficava em frente da casa paroquial, apenas separada por um estreito caminho.

Ao tomar conhecimento das decisões do pai, Humberto partilhou da alegria de Anita, e enquanto duraram as férias, empregou grande parte do seu tempo ajudando no que era possível.
Isso não os impediu de darem grandes e agradáveis passeios, sempre acompanhados por Tiaguinho, que crescia forte e saudável.

Mais rapidamente do que desejavam as férias chegaram ao fim, e impunha-se o regresso de Humberto a Inglaterra.
Mais uma triste despedida na vida de Anita!
Contudo, desta vez, o adeus foi menos doloroso, dado o entusiasmo com que via progredirem as obras da creche.

Em breve começou a comprar o mobiliário – alguns berços e caminhas, mesas, cadeiras, enfim, tudo o que era necessário para tornar confortável aquele que seria o espaço onde muitas crianças iriam passar a maior parte das horas do dia.
O pároco já conseguira contratar outra senhora para tomar conta das crianças que, juntamente com D. Teresinha e Anita, constituiriam o “corpo docente” da creche.

Finalmente, no início de Outubro, procedeu-se à inauguração.

O padre João, depois da missa na igreja, dirigiu-se para a creche, onde o aguardavam cerca de trinta crianças acompanhadas das mães e alguns, poucos, pais, que se notava serem-no pela primeira vez.
Depois duma breve bênção ao edifício, foram abertas as portas. Na sala encontrava-se uma mesa posta com pequenos bolos e copos de leite e café para oferecer às mães das crianças.
E assim, com uma cerimónia bem simples mas cheia de significado, foi inaugurada a creche paroquial.

A partir desse dia a vida de Anita adquiriu um novo colorido.
Acompanhada de Tiaguinho, todas as manhãs se dirigia para a creche, onde passava o dia tomando conta das crianças, nas quais se incluía o seu filho.

Era um trabalho que a encantava. Normalmente as suas companheiras tomavam à sua conta as crianças mais pequeninas, ficando à sua guarda as maiorzinhas, entre os três e os cinco anos.
Anita começava a orientá-las para as primeiras letras, dando, assim, uso aos ensinamentos que colhera no seu curso de professora.

Com danças de roda, cantiguinhas e lengalengas, os dias corriam serenos e felizes.
Podia dizer-se que Anita vivia para a creche e os seus meninos e meninas, que a adoravam.
Sem falhar um dia, à hora do almoço e ao fim do dia, o padre João passava pela creche.
Anita punha-o ao corrente de tudo o que acontecia com as crianças, transmitindo-lhe alguma chamada de atenção que fosse necessário dirigir aos paroquianos, principalmente quando se verificava alguma quebra nas habituais ajudas.

Talvez por haver um grande entendimento entre ambos, tudo funcionava lindamente.

Muitas vezes, depois de tratados os assuntos da creche, ficavam a conversar sobre os mais variados temas, esquecendo-se das horas que passavam. Aconteceu algumas vezes Tiaguinho “reclamar” que tinha fome, para se aperceberem de que eram horas de cada um seguir para sua casa.

Sem que nenhum deles se apercebesse estava surgindo uma grande cumplicidade entre ambos, e, a cada dia que passava, tornavam-se mais agradáveis os momentos que passavam juntos, os quais, inconscientemente, tentavam prolongar o mais possível.

FIM DO.EPISÓDIO XVII