(Ficção baseada em factos reais)
...
- Padre, o senhor já esteve noutras paróquias onde havia creches. Deve ter uma ideia de quantas pessoas são precisas para pôr a funcionar esta que vai abrir…
- É verdade, Dona Anita, todas as paróquias por onde passei tinham creches. E posso dizer-lhe que o ideal é que uma senhora não fique com mais de dez crianças a seu cargo.
Sabe que algumas ainda são bebés, é preciso dar o biberão, trocar as fraldas…
- Eu sei, padre João, ainda há pouco tempo passei por isso, com o Tiaguinho.
Mas eu estava aqui a pensar que talvez eu mesma pudesse dar uma ajuda…
Deixe-me pensar melhor no assunto, e talvez amanhã já possa dizer-lhe alguma coisa.
- Isso seria bom demais, Dona Anita. Todas as ajudas que recebermos serão bem vindas.
Despediram-se do padre e, em vez de se dirigir na direcção do colégio, Anita voltou-se para regressar a casa.
Eulália, estranhando, perguntou:
- Então, minha filha, já não queres ir hoje ao colégio?
- Não, minha mãe. Enquanto ouvia o padre João surgiu-me uma ideia que me parece muito boa, mas preciso amadurecê-la…
- Sim? E posso saber que ideia é essa?
- Claro que pode, minha mãe, mas só depois de eu decidir se vou pô-la em prática.
Esboçando um sorriso, fez uma ligeira festa no rosto da mãe, e não acrescentou mais nada.
Eulália, conhecendo Anita, sabia que ela não adiantaria mais nada sobre o assunto.
Propôs-lhe irem até ao parque, onde respirariam ar fresco.
Tiaguinho aproveitou para exercitar as pernitas ainda pouco habituadas a andar.
Nesse mesmo dia, ao jantar, Anita disse a Humberto:
- Tenho uma coisa para te contar…
- É relacionada com a tua ida ao colégio?
- É e não é…Eu não fui ao colégio.
- Não??? E porquê? Desististe da ideia de dar aulas?
- Não, de modo algum! Apenas alterei um pouco as minhas intenções. Ora escuta:
O padre João vai abrir uma creche, mas está lutando com grandes dificuldades. O número de crianças previsto deve rondar as trinta, e ele tem apenas uma pessoa para tomar conta delas.
Pela experiência que ele tem, sabe que precisa de três pessoas.
O problema que se levanta é que a paróquia não tem recursos para pagar a três pessoas; com esforço, poderá pagar a duas. Mas, nessas condições, ficariam muito sobrecarregadas de trabalho, o que se iria reflectir no tratamento e atenção a dar às crianças.
Então eu pensei assim:
Em vez de ir dar aulas para o colégio – o que poderia não acontecer, pelo menos este ano – vou para a creche.
Como sabes, o meu interesse em arranjar emprego não é para ganhar dinheiro, que não preciso, mas sim para estar ocupada.
Trabalhando na creche, sem receber ordenado, ficam todos a ganhar.
Em primeiro lugar as mães, que mais depressa podem lá pôr os seus filhos; depois o padre, que pode concretizar mais rapidamente o seu sonho; e finalmente eu – a principal beneficiada – porque não vou ter que me separar do Tiaguinho.
Embora fosse só uma parte do dia, enquanto estivesse a dar aulas no colégio, sei que me ia custar bastante, até me habituar. E o Tiaguinho também ia sofrer ao ver-se afastado de mim…
Humberto não a interrompeu. Limitou-se a ouvi-la, em silêncio, apreciando, deliciado, o calor com que ela falava à medida que explanava a sua ideia. E sentiu crescer, dentro de si, o amor e admiração que sentia pela madrasta.
Tentando disfarçar a comoção, falou, finalmente, em tom meio brincalhão:
- Tu és única, mãezinha. Não há ninguém igual a ti!
E dando-lhe um pequeno piparote no nariz, voltou-se para a janela, parecendo muito interessado na escuridão que estava lá fora. Disse:
- Vou sair por uns minutos. Prometi ao meu amigo Joaquim levar-lhe uns panfletos que trouxe da Inglaterra.
Mas não me demoro, prometo.
Passou pelo seu quarto a buscar uns papéis e saiu.
Lá fora respirou fundo. Sentia o coração a transbordar de amor por Anita, e não queria que ela se apercebesse.
Pouco tempo depois regressou, já calmo, para passar o serão com a madrasta.




























