quinta-feira, 26 de março de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XVI

(Ficção baseada em factos reais)
...
- Padre, o senhor já esteve noutras paróquias onde havia creches. Deve ter uma ideia de quantas pessoas são precisas para pôr a funcionar esta que vai abrir…

FIM DO.EPISÓDIO XV

EPISÓDIO XVI

- É verdade, Dona Anita, todas as paróquias por onde passei tinham creches. E posso dizer-lhe que o ideal é que uma senhora não fique com mais de dez crianças a seu cargo.
Sabe que algumas ainda são bebés, é preciso dar o biberão, trocar as fraldas…
- Eu sei, padre João, ainda há pouco tempo passei por isso, com o Tiaguinho.
Mas eu estava aqui a pensar que talvez eu mesma pudesse dar uma ajuda…
Deixe-me pensar melhor no assunto, e talvez amanhã já possa dizer-lhe alguma coisa.
- Isso seria bom demais, Dona Anita. Todas as ajudas que recebermos serão bem vindas.

Despediram-se do padre e, em vez de se dirigir na direcção do colégio, Anita voltou-se para regressar a casa.
Eulália, estranhando, perguntou:
- Então, minha filha, já não queres ir hoje ao colégio?
- Não, minha mãe. Enquanto ouvia o padre João surgiu-me uma ideia que me parece muito boa, mas preciso amadurecê-la…
- Sim? E posso saber que ideia é essa?
- Claro que pode, minha mãe, mas só depois de eu decidir se vou pô-la em prática.
Esboçando um sorriso, fez uma ligeira festa no rosto da mãe, e não acrescentou mais nada.

Eulália, conhecendo Anita, sabia que ela não adiantaria mais nada sobre o assunto.
Propôs-lhe irem até ao parque, onde respirariam ar fresco.
Tiaguinho aproveitou para exercitar as pernitas ainda pouco habituadas a andar.

Nesse mesmo dia, ao jantar, Anita disse a Humberto:
- Tenho uma coisa para te contar…
- É relacionada com a tua ida ao colégio?
- É e não é…Eu não fui ao colégio.
- Não??? E porquê? Desististe da ideia de dar aulas?
- Não, de modo algum! Apenas alterei um pouco as minhas intenções. Ora escuta:

O padre João vai abrir uma creche, mas está lutando com grandes dificuldades. O número de crianças previsto deve rondar as trinta, e ele tem apenas uma pessoa para tomar conta delas.
Pela experiência que ele tem, sabe que precisa de três pessoas.
O problema que se levanta é que a paróquia não tem recursos para pagar a três pessoas; com esforço, poderá pagar a duas. Mas, nessas condições, ficariam muito sobrecarregadas de trabalho, o que se iria reflectir no tratamento e atenção a dar às crianças.
Então eu pensei assim:

Em vez de ir dar aulas para o colégio – o que poderia não acontecer, pelo menos este ano – vou para a creche.
Como sabes, o meu interesse em arranjar emprego não é para ganhar dinheiro, que não preciso, mas sim para estar ocupada.

Trabalhando na creche, sem receber ordenado, ficam todos a ganhar.
Em primeiro lugar as mães, que mais depressa podem lá pôr os seus filhos; depois o padre, que pode concretizar mais rapidamente o seu sonho; e finalmente eu – a principal beneficiada – porque não vou ter que me separar do Tiaguinho.
Embora fosse só uma parte do dia, enquanto estivesse a dar aulas no colégio, sei que me ia custar bastante, até me habituar. E o Tiaguinho também ia sofrer ao ver-se afastado de mim…

Humberto não a interrompeu. Limitou-se a ouvi-la, em silêncio, apreciando, deliciado, o calor com que ela falava à medida que explanava a sua ideia. E sentiu crescer, dentro de si, o amor e admiração que sentia pela madrasta.
Tentando disfarçar a comoção, falou, finalmente, em tom meio brincalhão:
- Tu és única, mãezinha. Não há ninguém igual a ti!

E dando-lhe um pequeno piparote no nariz, voltou-se para a janela, parecendo muito interessado na escuridão que estava lá fora. Disse:
- Vou sair por uns minutos. Prometi ao meu amigo Joaquim levar-lhe uns panfletos que trouxe da Inglaterra.
Mas não me demoro, prometo.

Passou pelo seu quarto a buscar uns papéis e saiu.
Lá fora respirou fundo. Sentia o coração a transbordar de amor por Anita, e não queria que ela se apercebesse.
Pouco tempo depois regressou, já calmo, para passar o serão com a madrasta.

FIM DO EPISÓDIO XVI

quarta-feira, 25 de março de 2009

PRÉMIO ROXIE

A título excepcional estou dando seguimento a um pedido da amiga Sam.
É mesmo a título excepcional; por norma costumo declinar estes "convites". Mas...é preciso experimentar de tudo, pelo menos uma vez na vida...

A Amiga SAM (http://samdesnuda.blogspot.com/) ofereceu a “A Casa da Mariquinhas” o prêmio Roxie, que consiste em escrever 5 coisas que são Roxie e exibir a imagem do selo "Seu blog é ROXIE".

1- Sobre música – uma das coisas muito boas da vida
2 - Televisão – vejo muito pouco: noticiários, debates, entrevistas…
3 - Três Países que sonha conhecer – Tailândia, Austrália, Japão
4 - Três cores favoritas – branco, vermelho e azul
5 - Hobbies – coleccionar (especialmente mochos)

Indico os blogs:

AS MINHAS ROMÃS

BLOG DA GI

DANIEL MILAGRE

UM MUNDO COLORIDO

PEQUENOS DETALHES

Obs. A minha escolha dos blogs obedeceu apenas a um critério – aqueles que me pareceram com mais possibilidades de dar continuidade ao “jogo”

Repasso o Premio também oferecido pela amiga SAM a todos os blogs citados e amigos da Casa da Mariquinhas


domingo, 22 de março de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XV

(Ficção baseada em factos reais)

- Ele acaba por se habituar…e olhe que para mim também não vai ser fácil estar sem ele umas horas. Sei que ao princípio me vai custar, mas tem que ser! – acrescentou Anita, resolutamente.

FIM DO.EPISÓDIO XIV
EPISÓDIO XV

E continuou:
-O que eu pretendo é ir dar aulas no colégio. A mãe podia vir comigo falar com a directora…que acha? Ou parece-lhe melhor eu ir com o pai?
- Não me importo de ir contigo, e não vejo interesse em que seja o teu pai a acompanhar-te. Afinal, num primeiro contacto, apenas vais informar-te da possibilidade de lá dares aulas, não é? Pode não haver vaga…sei lá!

Anita sentiu-se invadir por um certo desânimo. No meio de todo o seu entusiasmo nem se lembrara da hipótese de não haver vaga no colégio.
Ao ver o seu ar decepcionado, Eulália acrescentou, rapidamente:

- Mas de qualquer modo vamos lá. Não se perde nada por isso. E, se não houver vaga, podes lá deixar a indicação de que pretendes leccionar, e no próximo ano lectivo talvez já consigas…
Deixa-me ir calçar uns sapatos, e vamos lá já. Até porque quero passar primeiro pela Igreja, para entregar umas roupas ao padre. Amanhã é dia de distribuição aos pobres, e ele, coitado, nunca tem que chegue para as necessidades…

Alguns minutos depois estavam a caminho da igreja.
O padre recebeu-as com um sorriso, cumprimentou-as, e logo se voltou para a cadeirinha de Tiago, ao qual fez uma festa no rosto.
- Como este menino é bonito! E como cresceu desde o baptizado!...
- É verdade, padre. Tem-se desenvolvido muito bem, e felizmente é muito saudável…- respondeu Anita.
Eulália, olhando enternecida para o neto, acrescentou:
- Com a graça de Deus, este meu netinho não tem dado preocupações à mãe. Tem tido sempre saúde, sempre comeu muito bem, e tem sempre um sorrisinho nesta carinha bonita…
Mas, padre, falemos doutra coisa. Trouxe aqui estas roupas para os seus pobrezinhos, e deixei separadas, em casa, umas mercearias, que mais logo a empregada vem cá trazer.
Mas diga-me: como vai o projecto da sua creche?
- Vai devagarinho, dona Eulália, vai devagarinho. As dificuldades são muitas…O espaço eu já consegui arranjar, e material também já tenho prometida uma grande parte. Estou a contar com a boa vontade de muitas paroquianas para fornecerem o leite, o pão, umas bolachas…enfim, o que for necessário para alimentar as crianças enquanto cá estiverem.
O senhor António, da mercearia, prometeu dar uma ajuda diária, e o senhor Francisco, da pastelaria, também...logo que a creche comece a funcionar.
- Então, padre, o que lhe falta para abrir essa bendita creche? Olhe que é uma grande melhoria para a cidade, e as mães não vêem a hora de trazerem para cá os seus meninos…
- O que falta, dona Eulália? Falta quem prepare o espaço, porque precisa ser tudo pintado, madeiras arranjadas, alguns vidros estão partidos…
- Ora, padre, isso não vai custar nenhuma fortuna. Vou falar com o meu marido, a Anita fala com o marido dela, e com mais algumas ajudas depressa se junta o dinheiro para fazer esses arranjos.
- Ó dona Eulália, eu nem sei como lhe agradecer.
Sendo assim, depois só fica a faltar arranjar alguém que queira vir tomar conta das crianças. É porque a dona Teresinha, que é a única que pode vir para cá, não consegue, sozinha, tomar conta de tantas crianças.
- Mas são assim tantas, padre?
- As mães que se mostraram interessadas, já passam de vinte, é capaz até de chegar às trinta. Para elas a creche é uma coisa muito boa, podem ir trabalhar descansadas…Há muitas senhoras que não gostam que elas levem as crianças para o trabalho…
Já vê, uma pessoa só, não dá…e o problema para arranjar mais pessoas é que o ordenado não poder ser muito grande…a paróquia tem poucos recursos…

Anita assistia à conversa, em silêncio, com um ar pensativo.
Imaginava uma sala bem arejada, limpa, com muita luz e cores bem alegres, cheia de crianças de tenra idade, algumas ainda bebés, outras gatinhando, outras ainda, cambaleantes, ensaiando os primeiros passos…
Era uma visão enternecedora.
Voltando-se para o padre, disse:
- Padre, o senhor já esteve noutras paróquias onde havia creches. Deve ter uma ideia de quantas pessoas são precisas para pôr a funcionar esta que vai abrir…

FIM DO EPISÓDIO XV

quinta-feira, 19 de março de 2009

A ORIGEM DO DIA DO PAI




Não se sabe bem ao certo o que terá originado o aparecimento do “Dia do Pai”, mas tudo leva a crer que, tal como acontece com o “Dia da Mãe”, o mesmo tenha sido criado com o intuito de fortalecer os laços familiares e o respeito pelos nossos progenitores, que nos deram a vida.

Conta-se que em 1909, em Washington, USA, Sonora Louise, filha dum veterano da guerra civil, John Bruce Dodd, ao ouvir um sermão dedicado às Mães, teve a ideia de celebrar o Dia do Pai.
A sua mãe falecera ao dar à luz o sexto filho, em 1898.
O seu pai teve que criar o recém-nascido, assim como os outros cinco filhos, sozinho.

Já adulta, Sonora sentia um grande orgulho no Pai ao vê-lo superar todas as dificuldades, sem a ajuda de ninguém.
Em 1910 Sonora dirigiu uma petição à Associação Ministerial de Spokane, cidade localizada em Washington, USA. Pediu também auxílio a uma Entidade de Jovens Cristãos da cidade.

O primeiro Dia do Pai americano foi comemorado em 19 de Junho daquele ano (1910), aniversário do pai de Sonora.
Como símbolo foi escolhida a rosa, sendo que as vermelhas eram oferecidas aos Pais vivos e as brancas dedicadas aos Pais já falecidos.
A partir dessa data a comemoração estendeu-se a todo o estado de Washington, e em 1924 o Presidente apoiou a ideia da criação de um Dia do Pai nacional; mas só em 1966 o presidente Lyndon Johnson assinou uma proclamação presidencial declarando o terceiro Domingo de Junho como o Dia do Pai.

No Brasil a ideia de comemorar o Dia do Pai partiu do publicitário Sylvio Bhering, o que ocorreu, pela primeira vez, em 14 de Agosto de 1953, dia de S. Joaquim, patriarca da família. Esta data foi depois alterada para o 2º.Domingo de Agosto, ficando diferente da americana e europeia.
Pelo menos onze países também comemoram o Dia do Pai à sua maneira e tradição.
Em Portugal e na Itália, por exemplo, a festividade acontece no dia de São José, 19 de Março. Apesar da sua ligação católica, em breve essa data ganhou destaque comercial, como, aliás, acontece com todas as datas festivas.
No Reino Unido, o Dia do Pai é comemorado no terceiro domingo de Junho, sem muita festividade. Os ingleses não costumam reunir-se em família, como noutros países. É comum os filhos oferecerem aos pais cartões, e não presentes.
Na Alemanha não existe um Dia do Pai oficial. Os Pais alemães comemoram o seu dia no Dia da Ascensão de Jesus (data variável conforme a Páscoa). Eles costumam sair às ruas para andar de bicicleta e fazer piqueniques.
Independentemente do aspecto comercial que sempre se dá a esta, como a qualquer outra comemoração, é uma data que merece ser muito festejada – por quem tem Pai ainda vivo – nem que seja para dizer um simples “Obrigado Pai”.
Àqueles cujos Pais já fizeram a grande viagem, que é o meu caso, aconselho um momento de recolhimento. Em pensamento diga também “Obrigada(o) , Pai”!
Lá, onde se encontra, o seu Pai vai ouvir o seu pensamento, e vai sentir-se muito feliz.

E agora convido-vos a ver e ouvir este vídeo, onde Vicente Fernandez, cantor e actor mexicano, considerado o expoente máximo da música rancheira, canta uma belíssima canção que compôs em honra de seu pai - "Viejo, mi querido viejo" - (para quem não sabe, a expressão "viejo" referindo-se ao Pai, é, para os mexicanos, sinónimo de enorme amor e carinho).

É uma interpretação maravilhosa de Vicente Fernandez, que, em palco, todas as vezes que canta esta canção, vertes lágrimas verdadeiras, de emoção.

Abaixo encontra a letra e a tradução que fiz, para o caso de querer acompanhar a canção.



Vicente Fernandez...Viejo mi querido viejo





Es un gran tipo mi viejo
É um grande homem, o meu velho
Que anda solo y esperando
Que anda só e esperando.
Tiene la tristeza larga
Tem a enorme tristeza
De tanto venir andando
De tanto vir, sempre andando.

Yo lo miro desde lejos
Eu olho-o desde longe
Pero somos tan distantes
Mas somos tão diferentes
Es que el creció con el siglo
É que ele cresceu com o século
Con tranvía e vino tinto
Com carro eléctrico e vinho tinto.

Viejo mi querido viejo
Velho, meu querido velho
Ahora ya caminas lento
Agora já caminhas lento
Como perdonando al viento
Como perdoando ao vento

Yo soy tu sangre mi viejo
Eu sou teu sangue, meu velho
Soy tu silencio y tu tiempo
Sou teu silêncio e o teu tempo.
Yo soy tu sangre mi viejo
Eu sou teu sangue, meu velho

El tenia los ojos buenos
Ele tinha os olhos bondosos
Y una figura pesada
E uma figura pesada
La edad se le vino encima
A idade caiu-lhe em cima
Sin carnaval ni comparsa
Sem Carnaval nem comparsa.

Yo tenia los años nuevos
Eu tinha os novos anos
Mi padre los años viejos
Meu pai os anos passados
El dolor lo llevaba dentro
A dor, ele levava-a dentro
Y tuvo historias sin tiempo
E teve histórias sem tempo

Viejo mi querido viejo
Velho, meu querido velho
Ahora ya caminas lento
Agora já caminhas lento
Como perdonando al viento.
Como perdoando ao vento.
Yo soy tu sangre mi viejo
Eu sou teu sangue, meu velho
Soy tu silencio y tu tiempo
Sou teu silêncio e teu tempo
Yo soy tu sangre mi viejo
Eu sou o teu sangue, meu velho.

domingo, 15 de março de 2009

UMA GRANDE MULHER

Há uma semana atrás festejou-se o Dia Internacional da Mulher.
Houve trocas de emails entre amigas e amigos, toda(o)s a(o)s bloguistas publicaram posts alusivos à efeméride, todos parabenizaram a Mulher.

Quem se debruçou ou apenas referiu as conquistas da Mulher que, ao longo de vários anos lutou pelos seus direitos, não esqueceu a preciosa ajuda e participação do Homem nessas mesmas lutas.

Estamos, assim, todos de acordo em que muitos homens foram e são a favor da igualdade Homem/Mulher.
Mas…ainda há muitos que o não são.
Não vou aqui, por agora, debruçar-me sobre este tema. Não faltarão oportunidades para o desenvolvermos.
Mas…não resisto a partilhar convosco este texto que recebi, sem indicação de autoria, e que considero como uma adenda à celebração do Dia Internacional da Mulher.



Thomas Weller, alto executivo de uma multinacional, viajava com sua mulher por uma estrada interestadual, quando notou que o carro estava com pouca gasolina.

Parou num posto muito simples, com apenas uma bomba de combustível.
Pediu ao único atendente que enchesse o tanque e verificasse o óleo, enquanto ele dava uma volta para esticar as pernas.

Voltando ao carro percebeu que sua mulher e o frentista estavam num papo animado.
A conversa parou enquanto Weller pagava a conta da gasolina.

Mas, ao retornar ao carro, ele viu o rapaz acenar e dizer:
- Foi óptimo falar com você!

Ao sair do posto o marido perguntou à mulher se ela conhecia o atendente.
Imediatamente ela admitiu que sim. Tinham frequentado a mesma escola e ela o namorara por cerca de um ano.

- Puxa! Você teve sorte em eu ter aparecido – vangloriou-se Weller.
Se tivesse casado com ele, seria agora a esposa de um frentista de posto de gasolina, em vez de ser esposa de um alto executivo.

- Meu querido – respondeu a mulher. Se eu tivesse me casado com ele, ele seria o alto executivo, e você o frentista do posto de gasolina.


“Atrás de todo o homem, existe uma grande mulher…exausta!”

quinta-feira, 12 de março de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XIV

(Ficção baseada em factos reais)

Mas para isso não é necessário um curso, a própria vida o ensina…
Achas que tenho razão para me sentir vazia, ou isto é puro egoísmo?

FIM DO.EPISÓDIO XIII
EPISÓDIO XIV

Humberto envolveu-a num terno abraço, respondendo:
- Claro que não é egoísmo, Anita. Eu entendo-te muito melhor do que possas imaginar. Já atravessei um período em que me sentia exactamente assim.

Curiosamente, depois que te casaste com o meu pai e vieste viver para esta casa, esse mau estar foi desaparecendo, até deixar de existir.

Quando penso no percurso que fiz, desde o teu casamento até hoje…Agora já sorrio interiormente. Quando formos os dois bem velhinhos havemos de voltar a falar nisto. Por agora vamos apenas pensar em ti, e tentar levantar esse teu moral.

Vejamos, tu já pensaste em leccionar? Tens o curso de professora, podes dedicar-te ao ensino. Ou não gostavas?...

- Claro que gostava, e muito! Tirei exactamente o curso que queria tirar, com a finalidade de ensinar as crianças. Sabes como gosto delas. Mas essa hipótese só seria viável daqui por mais de um ano, pois já não estou a tempo de concorrer à escola, para este ano lectivo.
E como hei-de aguentar mais um ano?

- Estás a esquecer-te do colégio. Para lá não precisas concorrer. O meu pai pode dar uma ajuda, falando com a directora. Como sabes, ele tem dado para lá subsídios; certamente atendem um pedido que ele faça…

-Preferia não meter o teu pai nisto. Vou antes falar com os meus pais. A directora certamente também atenderá um pedido do meu pai.

- Sim, talvez seja uma boa ideia…

- Ai, Humberto, nem sabes o alívio que sinto! Para te dizer a verdade, eu já tinha pensado nisso, mas achei que era um disparate.
Agora, a ideia partindo de ti, já me parece muito mais razoável.
Amanhã mesmo vou falar com a minha mãe.

- Calma! Tens quase dois meses à tua frente. Para quê essa pressa toda?

- Pois tu não entendes, Humberto? Eu sinto-me leve, quase a voar!
Não quero que nada possa impedir este plano que acabamos de idealizar. Quanto mais depressa se falar com a directora do colégio, mais hipóteses tenho de ser aceite.

- Tens razão, como sempre.
Amanhã, enquanto vais falar com os teus pais, vou encontrar-me com uns amigos, e depois, se quiseres, podemos ir almoçar juntos. Que te parece?

- Parece-me uma ideia excelente! Aliás, da maneira como me sinto, tudo o que possas dizer só pode ser excelente.
E, lançando os braços à volta do pescoço de Humberto deu-lhe dois sonoros beijos.

Nessa noite Anita mal conseguiu conciliar o sono, tão grande era a sua excitação.
Levantou-se ao raiar do dia, e quando se apresentou na sala para tomar o pequeno-almoço, já estava pronta para sair de casa.

Empurrando a cadeirinha de Tiago dirigiu-se a casa dos pais. O pai já tinha saído para o escritório, por isso expôs à mãe os seus planos.
A mãe ouviu-a atentamente, e no fim, observou:

- Eu compreendo-te muito bem, minha filha. Também comigo aconteceu, algumas vezes, desejar não ser apenas mãe e dona de casa.
Mas nunca pude passar disso, não tinha habilitações para mais.
Tu tens o teu curso, podes fazer uso dele. Mas, não podes esquecer uma coisa. O Tiaguinho ainda é muito pequenino, precisa de ti.
Vais ter que esperar que ele cresça um pouco, e depois poderás, então, pensar em dar aulas.

- Não, minha mãe, não vou esperar que o Tiaguinho cresça. Ele já não é assim tão pequenino. Já fez um ano, já dá uns passinhos, já não o amamento…portanto posso dispor de algumas horas longe dele.

- E achas que ele não vai sentir a tua falta? Ele está muito agarrado a ti. Não vês que até para ficar comigo, se precisas ir a algum lado sem ele, começa sempre por fazer beicinho?

- Ele acaba por se habituar…e olhe que para mim também não vai ser fácil estar sem ele umas horas. Sei que ao princípio me vai custar, mas tem que ser! – acrescentou Anita, resolutamente.

FIM DO EPISÓDIO XIV

domingo, 8 de março de 2009

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Para comemorar o Dia Internacional da Mulher escolhi, para partilhar convosco, um texto que considero muito bonito, da autoria de Lúcia Helena dos Santos, e também um texto do grande Pablo Neruda.

As flores irradiam a glória e a beleza de Deus–Mãe, pois ela caminha sobre a Terra em cada mulher.
Mulher! Todos os grandes senhores te reverenciam no dia de hoje, pois eles nasceram do teu ventre. Mulher! Além de todos os poderes cósmicos, levas dentro de ti a semente sagrada que provê a vida. Tu és o mais belo pensamento de Deus. Teu coração é manancial de sabedoria. De teu íntimo brota a força amorosa que nutre, regenera e ressuscita.
Homem! Neste dia internacional da mulher, lembra-te que podes divinizar-te pela admiração da mulher.
• Estás aflito? Recorre à mulher. Ela é o consolo dos aflitos.
• Estás enfermo? O toque da mulher é curativo.
• Queres descobrir os mistérios da Divindade? Busca compreender o coração da mulher.
Porque quem não reverencia a mulher, fecha as portas à graça e à beleza.
Mulher! Ao olhar-te no espelho, reconhece ali a Mãe Divina! Mira-te nela! Encarna com dignidade os dons femininos de amor, fidelidade, pureza, sensibilidade, compreensão, delicadeza, generosidade, doçura, abnegação, serenidade e o dom de tudo embelezar.
Mulher! Não te deixes corromper pela futilidade e mediocridade do mundo. Aumenta ainda mais tua força, apreendendo as virtudes dos homens, mas nunca os vícios. A regeneração do mundo depende de ti, pois tens o poder de moldar o caráter de um ser, desde o teu ventre e por toda a sua vida.
Podes transformar teu lar num templo da Divina Missão de Amor. Quando defendes tua dignidade, defendes a dignidade de cada ser humano .
Mulher! Rejeita qualquer pensamento ou sentimento de rivalidade, pois isto destrói a unidade das mulheres. Caminha graciosamente, olhando sempre com admiração o teu eterno companheiro, o homem.
Mulher! Neste Dia Internacional da Mulher, dedicado a ti, todos te proclamam como a Senhora da criação e da beleza e admiram a dádiva que é ser mulher!
Lúcia Helena dos Santos


MULHERES

Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.

Elas brigam por aquilo em que acreditam.
Elas levantam-se contra a injustiça.
Elas não levam “não” como resposta quando acreditam que existe melhor solução.

Elas andam sem novos sapatos para as suas crianças poderem tê-los.
Elas vão ao médico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.

Elas choram quando as suas crianças adoecem, e alegram-se quando as suas crianças ganham prémios.
Elas ficam contentes quando ouvem falar sobre um aniversariante ou um casamento.

Pablo Neruda

quinta-feira, 5 de março de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XIII

(Ficção baseada em factos reais)

Duas semanas depois do baptizado de Tiago, Humberto partiu para Inglaterra.

FIM DO.EPISÓDIO XII
EPISÓDIO XIII



A despedida foi dolorosa para ambos.
Anita não se preocupou em ocultar as lágrimas, deixando-as deslizar livremente pelo rosto.

Havia bastante tempo que deixara de se preocupar com o que Vicente poderia pensar da sua amizade com Humberto.
Sentia uma grande mágoa pela partida do enteado, e manifestava-a abertamente.

Os dias seguintes foram difíceis de passar, pois sentia-se muito sozinha.
Vicente continuava a sair todas as noites, não se incomodando por saber que agora Anita nem tinha a companhia do enteado.

Depois de jantar sozinha, apenas com Tiago por companhia, deitado no seu carrinho, Anita escrevia a Humberto. Era uma espécie de diário, onde ela descrevia como passara o dia, os seus pensamentos, as preocupações, as “gracinhas” de Tiago…

Uma vez por semana fazia a carta seguir para o correio, e recebia uma de Humberto, do mesmo género das que ela escrevia.

Lentamente foi criando novas rotinas.
Saía de casa empurrando o carrinho de Tiago, e ia a casa da mãe, que morava a uma certa distância; aproveitava, assim, para fazer um pouco de exercício, agora que se sentia completamente recuperada.
No regresso passava pela Igreja. Ajoelhava-se, rezava as suas orações, e saía com a alma mais tranquila e fortalecida.
Algumas vezes cruzava-se com o pároco, demorando-se um pouco em amena conversa.

Os meses sucederam-se rapidamente; chegou o tempo de férias escolares, e com ele o regresso de Humberto.
Anita não cabia em si de contente ao receber o enteado num forte abraço.

Humberto maravilhou-se com o desenvolvimento do seu afilhado, que já ensaiava os primeiros passos.
Recomeçaram as longas conversas ao serão. Humberto falava dos seus estudos, do dia a dia em Inglaterra, das amizades que por lá fizera…

Ao ouvi-lo, Anita sentia uma ligeira ponta de ciúme. Sentia que Humberto vivia uma vida em pleno, longe dela; e se, por um lado, isso a alegrava, por outro não podia deixar de comparar o que ele, entusiasticamente lhe descrevia, com a sua própria existência. Começava a sentir um grande vazio.
Um dia desabafou com o enteado.
- Sabes, Humberto, sinto que estou a viver uma vida sem sentido. Não saio nunca desta rotina, de fazer todos os dias a mesma coisa…
- Mas nas cartas que trocamos nunca mo deste a entender…Parecias feliz, tratando do Tiaguinho, visitando a tua mãe, conversando com o novo padre…Pareceu-me, até, que estava a despontar uma certa amizade entre ti e o pároco…
O que se passa, “mãezinha”? E acrescentou com ar brincalhão – alguma crise existencial?
- Tu não me levas a sério, nunca ninguém me levou a sério…- e uma lagrimita começou a bailar-lhe nos olhos.

Humberto apercebeu-se de que o assunto era mesmo sério. Abandonou o seu ar brincalhão, pegou-lhe nas mãos, e dando-lhe um beijo rápido na face, disse:
- Não quero voltar a ver esse ar triste no teu rosto. Vamos lá conversar calmamente. Quero que me digas tudo o que te preocupa. Não te esqueças que sou o teu melhor amigo, que podes confiar em mim inteiramente. Não sei eu todos os teus segredos?
Abre o teu coraçãozinho – acrescentou com um sorriso, tentando não parecer demasiado solene.

Anita respirou fundo, e, após uma ligeira pausa, desabafou:
- Sinto-me muito mal, Humberto. Uma verdadeira inútil. Ainda agora, ouvindo-te falar na vida que levas em Inglaterra, lembrei-me dos meus tempos de estudante.
Humberto franziu levemente o sobrolho, ao pensar: ainda gosta dele…

Indiferente aos pensamentos de Humberto, Anita continuou:
- Afinal, andei tantos anos a estudar, para quê?
Para orientar uma casa, onde o marido raramente põe os pés, e tratar duma criança?
Eu adoro o meu filho, e nada me dá mais prazer do que tratar dele, tu sabes…
Mas para isso não é necessário um curso, a própria vida o ensina…
Achas que tenho razão para me sentir vazia, ou isto é puro egoísmo?

FIM DO EPISÓDIO XIII

segunda-feira, 2 de março de 2009

MUNDO PARALELO

Está uma manhã linda, de sol brilhante.
Entro na auto-estrada. O tráfego é intenso, mas flui normalmente, o que me permite manter o conta-quilómetros nos 120Km - velocidade de cruzeiro - sem sobressaltos.
Vou ouvindo a quinta sinfonia de Beethoven, naquele tom suave que me permite ouvir perfeitamente a música, sem, contudo, me isolar do mundo que me rodeia.
O brilho do sol por vezes reflecte-se nos cromados dos outros carros, provocando faíscas brilhantes.
De súbito, começo a ver, lá bem longe, uma sombra que ainda não consigo identificar. Será fumo? - Não faz tanto calor que justifique um qualquer incêndio espontâneo.
Nevoeiro? - Está um sol tão claro, um céu azul sem nuvens…
Á medida que me aproximo a mancha começa a tomar todo o aspecto de névoa.
Estranho, num dia tão bonito! - É, talvez, um banco de nevoeiro.
Não parece muito lógico, mas…é isso mesmo, é nevoeiro que, quanto mais me aproximo, mais se adensa.

Os carros ligam os faróis de nevoeiro e começam a abrandar a marcha.
Em breve o nevoeiro torna-se tão cerrado que dificilmente vejo o carro à minha frente.
O trânsito avança muito lentamente.
Apercebo-me, com apreensão, que a traseira do carro que me precede começa a esfumar-se, e logo em seguida deixo de ver os próprios faróis de nevoeiro.
Pelo espelho retrovisor não vejo absolutamente nada. Estou totalmente rodeada de nevoeiro.
Travo e paro completamente, esperando, dentro de poucos segundos, sentir bater, no meu carro, o que vinha atrás de mim.
Uns segundos, um minuto, dois…e nada acontece.
Intrigada, abro a janela do carro, sinto uma ligeira aragem. Espreitando lá para trás nada vislumbro. O nevoeiro entra pela janela.
Decido abrir a porta do carro e sair. O nevoeiro envolve-me completamente. O silêncio é total, absoluto. Agora não corre a mais leve aragem. E a claridade começa a diminuir… Mas ainda não é meio-dia!
Sinto-me completamente só, isolada do resto do mundo, suspensa no tempo e no espaço.
Lentamente começa a invadir-me uma sensação de medo, que em breve se transforma em pânico.
Onde estou?
Onde estão todos que me acompanhavam na estrada?
Onde está a estrada?
Para onde vim?
Que mundo será este onde me encontro?
Levanto o olhar ao céu, esperançada em conseguir encontrar aí algum sinal que possa orientar-me.
É então que compreendo o porquê da ausência de claridade: milhares e milhares de pássaros, enormes, negros, planam, em silêncio, a cerca de dois metros acima da minha cabeça.
Fico paralisada, de espanto e de medo. Para qualquer lado que lance o olhar, só vejo pássaros, enormes, negros, ameaçadores.
Dou um passo em direcção ao carro, com a intenção de entrar, pô-lo a trabalhar e fugir dali a toda a velocidade.
Estaco, ao sentir uma súbita aragem e ouvir um ruído de bater de asas, que vem de cima.
Olho, e o meu assombro redobra, se tal ainda é possível.
Os pássaros começaram a afastar-se em duas direcções opostas, formando uma grande abertura, donde surge uma luz intensa.
Ouço um bater de asas mais forte, e, com enorme assombro, vejo surgir um ser alado, duma beleza resplandecente, brilhando mais que mil sóis.

Ofuscada, e não querendo acreditar no que estou vendo, esfrego os olhos com força.

Com o coração batendo fortemente, verifico que estou deitada na minha cama, e acabo de ter um terrível pesadelo.

Mariazita, 20 Fevereiro 2009 - Algures no Norte de Portugal

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XII

(Ficção baseada em factos reais)

-Não, ele não merecia ser pai do meu filho. Nada fez para me libertar do compromisso que me obrigaram a manter, contra minha vontade.

FIM DO.EPISÓDIO XI
EPISÓDIO XII

Como era de esperar, um dia chegou à Ilha um padre, que vinha substituir o velho pároco que falecera.
Era um homem novo, simpático, que depressa conquistou as boas graças dos paroquianos. Fez especial sucesso junto ao elemento feminino…

Vicente conversou com Anita para que fossem cumprimentar o novo padre e convidá-lo para sua casa. Afinal, sempre tinham mantido um estreito relacionamento com a Igreja…e o bebé precisava ser baptizado.

Anita aquiesceu, satisfeita com a ideia de voltar a frequentar a Igreja.
Agora, com o filho para cuidar,

não sentia tanto a falta das suas idas lá; mas já era tempo de pensar no baptizado.
Foi, pois, com grande satisfação, que acompanhou o marido à casa paroquial.

Ambos acharam o padre encantador, educado, instruído, muito diferente do velho pároco que viera substituir.
Agradecendo a visita e o convite para os visitar brevemente e com eles jantar, o padre prometeu-lhes um lindo baptizado para o menino.

À noite, depois do jantar, de novo sozinha com Humberto, Anita perguntou:
- Já conheces o padre João?
- Sim, cruzei-me com ele, há dias. Achei-o simpático. Cumprimentou-me com uma ligeira vénia, e um sorridente “Bom dia!”.
- Eu e o teu pai fomos visitá-lo. Convidamo-lo para vir jantar connosco, para combinarmos o baptizado do Tiaguinho.
- Ainda bem! Se continuas a querer-me para padrinho, terás que te apressar.
- E porquê? Corro o risco de mudares de ideia? – perguntou Anita, sorrindo.
- Sabes que nada me poderá dar mais prazer do que ser padrinho do Tiago. Mas já recebi a resposta à minha inscrição na Universidade, em Inglaterra, e falta pouco tempo para as aulas começarem…-disse, com uma sombra de tristeza no olhar.
Anita pôs-se igualmente séria, os olhos brilhantes, uma lágrima prestes a rolar pela face.
- Tenho tentado não pensar nesse assunto, mas isso não impediu que a notícia chegasse… Sei que é egoísmo da minha parte falar assim…afinal trata-se do teu futuro. Eu também fiz o mesmo, fui estudar para fora e afinal para nada…
- Por que falas assim? Pelo menos criaste novos horizontes…
- Sim, e ilusões também. - lembrou-se momentaneamente de Arnaldo -
Mas, como vês, não me serviu para nada estudar. Nunca exerci a minha profissão.
- Pois não, mas porque te casaste logo que acabaste o curso; a seguir veio a gravidez, o Tiaguinho…tiveste compensações…

Anita ficou em silêncio. Aquela conversa trouxera à sua memória o amor que, embora adormecido, ainda continuava vivo dentro de si. Não esquecera Arnaldo, apenas pensava muito pouco nele.
Mas agora, o motivo do seu silêncio magoado era outro. Pensava na partida e na falta que lhe iria fazer Humberto, o enteado que acabara por se tornar no seu querido companheiro de todas as horas, boas e más…

Poucos dias depois realizou-se o jantar oferecido ao pároco, e Vicente nem reagiu quando ouviu Anita dizer:
- Humberto, espero que não tenhas nenhum compromisso para hoje à noite…Quero que estejas presente no jantar com o padre que irá baptizar o teu afilhado…
Humberto limitou-se a enviar-lhe um sorriso cúmplice, não lhe passando despercebido o ligeiro tom de autoridade e segurança que acompanhou as palavras de Anita.
De resto, já tinha notado que, ultimamente, ela se mostrava mais independente, manifestando claramente a sua vontade própria quando discutia com o marido.
Isto agradava-lhe sobremaneira, pois, sendo tão seu amigo, temia que a madrasta mergulhasse em grande desânimo quando ele tivesse que se ausentar.

Duas semanas depois do baptizado de Tiago, Humberto partiu para Inglaterra.

FIM DO EPISÓDIO XII


domingo, 22 de fevereiro de 2009

PASSEIO À NORUEGA

Há uns anos, precisamente em Julho de 2001, fui, com um grupo de amigos, dar um passeio à Noruega.
Vou partilhar convosco algumas das centenas de fotos tiradas durante as duas semanas que durou a viagem.
As imagens são apresentadas num tamanho não muito grande.
Para quem não sabe: pode aumentar o tamanho da imagem (e do texto) premindo o botão Ctrl, do teclado, ao mesmo tempo que gira, para a frente, a roda do centro do rato.
Espero que goste de me acompanhar neste emocionante passeio.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XI

(Ficção baseada em factos reais)
...
Imaginou quanto Humberto deveria ter sofrido com a rejeição do pai. E entendeu, então, porque Vicente não gostava que Humberto estivesse presente nos jantares que ofereciam em casa.

FIM DO.EPISÓDIO X

EPISÓDIO XI

Com um terno sorriso estendeu-lhe a mão, que ele segurou entre as suas, silenciosamente.
A partir dessa noite passou a haver uma grande cumplicidade entre ambos. Humberto foi o primeiro a sentir os “pontapés” do bebé, quando este começou a mexer-se.

Com o ventre cada vez maior, Anita começou a ter dificuldade em mover-se com a agilidade habitual, começando a espaçar as suas visitas à Igreja. Por outro lado, o velho pároco andava bastante adoentado, deslocando-se menos vezes a casa de Anita, para os lanchinhos que ele tanto apreciava.
Todos insistiam para que fosse ao médico, mas ele opunha-se, resmungando:
- Não estou doente, estou apenas um pouco cansado. Os anos pesam, mas a idade não é doença. Não preciso de nenhum médico.

O próprio clínico, no fundo, dava-lhe razão. Com os seus quase oitenta anos, tendo levado sempre uma vida sacrificada em prol dos mais desfavorecidos, não admirava que o seu organismo estivesse cansado e falho de forças.
Na verdade, nenhum remédio poderia alterar estes factos.

Um dia… deu-se o inevitável: o velho pároco entregou a alma ao Criador!
A cidade, em peso, lamentou a sua morte, e acompanhou-o à última morada.
Especialmente entre os mais pobres viam-se muitos rostos cobertos de copiosas lágrimas. Haviam perdido um grande amigo e protector.
Anita ficou inconsolável. Recriminava-se a si própria por não ter insistido mais para que o padre cuidasse da sua saúde.

Valeu-lhe, nessa hora terrivelmente difícil, a amizade de Humberto, que a rodeou de todo o carinho, confortando-a, preocupado com o seu estado de avançada gravidez.




Também Vicente se mostrou particularmente compreensivo e cuidadoso com o estado de Anita, lamentando a morte do pároco, por quem nutria uma amizade respeitosa.

Talvez a forte emoção tenha acelerado um pouco a hora de Anita dar à luz; contudo, a gravidez encontrava-se praticamente no seu término, e assim ela teve um parto perfeitamente normal, embora bastante demorado.

Dois dias passados no hospital e Anita regressou, feliz, a sua casa, ao lado do seu marido, trazendo nos braços um lindo e forte menino.
Nunca se sentira tão feliz na sua vida!
Aguardava-a Humberto, radiante e ansioso por pegar no colo o seu irmão.
A casa ressumava felicidade.

Vicente, contrariamente ao que vinha acontecendo nos últimos meses, compareceu aos jantares durante uma semana, todos os dias.
Mostrava-se atencioso com Anita, interessando-se pelo bebé: como tinha passado o dia, se tinha mamado bem, se não tinha chorado…

Humberto, embora tivesse preferido passar os serões sozinho com Anita, sentia-se feliz por ver que o pai parecia ter esquecido as noites de “esbórnia”, e acompanhava Anita, que se sentia ainda bastante fragilizada,
no momento em que ela mais precisava,
Mas tudo isto foi de curta duração, pois, pouco mais de uma semana depois do nascimento do bebé, Vicente retomou as suas saídas nocturnas, a princípio após o jantar, alegando encontros de negócios, e em breve indo mesmo jantar fora de casa.

Com o decorrer dos dias tudo voltou a ser como anteriormente.
Vicente regressava do trabalho, à tarde, dava um beijo distraído à mulher, lançava um rápido olhar ao bebé, mudava de roupa e saía, aparecendo apenas no dia seguinte de manhã.

Anita não se preocupava nada com o procedimento do marido, tratando-o, como sempre, com mal disfarçada indiferença. Aliás, até lhe agradava que assim fosse – seria uma garantia de que o marido não a procuraria para que cumprisse os seus deveres matrimoniais.

Dedicava-se ao seu filho, que crescia forte e saudável. Conversava com Humberto, após o jantar, ambos vigiando o sono do bebé.
A sua vida decorria calma, quase feliz. Apenas uma dor muito fina ainda acordava no seu peito sempre que se lembrava de Arnaldo. Mas rapidamente o afastava do pensamento:
- Não, ele não merecia ser pai do meu filho. Nada fez para me libertar do compromisso que assumiram em meu nome e me obrigaram a manter, contra minha vontade.

FIM DO EPISÓDIO XI

sábado, 14 de fevereiro de 2009

ANIVERSÁRIO

HOJE, 14 DE FEVEREIRO DE 2008



DIA DE S. VALENTIM E DOS NAMORADOS
ABRE-SE A PORTA DA CASA DA MARIQUINHAS



Há, exactamente um ano, foi assim.
Mas no espaço de 366 dias (foi ano bissexto) aprende-se muita coisa!
Por isso vos digo que:



Daqui para a frente tudo vai ser diferente!

Vou deixar de cumprir horários, calendários, aniversários – estes, sobretudo – e fazer apenas O QUE ME VIER À REAL GANA .

À tarde sento-me no MIRADOURO , donde posso observar, ao longe, o meu amigo João conduzindo as suas cabras, lá pelos Montes Hermínios.

De súbito aparece uma AVE SEM ASAS !

Pobrezinha! Como vem cansada! Fez um esforço enorme para vir trazer-me notícias da minha amiga Ana.
Vou dar-lhe um pouco de água e uns grãozinhos especiais, dos que guardo para os passarinhos que, ao CREPÚSCULO , gostam de vir debicar as ROMÃS
do meu jardim.
Não posso esquecer-me de avisar a minha amiga Paula para vir buscá-las. Já estão maduras, e se não as apanha, podem estragar-se, o que seria uma pena, pois delas não restariam MEMÓRIAS !

Um dia por outro passarei na OFICINA .
Dá gosto ver como o Victor a mantém sempre tão bem arrumada, tão limpa, e enfeitada com maravilhosas flores. Passa-se lá um bom bocado.

Um outro programa interessante é combinar com a GI irmos até ao LISBOA CAFÉ , dar dois dedos de conversa com o Daniel, e, no regresso, passar na casa da Dani e ouvir os seus eternos DESABAFOS .
O que havemos de fazer? A pequena tem os seus problemas, precisa desabafar, e os amigos servem para quê? Exactamente para ouvir, oferecer o ombro, dar carinho…essas coisas. Amigo é assim mesmo.
Ela é um pouco RECALCITRANTE …mas se eu lhe acenar com o ELDORADO , fica logo bem disposta.

À tardinha tenho que ir sair com o cachorro. Não me posso esquecer de o incluir nestas minhas intenções.
O RAFEIRO precisa de ir à rua, não só por causa das suas necessidades fisiológicas, mas também para fazer um pouco de exercício.
Ele tem vindo a engordar de dia para dia; se não me acautelo em breve estará obeso! Precisa mesmo de dar umas corridinhas.
Como aconteceu no outro dia – fartei-me de rir, mas o caso não era para risota, pelo contrário.

Porque será que só nos rimos do mal? (quando o mal não é de monta, claro!).












Foi assim: fomos passear, o cachorro e eu. Lembrei-me de ir lá para os lados da casa do Zé, que também tem um cão – penso que é por isso que lhe chamam ZÉ DO CÃO .
(Também há o ZÉ CARLOS , mas esse mora noutro lugar, até noutro país!)

Como ele, o Zé do Cão, tem quintal com jardim, e flores, tem abelhas…
Quando íamos a passar em frente ao jardim, o cachorro lembrou-se de ir meter o nariz no meio das grades da cerca.
Atraída não sei por quê, veio de lá uma abelha e espetou-lhe uma FERROADA na ponta do nariz.

O cachorro deu um grande salto, e, a ganir, fugiu em grande velocidade.
Sei que foi maldade minha mas não pude deixar de rir. É para ver se ele aprende a não meter o nariz onde não é chamado.

Nos meus passeios verei o MUNDO AZUL para além do horizonte, onde a montanha DESNUDA se destaca por entre nuvens, enquanto, bem perto de mim, brilham as LUZES DA CIDADE .

Com estas perspectivas terei, com certeza, tempo para visitar o CANTINHO , que descobri lá ao fundo do jardim, onde uma menina de cabelos loiros, de nome JADY , me sorri timidamente, e apontando o dedito, diz: um INSÉTE !. Docemente, eu corrijo-a: diz-se insecto, meu amor.

Acho imensa graça às crianças que, quando começam a falar, são muito trapalhonas. São muito mais engraçadas do que quando falam logo tudo direitinho, não acham?

Continuarei o passeio pelo jardim, aspirando o IN SENSO das flores; seguirei PELOS CAMINHOS até que surja o RENASCER DA FÉNIX .

Deixarei para SEXTA-FEIRA a visita à SÃO .
O tempo não promete grande coisa…é capaz de chover. Se assim for, terei que chamar um táxi. Com sorte, o taxista ainda me oferece um PRATINHO DE COURATOS .
O que não posso é deixar de ir lá dizer-lhe: eu SEI QUE EXISTES , é claro, mas não posso deixar a minha casa e andar sempre a correr para aqui! Até parecia mal uma coisa dessas! O que as pessoas não diriam! Nem é bom pensar nisso!

Não te esqueças que também tenho que visitar a minha amiga, SÓNIA , e o meu amigo OLIVER .

E, sendo o MUNDO COLORIDO , não haverá razão para não sermos felizes.

Dos meus restantes planos não vou dar-vos conta. Não se pode dizer tudo, não é assim? Há que guardar algum mistério…dá um certo charme… vocês não acham?

Mas, para já, vou oferecer-vos um pedacinho de bolo, extensivo a todos os meus visitantes e comentadores.
Sem o vosso apoio, as vossas visitas, o vosso carinho…este blog, que hoje comemora UM ANO, não teria chegado até aqui, pois não teria pernas para andar.

Para todos um grande OBRIGADA! Amo vocês todos!

Sirvam-se!


Vou oferecer um presentinho a toda(o)s essa(e)s amigos que se encontram aí em baixo, e também a quem o desejar.

O presentinho é…






And the winners are…

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO X

(Ficção baseada em factos reais)

Passar nove meses em banho-maria até lhe podia subir alguma coisa à cabeça e fazer-lhe mal.
E lá se iam os excelentes negócios que ele faz…e que tanto jeito me dão!

FIM DO.EPISÓDIO IX
EPISÓDIO X

- Pois, eu sei, os negócios é que te preocupam. Sempre foi assim e sempre assim será. Não pensas na nossa filha, como ela se vai sentir quando souber. Sim, porque não penses que não lhe vão contar tudo…
-Ó mulher, tu parece que não regulas bem da cabeça! Não penso na nossa filha? Então e o dinheiro que eu ganho nos negócios vai para quem, quando nós morrermos? Não vai para ela? Olha que tu!...
- A nossa filha não precisa do nosso dinheiro para nada. O marido é muitas vezes mais rico do que nós!
-Nisso tens razão, ele é muito mais rico do que nós. Mas não te esqueças que tem filhos, que também vão herdar, um dia que ele morra. E a nossa filha não tem irmãos para dividir a herança…
- Está certo, nisso tens tu razão. Mas ainda assim tenho pena da nossa filha…
- Deixa-te disso. Quem tem penas são as galinhas. Trata mas é do enxoval do nosso netinho, e deixa o resto com os homens, que é assunto de machos.
E agora vamos mas é dormir, que já é tarde, e amanhã é dia de trabalho.

Deram as boas-noites e adormeceram.

Indiferente a todos os comentários e mexericos, Anita vivia em pleno a sua gravidez, contemplando o ventre a avolumar-se, sentindo crescer igualmente o amor pelo filho que esperava.

Humberto observava-a em silêncio, maravilhado com a luz que irradiava de Anita.

Por vezes ela surpreendia-o examinando-a, e sentia-se incomodada. Parecia-lhe notar no enteado mais do que simples admiração, e receava que isso viesse a provocar constrangimento entra ambos. Acabara por se afeiçoar a Humberto, e apreciava bastante a sua companhia às refeições, sem a qual estaria sozinha a maior parte das vezes.

Reparou que Humberto mostrava um semblante aborrecido sempre que o pai gaguejava qualquer desculpa para justificar as suas saídas nocturnas; nessas ocasiões esboçava sempre um sorriso, olhando para Humberto, pensando assim fazê-lo desenrugar a testa.

Um dia em que estavam conversando amenamente depois do jantar, sentiu como que um estreitar da amizade entre ambos, e teve a certeza de que o enteado sentia por ela um amor muito grande, mas completamente despido de ilusões.

Ambos se sentiam muito próximos. Foi quando Humberto falou:
- Anita, posso abrir-te o meu coração? E sem esperar resposta, acrescentou:
Tenho te observado desde que vieste para esta casa. Ao princípio a ideia não me agradou nada. Tens que compreender, nesta casa eu vivi com a minha mãe, e tu representavas uma intrusa que vinha ocupar o seu lugar. Mas depressa me apercebi de que estava errado.
Tu não eras uma intrusa, nem nesta casa nem no coração do meu pai. Percebi que tu não o amavas. Senti como se estivesses de passagem, como se fosses apenas uma visita.
E a partir daí comecei a sentir por ti uma admiração muito grande e um amor muito puro.
Sabes, o meu relacionamento com o meu pai nunca foi muito bom. Agora eu posso contar-te tudo.
Quando a minha mãe era viva ele já tinha outras mulheres. Eu sabia, mas fazia tudo para que a minha mãe não descobrisse. O meu pai sentia-se como se estivesse nas minhas mãos, por isso começou a detestar-me. Sempre me deu todo o dinheiro que eu lhe pedia, mas eu não lhe pedia muito, apenas o necessário para jantar com os amigos e uma ou outra ida ao cinema. Era uma forma de me manter afastado.
Anita ouvia-o em silêncio, admirada com estas revelações, sentindo crescer dentro de si um sentimento misto de amizade e compreensão para com a dor sofrida em silêncio e por tanto tempo recalcada.

Agora que ia ser mãe tinha como que um sexto sentido para os sentimentos que até aí eram instintivos, tão naturais como respirar, sem qualquer significado especial – o amor filial e materno-paternal.
Imaginou quanto Humberto deveria ter sofrido com a rejeição do pai. E entendeu, então, porque Vicente não gostava que Humberto estivesse presente nos jantares que ofereciam em casa.

FIM DO EPISÓDIO X

domingo, 8 de fevereiro de 2009

MUSEU DA FAMÍLIA

Alexa Guerra

Alexa Guerra, escritora e palestrante, graduada em Pedagogia e Teologia, diz de si própria:
Sou esposa e mãe. Tenho-me dedicado, há mais de 10 anos, à compreensão da educação e das relações familiares.

É de sua autoria o texto que hoje vos apresento.

MUSEU DA FAMÍLIA

Bem vindo ao museu da família!

Aqui você irá ver e saber acerca deste grupo que está à beira da extinção.

Em meados do século XXI foram vistas as últimas famílias compostas por PAI, MAE E FILHOS.

Um pouco antes desse período, quase não se via uma mãe ou um pai em casa cuidando dos filhos, do lar e da família. Eles foram trabalhar fora.

Já no século XIX, era costume o pai ser recebido pelos filhos em casa, após um dia de trabalho. Ele era o provedor do LAR.

Naquela época as crianças tinham um pai que morava com elas.
Este pai convivia com os filhos e passeava com eles nos fins-de-semana.

Nas apresentações da escola os filhos procuravam o olhar de seus maiores fãs: seus pais. E o aplauso deles era a garantia da felicidade!

Quando os filhos precisavam de colo tinham um de seus pais por perto para carregá-los à hora que quisessem.

No dia das mães se reuniam na casa da avó e a cama se enchia de presentes dos filhos, dos netos…

Era difícil esperar até o segundo domingo de agosto para entregar ao papai o presente feito pelos próprios filhos: A camisa com sua mãozinha, o quadro pintado, o cartão com moldura de gravata...

A melhor comida era a da mamãe.
Era o papai quem ganhava no jogo de dama ou de bola.

Quantas brincadeiras correndo, soltas, com os irmãos e primos!
Esconde-esconde, casinha, queimada…

Os brinquedos espalhados pela casa...
Os risos, os choros.. Fartura de “vida”.
Casa cheia não só de gente, mas de amor e contentamento.


Nas famílias havia coisas que não cabem neste museu: abraços, beijos, alegrias, choros, risos, personalidades, cachorros, papagaios…

Os JARDINS!
Eles não poderiam faltar neste museu!

As casas tinham jardins.
Deles as avós retiravam plantas para enfeitar ou para fazer chazinhos caseiros para os filhos e netos.

Férias também se passavam em família.
Na roça, na praia ou na casa dos parentes: estavam todos num feliz ajuntamento.
Para eles estar em família era o que fazia a vida valer a pena!
Como foi o fim das famílias?
... Bem, é uma longa história…
Mas, lembre-se que, se você os deixar ir, talvez nunca mais os terá de volta.
Às vezes, nos ocupamos tanto com nossas próprias vidas, que não notamos que os deixamos ir …
Outras vezes nos preocupamos tanto com QUEM está certo ou errado, que nos esquecemos do que é CERTO e do que é ERRADO.
Foi assim que as famílias começaram a desaparecer…
Mas hoje temos este museu para visitá-las.

Certa vez alguém falou sobre um ciclo de morte que estava se instalando nas famílias. E leu na Bíblia como seria a cura:

 SALMOS 128.1-6:
"Feliz aquele que teme a Deus, o SENHOR, e vive de acordo com a sua vontade!”

Mas parece que não deram atenção suficiente... E as famílias foram se extinguindo...


Nossa visita ao museu termina aqui, com o livro que falou sobre estes acontecimentos.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO IX

(Ficção baseada em factos reais)

Foi nesse preciso momento que começou a amar o pequenino ser que trazia no ventre.

FIM DO.EPISÓDIO VIII

EPISÓDIO IX

Alguns dias passados começaram as indisposições próprias da gravidez – enjoos, tonturas, sono…

Todas as manhãs, quando ia para a sala tomar o pequeno-almoço, invariavelmente levantava-se precipitadamente para ir vomitar à casa de banho, donde saía também a correr porque enjoara terrivelmente a água-de-colónia que Vicente usava no dia-a-dia.
O marido trocou de perfume várias vezes, mas de nada valeu a mudança: Anita enjoava-os todos.
Vicente desistiu, embora relutante, de usar água-de-colónia, hábito que adquirira quando jovem.
Anita passou a enjoar…o cheiro do marido!

As amigas diziam-lhe que isso era normal, muitas mulheres passavam por isso, mas depois que os bebés nasciam, esse enjoo desaparecia.
Vicente sentiu um certo consolo ao ouvir isto, e acabou por aceitar, resignado, dormir num quarto separado, para não prejudicar o descanso da sua mulher e, consequentemente, do seu próprio filho.

Quatro ou cinco meses depois as indisposições desapareceram, mas Anita fingiu que ainda não se sentia muito bem. Dessa forma conseguiu que Vicente continuasse a dormir no outro quarto, evitando, assim, qualquer contacto mais íntimo com o marido.

Vicente, ao princípio, mostrava-se desgostoso com o afastamento da mulher, embora aceitasse, conformado, as imposições, em forma de pedido, que lhe eram feitas.

Em breve começou a jantar fora, alegando que Anita precisava alimentar-se bem, o que, com a sua presença, não acontecia, já que, além do enjoo normal, também o cheiro dele mesmo a obrigava a interromper a refeição para ir vomitar.

Começou a vir para casa cada vez mais tarde. “Já que tinha que jantar fora, aproveitava e tratava de negócios”, que se iam prolongando a cada noite que passava.
Antes de terminar a gravidez, algumas vezes chegou ao ponto de passar a noite toda fora de casa.
Sem se dar ao trabalho de uma justificação, logo que chegava a casa , de manhã, dirigia-se para a casa de banho. Aparecia depois, lavado e vestido com outra roupa, deixando atrás de si um rasto de perfume barato de mulher.

Anita fingia não perceber; simulava, até, acreditar nas desculpas de Vicente, quando ele as dava. Na realidade sentia-se aliviada por não ter que suportar a presença do marido.

Queria viver em pleno, mas a sós, para melhor a apreciar, a sua gravidez.



Como seria de prever, o comportamento de Vicente acabou por se tornar notado; primeiro nos restaurantes, onde ia todas as noites, e depois em lugares menos respeitáveis, em companhias ainda menos respeitáveis.

Em terras pequenas como aquela cidade tudo se sabia, e as notícias corriam céleres.
Não faltaram pessoas bem intencionadas querendo insinuar, junto de Anita, o que estava acontecendo.
Mas ela, que se tornara hábil na arte do fingimento, aparentava um ar tão inocente e confiante, que ninguém se atreveu, nunca, a falar claramente.

Até mesmo a amiga mais íntima apenas se limitou a abordar o assunto, insinuando que “as pessoas” podiam começar a murmurar acerca das noites em que Vicente era visto fora de casa…

À amiga Anita respondeu:
- As pessoas arranjam sempre pretextos para comentar…Vicente é um homem novo, cheio de energia, faz bem em divertir-se. Eu, neste estado, não posso acompanhá-lo. Portanto, acho muito bem que ele não passe as noites enfiado em casa, como uma velha!

Com os pais de Anita, os informadores, “sempre por bem e com a melhor das intenções”, não estiveram com rodeios e forneceram todos os pormenores.

Mais tarde, conversando com Eulália, Justino comentou:

- Não se pode dizer que o nosso genro ande a proceder muito bem. Mas a verdade é que, com a nossa filha naquele estado…que diabo, um homem não é de pau!
Passar nove meses em banho-maria até lhe podia subir alguma coisa à cabeça e fazer-lhe mal.
E lá se iam os excelentes negócios que ele faz…e que tanto jeito me dão!

FIM DO EPISÓDIO IX

domingo, 1 de fevereiro de 2009

OFICIALMENTE VELHO

Leonardo Boff



Em 09/11/2008 publiquei, RESSONÂNCIA ACHUMANN , de Leonardo Boff, um texto que considerei muito interessante.

Hoje vou partilhar convosco, do mesmo autor, “Oficialmente Velho”, que recebi por email, em forma de PPS.

Espero que seja do vosso agrado.

Oficialmente Velho

Neste mês de dezembro completo 70 anos.
Pelas condições brasileiras, me torno oficialmente velho.
Isso não significa que estou próximo da morte, porque esta pode ocorrer já no primeiro momento da vida. Mas é uma outra etapa da vida, a derradeira. Esta possui uma dimensão biológica, pois irrefreavelmente o capital vital se esgota, nos debilitamos, perdemos o vigor dos sentidos e nos despedimos lentamente de todas as coisas.

De fato, ficamos mais esquecidos, quem sabe, impacientes e sensíveis a gestos de bondade que nos levam facilmente às lágrimas.
Mas há um outro lado, mais instigante.
A velhice é a última etapa do crescimento humano.
Nós nascemos inteiros. Mas nunca estamos prontos. Temos que completar nosso nascimento ao construir a existência, ao abrir caminhos, ao superar dificuldades e ao moldar o nosso destino. Estamos sempre em gênese.

Começamos a nascer, vamos nascendo em prestações ao longo da vida até acabar de nascer. Então entramos no silêncio. E morremos.

A velhice é a última chance que a vida nos oferece para acabar de crescer, madurar e finalmente terminar de nascer.
Neste contexto, é iluminadora a palavra de São Paulo: ”na medida em que definha o homem exterior, nesta mesma medida rejuvenece o homem interior”(2Cor 4,16).
A velhice é uma exigência do homem interior.
Que é o homem interior? É o nosso eu profundo, o nosso modo singular de ser e de agir, a nossa marca registrada, a nossa identidade mais radical.
Esta identidade devemos encará-la face a face.
Ela é pessoalíssima e se esconde atrás de muitas máscaras que a vida nos impõe. Pois a vida é um teatro no qual desempenhamos muitos papéis.
Eu, por exemplo, fui franciscano, padre, agora leigo, teólogo, filósofo, professor, conferencista, escritor, editor, redator de algumas revistas, inquirido pelas autoridades doutrinais do Vaticano, submetido ao “silêncio obsequioso” e outros papéis mais.
Mas há um momento em que tudo isso é relativizado e vira pura palha.

Então deixamos o palco, tiramos as máscaras e nos perguntamos:
- Afinal, quem sou eu?
- Que sonhos me movem?
- Que anjos que habitam?
- Que demônios me atormentam?
- Qual é o meu lugar no desígnio do Mistério?

Na medida em que tentamos, com temor e tremor, responder a estas indagações, vem a lume o homem interior. A resposta nunca é conclusiva; perde-se para dentro do Inefável.
Este é o desafio para a etapa da velhice.
Então nos damos conta de que precisaríamos muitos anos de velhice para encontrar a palavra essencial que nos defina.
Surpresos, descobrimos que não vivemos porque simplesmente não morremos, mas vivemos para pensar, meditar, rasgar novos horizontes e criar sentidos de vida.
Especialmente para tentar fazer uma síntese final, integrando as sombras, realimentando os sonhos que nos sustentaram por toda uma vida, reconciliando-nos com os fracassos e buscando sabedoria.
É ilusão pensar que esta vem com a velhice. Ela vem do espírito com o qual vivenciamos a velhice como a etapa final do crescimento e de nosso verdadeiro Natal.
Por fim, importa preparar o grande Encontro.
A vida não é estruturada para terminar na morte mas para se transfigurar através da morte.
Morremos para viver mais e melhor, para mergulhar na eternidade e encontrar a Última Realidade, feita de amor e de misericórdia.
Ai saberemos finalmente quem somos e qual é o nosso verdadeiro nome.

Nutro o mesmo sentimento que o sábio do Antigo Testamento: ”contemplo os dias passados e tenho os olhos voltados para a eternidade”.
Por fim, alimento dois sonhos, sonhos de um jovem ancião:
- o primeiro é escrever um livro só para Deus, se possível com o próprio sangue;
- e o segundo, impossível, mas bem expresso por Herzer, menina de rua e poetisa:”eu só queria nascer de novo, para me ensinar a viver”.
Mas como isso é irrealizável, só me resta aprender na escola de Deus. Parafraseando Camões, completo:
- mais vivera se não fora, para tão longo ideal, tão curta a vida.


Leonardo Boff
(Teólogo brasileiro)
14/12/1938, Concórdia (SC)

Neto de italianos que migraram para o sul do Brasil no final do século 19, Leonardo Boff, garoto ainda, com 11 anos, partiu de sua cidade natal, Concórdia, com destino ao seminário de Luzerna, no Vale do Rio do Peixe (SC), certo de que o seu futuro era o da fé. Fez estudos avançados em universidades de prestígio, como Wurzurburg, Lovaina e Oxford, doutorando-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique, Alemanha, em 1970. Ficou conhecido pelos seus trabalhos sobre a Teoria da Libertação
Seus textos serviram de base para novas gerações de teólogos latino-americanos. Mas ao combinar a Bíblia com a política, desagradou às autoridades eclesiásticas. Em 1984, como punição pelo livro Igreja, Carisma e Poder (1981), no qual chega a criticar a própria estrutura da Igreja, foi chamado a dar explicações ao Vaticano, sendo condenado a um "silêncio obsequioso" por um ano, sendo proibido de se manifestar publicamente
Em 1992, ao ser condenado novamente, o teólogo, resolveu pedir dispensa do sacerdócio.
Atualmente, além de um grande teórico da fé, destaca-se como um idealista: cria e assessora Comunidades Eclesiais de Base, para as quais prega a luta por uma sociedade mais justa e humana, na qual os pobres não devem simplesmente aceitar a condição de miséria como algo natural, mas agir em favor da justiça social. Professor emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, publicou mais de 70 livros.