quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO VIII

(Ficção baseada em factos reais)

Não podia esquecer que o filho de Vicente era praticamente da sua idade (dois anos mais velho do que ela) e tinha muito boa aparência, além de ser educado e bom conversador.

FIM DO.EPISÓDIO VII

EPISÓDIO VIII

Depois de ter feito os seus estudos na capital, Humberto aperfeiçoava agora os seus conhecimentos com explicadores, tendo em vista ir frequentar uma universidade na Inglaterra. Por isso passava grande parte do tempo em casa, o que implicava frequentes encontros com a madrasta, que ele, por graça mas em tom carinhoso, tratava às vezes por “mãezinha”.

Anita não mais voltara a perguntar a Vicente em que pé estava a casa para Humberto. Prometera a si mesma nunca mais tocar no assunto, e aguardar o tempo que fosse necessário até que o marido lhe desse a novidade de que a casa estava pronta.
Mas a cada dia que passava sem que Vicente mencionasse tal coisa, Anita sentia aumentar a decepção em relação ao marido, ao mesmo tempo que arrefecia a pouca afeição que chegara a sentir por ele.

De acordo com os princípios religiosos católicos com que fora educada, Anita continuava a frequentar a Igreja, mantendo o seu relacionamento de amizade com o velho pároco que a baptizara e lhe ministrara todos os outros sacramentos, e com quem conversava longamente.

Vicente não a acompanhava. Concordara em fazer o casamento católico, mas a tanto se resumia a sua ligação à Igreja.
Contudo, agradava-lhe bastante que Anita a frequentasse.
Contribuía com doações de certo vulto para as obras de caridade, mostrando-se receptivo todas as vezes que Anita sugeria convidar o pároco para almoçar ou jantar. Assim, o velho padre tornou-se frequentador assíduo da casa.

Conhecendo-a desde que nascera, o pároco cedo se apercebeu de que Anita não era feliz.
Tentava, disfarçadamente, e torneando o assunto, aflorar os aspectos de que, por vezes, se reveste o casamento.
Anita fingia não perceber, não se atrevendo a confessar-lhe que não era feliz, que nunca amara o marido, e que amava outro homem que jamais esqueceria – Arnaldo.

A amizade entre Anita e o velho pároco era tal que não é de estranhar que tenha sido ele, precisamente, a ouvir, pela primeira vez, Anita pronunciar:
- Padre, estou grávida!
Uma alegria enorme inundou a alma do velho e santo homem.
E só quando se preparava para dar um abraço à sua grande amiga, é que reparou no seu ar desesperado, e nos olhos marejados de lágrimas.

- Mas o que é isso, minha filha? Dás-me uma notícia tão maravilhosa com um ar tão infeliz? E com lágrimas? O que é que se passa?
- Padre, eu não queria um filho. (Não de Vicente…- acrescentou, em pensamento)
- Não digas uma coisa dessas! Nem sequer deves pensar, quanto mais dizer!
Um filho é uma dádiva de Deus.
Nem todas as mulheres recebem a graça de poder ter um filho.
Só tens é que agradecer a Deus por ter-te concedido uma bênção que não tem igual.
Lembra-te sempre disto, minha querida filha, e começa a amar o teu filho desde já.

As sensatas palavras do padre calaram fundo em Anita.
“Sim, um filho é uma bênção de Deus. Não posso esquecer-me disso. Fui muito injusta ao sentir-me triste. Pobre bebé, que não vai ter o pai que eu gostaria de lhe dar” – pensou Anita, recompondo-se.

Foi depois a vez de comunicar aos pais e demais familiares e amigas o seu estado “interessante”.
Todos manifestaram o seu contentamento. A mãe exultou de alegria.
Abraçando efusivamente a filha, já fazia mil e um projectos para o enxoval, o quarto do bebé, a escola que iria frequentar…

Anita conseguiu refrear-lhe um pouco o entusiasmo, lembrando:
-Mãe, faltam mais de sete meses para o meu filho nascer! - e nessa altura apercebeu-se de que sentira orgulho ao pronunciar “meu filho”.
Foi nesse preciso momento que começou a amar o pequenino ser que trazia no ventre.

FIM DO EPISÓDIO VIII

domingo, 25 de janeiro de 2009

PALAVRA E PALAVRÃO

Longe vai o tempo em que palavrão era uma palavra feia, usada apenas por pessoas de condição social mais baixa, as quais não haviam recebido uma educação muito esmerada.
Usava-se, também, em círculos muito fechados, essencialmente masculinos, onde ouvidos femininos não tinham acesso.

No dicionário podíamos encontrar, como significado de palavrão:
- Palavra muito grande
- Obscenidade

Presentemente os dicionários apresentam exactamente a mesma coisa.

É sobre a palavra, com o sentido de “obscenidade”, que me ocorre tecer alguns comentários.

Hoje em dia, anedota, para ter graça, tem que incluir um ou mais palavrões. De contrário está condenada ao fracasso.

Lembro-me dos tempos em que nos reuníamos na casa de um e de outro, e passávamos o serão conversando e contando anedotas que nos provocavam alegres gargalhadas.
Havia, entre nós, um jovem com um jeito especial para o fazer. Era o rei da festa.

Recordo-me, por exemplo, da anedota do menino Pedrinho que, na procissão do Senhor dos Passos, seguia atrás do andor, tocando o seu violino.
O menino Pedrinho tocava muito mal, coitado.
Toda a gente ia farta de ouvir aqueles sons, que feriam os ouvidos e arrepiavam os cabelos!
Era tão grande o incómodo que o próprio Jesus Cristo, arrastando a Sua cruz, saturado com aquela sanfona, lá do alto do andor voltou-se para o menino e disse:
- Ó Pedrinho, e se tu fosses tocar violino para o raio que te parta?!!!

Gargalhada geral.

Hoje, na mesma cena, Jesus Cristo teria dito, no mínimo:
- Ó Pedrinho, e se tu fosses tocar violino para a p. q. t. p?

E só assim a anedota teria alguma graça.

É certo que os tempos mudam, tudo evolui, incluindo a linguagem.
Nos anos 60 havia 300.000 vocábulos na língua portuguesa; presentemente existem mais de 900.000.
Ainda não consegui ler o dicionário todo... Não sei, portanto, se os palavrões estão incluídos nesse número…
Sei é que se caiu num grande exagero do seu uso (e abuso). E penso que “não havia necessidade”…

Há dias ouvi, à porta duma escola, uma garota que aparentava doze ou treze anos, a falar com uma colega que deveria ter a mesma idade.
Em dez palavras que pronunciou, nove eram palavrões, daqueles de “fazer corar um carroceiro”, como antigamente se dizia.

É chocante ouvir estas coisas da boca duma criança.

As crianças aprendem imitando os adultos.
Ainda que, em casa, não sejam usado esse tipo de linguagem, os jovens ouvem-na na escola, na rua, em toda a parte.

Quanto ao que se passa na rua…não há como evitar. Não seria nada prático pôr tampões nos ouvidos das crianças para as proteger.

Nas escolas…os professores nada podem fazer. Estão manietados de pés e mãos.
Se algum se lembra de repreender um aluno cai-lhe em cima o representante da Associação de Pais, e sujeita-se a um processo disciplinar.
As adoráveis criancinhas são intocáveis!

O nosso raio de acção fica, assim, reduzido à nossa casa.
Seguindo o ditado que diz – «casa de pais, escola de filhos» – é aí que a nossa actuação pode e deve ser eficaz.
Não usar palavrões, especialmente em frente das crianças, e repreendê-las quando os pronunciarem, fazendo-as entender que a nossa língua é tão rica que pode perfeitamente dispensá-los.

Talvez assim consigamos contribuir para que a língua portuguesa deixe de ser tão maltratada, e volte a ser tão bela como sempre foi.

Para a malbaratar bem basta o acordo ortográfico que já entrou em vigor, mas que me recuso terminantemente a seguir.
Eu até assinei uma petição para que ele não fosse aprovado…

Também no Brasil o acordo ortográfico não foi muito bem recebido, especialmente nos meios intelectuais.
Veja um parecer, a esse respeito, do poeta/crítico/cronista Edmar Melo.

NOVA REFORMA ORTOGRÁFICA

Não se usa mais acento
No "pára", verbo parar
Pois "para" preposição
Não vai mais lhe atrapalhar
Tudo agora virou "para"
Do jeito que a gente fala
Sem se diferenciar

As palavras terminadas
Em hiato, como "enjôo"
Não vão mais ter circunflexo
Não se acentua mais "vôo".
Agora voo atrasado
Não é mais acentuado
Nem que você sinta enjoo

Não tem mais acento agudo
Quando se escreve "feiúra".
Passaram quinhentos anos
Pra fazer essa frescura.
E o português lusitano
Só descobriu este ano
Que esse mal não tem cura.

O País tá precisando
É de reforma agrária
É de reforma política
De reforma tributária
Mexer na ortografia
Por causa da geografia
Não é coisa prioritária

Pensei cá com meus botões:
A reforma é malandragem
Tem interesses ocultos
Alguém levando vantagem
Esse tira e põe acento
É um negócio nojento
Tá virando sacanagem.

Edmar Melo

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO VII

(Ficção baseada em factos reais)

Com um ar ligeiramente surpreso, Humberto respondeu:
- Falaste nisso ao meu pai? E rapidamente acrescentou – preciso ver…já
tinha combinado com os meus amigos…

FIM DO.EPISÓDIO VI

EPISÓDIO VII

Ao reparar no ar decepcionado de Anita, pôs-lhe uma mão no ombro, dizendo:
-Não fiques triste, “mãezinha”. Eu vou desmarcar com os meus amigos, e estarei presente no teu jantar. Mas não te esqueças de avisar o meu pai, por favor. Sabes que ele não gosta nada de surpresas…
Embora estranhando a recomendação do enteado, Anita depressa esqueceu o assunto, de tal modo se sentia alegre e até certo ponto feliz, como há bastante tempo não se sentia.
A perspectiva de rever as amigas e com elas passar algumas horas era-lhe muito agradável.

A tarde passou rapidamente nos preparativos para o jantar, enfeitar a mesa e vigiar a cozinha, dando um retoque aqui e acolá.
Por fim foi tratar da sua toilette, pondo-se bonita para receber as amigas.
A sua boa disposição era tão grande que, quando o marido chegou, o acolheu com um largo sorriso, o que raramente acontecia.

De facto, desde o dia em que Anita ficou noiva de Vicente, não mais se lhe viu um sorriso aberto no rosto.
Vicente notou, com agrado, a alegria de sua mulher, quando a encontrou no quarto perfumando-se com água-de-colónia.

Galantemente ofereceu-lhe o braço, conduzindo-a à sala, onde já se encontrava Humberto, elegantemente vestido para o evento.
Ao vê-lo, Vicente franziu o sobrolho, indagando:
- Onde vais, vestido dessa maneira?
- A lado nenhum. Apenas vou jantar aqui em casa, e penso que a minha querida madrasta gostará de me ver assim vestido para receber as suas amigas…
- O quê? Tu vais jantar em casa? Não tinhas já combinado jantar com os teus amigos? – perguntou Vicente, num tom ligeiramente ríspido, que tentou disfarçar, mas não passou despercebido a Anita.
- Tinha, sim, mas desmarquei, a pedido da tua mulher. E, dirigindo-se à madrasta:
- Anita, esqueceste-te de avisar o meu pai de que me tinhas convidado para vos fazer companhia…
- De facto não me lembrei. Mas não pensei que isso fosse importante…Também não avisei o teu pai de quais as amigas que ia convidar, e ele não se mostrou interessado em sabê-lo…pelo menos não me perguntou.
Voltando-se para o marido, indagou:
- Há algum problema em que o Humberto jante connosco?
Rapidamente, Vicente disfarçou o mau humor, compôs um belo sorriso, e sossegou Anita, assegurando-lhe:
- Não, claro que não, apenas fui apanhado de surpresa. Sabes que não gosto de surpresas…

O jantar decorreu alegremente. Anita parecia ter recuperado o gosto pela vida. À despedida ela e as amigas combinaram encontrar-se mais vezes.

Os dias foram passando, Anita governando a sua casa, Vicente tratando dos seus negócios, e Humberto permanecendo na casa.
Apesar de simpatizar com o enteado, que era atencioso e respeitador, Anita não se sentia à vontade na sua própria casa, tendo que conviver diariamente com ele.

Quando vivia em casa de seus pais, ao levantar-se, costumava pôr um robe sobre a camisa de noite, para ir tomar o pequeno-almoço, e só mais tarde ia tomar banho e vestir-se.
Depois que casara e viera para a sua casa na cidade, após a lua-de-mel, nos primeiros dias procedera do mesmo modo.
Porém, em breve alterou os seus hábitos, ao verificar que, sempre que entrava na sala para tomar o pequeno-almoço, Humberto já lá se encontrava, aguardando-a para lhe fazer companhia à refeição.

Com o passar dos dias, e não havendo alteração nesta situação, Anita sentia aumentar em si o desconforto.
Não podia esquecer que o filho de Vicente era praticamente da sua idade (dois anos mais velho do que ela) e tinha muito boa aparência, além de ser educado e bom conversador.

FIM DO.EPISÓDIO VII

domingo, 18 de janeiro de 2009

POESIA EM TEMPO DE GUERRA

Costumo dizer que cada um deve lutar com as armas de que dispõe.
Quem faz das letras ofício é delas que deve servir-se para defender os seus ideais, e expressar a sua revolta sempre que ocorram factos contrários aos seus sentimentos.

Tenho recebido, através de amigos ou directamente dos próprios autores, muitos poemas repudiando a actual guerra que se vive no Médio Oriente.

De entre vários escolhi, para partilhar convosco, dois poemas de dois poetas brasileiros.
O primeiro, do poeta J.J.Oliveira Gonçalves, que assina como JJotaPoeta.


A Guerra!

A guerra dói... destrói... avilta... mata!
E ao próprio Deus inflige Sofrimento!
No coração da mãe: luto, lamento!
Que à Alma materna acerba Dor maltrata!

A guerra afia as garras... e sua boca
Escancara e devora a Humanidade!
Nódoa, crime, ambição, calamidade!
Mata Amores e Sonhos – fera e louca!

E vai, segue o bicho-homem – deletério
Edificando o Caos dentre os destroços:
Rega fantasmas a sangue! Colhe ossos!

Vertiginoso o mundo – fria Babel
Caminha para o Nada! E em seu papel
A guerra faz da Terra cemitério!

JJotaPoeta


O segundo poema é do meu grande amigo Humberto Rodrigues Neto, que assina como Humberto-Poeta.


GAZA! QUEM É O CULPADO?

Culpados são os padres e pastores
e rabinos, também, e aiatolás
pregando deuses maus e vingadores,
a fomentar o ódio em vez da paz!

Ao se suporem do universo o centro,
fazem do engodo seus apostolados,
sempre a empurrar-nos, tímpanos a dentro,
falsos mitos de credos superados!

Da Igreja nunca mais será esquecida
a sua mais hórrida e venal tragédia:
os mártires aos quais ceifou a vida
nos fogareiros vis da idade média!

Protestantes, judeus e muçulmanos
sofreram as torturas mais horríveis,
enquanto os cardeais, nédios e ufanos,
às súplicas sorriam-se impassíveis!


Aos rabinos, versados no Talmude,
do qual supõem ter desvendado os lacres,
pouco importa se a mosaica juventude
se dê à carnificina dos massacres!

Aos muçulmanos a morte é um pretexto
que afirmam registrado no Alcorão!
Mentira, pois Alá, em nenhum texto,
pede a alguém p’ra matar um pobre irmão!

Toda essa mocidade promissora
que Deus fadou aos mais fraternos atos,
fica à mercê da sanha destruidora
dessa grei de assassinos e insensatos!

Assim age o que engendra atrocidades
e instrumento se faz de tal sandice:
mascara os livros sacros de inverdades
dizendo coisas que Deus nunca disse!

Mas quem da Bíblia e do Alcorão faz messes
das mais diabólicas cavilações,
precisa muito mais das nossas preces
que das nossas acerbas maldições!

Humberto-Poeta

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO VI

(Ficção baseada em factos reais)


Mal deu dois passos no corredor, Anita estacou de repente, com uma expressão de espanto e indignação estampada no rosto.

FIM DO EPISÓDIO V

EPISÓDIO VI

Ao fundo do corredor, sorridente, aguardava-a o filho de Vicente.
Pelas roupas confortáveis e informais que usava, Anita apercebeu-se, de imediato, que Humberto vivia ainda naquela casa.

De facto, desde que se casara, Anita não voltara a perguntar a Vicente se já arranjara casa para o filho morar.
Sem saber explicar bem porquê, mas talvez devido ao silêncio do marido, convencera-se que o assunto estava arrumado, e Humberto estaria a viver na sua nova casa.
Por isso o seu espanto foi grande ao vê-lo, ao mesmo tempo que sentia uma enorme raiva crescer dentro de si.
Considerava que Vicente fora desleal não a informando de que iria ter que conviver com Humberto dentro da mesma casa.

Dirigiu-se ao enteado, que a recebia de braços abertos.
Não conseguiu disfarçar uma ligeira frieza ao deixar-se abraçar, considerando, contudo, que Humberto não tinha culpa alguma desta desagradável situação.

Quando se encontrou a sós com o marido, Anita perguntou-lhe, friamente:
- Foi só desta vez, ou é costume teu não cumprires o prometido?
Vicente fingiu não perceber:
- Não sei a que te referes. Toda a gente sabe que eu honro sempre os meus compromissos.
- Nos negócios, talvez. Não duvido. Mas no que me diz respeito não posso dizer o mesmo. Ou será que te esqueceste da única exigência que eu fiz antes de nos casarmos?
- Exigência, minha querida??? Mas quando é que tu precisas exigir seja o que for? Sabes muito bem que tudo o que desejares apenas tens que o manifestar. Eu vivo para te satisfazer.

Anita engoliu em seco. Não estava com disposição para discutir sentimentos.
- O que está aqui em causa, agora, não são os meus desejos nem os teus sentimentos, mas a promessa que me fizeste de que, quando eu viesse para esta casa, o Humberto já cá não estaria. E ele ainda cá está!

Vicente abandonou o ar risonho e benevolente com que estivera escutando Anita:
- Tens toda a razão, minha querida. De facto, falhei na promessa que te fiz. Mas, acredita, não foi por falta de esforço em procurar uma casa para o meu filho. É que não consegui encontrar nenhuma casa para alugar.
Mas agora vou fazer-te outra promessa, e essa será cumprida:
-Amanhã mesmo vou falar com o empreiteiro e juntos procuraremos um terreno para, rapidamente, construir uma pequena casa para o Humberto.
- Assim espero – respondeu Anita, dando o assunto por encerrado.

Nos dias que se seguiram, Anita fez a vida normal de uma recém-casada: Começou por receber na sua casa as pessoas mais importantes da ilha, que haviam comparecido ao seu casamento ofertando-lhe valiosas prendas.
A esses jantares estavam presentes apenas os convidados e os donos da casa. Humberto nunca compareceu..
Anita manifestou a sua estranheza ao marido, que lhe respondeu:
- Humberto é bastante tímido com pessoas estranhas, preferiu ir jantar com os amigos – e mudou rapidamente de assunto.
Anita não insistiu, embora não ficasse muito convencida.

Depois de cumpridos todos estes deveres sociais, chegou a vez de convidar as suas amigas, que na realidade não eram muitas. Eram apenas quatro amigas que conservara da infância, já que a juventude fora passada, a maior parte do tempo, na capital, a estudar.
Pensou que, depois de ter organizado todos aqueles jantares apenas para cumprir um dever social, agora, finalmente, ia poder reunir-se com as suas amigas, e passar um serão divertido na sua companhia.

Três das suas amigas eram casadas, uma era solteira. Anita lembrou-se de lhe arranjar companhia. Chamou Humberto e disse-lhe:
- Humberto, hoje vamos ter cá em casa, para o jantar, as minhas amigas. Gostaria muito que nos fizesses companhia, jantando connosco.
Com um ar ligeiramente surpreso, Humberto respondeu:
- Falaste nisso ao meu pai? E rapidamente acrescentou – preciso ver…já tinha combinado com os meus amigos…

FIM DO EPISÓDIO VI

domingo, 11 de janeiro de 2009

LEMBRANDO ANOS PASSADOS

No início dos anos é normal e muito vulgar fazer análises dos acontecimentos do ano anterior.
Assim aconteceu em 2008, 2007…e agora, no início de 2009.
Muitos recordaram o pior do ano anterior; outras pessoas preferiram lembrar as coisas boas – louvável e, por certo, edificante.
Eu prefiro lembrar o que foi lembrado o ano passado, ou seja, fazer uma pequena viagem na máquina do tempo.
É assim, nessa fabulosa máquina, que chegamos a Pyongyang, Coreia do Norte, nos anos 80/90 do século passado.

Quem diria que um país tão pequenino que não produz praticamente nada; durante o século XX foi invadido, destroçado, escravizado e incorporado pelo Japão; depois, fortemente bombardeado pelos Estados Unidos, e finalmente dividido em duas partes, cuja parte norte tem vivido sob um regime totalitário de fazer inveja a qualquer outro regime totalitário, e que vive às portas da fome…conseguiria fazer o Japão, a Inglaterra e os Estados Unidos dançar a música que ele toca?

Há quem pense que Kim Jong Il, líder norte coreano, é maluco – afinal, o país tem muito pouco poder de negociação, e está praticamente isolado do mundo.
Depois que Bush colocou a Coreia do Norte na lista dos países que compõem o “eixo do mal”, qualquer líder que não fosse louco tentaria não atrair as atenções da América. Kim Jong Il, pelo contrário, insinuou ter começado o seu programa nuclear, e até mesmo a possibilidade de estar com a bomba atómica a caminho.

Assim se falava em 2003.

Kim Jong Il, nascido a 16 de Fevereiro de 1942, na União Soviética, é o líder da República Popular Democrática da Coreia do Norte.
É presidente da Comissão Nacional de Defesa e secretário-geral do Partido dos Trabalhadores Coreano.


Exerce poderes ditatoriais, e o culto da sua imagem está presente em quase todas as esferas da vida quotidiana norte-coreana.

De tanto o ouvirem repetir, as pessoas são levadas a acreditar que o seu país é o “Paraíso na Terra”.

Quem não se encaixa no ideal de Kim Jong Il daquilo que é um cidadão saudável e vital, não merece viver. Pessoas com deficiência, ou apenas baixas, são consideradas sub-humanas.
Depois destes breves traços sobre o líder da Coreia do Norte, vamos recordar um acontecimento passado nos atrás referidos anos 80/90, precisamente em 1989.

Durante os preparativos para o Festival Mundial da Juventude Kim Jong Il encorajou o país a fazer melhor do que, no ano anterior, fizera a Coreia do Sul, aquando dos Jogos Olímpicos de Verão.
Para o efeito foram tomadas várias medidas, entre as quais a que vou aqui relembrar.

Pionguiangue na actualidade

Pyongyang, (aportuguesado para Pionguiangue), capital da Coreia do Norte, deveria ser purificada de todas as pessoas deficientes.
Seis meses antes do Festival, agentes do governo reuniram todos os deficientes residentes na capital, e enviou-os para aldeias longínquas.
Nesse período, um dia de Maio de 1989, um médico, que preferiu não referir o seu nome, foi incumbido, pelo Partido Comunista, de localizar os indivíduos mais baixos, residentes na capital. Foram postos a circular, pelos representantes locais do Partido, folhetos de propaganda, que informavam que o estado tinha descoberto um medicamento para aumentar a altura das pessoas.
Este medicamente seria fornecido gratuitamente a quem quisesse submeter-se ao novo tratamento.
Só em dois dias juntaram-se milhares de pessoas interessadas.
O médico escolheu os mais baixos, e explicou à multidão que o medicamento fazia mais efeito quando aplicado regularmente, e num ambiente propício.
Os candidatos, sem a mínima suspeita, embarcaram em dois navios, mulheres num, homens noutro, e foram enviados para duas ilhas desertas, com o intuito de que os seus genes “de baixo nível”não se perpetuassem por novas gerações.
Abandonados à sua sorte, sem quaisquer provisões ou alimentos, nenhum deles conseguiu regressar a casa.

Esta história foi lembrada o ano passado, em Agosto ou Setembro de 2008, numa revista de que não recordo o nome. Li-a, em Novembro, numa das longas esperas numa sala (de espera) dum consultório médico. Tomei apontamentos, e agora lembrei-me de a partilhar convosco.

Na altura não pude deixar de fazer a analogia entre Kim Jong Il e Adolf Hitler: um, condenou milhares de pessoas à morte, acenando-lhes com um novo medicamento que os faria crescer;


o outro oferecendo um bocado de sabão antes de entrarem no “banho”, de cujo chuveiro saía, em vez de água, um gás letal.


Reflexão:
Quando é que o Homem vai aprender com os erros cometidos por outro Homem?


quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

MENSAGEM DE ANO NOVO

Sugiro, para começar, que veja este vídeo. Estou convencida de que vai gostar.

Mas se não estiver interessada(o), é só passar adiante.

Happy new year



Depois destes belos votos de Feliz Ano Novo, (para quem viu o vídeo) vou propor-vos começar o ano de 2009 reflectindo sobre um tema que considero de extrema importância.

Peço desculpa por se tratar de um post anormalmente extenso, embora isso se deva especialmente às fotos que achei por bem incluir.

Aproveito a oportunidade para comunicar que estarei ausente da blogosfera por uma ou duas semanas.
Sinto necessidade de fazer uma introspecção, uma espécie de retiro, (chamem-lhe o que quiserem); de vez em quando precisamos rever a nossa maneira de estar na vida, analisar com calma os nossos procedimentos, rever certas atitudes, e, eventualmente alterar os nossos pontos de vista e consequentes actos.

Iniciemos o Ano de 2009 meditando sobre o assunto que aqui vos trago, desejando que esta reflexão funcione como um voto que todos, de mãos dadas, iremos fazer.






















Um Ano muito feliz para todos.
Até breve.
Mariazita

domingo, 28 de dezembro de 2008

PUXA... DEUS...

Puxa, meu Deus... por que é que a gente sofre tanto?
...por que é que o pranto chega sem ser convidado?
Por que é que a vida é feita de desencanto?
Por que o encanto mostra sempre o outro lado?

Puxa, meu Deus, por que é que o sonho se dissipa?
... por que é que a dor se antecipa ao sorriso ?
Por que é, Senhor, que o nosso amor não participa
Da emoção de um coração tão... indeciso?

Puxa, meu Deus, há tanto sonho em cada peito
Insatisfeito, procurando a alegria
Da emoção de ser feliz, quando é desfeito
Todo o desejo de dar vida à fantasia...

Puxa, meu Deus, se a verdade é tão cruel,
Que a gente minta a solidão e, nos espelhos,
A gente veja um anjo vindo lá do céu
E nunca um homem solitário... de joelhos.

Puxa, meu Deus, é muito triste ser adulto
E ver o sonho envelhecer dentro de nós...
Ver os desejos transformarem-se no vulto
Da solidão humanamente tão atroz...

Puxa, meu Deus, há um milagre em cada prece
Que arrefece quando a angústia é poderosa,
Mas teu amor supera a dor que entristece
O nosso amor, quando a tristeza é mais teimosa.

E se o milagre improvável acontece,
Puxa, meu Deus, a sensação que nos invade
É tão bonita que cativa e enternece
O coração com a mais subtil felicidade...

Por isso, Deus... faz com que a gente realize
Nossos desejos de maneira natural
E que o amor que há em ti nos tranquilize
Quando a angústia nos trouxer a dor e o mal.

Que o teu milagre surja sempre em cada irmão
Que nos ensine até mesmo sem querer
Que é no pulsar do mais tristonho coração
Que cada sonho faz o amor sobreviver.

Que cada amigo, cada irmão, cada pessoa
Nos surpreenda e nos faça acreditar,
Que cada sonho é uma alma que voa
Quando a intenção de ser irmão nos faz voar.


Luiz Poeta
Às 19 h e 25 min do dia 25 de Fevereiro de 2007


Luiz Gilberto de Barros – Luiz Poeta - é Director Cultural da Associação Cultural Encontros Musicais, Quinto Académico da Academia Virtual Luso Brasileira de Letras.

Membro da União Brasileira de Trovadores e filiado à Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Música ( sbacem-rj ), é poeta, trovador, cronista, contista, artista plástico, compositor, intérprete, violonista e guitarrista, sendo também Professor de Literatura, Língua Portuguesa e Produção de Textos, leccionando actualmente na Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro.

Considera-se um poeta compulsivo, possuindo um acervo literário pessoal de mais de dez mil trabalhos diversificados, incluindo textos em prosa e poesias, tendo sido premiado com a publicação de várias antologias.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

MENSAGENS NATALÍCIAS

Com o post de hoje encerro o ciclo de mensagens natalícias de 2008.
O ano está a terminar, falta apenas uma semana para aparecer o Ano Novo – precisamente de hoje a uma semana.
Falaremos sobre isso ao longo destes dias que restam de 2008.
Entretanto, para despedida do Natal, partilho convosco um conto de Natal, da autoria de Isar Maria Silveira..
E para terminar em verdadeira beleza, aprecie, no final, a belíssima canção de Natal “ O Holy Night”

UM CONTO DE NATAL

Texto de Isar Maria Silveira

Há muitos anos Neimar de Barros (*) visitou minha terra natal, Sant’Ana do Livramento.
Fez uma palestra na Igreja Nossa Senhora do Rosário, a qual minha família frequentava.
Na fria noite, um sábado de Agosto, os bancos todos estavam lotados, e ainda havia gente em pé no fundo do vasto templo.
Todos queriam ouvir o homem que escrevera o livro “Deus Negro”.
E lá estávamos nós: meu pai, minha mãe e eu.

Ao entrar, sob acalorados aplausos, Neimar pediu silêncio, e, antes de iniciar o que iria falar naquela noite, disse:
- Senhores, ao chegar aqui, encontrei um casal muito humilde.
Eles são do interior, não têm parentes na cidade, e vieram em busca de um emprego que foi prometido ao marido.
Ela está grávida e eles não têm dinheiro para pagar um hotel. Precisam ficar na casa de alguém até segunda-feira. Qualquer espaço serve.
Quem de vocês poderia recebê-los?

Fez-se um silêncio profundo.

Lembro do olhar trocado entre meus pais.
Meu pai ergueu a mão e disse que poderiam ficar em nossa casa.

Neimar olhava ao redor como se não tivesse visto o gesto, e ainda esperasse pela manifestação de outra família.

Ninguém mais levantou a mão.

Então o palestrante virou-se para onde estávamos sentados e disse:
- Após a conversa que terei hoje aqui, por favor venham falar comigo.

Neimar discorreu sobre solidariedade, fé, amor ao próximo, e muitos outros assuntos que aqueciam nosso coração e nos faziam pensar em como podíamos ser melhores.
Sensibilizou com suas palavras até os corações mais duros.

Antes do final da palestra chamou-nos até onde estava, abraçou-nos longamente e colocou-se entre nós.
Por fim falou a todos os presentes:
- O casal de que lhes falei são Maria e José.
Apenas esta família, entre tantas aqui presentes, acolheria o Menino Jesus.


Nunca esqueci desse fato.

Hoje me pergunto se eu seria capaz do gesto de meus pais.



*Neimar de Barros era um conhecido produtor de televisão que, na década de 1970, após ter participado num encontro religioso, se tornou pregador e escritor de livros religiosos.
Deixou o trabalho na televisão e, junto com outras pessoas do meio artístico, criou um instituto de missionários leigos católicos que faziam palestras em todo o país.
Os seus livros tiveram grande aceitação, especialmente o beste-seller “Deus Negro”.


Isair Maria Siveira diz, de si própria
- Meu nome: Isar Maria da Fontoura Silveira , gaúcha, mora em Canoas, no RS.
Sou: mãe, profissional, estudante, amante, amiga…são tantas!
Na verdade sou artista, sempre representando um papel.
Visto máscaras conforme a situação e faço da vida um grande palco.
De todos os meus papéis o que me dá mais satisfação é escrever…



Luciano Pavarotti & Placido Domingo - O Holy Night

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

MENSAGENS NATALÍCIAS

Missa do Galo

Frei Betto

Natal é festa polissêmica. De certo modo, desconfortável. Para os cristãos, comemoração do nascimento de Jesus, Deus feito homem. Para a indústria e o comércio, ocasião de promissoras vendas. Para uns tantos, miniférias de fim de ano. Para o peru, dia de finados.

O desconforto resulta da obrigatoriedade de dar presentes a quem não amamos, mal conhecemos ou fingimos amizade. Transferido o presépio de Belém para o balcão das lojas, substituído Jesus por Papai Noel, a festa perde progressivamente o caráter religioso. O Menino da manjedoura, que evoca o sentido da existência, cede lugar ao velho barbudo e barrigudo, símbolo do fetiche da mercadoria.

O olhar desavisado diria que o consumismo hedonista despe-nos da religiosidade. A Missa do Galo, outrora à meia-noite de 24 de dezembro, reduz-se ao galeto das celebrações, às oito ou nove da noite, antecipando-se à madrugada na qual impera a violência urbana. O apetite da ceia e a curiosidade em abrir presentes falam mais alto que bons e velhos costumes: oração em família, cânticos litúrgicos, narrativas bíblicas, memória dos eventos paradigmáticos de Belém da Judéia.

Uma atualização dos eventos bíblicos permite-nos imaginar, a partir do contexto brasileiro, o leitor do Diário de Belém, edição de 26 de dezembro de 1, frente à seguinte notícia: "Família de sem-terra ocupou ontem a fazenda Estrela de Davi, em cujo pasto uma tal Maria, esposa do carpinteiro José, deu à luz o filho Jesus. A polícia de Herodes está no encalço dos sem-terra, que se encontram foragidos."

A abstração da linguagem, contudo, faz do pseudolirismo natalino o inverso do fato histórico. O Verbo encarnado perde contundência e cede lugar ao presépio descontextualizado, mero adorno à festa papainoélica.

Vivemos hoje assolados por fortes ventos esotéricos, nessa época epifânica em que religiões tendem a ocupar o lugar deixado pelas ideologias messiânicas. Assistimos à crise das Igrejas tradicionais, encerradas num monólogo ininteligível para o contexto de pluralismo e tolerância com o diferente. A perplexidade assemelha-se à da professora de piano clássico que vê seus alunos aplaudirem os metaleiros.

Proliferam novas modalidades de aspirar ao Transcendente, da aeróbica litúrgica às meditações orientais. Nunca houve, na expressão de Rimbaud, tanta "gula de Deus". I Ching, astrologia, búzios, tarô etc., são vias pelas quais se tenta encontrar segurança diante do futuro imprevisível. Agora, já não há tanto interesse pelas religiões das grandes narrativas bíblicas, da santidade ascética, da autoridade sacralizada, da moral coercitiva, da escatologia que nos faz trafegar, titubeantes, sobre o fio invisível que liga o Céu ao Inferno.

Predominam as religiões do consolo subjetivo, da alegria d'alma, da cura imediata, dos fenômenos paranormais, da comunidade que se sente resgatada do anonimato, de bênçãos e graças que jorram quais juros de quem acredita na versão pós-moderna do dilema "a bolsa ou a vida". Vigora a religiosidade prêt-à-porter, sem culpas, macroecumênica, fundada na crença em um Deus que dispensa hierarquias, manifesta-se pelas regras de ouro do marketing e tolera todas as nossas incoerências.

Talvez não haja na literatura brasileira quem melhor tenha captado o sentido do Natal que Machado de Assis, no clássico conto Missa do Galo. Não há propriamente missa, apenas a espera ansiosa num serão que progressivamente transmuta a anfitriã Conceição, que atingira os 30 anos, aos olhos de Nogueira, rapaz de 17. Machado faz do coração do jovem narrador um profundo e aquiescente presépio, onde a vida renasce no sutil milagre do amor desinteressado. Um gosto de eternidade. De eterna idade. No entanto, quebrado pelo tempo que flui incoercível ao ritmo implacável das horas. Na sala, a missa em torno da musa antecede e realiza a comunhão, eclodindo na beleza de um singelo encontro entre duas pessoas.

Isso é Natal, festa rara no mais profundo de si mesmo, na qual as pessoas se fazem presentes umas às outras e entre as quais o amor refulge como estrela. Essa festa não tem data e é celebrada sempre que há encontro em clima de afeto e sabor de comunhão. Ali, as palavras são como barbante de presente em mãos de uma criança: a cada nó desfeito, uma expectativa de surpreendente revelação.
JF 07/12/08


Aprecie o vídeo que escolhi para hoje.
“O menino” é uma canção de Natal tradicional portuguesa..


Nem Truz Nem Muz na televisão Alemã Bayerscher Rundfunk

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

MENSAGENS NATALÍCIAS

Quando, no passado Domingo, informei que iria postar diariamente até ao dia 25, não me lembrei de que ainda havia uma terça-feira, dia em que, normalmente, posto no SEMPRE JOVENS/a>.
Entretanto, para me redimir da minha falta de lembrança…deixo-vos um poema de Vinícius de Morais, esperando que, com este presente, me perdoem…


Poema de Natal

Vinícius de Morais

Para isso fomos feitos: Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida: Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva... Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar....Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer: Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai — Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos: Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte — De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


Extraído do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960.


Penso que gostará de ver o vídeo que escolhi para esta noite.


Celine Dion - Blue Christmas






segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

MENSAGENS NATALÍCIAS

ENTRAI, PASTORES, ENTRAI
(Cantilena de Natal)
PARA CANTAR COM A MÚSICA DO
WE WISH YOU A MERRY CHRISTMAS


Se quiser comece por ligar o video (link no final do post) e acompanhe o poema, cantando. Desligue, antes, o som de fundo.


ENTRAI, PASTORES, ENTRAI

Entrai pastores, entrai
Trazei a ovelha
da Paz
Vede que o Mundo se esvai
Deixai a guerra para trás

Vede que o Mundo se esvai
À míngua de mai
s ternura
Entrai pastores, entrai
Trazei leite de doçura


Entrai pastores, entrai
Trazei mel, trazei pão

Vede que o M
undo se esvai
Morrendo de inanição



Vede que o Mundo se esvai
Em meio de tanto horror
Entrai pastores, entrai
Trazei nas mãos o Amor

Entrai pastores, entrai
Fechai as portas ao mal
Vede que o Mundo se esva
i
Trazei um "Sempre Natal"

Autora: Carmo Vasconcelos

Obrigada, Carminho, por me permitires a publicação do teu poema.


Carmo Vasconcelos, nome literário de Maria do Carmo Fernandes de Vasconcelos Figueiredo, é natural de Lisboa.
É autora do livro de poemas “Geometrias Intemporais”, publicado em 2000, e de outros, de poemas – “Memorandum de Fogo”, “Despida de Segredos” e “Ecos do Infinito” - assim como do romance “O Vértice luminoso da Pirâmide” - aguardando publicação.
Pela sua participação em vários Jogos Florais teve o privilégio de ganhar numerosos prémios e menções honrosas.




Helmut Lotti - We Wish You A Merry Christmas






domingo, 21 de dezembro de 2008

MENSAGENS NATALÍCIAS

Se é certo que o Natal pode e dever ser todos os dias do ano, a verdade é que a chamada “época natalícia” ocorre apenas uma vez por ano, em Dezembro, precisamente a altura do ano em que estamos agora.

E se, ao longo do ano, podemos e devemos difundir mensagens que apelem à solidariedade, ao Amor entre a humanidade, aos procedimentos correctos para com os indivíduos, a Natureza, o meio ambiente…as mensagens tipicamente natalícias divulgam-se nesta época, e depois guardam-se na gaveta.

Dado que este período, relativamente curto, está a aproximar-se do fim, decidi publicar, DIARIAMENTE, até ao dia 25, uma série de posts alusivos ao Natal.
Gostaria de poder contar com a vossa companhia, nesses dias, para uma breve leitura.

Eis o primeiro:

Prezado Papai Noel:

Este ano estou escrevendo com antecedência, pois percebi que organização não é seu forte e quero que o senhor tenha tempo de preparar tudo certinho.

Este ano não tenho a menor intenção de ser humilde, pensar no próximo, ser caridosa, etc. Vou pedir sem miséria, estou de saco cheio de ser delicada em meus pedidos e receber migalhas.

Segue minha lista, posso assegurar que muitas outras mulheres irão gostar, de modo que o senhor pode produzir tudo no atacado para baratear os custos.

Desejo que não haja limite nos cartões de crédito, e que exista um código especial para fazer compras, de maneira que a fatura seja automaticamente zerada.

Quero um homem de verdade, mas, fala sério, Papai Noel, não me traga imitações ! Diga NÃO à pirataria! Chega de genéricos!

Quero um dispositivo instalado no umbigo que jogue fora toda a gordura consumida, desinflando os pneuzinhos automaticamente.

Quero uma manicure e pedicure definitiva, que dure para sempre como se tivesse acabado de fazer.

Meu marido, noivo, namorado, ou rolo, deve adivinhar todos os meus desejos, e toda vez que se aproximar de mim deve dizer o quanto sou linda, inteligente e especial. Que me traga presentes e trate bem minha família, e também adivinhe quando for hora de sumir, quando eu estiver sensível ou com TPM

Um presente ideal seria uma gravidez que durasse apenas dois dias e um parto indolor.

Para o ciclo menstrual, vou ser camarada, pedir que dure 2 horas. Também gostaria de um botãozinho que eu apertasse se e quando quiser estar fértil.

Quero roupas que sofram uma metamorfose de acordo com as tendências e as estações, com tecidos auto-limpantes e auto-passantes.

Se um homem se atrever a me trair, ou estiver mentindo, que uma luz vermelha se acenda em seu nariz, como aquela sua rena, e que logo em seguida ele confesse tudo o que fez.

Em caso da mais remota chance de infidelidade, faça com que ele não consiga uma ereção naquele momento. Mas, atenção, não quero uma brochada definitiva, pois também não me seria conveniente.

Quero uns comprimidos que alterem automaticamente cor, comprimento e textura do cabelo, permitindo os mais variados penteados, que voltarão ao normal no momento em que eu assim desejar.

Vou pedir novamente um suprimento infinito de sapatos, bolsas, cosméticos e jóias, visto que minha solicitação anterior foi esquecida. E quero também um espaço auto-organizante que acomode tudo.

Também vou pedir DE NOVO: me mande um robozinho que limpe, lave, passe, cozinhe e toque música, que não falte, não peça aumento e não acabe com o sabão em pó em uma semana.

Bumbum, peitos e coxas, tudo com botõezinhos que inflem e desinflem segundo a ocasião, situação e minhas intenções.

Que abdominais sejam coisas que possamos comprar prontas, no supermercado.

Quero 150 de QI e 50 de cintura, NÃO O CONTRÁRIO !!

PAPAI NOEL, MEU FOFO !!!
Espero que não seja muito complicado atender minha listinha.
Nos vemos em dezembro, mas se conseguir terminar tudo antes, ficarei imensamente grata.

Com carinho,
Uma mulher como todas...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O SIGNIFICADO DO NATAL

O SIGNIFICADO DO NATAL

Hei, você, aonde vai com tanta pressa?


Eu sei que você tem pouco tempo...
Mas será que poderia me dar uns minutos da sua atenção?

Percebo que há muita gente nas ruas, correndo como você.
Para onde vão todos?

Os shoppings estão lotados...

Crianças são arrastadas por pais apressados, no meio do torvelinho...

Há uma correria generalizada...

Alimentos e bebidas são armazenados...
E os presentes, então? São tantos a providenciar...

Entendo que você tenha pouco tempo.
Mas qual é o motivo dessa correria?

Percebo, também, luzes enfeitando vitrinas, ruas, casas, árvores...
Mas confesso que vejo pouco brilho nos olhares...
Poucos sorrisos afáveis, pouca paciência para uma conversa fraternal...

É bonito ver luzes, cores, fartura...

Mas seria tão belo ver sorrisos francos...
Apertos de mãos demorados...
Abraços de ternura...
Mais gratidão...
Mais carinho...
Mais compaixão...

Talvez você nunca tenha notado que há pessoas que oferecem presentes por mero interesse...

Que há abraços frios e calculistas...
Que familiares se odeiam, sem a mínima disposição para a reconciliação.

Mas já que você me emprestou uns minutos do seu precioso tempo, gostaria de lhe perguntar novamente: para quê tanta correria?

No meio de toda a agitação, sentado no passeio, um mendigo, ébrio, grita bem alto:
"Viva Jesus, feliz Natal"!

E os sóbrios comentam:
"É louco!”.

E a cidade se prepara... Será Natal.

Mas, para você que ainda tem tempo de meditar sobre o verdadeiro significado do Natal, ouso dizer:
O Natal não é apenas uma data festiva, é um modo de viver.

O Natal é a expressão da caridade...
E quem vive sem caridade desconhece o encanto do mar que incessantemente acaricia a praia, num vaivém constante...

Natal é fraternidade...
E a vida sem fraternidade é como um rio sem leito, uma noite sem luar, uma criança sem sorriso, uma estrela sem luz.

Mas o Natal também é união...
E a vida sem união é como um barco rachado, um pássaro de asas quebradas, um navegante perdido no oceano sem fim.

E, finalmente, o Natal é pura expressão do amor...
E a vida sem amor é desabilitada para a paz, porque na sua intimidade não sopra a brisa suave do amanhecer, nem se percebe o cenário multicolorido do crepúsculo.

Viver sem a paz é como navegar sem bússola em noite escura...
É desconhecer os caminhos que enaltecem a alma e dão sentido à vida.
Enfim, a vida sem amor... Bem, a vida sem amor é mera ilusão.

Que este Natal seja mais que festas e troca de presentes...

Que possa ser um marco definitivo no seu modo de viver, conforme o modelo trazido pelo notável Mestre, cuja passagem pela Terra deu origem ao Natal...

domingo, 14 de dezembro de 2008

ORAÇÃO DO PAI

Pai-nosso que estais no céu, e sois nossa Mãe na Terra, amorosa orgia trinitária, criador da aurora boreal e dos olhos enamorados que enternecem o coração, Senhor avesso ao moralismo desvirtuado e guia da trilha peregrina das formigas do meu jardim,

Santificado seja o vosso nome gravado nos girassóis de imensos olhos de ouro, no enlaço do abraço e no sorriso cúmplice, nas partículas elementares e na candura da avó ao servir sopa,

Venha a nós o vosso Reino para saciar-nos a fome de beleza e semear partilha onde há acúmulo, alegria onde irrompeu a dor, gosto de festa onde campeia desolação,

Seja feita a vossa vontade nas sendas desgovernadas de nossos passos, nos rios profundos de nossas intuições, no vôo suave das garças e no beijo voraz dos amantes, na respiração ofegante dos aflitos e na fúria dos ventos subvertidos em furacões,

Assim na Terra como no céu, e também no âmago da matéria escura e na garganta abissal dos buracos negros, no grito inaudível da mulher aguilhoada e no próximo encarado como dissemelhante, nos arsenais da hipocrisia e nos cárceres que congelam vidas.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje, e também o vinho inebriante da mística alucinada, a coragem de dizer não ao próprio ego e o domínio vagabundo do tempo, o cuidado dos deserdados e o destemor dos profetas,

Perdoai as nossas ofensas e dívidas, a altivez da razão e a acidez da língua, a cobiça desmesurada e a máscara a encobrir-nos a identidade, a indiferença ofensiva e a reverencial bajulação, a cegueira perante o horizonte despido de futuro e a inércia que nos impede fazê-lo melhor,

Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e aos nossos devedores, aos que nos esgarçam o orgulho e imprimem inveja em nossa tristeza de não possuir o bem alheio, e a quem, alheio à nossa suposta importância, fecha-se à inconveniente intromissão,

E não nos deixeis cair em tentação frente ao porte suntuoso dos tigres de nossas cavernas interiores, às serpentes atentas às nossas indecisões, aos abutres predadores da ética,

Mas livrai-nos do mal, do desalento, da desesperança, do ego inflado e da vanglória insensata, da dessolidariedade e da flacidez do caráter, da noite desenluada de sonhos e da obesidade de convicções inconsúteis,

Amemos.

Frei Beto - JF 11/12/08


Filho de um jornalista e uma escritora, Carlos Alberto Libânio Christo nasceu em Belo Horizonte, a 25 de Agosto de 1944.
Conhecido por Frei Beto, é um religioso dominicano, teólogo e escritor.
Esteve preso por duas vezes durante a ditadura militar, entre 1964 e 1973.
A sua experiência na prisão está descrita no livro «Batismo de sangue», traduzido para francês e italiano
Professou na Ordem Dominicana, em 10 de Fevereiro de 1966, em São Paulo.
Adepto da Teologia da Libertação, é militante de movimentos pastorais e sociais