quinta-feira, 20 de novembro de 2008

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA MULHER

Conta uma lenda que no principio do mundo, quando Deus decidiu criar a mulher, viu que havia esgotado todos os materiais sólidos no homem, e não tinha mais do que dispor.

Diante deste dilema, e depois de uma profunda meditação, fez isto:



Pegou a forma arredondada da lua,



as suaves curvas das ondas,
a terna aderência das bromélias,



o trémulo movimento das folhas,
a forma esbelta da palmeira,


a nuance delicada das flores,
o amoroso olhar do cervo,



a alegria do raio de sol e as gotas do choro das nuvens,



a inconstância do vento e a fidelidade do cão,
a timidez da tartaruga e a vaidade do pavão,



a suavidade da pena do cisne e a dureza do diamante,
a doçura da pomba e a crueldade do tigre,
o ardor do fogo e a frieza da neve.
Misturou ingredientes tão diferentes, formou a mulher e deu-a ao homem.


Depois de uma semana veio o homem e disse:

- Senhor, a criatura que me deste põe-me desgostoso:
- quer toda a minha atenção,
- nunca me deixa sozinho, - fala sem parar,
- chora sem motivo,
- diverte-se em me fazer sofrer.
Venho devolvê-la porque NÃO POSSO VIVER COM ELA.



“Bem”, respondeu Deus e recebeu a mulher.

Passou-se outra semana, o homem voltou e disse:

Senhor, encontro-me muito sozinho desde que devolvi a criatura que fizeste para mim:
- ela cantava e brincava ao meu lado,
- olhava-me com ternura e o seu olhar era uma carícia,
- ria, e o seu riso era música,
- era bonita de se ver
- e suave ao tato.
Devolve-ma, porque NÃO POSSO VIVER SEM ELA.



AH! POIS É...

domingo, 16 de novembro de 2008

ANITA

ANITA – EPISÓDIO V

(Ficção baseada em factos reais)

…Anita ouvia-o, com um leve sorriso ausente, acenando, em sinal de concordância.
Havia, contudo, um ponto, em que Anita exigia que a sua vontade fosse respeitada.

FIM DO EPISÓDIO IV
EPISÓDIO V

Sabendo que o filho mais novo de Vicente, dois anos mais velho do que ela própria, vivia em casa do pai, Anita declarara que não gostaria que essa situação se mantivesse depois do casamento.
Vicente mostrou-se muito compreensivo, e de imediato se comprometeu a arranjar uma casa para o seu filho.

Sempre que Anita tocava neste assunto, respondia que andava a procurar uma casa para o filho viver, mas ainda não encontrara nada de jeito.
Um dia chegou mesmo a dizer:
- Estou a ver que tenho que mandar construir uma casa para o meu filho. Não encontro nada para alugar.

Não se tratava de desculpa. Numa cidade onda a maioria da população vivia em casa própria, era muito raro haver casas para alugar.
Apesar de o saber, Anita mostrava-se inflexível: depois de casada não queria mais ninguém a viver na casa que iria ser a sua.

Bem mais rápido do que ela desejaria, chegou o dia aprazado para o matrimónio,



que se realizou com toda a pompa e circunstância.

A mãe não medira esforços nem dinheiro para que tudo estivesse à altura de acontecimento tão importante: o casamento da sua única filha.

A igreja encontrava-se ricamente ornamentada: toalhas de renda nos altares, passadeira de veludo vermelha… Uma profusão de flores importadas enchiam o ar com o seu perfume.

Anita entrou na igreja pelo braço do seu pai, visivelmente emocionado, ao som da marcha nupcial.
O noivo, radiante, aguardava junto ao altar-mor.

Não podendo estampar no rosto uma felicidade que não sentia, conseguiu manter um aspecto calmo, tranquilo, sereno, que não deixava adivinhar a tristeza que toldava o seu coração.
Depois de uma cerimónia demasiado longa, noivos, familiares e demais convidados dirigiram-se para a casa da noiva, onde foi servido um verdadeiro banquete.

O pai empenhara-se até onde pudera para fazer desta festa um verdadeiro acontecimento social, evidenciando uma situação financeira que estava longe de possuir.
Esperava, a curto prazo, recuperar tudo, envolvendo o genro nos seus negócios, que atravessavam uma fase muito difícil. Sem o investimento de Vicente, em breve teria que declarar falência.

Enquanto os convidados alegremente se divertiam, os noivos, discretamente, retiraram-se.
À porta aguardava-os o carro de Vicente, que os transportou à sua casa de campo.
Ali permaneceram por uma semana, em lua-de-mel, que Anita suportou estoicamente. Se, por um lado, não sentia qualquer prazer na companhia de Vicente, por outro assustava-a a ideia de regressar à cidade e assumir a sua condição de mulher casada, com todos os compromissos que essa situação implicava.

Vicente não parecia muito interessado em regressar, pelo menos na companhia de Anita. Chegou mesmo a sugerir-lhe passarem ali mais algum tempo:
- Eu podia ir à cidade tratar dos meus negócios, e regressaria a tempo de jantar contigo e passar a noite aqui…
A ideia não agradou a Anita. Ficar ali o dia inteiro, apenas na companhia dos criados? A perspectiva não a seduzia. Por isso respondeu a Vicente que preferia voltar à cidade, e iniciar a sua vida normal de dona de casa e mulher casada.
Contrafeito, Vicente teve que sujeitar-se.

De regresso à cidade Vicente sugeriu:
- Pensei em irmos primeiro a casa dos teus pais. A tua mãe deve estar cheia de saudades, e com certeza tu gostarás também de a ver…
Anita anuiu, agradecendo a atenção do marido.

Eulália, mãe de Anita, recebeu a filha com enorme alegria, perscrutando-lhe o rosto com disfarçada ansiedade.
Não se atrevia a enunciar a pergunta que lhe escaldava os lábios:
- Minha filha, sentes-te feliz?

Seu pai, Justino, mostrava-se radiante com a presença da filha. Contudo, também, disfarçadamente, tentava descobrir no rosto da filha até que ponto ela se sentiria feliz.

Um remorso surdo o atormentava desde que impusera à filha um casamento que ela não desejava, remorso que tentava calar ao verificar o melhor andamento dos seus negócios.

- Afinal, pensava, que futuro seria o da minha querida filha, casando com um pobretanas qualquer, sem ao menos poder contar com o meu apoio financeiro? Porque, a verdade é que, se não fosse o dinheiro que Vicente injectou nos meus negócios, eu já estaria na bancarrota. Com o tempo Anita vai aprender a amar o marido, e vai até agradecer-me ter-lhe posto a felicidade nas mãos, mesmo contra sua vontade.

Anita procurava mostrar a alegria que seria normal numa recém-casada, mas que estava longe de sentir.

Passaram a tarde em amena conversa. Eulália pôs a filha ao corrente das últimas novidades; Anita ouvia, fazendo um ou outro comentário.
Vicente mantinha-se um pouco aparte, conversando com o sogro, inteirando-se da situação dos negócios.

Ao fim da tarde resolveram dirigir-se a casa.

Depois de estacionar o carro e abrir a porta de casa, Vicente, delicadamente, fez sinal a Anita para que entrasse.

Mal deu dois passos no corredor, Anita estacou de repente, com uma expressão de espanto e indignação estampadas no rosto.

FIM DO EPISÓDIO V

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

TOMAR DECISÕES DIFÍCEIS, PORÉM, CORRECTAS

Há poucos dias recebi um email com um texto deveras perturbador.
Na realidade trata-se dum desafio para um exercício que obriga a uma grande reflexão.
É esse mesmo desafio que vos lanço aqui. Reflictam, e respondam com toda a honestidade de que forem capazes.

Eu vinha procurando uma mensagem que envolvesse não somente a você, mas que ,com ela, você pudesse envolver as pessoas do seu relacionamento, num exercício ou num debate. E aqui está: é um exercício poderoso, que se você quiser poderá envolver todas as pessoas das suas organizações, familiar e profissional, para realizá-lo, ou apenas para debater.

O mundo em que estamos vivendo a cada dia nos coloca dia
nte de situações em que precisamos tomar decisões difíceis, porém, correctas, e não há outra maneira, não dá tempo de fugir delas, até mesmo porque, se fugirmos de tomar as decisões difíceis, já estamos tomando uma decisão errada, o que é muito pior.

E você é bom a tomar decisões?

Se a sua resposta for sim, óptimo. O mundo precisa de pessoas como você.

Então, faça esta mesma pergunta para as pessoas com q
uem você se relaciona:
- Você é bom em tomar decisões?
Certamente as respostas serão as mais variadas possíveis.


Então pode ser que você precise despertar nestas pessoas a mesma coragem e determinação que você tem para tomar as suas decisões, ou seja, talvez algumas pessoas de suas organizações familiar ou profissional precisem de coragem e determinação para tomar decisões difíceis, porém, correctas.
E se você
quer encorajar estas pessoas a se determinarem, aqui está uma óptima oportunidade que irá contribuir com a sua transformação e a das pessoas com quem você se relaciona.

O Exercício

Um grupo de adolescentes brinca próximo a duas vias-férreas. Uma das vias está desativada e a outra ainda em operação.

Apenas um adolescente brinca na via desativada, enquanto que os outros brincam na via em operação. O trem de passageiros está vindo, e você está em frente daquele aparelho que, quando accionado manualmente, muda o trem de uma linha para outra; e a decisão é só sua, a sua mente irá accionar as suas mãos ou não.

Você pode mudar o percurso do trem para a pista desativada e salvar a vida da maioria dos adolescentes; porém, com essa tomada de decisão, o adolescente que está brincando na via desativada irá morrer.
Então, o que você faria? Accionaria o aparelho, que muda o trem de uma linha para outra, desviando-o para a via desativada e, assim, apenas um adolescente morreria ou você deixaria o trem seguir pela via em operação e a maioria dos adolescentes morreria?

Certamente, neste momento, você deve estar se lembrando que, em muitas situações na sua vida, este exercício se encaixaria perfeitamente.
Mas agora entre em acção, e antes de continuar lendo, por um ou dois minutos... Pense... Reflicta... Anote a sua tomada de decisão e o porquê desta tomada de decisão.


Independentemente da sua tomada de decisão, vamos fazer uma profunda reflexão.

A maioria das pessoas iria escolher desviar o trem e sacrificar a vida de um só adolescente.

Acredito que você pode ter pensado da mesma forma: salvar a vida da maioria dos adolescentes à custa da vida de um só adolescente.
Esta é a decisão mais racional e que a maioria das pessoas, moralmente e emotivamente, tomaria.
Mas você pensou que o adolescente que escolheu brincar na via desativada foi o único que tomou a decisão correcta e foi brincar num lugar seguro?
Então, por que ele tem que morrer por causa de seus amigos irresponsáveis que escolheram brincar onde estava o perigo?


Este tipo de dilema, de situação, acontece ao nosso redor todos os dias, na empresa, na família e na nossa sociedade como um todo e, incrivelmente, a verdade é que a minoria, frequentemente, é sacrificada pelo interesse da maioria, não importa quão tola, ignorante ou irresponsável seja a maioria, e nem a visão positiva de futuro e o conhecimento da minoria.

Além do mais, se a via férrea havia sido desativada, provavelmente foi por não ser segura, e se você, na tentativa de salvar a vida de alguns adolescentes inconsequentes, sacrificando apenas a vida de um adolescente, desviou o trem do percurso que ele deveria fazer, colocou em risco ou sacrificou a vida de centenas de pessoas: os passageiros do trem!


Se você está passando por um momento em que necessita tomar decisões difíceis, porém, correctas, lembre-se de dois detalhes muito importantes: 1º O que é correcto nem sempre é popular e o que é popular nem sempre é correcto. 2º As tomadas de decisões apressadas, na grande maioria das vezes, não o levam ao lugar certo.

Obs. O autor do texto original é Rui Barbosa.
Carlos Pozzobon introduziu alterações.

Rui Barbosa, falecido em 1923, dispensa apresentações. Direi apenas que foi jurista, político, diplomata, escritor, filólogo, tradutor e orador brasileiro.
Carlos Pozzobon é um estimulador de potencialidades das pessoas, um profissional experiente na arte de despertar e treinar o campeão e o líder que existe em cada um de nós.

domingo, 9 de novembro de 2008

RESSONÂNCIA SCHUMANN

Frequentemente ouve-se dizer – o tempo voa!; o tempo não chega para tudo!; não tenho tempo para nada!...

Será que o tempo se escoa por entre os nossos dedos, ou trata-se apenas de uma impressão, causada pela vida agitada dos dias de hoje?

São os nossos muitos afazeres que nos provocam essa sensação, ou o tempo é mesmo mais curto?

Vejamos o que, a esse respeito, nos diz Leonardo Boff.

Não apenas as pessoas mais idosas mas também jovens têm a sensação de que tudo está se acelerando excessivamente. Ontem foi Carnaval, dentro de pouco será Páscoa, mais um pouco, Natal. Esse sentimento é ilusório ou tem base real?

Pela ressonância Schumann se procura dar uma explicação.

O físico alemão W.O. Schumann constatou, em 1952, que a Terra é cercada por um campo eletromagnético poderoso que se forma entre o solo e a parte inferior da ionosfera, cerca de 100km acima de nós.

Esse campo possui uma ressonância (daí chamar-se ressonância Schumann), mais ou menos constante, da ordem de 7,83 pulsações por segundo. Funciona como uma espécie de marca-passo, responsável pelo equilíbrio da biosfera, condição comum de todas as formas de vida.

Verificou-se também que todos os vertebrados e o nosso cérebro são dotados da mesma frequência de 7,83 hertz.

Empiricamente fez-se a constatação de que não podemos ser saudáveis fora dessa frequência biológica natural.
Sempre que os astronautas, em razão das viagens espaciais, ficavam fora da ressonância Schumann, adoeciam. Mas submetidos à ação de um simulador Schumann recuperavam o equilíbrio e a saúde.

Por milhares de anos as batidas do coração da Terra tinham essa freqüência de pulsações, e a vida se desenrolava em relativo equilíbrio ecológico.
Ocorre que, a partir dos anos 80, e de forma mais acentuada a partir dos anos 90, a freqüência passou de 7,83 para 11 e para 13 hertz.
O coração da Terra disparou.

Coincidentemente, desequilíbrios ecológicos se fizeram sentir: perturbações climáticas, maior atividade dos vulcões, crescimento de tensões e conflitos no mundo e aumento geral de comportamentos desviantes nas pessoas, entre outros.

Devido à aceleração geral, a jornada de 24 horas, na verdade, é somente de 16 horas. Portanto, a percepção de que tudo está passando rápido demais não é ilusória,mas teria base real nesse transtorno da ressonância Schumann.

Gaia, esse superorganismo vivo que é a Mãe Terra, deverá estar buscando formas de retornar a seu equilíbrio natural. E vai consegui-lo, mas não sabemos a que preço, a ser pago pela biosfera e pelos seres humanos.

Aqui abre-se o espaço para grupos esotéricos e outros futuristas projetarem cenários, ora dramáticos, com catástrofes terríveis, ora esperançosos, como a irrupção da quarta dimensão, pela qual todos seremos mais intuitivos, mais espirituais e mais sintonizados com o biorritmo da Terra.

Não pretendo reforçar esse tipo de leitura. Apenas enfatizo a tese recorrente entre grandes cosmólogos e biólogos de que a Terra é, efetivamente, um superorganismo vivo, de que Terra e humanidade formamos uma única entidade, como os astronautas testemunham de suas naves espaciais.

Nós, seres humanos, somos Terra que sente, pensa, ama e venera. Porque somos isso, possuímos a mesma natureza bioelétrica e estamos envoltos pelas mesmas ondas ressonantes Schumann.


Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, Brasil, a 14 de Dezembro de 1938.
Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique - Alemanha, em 1970.
Esteve presente no início da reflexão da conhecida Teologia da Libertação. Foi sempre um ardoroso defensor da causa dos Direitos Humanos, tendo ajudado a formular uma nova perspectiva dos Direitos Humanos a partir da América Latina, com "Direitos à Vida e aos meios de mantê-la com dignidade".
É doutor honoris causa em Política pela universidade de Turim (Itália) e em Teologia pela universidade de Lund (Suécia), tendo ainda sido agraciado com vários prémios no Brasil e no exterior, por causa de sua luta em favor dos fracos, dos oprimidos e marginalizados e dos Direitos Humanos
Em 1984, motivado pelas suas teses ligadas à Teologia da Libertação, apresentadas no livro "Igreja: Carisma e Poder", foi submetido a um processo pela Sagrada Congregação para a Defesa da Fé, ex Santo Ofício, no Vaticano.
Em 1985, foi condenado a um ano de "silêncio obsequioso" e deposto de todas as suas funções editoriais e de magistério no campo religioso. Dada a pressão mundial sobre o Vaticano, a pena foi suspensa em 1986, podendo retomar algumas das suas actividades.
Em 1992, sendo de novo ameaçado com uma segunda punição pelas autoridades de Roma, renunciou às suas actividades de padre e se auto-promoveu ao estado leigo. "Mudou de trincheira para continuar a mesma luta"
Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o prémio Nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).
É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

CONSERTANDO O MUNDO

Há dias recebi, por email, uma frase digna de reflexão.
Dizia o seguinte:

“Fala-se tanto da necessidade de deixar um planeta melhor para os nossos filhos, e esquece-se da urgência de deixarmos filhos melhores (educados, compassivos, responsáveis) para o nosso planeta”
Autor desconhecido

Uma frase aparentemente muito simples, mas com um sentido muito profundo.
Na realidade por todo o mundo se vêm, constantemente, apelos à preservação da Natureza.
Do mesmo modo é frequente ler, após exposição de agressões (e são tantas!) que se fazem ao planeta, a título de comentário – “ que mundo deixaremos para os nossos filhos?”



Considero perfeitamente justa esta preocupação, que é, mais ou menos, generalizada.
No entanto, parece-me não menos justa a chamada de atenção contida na frase acima – “deixarmos filhos melhores para o nosso planeta”.

Se pensarmos, não na herança que deixaremos aos nossos filhos, mas na herança que deixaremos ao nosso planeta, concluiremos que as medidas a adoptar devem ser diferentes daquelas que sempre têm sido defendidas.

Para melhorar o planeta há que começar por melhorar o homem.

Isto é tão simples que até uma criança de sete anos o consegue entender. Ora veja:

Um cientista, muito preocupado com os problemas do mundo, passava os dias no seu laboratório, tentando encontrar meios para minorá-los.
Certo dia, seu filho de sete anos invadiu o seu santuário, decidido a ajudá-lo.
O cientista, nervoso com a interrupção, tentou fazer o filho brincar noutro lugar. Vendo que seria impossível removê-lo, procurou algo que pudesse distrair a criança.
De repente deparou-se com o mapa do mundo, feito em puzzle. Estava ali o que procurava. Desfez o mapa em várias peças e entregou-as ao filho, dizendo:

- Tu gostas de quebra-cabeças? Então vou te dar o mundo para consertar. Aqui está ele todo desarrumado. Vê se consegues consertá-lo bem direitinho. Mas faz tudo sozinho.

Pelos seus cálculos a criança demoraria alguns dias para recompor o mapa.
Passadas algumas horas ouviu o filho chamando-o calmamente.
A princípio o pai não deu grande crédito às palavras do filho. Seria impossível, na sua idade, conseguir recompor um mapa daquele tipo, em tão pouco tempo.
Relutante, o cientista levantou os olhos da
s suas anotações, certo de que iria ver um trabalho digno de uma criança.
Para sua surpresa o mapa estava completo. Todas as peças tinham sido colocadas nos devidos lugares.
Como era possível? Como é que o menino tinha sido capaz???

- Tu não sabias como era o mundo, meu filho. Como conseguiste?

- Pai, eu não sabia como era o mundo, mas quando tu pegaste o mapa para o desfazer, eu vi que, do outro lado, havia a figura de um homem.
Quando me deste o mundo para consertar, eu tentei, mas não consegui.
Foi aí que eu me lembrei do homem.
Virei as peças e comecei a consertar o homem, que eu sabia como era.

Quando consegui consertar o homem, virei o quadro e vi que tinha consertado o mundo.
AD



domingo, 2 de novembro de 2008

O INCONSCIENTE E A FÉ

Eugénio de Sá nasceu em Lisboa, no típico e antigo bairro da Ajuda, em 29 de Março de 1945.
Após concluir o curso comercial frequentou o instituto Comercial e ingressou como voluntário na Força Aérea Portuguesa.
Em 1968, junta-se a um grupo de jornalistas no arranque do Jornal A Capital, onde exerce sucessivamente as funções de redactor do serviço de estrangeiro e chefe da publicidade.
Entretanto reformado, Eugénio de Sá decide aceitar o convite do seu Amigo Padre José Maria Cortes, Pároco de Alverca, onde reside, para assegurar a assessoria de Comunicação, Imagem e Relações Publicas do Pároco enquanto durar a construção da primeira Igreja, no mundo, consagrada aos Pastorinhos de Fátima.
A Igreja dos Pastorinhos, de Alverca, foi inaugurada em 1 de Maio de 2005.

De par com este trabalho assegurou, durante dois anos, a edição do Jornal "Despertar Cebi" – veículo de comunicação de uma das maiores instituições de solidariedade social do país e publicou no jornal "Vida Ribatejana" numerosas, crónicas e poesias.
É de sua autoria a crónica que vou partilhar convosco.

Eugénio de Sá

O Inconsciente e a Fé

Enquanto o temperamento o herdamos nos genes e se submete ao que os astros nos ditam no ato de nascer, o carácter, esse, vai-se moldando e caracterizando à medida que vamos adquirindo conhecimentos e recebendo influências.

É assim que se gera uma personalidade, rica ou pobre nos princípios, forte ou fraca na vontade, enérgica ou indolente na determinação, romântica nos impulsos do coração, ou analítica e consistente na razão, feita de indomáveis excessos, ou de contidas temperanças.

Tudo isto nos define como seres racionais mas providencialmente, quiçá, limitados ao uso do consciente, isto é: daquilo que nos é dado conhecer de nós próprios, uma vez que o inconsciente que, identicamente, partilha o nosso cérebro, permanece hermético e inquestionável.

Quem nos criou soube o que fez com esta máquina de concepção impressionante que somos todos nós, porque está para além da imaginação humana o que poderia acontecer se tivéssemos acesso ao nosso inconsciente e o que poderíamos fazer com isso.

Não somos só energia pura, mas dotados daquilo a que se convencionou chamar de alma.

Sem dúvida que constituiu, para nós, um aliciante apelo a visão de uma outra dimensão, que está para além de uma interpretação linear, com base no que nos dizem os nossos sentidos.

É comum a tentativa de exploração do denominado sobrenatural, do transcendente. Pode (e deve) haver outra vida para além da presente ou não faria sentido esta escassa temporalidade da nossa existência.

Pode o espírito que nos anima ter habitado outros corpos no passado e, porventura, vir a encarnar outros no futuro.

É uma teoria possível, como possíveis são outras, mais ou menos apoiadas pela religião ou por movimentos espiritualistas, todas credoras de respeito e, certamente, passíveis de cuidada reflexão.

Investigações de fenómenos ditos paranormais, recolha de depoimentos de indivíduos que passaram por experiências de morte aparente e “voltaram à vida”, propõem apoiar, através dessas casuísticas ocorrências, a teorização da vida após a morte.

Pode o nosso inconsciente - a grande parte submersa (ou invisível) deste iceberg que é o cérebro humano - vir a explicar muitas das dúvidas que nos são propostas pela vontade que nos exige essas explicações, ou irá permanecerá obscuro tudo o que está para além da nossa imediata compreensão?

De tudo o que foi dito, emerge um maravilhoso enigma, que nos consagra definitivamente como entes eleitos deste planeta; a fé que aflora ao nosso coração perante situações incontroláveis, mormente as mais penosas.

A fé em algo de divino que se corporiza ou evoca, um santo, a Virgem, Cristo, ou mesmo Deus, que imaginamos (simplistamente) feito à nossa imagem e semelhança, ou, na inversa; sem essa presunção.

Não tenho a pretensão de querer explicar o que quer que seja sobre o assunto, mas, tão-somente, trazer a estas linhas a minha funda convicção da presença em nós do divino.

Concentro a minha própria fé num ou mais ícones da minha religião, católica, sem qualquer menosprezo por outros que professam diferentes credos, uma vez que a bondade dos fundamentos é em tudo similar.
É só uma questão de nomenclatura.

EUGÉNIO DE SÁ
Poeta e escritor português

(publicada no "Diário da Região", de São José do Rio Preto)

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

UM PASSEIO À NORUEGA

Tenho uma caixa (na verdade é mais um pequeno caixote de cartão) onde vou colocando coisas para mais tarde arrumar nos seus devidos lugares.
Ontem olhei para ela de soslaio e pensei: está na hora de dar aqui uma volta, antes que isto transborde…

No meio de vários papéis a aguardarem arquivo, encontrei umas fotografias para intercalar no álbum de fotos dum passeio que dei à Noruega. Ao vê-las “revi” aquela maravilhosa viagem, e várias peripécias que aconteceram.
Há sempre inúmeras histórias para contar, das viagens. Esta que vou partilhar convosco parece-me bastante interessante. Eu chamar-lhe-ia “uma história de contrastes”.

Há três ou quatro anos fui visitar a Noruega na companhia de um grupo de bons amigos.
Saímos de Lisboa em meados de Julho, rumo a Oslo, a capita. Aí premanecemos dois dias, visitando a cidade e seus monumentos, e, como não podia deixar de ser, o famoso Parque Frogner.

Dentro deste parque existe uma exposição permanente de cerca de 200 estátuas e outras obras de arte do escultor norueguês Gustav Vigeland. (por isso é também conhecido por Parque Vigeland)

Este escultor dedicou a maior parte da sua obra ao culto Homem/Mulher, inspirando-se muitas vezes na mitologia grega e também na Bíblia.

A entrada do Parque é ladeada por grande quantidade de esculturas, todas subordinadas aos temas “Homem/Mulher, “Fertilidade”, e “Natureza”




















Não vou alongar-me muito em pormenores. Descrever um passeio de duas semanas daria para escrever um livro…e não é neste espaço que pretendo fazê-lo.

Continuamos viagem para norte. A Noruega é um país lindíssimo, com paisagens maravilhosas, muito diferentes do que vemos habitualmente.

Chegamos a um ponto do nosso percurso que incluía um passeio, a pé, com duração prevista de 4 horas, a uma formação rochosa chamada “Preikestolen”.
Antes de iniciarmos a caminhada o guia forneceu-nos um folheto que dizia:

Visita ao PREIKESTOLEN
Visita a uma curiosidade natural única, considerada como o observatório mais famoso de toda a Escandinávia. A enorme coluna rochosa PREIKESTOLEN cai vertiginosamente a pique, 600 metros, nas águas do Lysefiord. Não tem qualquer acesso por estrada, logo, só é possível realizar esta visita a pé. É necessário levar calçado adequado, pois a caminhada dura cerca de 4 horas, por caminho bastante irregular.

Os organizadores do passeio “esqueceram-se” de informar que:
- Parte do trajecto é feito caminhando de lado, agarrados a correntes de ferro presas nas rochas.
- Há uma inclinação, no sentido descendente, de tal modo íngreme e escorregadia que temos que deslizar acocorados em cima dos calcanhares, agarrados a lianas.
- Quase todo o percurso é feito sobre pedras soltas, como se pode ver na foto seguinte.

Não há quaisquer indicações ou mapas, excepto essas marcas vermelhas (como a que se vê na foto), que nos “dizem” qual é a rocha seguinte…

Mas todo o esforço se dá por bem empregue quando se atinge o topo.
A sensação é a de que se está mesmo no topo do mundo!


(As fotos seguintes não foram feitas por mim, é claro. São reproduções de cartões postais)





















Depois de apreciar a maravilhosa paisagem que se desfruta lá de cima, de encher os pulmões daquele ar puríssimo e de tirar imensas fotografias, iniciamos o regresso.

Agora no sentido descendente, muito mais fácil do que a subida, alguns metros decorridos, inexplicavelmente caí, fiz uma entorse tíbio-társica no pé direito, que me impossibilitou de caminhar.
Num piscar de olhos o tornozelo começou a inchar e as dores a tornarem-se insuportáveis.
Amavelmente, os meus companheiros de viagem tentaram ajudar. Tarefa inglória! Naquele trecho do caminho só cabiam os pés de uma pessoa de cada vez.
Depois de várias tentativas, - um à minha frente dando-me um braço para eu me apoiar, outro atrás de mim fazendo a mesma coisa - acabamos por desistir.
Começamos a pensar em qual seria a melhor forma de me retirarem daquele local.
Para se sair dali, sem poder andar pelo seu pé…só com asas. É impossível qualquer tipo de socorro por terra
Eu já me imaginava a passar a noite, que se aproximava, naquele local desabrigado. Comecei a ficar seriamente preocupada.
Mas…os deuses estavam por mim!
Cruzou-se connosco um jovem casal de noruegueses, que ia a subir, e, ao ver-me amparada e parada, com um pé no ar, perguntaram se precisávamos ajuda.
Contamos o que tinha acontecido, e como estávamos aflitos sem saber como resolver aquela situação.
Foi quando soubemos, por eles, que existe um serviço de assistência de helicóptero para casos semelhantes, quer se esteja no Preikestolen quer em qualquer outro local de difícil acesso, em qualquer ponto da Noruega.
De posse do número de telemóvel que eles nos forneceram, chamou-se um helicóptero que me transportou ao hospital – ambos os serviços, transporte e assistência hospitalar completamente grátis !!!


(Ao fundo, o helicóptero que me evacuou. Ninguém me pôde acompanhar; no heli só havia espaço para mim, ( nesta altura já estava lá dentro) além dos paramédicos. A imagem não é muito boa; foi retirada do filme que um amigo fez de toda a viagem).

No hospital recebi assistência médica, e de lá regressei em cadeira de rodas que, ao fim de 2 ou 3 dias, foi substituída por canadianas.
Com elas fiz o resto da viagem pela Noruega, e com elas regressei a Lisboa.

Apanhamos o avião de regresso a Lisboa em Estocolmo, Suécia, fazendo escala, com mudança de avião, em Frankfurt, Alemanha.
Pelo facto de vir de canadianas tive tratamento VIP nestes 2 aeroportos, de Estocolmo e da Alemanha.
Quem conhece o aeroporto de Frankfurt sabe que as suas dimensões são impressionantes.
Quem tiver que fazer transbordo tem que percorrer uma distância enorme!
Como eu estava lesionada, transportaram-me num carrinho eléctrico (o marido aproveitou a boleia…)
Viajei em 1ª.classe, (para grande inveja dos meus amigos companheiros de viagem…) e a bordo encheram-me de mimos! Até nos ofereceram champanhe! E, depois de nos fornecerem ementa para escolhermos o almoço, e termos almoçado, serviram-nos um belo café acompanhado de bombons de chocolate!

Claro que à chegada ao aeroporto de Lisboa nem uma cadeira tive para me sentar!!! A solução foi aguardar a saída das bagagens apoiada às canadianas.
Aí caímos na realidade… do 3º.mundo !!!

domingo, 26 de outubro de 2008

O MEDO

Há quem defenda que o recém-nascido “traz” consigo dois medos – o medo do barulho e o medo de cair.
De facto, se expusermos um bebé a um ruído forte, verificamos que ele se agita, inquieto. E, se simularmos deixá-lo cair, o bebé encolhe-se e pode, eventualmente, dependendo da intensidade do susto, até chorar.

A psicologia diz-nos que a maioria dos medos que nos acompanham são adquiridos na infância, quase sempre incutidos pelos pais e educadores, ou como resultado de qualquer experiência traumática.

Dominados pelo medo podemos cometer actos irreflectidos, por vezes funestos.

Epicuro, filósofo grego (341 a 241 a.C.), cuja vida foi marcada pela serenidade e doçura, entendia que o essencial para a felicidade era uma vida tranquila, cercado de amigos, em completa ausência de dor e de medos.
“A representação vulgar do mundo com os seus deuses, o medo dos quais fez com que se cometessem os piores actos, é obstáculo à serenidade”.
“Para encontrar a felicidade o homem precisa aprender a superar os seus temores, até mesmo o da morte”.

Actualmente a psicologia divide os medos em normais e irracionais.
Normal é o medo que nos previne do perigo: ter medo de nos atirarmos da janela para saber qual a sensação de voar; ter medo de ser assaltado; ter medo de desafiar os mais fortes e depois sofrer represálias...
Ao medo do perigo associa-se o desejo de sobrevivência, o que torna este tipo de medo normal.

Irracional é o medo que nos domina completamente, nos leva a alterar hábitos e rotinas, que nos escraviza.

A melhor forma de combater os medos é enfrentá-los.
Não é fácil. Normalmente é até muito difícil; e, para o conseguir há que, muitas vezes, recorrer à ajuda de especialistas.

O medo mais comum é, sem dúvida, o medo do desconhecido.
Postos perante o desconhecido, nem sempre optamos pela melhor solução.

A PORTA NEGRA

Era uma vez um país de Mil e Uma Noites.
Neste país havia um rei que era muito polémico por causa dos seus actos.
Levava os prisioneiros de guerra para uma grande sala.
Os prisioneiros eram enfileirados no centro da sala, e o rei gritava:
- Eu vou dar-vos uma chance. Olhem para o canto direito da sala.
Ao olharem, os prisioneiros viam alguns soldados armados de arco e flechas, prontos para a acção.
- Agora, - continuava o rei – olhem para o canto esquerdo.
Ao olharem, todos os presos notavam que havia uma terrível Porta Negra, de aspecto dantesco.
Crânios humanos serviam como decoração, e a maçaneta era a mão de um cadáver.
Algo horripilante só de imaginar, quanto mais para ver.
O rei posicionava-se no centro da sala e gritava:
- Agora escolhem. O que é que vocês preferem? Morrerem cravados de flechas ou abrirem rapidamente aquela Porta Negra e entrarem lá dentro enquanto eu vos fecho lá?
Decidam. Vocês têm livre arbítrio. Escolham!
Todos os prisioneiros tinham o mesmo comportamento: na hora da decisão eles chegavam junto da terrível Porta Preta de mais de quatro metros de altura, olhavam para os desenhos de caveiras, sangue humano, esqueletos, aspecto infernal, coisas escritas do tipo “ Viva a morte”, etc., e decidiam: Quero morrer flechado.
Um a um todos agiam assim: olhavam para a Porta Negra e para os arqueiros da morte e diziam para o rei:
-Prefiro ser atravessado por flechas a abrir essa Porta Negra e ser trancado lá dentro.
Milhares optaram pelo que estavam vendo – a morte feia pelas flechas.
Um dia, a guerra acabou.
Passado algum tempo, um daqueles soldados do “Pelotão da Flechada” estava varrendo a enorme sala quando surgiu o rei.
O soldado, com toda a reverência e meio sem jeito, perguntou:
- Sabe, ó grande rei, eu sempre tive uma curiosidade… Não se zangue com minha pergunta, mas…o que tem além daquela Porta Negra?
O rei respondeu:
- Lembras-te que eu dava aos prisioneiros duas escolhas? Pois bem, vai e abre a Porta Negra.
O soldado, trémulo, rodou cautelosamente a maçaneta e sentiu um raio puro de sol beijar o chão feio da enorme sala. Abriu mais um pouquinho a porta, e mais sol e um gostoso cheirinho de verde inundaram o local.
O soldado notou que a Porta Negra abria para um caminho que apontava para uma grande estrada.
Foi então que o soldado percebeu: a Porta Negra dava para a Liberdade.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

SINCERIDADE

Já aqui falamos várias vezes de Amor, Amizade, e, pelo menos afloramos, muitos outros sentimentos.
Hoje vamos debruçar-nos sobre a “Sinceridade”.
Comecemos por ver o que nos diz Malba Tahar sobre a origem da palavra «sincera».

A ORIGEM DA PALAVRA SINCERA

Sincera é uma palavra doce e confiável.

Sincera é uma palavra que acolhe.

E essa é uma palavra que deveria estar no vocabulário de toda a gente.

Sincera foi uma palavra inventada pelos romanos.

Sincero vem do velho, do velhíssimo latim…

Eis a poética viagem que fez “sincero” de Roma até aqui:

Os romanos fabricavam certos vasos de uma cera especial.
Essa cera era, às vezes, tão pura e perfeita, que os vasos se tornavam transparentes.
Em alguns casos chegava-se a distinguir um objecto – um colar, uma pulseira ou um dado – que estivesse colocado no interior do vaso.

Para o vaso, assim fino e límpido, dizia o romano vaidoso:
- Como é lindo! Parece até que não tem cera!
“Sine-cera” querida dizer “sem cera”, uma qualidade de vaso perfeito, finíssimo, delicado, que deixava ver através das suas paredes.

Da antiga cerâmica romana, o vocábulo passou a ter um significado muito mais elevado.

Sincero é aquele que é franco, leal, verdadeiro; que não oculta, não usa disfarces, malícias ou dissimulações.

O sincero, à semelhança do vaso, deixa ver, através de suas palavras, os nobres sentimentos de seu coração.


A maioria dos escritores e pensadores manifestaram, ao logo dos tempos, a sua opinião acerca da sinceridade.
Vejamos alguns exemplos:

André Gide, conhecido escritor francês, autor de inúmeros livros e Prémio Nobel de Literatura de 1947, disse:

“Não se pode, ao mesmo tempo, ser sincero e parecê-lo”

“Em geral consideram-se sinceros todos os rapazes com convicções, e incapazes de criticar”

Por seu lado, François La Rochefoucaud, também escritor francês, pensava:

“A sinceridade é uma abertura do coração. Encontramo-la em muito poucas pessoas, e essa que vulgarmente por aí se vê, não passa de uma astuta dissimulação para atrair a confiança alheia”.

“As pessoas fracas não podem ser sinceras”.

“Alguma desconfiança que tenhamos da sinceridade de quem nos fala, não impede que julguemos sempre que são mais sinceros connosco que com os outros”

E, por último, vejamos o que pensava da sinceridade o nosso Fernando Pessoa:

“Nunca sabemos quando somos sinceros. Talvez nunca o sejamos. E mesmo que sejamos sinceros hoje, amanhã podemos sê-lo por coisa contrária”.

“Quando falo com sinceridade, não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe”.

“Custa tanto ser sincero quando se é inteligente! É como ser honesto quando se é ambicioso”.

“No teatro da vida quem tem o papel de sinceridade é quem, geralmente, mais bem vai no seu papel”.

“Toda a sinceridade é uma intolerância. Não há liberais sinceros. De resto, não há liberais”.

Sem quaisquer pretensões a escritora ou pensadora…"penso" que a sinceridade deve ser usada com conta, peso e medida.
Quantas vezes, por uma questão de piedade, não podemos ser completamente sinceros?
E também, às vezes, por uma questão de prudência, temos que calar a verdade sincera, porque:

“Quem diz o que quer ouve o que não quer”!

domingo, 19 de outubro de 2008

AMOR E LOUCURA

Em tempos passados existiram duas crianças, um menino e uma menina, que tinham entre quatro e cinco anos de idade.
O menino chamava-se Amor e a menina Loucura.

O Amor sempre foi uma criança calma, doce e compreensiva.
Já a Loucura era muito emotiva, passional e impulsiva, enfim, do tipo que jamais levava desaforo para casa.

Entretanto, apesar de todas as diferenças, as crianças cresciam juntas, inseparáveis, brincando, brigando...


Mas houve um dia em que o Amor não se sentia muito bem, e acabou respondendo às provocações de Loucura, com a qual teve uma discussão muito feia.

Ela não deixava nada barato, estava furiosa como nunca com o Amor. Começou a agredi-lo, mas não só verbalmente, como de costume.
A menina estava tão descontrolada que agrediu o garoto fisicamente, e, antes que pudesse perceber, arrancou os olhos do Amor.

O Amor, sem saber o que fazer, chorando, foi contar à sua mãe, a deusa Afrodite, o que havia acontecido.
Inconsolada, Afrodite implorou a Zeus que ajudasse seu filho, mas que não castigasse Loucura.

Zeus, por sua vez, ordenou que chamassem a garota para uma conversa.

Ao ser interrogada, a menina respondeu, como se estivesse com toda a razão, que o Amor a tinha aborrecido, e que foi merecido tudo o que aconteceu.

Embora soubesse que não fora justa com o seu amigo, a menina, que nunca soube desculpar-se, concluiu dizendo que a culpa havia sido do Amor e que não estava nem um pouco arrependida.

Zeus, perplexo com a aparente frieza daquela criança, disse que nada poderia fazer para devolver a visão do Amor, mas ordenou que Loucura ficasse condenada a guiá-lo por toda a eternidade, estando sempre junto ao Amor, em cada passo que este desse.

E, até hoje, eles caminham juntos: onde quer que o Amor esteja com ele estará Loucura, quase que fundidos um no outro.
São tão unidos que por vezes não se consegue definir onde termina o Amor e onde começa a Loucura.

É também por isso que se costuma dizer que o Amor é cego; mas isso não é verdade, pois o Amor vê com os olhos da Loucura.

Autor desconhecido

Veja o vídeo

O AMOR É LOUCO...

Canção. Intérprete: Carlos Ramos.


quinta-feira, 16 de outubro de 2008

BALADA PARA OUTRAS ISABELLAS

Olá! Eu vim lhe contar um pouco da minha história...
Peço atenção, seu “dotô”, um instante, não demora...

Meu nome não é Isabella nem “caí” de uma janela do quarto no sexto andar...(será que pensaram, os insanos, que ela sabia voar?)

Não moro num prédio equipado, não tenho motos, brinquedos, nem piscina pra nadar...
Eu brinco, às vezes, nas poças de chuva, com gatos, latinhas, bolinhas de gude...isso quando não tenho que a mãe ajudar...

Não sei dançar, e não brinco como menina educada, porque aprendi, desde cedo, lá no morro onde nasci, que não importa o sexo da criança: menino ou menina, a experiência, é viver o teatro da sobrevivência...

Não me chamo Isabella... nem fui morta (ainda) por meu pai ou madastra...mas morro um pouco, a cada dia, quando sou espancada.
E morro também,assim, engasgada, obrigada a me calar quando tenho mãos sobre mim...nem sempre a me sufocar, mas explorando, de um jeito esquisito, que nem entendo direito,no meu corpo sem contornos...

Meu nome ,não é Isabella...
Não tenho cabelos lisos,nem tenho olhinhos espertos...
Ao contrário: meus olhos são opacos, talvez, por não querer enxergar
minha dura realidade...

Também não faço teatros, lá no palco da escolinha... isso não é para mim...
Quando vou à escola, é somente p’ra comer a merenda que me dão... pois muitas vezes, em casa, não temos sequer o pão...

O máximo que sei é correr: morro abaixo, morro acima, entre os carros dos sinais...para ganhar um trocado, ou para fugir dos adultos, que insistem em me machucar...

Eu não me chamo Isabella...mas, como ela, (ou até mais!) eu sofro... e diariamente...
Tenho marcas de pancadas, queimaduras de cigarros, tenho ossos fraturados, boca sangrando, hematomas, que mãos e pés gigantescos
me provocam sem motivo...

Não morri, como Isabella...
Ainda não... mas irmãos, amiguinhos, conhecidos, eu sempre vejo morrer...
Quem matou? Nunca se sabe...”ele caiu”, “tropeçou”,”queimou-se por acidente”.
“Estrupada?”, “coitadinha”...
“Não fui eu”, diz o padrasto; “nem eu”, diz a mãe omissa...
E eles não têm nem quem reze para eles, uma missa...

Eu não me chamo Isabella...sou Maria, Rita, João…
Sou Josefina, sou Mirtes, sou Paulo, Sebastião...
Sou tantas, tantas crianças, que todo dia a omissão de todos deixa morrer...



Engraçado é que ninguém, faz passeata por mim, a imprensa não divulga, o “figurão” não se importa, a classe média não grita, os ricaços dão de ombros...
Que hipocrisia é essa, de chorar por uma só?
São tantas as Isabelas violentadas sem dó...

Mas que importam os escombros, a escória da sociedade?

Se não me chamo Isabella, não mereço piedade.

Recebi por email, de um amigo brasileiro.
Sem comentários!

domingo, 12 de outubro de 2008

RECORDANDO UMA ESTRELA

Passaram-se 20 anos desde que se apagou mais uma estrela no firmamento musical português – Carlos Paião.
Foi no dia 26 de Agosto de 1988 que uma “das maiores e mais queridas estrelas do mundo da música portuguesa” nos deixou para sempre.

Dirigia-se para Leiria, onde iria actuar num espectáculo, quando foi surpreendido pela morte, num violento acidente de viação.

Noticia da Morte de Carlos Paião RTP Jornal de Sabado 1988



Em breve se gerou em torno da sua figura o boato de que não estaria morto na altura do seu funeral, mas sim em coma. A verdade é que a violência do acidente não permitiria a sobrevivência fosse de quem fosse, mas o boato mantém-se extremamente arreigado até aos dias de hoje.

Nascido em Coimbra a 1 de Novembro de 1957 passou a maior parte da sua juventude entre Ílhavo e Lisboa, tendo-se licenciou em Medicina pela Universidade de Lisboa, em 1983.

Pouco depois decidiu dedicar-se exclusivamente à música, para a qual, desde muito jovem, mostrava particular aptidão. Com apenas 23 anos de idade tinha já composto mais de 200 canções.

Em 1981, Carlos Paião decidiu enviar algumas delas ao Festival RTP da Canção, numa altura em que este certame representava uma plataforma para o sucesso e a fama no mundo da música portuguesa.
"Play-Back", a canção seleccionada, ganhou o Festival RTP da Canção, com a esmagadora pontuação de 203 pontos, deixando para trás concorrentes tão fortes como as Doce, já na altura muito populares em Portugal.
A canção, uma crítica divertida, mas contundente, aos artistas que cantam em play-back, ficou em penúltimo lugar no Festival da Eurovisão, que se realizou nesse ano em Dublin, na República da Irlanda.

Carlos Paião - Play-Back Eurovisão 1981



Compositor, intérprete e instrumentista, Carlos Paião produziu mais de quinhentas canções, tendo sido homenageado em 2003, com um CD comemorativo dos 15 anos da sua morte.

Muitas são as canções que perduram na nossa memória.
Por exemplo «Pó de Arroz», composta em 1981

Carlos Paião | Pó de Arroz



ou a posterior «Cinderela»

Carlos Paião – Cinderela



A editora Valentim de Carvalho chegou a encomendar a Carlos Paião canções para outros intérpretes, entre eles Amália Rodrigues, para quem compôs, em 1982, «O Senhor Extra Terrestre», cuja letra chegou mesmo a constar dum manual para alunos da escola primária.

Carlos Paião partiu, mas perdura na nossa memória.
Saudades!... Grande Carlos! Que estejas sempre em paz!
Obrigado por tudo o que nos deixaste!!!

Deixo aqui, para quem quiser ler, a letra da canção «O Senhor Extra Terrestre»

Vou contar-vos um história
que não me sai da memória,
foi p’ra mim uma vitória
nesta era espacial.
Noutro dia estremeci
quando abri a porta e vi
um grandessíssimo ovni
pousado no meu quintal.
Fui logo bater à porta,
veio uma figura torta,
eu disse: se não se importa
poderia ir-se embora,
tenho esta roupa a secar
e ainda se vai sujar
se essa coisa aí ficar
a deitar fumo p’ra fora.
E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá o botãozinho
e pôde contar-me então
que tinha sido multado
por o terem apanhado
sem carta de condução.

O senhor desculpe lá,
não quero passar por má,
pois você onde está
não me adianta nem me atrasa.
O pior é que a vizinha
que parece que adivinha
quando vir que estou sozinha
com um estranho em minha casa.
Mas já que está aí de pé
venha tomar um café,
faz-me pena, pois você
nem tem cara de ser mau
e eu queria saber também
se na terra donde vem
não conhece lá ninguém
que me arranje bacalhau.
E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho,
disse para me pôr a pau,
pois na terra donde vinha
nem há cheiro de sardinha
quanto mais de bacalhau.

Conte agora novidades:
É casado? Tem saudades?
Já tem filhos? De que idades?
Só um? A quem é que sai?
Tem retratos com certeza,
mostre lá? Ai que riqueza,
não é mesmo uma beleza,
tão verdinho? sai ao pai.
Já está de chaves na mão?
Vai voltar p’ro avião?
Espere, que já ali estão
umas sandes p’ra viagem
e vista também aquela
camisinha de flanela
p’ra quando abrir a janela
não se constipar co’a aragem.
E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho
e pôde-me então dizer
que quer que eu vá visitá-lo,
que acha graça quando eu falo
ou ao menos p’ra escrever.

E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho
só p’ra dizer: Deus lhe pague.
Eu dei-lhe um copo de vinho
e lá foi no seu caminho
que era um pouco em ziguezague

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

ANITA

ANITA – EPISÓDIO IV

(Ficção baseada em factos reais)

…Comprou os selos, colou-os no envelope, e entregou a carta à funcionária, para que a fizesse seguir. Despediu-se com um breve “até logo”.
FIM DO 3º.EPISÓDIO

EPISÓDIO IV

A funcionária, com o envelope na mão, leu o endereço, reparando que era dirigido a um homem. Alguma coisa lhe dizia que algo estranho se passava, pois não tinha memória de alguma vez Anita ter escrito a um homem.
Hesitou, acabando por pôr a carta de lado.

À hora normal fechou o posto do correio. Dirigiu-se a casa de Anita, levando consigo a carta.
Foi recebida por Eulália, a quem, depois de muitos rodeios, acabou por contar o que passara nessa manhã, entregando-lhe a carta que não fizera seguir.

Logo que se encontrou só, a mãe de Anita fechou-se no seu quarto e, nervosamente, leu tudo o que a filha escrevera na noite anterior.
O seu espanto não tinha limites! Mal podia acreditar no que os seus olhos estavam vendo.
- Como é possível? - pensava.
Anita foi sempre uma filha tão obediente, respeitadora…
Como se atreve agora a rebelar-se desta maneira?
Como foi arranjar um namorado sem que eu ou o pai suspeitássemos de nada?
E quando foi que isso aconteceu?
Todas as vezes que veio cá de férias nada de anormal se notou no seu comportamento… Só pode ter sido neste último ano que passou na capital.

Sem saber que atitude tomar, optou por fingir que nada sabia. Falou com Anita com a naturalidade habitual, alvitrando sugestões para o vestido de casamento, a festa, os convites…

Quando à noite regressou a casa, Justino notou-lhe um certo nervosismo, que atribuiu à aproximação do casamento da filha. Uma sombra toldou-lhe o olhar, ao lembrar-se que iria perder a sua menina para outro homem.

O serão decorreu como habitualmente. A sós no quarto, finalmente Eulália pôde confiar ao marido o que tanto a preocupava. Receosa da sua reacção, contou-lhe brevemente como tinha a carta em seu poder.
Não esperava a frieza com que ele leu e releu a carta, e muito menos a sua observação:
- Temos que apressar o casamento. Amanhã mesmo irei falar com Vicente. Arranjarei uma desculpa qualquer para justificar tanta urgência. Entretanto, vamos proceder como se não soubéssemos de nada. Anita não pode desconfiar que descobrimos o seu segredo.

Nessa noite Anita conseguiu dormir descansadamente, convicta de que muito em breve Arnaldo haveria de descobrir uma forma de os libertar.
Lentos, os dias foram-se passando.
Fingia interesse pelos detalhes relacionados com o casamento, de que a mãe falava constantemente. Só à hora da chegada do correio se dirigia alvoroçada ao encontro do carteiro. Mas uma semana se passou, e a esperada resposta não chegava.

Começou então a ficar preocupada, nervosa. Não conseguia perceber tal silêncio.
Arnaldo não podia tê-la esquecido assim tão depressa. Ter-se-ia assustado com o rumo dos acontecimentos? Não teria coragem para assumir o seu amor contra a vontade de seus pais? Anita perdia-se em conjecturas, sem chegar a nenhuma conclusão.

Desesperada, escreveu nova carta, que teve o mesmo destino que a primeira – as mãos de Eulália.

Continuando sem respostas às suas cartas, aos poucos Anita foi-se convencendo que Arnaldo a esquecera, ou não teria coragem para assumir a responsabilidade de vir libertá-la do compromisso que seus pais haviam assumido para com Vicente.

Anita sentia-se desiludida. Fosse por um motivo ou por outro, afinal Arnaldo não era o homem que ela imaginara e com quem sonhara construir uma vida a dois.


Desde que começara o noivado Vicente ia todas as noites visitar a sua noiva.
Seguindo a tradição da época, sentavam-se na sala onde Eulália também se encontrava. Esta fingia-se absorvida pelos seus bordados. Uma vez por outra saía da sala por breves momentos, tentando favorecer um ambiente mais descontraído entre os noivos. Ela apercebia-se da tensão em que se encontrava a filha.

Vicente conversava longamente, expondo os seus planos para o que seria uma vida repleta de felicidade.
Anita ouvia-o, com um leve sorriso ausente, acenando, em sinal de concordância.
Havia, contudo, um ponto, em que Anita exigia que a sua vontade fosse respeitada.

domingo, 5 de outubro de 2008

BUNDA MOLE, É?

Os telespectadores portugueses, especialmente os que vêem ou viram novelas, lembram-se dela, com certeza, actuando em «A próxima vítima», «Olho no olho», «Brega e chique», entre outras.

Nascida a 1 de Maio de 1955, Patrícia Travassos é actriz e roteirista brasileira.
Começou a sua carreira artística pelo teatro, compôs canções e dirigiu espectáculos duma banda rock.
No cinema participou de roteiros e actuou nalguns filmes.

Actualmente apresenta, na televisão, o programa “Alternativa Saúde”, no canal GNT, e é cronista de revista Marie Claire.

O seu primeiro livro chama-se «Este sexo é feminino». É dele o excerto que partilho convosco.

Belinha acordou às seis, arrumou as crianças, levou-as para o colégio e voltou para casa a tempo de dar um beijo burocrático em Artur, o marido, a fim de trocarem cheques, afazeres e reclamações.
Fez um supermercado rápido, brigou com a empregada que manchou seu vestido de seda, saiu como sempre apressada, levou uma multa por estar dirigindo com o celular no ouvido e uma advertência por estacionar em lugar proibido, enquanto ia, por um minuto, ao caixa automático tirar dinheiro.
No caminho do trabalho batucava ansiedade no volante, num congestionamento monstro e pensava quando teria tempo de fazer a unha e pintar o cabelo antes que se transformasse numa mulher grisalha.
Chegando ao escritório, foi quase atropelada por uma gata escultural que, segundo soube, era a nova contratada da empresa, para o cargo que ela, Belinha, fez de tudo para pegar, mas que, apesar do currículo excelente e de seus anos de experiência e dedicação, não conseguiu.
Pensou se abdômen definido contaria ponto, mas logo esqueceu a gata, porque no meio de uma reunião ligaram do colégio de Clarinha, sua filha mais nova, dizendo que ela estava com dores de ouvido e febre.
Tentou em vão, achar o marido e, como não conseguiu,
Resolveu ela mesma ir até o colégio, depois do encontro com o novo cliente, que se revelou um chato, neurótico, desconfiado, e com quem teria que lidar nos próximos meses.
Saiu esbaforida e encontrou seu carro com pneu furado.
Pensou em tudo que ainda ia ter que fazer antes de fechar os olhos e sonhar com um mundo melhor.
Abandonou a droga do carro avariado, pegou um táxi e as crianças.
Quando chegou em casa, descobriu que tinha deixado a pasta com o relatório que precisava ler para o dia seguinte, no escritório!
Telefonou para o celular do marido com a esperança que ele pudesse pegar os papéis na empresa, mas o celular continuava fora de área.
Conseguiu, depois de vários telefonemas, que um “motoboy” lhe trouxesse os documentos.
Tomou um banho, deu o jantar para as crianças, fez os deveres com eles e os botou para dormir.
Artur chegou irritado de uma reunião em São Paulo, reclamando de tudo.
Jantaram em silêncio.
Na cama, ela leu metade do relatório e começou a bocejar de sono.
Quando estava quase pegando no sono, sentiu uma apalpadinha no traseiro com o seguinte comentário:
“-Tá ficando com a bundinha mole, Belinha... Deixa de preguiça e comece a se cuidar...”
Belinha olhou para o abajur de metal e se imaginou martelando a cabeça de Artur com ele.
Respirou três vezes profundamente, mentalizando a cor azul, e ponderou resolver agir com sabedoria.
No dia seguinte, não levou as crianças ao colégio, não fez um supermercado rápido, nem brigou com a empregada.
Foi para a academia e malhou duas horas!
De lá, foi para o cabeleireiro pintar os cabelos de acaju e as unhas de vermelho.
Ligou para o cliente novo insuportável e disse tudo que achava dele, da mulher dele e do projeto dele.
E aguardou os resultados da sua péssima conduta, fazendo uma massagem estética que jura eliminar, em dez sessões, a gordura localizada.
Enquanto se hospedava num “Spa”, ouviu o marido desesperado, tentar localizá-la pelo celular e descobrir por que ela havia sumido.
Pacientemente, ela não atendeu...
E, como vingança é um prato que se come frio, mandou um recado lacônico, para a caixa postal dele:
“-A bunda ainda está mole... Só volto, quando estiver dura...
Um beijo da preguiçosa!..”
Mulher não é um bicho inteligente?

Extraído do livro “Este sexo é feminino” de Patricia Travassos

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

QUASE ACREDITEI

Sofia Morgado é hipnoterapeuta profissional, diplomada pelo London College of Clynical Hypnosis, supervisora e tutora do Centro de Hipnose Clínica Ibérico (extensão do London College of Clynical Hypnosis em Portugal e Espanha).

Exerce a sua profissão em Lisboa e em Sobreda (margem sul)

Especializou-se na área das perturbações de ansiedade – stress, ataques de pânico, fobias, ansiedade generalizada, stress pós traumático, etc. – ajudando muitas pessoas, ao longo dos últimos oito anos, a resolver os seus problemas.

É autora de inúmeros artigos sobre desenvolvimento pessoal e relações inter-pessoais, muitos deles condensados no livro «Consciência do SER».

É da sua autoria o texto que partilho convosco.

QUASE ACREDITEI

Quase acreditei que não era nada, ao me tratarem como nada.


Quase acreditei que não seria capaz, quando me chamavam por acharem que eu não era capaz.

Quase acreditei que não sabia, quando me perguntavam por acharem que eu não sabia.

Quase acreditei ser diferente, entre tantos iguais, entre tantos capazes e sabidos, entre tantos que eram chamados e escolhidos.

Quase acreditei estar de fora, quando me deixavam de fora, porque…que falta fazia?

E de quase acreditar, adoeci.

Busquei ajuda com doutores, mestres, magos e querubins.

Procurei a cura em toda a parte, e ela estava tão perto de mim!


Me ensinaram a olhar para dentro de mim mesmo, e perceber que sou exactamente como os iguais que me faziam diferente.

E acreditei profundamente em mim.


E tenho de, como dívida com a vida, fazer com que cada ser humano se perceba, se ame, se admire de si mesmo, como verdadeira fonte de riqueza.

Foi assim que cresci: acreditando.

Sou exactamente do tamanho de todo o ser humano.

E, por acreditar, perdi o medo de dizer, falar, participar, e até de cometer enganos.


E se errar…paciência!

Continuo vivendo e, por isso, aprendendo.


Errar é Humano!

(Sofia Morgado e José Varela)