domingo, 30 de novembro de 2008

ESTAMOS COM FOME DE AMOR

“Renato Manfredini Júnior, mais conhecido por Renato Russo, foi um consagrado cantor, compositor e músico brasileiro, que faleceu em 1996 com apenas 36 anos de idade.”
– foi assim que, em 23 de Setembro, iniciei o post “Eu te amo”, que publiquei no blogue SEMPRE JOVENS


É precisamente com uma frase de Renato Russo que Arnaldo Jabor inicia a sua crónica “Estamos com fome de Amor”



ESTAMOS COM FOME DE AMOR!!
- Arnaldo Jabor -
Uma vez Renato Russo disse, com uma sabedoria ímpar:

'Digam o que disserem, o mal do século é a solidão'.

Pretensiosamente digo que assino em baixo, sem dúvida alguma.

Parem para notar: os sinais estão batendo em nossa cara todos os dias.

Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos.
Elas chegam sozinhas. E saem sozinhas.

Empresários, advogados, engenheiros que estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos.

Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos 'personal dance'. Incrível!
E não é só sexo, não; se fosse, era resolvido fácil, alguém duvida?

Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico; fazer um jantar para quem você gosta e depois saber que vão 'apenas' dormir abraçados, sabe, essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega.

Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção.

Tornamo-nos máquinas, e agora estamos desesperados por não saber como voltar a 'sentir'; só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós.

Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de relacionamentos ORKUT, o número que comunidades como:
- “Quero um amor p’ra vida toda!”;
'Eu sou para casar!' - até a desesperançada
'Nasci p’ra ser sozinho!' - unindo milhares ou melhor milhões de solitários em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.

Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento, e estamos a cada dia mais belos e mais sozinhos.
Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário, p’ra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa.

Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega.

Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer ridículos, abobalhados, e daí?

Seja ridículo, não seja frustrado, 'pague mico', saia gritando e falando bobagens, você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo p’ra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta.

Mas (estou muito brega!), aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso a dois.

Quem disse que ser adulto é ser ranzinza?
Um ditado tibetano diz que, se um problema é grande demais, não pense nele, e se ele é pequeno demais, p’ra quê pensar nele?

Dá p’ra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo, ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser estabanada.
O que realmente não dá é continuarmos achando que viver é out, que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo, ou que eu não posso me aventurar a dizer para alguém:
'vamos ter bons e maus momentos, e uma hora ou outra, um dos dois ou quem sabe os dois, vão querer pular fora; mas se eu não pedir que fique comigo, tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida'.

Antes idiota que infeliz!


quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A IMPORTÂNCIA DO SINCERO “NÃO SEI”

Já aqui foram abordados temas tão diversos como “A Sinceridade” e “Tomar Decisões Difíceis”, por exemplo.

Hoje vamos juntar um pouquinho dos dois, e ver como, ao tomar a decisão de dizer, com sinceridade “não sei”, você pode estar a revelar muito do seu íntimo.

António Ermírio de Moraes, empresário e industrial brasileiro, formado em Engenharia Metalúrgica pela Colorado School of Mines, em 1949, e de quem voltaremos a falar, dá-nos uns exemplos interessantes acerca da actividade profissional de algumas pessoas.
Para tanto baseia-se nas suas respostas a uma simples observação sobre o estado do tempo.

Imagine esta situação:



Você está em frente à sua porta, olhando. Não há nada de especial no céu, somente algumas nuvens aqui e ali.
Aí chega o vizinho, que também não tem nada para fazer, e pergunta:
- Será que vai chover hoje?

Se você responder “com certeza” – a sua área é Vendas:
O pessoal de Vendas é o único que sempre tem a certeza de tudo.

Se a resposta for “sei lá, estou pensando em outra coisa” – então a sua área é Marketing:
O pessoal de Marketing está sempre pensando no que os outros não estão pensando.

Se você responder “sim, há uma boa probabilidade” – você é da área de Engenharia:
O pessoal de Engenharia está sempre disposto a transformar o Universo em números.

Se a resposta for “depende…” – você nasceu para Recursos Humanos:
Uma área em que qualquer facto está sempre na dependência de outros factos.

Se você responder “ah, a meteorologia diz que não” – você é da área de Contabilidade:
O pessoal da Contabilidade sempre confia mais nos dados do que nos próprios olhos.

Se a resposta for “sei lá, mas por via das dúvidas eu trouxe um guarda-chuva” – então seu lugar é na área Financeira:
Que deve estar sempre bem preparada para qualquer virada de tempo.

Agora, se você responder “não sei!” – há uma boa chance de que você tenha uma carreira de sucesso e acabe chegando à directoria da empresa:
De cada 100 pessoas só uma tem a coragem de responder “não sei” quando não sabe.
Os outros 99 sempre acham que precisam ter uma resposta pronta, seja ela qual for, para qualquer situação.

“Não sei!” é sempre uma resposta que economiza o tempo de todo o mundo, e predispõe os envolvidos a conseguir dados mais concretos antes de tomar uma decisão.
Parece simples, mas responder “não sei” é uma das coisas mais difíceis de se aprender na vida corporativa.

Porquê?

Eu, sinceramente, “não sei”.

Autor: António Ermírio de Moraes



domingo, 23 de novembro de 2008

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE – O FRANCISCO

Após uma viagem num “mar de azeite”, como dizem os marinheiros, aproximamo-nos do nosso destino.

Ao longe, apenas se vislumbravam umas sombras esfumadas no horizonte.
Agora, que estamos relativamente perto, a paisagem torna-se nítida – montes escalvados, de cor avermelhada, sem vestígios de vegetação, uma verdadeira paisagem lunar.



Temos a sensação de que estamos a chegar à lua!

Depois das manobras habituais, que nos parecem infindáveis, finalmente o barco encosta ao cais.
Com a bagagem de camarote há muito preparada, as crianças controladas, apressamo-nos a descer o portaló.

O cais fervilha de gente, na sua maioria naturais da terra, táxis buzinando, um burburinho tremendo.
Finalmente pomos pé em terra.

Após beijos e abraços efusivos, - que as saudades já eram muitas – aguardamos o carro que nos transportará para casa.

Ao meu lado, um autóctone, de pé, vê de repente um carro passar muito perto, chegando mesmo a roçar-lhe o corpo. Recuando de um salto, grita, assustado:
- Ai a nha pé!

Este é o meu primeiro contacto com a linguagem local.

O “nha”, que significa meu ou minha - algumas vezes precedido de “a” para dar mais ênfase (quer se trate de feminino ou masculino – nha pai, nha mãe) - irá fazer parte do meu dia-a-dia durante os próximos dois anos.
Vamos então p’ra nha casa!

Situada numa elevação, acompanhada à esquerda e à direita por outras casas igualmente independentes, tem na parte da frente um arremedo de jardim, com uma ou outra planta enfezada, que irei, teimosamente, tentar recuperar.

Luta inglória! O ar é extremamente seco, a falta de água enorme, e, mesmo regando-as todos os dias, a terra absorve completamente a água muito para além se onde as raízes alcançam.
O meu jardim nunca deixou de ter este aspecto desértico.

Em frente, do lado de lá da estrada, há um vasto espaço coberto de terra, que termina num declive em direcção ao mar, que se avista da porta de casa, à qual se acede subindo três degraus de pedra.

Algum tempo depois de aqui estar irei assistir a verdadeiras batalhas campais travadas entre grupos de cães, provavelmente inimigos.
Sem qualquer aviso prévio, uns chegam da direita, outros aproximam-se pela esquerda, acabando por juntar-se no centro do terreno.
Entre ladridos e rosnares, engalfinham-se ferozmente, levantando incríveis nuvens de poeira vermelha que chega a escurecer o céu.
Depois de alguns minutos de luta abandonam o campo de batalha, retrocedendo cada grupo pelo mesmo caminho por onde chegara.


Nunca consegui descobrir por que razão, de tempos a tempos, se envolviam em contenda.
Certo é que, chegará o dia em que também eu regressarei ao local de partida, sem que eles tenham resolvido os seus diferendos.

Mas, por agora, há que nos instalarmos na que vai ser a nossa moradia durante os próximos dois anos.
Não se trata de nenhum palácio, mas, depois de arrumada a nosso gosto, ornamentada com objectos que nos acompanharam, torna-se bastante confortável.

Aqui são as mulheres que trabalham nas casas dos “continentais”.
Parecendo fazer parte da mobília, já se encontrava na casa uma cozinheira, uma mulher simpática, que, vim a descobrir, tinha um coração do tamanho do mundo.
Bondosa, extremamente carinhosa com as crianças, gostava muito de animais. Em pouco tempo me trouxe para casa um cachorro, ainda pequeno.
Quando regressei levou-o para sua casa.

Nas traseiras havia um pátio murado, com umas casotas onde se podiam criar animais – galinhas, patos, talvez coelhos.
Luísa, a cozinheira, pediu-me para criar galinhas. Algum tempo depois havia uma quantidade de pintainhos, parecendo novelos de algodão, passeando pelo pátio, acompanhados da mãe galinha.

Crescem depressa, estes animaizinhos. Duas ou três semanas depois já não havia novelos de algodão, mas uns frangotes de pernas exageradamente altas para o corpo, onde despontavam penas de cores variadas.
Um dia a Luísa apareceu-me com um frangote nas mãos, dizendo:
- Senhora, este está doente, vai morrer.
- Mas que doença é que ele tem? – perguntei.
- Não sei como se chama a doença, mas é devida ao frio; quando eles a apanham não se aguentam em pé.
E, dizendo isto, colocou o animal no chão. De imediato ele dobrou as pernas pelo meio, quase como se ficasse sentado com as pernas para a frente. Não conseguia manter-se de pé.
Agarrei-o, e senti-o frio.
- Coitadinho! Mas ele está mesmo gelado!

Eu costumava usar em casa umas saias com uns bolsos grandes, que serviam para ir guardando pequenas peças dos brinquedos que as crianças deixavam caídas aqui e ali.
Meti o franguinho dentro do bolso, encostado ao meu corpo. Algum tempo depois já não estava tão frio.
À noite meti-o dentro duma caixa pequena, aconchegado num pano quente.

Apliquei-lhe este “tratamento” uma semana, talvez um pouco mais: de dia no meu bolso, à noite na caixa.

E o milagre (do calor, penso eu) aconteceu: o franguinho recuperou a saúde e tinha as pernas mais fortes de todos.

Entretanto tinha-o “baptizado” de Francisco.
Acreditem, se quiserem. Depois que saiu do meu bolso, o Francisco passou a seguir os meus passos por toda a casa, e à noite encaminhava-se prontamente para a sua cama.

Fez-se um galo lindo, o Francisco! Com penas lustrosas, que pareciam envernizadas, um ar altaneiro, era mesmo o rei da capoeira!

Quando regressei ofereci-o à Luísa.

Este é mais um dos apontamentos que aqui apresentaremos, subordinados ao mesmo tema. Não seguem qualquer ordem cronológica. Não estarão situados no tempo, nem no espaço. O tempo é relativo. E as memórias afluem sem hora marcada.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA MULHER

Conta uma lenda que no principio do mundo, quando Deus decidiu criar a mulher, viu que havia esgotado todos os materiais sólidos no homem, e não tinha mais do que dispor.

Diante deste dilema, e depois de uma profunda meditação, fez isto:



Pegou a forma arredondada da lua,



as suaves curvas das ondas,
a terna aderência das bromélias,



o trémulo movimento das folhas,
a forma esbelta da palmeira,


a nuance delicada das flores,
o amoroso olhar do cervo,



a alegria do raio de sol e as gotas do choro das nuvens,



a inconstância do vento e a fidelidade do cão,
a timidez da tartaruga e a vaidade do pavão,



a suavidade da pena do cisne e a dureza do diamante,
a doçura da pomba e a crueldade do tigre,
o ardor do fogo e a frieza da neve.
Misturou ingredientes tão diferentes, formou a mulher e deu-a ao homem.


Depois de uma semana veio o homem e disse:

- Senhor, a criatura que me deste põe-me desgostoso:
- quer toda a minha atenção,
- nunca me deixa sozinho, - fala sem parar,
- chora sem motivo,
- diverte-se em me fazer sofrer.
Venho devolvê-la porque NÃO POSSO VIVER COM ELA.



“Bem”, respondeu Deus e recebeu a mulher.

Passou-se outra semana, o homem voltou e disse:

Senhor, encontro-me muito sozinho desde que devolvi a criatura que fizeste para mim:
- ela cantava e brincava ao meu lado,
- olhava-me com ternura e o seu olhar era uma carícia,
- ria, e o seu riso era música,
- era bonita de se ver
- e suave ao tato.
Devolve-ma, porque NÃO POSSO VIVER SEM ELA.



AH! POIS É...

domingo, 16 de novembro de 2008

ANITA

ANITA – EPISÓDIO V

(Ficção baseada em factos reais)

…Anita ouvia-o, com um leve sorriso ausente, acenando, em sinal de concordância.
Havia, contudo, um ponto, em que Anita exigia que a sua vontade fosse respeitada.

FIM DO EPISÓDIO IV
EPISÓDIO V

Sabendo que o filho mais novo de Vicente, dois anos mais velho do que ela própria, vivia em casa do pai, Anita declarara que não gostaria que essa situação se mantivesse depois do casamento.
Vicente mostrou-se muito compreensivo, e de imediato se comprometeu a arranjar uma casa para o seu filho.

Sempre que Anita tocava neste assunto, respondia que andava a procurar uma casa para o filho viver, mas ainda não encontrara nada de jeito.
Um dia chegou mesmo a dizer:
- Estou a ver que tenho que mandar construir uma casa para o meu filho. Não encontro nada para alugar.

Não se tratava de desculpa. Numa cidade onda a maioria da população vivia em casa própria, era muito raro haver casas para alugar.
Apesar de o saber, Anita mostrava-se inflexível: depois de casada não queria mais ninguém a viver na casa que iria ser a sua.

Bem mais rápido do que ela desejaria, chegou o dia aprazado para o matrimónio,



que se realizou com toda a pompa e circunstância.

A mãe não medira esforços nem dinheiro para que tudo estivesse à altura de acontecimento tão importante: o casamento da sua única filha.

A igreja encontrava-se ricamente ornamentada: toalhas de renda nos altares, passadeira de veludo vermelha… Uma profusão de flores importadas enchiam o ar com o seu perfume.

Anita entrou na igreja pelo braço do seu pai, visivelmente emocionado, ao som da marcha nupcial.
O noivo, radiante, aguardava junto ao altar-mor.

Não podendo estampar no rosto uma felicidade que não sentia, conseguiu manter um aspecto calmo, tranquilo, sereno, que não deixava adivinhar a tristeza que toldava o seu coração.
Depois de uma cerimónia demasiado longa, noivos, familiares e demais convidados dirigiram-se para a casa da noiva, onde foi servido um verdadeiro banquete.

O pai empenhara-se até onde pudera para fazer desta festa um verdadeiro acontecimento social, evidenciando uma situação financeira que estava longe de possuir.
Esperava, a curto prazo, recuperar tudo, envolvendo o genro nos seus negócios, que atravessavam uma fase muito difícil. Sem o investimento de Vicente, em breve teria que declarar falência.

Enquanto os convidados alegremente se divertiam, os noivos, discretamente, retiraram-se.
À porta aguardava-os o carro de Vicente, que os transportou à sua casa de campo.
Ali permaneceram por uma semana, em lua-de-mel, que Anita suportou estoicamente. Se, por um lado, não sentia qualquer prazer na companhia de Vicente, por outro assustava-a a ideia de regressar à cidade e assumir a sua condição de mulher casada, com todos os compromissos que essa situação implicava.

Vicente não parecia muito interessado em regressar, pelo menos na companhia de Anita. Chegou mesmo a sugerir-lhe passarem ali mais algum tempo:
- Eu podia ir à cidade tratar dos meus negócios, e regressaria a tempo de jantar contigo e passar a noite aqui…
A ideia não agradou a Anita. Ficar ali o dia inteiro, apenas na companhia dos criados? A perspectiva não a seduzia. Por isso respondeu a Vicente que preferia voltar à cidade, e iniciar a sua vida normal de dona de casa e mulher casada.
Contrafeito, Vicente teve que sujeitar-se.

De regresso à cidade Vicente sugeriu:
- Pensei em irmos primeiro a casa dos teus pais. A tua mãe deve estar cheia de saudades, e com certeza tu gostarás também de a ver…
Anita anuiu, agradecendo a atenção do marido.

Eulália, mãe de Anita, recebeu a filha com enorme alegria, perscrutando-lhe o rosto com disfarçada ansiedade.
Não se atrevia a enunciar a pergunta que lhe escaldava os lábios:
- Minha filha, sentes-te feliz?

Seu pai, Justino, mostrava-se radiante com a presença da filha. Contudo, também, disfarçadamente, tentava descobrir no rosto da filha até que ponto ela se sentiria feliz.

Um remorso surdo o atormentava desde que impusera à filha um casamento que ela não desejava, remorso que tentava calar ao verificar o melhor andamento dos seus negócios.

- Afinal, pensava, que futuro seria o da minha querida filha, casando com um pobretanas qualquer, sem ao menos poder contar com o meu apoio financeiro? Porque, a verdade é que, se não fosse o dinheiro que Vicente injectou nos meus negócios, eu já estaria na bancarrota. Com o tempo Anita vai aprender a amar o marido, e vai até agradecer-me ter-lhe posto a felicidade nas mãos, mesmo contra sua vontade.

Anita procurava mostrar a alegria que seria normal numa recém-casada, mas que estava longe de sentir.

Passaram a tarde em amena conversa. Eulália pôs a filha ao corrente das últimas novidades; Anita ouvia, fazendo um ou outro comentário.
Vicente mantinha-se um pouco aparte, conversando com o sogro, inteirando-se da situação dos negócios.

Ao fim da tarde resolveram dirigir-se a casa.

Depois de estacionar o carro e abrir a porta de casa, Vicente, delicadamente, fez sinal a Anita para que entrasse.

Mal deu dois passos no corredor, Anita estacou de repente, com uma expressão de espanto e indignação estampadas no rosto.

FIM DO EPISÓDIO V

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

TOMAR DECISÕES DIFÍCEIS, PORÉM, CORRECTAS

Há poucos dias recebi um email com um texto deveras perturbador.
Na realidade trata-se dum desafio para um exercício que obriga a uma grande reflexão.
É esse mesmo desafio que vos lanço aqui. Reflictam, e respondam com toda a honestidade de que forem capazes.

Eu vinha procurando uma mensagem que envolvesse não somente a você, mas que ,com ela, você pudesse envolver as pessoas do seu relacionamento, num exercício ou num debate. E aqui está: é um exercício poderoso, que se você quiser poderá envolver todas as pessoas das suas organizações, familiar e profissional, para realizá-lo, ou apenas para debater.

O mundo em que estamos vivendo a cada dia nos coloca dia
nte de situações em que precisamos tomar decisões difíceis, porém, correctas, e não há outra maneira, não dá tempo de fugir delas, até mesmo porque, se fugirmos de tomar as decisões difíceis, já estamos tomando uma decisão errada, o que é muito pior.

E você é bom a tomar decisões?

Se a sua resposta for sim, óptimo. O mundo precisa de pessoas como você.

Então, faça esta mesma pergunta para as pessoas com q
uem você se relaciona:
- Você é bom em tomar decisões?
Certamente as respostas serão as mais variadas possíveis.


Então pode ser que você precise despertar nestas pessoas a mesma coragem e determinação que você tem para tomar as suas decisões, ou seja, talvez algumas pessoas de suas organizações familiar ou profissional precisem de coragem e determinação para tomar decisões difíceis, porém, correctas.
E se você
quer encorajar estas pessoas a se determinarem, aqui está uma óptima oportunidade que irá contribuir com a sua transformação e a das pessoas com quem você se relaciona.

O Exercício

Um grupo de adolescentes brinca próximo a duas vias-férreas. Uma das vias está desativada e a outra ainda em operação.

Apenas um adolescente brinca na via desativada, enquanto que os outros brincam na via em operação. O trem de passageiros está vindo, e você está em frente daquele aparelho que, quando accionado manualmente, muda o trem de uma linha para outra; e a decisão é só sua, a sua mente irá accionar as suas mãos ou não.

Você pode mudar o percurso do trem para a pista desativada e salvar a vida da maioria dos adolescentes; porém, com essa tomada de decisão, o adolescente que está brincando na via desativada irá morrer.
Então, o que você faria? Accionaria o aparelho, que muda o trem de uma linha para outra, desviando-o para a via desativada e, assim, apenas um adolescente morreria ou você deixaria o trem seguir pela via em operação e a maioria dos adolescentes morreria?

Certamente, neste momento, você deve estar se lembrando que, em muitas situações na sua vida, este exercício se encaixaria perfeitamente.
Mas agora entre em acção, e antes de continuar lendo, por um ou dois minutos... Pense... Reflicta... Anote a sua tomada de decisão e o porquê desta tomada de decisão.


Independentemente da sua tomada de decisão, vamos fazer uma profunda reflexão.

A maioria das pessoas iria escolher desviar o trem e sacrificar a vida de um só adolescente.

Acredito que você pode ter pensado da mesma forma: salvar a vida da maioria dos adolescentes à custa da vida de um só adolescente.
Esta é a decisão mais racional e que a maioria das pessoas, moralmente e emotivamente, tomaria.
Mas você pensou que o adolescente que escolheu brincar na via desativada foi o único que tomou a decisão correcta e foi brincar num lugar seguro?
Então, por que ele tem que morrer por causa de seus amigos irresponsáveis que escolheram brincar onde estava o perigo?


Este tipo de dilema, de situação, acontece ao nosso redor todos os dias, na empresa, na família e na nossa sociedade como um todo e, incrivelmente, a verdade é que a minoria, frequentemente, é sacrificada pelo interesse da maioria, não importa quão tola, ignorante ou irresponsável seja a maioria, e nem a visão positiva de futuro e o conhecimento da minoria.

Além do mais, se a via férrea havia sido desativada, provavelmente foi por não ser segura, e se você, na tentativa de salvar a vida de alguns adolescentes inconsequentes, sacrificando apenas a vida de um adolescente, desviou o trem do percurso que ele deveria fazer, colocou em risco ou sacrificou a vida de centenas de pessoas: os passageiros do trem!


Se você está passando por um momento em que necessita tomar decisões difíceis, porém, correctas, lembre-se de dois detalhes muito importantes: 1º O que é correcto nem sempre é popular e o que é popular nem sempre é correcto. 2º As tomadas de decisões apressadas, na grande maioria das vezes, não o levam ao lugar certo.

Obs. O autor do texto original é Rui Barbosa.
Carlos Pozzobon introduziu alterações.

Rui Barbosa, falecido em 1923, dispensa apresentações. Direi apenas que foi jurista, político, diplomata, escritor, filólogo, tradutor e orador brasileiro.
Carlos Pozzobon é um estimulador de potencialidades das pessoas, um profissional experiente na arte de despertar e treinar o campeão e o líder que existe em cada um de nós.

domingo, 9 de novembro de 2008

RESSONÂNCIA SCHUMANN

Frequentemente ouve-se dizer – o tempo voa!; o tempo não chega para tudo!; não tenho tempo para nada!...

Será que o tempo se escoa por entre os nossos dedos, ou trata-se apenas de uma impressão, causada pela vida agitada dos dias de hoje?

São os nossos muitos afazeres que nos provocam essa sensação, ou o tempo é mesmo mais curto?

Vejamos o que, a esse respeito, nos diz Leonardo Boff.

Não apenas as pessoas mais idosas mas também jovens têm a sensação de que tudo está se acelerando excessivamente. Ontem foi Carnaval, dentro de pouco será Páscoa, mais um pouco, Natal. Esse sentimento é ilusório ou tem base real?

Pela ressonância Schumann se procura dar uma explicação.

O físico alemão W.O. Schumann constatou, em 1952, que a Terra é cercada por um campo eletromagnético poderoso que se forma entre o solo e a parte inferior da ionosfera, cerca de 100km acima de nós.

Esse campo possui uma ressonância (daí chamar-se ressonância Schumann), mais ou menos constante, da ordem de 7,83 pulsações por segundo. Funciona como uma espécie de marca-passo, responsável pelo equilíbrio da biosfera, condição comum de todas as formas de vida.

Verificou-se também que todos os vertebrados e o nosso cérebro são dotados da mesma frequência de 7,83 hertz.

Empiricamente fez-se a constatação de que não podemos ser saudáveis fora dessa frequência biológica natural.
Sempre que os astronautas, em razão das viagens espaciais, ficavam fora da ressonância Schumann, adoeciam. Mas submetidos à ação de um simulador Schumann recuperavam o equilíbrio e a saúde.

Por milhares de anos as batidas do coração da Terra tinham essa freqüência de pulsações, e a vida se desenrolava em relativo equilíbrio ecológico.
Ocorre que, a partir dos anos 80, e de forma mais acentuada a partir dos anos 90, a freqüência passou de 7,83 para 11 e para 13 hertz.
O coração da Terra disparou.

Coincidentemente, desequilíbrios ecológicos se fizeram sentir: perturbações climáticas, maior atividade dos vulcões, crescimento de tensões e conflitos no mundo e aumento geral de comportamentos desviantes nas pessoas, entre outros.

Devido à aceleração geral, a jornada de 24 horas, na verdade, é somente de 16 horas. Portanto, a percepção de que tudo está passando rápido demais não é ilusória,mas teria base real nesse transtorno da ressonância Schumann.

Gaia, esse superorganismo vivo que é a Mãe Terra, deverá estar buscando formas de retornar a seu equilíbrio natural. E vai consegui-lo, mas não sabemos a que preço, a ser pago pela biosfera e pelos seres humanos.

Aqui abre-se o espaço para grupos esotéricos e outros futuristas projetarem cenários, ora dramáticos, com catástrofes terríveis, ora esperançosos, como a irrupção da quarta dimensão, pela qual todos seremos mais intuitivos, mais espirituais e mais sintonizados com o biorritmo da Terra.

Não pretendo reforçar esse tipo de leitura. Apenas enfatizo a tese recorrente entre grandes cosmólogos e biólogos de que a Terra é, efetivamente, um superorganismo vivo, de que Terra e humanidade formamos uma única entidade, como os astronautas testemunham de suas naves espaciais.

Nós, seres humanos, somos Terra que sente, pensa, ama e venera. Porque somos isso, possuímos a mesma natureza bioelétrica e estamos envoltos pelas mesmas ondas ressonantes Schumann.


Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, Brasil, a 14 de Dezembro de 1938.
Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique - Alemanha, em 1970.
Esteve presente no início da reflexão da conhecida Teologia da Libertação. Foi sempre um ardoroso defensor da causa dos Direitos Humanos, tendo ajudado a formular uma nova perspectiva dos Direitos Humanos a partir da América Latina, com "Direitos à Vida e aos meios de mantê-la com dignidade".
É doutor honoris causa em Política pela universidade de Turim (Itália) e em Teologia pela universidade de Lund (Suécia), tendo ainda sido agraciado com vários prémios no Brasil e no exterior, por causa de sua luta em favor dos fracos, dos oprimidos e marginalizados e dos Direitos Humanos
Em 1984, motivado pelas suas teses ligadas à Teologia da Libertação, apresentadas no livro "Igreja: Carisma e Poder", foi submetido a um processo pela Sagrada Congregação para a Defesa da Fé, ex Santo Ofício, no Vaticano.
Em 1985, foi condenado a um ano de "silêncio obsequioso" e deposto de todas as suas funções editoriais e de magistério no campo religioso. Dada a pressão mundial sobre o Vaticano, a pena foi suspensa em 1986, podendo retomar algumas das suas actividades.
Em 1992, sendo de novo ameaçado com uma segunda punição pelas autoridades de Roma, renunciou às suas actividades de padre e se auto-promoveu ao estado leigo. "Mudou de trincheira para continuar a mesma luta"
Em 8 de Dezembro de 2001 foi agraciado com o prémio Nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).
É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

CONSERTANDO O MUNDO

Há dias recebi, por email, uma frase digna de reflexão.
Dizia o seguinte:

“Fala-se tanto da necessidade de deixar um planeta melhor para os nossos filhos, e esquece-se da urgência de deixarmos filhos melhores (educados, compassivos, responsáveis) para o nosso planeta”
Autor desconhecido

Uma frase aparentemente muito simples, mas com um sentido muito profundo.
Na realidade por todo o mundo se vêm, constantemente, apelos à preservação da Natureza.
Do mesmo modo é frequente ler, após exposição de agressões (e são tantas!) que se fazem ao planeta, a título de comentário – “ que mundo deixaremos para os nossos filhos?”



Considero perfeitamente justa esta preocupação, que é, mais ou menos, generalizada.
No entanto, parece-me não menos justa a chamada de atenção contida na frase acima – “deixarmos filhos melhores para o nosso planeta”.

Se pensarmos, não na herança que deixaremos aos nossos filhos, mas na herança que deixaremos ao nosso planeta, concluiremos que as medidas a adoptar devem ser diferentes daquelas que sempre têm sido defendidas.

Para melhorar o planeta há que começar por melhorar o homem.

Isto é tão simples que até uma criança de sete anos o consegue entender. Ora veja:

Um cientista, muito preocupado com os problemas do mundo, passava os dias no seu laboratório, tentando encontrar meios para minorá-los.
Certo dia, seu filho de sete anos invadiu o seu santuário, decidido a ajudá-lo.
O cientista, nervoso com a interrupção, tentou fazer o filho brincar noutro lugar. Vendo que seria impossível removê-lo, procurou algo que pudesse distrair a criança.
De repente deparou-se com o mapa do mundo, feito em puzzle. Estava ali o que procurava. Desfez o mapa em várias peças e entregou-as ao filho, dizendo:

- Tu gostas de quebra-cabeças? Então vou te dar o mundo para consertar. Aqui está ele todo desarrumado. Vê se consegues consertá-lo bem direitinho. Mas faz tudo sozinho.

Pelos seus cálculos a criança demoraria alguns dias para recompor o mapa.
Passadas algumas horas ouviu o filho chamando-o calmamente.
A princípio o pai não deu grande crédito às palavras do filho. Seria impossível, na sua idade, conseguir recompor um mapa daquele tipo, em tão pouco tempo.
Relutante, o cientista levantou os olhos da
s suas anotações, certo de que iria ver um trabalho digno de uma criança.
Para sua surpresa o mapa estava completo. Todas as peças tinham sido colocadas nos devidos lugares.
Como era possível? Como é que o menino tinha sido capaz???

- Tu não sabias como era o mundo, meu filho. Como conseguiste?

- Pai, eu não sabia como era o mundo, mas quando tu pegaste o mapa para o desfazer, eu vi que, do outro lado, havia a figura de um homem.
Quando me deste o mundo para consertar, eu tentei, mas não consegui.
Foi aí que eu me lembrei do homem.
Virei as peças e comecei a consertar o homem, que eu sabia como era.

Quando consegui consertar o homem, virei o quadro e vi que tinha consertado o mundo.
AD



domingo, 2 de novembro de 2008

O INCONSCIENTE E A FÉ

Eugénio de Sá nasceu em Lisboa, no típico e antigo bairro da Ajuda, em 29 de Março de 1945.
Após concluir o curso comercial frequentou o instituto Comercial e ingressou como voluntário na Força Aérea Portuguesa.
Em 1968, junta-se a um grupo de jornalistas no arranque do Jornal A Capital, onde exerce sucessivamente as funções de redactor do serviço de estrangeiro e chefe da publicidade.
Entretanto reformado, Eugénio de Sá decide aceitar o convite do seu Amigo Padre José Maria Cortes, Pároco de Alverca, onde reside, para assegurar a assessoria de Comunicação, Imagem e Relações Publicas do Pároco enquanto durar a construção da primeira Igreja, no mundo, consagrada aos Pastorinhos de Fátima.
A Igreja dos Pastorinhos, de Alverca, foi inaugurada em 1 de Maio de 2005.

De par com este trabalho assegurou, durante dois anos, a edição do Jornal "Despertar Cebi" – veículo de comunicação de uma das maiores instituições de solidariedade social do país e publicou no jornal "Vida Ribatejana" numerosas, crónicas e poesias.
É de sua autoria a crónica que vou partilhar convosco.

Eugénio de Sá

O Inconsciente e a Fé

Enquanto o temperamento o herdamos nos genes e se submete ao que os astros nos ditam no ato de nascer, o carácter, esse, vai-se moldando e caracterizando à medida que vamos adquirindo conhecimentos e recebendo influências.

É assim que se gera uma personalidade, rica ou pobre nos princípios, forte ou fraca na vontade, enérgica ou indolente na determinação, romântica nos impulsos do coração, ou analítica e consistente na razão, feita de indomáveis excessos, ou de contidas temperanças.

Tudo isto nos define como seres racionais mas providencialmente, quiçá, limitados ao uso do consciente, isto é: daquilo que nos é dado conhecer de nós próprios, uma vez que o inconsciente que, identicamente, partilha o nosso cérebro, permanece hermético e inquestionável.

Quem nos criou soube o que fez com esta máquina de concepção impressionante que somos todos nós, porque está para além da imaginação humana o que poderia acontecer se tivéssemos acesso ao nosso inconsciente e o que poderíamos fazer com isso.

Não somos só energia pura, mas dotados daquilo a que se convencionou chamar de alma.

Sem dúvida que constituiu, para nós, um aliciante apelo a visão de uma outra dimensão, que está para além de uma interpretação linear, com base no que nos dizem os nossos sentidos.

É comum a tentativa de exploração do denominado sobrenatural, do transcendente. Pode (e deve) haver outra vida para além da presente ou não faria sentido esta escassa temporalidade da nossa existência.

Pode o espírito que nos anima ter habitado outros corpos no passado e, porventura, vir a encarnar outros no futuro.

É uma teoria possível, como possíveis são outras, mais ou menos apoiadas pela religião ou por movimentos espiritualistas, todas credoras de respeito e, certamente, passíveis de cuidada reflexão.

Investigações de fenómenos ditos paranormais, recolha de depoimentos de indivíduos que passaram por experiências de morte aparente e “voltaram à vida”, propõem apoiar, através dessas casuísticas ocorrências, a teorização da vida após a morte.

Pode o nosso inconsciente - a grande parte submersa (ou invisível) deste iceberg que é o cérebro humano - vir a explicar muitas das dúvidas que nos são propostas pela vontade que nos exige essas explicações, ou irá permanecerá obscuro tudo o que está para além da nossa imediata compreensão?

De tudo o que foi dito, emerge um maravilhoso enigma, que nos consagra definitivamente como entes eleitos deste planeta; a fé que aflora ao nosso coração perante situações incontroláveis, mormente as mais penosas.

A fé em algo de divino que se corporiza ou evoca, um santo, a Virgem, Cristo, ou mesmo Deus, que imaginamos (simplistamente) feito à nossa imagem e semelhança, ou, na inversa; sem essa presunção.

Não tenho a pretensão de querer explicar o que quer que seja sobre o assunto, mas, tão-somente, trazer a estas linhas a minha funda convicção da presença em nós do divino.

Concentro a minha própria fé num ou mais ícones da minha religião, católica, sem qualquer menosprezo por outros que professam diferentes credos, uma vez que a bondade dos fundamentos é em tudo similar.
É só uma questão de nomenclatura.

EUGÉNIO DE SÁ
Poeta e escritor português

(publicada no "Diário da Região", de São José do Rio Preto)

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

UM PASSEIO À NORUEGA

Tenho uma caixa (na verdade é mais um pequeno caixote de cartão) onde vou colocando coisas para mais tarde arrumar nos seus devidos lugares.
Ontem olhei para ela de soslaio e pensei: está na hora de dar aqui uma volta, antes que isto transborde…

No meio de vários papéis a aguardarem arquivo, encontrei umas fotografias para intercalar no álbum de fotos dum passeio que dei à Noruega. Ao vê-las “revi” aquela maravilhosa viagem, e várias peripécias que aconteceram.
Há sempre inúmeras histórias para contar, das viagens. Esta que vou partilhar convosco parece-me bastante interessante. Eu chamar-lhe-ia “uma história de contrastes”.

Há três ou quatro anos fui visitar a Noruega na companhia de um grupo de bons amigos.
Saímos de Lisboa em meados de Julho, rumo a Oslo, a capita. Aí premanecemos dois dias, visitando a cidade e seus monumentos, e, como não podia deixar de ser, o famoso Parque Frogner.

Dentro deste parque existe uma exposição permanente de cerca de 200 estátuas e outras obras de arte do escultor norueguês Gustav Vigeland. (por isso é também conhecido por Parque Vigeland)

Este escultor dedicou a maior parte da sua obra ao culto Homem/Mulher, inspirando-se muitas vezes na mitologia grega e também na Bíblia.

A entrada do Parque é ladeada por grande quantidade de esculturas, todas subordinadas aos temas “Homem/Mulher, “Fertilidade”, e “Natureza”




















Não vou alongar-me muito em pormenores. Descrever um passeio de duas semanas daria para escrever um livro…e não é neste espaço que pretendo fazê-lo.

Continuamos viagem para norte. A Noruega é um país lindíssimo, com paisagens maravilhosas, muito diferentes do que vemos habitualmente.

Chegamos a um ponto do nosso percurso que incluía um passeio, a pé, com duração prevista de 4 horas, a uma formação rochosa chamada “Preikestolen”.
Antes de iniciarmos a caminhada o guia forneceu-nos um folheto que dizia:

Visita ao PREIKESTOLEN
Visita a uma curiosidade natural única, considerada como o observatório mais famoso de toda a Escandinávia. A enorme coluna rochosa PREIKESTOLEN cai vertiginosamente a pique, 600 metros, nas águas do Lysefiord. Não tem qualquer acesso por estrada, logo, só é possível realizar esta visita a pé. É necessário levar calçado adequado, pois a caminhada dura cerca de 4 horas, por caminho bastante irregular.

Os organizadores do passeio “esqueceram-se” de informar que:
- Parte do trajecto é feito caminhando de lado, agarrados a correntes de ferro presas nas rochas.
- Há uma inclinação, no sentido descendente, de tal modo íngreme e escorregadia que temos que deslizar acocorados em cima dos calcanhares, agarrados a lianas.
- Quase todo o percurso é feito sobre pedras soltas, como se pode ver na foto seguinte.

Não há quaisquer indicações ou mapas, excepto essas marcas vermelhas (como a que se vê na foto), que nos “dizem” qual é a rocha seguinte…

Mas todo o esforço se dá por bem empregue quando se atinge o topo.
A sensação é a de que se está mesmo no topo do mundo!


(As fotos seguintes não foram feitas por mim, é claro. São reproduções de cartões postais)





















Depois de apreciar a maravilhosa paisagem que se desfruta lá de cima, de encher os pulmões daquele ar puríssimo e de tirar imensas fotografias, iniciamos o regresso.

Agora no sentido descendente, muito mais fácil do que a subida, alguns metros decorridos, inexplicavelmente caí, fiz uma entorse tíbio-társica no pé direito, que me impossibilitou de caminhar.
Num piscar de olhos o tornozelo começou a inchar e as dores a tornarem-se insuportáveis.
Amavelmente, os meus companheiros de viagem tentaram ajudar. Tarefa inglória! Naquele trecho do caminho só cabiam os pés de uma pessoa de cada vez.
Depois de várias tentativas, - um à minha frente dando-me um braço para eu me apoiar, outro atrás de mim fazendo a mesma coisa - acabamos por desistir.
Começamos a pensar em qual seria a melhor forma de me retirarem daquele local.
Para se sair dali, sem poder andar pelo seu pé…só com asas. É impossível qualquer tipo de socorro por terra
Eu já me imaginava a passar a noite, que se aproximava, naquele local desabrigado. Comecei a ficar seriamente preocupada.
Mas…os deuses estavam por mim!
Cruzou-se connosco um jovem casal de noruegueses, que ia a subir, e, ao ver-me amparada e parada, com um pé no ar, perguntaram se precisávamos ajuda.
Contamos o que tinha acontecido, e como estávamos aflitos sem saber como resolver aquela situação.
Foi quando soubemos, por eles, que existe um serviço de assistência de helicóptero para casos semelhantes, quer se esteja no Preikestolen quer em qualquer outro local de difícil acesso, em qualquer ponto da Noruega.
De posse do número de telemóvel que eles nos forneceram, chamou-se um helicóptero que me transportou ao hospital – ambos os serviços, transporte e assistência hospitalar completamente grátis !!!


(Ao fundo, o helicóptero que me evacuou. Ninguém me pôde acompanhar; no heli só havia espaço para mim, ( nesta altura já estava lá dentro) além dos paramédicos. A imagem não é muito boa; foi retirada do filme que um amigo fez de toda a viagem).

No hospital recebi assistência médica, e de lá regressei em cadeira de rodas que, ao fim de 2 ou 3 dias, foi substituída por canadianas.
Com elas fiz o resto da viagem pela Noruega, e com elas regressei a Lisboa.

Apanhamos o avião de regresso a Lisboa em Estocolmo, Suécia, fazendo escala, com mudança de avião, em Frankfurt, Alemanha.
Pelo facto de vir de canadianas tive tratamento VIP nestes 2 aeroportos, de Estocolmo e da Alemanha.
Quem conhece o aeroporto de Frankfurt sabe que as suas dimensões são impressionantes.
Quem tiver que fazer transbordo tem que percorrer uma distância enorme!
Como eu estava lesionada, transportaram-me num carrinho eléctrico (o marido aproveitou a boleia…)
Viajei em 1ª.classe, (para grande inveja dos meus amigos companheiros de viagem…) e a bordo encheram-me de mimos! Até nos ofereceram champanhe! E, depois de nos fornecerem ementa para escolhermos o almoço, e termos almoçado, serviram-nos um belo café acompanhado de bombons de chocolate!

Claro que à chegada ao aeroporto de Lisboa nem uma cadeira tive para me sentar!!! A solução foi aguardar a saída das bagagens apoiada às canadianas.
Aí caímos na realidade… do 3º.mundo !!!

domingo, 26 de outubro de 2008

O MEDO

Há quem defenda que o recém-nascido “traz” consigo dois medos – o medo do barulho e o medo de cair.
De facto, se expusermos um bebé a um ruído forte, verificamos que ele se agita, inquieto. E, se simularmos deixá-lo cair, o bebé encolhe-se e pode, eventualmente, dependendo da intensidade do susto, até chorar.

A psicologia diz-nos que a maioria dos medos que nos acompanham são adquiridos na infância, quase sempre incutidos pelos pais e educadores, ou como resultado de qualquer experiência traumática.

Dominados pelo medo podemos cometer actos irreflectidos, por vezes funestos.

Epicuro, filósofo grego (341 a 241 a.C.), cuja vida foi marcada pela serenidade e doçura, entendia que o essencial para a felicidade era uma vida tranquila, cercado de amigos, em completa ausência de dor e de medos.
“A representação vulgar do mundo com os seus deuses, o medo dos quais fez com que se cometessem os piores actos, é obstáculo à serenidade”.
“Para encontrar a felicidade o homem precisa aprender a superar os seus temores, até mesmo o da morte”.

Actualmente a psicologia divide os medos em normais e irracionais.
Normal é o medo que nos previne do perigo: ter medo de nos atirarmos da janela para saber qual a sensação de voar; ter medo de ser assaltado; ter medo de desafiar os mais fortes e depois sofrer represálias...
Ao medo do perigo associa-se o desejo de sobrevivência, o que torna este tipo de medo normal.

Irracional é o medo que nos domina completamente, nos leva a alterar hábitos e rotinas, que nos escraviza.

A melhor forma de combater os medos é enfrentá-los.
Não é fácil. Normalmente é até muito difícil; e, para o conseguir há que, muitas vezes, recorrer à ajuda de especialistas.

O medo mais comum é, sem dúvida, o medo do desconhecido.
Postos perante o desconhecido, nem sempre optamos pela melhor solução.

A PORTA NEGRA

Era uma vez um país de Mil e Uma Noites.
Neste país havia um rei que era muito polémico por causa dos seus actos.
Levava os prisioneiros de guerra para uma grande sala.
Os prisioneiros eram enfileirados no centro da sala, e o rei gritava:
- Eu vou dar-vos uma chance. Olhem para o canto direito da sala.
Ao olharem, os prisioneiros viam alguns soldados armados de arco e flechas, prontos para a acção.
- Agora, - continuava o rei – olhem para o canto esquerdo.
Ao olharem, todos os presos notavam que havia uma terrível Porta Negra, de aspecto dantesco.
Crânios humanos serviam como decoração, e a maçaneta era a mão de um cadáver.
Algo horripilante só de imaginar, quanto mais para ver.
O rei posicionava-se no centro da sala e gritava:
- Agora escolhem. O que é que vocês preferem? Morrerem cravados de flechas ou abrirem rapidamente aquela Porta Negra e entrarem lá dentro enquanto eu vos fecho lá?
Decidam. Vocês têm livre arbítrio. Escolham!
Todos os prisioneiros tinham o mesmo comportamento: na hora da decisão eles chegavam junto da terrível Porta Preta de mais de quatro metros de altura, olhavam para os desenhos de caveiras, sangue humano, esqueletos, aspecto infernal, coisas escritas do tipo “ Viva a morte”, etc., e decidiam: Quero morrer flechado.
Um a um todos agiam assim: olhavam para a Porta Negra e para os arqueiros da morte e diziam para o rei:
-Prefiro ser atravessado por flechas a abrir essa Porta Negra e ser trancado lá dentro.
Milhares optaram pelo que estavam vendo – a morte feia pelas flechas.
Um dia, a guerra acabou.
Passado algum tempo, um daqueles soldados do “Pelotão da Flechada” estava varrendo a enorme sala quando surgiu o rei.
O soldado, com toda a reverência e meio sem jeito, perguntou:
- Sabe, ó grande rei, eu sempre tive uma curiosidade… Não se zangue com minha pergunta, mas…o que tem além daquela Porta Negra?
O rei respondeu:
- Lembras-te que eu dava aos prisioneiros duas escolhas? Pois bem, vai e abre a Porta Negra.
O soldado, trémulo, rodou cautelosamente a maçaneta e sentiu um raio puro de sol beijar o chão feio da enorme sala. Abriu mais um pouquinho a porta, e mais sol e um gostoso cheirinho de verde inundaram o local.
O soldado notou que a Porta Negra abria para um caminho que apontava para uma grande estrada.
Foi então que o soldado percebeu: a Porta Negra dava para a Liberdade.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

SINCERIDADE

Já aqui falamos várias vezes de Amor, Amizade, e, pelo menos afloramos, muitos outros sentimentos.
Hoje vamos debruçar-nos sobre a “Sinceridade”.
Comecemos por ver o que nos diz Malba Tahar sobre a origem da palavra «sincera».

A ORIGEM DA PALAVRA SINCERA

Sincera é uma palavra doce e confiável.

Sincera é uma palavra que acolhe.

E essa é uma palavra que deveria estar no vocabulário de toda a gente.

Sincera foi uma palavra inventada pelos romanos.

Sincero vem do velho, do velhíssimo latim…

Eis a poética viagem que fez “sincero” de Roma até aqui:

Os romanos fabricavam certos vasos de uma cera especial.
Essa cera era, às vezes, tão pura e perfeita, que os vasos se tornavam transparentes.
Em alguns casos chegava-se a distinguir um objecto – um colar, uma pulseira ou um dado – que estivesse colocado no interior do vaso.

Para o vaso, assim fino e límpido, dizia o romano vaidoso:
- Como é lindo! Parece até que não tem cera!
“Sine-cera” querida dizer “sem cera”, uma qualidade de vaso perfeito, finíssimo, delicado, que deixava ver através das suas paredes.

Da antiga cerâmica romana, o vocábulo passou a ter um significado muito mais elevado.

Sincero é aquele que é franco, leal, verdadeiro; que não oculta, não usa disfarces, malícias ou dissimulações.

O sincero, à semelhança do vaso, deixa ver, através de suas palavras, os nobres sentimentos de seu coração.


A maioria dos escritores e pensadores manifestaram, ao logo dos tempos, a sua opinião acerca da sinceridade.
Vejamos alguns exemplos:

André Gide, conhecido escritor francês, autor de inúmeros livros e Prémio Nobel de Literatura de 1947, disse:

“Não se pode, ao mesmo tempo, ser sincero e parecê-lo”

“Em geral consideram-se sinceros todos os rapazes com convicções, e incapazes de criticar”

Por seu lado, François La Rochefoucaud, também escritor francês, pensava:

“A sinceridade é uma abertura do coração. Encontramo-la em muito poucas pessoas, e essa que vulgarmente por aí se vê, não passa de uma astuta dissimulação para atrair a confiança alheia”.

“As pessoas fracas não podem ser sinceras”.

“Alguma desconfiança que tenhamos da sinceridade de quem nos fala, não impede que julguemos sempre que são mais sinceros connosco que com os outros”

E, por último, vejamos o que pensava da sinceridade o nosso Fernando Pessoa:

“Nunca sabemos quando somos sinceros. Talvez nunca o sejamos. E mesmo que sejamos sinceros hoje, amanhã podemos sê-lo por coisa contrária”.

“Quando falo com sinceridade, não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe”.

“Custa tanto ser sincero quando se é inteligente! É como ser honesto quando se é ambicioso”.

“No teatro da vida quem tem o papel de sinceridade é quem, geralmente, mais bem vai no seu papel”.

“Toda a sinceridade é uma intolerância. Não há liberais sinceros. De resto, não há liberais”.

Sem quaisquer pretensões a escritora ou pensadora…"penso" que a sinceridade deve ser usada com conta, peso e medida.
Quantas vezes, por uma questão de piedade, não podemos ser completamente sinceros?
E também, às vezes, por uma questão de prudência, temos que calar a verdade sincera, porque:

“Quem diz o que quer ouve o que não quer”!

domingo, 19 de outubro de 2008

AMOR E LOUCURA

Em tempos passados existiram duas crianças, um menino e uma menina, que tinham entre quatro e cinco anos de idade.
O menino chamava-se Amor e a menina Loucura.

O Amor sempre foi uma criança calma, doce e compreensiva.
Já a Loucura era muito emotiva, passional e impulsiva, enfim, do tipo que jamais levava desaforo para casa.

Entretanto, apesar de todas as diferenças, as crianças cresciam juntas, inseparáveis, brincando, brigando...


Mas houve um dia em que o Amor não se sentia muito bem, e acabou respondendo às provocações de Loucura, com a qual teve uma discussão muito feia.

Ela não deixava nada barato, estava furiosa como nunca com o Amor. Começou a agredi-lo, mas não só verbalmente, como de costume.
A menina estava tão descontrolada que agrediu o garoto fisicamente, e, antes que pudesse perceber, arrancou os olhos do Amor.

O Amor, sem saber o que fazer, chorando, foi contar à sua mãe, a deusa Afrodite, o que havia acontecido.
Inconsolada, Afrodite implorou a Zeus que ajudasse seu filho, mas que não castigasse Loucura.

Zeus, por sua vez, ordenou que chamassem a garota para uma conversa.

Ao ser interrogada, a menina respondeu, como se estivesse com toda a razão, que o Amor a tinha aborrecido, e que foi merecido tudo o que aconteceu.

Embora soubesse que não fora justa com o seu amigo, a menina, que nunca soube desculpar-se, concluiu dizendo que a culpa havia sido do Amor e que não estava nem um pouco arrependida.

Zeus, perplexo com a aparente frieza daquela criança, disse que nada poderia fazer para devolver a visão do Amor, mas ordenou que Loucura ficasse condenada a guiá-lo por toda a eternidade, estando sempre junto ao Amor, em cada passo que este desse.

E, até hoje, eles caminham juntos: onde quer que o Amor esteja com ele estará Loucura, quase que fundidos um no outro.
São tão unidos que por vezes não se consegue definir onde termina o Amor e onde começa a Loucura.

É também por isso que se costuma dizer que o Amor é cego; mas isso não é verdade, pois o Amor vê com os olhos da Loucura.

Autor desconhecido

Veja o vídeo

O AMOR É LOUCO...

Canção. Intérprete: Carlos Ramos.


quinta-feira, 16 de outubro de 2008

BALADA PARA OUTRAS ISABELLAS

Olá! Eu vim lhe contar um pouco da minha história...
Peço atenção, seu “dotô”, um instante, não demora...

Meu nome não é Isabella nem “caí” de uma janela do quarto no sexto andar...(será que pensaram, os insanos, que ela sabia voar?)

Não moro num prédio equipado, não tenho motos, brinquedos, nem piscina pra nadar...
Eu brinco, às vezes, nas poças de chuva, com gatos, latinhas, bolinhas de gude...isso quando não tenho que a mãe ajudar...

Não sei dançar, e não brinco como menina educada, porque aprendi, desde cedo, lá no morro onde nasci, que não importa o sexo da criança: menino ou menina, a experiência, é viver o teatro da sobrevivência...

Não me chamo Isabella... nem fui morta (ainda) por meu pai ou madastra...mas morro um pouco, a cada dia, quando sou espancada.
E morro também,assim, engasgada, obrigada a me calar quando tenho mãos sobre mim...nem sempre a me sufocar, mas explorando, de um jeito esquisito, que nem entendo direito,no meu corpo sem contornos...

Meu nome ,não é Isabella...
Não tenho cabelos lisos,nem tenho olhinhos espertos...
Ao contrário: meus olhos são opacos, talvez, por não querer enxergar
minha dura realidade...

Também não faço teatros, lá no palco da escolinha... isso não é para mim...
Quando vou à escola, é somente p’ra comer a merenda que me dão... pois muitas vezes, em casa, não temos sequer o pão...

O máximo que sei é correr: morro abaixo, morro acima, entre os carros dos sinais...para ganhar um trocado, ou para fugir dos adultos, que insistem em me machucar...

Eu não me chamo Isabella...mas, como ela, (ou até mais!) eu sofro... e diariamente...
Tenho marcas de pancadas, queimaduras de cigarros, tenho ossos fraturados, boca sangrando, hematomas, que mãos e pés gigantescos
me provocam sem motivo...

Não morri, como Isabella...
Ainda não... mas irmãos, amiguinhos, conhecidos, eu sempre vejo morrer...
Quem matou? Nunca se sabe...”ele caiu”, “tropeçou”,”queimou-se por acidente”.
“Estrupada?”, “coitadinha”...
“Não fui eu”, diz o padrasto; “nem eu”, diz a mãe omissa...
E eles não têm nem quem reze para eles, uma missa...

Eu não me chamo Isabella...sou Maria, Rita, João…
Sou Josefina, sou Mirtes, sou Paulo, Sebastião...
Sou tantas, tantas crianças, que todo dia a omissão de todos deixa morrer...



Engraçado é que ninguém, faz passeata por mim, a imprensa não divulga, o “figurão” não se importa, a classe média não grita, os ricaços dão de ombros...
Que hipocrisia é essa, de chorar por uma só?
São tantas as Isabelas violentadas sem dó...

Mas que importam os escombros, a escória da sociedade?

Se não me chamo Isabella, não mereço piedade.

Recebi por email, de um amigo brasileiro.
Sem comentários!