quinta-feira, 30 de outubro de 2008

UM PASSEIO À NORUEGA

Tenho uma caixa (na verdade é mais um pequeno caixote de cartão) onde vou colocando coisas para mais tarde arrumar nos seus devidos lugares.
Ontem olhei para ela de soslaio e pensei: está na hora de dar aqui uma volta, antes que isto transborde…

No meio de vários papéis a aguardarem arquivo, encontrei umas fotografias para intercalar no álbum de fotos dum passeio que dei à Noruega. Ao vê-las “revi” aquela maravilhosa viagem, e várias peripécias que aconteceram.
Há sempre inúmeras histórias para contar, das viagens. Esta que vou partilhar convosco parece-me bastante interessante. Eu chamar-lhe-ia “uma história de contrastes”.

Há três ou quatro anos fui visitar a Noruega na companhia de um grupo de bons amigos.
Saímos de Lisboa em meados de Julho, rumo a Oslo, a capita. Aí premanecemos dois dias, visitando a cidade e seus monumentos, e, como não podia deixar de ser, o famoso Parque Frogner.

Dentro deste parque existe uma exposição permanente de cerca de 200 estátuas e outras obras de arte do escultor norueguês Gustav Vigeland. (por isso é também conhecido por Parque Vigeland)

Este escultor dedicou a maior parte da sua obra ao culto Homem/Mulher, inspirando-se muitas vezes na mitologia grega e também na Bíblia.

A entrada do Parque é ladeada por grande quantidade de esculturas, todas subordinadas aos temas “Homem/Mulher, “Fertilidade”, e “Natureza”




















Não vou alongar-me muito em pormenores. Descrever um passeio de duas semanas daria para escrever um livro…e não é neste espaço que pretendo fazê-lo.

Continuamos viagem para norte. A Noruega é um país lindíssimo, com paisagens maravilhosas, muito diferentes do que vemos habitualmente.

Chegamos a um ponto do nosso percurso que incluía um passeio, a pé, com duração prevista de 4 horas, a uma formação rochosa chamada “Preikestolen”.
Antes de iniciarmos a caminhada o guia forneceu-nos um folheto que dizia:

Visita ao PREIKESTOLEN
Visita a uma curiosidade natural única, considerada como o observatório mais famoso de toda a Escandinávia. A enorme coluna rochosa PREIKESTOLEN cai vertiginosamente a pique, 600 metros, nas águas do Lysefiord. Não tem qualquer acesso por estrada, logo, só é possível realizar esta visita a pé. É necessário levar calçado adequado, pois a caminhada dura cerca de 4 horas, por caminho bastante irregular.

Os organizadores do passeio “esqueceram-se” de informar que:
- Parte do trajecto é feito caminhando de lado, agarrados a correntes de ferro presas nas rochas.
- Há uma inclinação, no sentido descendente, de tal modo íngreme e escorregadia que temos que deslizar acocorados em cima dos calcanhares, agarrados a lianas.
- Quase todo o percurso é feito sobre pedras soltas, como se pode ver na foto seguinte.

Não há quaisquer indicações ou mapas, excepto essas marcas vermelhas (como a que se vê na foto), que nos “dizem” qual é a rocha seguinte…

Mas todo o esforço se dá por bem empregue quando se atinge o topo.
A sensação é a de que se está mesmo no topo do mundo!


(As fotos seguintes não foram feitas por mim, é claro. São reproduções de cartões postais)





















Depois de apreciar a maravilhosa paisagem que se desfruta lá de cima, de encher os pulmões daquele ar puríssimo e de tirar imensas fotografias, iniciamos o regresso.

Agora no sentido descendente, muito mais fácil do que a subida, alguns metros decorridos, inexplicavelmente caí, fiz uma entorse tíbio-társica no pé direito, que me impossibilitou de caminhar.
Num piscar de olhos o tornozelo começou a inchar e as dores a tornarem-se insuportáveis.
Amavelmente, os meus companheiros de viagem tentaram ajudar. Tarefa inglória! Naquele trecho do caminho só cabiam os pés de uma pessoa de cada vez.
Depois de várias tentativas, - um à minha frente dando-me um braço para eu me apoiar, outro atrás de mim fazendo a mesma coisa - acabamos por desistir.
Começamos a pensar em qual seria a melhor forma de me retirarem daquele local.
Para se sair dali, sem poder andar pelo seu pé…só com asas. É impossível qualquer tipo de socorro por terra
Eu já me imaginava a passar a noite, que se aproximava, naquele local desabrigado. Comecei a ficar seriamente preocupada.
Mas…os deuses estavam por mim!
Cruzou-se connosco um jovem casal de noruegueses, que ia a subir, e, ao ver-me amparada e parada, com um pé no ar, perguntaram se precisávamos ajuda.
Contamos o que tinha acontecido, e como estávamos aflitos sem saber como resolver aquela situação.
Foi quando soubemos, por eles, que existe um serviço de assistência de helicóptero para casos semelhantes, quer se esteja no Preikestolen quer em qualquer outro local de difícil acesso, em qualquer ponto da Noruega.
De posse do número de telemóvel que eles nos forneceram, chamou-se um helicóptero que me transportou ao hospital – ambos os serviços, transporte e assistência hospitalar completamente grátis !!!


(Ao fundo, o helicóptero que me evacuou. Ninguém me pôde acompanhar; no heli só havia espaço para mim, ( nesta altura já estava lá dentro) além dos paramédicos. A imagem não é muito boa; foi retirada do filme que um amigo fez de toda a viagem).

No hospital recebi assistência médica, e de lá regressei em cadeira de rodas que, ao fim de 2 ou 3 dias, foi substituída por canadianas.
Com elas fiz o resto da viagem pela Noruega, e com elas regressei a Lisboa.

Apanhamos o avião de regresso a Lisboa em Estocolmo, Suécia, fazendo escala, com mudança de avião, em Frankfurt, Alemanha.
Pelo facto de vir de canadianas tive tratamento VIP nestes 2 aeroportos, de Estocolmo e da Alemanha.
Quem conhece o aeroporto de Frankfurt sabe que as suas dimensões são impressionantes.
Quem tiver que fazer transbordo tem que percorrer uma distância enorme!
Como eu estava lesionada, transportaram-me num carrinho eléctrico (o marido aproveitou a boleia…)
Viajei em 1ª.classe, (para grande inveja dos meus amigos companheiros de viagem…) e a bordo encheram-me de mimos! Até nos ofereceram champanhe! E, depois de nos fornecerem ementa para escolhermos o almoço, e termos almoçado, serviram-nos um belo café acompanhado de bombons de chocolate!

Claro que à chegada ao aeroporto de Lisboa nem uma cadeira tive para me sentar!!! A solução foi aguardar a saída das bagagens apoiada às canadianas.
Aí caímos na realidade… do 3º.mundo !!!

domingo, 26 de outubro de 2008

O MEDO

Há quem defenda que o recém-nascido “traz” consigo dois medos – o medo do barulho e o medo de cair.
De facto, se expusermos um bebé a um ruído forte, verificamos que ele se agita, inquieto. E, se simularmos deixá-lo cair, o bebé encolhe-se e pode, eventualmente, dependendo da intensidade do susto, até chorar.

A psicologia diz-nos que a maioria dos medos que nos acompanham são adquiridos na infância, quase sempre incutidos pelos pais e educadores, ou como resultado de qualquer experiência traumática.

Dominados pelo medo podemos cometer actos irreflectidos, por vezes funestos.

Epicuro, filósofo grego (341 a 241 a.C.), cuja vida foi marcada pela serenidade e doçura, entendia que o essencial para a felicidade era uma vida tranquila, cercado de amigos, em completa ausência de dor e de medos.
“A representação vulgar do mundo com os seus deuses, o medo dos quais fez com que se cometessem os piores actos, é obstáculo à serenidade”.
“Para encontrar a felicidade o homem precisa aprender a superar os seus temores, até mesmo o da morte”.

Actualmente a psicologia divide os medos em normais e irracionais.
Normal é o medo que nos previne do perigo: ter medo de nos atirarmos da janela para saber qual a sensação de voar; ter medo de ser assaltado; ter medo de desafiar os mais fortes e depois sofrer represálias...
Ao medo do perigo associa-se o desejo de sobrevivência, o que torna este tipo de medo normal.

Irracional é o medo que nos domina completamente, nos leva a alterar hábitos e rotinas, que nos escraviza.

A melhor forma de combater os medos é enfrentá-los.
Não é fácil. Normalmente é até muito difícil; e, para o conseguir há que, muitas vezes, recorrer à ajuda de especialistas.

O medo mais comum é, sem dúvida, o medo do desconhecido.
Postos perante o desconhecido, nem sempre optamos pela melhor solução.

A PORTA NEGRA

Era uma vez um país de Mil e Uma Noites.
Neste país havia um rei que era muito polémico por causa dos seus actos.
Levava os prisioneiros de guerra para uma grande sala.
Os prisioneiros eram enfileirados no centro da sala, e o rei gritava:
- Eu vou dar-vos uma chance. Olhem para o canto direito da sala.
Ao olharem, os prisioneiros viam alguns soldados armados de arco e flechas, prontos para a acção.
- Agora, - continuava o rei – olhem para o canto esquerdo.
Ao olharem, todos os presos notavam que havia uma terrível Porta Negra, de aspecto dantesco.
Crânios humanos serviam como decoração, e a maçaneta era a mão de um cadáver.
Algo horripilante só de imaginar, quanto mais para ver.
O rei posicionava-se no centro da sala e gritava:
- Agora escolhem. O que é que vocês preferem? Morrerem cravados de flechas ou abrirem rapidamente aquela Porta Negra e entrarem lá dentro enquanto eu vos fecho lá?
Decidam. Vocês têm livre arbítrio. Escolham!
Todos os prisioneiros tinham o mesmo comportamento: na hora da decisão eles chegavam junto da terrível Porta Preta de mais de quatro metros de altura, olhavam para os desenhos de caveiras, sangue humano, esqueletos, aspecto infernal, coisas escritas do tipo “ Viva a morte”, etc., e decidiam: Quero morrer flechado.
Um a um todos agiam assim: olhavam para a Porta Negra e para os arqueiros da morte e diziam para o rei:
-Prefiro ser atravessado por flechas a abrir essa Porta Negra e ser trancado lá dentro.
Milhares optaram pelo que estavam vendo – a morte feia pelas flechas.
Um dia, a guerra acabou.
Passado algum tempo, um daqueles soldados do “Pelotão da Flechada” estava varrendo a enorme sala quando surgiu o rei.
O soldado, com toda a reverência e meio sem jeito, perguntou:
- Sabe, ó grande rei, eu sempre tive uma curiosidade… Não se zangue com minha pergunta, mas…o que tem além daquela Porta Negra?
O rei respondeu:
- Lembras-te que eu dava aos prisioneiros duas escolhas? Pois bem, vai e abre a Porta Negra.
O soldado, trémulo, rodou cautelosamente a maçaneta e sentiu um raio puro de sol beijar o chão feio da enorme sala. Abriu mais um pouquinho a porta, e mais sol e um gostoso cheirinho de verde inundaram o local.
O soldado notou que a Porta Negra abria para um caminho que apontava para uma grande estrada.
Foi então que o soldado percebeu: a Porta Negra dava para a Liberdade.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

SINCERIDADE

Já aqui falamos várias vezes de Amor, Amizade, e, pelo menos afloramos, muitos outros sentimentos.
Hoje vamos debruçar-nos sobre a “Sinceridade”.
Comecemos por ver o que nos diz Malba Tahar sobre a origem da palavra «sincera».

A ORIGEM DA PALAVRA SINCERA

Sincera é uma palavra doce e confiável.

Sincera é uma palavra que acolhe.

E essa é uma palavra que deveria estar no vocabulário de toda a gente.

Sincera foi uma palavra inventada pelos romanos.

Sincero vem do velho, do velhíssimo latim…

Eis a poética viagem que fez “sincero” de Roma até aqui:

Os romanos fabricavam certos vasos de uma cera especial.
Essa cera era, às vezes, tão pura e perfeita, que os vasos se tornavam transparentes.
Em alguns casos chegava-se a distinguir um objecto – um colar, uma pulseira ou um dado – que estivesse colocado no interior do vaso.

Para o vaso, assim fino e límpido, dizia o romano vaidoso:
- Como é lindo! Parece até que não tem cera!
“Sine-cera” querida dizer “sem cera”, uma qualidade de vaso perfeito, finíssimo, delicado, que deixava ver através das suas paredes.

Da antiga cerâmica romana, o vocábulo passou a ter um significado muito mais elevado.

Sincero é aquele que é franco, leal, verdadeiro; que não oculta, não usa disfarces, malícias ou dissimulações.

O sincero, à semelhança do vaso, deixa ver, através de suas palavras, os nobres sentimentos de seu coração.


A maioria dos escritores e pensadores manifestaram, ao logo dos tempos, a sua opinião acerca da sinceridade.
Vejamos alguns exemplos:

André Gide, conhecido escritor francês, autor de inúmeros livros e Prémio Nobel de Literatura de 1947, disse:

“Não se pode, ao mesmo tempo, ser sincero e parecê-lo”

“Em geral consideram-se sinceros todos os rapazes com convicções, e incapazes de criticar”

Por seu lado, François La Rochefoucaud, também escritor francês, pensava:

“A sinceridade é uma abertura do coração. Encontramo-la em muito poucas pessoas, e essa que vulgarmente por aí se vê, não passa de uma astuta dissimulação para atrair a confiança alheia”.

“As pessoas fracas não podem ser sinceras”.

“Alguma desconfiança que tenhamos da sinceridade de quem nos fala, não impede que julguemos sempre que são mais sinceros connosco que com os outros”

E, por último, vejamos o que pensava da sinceridade o nosso Fernando Pessoa:

“Nunca sabemos quando somos sinceros. Talvez nunca o sejamos. E mesmo que sejamos sinceros hoje, amanhã podemos sê-lo por coisa contrária”.

“Quando falo com sinceridade, não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe”.

“Custa tanto ser sincero quando se é inteligente! É como ser honesto quando se é ambicioso”.

“No teatro da vida quem tem o papel de sinceridade é quem, geralmente, mais bem vai no seu papel”.

“Toda a sinceridade é uma intolerância. Não há liberais sinceros. De resto, não há liberais”.

Sem quaisquer pretensões a escritora ou pensadora…"penso" que a sinceridade deve ser usada com conta, peso e medida.
Quantas vezes, por uma questão de piedade, não podemos ser completamente sinceros?
E também, às vezes, por uma questão de prudência, temos que calar a verdade sincera, porque:

“Quem diz o que quer ouve o que não quer”!

domingo, 19 de outubro de 2008

AMOR E LOUCURA

Em tempos passados existiram duas crianças, um menino e uma menina, que tinham entre quatro e cinco anos de idade.
O menino chamava-se Amor e a menina Loucura.

O Amor sempre foi uma criança calma, doce e compreensiva.
Já a Loucura era muito emotiva, passional e impulsiva, enfim, do tipo que jamais levava desaforo para casa.

Entretanto, apesar de todas as diferenças, as crianças cresciam juntas, inseparáveis, brincando, brigando...


Mas houve um dia em que o Amor não se sentia muito bem, e acabou respondendo às provocações de Loucura, com a qual teve uma discussão muito feia.

Ela não deixava nada barato, estava furiosa como nunca com o Amor. Começou a agredi-lo, mas não só verbalmente, como de costume.
A menina estava tão descontrolada que agrediu o garoto fisicamente, e, antes que pudesse perceber, arrancou os olhos do Amor.

O Amor, sem saber o que fazer, chorando, foi contar à sua mãe, a deusa Afrodite, o que havia acontecido.
Inconsolada, Afrodite implorou a Zeus que ajudasse seu filho, mas que não castigasse Loucura.

Zeus, por sua vez, ordenou que chamassem a garota para uma conversa.

Ao ser interrogada, a menina respondeu, como se estivesse com toda a razão, que o Amor a tinha aborrecido, e que foi merecido tudo o que aconteceu.

Embora soubesse que não fora justa com o seu amigo, a menina, que nunca soube desculpar-se, concluiu dizendo que a culpa havia sido do Amor e que não estava nem um pouco arrependida.

Zeus, perplexo com a aparente frieza daquela criança, disse que nada poderia fazer para devolver a visão do Amor, mas ordenou que Loucura ficasse condenada a guiá-lo por toda a eternidade, estando sempre junto ao Amor, em cada passo que este desse.

E, até hoje, eles caminham juntos: onde quer que o Amor esteja com ele estará Loucura, quase que fundidos um no outro.
São tão unidos que por vezes não se consegue definir onde termina o Amor e onde começa a Loucura.

É também por isso que se costuma dizer que o Amor é cego; mas isso não é verdade, pois o Amor vê com os olhos da Loucura.

Autor desconhecido

Veja o vídeo

O AMOR É LOUCO...

Canção. Intérprete: Carlos Ramos.


quinta-feira, 16 de outubro de 2008

BALADA PARA OUTRAS ISABELLAS

Olá! Eu vim lhe contar um pouco da minha história...
Peço atenção, seu “dotô”, um instante, não demora...

Meu nome não é Isabella nem “caí” de uma janela do quarto no sexto andar...(será que pensaram, os insanos, que ela sabia voar?)

Não moro num prédio equipado, não tenho motos, brinquedos, nem piscina pra nadar...
Eu brinco, às vezes, nas poças de chuva, com gatos, latinhas, bolinhas de gude...isso quando não tenho que a mãe ajudar...

Não sei dançar, e não brinco como menina educada, porque aprendi, desde cedo, lá no morro onde nasci, que não importa o sexo da criança: menino ou menina, a experiência, é viver o teatro da sobrevivência...

Não me chamo Isabella... nem fui morta (ainda) por meu pai ou madastra...mas morro um pouco, a cada dia, quando sou espancada.
E morro também,assim, engasgada, obrigada a me calar quando tenho mãos sobre mim...nem sempre a me sufocar, mas explorando, de um jeito esquisito, que nem entendo direito,no meu corpo sem contornos...

Meu nome ,não é Isabella...
Não tenho cabelos lisos,nem tenho olhinhos espertos...
Ao contrário: meus olhos são opacos, talvez, por não querer enxergar
minha dura realidade...

Também não faço teatros, lá no palco da escolinha... isso não é para mim...
Quando vou à escola, é somente p’ra comer a merenda que me dão... pois muitas vezes, em casa, não temos sequer o pão...

O máximo que sei é correr: morro abaixo, morro acima, entre os carros dos sinais...para ganhar um trocado, ou para fugir dos adultos, que insistem em me machucar...

Eu não me chamo Isabella...mas, como ela, (ou até mais!) eu sofro... e diariamente...
Tenho marcas de pancadas, queimaduras de cigarros, tenho ossos fraturados, boca sangrando, hematomas, que mãos e pés gigantescos
me provocam sem motivo...

Não morri, como Isabella...
Ainda não... mas irmãos, amiguinhos, conhecidos, eu sempre vejo morrer...
Quem matou? Nunca se sabe...”ele caiu”, “tropeçou”,”queimou-se por acidente”.
“Estrupada?”, “coitadinha”...
“Não fui eu”, diz o padrasto; “nem eu”, diz a mãe omissa...
E eles não têm nem quem reze para eles, uma missa...

Eu não me chamo Isabella...sou Maria, Rita, João…
Sou Josefina, sou Mirtes, sou Paulo, Sebastião...
Sou tantas, tantas crianças, que todo dia a omissão de todos deixa morrer...



Engraçado é que ninguém, faz passeata por mim, a imprensa não divulga, o “figurão” não se importa, a classe média não grita, os ricaços dão de ombros...
Que hipocrisia é essa, de chorar por uma só?
São tantas as Isabelas violentadas sem dó...

Mas que importam os escombros, a escória da sociedade?

Se não me chamo Isabella, não mereço piedade.

Recebi por email, de um amigo brasileiro.
Sem comentários!

domingo, 12 de outubro de 2008

RECORDANDO UMA ESTRELA

Passaram-se 20 anos desde que se apagou mais uma estrela no firmamento musical português – Carlos Paião.
Foi no dia 26 de Agosto de 1988 que uma “das maiores e mais queridas estrelas do mundo da música portuguesa” nos deixou para sempre.

Dirigia-se para Leiria, onde iria actuar num espectáculo, quando foi surpreendido pela morte, num violento acidente de viação.

Noticia da Morte de Carlos Paião RTP Jornal de Sabado 1988



Em breve se gerou em torno da sua figura o boato de que não estaria morto na altura do seu funeral, mas sim em coma. A verdade é que a violência do acidente não permitiria a sobrevivência fosse de quem fosse, mas o boato mantém-se extremamente arreigado até aos dias de hoje.

Nascido em Coimbra a 1 de Novembro de 1957 passou a maior parte da sua juventude entre Ílhavo e Lisboa, tendo-se licenciou em Medicina pela Universidade de Lisboa, em 1983.

Pouco depois decidiu dedicar-se exclusivamente à música, para a qual, desde muito jovem, mostrava particular aptidão. Com apenas 23 anos de idade tinha já composto mais de 200 canções.

Em 1981, Carlos Paião decidiu enviar algumas delas ao Festival RTP da Canção, numa altura em que este certame representava uma plataforma para o sucesso e a fama no mundo da música portuguesa.
"Play-Back", a canção seleccionada, ganhou o Festival RTP da Canção, com a esmagadora pontuação de 203 pontos, deixando para trás concorrentes tão fortes como as Doce, já na altura muito populares em Portugal.
A canção, uma crítica divertida, mas contundente, aos artistas que cantam em play-back, ficou em penúltimo lugar no Festival da Eurovisão, que se realizou nesse ano em Dublin, na República da Irlanda.

Carlos Paião - Play-Back Eurovisão 1981



Compositor, intérprete e instrumentista, Carlos Paião produziu mais de quinhentas canções, tendo sido homenageado em 2003, com um CD comemorativo dos 15 anos da sua morte.

Muitas são as canções que perduram na nossa memória.
Por exemplo «Pó de Arroz», composta em 1981

Carlos Paião | Pó de Arroz



ou a posterior «Cinderela»

Carlos Paião – Cinderela



A editora Valentim de Carvalho chegou a encomendar a Carlos Paião canções para outros intérpretes, entre eles Amália Rodrigues, para quem compôs, em 1982, «O Senhor Extra Terrestre», cuja letra chegou mesmo a constar dum manual para alunos da escola primária.

Carlos Paião partiu, mas perdura na nossa memória.
Saudades!... Grande Carlos! Que estejas sempre em paz!
Obrigado por tudo o que nos deixaste!!!

Deixo aqui, para quem quiser ler, a letra da canção «O Senhor Extra Terrestre»

Vou contar-vos um história
que não me sai da memória,
foi p’ra mim uma vitória
nesta era espacial.
Noutro dia estremeci
quando abri a porta e vi
um grandessíssimo ovni
pousado no meu quintal.
Fui logo bater à porta,
veio uma figura torta,
eu disse: se não se importa
poderia ir-se embora,
tenho esta roupa a secar
e ainda se vai sujar
se essa coisa aí ficar
a deitar fumo p’ra fora.
E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá o botãozinho
e pôde contar-me então
que tinha sido multado
por o terem apanhado
sem carta de condução.

O senhor desculpe lá,
não quero passar por má,
pois você onde está
não me adianta nem me atrasa.
O pior é que a vizinha
que parece que adivinha
quando vir que estou sozinha
com um estranho em minha casa.
Mas já que está aí de pé
venha tomar um café,
faz-me pena, pois você
nem tem cara de ser mau
e eu queria saber também
se na terra donde vem
não conhece lá ninguém
que me arranje bacalhau.
E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho,
disse para me pôr a pau,
pois na terra donde vinha
nem há cheiro de sardinha
quanto mais de bacalhau.

Conte agora novidades:
É casado? Tem saudades?
Já tem filhos? De que idades?
Só um? A quem é que sai?
Tem retratos com certeza,
mostre lá? Ai que riqueza,
não é mesmo uma beleza,
tão verdinho? sai ao pai.
Já está de chaves na mão?
Vai voltar p’ro avião?
Espere, que já ali estão
umas sandes p’ra viagem
e vista também aquela
camisinha de flanela
p’ra quando abrir a janela
não se constipar co’a aragem.
E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho
e pôde-me então dizer
que quer que eu vá visitá-lo,
que acha graça quando eu falo
ou ao menos p’ra escrever.

E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho
só p’ra dizer: Deus lhe pague.
Eu dei-lhe um copo de vinho
e lá foi no seu caminho
que era um pouco em ziguezague

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

ANITA

ANITA – EPISÓDIO IV

(Ficção baseada em factos reais)

…Comprou os selos, colou-os no envelope, e entregou a carta à funcionária, para que a fizesse seguir. Despediu-se com um breve “até logo”.
FIM DO 3º.EPISÓDIO

EPISÓDIO IV

A funcionária, com o envelope na mão, leu o endereço, reparando que era dirigido a um homem. Alguma coisa lhe dizia que algo estranho se passava, pois não tinha memória de alguma vez Anita ter escrito a um homem.
Hesitou, acabando por pôr a carta de lado.

À hora normal fechou o posto do correio. Dirigiu-se a casa de Anita, levando consigo a carta.
Foi recebida por Eulália, a quem, depois de muitos rodeios, acabou por contar o que passara nessa manhã, entregando-lhe a carta que não fizera seguir.

Logo que se encontrou só, a mãe de Anita fechou-se no seu quarto e, nervosamente, leu tudo o que a filha escrevera na noite anterior.
O seu espanto não tinha limites! Mal podia acreditar no que os seus olhos estavam vendo.
- Como é possível? - pensava.
Anita foi sempre uma filha tão obediente, respeitadora…
Como se atreve agora a rebelar-se desta maneira?
Como foi arranjar um namorado sem que eu ou o pai suspeitássemos de nada?
E quando foi que isso aconteceu?
Todas as vezes que veio cá de férias nada de anormal se notou no seu comportamento… Só pode ter sido neste último ano que passou na capital.

Sem saber que atitude tomar, optou por fingir que nada sabia. Falou com Anita com a naturalidade habitual, alvitrando sugestões para o vestido de casamento, a festa, os convites…

Quando à noite regressou a casa, Justino notou-lhe um certo nervosismo, que atribuiu à aproximação do casamento da filha. Uma sombra toldou-lhe o olhar, ao lembrar-se que iria perder a sua menina para outro homem.

O serão decorreu como habitualmente. A sós no quarto, finalmente Eulália pôde confiar ao marido o que tanto a preocupava. Receosa da sua reacção, contou-lhe brevemente como tinha a carta em seu poder.
Não esperava a frieza com que ele leu e releu a carta, e muito menos a sua observação:
- Temos que apressar o casamento. Amanhã mesmo irei falar com Vicente. Arranjarei uma desculpa qualquer para justificar tanta urgência. Entretanto, vamos proceder como se não soubéssemos de nada. Anita não pode desconfiar que descobrimos o seu segredo.

Nessa noite Anita conseguiu dormir descansadamente, convicta de que muito em breve Arnaldo haveria de descobrir uma forma de os libertar.
Lentos, os dias foram-se passando.
Fingia interesse pelos detalhes relacionados com o casamento, de que a mãe falava constantemente. Só à hora da chegada do correio se dirigia alvoroçada ao encontro do carteiro. Mas uma semana se passou, e a esperada resposta não chegava.

Começou então a ficar preocupada, nervosa. Não conseguia perceber tal silêncio.
Arnaldo não podia tê-la esquecido assim tão depressa. Ter-se-ia assustado com o rumo dos acontecimentos? Não teria coragem para assumir o seu amor contra a vontade de seus pais? Anita perdia-se em conjecturas, sem chegar a nenhuma conclusão.

Desesperada, escreveu nova carta, que teve o mesmo destino que a primeira – as mãos de Eulália.

Continuando sem respostas às suas cartas, aos poucos Anita foi-se convencendo que Arnaldo a esquecera, ou não teria coragem para assumir a responsabilidade de vir libertá-la do compromisso que seus pais haviam assumido para com Vicente.

Anita sentia-se desiludida. Fosse por um motivo ou por outro, afinal Arnaldo não era o homem que ela imaginara e com quem sonhara construir uma vida a dois.


Desde que começara o noivado Vicente ia todas as noites visitar a sua noiva.
Seguindo a tradição da época, sentavam-se na sala onde Eulália também se encontrava. Esta fingia-se absorvida pelos seus bordados. Uma vez por outra saía da sala por breves momentos, tentando favorecer um ambiente mais descontraído entre os noivos. Ela apercebia-se da tensão em que se encontrava a filha.

Vicente conversava longamente, expondo os seus planos para o que seria uma vida repleta de felicidade.
Anita ouvia-o, com um leve sorriso ausente, acenando, em sinal de concordância.
Havia, contudo, um ponto, em que Anita exigia que a sua vontade fosse respeitada.

domingo, 5 de outubro de 2008

BUNDA MOLE, É?

Os telespectadores portugueses, especialmente os que vêem ou viram novelas, lembram-se dela, com certeza, actuando em «A próxima vítima», «Olho no olho», «Brega e chique», entre outras.

Nascida a 1 de Maio de 1955, Patrícia Travassos é actriz e roteirista brasileira.
Começou a sua carreira artística pelo teatro, compôs canções e dirigiu espectáculos duma banda rock.
No cinema participou de roteiros e actuou nalguns filmes.

Actualmente apresenta, na televisão, o programa “Alternativa Saúde”, no canal GNT, e é cronista de revista Marie Claire.

O seu primeiro livro chama-se «Este sexo é feminino». É dele o excerto que partilho convosco.

Belinha acordou às seis, arrumou as crianças, levou-as para o colégio e voltou para casa a tempo de dar um beijo burocrático em Artur, o marido, a fim de trocarem cheques, afazeres e reclamações.
Fez um supermercado rápido, brigou com a empregada que manchou seu vestido de seda, saiu como sempre apressada, levou uma multa por estar dirigindo com o celular no ouvido e uma advertência por estacionar em lugar proibido, enquanto ia, por um minuto, ao caixa automático tirar dinheiro.
No caminho do trabalho batucava ansiedade no volante, num congestionamento monstro e pensava quando teria tempo de fazer a unha e pintar o cabelo antes que se transformasse numa mulher grisalha.
Chegando ao escritório, foi quase atropelada por uma gata escultural que, segundo soube, era a nova contratada da empresa, para o cargo que ela, Belinha, fez de tudo para pegar, mas que, apesar do currículo excelente e de seus anos de experiência e dedicação, não conseguiu.
Pensou se abdômen definido contaria ponto, mas logo esqueceu a gata, porque no meio de uma reunião ligaram do colégio de Clarinha, sua filha mais nova, dizendo que ela estava com dores de ouvido e febre.
Tentou em vão, achar o marido e, como não conseguiu,
Resolveu ela mesma ir até o colégio, depois do encontro com o novo cliente, que se revelou um chato, neurótico, desconfiado, e com quem teria que lidar nos próximos meses.
Saiu esbaforida e encontrou seu carro com pneu furado.
Pensou em tudo que ainda ia ter que fazer antes de fechar os olhos e sonhar com um mundo melhor.
Abandonou a droga do carro avariado, pegou um táxi e as crianças.
Quando chegou em casa, descobriu que tinha deixado a pasta com o relatório que precisava ler para o dia seguinte, no escritório!
Telefonou para o celular do marido com a esperança que ele pudesse pegar os papéis na empresa, mas o celular continuava fora de área.
Conseguiu, depois de vários telefonemas, que um “motoboy” lhe trouxesse os documentos.
Tomou um banho, deu o jantar para as crianças, fez os deveres com eles e os botou para dormir.
Artur chegou irritado de uma reunião em São Paulo, reclamando de tudo.
Jantaram em silêncio.
Na cama, ela leu metade do relatório e começou a bocejar de sono.
Quando estava quase pegando no sono, sentiu uma apalpadinha no traseiro com o seguinte comentário:
“-Tá ficando com a bundinha mole, Belinha... Deixa de preguiça e comece a se cuidar...”
Belinha olhou para o abajur de metal e se imaginou martelando a cabeça de Artur com ele.
Respirou três vezes profundamente, mentalizando a cor azul, e ponderou resolver agir com sabedoria.
No dia seguinte, não levou as crianças ao colégio, não fez um supermercado rápido, nem brigou com a empregada.
Foi para a academia e malhou duas horas!
De lá, foi para o cabeleireiro pintar os cabelos de acaju e as unhas de vermelho.
Ligou para o cliente novo insuportável e disse tudo que achava dele, da mulher dele e do projeto dele.
E aguardou os resultados da sua péssima conduta, fazendo uma massagem estética que jura eliminar, em dez sessões, a gordura localizada.
Enquanto se hospedava num “Spa”, ouviu o marido desesperado, tentar localizá-la pelo celular e descobrir por que ela havia sumido.
Pacientemente, ela não atendeu...
E, como vingança é um prato que se come frio, mandou um recado lacônico, para a caixa postal dele:
“-A bunda ainda está mole... Só volto, quando estiver dura...
Um beijo da preguiçosa!..”
Mulher não é um bicho inteligente?

Extraído do livro “Este sexo é feminino” de Patricia Travassos

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

QUASE ACREDITEI

Sofia Morgado é hipnoterapeuta profissional, diplomada pelo London College of Clynical Hypnosis, supervisora e tutora do Centro de Hipnose Clínica Ibérico (extensão do London College of Clynical Hypnosis em Portugal e Espanha).

Exerce a sua profissão em Lisboa e em Sobreda (margem sul)

Especializou-se na área das perturbações de ansiedade – stress, ataques de pânico, fobias, ansiedade generalizada, stress pós traumático, etc. – ajudando muitas pessoas, ao longo dos últimos oito anos, a resolver os seus problemas.

É autora de inúmeros artigos sobre desenvolvimento pessoal e relações inter-pessoais, muitos deles condensados no livro «Consciência do SER».

É da sua autoria o texto que partilho convosco.

QUASE ACREDITEI

Quase acreditei que não era nada, ao me tratarem como nada.


Quase acreditei que não seria capaz, quando me chamavam por acharem que eu não era capaz.

Quase acreditei que não sabia, quando me perguntavam por acharem que eu não sabia.

Quase acreditei ser diferente, entre tantos iguais, entre tantos capazes e sabidos, entre tantos que eram chamados e escolhidos.

Quase acreditei estar de fora, quando me deixavam de fora, porque…que falta fazia?

E de quase acreditar, adoeci.

Busquei ajuda com doutores, mestres, magos e querubins.

Procurei a cura em toda a parte, e ela estava tão perto de mim!


Me ensinaram a olhar para dentro de mim mesmo, e perceber que sou exactamente como os iguais que me faziam diferente.

E acreditei profundamente em mim.


E tenho de, como dívida com a vida, fazer com que cada ser humano se perceba, se ame, se admire de si mesmo, como verdadeira fonte de riqueza.

Foi assim que cresci: acreditando.

Sou exactamente do tamanho de todo o ser humano.

E, por acreditar, perdi o medo de dizer, falar, participar, e até de cometer enganos.


E se errar…paciência!

Continuo vivendo e, por isso, aprendendo.


Errar é Humano!

(Sofia Morgado e José Varela)

domingo, 28 de setembro de 2008

DONA FERNANDA

João Luís Alves César das Neves, Professor Universitário, nascido em Lisboa em 1957, é pai de quatro filhos.

Doutorado e licenciado em Economia pela Universidade Católica Portuguesa,
Mestre em Economia pela Universidade Nova de Lisboa,
Mestre em Investigação Operacional e Engenharia de Sistemas pela Universidade Técnica de Lisboa,
com mais de uma dezena de livros e vários artigos científicos publicados, é, actualmente, Professor Extraordinário com Agregação da UCP (Universidade Católica Portuguesa) e Presidente do Conselho Científico da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da UCP

Após esta breve introdução partilho convosco um texto do professor doutor João César das Neves que, com muito humor e ironia, chama a atenção para graves problemas dos jovens, através da conversa de duas mães preocupadas.


- Dona Fernanda, então por aqui?
Agora me lembro, ainda não lhe dei os parabéns pelo seu homem. Vi-o no concurso da televisão. Que honra! Muitos parabéns! Fiquei orgulhosa como se fosse meu!
- É verdade, dona Cátia. Estamos muito contentes. Foi muito bom, até para compensar a desgraça da minha irmã.
Não sabe?
Imagine que o marido dela é administrador de um banco.
- Não me diga!
Que vergonha!
Mas qual? Daquele criminoso, o BCP?
- Olhe, nem sei bem. Mas aquilo é tudo a mesma gente.
Coitada da minha irmã, anda muito ralada!
Felizmente que o amante está muito bem. Era segurança num bar, mas agora conseguiu ficar dado como deficiente por causa de uma sova que levou, e o subsídio é excelente.
- Ainda bem! Que sorte!
Olhe, essa sorte não tenho eu. Ando muito preocupada com o meu sobrinho.
Não, não é com o homossexual. Não, esse está óptimo. Foi ao estrangeiro casar com o amigo e agora até estão a pensar adoptar uma criança por lá.
O que me preocupa é o outro, o Zé. Tem um restaurante, imagine. Um restaurante de luxo.
- Ai, coitado! Em que se havia de meter!
E tem tido muitas queixas?
- Pois. Calcule que nem sequer usava sabão líquido nas casas de banho e os exaustores são de baixa extracção.
Estou com medo que mais cedo ou mais tarde acabe na cadeia, pobrezinho!
- Compreendo, compreendo.
As ralações que temos!
E então o que é que a traz por cá?
Eu vou agora ali à direcção da escola queixar-me. Veja lá que a minha filha me disse que lá na escola não há máquinas de distribuição de preservativos na casa de banho das raparigas. Só na dos rapazes.
Não é uma vergonha?
- Um escândalo.
Depois se há problemas a culpa é dos pequenos!
Eu também tenho de lá ir mas, infelizmente, é derivado ao comportamento do meu Ronaldinho.
- Não me diga que ainda é por causa da gravidez?
- Não, que ideia. Isso está tudo resolvido.
Eles os dois trataram a questão com muito bom senso.
Nem pareciam ter 13 anos!
O aborto correu muito bem e o meu rapaz até já arranjou outra namorada bastante mais velha.
Não, o que me preocupa é aquele grupo com que ele anda.
- Qual? A banda de rock satânico? Oh, minha amiga não se apoquente com isso. Nós lá em casa até dissemos ao nosso rapaz para criar uma.
Antes isso que andar pelos ATL (Actividades dos tempos livres) da paróquia com aqueles beatos a meter patranhas na cabeça dos miúdos.
Na banda é muito mais seguro e saudável. Não só é artístico, como abre horizontes e um dia, quem sabe...
Olhe, não me preocuparia nada com isso.
- Não, não é isso.
Nós também estamos muito satisfeitos por ele andar com a banda. É um excelente meio de educação.
Ao princípio ainda me chocava um bocado as letras das canções, a falar de suicídio e sangue, mas agora até acho graça.
Rapazes são rapazes, não é?
Não, é muito pior.
Ele também anda metido em coisas mesmo graves com aquele outro grupo clandestino. Já ouviu falar, não? Aquele grupo de fumadores que no outro dia até apareceu no jornal por um deles fumar dentro do metro.
- Que horror!
O seu filho fuma?
Mas isso faz imenso mal à saúde e polui o ambiente.
Então ele não pensa no aquecimento global?
Esta juventude está perdida!
- Eu sei, eu sei!
Tentámos tudo para o afastar do vício, mas nada.
O meu marido até quis ver se o interessava em blogs pornográficos, chats neonazis e outras coisas que fossem também um bocadinho subversivas e clandestinas, mas não fizessem tanto mal.
Mas nada!
Ele não larga o cigarro!
A culpa é do meu homem e eu já lhe disse. Imagine que quando o miúdo era pequeno lhe dava pistolas e outros brinquedos de violência.
Claro que tinha de ter esta consequência, não era?
- Que horror!
Imagino como anda apoquentada.
E nos estudos, que tal anda ele?
Os meus, antigamente, era um castigo. Davam muitos erros de ortografia mas isso agora, com este novo programa para o insucesso escolar, deixou de criar problemas, porque já não conta. E, mesmo na Matemática, o que interessa é a criatividade dos miúdos.
Se os professores explicam mal que culpa têm os pequenos?
- Eu digo o mesmo.
Se eles depois acabam todos no desemprego, ao menos gozem a juventude...

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

INÍCIO DO ANO ESCOLAR

Dos assuntos que mais me preocupam, dois merecem destaque especial: as crianças e a Educação (ou a falta dela…)
O ano escolar começou, nalgumas escolas há pouco mais de uma semana; noutras, creio que poucas, foi já nesta semana que começaram as aulas.
Ainda há pouco de novo a dizer. Tudo começou como acabou no ano escolar transacto, ou seja, mal.

Em alternativa ocorre-me falar de Rubem Alves, emérito professor brasileiro, que durante toda a vida dedicou particular atenção às crianças.

Nascido a 5 de Setembro de 1933, em Boa Esperança, ao sul de Minas Gerais, estudou teologia, entre 1953 e 1957, no Seminário Presbiteriano de Campinas.
Em 1963 foi estudar para Nova Iorque, donde voltou, em Maio de 1964, com o título de Mestre em Teologia pelo Union Theogical Seminary.
Denunciado como subversivo pelas autoridades presbiterianas e perseguido pelo regime militar, regressou aos Estados Unidos, onde se doutorou em Filosofia, na Universidade de Princeton.

De volta ao Brasil iniciou a sua carreira de professor.
Começou por dar aulas de filosofia, passando por professor-visitante, depois professor-adjunto na Faculdade de Educação, professor-titular no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas… um sem fim de funções, sempre ligadas ao Ensino.

É membro da Academia Campinense de Letras, professor-emérito da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), onde recebeu a medalha Carlos Gomes pela sua contribuição à cultura.

Admirador de Fernando Pessoa, entre outros, é autor de inúmeros livros, e colaborador em diversos jornais e revistas, com crónicas de grande sucesso, em especial entre os vestibulandos.

Na literatura e na poesia encontrou a alegria que o manteve vivo nas horas más por que passou.

Afirma que é “psicanalista, embora heterodoxo”, pois nela reside o facto de que acredita que no mais profundo do inconsciente mora a beleza.

Poeta, cronista do cotidiano, contador de histórias, é um dos mais admirados e respeitados intelectuais do Brasil.

Do professor doutor Rubem Alves se diz:

Ama a vida, a beleza e a poesia
Ama a natureza e a reverência pela vida
Ama a educação como fonte de esperança e transformação
Ama todas as pessoas, mas tem um carinho muito especial pelos alunos e professores
Ama as crianças e os filósofos – ambos têm algo em comum: fazer perguntas

Os seus “conceitos” revelam sempre uma enorme preocupação em educar, formando, e não apenas fornecer informação aos seus alunos.

“Educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu. O educador diz: Veja! e, ao falar, aponta O aluno olha na direção apontada e vê o que nunca viu. Seu mundo se expande. Ele fica mais rico interiormente... E, ficando mais rico interiormente, ele pode sentir mais alegria e dar mais alegria - que é a razão pela qual vivemos.”

“Já li muitos livros sobre psicologia da educação, sociologia da educação, filosofia da educação – mas, por mais que me esforce, não consigo me lembrar de qualquer referência à educação do olhar ou à importância do olhar na educação, em qualquer deles. A primeira tarefa da educação é ensinar a ver... É através dos olhos que as crianças tomam contato com a beleza e o fascínio do mundo... Os olhos têm de ser educados para que nossa alegria aumente.”

“A educação se divide em duas partes: educação das habilidades e educação das sensibilidades... Sem a educação das sensibilidades, todas as habilidades são tolas e sem sentido.
Os conhecimentos nos dão meios para viver. A sabedoria nos dá razões para viver.”

“Quero ensinar as crianças. Elas ainda têm olhos encantados. Seus olhos são dotados daquela qualidade que, para os gregos, era o início do pensamento: a capacidade de se assombrar diante do banal.”

“Para as crianças, tudo é espantoso: um ovo, uma minhoca, uma concha de caramujo, o vôo dos urubus, os pulos dos gafanhotos, uma pipa no céu, um pião na terra. Coisas que os eruditos não vêem.”


“Na escola eu aprendi complicadas classificações botânicas, taxonomias, nomes latinos – mas esqueci. Mas nenhum professor jamais chamou a minha atenção para a beleza de uma árvore......ou para o curioso das simetrias das folhas. Parece que, naquele tempo, as escolas estavam mais preocupadas em fazer com que os alunos decorassem palavras do que com a realidade para a qual elas apontam.”

“As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos. Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem... O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Quando a gente abre os olhos, abrem-se as janelas do corpo, e o mundo aparece refletido dentro da gente.”

“São as crianças que, sem falar, nos ensinam as razões para viver. Elas não têm saberes a transmitir. No entanto, elas sabem o essencial da vida.
Quem não muda sua maneira adulta de ver e sentir e não se torna como criança jamais será sábio.” “As crianças não têm idéias religiosas, mas têm experiências místicas. Experiência mística não é ver seres de um outro mundo. É ver este mundo iluminado pela beleza.”


"Enquanto a sociedade feliz não chega, que haja pelo menos fragmentos de futuro em que a alegria é servida como sacramento, para que as crianças aprendam que o mundo pode ser diferente. Que a escola, ela mesma, seja um fragmento do futuro..."

domingo, 21 de setembro de 2008

ANITA

ANITA – TERCEIRO EPISÓDIO

(Ficção baseada em factos reais)

- Já falei com a minha mulher. Decidimos aceitá-lo para genro, com uma condição: fazer a nossa Anita muito feliz.

FIM DA SEGUNDA PARTE

TERCEIRO EPISÓDIO

Vicente aguardara calmamente que Anita terminasse o seu curso e regressasse definitivamente à sua terra, para cumprir o que a si próprio havia prometido alguns anos atrás.

Chegara o momento tão desejado.
Ia, finalmente, oficializar o seu pedido de casamento.

Foi uma Anita muda, aterrada, que recebeu das mãos de Vicente um valioso anel de noivado. Sentia que lhe queimava o dedo, mas não ousou retirá-lo.

Criada no seio de uma família tradicionalmente religiosa, frequentava regularmente a igreja, cumprindo todos os preceitos religiosos adequados à sua idade: catequese, primeira comunhão…missas. O pároco, homem bondoso, já de uma certa idade, tinha por Anita verdadeira afeição, que ela retribuía com enorme carinho. Participava alegremente nas festas da igreja, entoando cânticos na sua vozinha afinada. Diziam as velhotas, zeladoras da igreja: Parece um anjo!


Anita recebera uma educação rígida, ainda que carinhosa. Aprendera a respeitar os pais e as suas decisões, sem discussão. Nunca lhe faltara amor; contudo, as ordens dos pais, por vezes severas, eram acatadas religiosamente. Sempre fora uma menina obediente, dócil, o que facilitara a tarefa dos pais.


Agora sentia-se prisioneira, sem saber como libertar-se.

A festa de noivado continuou, até que, entre parabéns e abraços, todos se foram despedindo.
Anita deixou-se abraçar em silêncio.
- Como ela está emocionada! Nem consegue falar! – comentavam, entre si.
Mais tarde, sozinha no seu quarto, Anita deu largas ao seu desespero. Chorou desoladamente, ate que o cansaço a venceu.
Foi uma noite longa, em que a insónia alternou com pesadelos.
A meio da noite acordou, sobressaltada. De imediato se lembrou do que lhe acontecera.

Arquitectou vários planos, visando fugir àquele compromisso que não desejara, mas lhe fora imposto.

Para pôr em prática qualquer das ideias que lhe acorriam, necessitaria dinheiro, de que não dispunha.
Quando se encontrava na capital, a estudar, o pai pagava todas as despesas, enviando-lhe ainda pequenas quantias para as suas necessidades básicas. Nunca o suficiente para poder amealhar.

Decidiu escrever a Arnaldo, contando-lhe tudo o que sucedera. Pedia-lhe que pensasse num plano para a tirar da Ilha, dizendo-lhe que, por seu turno, também ela iria pensar na melhor forma de poderem realizar o seu sonho de amor.

Levantou-se tarde, olheirenta, cansada. Mal tocou no pequeno-almoço que a aguardava, alegando estar sem apetite. A mãe estranhou o seu aspecto, mas atribuiu-o à excitação do recente noivado.
Anita saiu de casa, dirigindo-se rapidamente à estação dos correios. Mandaria a carta que tinha escrito a Arnaldo, e ele arranjaria maneira de a salvar.
Pelo caminho cruzou-se com várias pessoas conhecidas, que a cumprimentavam com largos sorrisos. Algumas, mais íntimas, chegaram mesmo a parar, felicitando-a pelo noivado.

Anita não estranhou. Sabia bem que, numa cidade tão pequena como aquela, as notícias se espalhavam rapidamente; tratando-se dum noivado, então as novidades ganhavam asas nos pés.
Chegando à estação dos correios, a funcionária, sua antiga colega da escola, rapidamente se levantou para vir abraçá-la, felicitando-a. Anita mais uma vez comprovou como as notícias corriam céleres na sua terra.
Comprou os selos, colou-os no envelope, e entregou a carta à funcionária, para que a fizesse seguir. Despediu-se com um breve “até logo”.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

SE EU MORRER ANTES DE VOCÊ

Se quiséssemos ordenar os sentimentos por categorias, e considerássemos o Amor em primeiro lugar, como sendo o mais belo sentimento que existe – Solidariedade, Fraternidade….até mesmo Humildade, têm por base o Amor – poderíamos situar a Amizade em segundo lugar.

Ser preterida em favor do vencedor em nada a desprestigia.
Na realidade, quando é sincera, a amizade tem nuances que, muitas vezes leva a que se confunda com Amor.
Em muitos casos, um Amor muito profundo, ao longo dos anos pode transformar-se em Amizade, um sentimento tanto ou mais forte do que aquele que o originou.

Pensar em Amizade faz-nos lembrar que:

- Há amigos muito diferentes de nós, que nos entendem na perfeição;
- Nos ajudam nos momentos difíceis;
- Nos cobrem de paz;
- Nos mimam, quando eles mesmos necessitam de mimos;
E também:
- Os que parece que não, mas “estão sempre aí”
- Os que são capazes de tudo para nos evitar um mau momento
- Os que nos fazem rir quando estamos tristes
- Os que nos aguardam sempre
- Os que estão sempre atentos ao que necessitamos.

E há os que fazem a nossa vida mais simples, iluminando cada momento:

Se eu morrer antes de você,
faça-me um favor:

Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus por
Ele haver me levado.

Se não quiser chorar, não chore.
Se não conseguir chorar, não se preocupe.

Se tiver vontade de rir, ria.
Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão.
Se me elogiarem demais, corrija o exagero.
Se me criticarem demais, defenda-me.

Se me quiserem fazer uma santa, só porque morri,
mostre que eu tinha um pouco de santa,
mas estava longe de ser a santa que me pintam.
Se me quiserem fazer um demónio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demónio,
mas que a vida inteira eu tentei ser boa e amiga.

Espero estar com Ele o suficiente para continuar
sendo útil a você, lá onde estiver.

E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase:
- "Foi minha amiga, acreditou em mim e me quis mais perto de Deus!"
Aí, então derrame uma lágrima.
Eu não estarei presente para enxugá-la, mas não faz mal.
Outros amigos farão isso no meu lugar.
E, vendo-me bem substituída, irei cuidar de minha nova tarefa no céu.

Mas, de vez em quando, dê uma espiadinha na direcção de Deus.
Você não me verá, mas eu ficaria muito feliz vendo você olhar para Ele.
E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai,
aí, sem nenhum véu a separar a gente, vamos viver, em Deus,
a amizade que aqui nos preparou para Ele.

Você acredita nessas coisas?
Então ore para que nós vivamos como quem sabe
que vai morrer um dia, e que morramos
como quem soube viver direito.
Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo.
Mas, se eu morrer antes de você, acho que não vou estranhar o céu...

"Ser sua amiga... já é um pedaço dele..."

Um GRANDE e FORTE abraço de Amizade para todos.

Para despedida mesmo, deixo-vos este vídeo

Fado ' Rosas Brancas '

domingo, 14 de setembro de 2008

ANITA

ANITA - SEGUNDO EPISÓDIO
(Ficção baseada em factos reais)


…Depois da refeição todos se retiraram para a sala.
Anita sentia o coração apertado. Não adivinhava nada de bom. Tinha um mau pressentimento…

SEGUNDO EPISÓDIO

Pouco tempo depois o prometido noivo fez a sua aparição, sorridente, feliz, impecavelmente vestido para a ocasião.


Justino chamou Anita, e disse:

- Minha filha, este é o teu noivo. Já combinamos tudo. Ele está aqui esta noite apenas para, na presença da nossa família e amigos, confirmar e oficializar o vosso noivado.
- Mas, meu pai…o senhor Mindelo??? Foi este o noivo que vocês escolheram para mim?
- Sim, minha filha, o senhor Vicente Mindelo já há muito tempo tinha manifestado o desejo de se casar contigo.
Depois de eu conversar com a tua mãe, ambos decidimos que seria um óptimo marido para ti, e acertamos o casamento.

Anita mal conseguia respirar.
Vicente Mindelo era um homem que, embora com muito boa aparência, tinha, seguramente, mais vinte ou trinta anos do que ela. Possuidor de uma grande fortuna, divorciado há alguns anos, tinha cinco filhos, três rapazes e duas raparigas.
Estas, apenas um pouco mais novas do que Anita, viviam com a mãe. Dos três rapazes, filhos dum primeiro casamento do qual Vicente enviuvara, os dois mais velhos tinham já a sua independência, vivendo em casa própria; o mais novo, com apenas dois anos mais do que a própria Anita, vivia com o pai.

Vicente, um homem muito bem conservado, boa figura, esbanjando simpatia onde quer que se encontrasse, era muito requisitado pelas mulheres. Muitas aventuras lhe eram atribuídas. Com ou sem fundamento é que não se sabia, pois Vicente era uma pessoa muito discreta.

A vida o ensinara a ser assim.
Jovem ainda, chegara à Ilha para onde fora deportado, sob a acusação de crime político. Nunca ninguém conseguira saber ao certo de que era acusado. Muito se conjecturou, várias hipóteses foram levantadas, mas sem qualquer resultado. Sabia-se apenas que jamais poderia regressar à sua terra natal, e tão pouco ausentar-se da Ilha, onde teria que permanecer até ao fim dos seus dias.
Cabelo loiro, olhos claros, atraente e educado, simpático, uma aura de mistério relativamente ao seu passado, facilmente os habitantes da Ilha o aceitaram, sem restrições.
Em breve se aperceberam de que era pessoa com vastos conhecimentos, provavelmente com formação académica.
Não teve, portanto, dificuldade em conseguir sociedade para um pequeno negócio, que rapidamente floresceu. Em poucos anos tornou-se o maior negociante de jóias das redondezas, acumulando uma fortuna considerável.
Conhecia Anita desde criança, e quando ela se transformou numa linda mulher, começou a admirá-la e a desejá-la em segredo.

Agora, com mais de cinquenta anos, resolvera falar com o pai de Anita, propondo-lhe pedi-la em casamento.
Justino recebeu – o com aparente reserva:
- Falarei com a minha mulher.

Mas quando comunicou a notícia a Eulália, deu largas ao seu contentamento.
Os seus negócios não andavam nada bem, e a perspectiva de vir a ter um genro tão rico era por demais tentadora.
Eulália ouviu-o em silêncio. Por fim levantou uma dúvida:

- E Anita? Como irá reagir?
- Como queres que reaja, mulher? Numa terra como esta, os bons partidos não abundam. Um homem rico como Vicente, com a bela aparência que tem, bem-falante, culto… Não vês quantas mães com filhas casadoiras o convidam para suas casas? Pensas o quê??? Só o querem para genro! A nossa filha nem sabe a sorte que tem! Tenho a certeza que vai ficar muito feliz.

Eulália acabou por concordar com o marido, que, disfarçando a impaciência, só alguns dias mais tarde informou Vicente:
- Já falei com a minha mulher. Decidimos aceitá-lo para genro, com uma condição: fazer a nossa Anita muito feliz.

FIM DA SEGUNDA PARTE

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

COM LICENÇA

Quem viveu esses tempos e/ou leu sobre o assunto sabe que houve um período, triste, na história da humanidade, que decorreu durante a 2ª.Guerra Mundial, e nos anos que lhe sucederam.
Para além das enormes dificuldades que se viviam, especialmente com a subida ao poder de Salazar, e a implantação do estado Novo, a censura actuava severamente, e as proibições surgiam como cogumelos.

Quem não se lembra de que era proibido dar um beijo em público?
Que era proibido a uma mulher casada viajar para o estrangeiro sem a devida autorização, por escrito, do seu marido? Que era proibido vestir minissaia?
Usar biquíni na praia? Nem pensar! O fato de banho era uma peça única, não muito cavado nas pernas e sem exagerar no decote.

Medindo a altura do fato de banho

E não se pense que só às mulheres eram impostas estas regras! Os homens também tinham as suas restrições


Barriguinhas à mostra…proibidíssimo!

Contava-se uma história, que acredito fosse anedota, de uma turista inglesa que, numa praia portuguesa, se passeava de biquíni, deliciando-se com o sol de Portugal.
Nada que se compare aos biquínis de hoje. Calção subido até à cintura e sutiã bem recatado, que pouco expunha aos olhos cobiçosos.


Foi interpelada por um cabo-de-mar (polícia marítimo) que, no seu inglês macarrónico, aprendido no Cais do Sodré, entre palavras e sinais, tentava fazer-lhe saber que não podia andar assim vestida (ou despida). Como a inglesa parecia não dar sinais de compreensão, o polícia conseguiu soletrar, apontando para o biquíni: just one piece! Percebendo, finalmente, a inglesa respondeu, no seu português também macarrónico: – Só uma peça? Eu escolher a de baixo, ok? E retirou o sutiã.

A história que ouvi contar acabava aqui. Não sei qual o seguimento, mas imagino que tenha sido a esquadra de polícia mais próxima.

(Hoje em dia ainda há quem use fato de banho que faz lembrar esses tempos…

Burkakini – usada em 2007, pelas muçulmanas, na Austrália

mas isso é outro assunto, fora deste contexto).

Muitos escritores e músicos viram as suas obras censuradas e proibidas.
As suas músicas e livros ouviam-se e liam-se apenas na intimidade do lar, ou em círculos muito restritos e de extrema confiança, não fosse alguém descobrir e contar à polícia.
Nos guiões para cinema e peças de teatro a tesoura da censura cortava sem contemplações.

Talvez para evitar situações menos agradáveis a pessoas de certos estratos sociais… (isto é apenas uma suposição minha, não tenho qualquer base para o afirmar como verdade) o certo é que determinadas proibições eram contornadas com a aquisição de licenças.
Por exemplo, era proibido usar isqueiro. Mas quem o quisesse fazer, podia tirar uma licença e usá-lo em público sem qualquer restrição.

Era, portanto, muito vulgar, tirarem-se licenças por tudo e por nada.
As pessoas falavam do assunto frequentemente, e em casa, as crianças também o ouviam mencionar.

É precisamente acerca de licenças a história que vos vou contar.

Havia, e penso que ainda há no mercado, um creme para as mãos (para além de outros produtos) da marca «Diadermine», que as senhoras usavam para amaciar a pele. Algumas usavam-no perfumado, outras preferiam-no sem cheiro.

Numa família minha conhecida havia duas meninas, irmãs, na altura com sete ou oito anos. O pai, fumador, usava isqueiro, tendo obtido a respectiva licença. A mãe, uma senhora bonita, cuidava do seu aspecto.
Perto da casa onde moravam havia uma farmácia.
Um dia a mãe mandou-as à farmácia comprar Diadermine. Naquele tempo ainda as crianças podiam sair à rua sozinhas, sem que isso constituísse qualquer risco.
Chegadas à farmácia, depois de pedirem o que queriam, o farmacêutico perguntaram:
- Querem com essência ou sem essência?
As meninas olharam uma para a outra, sem saber muito bem o que responder. Cochicharam entre si:
- O melhor é ser com licença. Agora é preciso licença para tudo…
O farmacêutico, impaciente com a demora, perguntou:
- Em que ficamos? É com ou sem?
Responderam em simultâneo:
- É melhor com.
E assim regressaram a casa, trazendo a Diadermine com essência, felizes porque não estariam a transgredir as leis.
O assunto só foi esclarecido porque a mãe estranhou o preço. O creme que habitualmente usava, sem essência, era mais barato.
Ao ouvir o comentário da mãe, as meninas responderam prontamente:
- Se calhar a mamã costuma comprar sem licença. Mas nós pensámos que era melhor ser com licença…

A senhora deu uma boa gargalhada, esclareceu-as, e enquanto durou o creme, andou com as mãos perfumadas.

Pode parecer-lhe anedota, mas acredite que é verdade. Passou-se com pessoas minhas amigas, com quem contactei intimamente durante muitos anos.

A maior parte das restrições e proibições atrás referidas só foram revogadas, em Portugal, depois do 25 de Abril de 1974.

domingo, 7 de setembro de 2008

ANITA

ANITA
(Ficção baseada em factos reais)

PRIMEIRO EPISÓDIO

A Anita! Eu conheci-a. Era meiga, bonita, pele de bronze, macia, olhos verdes, de azeitona.


Nascida e criada na Ilha cresceu livre como um pássaro.
Alegre, exuberante, excelente aluna, rapidamente se fez mulher e concluiu o ensino liceal.
Era de sua vontade, e também dos pais, prosseguir os estudos, fazer-se professora.
Como na Ilha isso não era possível, foi enviada para a cidade grande, a capital, que não conhecia.

Foi um deslumbramento! Tanta coisa nova, tantas luzes, tantas pessoas!
Apesar disso, adaptou-se facilmente ao ritmo da grande cidade; em breve estava matriculada e a estudar com interesse, como sempre fizera.
Devido à sua grande simpatia e beleza conquistou amigas e amigos, com quem passava os tempos livres.
Um jovem colega, Arnaldo, cativou particularmente a sua atenção. Surgiu uma amizade especial que, a breve trecho, se transformou em amor. Amor calmo, sereno, que ambos viviam a cada instante.
Em época de férias Anita regressava à Ilha, onde a aguardavam os pais, Eulália e Justino.

Os pais faziam planos para o seu futuro:
Terminado o curso Anita voltaria definitivamente à Ilha, onde poderia exercer a sua profissão de professora no liceu local. Faria um bom casamento e viveria feliz na casa que eles projectavam oferecer-lhe.

Anita sorria, apenas, sem coragem para contar que o seu coração já estava comprometido. Para quê? Ainda faltava tanto tempo para terminar o seu curso! Nessa altura informaria os pais de que tencionava casar-se com o jovem que ela mesma escolhera.

O tempo não pára, e chegou o dia em que recebeu o seu diploma.

Depois de longas e apaixonadas promessas de amor eterno, despediram-se, com o compromisso de que em breve iriam reunir-se na Ilha.
Anita comunicaria aos pais os seus planos, e Arnaldo voaria ao seu encontro para realizarem o casamento. Ficariam a viver na Ilha, onde ambos poderiam dar aulas no liceu.

À chegada Anita foi recebida com alegria ainda maior, já que, desta vez, não haveria mais despedidas. Ela vinha para ficar.
Aguardava-a uma grande surpresa. Os pais haviam organizado um jantar para o dia seguinte, convidando todos os familiares e alguns amigos, para festejar o regresso da filha, durante o qual fariam uma comunicação muito importante.
Anita mal podia esperar, cheia de curiosidade.

Assim, no dia seguinte, durante a refeição, o pai pediu a palavra, agradeceu a presença de todos, e comunicou que em breve Anita iria casar-se.
Surpresa, Anita sorriu, pensando rapidamente que, por qualquer razão que ela desconhecia, os pais tinham tido conhecimento do seu namoro na capital.
Mas o pai continuou:
- Já está tudo tratado. Casa comprada, mobilada, tudo pronto. Anita apenas terá que escolher o vestido de noiva, e caminhar até ao altar. Mais logo o noivo virá oficializar o pedido.
Anita empalideceu. Não era possível que o namorado que deixara na capital viesse, mais logo, pedir a sua mão em casamento. Só podia ser uma brincadeira.
Receosa acercou-se do pai. Com uma tranquilidade apenas aparente, perguntou-lhe o que queria dizer aquela declaração.
Com um grande sorriso, feliz, o pai aconselhou-a a ter calma e paciência para esperar, pois não tardaria muito a ter resposta para todas as suas dúvidas.
Depois da refeição todos se retiraram para a sala.
Anita sentia o coração apertado. Não adivinhava nada de bom. Tinha um mau pressentimento.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

UM ESTILO DIFERENTE

Quem, a partir de terça-feira, dia 2,visitou o blog SEMPRE JOVENS ,
sabe que regressei de férias.
Retomei, lá, as minhas actividades “bloguistícas “, precisamente com o post «Regresso de férias».
Esta última fase das minhas férias deste ano excedeu as minhas expectativas. Foram, de facto, muito boas.
Uma praia com vinte ou trinta quilómetros de extensão, a água do mar com a temperatura certa – aquela que nos permite mergulhar sem o mais leve arrepio – tempo para descansar e fazer o que apetece!

Foi neste ambiente tranquilo que tive oportunidade de ler uma reportagem acerca duma cantora que - confesso a minha ignorância - eu desconhecia completamente – Loreena McKennitt.

Fiquei fascinada com o que li. Quando regressei procurei a sua música, de que gostei imenso, e complementei a informação da reportagem.
Loreena é uma cantora e compositora canadense, que dirige a sua própria gravadora, de renome internacional. É aplaudida pelos críticos não só no Canadá mas também nos Estados Unidos, Espanha, França, Itália, Alemanha…
Pelas elevadas vendas dos seus discos têm-lhe sido atribuídos inúmeros prémios – discos de ouro e platina – em todo o mundo.
A sua música tem sido utilizada como trilha sonora em vários filmes e séries de TV, no Canadá, Estados Unidos e Venezuela.

Fundou e supervisiona importantes campanhas a favor da protecção das águas e de serviços de apoio a famílias e crianças necessitadas.

“…em 1998 eu fundei a «The Cook-Rees Memorial» quando três pessoas muito queridas morreram num acidente de barco não muito longe de onde eu moro. Graças à generosidade de amigos e famílias, no Canadá e ao redor do mundo, tornamo-nos capazes de criar iniciativas envolvendo o ensino sobre a segurança com a água, bem como os exercícios com a busca, salvamento e recuperação…”

Fundou, entre outras, a «The Three Oaks Foundation», uma instituição beneficente que proporciona fundos para grupos com finalidades culturais, ambientais, históricas e sociais.

Foram-lhe outorgados títulos honorários de “Doutora em Direito” e “Doutora em Letras” por diversas Universidades, o último dos quais em Outubro de 2005, pela Universidade de Queens.

Segundo as suas próprias palavras, em finais dos anos 70, Loreena ficou impressionada com o que hoje é designado por música céltica, mas só em 1991, depois de assistir a uma exposição de artesanato celta, em Veneza, se sentiu verdadeiramente atraída pela geografia e propagação histórica do povo celta.

“O meu ponto de partida é a convicção de que, de uma forma ou outra, somos todos uma extensão da história de cada um de nós. A vontade de aprender mais sobre os nossos semelhantes é também um desejo de aprender mais sobre nós mesmos. Eu simplesmente escolhi o povo céltico para fazer isso”
“… eu fico admirada com a capacidade exclusiva da música em induzir e realçar o astral e os estados psicológicos, e a ligação forte que a mesma exerce sobre a fisiologia…” “…estou interessada profundamente nessas conexões entre a nossa fisiologia e a essência espiritual e psicológica, e vários eventos e experiências que nos inspiram”.

Toda a sua música está impregnada dum certo misticismo que revela a sua maneira de ser e estar na vida.
Foi em «A Divina Comédia», de Dante, que Loreena se inspirou para compor “Dante’s Prayer”.
Em « A Divina Comédia » Dante descreve uma viagem dele próprio, acompanhado pelo escritor romano Virgílio, através do Inferno e do Purgatório.

(Dante e Virgílio – óleo de Delacrois)

Em “Dante’s Prayer” Loreena combina o Hino de Páscoa Ortodoxo Russo
com a sua própria música e a letra imaginária da prece que Dante teria proferido depois que ele e Virgílio, tendo partido do centro gelado do Inferno, viajavam no limiar entre o Inferno e o Purgatório.

Ouça e veja o vídeo que escolhi.

Dante's Prayer - Loreena McKennitt