domingo, 28 de setembro de 2008

DONA FERNANDA

João Luís Alves César das Neves, Professor Universitário, nascido em Lisboa em 1957, é pai de quatro filhos.

Doutorado e licenciado em Economia pela Universidade Católica Portuguesa,
Mestre em Economia pela Universidade Nova de Lisboa,
Mestre em Investigação Operacional e Engenharia de Sistemas pela Universidade Técnica de Lisboa,
com mais de uma dezena de livros e vários artigos científicos publicados, é, actualmente, Professor Extraordinário com Agregação da UCP (Universidade Católica Portuguesa) e Presidente do Conselho Científico da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da UCP

Após esta breve introdução partilho convosco um texto do professor doutor João César das Neves que, com muito humor e ironia, chama a atenção para graves problemas dos jovens, através da conversa de duas mães preocupadas.


- Dona Fernanda, então por aqui?
Agora me lembro, ainda não lhe dei os parabéns pelo seu homem. Vi-o no concurso da televisão. Que honra! Muitos parabéns! Fiquei orgulhosa como se fosse meu!
- É verdade, dona Cátia. Estamos muito contentes. Foi muito bom, até para compensar a desgraça da minha irmã.
Não sabe?
Imagine que o marido dela é administrador de um banco.
- Não me diga!
Que vergonha!
Mas qual? Daquele criminoso, o BCP?
- Olhe, nem sei bem. Mas aquilo é tudo a mesma gente.
Coitada da minha irmã, anda muito ralada!
Felizmente que o amante está muito bem. Era segurança num bar, mas agora conseguiu ficar dado como deficiente por causa de uma sova que levou, e o subsídio é excelente.
- Ainda bem! Que sorte!
Olhe, essa sorte não tenho eu. Ando muito preocupada com o meu sobrinho.
Não, não é com o homossexual. Não, esse está óptimo. Foi ao estrangeiro casar com o amigo e agora até estão a pensar adoptar uma criança por lá.
O que me preocupa é o outro, o Zé. Tem um restaurante, imagine. Um restaurante de luxo.
- Ai, coitado! Em que se havia de meter!
E tem tido muitas queixas?
- Pois. Calcule que nem sequer usava sabão líquido nas casas de banho e os exaustores são de baixa extracção.
Estou com medo que mais cedo ou mais tarde acabe na cadeia, pobrezinho!
- Compreendo, compreendo.
As ralações que temos!
E então o que é que a traz por cá?
Eu vou agora ali à direcção da escola queixar-me. Veja lá que a minha filha me disse que lá na escola não há máquinas de distribuição de preservativos na casa de banho das raparigas. Só na dos rapazes.
Não é uma vergonha?
- Um escândalo.
Depois se há problemas a culpa é dos pequenos!
Eu também tenho de lá ir mas, infelizmente, é derivado ao comportamento do meu Ronaldinho.
- Não me diga que ainda é por causa da gravidez?
- Não, que ideia. Isso está tudo resolvido.
Eles os dois trataram a questão com muito bom senso.
Nem pareciam ter 13 anos!
O aborto correu muito bem e o meu rapaz até já arranjou outra namorada bastante mais velha.
Não, o que me preocupa é aquele grupo com que ele anda.
- Qual? A banda de rock satânico? Oh, minha amiga não se apoquente com isso. Nós lá em casa até dissemos ao nosso rapaz para criar uma.
Antes isso que andar pelos ATL (Actividades dos tempos livres) da paróquia com aqueles beatos a meter patranhas na cabeça dos miúdos.
Na banda é muito mais seguro e saudável. Não só é artístico, como abre horizontes e um dia, quem sabe...
Olhe, não me preocuparia nada com isso.
- Não, não é isso.
Nós também estamos muito satisfeitos por ele andar com a banda. É um excelente meio de educação.
Ao princípio ainda me chocava um bocado as letras das canções, a falar de suicídio e sangue, mas agora até acho graça.
Rapazes são rapazes, não é?
Não, é muito pior.
Ele também anda metido em coisas mesmo graves com aquele outro grupo clandestino. Já ouviu falar, não? Aquele grupo de fumadores que no outro dia até apareceu no jornal por um deles fumar dentro do metro.
- Que horror!
O seu filho fuma?
Mas isso faz imenso mal à saúde e polui o ambiente.
Então ele não pensa no aquecimento global?
Esta juventude está perdida!
- Eu sei, eu sei!
Tentámos tudo para o afastar do vício, mas nada.
O meu marido até quis ver se o interessava em blogs pornográficos, chats neonazis e outras coisas que fossem também um bocadinho subversivas e clandestinas, mas não fizessem tanto mal.
Mas nada!
Ele não larga o cigarro!
A culpa é do meu homem e eu já lhe disse. Imagine que quando o miúdo era pequeno lhe dava pistolas e outros brinquedos de violência.
Claro que tinha de ter esta consequência, não era?
- Que horror!
Imagino como anda apoquentada.
E nos estudos, que tal anda ele?
Os meus, antigamente, era um castigo. Davam muitos erros de ortografia mas isso agora, com este novo programa para o insucesso escolar, deixou de criar problemas, porque já não conta. E, mesmo na Matemática, o que interessa é a criatividade dos miúdos.
Se os professores explicam mal que culpa têm os pequenos?
- Eu digo o mesmo.
Se eles depois acabam todos no desemprego, ao menos gozem a juventude...

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

INÍCIO DO ANO ESCOLAR

Dos assuntos que mais me preocupam, dois merecem destaque especial: as crianças e a Educação (ou a falta dela…)
O ano escolar começou, nalgumas escolas há pouco mais de uma semana; noutras, creio que poucas, foi já nesta semana que começaram as aulas.
Ainda há pouco de novo a dizer. Tudo começou como acabou no ano escolar transacto, ou seja, mal.

Em alternativa ocorre-me falar de Rubem Alves, emérito professor brasileiro, que durante toda a vida dedicou particular atenção às crianças.

Nascido a 5 de Setembro de 1933, em Boa Esperança, ao sul de Minas Gerais, estudou teologia, entre 1953 e 1957, no Seminário Presbiteriano de Campinas.
Em 1963 foi estudar para Nova Iorque, donde voltou, em Maio de 1964, com o título de Mestre em Teologia pelo Union Theogical Seminary.
Denunciado como subversivo pelas autoridades presbiterianas e perseguido pelo regime militar, regressou aos Estados Unidos, onde se doutorou em Filosofia, na Universidade de Princeton.

De volta ao Brasil iniciou a sua carreira de professor.
Começou por dar aulas de filosofia, passando por professor-visitante, depois professor-adjunto na Faculdade de Educação, professor-titular no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas… um sem fim de funções, sempre ligadas ao Ensino.

É membro da Academia Campinense de Letras, professor-emérito da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), onde recebeu a medalha Carlos Gomes pela sua contribuição à cultura.

Admirador de Fernando Pessoa, entre outros, é autor de inúmeros livros, e colaborador em diversos jornais e revistas, com crónicas de grande sucesso, em especial entre os vestibulandos.

Na literatura e na poesia encontrou a alegria que o manteve vivo nas horas más por que passou.

Afirma que é “psicanalista, embora heterodoxo”, pois nela reside o facto de que acredita que no mais profundo do inconsciente mora a beleza.

Poeta, cronista do cotidiano, contador de histórias, é um dos mais admirados e respeitados intelectuais do Brasil.

Do professor doutor Rubem Alves se diz:

Ama a vida, a beleza e a poesia
Ama a natureza e a reverência pela vida
Ama a educação como fonte de esperança e transformação
Ama todas as pessoas, mas tem um carinho muito especial pelos alunos e professores
Ama as crianças e os filósofos – ambos têm algo em comum: fazer perguntas

Os seus “conceitos” revelam sempre uma enorme preocupação em educar, formando, e não apenas fornecer informação aos seus alunos.

“Educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu. O educador diz: Veja! e, ao falar, aponta O aluno olha na direção apontada e vê o que nunca viu. Seu mundo se expande. Ele fica mais rico interiormente... E, ficando mais rico interiormente, ele pode sentir mais alegria e dar mais alegria - que é a razão pela qual vivemos.”

“Já li muitos livros sobre psicologia da educação, sociologia da educação, filosofia da educação – mas, por mais que me esforce, não consigo me lembrar de qualquer referência à educação do olhar ou à importância do olhar na educação, em qualquer deles. A primeira tarefa da educação é ensinar a ver... É através dos olhos que as crianças tomam contato com a beleza e o fascínio do mundo... Os olhos têm de ser educados para que nossa alegria aumente.”

“A educação se divide em duas partes: educação das habilidades e educação das sensibilidades... Sem a educação das sensibilidades, todas as habilidades são tolas e sem sentido.
Os conhecimentos nos dão meios para viver. A sabedoria nos dá razões para viver.”

“Quero ensinar as crianças. Elas ainda têm olhos encantados. Seus olhos são dotados daquela qualidade que, para os gregos, era o início do pensamento: a capacidade de se assombrar diante do banal.”

“Para as crianças, tudo é espantoso: um ovo, uma minhoca, uma concha de caramujo, o vôo dos urubus, os pulos dos gafanhotos, uma pipa no céu, um pião na terra. Coisas que os eruditos não vêem.”


“Na escola eu aprendi complicadas classificações botânicas, taxonomias, nomes latinos – mas esqueci. Mas nenhum professor jamais chamou a minha atenção para a beleza de uma árvore......ou para o curioso das simetrias das folhas. Parece que, naquele tempo, as escolas estavam mais preocupadas em fazer com que os alunos decorassem palavras do que com a realidade para a qual elas apontam.”

“As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos. Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem... O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Quando a gente abre os olhos, abrem-se as janelas do corpo, e o mundo aparece refletido dentro da gente.”

“São as crianças que, sem falar, nos ensinam as razões para viver. Elas não têm saberes a transmitir. No entanto, elas sabem o essencial da vida.
Quem não muda sua maneira adulta de ver e sentir e não se torna como criança jamais será sábio.” “As crianças não têm idéias religiosas, mas têm experiências místicas. Experiência mística não é ver seres de um outro mundo. É ver este mundo iluminado pela beleza.”


"Enquanto a sociedade feliz não chega, que haja pelo menos fragmentos de futuro em que a alegria é servida como sacramento, para que as crianças aprendam que o mundo pode ser diferente. Que a escola, ela mesma, seja um fragmento do futuro..."

domingo, 21 de setembro de 2008

ANITA

ANITA – TERCEIRO EPISÓDIO

(Ficção baseada em factos reais)

- Já falei com a minha mulher. Decidimos aceitá-lo para genro, com uma condição: fazer a nossa Anita muito feliz.

FIM DA SEGUNDA PARTE

TERCEIRO EPISÓDIO

Vicente aguardara calmamente que Anita terminasse o seu curso e regressasse definitivamente à sua terra, para cumprir o que a si próprio havia prometido alguns anos atrás.

Chegara o momento tão desejado.
Ia, finalmente, oficializar o seu pedido de casamento.

Foi uma Anita muda, aterrada, que recebeu das mãos de Vicente um valioso anel de noivado. Sentia que lhe queimava o dedo, mas não ousou retirá-lo.

Criada no seio de uma família tradicionalmente religiosa, frequentava regularmente a igreja, cumprindo todos os preceitos religiosos adequados à sua idade: catequese, primeira comunhão…missas. O pároco, homem bondoso, já de uma certa idade, tinha por Anita verdadeira afeição, que ela retribuía com enorme carinho. Participava alegremente nas festas da igreja, entoando cânticos na sua vozinha afinada. Diziam as velhotas, zeladoras da igreja: Parece um anjo!


Anita recebera uma educação rígida, ainda que carinhosa. Aprendera a respeitar os pais e as suas decisões, sem discussão. Nunca lhe faltara amor; contudo, as ordens dos pais, por vezes severas, eram acatadas religiosamente. Sempre fora uma menina obediente, dócil, o que facilitara a tarefa dos pais.


Agora sentia-se prisioneira, sem saber como libertar-se.

A festa de noivado continuou, até que, entre parabéns e abraços, todos se foram despedindo.
Anita deixou-se abraçar em silêncio.
- Como ela está emocionada! Nem consegue falar! – comentavam, entre si.
Mais tarde, sozinha no seu quarto, Anita deu largas ao seu desespero. Chorou desoladamente, ate que o cansaço a venceu.
Foi uma noite longa, em que a insónia alternou com pesadelos.
A meio da noite acordou, sobressaltada. De imediato se lembrou do que lhe acontecera.

Arquitectou vários planos, visando fugir àquele compromisso que não desejara, mas lhe fora imposto.

Para pôr em prática qualquer das ideias que lhe acorriam, necessitaria dinheiro, de que não dispunha.
Quando se encontrava na capital, a estudar, o pai pagava todas as despesas, enviando-lhe ainda pequenas quantias para as suas necessidades básicas. Nunca o suficiente para poder amealhar.

Decidiu escrever a Arnaldo, contando-lhe tudo o que sucedera. Pedia-lhe que pensasse num plano para a tirar da Ilha, dizendo-lhe que, por seu turno, também ela iria pensar na melhor forma de poderem realizar o seu sonho de amor.

Levantou-se tarde, olheirenta, cansada. Mal tocou no pequeno-almoço que a aguardava, alegando estar sem apetite. A mãe estranhou o seu aspecto, mas atribuiu-o à excitação do recente noivado.
Anita saiu de casa, dirigindo-se rapidamente à estação dos correios. Mandaria a carta que tinha escrito a Arnaldo, e ele arranjaria maneira de a salvar.
Pelo caminho cruzou-se com várias pessoas conhecidas, que a cumprimentavam com largos sorrisos. Algumas, mais íntimas, chegaram mesmo a parar, felicitando-a pelo noivado.

Anita não estranhou. Sabia bem que, numa cidade tão pequena como aquela, as notícias se espalhavam rapidamente; tratando-se dum noivado, então as novidades ganhavam asas nos pés.
Chegando à estação dos correios, a funcionária, sua antiga colega da escola, rapidamente se levantou para vir abraçá-la, felicitando-a. Anita mais uma vez comprovou como as notícias corriam céleres na sua terra.
Comprou os selos, colou-os no envelope, e entregou a carta à funcionária, para que a fizesse seguir. Despediu-se com um breve “até logo”.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

SE EU MORRER ANTES DE VOCÊ

Se quiséssemos ordenar os sentimentos por categorias, e considerássemos o Amor em primeiro lugar, como sendo o mais belo sentimento que existe – Solidariedade, Fraternidade….até mesmo Humildade, têm por base o Amor – poderíamos situar a Amizade em segundo lugar.

Ser preterida em favor do vencedor em nada a desprestigia.
Na realidade, quando é sincera, a amizade tem nuances que, muitas vezes leva a que se confunda com Amor.
Em muitos casos, um Amor muito profundo, ao longo dos anos pode transformar-se em Amizade, um sentimento tanto ou mais forte do que aquele que o originou.

Pensar em Amizade faz-nos lembrar que:

- Há amigos muito diferentes de nós, que nos entendem na perfeição;
- Nos ajudam nos momentos difíceis;
- Nos cobrem de paz;
- Nos mimam, quando eles mesmos necessitam de mimos;
E também:
- Os que parece que não, mas “estão sempre aí”
- Os que são capazes de tudo para nos evitar um mau momento
- Os que nos fazem rir quando estamos tristes
- Os que nos aguardam sempre
- Os que estão sempre atentos ao que necessitamos.

E há os que fazem a nossa vida mais simples, iluminando cada momento:

Se eu morrer antes de você,
faça-me um favor:

Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus por
Ele haver me levado.

Se não quiser chorar, não chore.
Se não conseguir chorar, não se preocupe.

Se tiver vontade de rir, ria.
Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão.
Se me elogiarem demais, corrija o exagero.
Se me criticarem demais, defenda-me.

Se me quiserem fazer uma santa, só porque morri,
mostre que eu tinha um pouco de santa,
mas estava longe de ser a santa que me pintam.
Se me quiserem fazer um demónio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demónio,
mas que a vida inteira eu tentei ser boa e amiga.

Espero estar com Ele o suficiente para continuar
sendo útil a você, lá onde estiver.

E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase:
- "Foi minha amiga, acreditou em mim e me quis mais perto de Deus!"
Aí, então derrame uma lágrima.
Eu não estarei presente para enxugá-la, mas não faz mal.
Outros amigos farão isso no meu lugar.
E, vendo-me bem substituída, irei cuidar de minha nova tarefa no céu.

Mas, de vez em quando, dê uma espiadinha na direcção de Deus.
Você não me verá, mas eu ficaria muito feliz vendo você olhar para Ele.
E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai,
aí, sem nenhum véu a separar a gente, vamos viver, em Deus,
a amizade que aqui nos preparou para Ele.

Você acredita nessas coisas?
Então ore para que nós vivamos como quem sabe
que vai morrer um dia, e que morramos
como quem soube viver direito.
Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo.
Mas, se eu morrer antes de você, acho que não vou estranhar o céu...

"Ser sua amiga... já é um pedaço dele..."

Um GRANDE e FORTE abraço de Amizade para todos.

Para despedida mesmo, deixo-vos este vídeo

Fado ' Rosas Brancas '

domingo, 14 de setembro de 2008

ANITA

ANITA - SEGUNDO EPISÓDIO
(Ficção baseada em factos reais)


…Depois da refeição todos se retiraram para a sala.
Anita sentia o coração apertado. Não adivinhava nada de bom. Tinha um mau pressentimento…

SEGUNDO EPISÓDIO

Pouco tempo depois o prometido noivo fez a sua aparição, sorridente, feliz, impecavelmente vestido para a ocasião.


Justino chamou Anita, e disse:

- Minha filha, este é o teu noivo. Já combinamos tudo. Ele está aqui esta noite apenas para, na presença da nossa família e amigos, confirmar e oficializar o vosso noivado.
- Mas, meu pai…o senhor Mindelo??? Foi este o noivo que vocês escolheram para mim?
- Sim, minha filha, o senhor Vicente Mindelo já há muito tempo tinha manifestado o desejo de se casar contigo.
Depois de eu conversar com a tua mãe, ambos decidimos que seria um óptimo marido para ti, e acertamos o casamento.

Anita mal conseguia respirar.
Vicente Mindelo era um homem que, embora com muito boa aparência, tinha, seguramente, mais vinte ou trinta anos do que ela. Possuidor de uma grande fortuna, divorciado há alguns anos, tinha cinco filhos, três rapazes e duas raparigas.
Estas, apenas um pouco mais novas do que Anita, viviam com a mãe. Dos três rapazes, filhos dum primeiro casamento do qual Vicente enviuvara, os dois mais velhos tinham já a sua independência, vivendo em casa própria; o mais novo, com apenas dois anos mais do que a própria Anita, vivia com o pai.

Vicente, um homem muito bem conservado, boa figura, esbanjando simpatia onde quer que se encontrasse, era muito requisitado pelas mulheres. Muitas aventuras lhe eram atribuídas. Com ou sem fundamento é que não se sabia, pois Vicente era uma pessoa muito discreta.

A vida o ensinara a ser assim.
Jovem ainda, chegara à Ilha para onde fora deportado, sob a acusação de crime político. Nunca ninguém conseguira saber ao certo de que era acusado. Muito se conjecturou, várias hipóteses foram levantadas, mas sem qualquer resultado. Sabia-se apenas que jamais poderia regressar à sua terra natal, e tão pouco ausentar-se da Ilha, onde teria que permanecer até ao fim dos seus dias.
Cabelo loiro, olhos claros, atraente e educado, simpático, uma aura de mistério relativamente ao seu passado, facilmente os habitantes da Ilha o aceitaram, sem restrições.
Em breve se aperceberam de que era pessoa com vastos conhecimentos, provavelmente com formação académica.
Não teve, portanto, dificuldade em conseguir sociedade para um pequeno negócio, que rapidamente floresceu. Em poucos anos tornou-se o maior negociante de jóias das redondezas, acumulando uma fortuna considerável.
Conhecia Anita desde criança, e quando ela se transformou numa linda mulher, começou a admirá-la e a desejá-la em segredo.

Agora, com mais de cinquenta anos, resolvera falar com o pai de Anita, propondo-lhe pedi-la em casamento.
Justino recebeu – o com aparente reserva:
- Falarei com a minha mulher.

Mas quando comunicou a notícia a Eulália, deu largas ao seu contentamento.
Os seus negócios não andavam nada bem, e a perspectiva de vir a ter um genro tão rico era por demais tentadora.
Eulália ouviu-o em silêncio. Por fim levantou uma dúvida:

- E Anita? Como irá reagir?
- Como queres que reaja, mulher? Numa terra como esta, os bons partidos não abundam. Um homem rico como Vicente, com a bela aparência que tem, bem-falante, culto… Não vês quantas mães com filhas casadoiras o convidam para suas casas? Pensas o quê??? Só o querem para genro! A nossa filha nem sabe a sorte que tem! Tenho a certeza que vai ficar muito feliz.

Eulália acabou por concordar com o marido, que, disfarçando a impaciência, só alguns dias mais tarde informou Vicente:
- Já falei com a minha mulher. Decidimos aceitá-lo para genro, com uma condição: fazer a nossa Anita muito feliz.

FIM DA SEGUNDA PARTE

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

COM LICENÇA

Quem viveu esses tempos e/ou leu sobre o assunto sabe que houve um período, triste, na história da humanidade, que decorreu durante a 2ª.Guerra Mundial, e nos anos que lhe sucederam.
Para além das enormes dificuldades que se viviam, especialmente com a subida ao poder de Salazar, e a implantação do estado Novo, a censura actuava severamente, e as proibições surgiam como cogumelos.

Quem não se lembra de que era proibido dar um beijo em público?
Que era proibido a uma mulher casada viajar para o estrangeiro sem a devida autorização, por escrito, do seu marido? Que era proibido vestir minissaia?
Usar biquíni na praia? Nem pensar! O fato de banho era uma peça única, não muito cavado nas pernas e sem exagerar no decote.

Medindo a altura do fato de banho

E não se pense que só às mulheres eram impostas estas regras! Os homens também tinham as suas restrições


Barriguinhas à mostra…proibidíssimo!

Contava-se uma história, que acredito fosse anedota, de uma turista inglesa que, numa praia portuguesa, se passeava de biquíni, deliciando-se com o sol de Portugal.
Nada que se compare aos biquínis de hoje. Calção subido até à cintura e sutiã bem recatado, que pouco expunha aos olhos cobiçosos.


Foi interpelada por um cabo-de-mar (polícia marítimo) que, no seu inglês macarrónico, aprendido no Cais do Sodré, entre palavras e sinais, tentava fazer-lhe saber que não podia andar assim vestida (ou despida). Como a inglesa parecia não dar sinais de compreensão, o polícia conseguiu soletrar, apontando para o biquíni: just one piece! Percebendo, finalmente, a inglesa respondeu, no seu português também macarrónico: – Só uma peça? Eu escolher a de baixo, ok? E retirou o sutiã.

A história que ouvi contar acabava aqui. Não sei qual o seguimento, mas imagino que tenha sido a esquadra de polícia mais próxima.

(Hoje em dia ainda há quem use fato de banho que faz lembrar esses tempos…

Burkakini – usada em 2007, pelas muçulmanas, na Austrália

mas isso é outro assunto, fora deste contexto).

Muitos escritores e músicos viram as suas obras censuradas e proibidas.
As suas músicas e livros ouviam-se e liam-se apenas na intimidade do lar, ou em círculos muito restritos e de extrema confiança, não fosse alguém descobrir e contar à polícia.
Nos guiões para cinema e peças de teatro a tesoura da censura cortava sem contemplações.

Talvez para evitar situações menos agradáveis a pessoas de certos estratos sociais… (isto é apenas uma suposição minha, não tenho qualquer base para o afirmar como verdade) o certo é que determinadas proibições eram contornadas com a aquisição de licenças.
Por exemplo, era proibido usar isqueiro. Mas quem o quisesse fazer, podia tirar uma licença e usá-lo em público sem qualquer restrição.

Era, portanto, muito vulgar, tirarem-se licenças por tudo e por nada.
As pessoas falavam do assunto frequentemente, e em casa, as crianças também o ouviam mencionar.

É precisamente acerca de licenças a história que vos vou contar.

Havia, e penso que ainda há no mercado, um creme para as mãos (para além de outros produtos) da marca «Diadermine», que as senhoras usavam para amaciar a pele. Algumas usavam-no perfumado, outras preferiam-no sem cheiro.

Numa família minha conhecida havia duas meninas, irmãs, na altura com sete ou oito anos. O pai, fumador, usava isqueiro, tendo obtido a respectiva licença. A mãe, uma senhora bonita, cuidava do seu aspecto.
Perto da casa onde moravam havia uma farmácia.
Um dia a mãe mandou-as à farmácia comprar Diadermine. Naquele tempo ainda as crianças podiam sair à rua sozinhas, sem que isso constituísse qualquer risco.
Chegadas à farmácia, depois de pedirem o que queriam, o farmacêutico perguntaram:
- Querem com essência ou sem essência?
As meninas olharam uma para a outra, sem saber muito bem o que responder. Cochicharam entre si:
- O melhor é ser com licença. Agora é preciso licença para tudo…
O farmacêutico, impaciente com a demora, perguntou:
- Em que ficamos? É com ou sem?
Responderam em simultâneo:
- É melhor com.
E assim regressaram a casa, trazendo a Diadermine com essência, felizes porque não estariam a transgredir as leis.
O assunto só foi esclarecido porque a mãe estranhou o preço. O creme que habitualmente usava, sem essência, era mais barato.
Ao ouvir o comentário da mãe, as meninas responderam prontamente:
- Se calhar a mamã costuma comprar sem licença. Mas nós pensámos que era melhor ser com licença…

A senhora deu uma boa gargalhada, esclareceu-as, e enquanto durou o creme, andou com as mãos perfumadas.

Pode parecer-lhe anedota, mas acredite que é verdade. Passou-se com pessoas minhas amigas, com quem contactei intimamente durante muitos anos.

A maior parte das restrições e proibições atrás referidas só foram revogadas, em Portugal, depois do 25 de Abril de 1974.

domingo, 7 de setembro de 2008

ANITA

ANITA
(Ficção baseada em factos reais)

PRIMEIRO EPISÓDIO

A Anita! Eu conheci-a. Era meiga, bonita, pele de bronze, macia, olhos verdes, de azeitona.


Nascida e criada na Ilha cresceu livre como um pássaro.
Alegre, exuberante, excelente aluna, rapidamente se fez mulher e concluiu o ensino liceal.
Era de sua vontade, e também dos pais, prosseguir os estudos, fazer-se professora.
Como na Ilha isso não era possível, foi enviada para a cidade grande, a capital, que não conhecia.

Foi um deslumbramento! Tanta coisa nova, tantas luzes, tantas pessoas!
Apesar disso, adaptou-se facilmente ao ritmo da grande cidade; em breve estava matriculada e a estudar com interesse, como sempre fizera.
Devido à sua grande simpatia e beleza conquistou amigas e amigos, com quem passava os tempos livres.
Um jovem colega, Arnaldo, cativou particularmente a sua atenção. Surgiu uma amizade especial que, a breve trecho, se transformou em amor. Amor calmo, sereno, que ambos viviam a cada instante.
Em época de férias Anita regressava à Ilha, onde a aguardavam os pais, Eulália e Justino.

Os pais faziam planos para o seu futuro:
Terminado o curso Anita voltaria definitivamente à Ilha, onde poderia exercer a sua profissão de professora no liceu local. Faria um bom casamento e viveria feliz na casa que eles projectavam oferecer-lhe.

Anita sorria, apenas, sem coragem para contar que o seu coração já estava comprometido. Para quê? Ainda faltava tanto tempo para terminar o seu curso! Nessa altura informaria os pais de que tencionava casar-se com o jovem que ela mesma escolhera.

O tempo não pára, e chegou o dia em que recebeu o seu diploma.

Depois de longas e apaixonadas promessas de amor eterno, despediram-se, com o compromisso de que em breve iriam reunir-se na Ilha.
Anita comunicaria aos pais os seus planos, e Arnaldo voaria ao seu encontro para realizarem o casamento. Ficariam a viver na Ilha, onde ambos poderiam dar aulas no liceu.

À chegada Anita foi recebida com alegria ainda maior, já que, desta vez, não haveria mais despedidas. Ela vinha para ficar.
Aguardava-a uma grande surpresa. Os pais haviam organizado um jantar para o dia seguinte, convidando todos os familiares e alguns amigos, para festejar o regresso da filha, durante o qual fariam uma comunicação muito importante.
Anita mal podia esperar, cheia de curiosidade.

Assim, no dia seguinte, durante a refeição, o pai pediu a palavra, agradeceu a presença de todos, e comunicou que em breve Anita iria casar-se.
Surpresa, Anita sorriu, pensando rapidamente que, por qualquer razão que ela desconhecia, os pais tinham tido conhecimento do seu namoro na capital.
Mas o pai continuou:
- Já está tudo tratado. Casa comprada, mobilada, tudo pronto. Anita apenas terá que escolher o vestido de noiva, e caminhar até ao altar. Mais logo o noivo virá oficializar o pedido.
Anita empalideceu. Não era possível que o namorado que deixara na capital viesse, mais logo, pedir a sua mão em casamento. Só podia ser uma brincadeira.
Receosa acercou-se do pai. Com uma tranquilidade apenas aparente, perguntou-lhe o que queria dizer aquela declaração.
Com um grande sorriso, feliz, o pai aconselhou-a a ter calma e paciência para esperar, pois não tardaria muito a ter resposta para todas as suas dúvidas.
Depois da refeição todos se retiraram para a sala.
Anita sentia o coração apertado. Não adivinhava nada de bom. Tinha um mau pressentimento.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

UM ESTILO DIFERENTE

Quem, a partir de terça-feira, dia 2,visitou o blog SEMPRE JOVENS ,
sabe que regressei de férias.
Retomei, lá, as minhas actividades “bloguistícas “, precisamente com o post «Regresso de férias».
Esta última fase das minhas férias deste ano excedeu as minhas expectativas. Foram, de facto, muito boas.
Uma praia com vinte ou trinta quilómetros de extensão, a água do mar com a temperatura certa – aquela que nos permite mergulhar sem o mais leve arrepio – tempo para descansar e fazer o que apetece!

Foi neste ambiente tranquilo que tive oportunidade de ler uma reportagem acerca duma cantora que - confesso a minha ignorância - eu desconhecia completamente – Loreena McKennitt.

Fiquei fascinada com o que li. Quando regressei procurei a sua música, de que gostei imenso, e complementei a informação da reportagem.
Loreena é uma cantora e compositora canadense, que dirige a sua própria gravadora, de renome internacional. É aplaudida pelos críticos não só no Canadá mas também nos Estados Unidos, Espanha, França, Itália, Alemanha…
Pelas elevadas vendas dos seus discos têm-lhe sido atribuídos inúmeros prémios – discos de ouro e platina – em todo o mundo.
A sua música tem sido utilizada como trilha sonora em vários filmes e séries de TV, no Canadá, Estados Unidos e Venezuela.

Fundou e supervisiona importantes campanhas a favor da protecção das águas e de serviços de apoio a famílias e crianças necessitadas.

“…em 1998 eu fundei a «The Cook-Rees Memorial» quando três pessoas muito queridas morreram num acidente de barco não muito longe de onde eu moro. Graças à generosidade de amigos e famílias, no Canadá e ao redor do mundo, tornamo-nos capazes de criar iniciativas envolvendo o ensino sobre a segurança com a água, bem como os exercícios com a busca, salvamento e recuperação…”

Fundou, entre outras, a «The Three Oaks Foundation», uma instituição beneficente que proporciona fundos para grupos com finalidades culturais, ambientais, históricas e sociais.

Foram-lhe outorgados títulos honorários de “Doutora em Direito” e “Doutora em Letras” por diversas Universidades, o último dos quais em Outubro de 2005, pela Universidade de Queens.

Segundo as suas próprias palavras, em finais dos anos 70, Loreena ficou impressionada com o que hoje é designado por música céltica, mas só em 1991, depois de assistir a uma exposição de artesanato celta, em Veneza, se sentiu verdadeiramente atraída pela geografia e propagação histórica do povo celta.

“O meu ponto de partida é a convicção de que, de uma forma ou outra, somos todos uma extensão da história de cada um de nós. A vontade de aprender mais sobre os nossos semelhantes é também um desejo de aprender mais sobre nós mesmos. Eu simplesmente escolhi o povo céltico para fazer isso”
“… eu fico admirada com a capacidade exclusiva da música em induzir e realçar o astral e os estados psicológicos, e a ligação forte que a mesma exerce sobre a fisiologia…” “…estou interessada profundamente nessas conexões entre a nossa fisiologia e a essência espiritual e psicológica, e vários eventos e experiências que nos inspiram”.

Toda a sua música está impregnada dum certo misticismo que revela a sua maneira de ser e estar na vida.
Foi em «A Divina Comédia», de Dante, que Loreena se inspirou para compor “Dante’s Prayer”.
Em « A Divina Comédia » Dante descreve uma viagem dele próprio, acompanhado pelo escritor romano Virgílio, através do Inferno e do Purgatório.

(Dante e Virgílio – óleo de Delacrois)

Em “Dante’s Prayer” Loreena combina o Hino de Páscoa Ortodoxo Russo
com a sua própria música e a letra imaginária da prece que Dante teria proferido depois que ele e Virgílio, tendo partido do centro gelado do Inferno, viajavam no limiar entre o Inferno e o Purgatório.

Ouça e veja o vídeo que escolhi.

Dante's Prayer - Loreena McKennitt







quinta-feira, 14 de agosto de 2008

NÃO VOU REPETIR…

Não vou repetir que vou de férias. Já o disse no SEMPRE JOVENS , e poderia parecer provocação…
Mas a verdade é que VOU DE FÉRIAS! Deixem-me gritar bem alto.

Se os vizinhos ouvirem não há problema, é tudo gente boa.
Quanto aos assaltantes, nem pensem! A minha casa (onde resido, não esta vossa “Casa”) vai continuar habitada. Portanto, não vale a pena tentarem. Não têm chance.
Que isto de ir de férias e deixar as casas desabitadas, sem segurança, é um risco muito grande que se corre. Com os amigos do alheio todo o cuidado é pouco…

À laia de despedida lembrei-me de vos deixar aqui um presentinho. Depois de muito pensar ocorreu-me que seria interessante qualquer coisa que vos levasse a meditar…
Enquanto forem meditando vão se lembrando de quem vos deixou motivo para reflexão. Haverá coisa melhor do que isso???

“Amigos são como estrelas. Nem SEMPRE as podemos ver, mas sabemos que elas estão SEMPRE lá”.

O texto que se segue não é de minha autoria. Recebi-o por email, sem indicação de autor. Sempre que conheço a autoria indico-a.
Os posts que aqui publiquei, inteiramente escritos por mim, são apenas (por enquanto…) os que têm a etiqueta «Os meus rabiscos» e «Os meus rabiscos/África”.

E agora, o texto para reflexão.


ATRITOS
Ninguém muda ninguém; ninguém muda sozinho; nós mudamos nos encontros.
Simples, mas profundo, preciso. É nos relacionamentos que nos transformamos.

Somos transformados a partir dos encontros, desde que estejamos abertos e livres para sermos impactados pela idéia e sentimento do outro.

Você já viu a diferença que há entre as pedras que estão na nascente de um rio, e as pedras que estão em sua foz?

As pedras na nascente são toscas, pontiagudas, cheias de arestas. À medida que elas vão sendo carregadas pelo rio, sofrendo a ação da água e se atritando com as outras pedras, ao longo de muitos anos, elas vão sendo polidas, desbastadas.

Assim também agem nossos contatos humanos. Sem eles, a vida seria monótona, árida.
A observação mais importante é constatar que não existem sentimentos, bons ou ruins, sem a existência do outro, sem o seu contato.

Passar pela vida sem se permitir um relacionamento próximo com o outro, é não crescer, não evoluir, não se transformar.
É começar e terminar a existência com uma forma tosca, pontiaguda, amorfa.

Quando olho para trás, vejo que hoje carrego em meu ser várias marcas de pessoas extremamente importantes. Pessoas que, no contato com elas, me permitiram ir dando forma ao que sou, eliminando arestas, transformando-me em alguém melhor, mais suave, mais harmônico, mais integrado.
Outras, sem dúvida, com suas ações e palavras me criaram novas arestas, que precisaram ser desbastadas.

Faz parte...
Reveses momentâneos servem para o crescimento.

A isso chamamos experiência.


Penso que existe algo mais profundo, ainda nessa análise. Começamos a jornada da vida como grandes pedras, cheias de excessos.

Os seres de grande valor, percebem que ao final da vida, foram perdendo todos os excessos que formavam suas arestas, se aproximando cada vez mais de sua essência, e ficando cada vez menores, menores, menores...

Quando finalmente aceitamos que somos pequenos, ínfimos, dada a compreensão da existência e importância do outro, é que finalmente nos tornamos grandes em valor.

Já viu o tamanho do diamante polido, lapidado? Sabemos quanto se tira de excesso para chegar ao seu âmago. É lá que está o verdadeiro valor...

Cada um de nós nasceu com um âmago bem forte e muito parecido com o diamante bruto, constituído de muitos elementos, mas essencialmente de AMOR.

Foi dado, a cada um de nós essa capacidade, a de AMAR... Mas temos que aprender como.
Para chegarmos a esse âmago, temos que nos permitir, através dos relacionamentos, ir desbastando todos os excessos que nos impedem de usá-lo, de fazê-lo brilhar.

Por muito tempo em minha vida acreditei que amar significava evitar sentimentos ruins.
Não entendia que ferir e ser ferido, ter e provocar raiva, ignorar e ser ignorado faz parte da construção do aprendizado do amor.

Não compreendia que se aprende a amar sentindo todos esses sentimentos contraditórios e... os superando.


Ora, esses sentimentos simplesmente não ocorrem se não houver envolvimento...
E envolvimento gera atrito.

Minha palavra final: ATRITE-SE!

Não existe outra forma de descobrir o AMOR.

E sem ele a VIDA não tem significado.

Fiquem bem. Sejam felizes. Saibam AMAR.

domingo, 10 de agosto de 2008

MANTA DE RETALHOS

Quando se escreve “ao correr da pena”, como se de uma amena conversa se tratasse, corre-se o risco de usar expressões que podem ser mal interpretadas por algum leitor mais atento.

Vem isto a propósito do comentário que um gentil visitante e comentador fez ao post anterior, Sei que a sua intenção não foi dizer "todos nós"
pelo facto de eu ter escrito “todos nós”.
Daí que eu tenha alterado este início de conversa, que começava assim:

- Todos nós sabemos que uma manta de retalhos é feita de…

A verdade é que nem TODOS sabem como se faz ; apenas alguns, mais provavelmente algumas… que uma manta de retalhos é confeccionada com pequenos bocados de tecido, unidos aleatoriamente…

Mas deixemos isso para a próxima aula de corte e costura!
Vamos ver o que tem a dizer-nos esta simpática velhinha.

SOU UMA VELHINHA GAITEIRA











Sou uma velhinha gaiteira. E daí?
Isso incomoda-vos? Lamento!
Preferia que vos agradasse. Mas não posso deixar de dizer que “é para o lado que durmo melhor”.
Esta é uma expressão que usam os meus bisnetos - que, aqui para nós, também me chamam, com ternura, “velhotinha gaiteira” – quando querem significar que não se importam com qualquer coisa..

Gosto de vestir roupas de cores claras, alegres. E daí?
A claridade faz bem aos ossos, ajuda a combater a osteoporose. O ideal mesmo é a luz do sol, pelo menos quinze minutos por dia. Mas nos dias sem sol, ou para quem não pode expor-se aos raios solares, a claridade é um bom substituto.
A alegria é indispensável à vida. É a ela que devo a minha longevidade.
Não sabem que existem “clínicas do riso” onde as pessoas com uma certa idade vão, apenas rir, quinze minutos todos os dias? Vejam como elas são felizes!
“A alegria é um raio de luz, que deve permanecer sempre aceso, iluminando todos os nossos actos, servindo de guia a todos que nos rodeiam”
A vida é muito importante para ser levada a sério – dizia Óscar Wilde.

Gosto de passear no parque, ouvir o chilrear dos passarinhos. E daí?
Quem disse que os parques só podem ser usados pelos meninos que jogam à bola ou brincam ao pião?
Ou pelas meninas, carregando as sua bonecas, brincando às mamãs?
Ou pelas criadas, impecáveis nas suas fardas acabadas de engomar, aventalzinho branco bordado, empurrando os carrinhos dos bebés, que vêm tomar ar fresco?
Esperem! Estou a fazer uma grande confusão…isto acontecia há muitos anos! Deixei-me embalar pelas recordações…
Estou aqui sentada há tanto tempo e ainda não ouvi o cantar de um pássaro! Ouço, sim, as buzinas dos carros, que fazem um barulho infernal.
E o ar fresco e perfumado? Não se sente…Há, isso sim, um cheiro horrível do gás que sai dos tubos de escape.
E as crianças, as poucas que por aqui se vêem, estão agarradas àquelas maquinetas que lhes entortam os olhos. Mexem constantemente os dedinhos, mordem os lábios nervosamente, e não se apercebem de nada à sua volta…

Preocupo-me com a saúde. E daí?
Vou ao médico regularmente. Tomo os medicamentos que ele me receita. Faço os exames que prescreve. Sigo, direitinho, todos os seus conselhos.
• Dizem-me os mais jovens:
• Eu vendo saúde! Sou forte! Para quê perder tempo com médicos?
• Eu também já fui jovem, mas não pensava assim. Sempre me cuidei. Continuem com essa filosofia, e em 2028 cá estaremos, e então conversamos. Bom, EU sei que vou cá estar. Vocês…não sei! Arrisco-me a falar com os vossos ossos, talvez já feitos em pó.
A juventude de agora não pensa! “Esta juventude um espanto!”

Sou vaidosa. E daí?
Olho-me no espelho e vejo um rosto sorridente. As rugazinhas que o enfeitam sorriem comigo. Foi uma oferta do tempo, por tanto que eu soube sorrir.
Os olhos reflectem ternura. E amor. Muito amor. Todo o amor que dei e recebi ao longo de tantos anos.
O peito não é altivo como antigamente…Foi a amamentar os filhos que ele perdeu a altivez. Como os meus filhos gostavam do leitinho da mamã! Era vê-los crescer, fortes, saudáveis, risonhos!
Não há nada como o leite materno para alimentar os bebés.
Hoje há muitas mulheres que não querem amamentar. Dizem que não querem “estragar” o corpo! Como se um filho pudesse estragar a sua mãe!
São jovens, ainda não sabem que, depois de carregarem um filho no ventre durante nove meses, ele ficará para toda a vida no coração.
E esse, o coração, é que é importante não deixar estragar.

Estou a ficar desmemoriada. E daí?
A semana passada fui ao cinema ver um filme qualquer. Já nem me lembro do nome…dos artistas muito menos. Sei que são muito conhecidos, famosos, mas não me recordo dos nomes. Mas isso que importa? Daqui por algum tempo ninguém se lembrará, também! Eu apenas me antecipo a esquecê-los.
Sei é que havia um cheiro forte, enjoativo, no ar. Pipocas, era isso!
E aquele ruído de fundo – crr, crr, crr…Imaginem o som de duzentas ou trezentas pessoas – não sei quantas comporta uma sala de cinema - a mastigar pipocas!
E o ronco do vizinho do lado que não apreciava o género de filmes de…
Acção? Suspense? Policial? Sei lá!...
Não me lembro. E daí?

OBS. – Para que não me interpretem mal… entenda-se “gaiteira” por – alegre, foliona, brincalhona (adjectivo) e não «tocadora de gaita» (substantivo).

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

DERROTADOS PELO EXCESSO

Todos nós consumimos, diariamente, muito mais do que necessitamos para viver.
Na alimentação, cometemos, muitas vezes, excessos, ingerindo uma quantidade de alimentos superior à que seria necessária.
Dirão os que são frugais: eu não faço isso!
Contudo, quantos, de nós, se podem incluir nessa categoria?
O aspecto alimentar é apenas um pequeno exemplo. Na realidade, os humanos exageram no consumo de tudo.
E o nosso pobre planeta está a chegar à exaustão.
Mas isto será tema para uma outra conversa. Por agora quero partilhar convosco um texto de Fátima Irene Pinto, que aborda esta problemática.
No final incluo um vídeo também alusivo a este tema.


DERROTADOS PELO EXCESSO

Ao começara a redigir este texto não sei se vou conseguir passar, de forma clara, a essência daquilo que estou pensando, porque há um excesso de informações na minha mente…acho que bem maior do que o meu cérebro pode suportar.
Você já se sentiu derrotado pelo excesso?
E não se trata de algo que a gente possa controlar, administrar ou filtrar: é uma marca registada do nosso tempo.
No trabalho, por exemplo, os informativos chegam aos borbotões, e há que se mudar as regras do jogo num ritmo desenfreado.
Não há fixação, não há sedimentação, não há uma estrutura gradativa no fio condutor destas mudanças.
Meu cérebro, como auto defesa., simplesmente emperra, enquanto os que tentam abarcar esta “onda-pororoca”* sucumbem ao stress profundo.
Observando crianças na escola, percebo que elas são sobrecarregadas de trabalhos, pesquisas, livros para ler, tendo ainda que fazer inglês e computação, para não ficarem à margem da vida.
Compadeço-me de meus sobrinhos na faculdade.
Após a maratona insana do vestibular, aguarda-os uma outra maratona, que lhes rouba dias e noites de sossego, de lazer e de sono.
Tão jovens e tão stressados!
Fico me perguntando se a vida não cobrará destas crianças e destes jovens a infância e a juventude que não estão podendo viver.
Sim, vivemos um tempo pautado pelo excesso, e, como consequência, pela superficialidade.
Não se “forma” ninguém. Apenas se “informa”, e de modo tão excessivo, que é comum não se lembrar hoje das muitas informações que se teve ontem.
Não apenas informações, mas neste nosso tempo tudo se dá em larga escala.
Você sai e fica aprisionado no trânsito por excesso de carros.
Você liga a TV e há canais em excesso.
Você liga o rádio e se perde no meio das estações.
Você vai ao shopping e se perde no excesso de lojas; e, se entra nas lojas, você se perde no meio das marcas.
Utensílios que você compra hoje como sendo de última geração, em pouco tempo se tornam obsoletos.
Se você tem uma disfunção orgânica há excesso de especialistas e um sem par de exames – que falta faz aquele antigo clínico geral, médico de família!
E mesmo os remédios que você toma são substituídos por outros mais modernos (e mais caros), de última geração.
Aliás, é de praxe, hoje, tomar uma quantia excessiva de remédios para algo que poderia ser resolvido com um chá caseiro e um pouco de repouso.
Se você vai ao banco pagar uma conta ou ao correio postar uma carta, você perde a calma na fila interminável.
Estou citando exemplos que estão vindo à mente, mas com certeza o leitor/a completará a lista com outras tantas menções ao tema a que me reporto.
Até já sei. Você deve ter pensado num excesso esmagador: impostos!
Ou talvez no excesso de políticos corruptos…
Cala-te boca!
Então, para fugir dos excessos do mundo lá fora, ou ao menos dar uma pausa, você vem para o Micro e, com certeza, há uma imensa possibilidade de você ser derrotado pelo excesso de programas, emails, sites, chats, spam e amizades virtuais que, exactamente pelo excesso, têm o mesmo teor de superficialidade, com raríssimas excepções.
Resista bravamente. Afinal, aqui ainda é o seu local preferido!
Mas…se você sucumbir, cantarole comigo a canção que entoo neste momento:

“Eu queria ter na vida simplesmente
Um lugar de mato verde p’ra plantar e p’ra colher.
Ter uma casinha branca de varanda
Um quintal e uma janela
Para ver o sol nascer.”

Fátima Irene Pinto

* Onda-pororoca é um tipo de onda revolta que se forma nos rios, não no mar.


Maria Bethania - Casinha Branca

domingo, 3 de agosto de 2008

VIVA OS HOMENS

Para que não me acusem de publicar textos muito extensos no dia tradicionalmente consagrado ao descanso, hoje decidi publicar um bem pequeno.
Ainda pensei em qualquer coisa do género:

Princípio ************** Fim.

Mas pareceu-me exageradamente curto. Optei pelo que se segue


Viva Os homens,
Por existirem

Viva os homens,
Por nos darem motivo para sermos mulheres

Viva os homens
Que fazem a diferença ser tão especial

Viva os homens
Que são obrigados a sufocar o choro
Para não parecerem menos homens
Que são levados s trabalhar como escravos,
Porque alguém falou que é deles a obrigação de sustentar as mulheres

Viva os homens
Os primeiros a morrer nas guerras,
Os que pegam no pesado,
Porque alguém disse que as mulheres são muito delicadas para tarefas mais árduas

Viva os homens
Que dispensam maquilhagem e não precisam lambuzar-se de batom ou esmalte de unhas vermelho

Viva os homens
Que não precisam amargar horas no salão de beleza, nem gastar rios de dinheiro em boutiques e “grifes” só para parecerem mais “fashion”

Viva os homens
Cujas armas de sedução vão além da simples aparência, e dispensam cremes anti-celulite

Viva os homens
Que conseguem ser amigos uns dos outros, sem disputas, sem fofocas e sem intrigas
Viva os homens
Que nos fazem admirar o belo e o forte, e que nos permitem parecermos tão belas

Viva os homens
Porque sem eles não teria graça nenhuma ser mulher

E viva os homens
Porque todos os dias são deles

Viva os homens
Porque são homens

Têm seu cheiro especial

Toque fenomenal
Braços fortes

Quando amam, amam mesmo

São sempre lindos

e…mesmo grisalhos
conservam seu charme


Fátima Dannemann – Jornalista, escreve crónicas, poemas, humor, ficção

Acharam o texto muito longo? Bom, talvez um pouco, mas…
Os homens MERECEM !
PS - Que lhes parece criarmos o Dia Internacional, Mundia, Regional... ou simplesmente "Blog-al" do HOMEM ??? - "Dia Blogal do Homem"
Vamos pensar nisso? Eu APOIO!

quinta-feira, 31 de julho de 2008

UM CHEIRINHO DE ALECRIM

Sentem o perfume no ar? É o cheiro do alecrim!
Será mesmo alecrim? Ou será rosmaninho?
Por vezes gera-se uma certa confusão, pensando-se que se trata apenas de uma planta a que se pode dar os dois nomes.
Na realidade são duas plantas distintas, que pertencem à mesma família.



Rosmaninho Alecrim

Em Portugal conhecem-se cinco variedades dessa mesma família, as Lamiáceas ou Labiadas.

Todas exalam um forte e agradável odor. Por isso são muito usadas em perfumaria.
As abelhas sentem uma forte atracção pelas suas flores, o que leva alguns apicultores a plantar rosmaninho perto das colmeias. Assim surge o tão famoso mel de rosmaninho, com um sabor especial que lhe é conferido pelo pólen dessas flores.
Alecrim e rosmaninho são muito utilizados na culinária, quer como tempero, seco ou fresco, ou colocado sobre o carvão, quando se fazem assados na brasa. A carne fica com um sabor especial, e o ambiente agradavelmente perfumado.
São também usados na medicina popular para combater a febre, a tosse e o mal estar do estômago, na forma de infusão, tomada após as refeições.
São-lhes também atribuídas propriedades anti-sépticas, analgésicas, anti-depressivas e anti-reumáticas.
Conta-se que Elizabeth da Hungria recebeu, aos 72 anos, a receita de um anjo (supõe-se ter sido um monge) quando estava paralítica e sofria de gota.
Com o uso do preparado de alecrim recobrou a saúde, a alegria e a beleza.
O rei da Polónia chegou a pedi-la em casamento.

O alecrim é uma planta muito ligada ao misticismo.
Desde a antiguidade é queimado nos templos e igrejas, como incenso, e o seu óleo ainda hoje é utilizado para unção nalgumas religiões.
Gregos e romanos consideravam-no uma planta sagrada.

Em Portugal. No tempo em que as procissões se realizavam com grande esplendor, espalhava-se alecrim e rosmaninho pelas ruas por onde os andores iriam passar.
António Lopes Ribeiro refere-o nos versos de “Procissão”, imortalizados por João Villaret.

Tocam os sinos na torre da Igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia, que Deus a proteja!
Vai passar a procissão.

Já em 1737 o dramaturgo português António José da Silva escreveu «Guerras do alecrim e mangerona», onde as heroínas, disfarçadas, usavam ramos de alecrim e mangerona (uma espécie de manjericão) , para serem reconhecidas pelos seus amados.
Isto comprova que, também em Portugal, o alecrim sempre foi muito apreciado.

Como gosto muito de lendas - e a prová-lo estão algumas que já aqui publiquei - não resisto à tentação de vos contar uma muito antiga, que ouvi nos meus tempos de “menina e moça”, e que ainda guardo na memória.

Quando Maria e José fugiam com o Menino Jesus a caminho do Egipto, as flores que havia à beira do caminho iam-se abrindo à sua passagem, para os saudar.
O lilás, orgulhoso da sua beleza e perfume, erguia-se bem alto.
O lírio, mais modesto de porte, mas de igual beleza, abria os cálices, contribuindo, assim, para amenizar a jornada dos caminhantes.
O alecrim, sem flores nem beleza, entristeceu, por não ter nada que pudesse oferecer ao Menino.
Depois de uma boa caminhada, encontrando-se Maria já cansada, resolveram parar junto a um rio.
O Menino adormeceu, e Maria aproveitou para lavar as suas roupinhas. Em seguida procurou um lugar para estendê-las.
Os lilases eram muito altos, os lírios muito frágeis…
Foi então que reparou no modesto alecrim, que crescia a seus pés, e nele colocou as roupinhas.
O alecrim suspirou de alegria por, finalmente, poder ser útil ao Menino. E enquanto susteve as roupinhas redobrou de esforços para activar o seu perfume e com ele as impregnar.
Quando Maria as foi apanhar disse:
“Obrigada, gentil alecrim. Daqui por diante cobrir-te-ás de flores azuis, da cor do manto que estou usando.
E, em sinal de agradecimento, não apenas as flores mas também os raminhos que sustentaram as roupas de Jesus, passarão a ser perfumadas.
Abençoo as folhas, o caule e as flores, que, a partir de agora, terão aroma de santidade e espalharão alegria”

É por isso, diz-se, que o alecrim é, todo ele, perfumado, e não apenas as suas flores.

Deixo-vos com um vídeo de que gosto imenso, que fala de alecrim.

“Procissão” por João Villaret




domingo, 27 de julho de 2008

FALAR SÓ POR FALAR OU “DEITAR CONVERSA FORA”

Hoje não me apetece escrever!
Por ser Domingo, talvez…
Não sei onde fui buscar a ideia peregrina de fazer postagens ao Domingo. À Quinta-feira ainda se compreende: estamos a meio da semana, um pouco saturados da rotina diária, falta só um dia para o início do fim de semana… e pensamos “vamos lá fazer uma postagenzita”!
Mas ao Domingo?!...Precisamente ao Domingo, dia de descanso?!...

Na verdade, nem sempre o dia de descanso foi ao Domingo.
Em tempos longínquos o dia dedicado ao descanso era o Sábado, o sétimo dia – “E ao sétimo dia descansou”.
Há quem defenda que a mudança se deve à Igreja Católica:

“…O comentário acima, de um sacerdote católico, é mais uma confirmação de que foi a Igreja Católica que mudou o quarto mandamento da Lei de Deus, que prescreve o descanso no sétimo dia, para o descanso dominical…
…a intenção do Vaticano de promover o descanso dominical para toda a sociedade, porque é o sinal da sua autoridade, e quando todo o mundo cristão estiver praticando essa doutrina, o Vaticano terá alcançado o seu grande objectivo, que é recuperar a supremacia política mundial…
…de acordo com o Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, o bispo Inácio de Antioquia, por volta de 130 d.C., escreveu uma carta aos fiéis de Filadélfia com um propósito específico…de facto, para provar que o sábado devia ser abolido em favor do domingo, Inácio de Antíqua não podia valer-se de nenhum testemunho escriturístico. O único argumento era que o domingo era o dia da ressurreição de Jesus.”

Estes excertos vêm na sequência de um longo texto que não vou aqui transcrever. Duvido que algum de vós tivesse paciência para o ler. Eu li, mas porque sou maníaca da leitura. À conta disso já tenho lido, com muito esforço, alguns livros que não me agradam. Mas…comecei, tenho que ir até ao fim!

Deva-se a quem se dever, o facto é que hoje é dia de descanso!
E como não me apetece escrever, vou apenas informar, (a quem não sabe) e lembrar (aos que souberam) que ontem foi o Dia dos Avós.

Os Padroeiros dos Avós
Comemora-se o Dia dos Avós em 26 de Julho, e esse dia foi escolhido para a comemoração porque é o dia de Santa Ana e São Joaquim, pais de Maria e avós de Jesus Cristo. Século I a.C. - Conta a história que Ana e seu marido, Joaquim, viviam em Nazaré e não tinham filhos, mas sempre rezavam pedindo que o Senhor lhes enviasse uma criança. Apesar da idade avançada do casal, um anjo do Senhor apareceu e comunicou que Ana estava grávida, e eles tiveram a graça de ter uma menina abençoada a quem baptizaram de Maria. Santa Ana morreu quando a menina tinha apenas 3 anos. Devido a sua história, Santa Ana é considerada a padroeira das mulheres grávidas e dos que desejam ter filhos. Maria cresceu conhecendo e amando a Deus e foi por Ele a escolhida para ser Mãe de Seu Filho. São Joaquim e Santa Ana são os padroeiros dos avós.


Recebi dos meus netos um quadrinho, com uma bela moldura, onde consta, num tipo de letra muito bonito que não posso aqui reproduzir, estas deliciosas frases:

• OS AVÓS

• Os Avós são um Avô e uma Avó
• Os Avós têm sempre tempo para fazer tudo aos netos
• Os Avós gostam muito de passear devagar, devagarinho
• Os Avós nunca têm pressa para nada, são sempre mais velhinhos e
gordinhos

• Os Avós sabem sempre dar aquilo que os netos querem
• Os Avós quando se zangam fazem-no sempre a sorrir
• Os Avós, quando contam histórias, nunca saltam bocados, e não se
importam de as repetir vezes sem conta

• Os Avós “estragam”, os Pais educam.

VIVAM OS AVÓS

Deixo-vos, até à próxima Quinta Feira, com um lindo presente.
Está no post seguinte, com o título “Casa de Vó”.
Penso que vão gostar.

CASA DE VÓ

CASA DE VÓ

Casa de Vó é o lugar mais doce do mundo!



É onde até o limão é doce, e qualquer doce fica muito mais doce.
Há sempre rocambole fofo, coberto de açúcar, em cima da geladeira.
E dentro? Nem se fala!...
Há sonhos de verdade, cobertos de canela.
Há biscoitos quentinhos acabados de sair.
Há suspiros dourados e beijinhos doces.
E a melhor, a mais limpinha, a mais gostosa cama do mundo.
Há esconderijos segredáveis e mapas de tesouro.
Há castelos, fadas, viagens espaciais, reis, princesas e super heróis.
Há risos, muitos risos de sobremesa nas mesas de domingo.



Na casa de Vó as coisas são da altura da gente e tudo está ao alcance das mãos.
Nada é cheio de não – me – toques.
Tudo é à prova de neto!
Até a guerra de travesseiros vem, mas significa paz e alegria.
Na casa da vovó dá vontade de correr e brincar o resto da vida sem parar nunca.
Pois trincos não tem, fechaduras também não.
Casa de Vó tem é muitos braços todos abertos a qualquer hora.
P’ra casa de Vó nunca precisa avisar que vai, é só chegar.
Mesa de casa de Vó vive pronta!
Com toalha bem lavável, sem enfeites caros e novos; resistentes, isso sim.
E tudo funciona melhor na casa de Vó.
As paredes amortecem os tombos.
O chão é menos duro.
O fogão tem mais que seis bocas, todas acesas!
A mesa, como tem pernas…
As cadeiras, mas que dois braços aconchegando…
E Vó, sempre, é toda ouvidos!
Caderno de receita de Vó, então, é livro cobiçado, já esgotado.
Todos querem os segredos dos cozidos e dos assados, mas ninguém consegue jamais fazer um igual.
Porque o jeito de escrever, as páginas amarelas e as gotinhas de gordura não se fizeram em um dia.
Foram precisos muitos dias de festa e vontade de agradar.
Lamber os dedos pode, mas só na casa de Vó.
Raspas de panela tem sempre, e, o pior, tem fila também.
Se escuta sempre: “Eu pedi primeiro!”.
Quase toda Vó tem cadeira de balanço, um chinelo jeitoso, uma caixinha com bilhetes, lencinhos e papéis amarelados.
Gaveta de Vó, então, é uma festa!
De vez em quando toda Vó dá um suspiro bem fundo, porque tem coisas demais para se lembrar, sentindo saudades.
Há coisas que só o amor de Vó faz.
Machucados, por exemplo, são curados com dengo e muitos, muitos beijos.



Dinheiro de Vó rende…
Pensando bem é o único dinheiro que rende.
E costura que Vó faz, então?
Chega a vestir três gerações, até.
As histórias de Vó, as brincadeiras e as cantigas de ninar, só ela conhece, mais ninguém.
E o sono vem cheio de sonhos bons, quando a Vó está por perto.
Porque só cheirinho de Vó é já uma delícia!
O colo é tão gostoso e a pele tão macia que ficam na lembrança da gente p’ro resto da vida.
O assunto não tem fim na casa de Vó.
Ninguém perde o fio da meada, pois é tecido com muito interesse em escutar cada graça, cada novidade, cada descoberta.
Há tanto caso engraçado, e histórias p’ra se ouvir, que ver televisão é perder tempo…
O relógio é sempre adiantado para ninguém perder a hora.
Existe na casa de Vó a mágica do tempo, ele obedece, vai e volta, é só querer.
E a gente é o que quer ser.
Cresce, se quiser crescer.
A casa de Vó tem o maior espaço do mundo, mesmo que não tenha espaço nenhum.
Porque o espaço maior ficou inventado pela liberdade de rir, de correr e de gritar.
Espaço infinito que é do tamanho do coração que toda Vó tem.



Autoria - Guiomar Paiva Brandão, no livro “Casa de Vó”

quinta-feira, 24 de julho de 2008

MAIS UMA ESTRELA SE APAGOU

Desapareceu mais um astro do firmamento cinematográfico – Mel Ferrer.
O falecimento ocorreu no passado dia 2 de Junho, em Santa Bárbara, Califórnia, USA.



De acordo com o que foi noticiado nos Estados Unidos, o actor, de 90 anos de idade, encontrava-se rodeado de familiares e amigos. Terminou os seus dias em paz.
Os mais jovens, provavelmente, não conhecem nem o nome, nunca ouviram falar. Os menos jovens de idade, nos quais me incluo, lembram, certamente, o actor.
Na realidade, Mel Ferrer tornou-se conhecido especialmente como actor. Protagonizou mais de cem filmes ao longo da sua carreira, o último dos quais em 1998.
Actor principal em filmes famosos como Scaramouche, Lili, O Dia Mais Longo, o que o tornou mais conhecido e famoso foi, sem dúvida, o grandioso “Guerra e Paz”, realizado em 1956.





Como acontece com um grande número de pessoas, também Mel Ferrer não realizou o sonho da sua vida - exercer a profissão de que mais gostava – realizador de cinema.
Ainda fez uma incursão nesse campo, realizando alguns filmes. Mas o seu destino era ser actor. Os grandes cineastas requisitavam-no, os seus filmes garantiam sucesso de bilh eteira, e assim acabou por abandonar definitivamente o campo da realização.
Durante as gravações de “Os cavaleiros da Távola Redonda”, em Londres, conheceu a lindíssima Haudrey Hepburn,



com quem se casou em 1954, na cidade de Lausanne, Suíça.




O casamento durou 14 anos, e terminou em 1964.

Homem discreto, sempre pautou a sua vida por uma atitude correcta. Nunca se lhe conheceram escândalos, tão comuns no meio cinematográfico, e a que muitos actores e actrizes devem, em parte, a sua fama.

Partiu um grande actor e, tanto quanto se sabe, um homem de bem.
Por isso lhe presto, aqui, esta singela homenagem.