Para além das enormes dificuldades que se viviam, especialmente com a subida ao poder de Salazar, e a implantação do estado Novo, a censura actuava severamente, e as proibições surgiam como cogumelos.
Quem não se lembra de que era proibido dar um beijo em público?
Que era proibido a uma mulher casada viajar para o estrangeiro sem a devida autorização, por escrito, do seu marido? Que era proibido vestir minissaia?
Usar biquíni na praia? Nem pensar! O fato de banho era uma peça única, não muito cavado nas pernas e sem exagerar no decote.
Quem não se lembra de que era proibido dar um beijo em público?
Que era proibido a uma mulher casada viajar para o estrangeiro sem a devida autorização, por escrito, do seu marido? Que era proibido vestir minissaia?
Usar biquíni na praia? Nem pensar! O fato de banho era uma peça única, não muito cavado nas pernas e sem exagerar no decote.
E não se pense que só às mulheres eram impostas estas regras! Os homens também tinham as suas restrições

Barriguinhas à mostra…proibidíssimo!
Contava-se uma história, que acredito fosse anedota, de uma turista inglesa que, numa praia portuguesa, se passeava de biquíni, deliciando-se com o sol de Portugal.
Nada que se compare aos biquínis de hoje. Calção subido até à cintura e sutiã bem recatado, que pouco expunha aos olhos cobiçosos.

Foi interpelada por um cabo-de-mar (polícia marítimo) que, no seu inglês macarrónico, aprendido no Cais do Sodré, entre palavras e sinais, tentava fazer-lhe saber que não podia andar assim vestida (ou despida). Como a inglesa parecia não dar sinais de compreensão, o polícia conseguiu soletrar, apontando para o biquíni: just one piece! Percebendo, finalmente, a inglesa respondeu, no seu português também macarrónico: – Só uma peça? Eu escolher a de baixo, ok? E retirou o sutiã.
A história que ouvi contar acabava aqui. Não sei qual o seguimento, mas imagino que tenha sido a esquadra de polícia mais próxima.
(Hoje em dia ainda há quem use fato de banho que faz lembrar esses tempos…
mas isso é outro assunto, fora deste contexto).
Muitos escritores e músicos viram as suas obras censuradas e proibidas.
As suas músicas e livros ouviam-se e liam-se apenas na intimidade do lar, ou em círculos muito restritos e de extrema confiança, não fosse alguém descobrir e contar à polícia.
Nos guiões para cinema e peças de teatro a tesoura da censura cortava sem contemplações.
Talvez para evitar situações menos agradáveis a pessoas de certos estratos sociais… (isto é apenas uma suposição minha, não tenho qualquer base para o afirmar como verdade) o certo é que determinadas proibições eram contornadas com a aquisição de licenças.
Por exemplo, era proibido usar isqueiro. Mas quem o quisesse fazer, podia tirar uma licença e usá-lo em público sem qualquer restrição.
Era, portanto, muito vulgar, tirarem-se licenças por tudo e por nada.
As pessoas falavam do assunto frequentemente, e em casa, as crianças também o ouviam mencionar.
É precisamente acerca de licenças a história que vos vou contar.
Havia, e penso que ainda há no mercado, um creme para as mãos (para além de outros produtos) da marca «Diadermine», que as senhoras usavam para amaciar a pele. Algumas usavam-no perfumado, outras preferiam-no sem cheiro.
Numa família minha conhecida havia duas meninas, irmãs, na altura com sete ou oito anos. O pai, fumador, usava isqueiro, tendo obtido a respectiva licença. A mãe, uma senhora bonita, cuidava do seu aspecto.
Perto da casa onde moravam havia uma farmácia.
Um dia a mãe mandou-as à farmácia comprar Diadermine. Naquele tempo ainda as crianças podiam sair à rua sozinhas, sem que isso constituísse qualquer risco.
Chegadas à farmácia, depois de pedirem o que queriam, o farmacêutico perguntaram:
- Querem com essência ou sem essência?
As meninas olharam uma para a outra, sem saber muito bem o que responder. Cochicharam entre si:
- O melhor é ser com licença. Agora é preciso licença para tudo…
O farmacêutico, impaciente com a demora, perguntou:
- Em que ficamos? É com ou sem?
Responderam em simultâneo:
- É melhor com.
E assim regressaram a casa, trazendo a Diadermine com essência, felizes porque não estariam a transgredir as leis.
O assunto só foi esclarecido porque a mãe estranhou o preço. O creme que habitualmente usava, sem essência, era mais barato.
Ao ouvir o comentário da mãe, as meninas responderam prontamente:
- Se calhar a mamã costuma comprar sem licença. Mas nós pensámos que era melhor ser com licença…
A senhora deu uma boa gargalhada, esclareceu-as, e enquanto durou o creme, andou com as mãos perfumadas.
Pode parecer-lhe anedota, mas acredite que é verdade. Passou-se com pessoas minhas amigas, com quem contactei intimamente durante muitos anos.
A maior parte das restrições e proibições atrás referidas só foram revogadas, em Portugal, depois do 25 de Abril de 1974.


























