domingo, 29 de junho de 2008

UM BOM CONSELHO

A IMPORTÂNCIA DE FAZER AMOR

Sabia que, pela pele, podemos determinar se uma pessoa é sexualmente activa ou não?

Fazer amor é um tratamento de beleza.
Testes científicos demonstraram que as mulheres, quando têm relações sexuais, produzem um grande número de hormónio Estrogénio.
Esse hormónio torna os cabelos brilhantes e a pele macia.

Lentamente, as relações sexuais reduzem a hipótese de se sofrer de dermatites, coceiras e imperfeições cutâneas.
A transpiração limpa os poros e torna a pele resplandecente.

Fazer amor faz queimar todas as calorias ganhas durante o jantar romântico.
Fazer amor é um dos desportos mais seguros que você pode praticar. Alonga e tonifica todos os músculos do corpo. E é muito mais agradável do que nadar 20 piscinas.

Fazer amor é uma cura instantânea para pequenas depressões.
Faz circular endorfinas no sistema sanguíneo produzindo uma sensação de euforia, e deixa uma grande sensação de bem estar.
Quanto mais amor fizer, mais vai pedir. O corpo sexualmente activo elimina um grande número de toxinas chamadas ferormónios. Esse perfume sexual deixa o seu parceiro completamente maluco.

Fazer amor é o mais seguro dos tranquilizantes do mundo! É 10 vezes mais eficaz do que o Valium.
Beijar todos os dias evita ir ao dentista. Beijar aumenta a quantidade de saliva que lubrifica a boca, reduz a taxa do ácido que provoca a cárie, e previne a produção da placa dentária.

Fazer amor alivia as dores de cabeça.
A relação sexual pode reduzir a tensão dos vasos sanguíneos do cérebro.

Fazer amor pode desentupir o nariz.
É um natural anti-histamínico. Combate a asma e a sinusite.

Faça amor! É muito gostoso e bom para a saúde!




domingo, 22 de junho de 2008

AUSÊNCIA

Vou ausentar-me por duas semanas. Deixo-vos com AMOR.
Opiniões, conceitos, relatos de experiências, e até conselhos!
E também uma linda história de amor.

Porque seria um texto forçosamente extenso, dividi-o em cinco posts.
Não leia tudo duma vez. Vá apreciando aos poucos, e, eventualmente, pondo em prática…

Começo com uma opinião de Arnaldo Jabor, cineasta e jornalista carioca.
Em toda a sua obra, tanto no cinema como no jornalismo, ele faz critica aos vícios da classe média do país.

Veja o que ele pensa do Amor:


CRÓNICA DE AMOR
Arnaldo Jabor





Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta.

O amor não é chegado em fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante.
Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.
Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina o Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam.
Então? Então que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você.

Isso tem nome.

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha.
Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.
Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas.
Por que você ama este cara?

Não pergunte pra mim.

Você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.
É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu, e seu corpo tem todas as curvas no lugar.
Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.
Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo.

Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.

Não funciona assim. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC.
Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.

Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!
Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é!
Pense nisso".

Cronica de Amor
(Arnaldo Jabor)
AGOSTO 2006

DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO AMOR

Sílvia Schmidt, poetisa paulista, “criou” 15 artigos que regem os Direitos do Amor.

Silvia Schmidt



DECLARAÇÃO DOD DIREITOS DO AMOR

Considerando ser o AMOR o maior de todos os agentes de Utilidade Pública, PROCLAMA-SE O QUE SEGUE:

Artigo 1º

O Amor pode apropriar-se de todo e qualquer coração, com ou sem anuência do dono.


Artigo 2º

Em presença de sentimentos inferiores, tais como a raiva, o ódio e o ressentimento, ao Amor é permitido julgá-los e extraditá-los sem direito a reconsideração da pena.


Artigo 3º

O Amor deve ser respeitado em todas as suas formas, sejam elas dirigidas a pessoas, coisas, vegetais ou animais.


Artigo 4º

Ao Amor é sempre permitida a companhia do perdão, pois que sem este Ele está falsificado.


Artigo 5º

O Amor tem o direito de ficar cego, surdo e mudo quando em presença de maledicências, e pode apresentar-se como agente de paz diante de desarmonias e atos prejudiciais a todos os seres do Planeta.


Artigo 6º

O Amor tem licença plena para manifestar-se livremente, independente de raça, credo ou religião.
Ele é incondicionalmente livre
para viver em seu habitat natural:
O Coração.


Artigo 7º

O Amor é bússola que aponta o caminho para a Felicidade e assim deve ser indiscutivelmente reconhecido.


Artigo 8º

A todo aquele que banir o Amor do seu coração será imputada a pena de solidão, isolamento e sofrimento perpétuos.


Artigo 9º

O Amor nunca deverá ser responsabilizado por dores, perdas ou danos e tem amplos poderes para neutralizar todas as batalhas, sejam elas emocionais, familiares ou sociais.


Artigo 10º

Ao Amor não se aplicam Leis Trabalhistas:
Ele pode exercer suas funções 24hrs por dia durante TODOS os dias do ano.


Artigo 11º

Quando o Amor entra em corações, deve ser bem recebido, bem tratado, bem nutrido e absolutamente livre para agir
em prol de todos os envolvidos por Ele.


Artigo 12º

Em nenhuma hipótese o Amor deverá ser álibi para atitudes de más intenções, tais como usá-lo
como desculpa para enganar, iludir ou controlar corações. Também nunca poderá ser instrumento de brincadeira com o sentimento do homem ou da mulher.


Artigo 13º

Toda e qualquer tentativa de matar o Amor será tratada pelo Universo como crime contra a vida do próprio mandante.


Artigo 14º

O Amor é partidário da Lei de Causa e Efeito:
Ele pode partir em definitivo da Vida daqueles que optam pelo sofrimento diante das adversidades, e também daqueles que se deixam cair em abandono.


Artigo 15º

Ao Amor nada deve ser acrescentado e Dele também nada retirado, posto ser o mais perfeito de todos os sentimentos
e manifestação absoluta de Deus.


Parágrafo Único:

Os Direitos do Amor sempre protegerão
os legítimos Direitos de Todos os Seres.


REVOGUEM-SE TODAS AS DISPOSIÇÕES EM CONTRÁRIO

Silvia Schmidt

DESABAFOS DE UM BOM MARIDO

Luís Fernando Veríssimo, com o seu humor tão peculiar, relata-nos a “sua” vida de casado, revelando segredos para um casamento feliz.




Minha esposa e eu temos o segredo para fazer um casamento durar: duas vezes por semana, vamos a um ótimo restaurante, com uma comida gostosa, uma boa bebida, e um bom companheirismo. Ela vai às terças-feiras, e eu às quintas.

Nós também dormimos em camas separadas. A dela é em Fortaleza e a minha em São Paulo .

Eu levo minha esposa a todos os lugares, mas ela sempre acha o caminho de volta. Perguntei a ela onde ela gostaria de ir no nosso aniversário de casamento.
'Em algum lugar que eu não tenha ido há muito tempo!' ela disse. Então eu sugeri a cozinha.

Nós sempre andamos de mãos dadas. Se eu soltar, ela vai às compras.

Ela tem um liquidificador elétrico, uma torradeira elétrica, e uma máquina de fazer pão elétrica. Então ela disse:
'Nós temos muitos aparelhos, mas não temos lugar pra sentar'.
Daí, comprei para ela uma cadeira elétrica.

Lembrem-se, o casamento é a causa número um para o divórcio.
Estatisticamente, 100 % dos divórcios começam com o casamento.
Eu me casei com a 'Sra. Certa'. Só não sabia que o primeiro nome dela era 'Sempre'.

Já faz 18 meses que não falo com minha esposa.
É que não gosto de interrompê-la. Mas tenho que admitir, a nossa última briga foi culpa minha. Ela perguntou: 'O que tem na TV?' E eu disse 'Poeira'.

No começo Deus criou o mundo e descansou.
Então, Ele criou o homem e descansou. Depois, criou a mulher.
Desde então, nem Deus, nem o homem, nem o Mundo tiveram mais descanso.

Quando o nosso cortador de grama quebrou, minha mulher ficava sempre me dando a entender que eu deveria consertá-lo. Mas eu sempre acabava tendo outra coisa para cuidar antes: o caminhão, o carro, a pesca, sempre alguma coisa mais importante para mim.

Finalmente ela pensou num jeito esperto de me convencer. Certo dia, ao chegar em casa, encontrei-a sentada na grama alta, ocupada em podá-la com uma tesourinha de costura.
Eu olhei em silêncio por um tempo, me emocionei bastante e depois entrei em casa.
Em alguns minutos eu voltei com uma escova de dentes e lhe entreguei.'
- Quando você terminar de cortar a grama, - eu disse - você pode também varrer a calçada.

Depois disso não me lembro de mais nada. Os médicos dizem que eu voltarei a andar, mas mancarei pelo resto da vida.

“O casamento é uma relação entre duas pessoas na qual uma está sempre certa e a outra é o marido...”


Luís Fernando Veríssimo

quinta-feira, 19 de junho de 2008

DIA DA CRIANÇA AFRICANA

Na passada segunda feira, dia 16 de Junho, comemorou-se o Dia da Criança Africana.

Como, por enquanto, só faço postagens à Quinta feira e Domingo, e uma das minhas maiores preocupações é com as crianças, aproveito o dia de hoje para lhes prestar homenagem.

O “PÚBLICO.PT” assinalou a data com esta notícia:

"Numa data escolhida pelas trágicas lembranças que o dia 16 de Junho de 1976 traz ao Mundo, é celebrado hoje o Dia da Criança Africana. Numa tentativa de honrar a memória das crianças e estudantes que, naquele dia, perderam a vida numa marcha de protesto na África do Sul, a Organização de Unidade Africana (OUA) quer igualmente chamar a atenção da comunidade internacional para a situação das crianças neste continente. Os órfãos de África: a nossa responsabilidade colectiva é o tema que, este ano, pretende lembrar o número catastrófico de crianças órfãs que perderam os seus pais graças ao HIV-Sida. Os dados não enganam: só na Nigéria, existem cerca de 1,8 milhões de "órfãos da sida", numa população total de 130 milhões de pessoas. Segundo declarações de fonte da Unicef à AFP, as medidas tomadas pelo Governo nigeriano são insuficientes - "as respostas a estes problemas são deixadas para as comunidades resolverem", esclarece a organização."
notícia completa


Em homenagem às crianças de África veja este vídeo

Meninos do Huambo




ONDE ANDARÁ O MEU DOUTOR?

Qualquer um de nós, quando se sente doente, vai consultar um médico.
Ah! Mas já não se fazem médicos como antigamente!...

ONDE ANDARÁ O MEU DOUTOR?

Hoje acordei sentindo uma dorzinha…aquela dor sem explicação, e uma palpitação! Resolvi procurar um doutor.
Fui divagando pelo caminho. Lembrei aquele médico que me atendia vestido de branco, e que para mim tinha um pouco de pai, de amigo e de anjo. Meu doutor, que curava a minha dor! Não apenas a do meu corpo, mas a da minha alma. Que me transmitia paz e calma…

Chegando à recepção do consultório, fui atendida com uma pergunta!
"Qual o seu plano?
O meu plano“ Ahhh! O meu plano é viver mais e feliz! É dar sorrisos, aquecer os que sentem frio e preencher esse vazio que sinto agora!
Mas, a resposta teria que ser outra! O "meu plano de saúde"...
Apresentei o documento do dito cujo, já meio suado tanto quanto o meu bolso... E aguardei

Quando fui chamada, corri apressada...
Ia ser atendida pelo doutor, ele que cura qualquer tipo de dor!
Entrei e o olhei...Me surpreendi...
Rosto trancado, triste e cansado.
"Será que ele estava adoentado? É, quem sabe, talvez gripado!"
Não tinha um semblante alegre, provavelmente devido a febre...

Dei um sorriso meio de lado e um bom dia! Olhei o ambiente bem decorado. Sobre a mesa à sua frente um computador , e no seu semblante a sua dor...O que fizeram com o doutor?
Quando ouvi a sua voz de repente: "O que a senhora sente?"

Como eu gostaria de saber o que ele estava sentindo...
Parecia mais doente do que eu, a paciente...
"Eu? Ah! Sinto uma dorzinha na barriga e uma palpitação" - e esperei a sua reação.
Vai me examinar, escutar a minha voz e auscultar o meu coração.

Para a minha surpresa apenas me entregou uma requisição e disse:
"Peça autorização desses exames para conseguir a realização..."
Quando li quase morri...
"Tomografia computadorizada", "Ressonância magnética" e “Cintilografia"!

Ai meu Deus! Que agonia!!!
Eu só conhecia uma tal de "abreugrafia", só sabia o que era “ressonar” (dormir), de "magnético" eu conhecia um olhar, e "cintilar" só o das estrelas!
Estaria eu à beira da morte? De ir para o céu? Iria morrer assim ao léu?

Naquele instante timidamente pensei em falar - "Não terá o senhor uma amostra grátis de calor humano para aquecer esse meu frio? O que fazer com essa sensação de vazio? Me observe doutor!
O tal "Pai da Medicina", o grego Hipócrates acreditava que, "A ARTE DA MEDICINA ESTÁ EM OBSERVAR". Olhe pra mim...

É bem verdade que o juramento dele está ultrapassado!
Médico não é sacerdote...Tem família e todos os problemas inerentes ao ser humano...
Mas, por favor me olhe! Ouça a minha história! Preciso que o senhor me escute e ausculte! Me examine!

Estou sentindo falta de dizer até "aquele 33"! Não me abandone assim de uma vez! Procure os sinais da minha doença e cultive a minha esperança!
Alimente a minha mente e o meu coração... Me dê ao menos uma explicação!
O senhor não se informou se eu ando descalça... Ando sim!
Gosto de pisar na areia e seguir em frente deixando as minhas pegadas pelas estradas da vida, estarei errada?

Ou estarei com o verme do amarelão? Existirá umas gotinhas de solução?
Será que já existe vacina contra o tédio? Ou não terá remédio?
Que falta o senhor me faz, meu antigo doutor!
Cadê o scoot, aquele da emulsão? Que tinha um gosto horrível mas me deixava forte que nem um "Sansão"! E o elixir? Paregórico e categórico.
E o chazinho de cidreira, que me deixava a sorrir sem tonteiras? Será que pensei asneiras?
Ahhh! Meu querido e adoentado doutor! Sinto saudade...Dos seus ouvidos para me escutar...Das suas mãos para me examinar...Do seu olhar compreensivo e amigo...Do seu pensar …Do seu sorriso que aliviava a minha dor...Que me dava forças para lutar contra a doença...
E que estimulava a minha saúde e a minha crença...
Sairei daqui para um ataúde? Preciso viver e ter saúde!
Por favor me ajude!

Ohhh! Meu Deus, cuide do meu médico e de mim, caso contrário chegaremos ao fim...
Porque da consulta só restou uma requisição digitada em um computador e o olhar vago e cansado do doutor!
Precisamos urgente dos nossos médicos amigos...
A medicina agoniza...
Ouço até os seus gemidos...

Por favor!
Tragam de volta o meu doutor! Estamos todos doentes e sentindo dor!
E Peço!!!
PARA O SER HUMANO UMA RECEITA DE "CALOR“,E PARA O EXERCÍCIO DA MEDICINA UMA PRESCRIÇÃO DE "AMOR"!



“ONDE ANDARÁ O MEU DOUTOR?”
Desconheço a autoria

domingo, 15 de junho de 2008

EUTANÁSIA INFANTIL

Nos comentários ao post anterior houve um comentador que referiu a eutanásia sou um acérrimo defensor da eutanásia como solução para terminar com o sofrimento das pessoas que, no decorrer de uma doença, atingem o estado de completa dependência de máquinas para sobreviver.
O abordar deste assunto recordou-me um “apontamento” que escrevi há quase um ano atrás, foi publicado no Blogue sempre jovens - e que vou partilhar convosco.
Não se trata do mesmo tipo de eutanásia: o comentador refere-se a uma opção a que a própria pessoa deveria ter direito legal; a entrevista, de que transcrevo parte, trata de um assunto muito mais melindroso – a mesma opção a ter que ser tomada pelos pais, e a ser exercida sobre os seus próprios filhos.



EUTANÁSIA INFANTIL


Gosto de coleccionar coisas – bonecas, mochos, miniaturas de perfumes e bebidas, postais ilustrados (tenho uns milhares) – e mais não digo para não me chamarem louca !
Também gosto de coleccionar artigos, crónicas, entrevistas, que de um modo ou outro, chamaram especialmente a minha atenção.
Numa revisão a estes escritos deparei-me com uma entrevista que me tocou particularmente. Foi feita há 2 anos por uma conceituada revista, a um médico italiano a quem apelidaram de Dr. Morte.
Transcrevo aqui uns pequenos excertos.

(…) o Vaticano acusa-o de ser como os nazis. É o médico mais controverso do momento. Nos últimos três anos ajudou quatro bebés a morrer. Para ele, a eutanásia infantil não é um pecado, é um acto de misericórdia

- Seria capaz de terminar com a vida de um dos seus filhos ?
- Nunca o faria pela minha própria mão. Nesse momento seria um pai e não um médico. Acho que no caso de estar perante essa situação tão difícil – quando não há cura possível, nenhuma esperança – iria querer que o meu filho sofresse o menos possível.
- Qual foi a experiência de eutanásia mais forte que teve?
Houve um caso que mudou a minha visão pessoal. Era um recém-nascido com uma doença de pele muito rara. Bastava tocar-lhe para a pele sair. Quando tivemos a certeza absoluta do prognóstico, falamos com os pais. Passado um tempo os pais vieram pedir-nos para acabarmos com a vida do filho.
- O que sentiu nessa altura ?
- Foi chocante. Quem quer acabar com a vida de uma criança ? Por outro lado, conhecendo tão bem aquele recém-nascido e sabendo como não conseguiríamos reduzir-lhe o sofrimento, entendemos o problema dos pais. (…)

É um tema assustador. Adoro crianças. Por bebés tenho verdadeira paixão. Não consigo imaginar-me a ter que tomar uma tal decisão.
Já me vi na situação de pedir a Deus que terminasse com o sofrimento de um ente muito querido – o meu Pai.
Em fase terminal de um cancro, mantive-o em minha casa até ao final. Acompanhei-o dia e noite. O sofrimento era, por vezes, insuportável. Como não desejar que tal martírio terminasse ?

Senti, na carne, o que é pensar – antes a morte ! Mas…eutanásia infantil…é um problema muito sério.

Como classificar um médico que tem a coragem (porque é preciso muita coragem) de a praticar ?

Vamos todos pensar nisso ?

Mariazita Outubro 2007


Este tema não é nada agradável, eu sei. Mas a vida não é feita só de rosas.
“Nem sempre o sol brilha, também há dias em que a chuva cai”.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

OS PAIS ENVELHECEM

No post de Abertura deste blog, em 14 de Fevereiro deste ano, inseri uma pequena parte do texto “Os Pais envelhecem”, com a promessa de que, “brevemente” o publicaria na íntegra.
Como todos sabem, o envelhecimento provoca certas alterações no organismo, as quais podem ser minimizadas, retardadas, mas acabam por acontecer, inevitavelmente.
Uma das capacidades mais afectadas é a memória. Com o passar do tempo verificamos que nos lembramos menos das coisas, esquecendo até, às vezes, compromissos assumidos.
Passaram-se quatro meses, apenas. Acho que envelheci muito neste curto espaço de tempo! Ou terei ficado apenas “menos jovem”???
Seja o que for que aconteceu, a minha memória começa a atraiçoar-me…O prometido texto, na íntegra, ficou no rol do esquecimento.
Penitencio-me, publicando-o hoje, esperando que não seja uma “penitência” para quem o lê!

OS PAIS ENVELHECEM
Talvez a mais rica, forte e profunda experiência da caminhada humana seja a de ter um filho.
Plena de emoções, por vezes angustiante, ser pai ou mãe é provar os limites que constituem o sal e o mel do ato de amar alguém.
Quando nascem, os filhos comovem por sua fragilidade, seus imensos olhos, sua inocência e graça.
Basta vê-los para que o coração se alargue em riso e cor. Um sorriso é capaz de abrir as portas de um paraíso.
Eles chegam à nossa vida com promessas de amor incondicional. Dependem de nosso amor, dos cuidados que temos. E retribuem com gestos que enternecem.



Mas os anos passam e os filhos crescem. Escolhem seus próprios caminhos, parceiros e profissões. Trilham novos rumos, afastam-se da matriz.
O tempo se encarrega da formação de novas famílias. Os netos nascem. Envelhecemos. E então algo começa a mudar.
Os filhos já não têm pelos pais aquela atitude de antes. Parece que agora só os ouvem para fazer críticas, reclamar, apontar falhas.
Já não brilha mais nos olhos deles aquela admiração da infância, e isso é uma dor imensa para os pais.
Por mais que disfarcem, todo pai e mãe percebem as mínimas faíscas no olho de um filho.
É quando pais, idosos, dizem para si mesmos: Que fiz eu? Por que o encanto acabou? Por que meu filho já não me tem como seu herói particular?
Apenas se passaram alguns anos e parece que foram esquecidos os cuidados e a sabedoria que antes era referência para tudo na vida.
Aos poucos, a atitude dos filhos se torna cada vez mas impertinente. Praticamente não ouvem mais os conselhos.
A cada dia demonstram mais impaciência. Acham que os pais têm opiniões superadas, antigas.
Pior é quando implicam com as manias, os hábitos antigos, as velhas músicas. E tentam fazer os velhos pais se adaptarem aos novos tempos, aos novos costumes.
Quanto mais envelhecem os pais, mais os filhos assumem o controle. Quando eles estão bem idosos, já não decidem o que querem fazer ou o que desejam comer e beber. Raramente são ouvidos quando tentam fazer algo diferente.
Passeios, comida, roupas, médicos – tudo passa a ser decidido pelos filhos.
E, no entanto, os pais estão apenas idosos. Mas continuam em plena posse da mente. Porquê então desrespeitá-los?
Porquê tratá-los como se fossem inúteis ou crianças sem discernimento?
Sim, é o que a maioria dos filhos faz. Dá ordens aos pais, trata-os como se não tivessem opinião ou capacidade de decisão.
E, no entanto, no fundo daqueles olhos cercados de rugas, há tanto amor. Naquelas mãos trémulas, há sempre um gesto que abençoa, acaricia.
A cada dia que nasce, lembre-se, está mais perto o dia da separação. Um dia, o velho pai já não estará aqui.
O cheiro familiar da mãe estará ausente. As roupas favoritas para sempre dobradas sobre a cama, os chinelos num canto qualquer da casa.
Então, valorize o tempo de agora com os pais idosos. Paciência com eles quando se recusam a tomar os remédios, quando falam interminavelmente sobre doenças, quando se queixam de tudo.
Abrace-os apenas, enxugue as lágrimas deles, ouça as histórias (mesmo que sejam repetidas) e dê-lhes atenção, afecto...
Acredite: dentro daquele velho coração brotarão todas as flores da esperança e da alegria.




Desconheço a autoria

domingo, 8 de junho de 2008

VAMOS FALAR DE AMOR

Parece que, finalmente, chegou o bom tempo!
A temperatura amena não amolece só a manteiga, mas também os corações.
Talvez por isso, hoje apetece-me falar de amor.
Amor, esse sentimento que muitos apelidam de “o mais nobre sentimento”.
Concordo! Tudo o que o ser humano sente e realiza de bom, tem, por base, o amor.

Analisando esse “sentimento maior” verificamos que muito tem sido dito, falado e escrito, ao longo dos tempos.
De Tristão e Isolda a Romeu e Julieta, de Abelardo e Heloísa a Cleópatra e Marco António, sempre os grandes amores inspiraram escritores, poetas, dramaturgos.

Platão debruçou-se sobre o tema, e das suas conclusões nasceu, supostamente, o “amor platónico”.
Camões classificou-o como «fogo que arde sem se ver».
Camilo Castelo Branco disse, do amor: «é uma luz que não deixa escurecer a vida».

Também as belas vozes se ergueram inúmeras vezes para cantar o amor.
O saudoso e grande tenor português Tomaz Alcaide exaltou-o com a canção «O amor é cego», de que, infelizmente, não há registo disponível.
Mais recentemente, o também saudoso fadista Carlos Ramos, cantava, como só ela sabia «O amor é louco».

Não caberia num “Tratado” tudo o que se pode dizer acerca do Amor; muito menos no post dum blogue.
Qualquer das citações atrás referidas merecia, em meu entender, um maior desenvolvimento.
Hoje, aqui, não é possível fazê-lo. Mas como é um tema que me agrada muito, pensarei em criar um “Ciclo do Amor”.

O amor, apesar de ser um sentimento tão nobre, não está isento de egoísmo, de exigências ao ser amado.
Vejamos o que imaginou Luíz Fernando Veríssimo.


DIÁLOGO DE APAIXONADOS


- Você me ama mais do que tudo?
- Amo.
- Paixão, paixão?
- Paixão, paixão mesmo.
- Mais do que tudo no mundo todo?
- No mundo todo e fora dele.
- Não acredito.
- Faz um teste.
- Eu ou fios de ovos?
- Você, fácil.
- Daqueles com calda grossa, que a gente chupa o fio e a calda escorre
- pelo queixo?
- Prefiro você.
- Futebol?
- Não tem comparação.
- Você está caminhando, vem uma bola quicando, a garotada grita
"Devolve tio!" e você domina, faz dezessete embaixadas e chuta com
perfeição…
- Prefiro você.
- Internacional Milan em Tóquio, pelo campeonato do mundo, passagem e entrada de graça…
- Você vai junto?
- Não.
- Pela televisão se vê melhor.
- Faz muito calor. Aí chove, aí abre o sol, aí vem uma brisa fresca com aquele cheiro de terra molhada, aí toca uma música no rádio e é uma nova do Paulinho. Sexta-feira e a Televisão anunciou um Hitchcock sem dublagem para aquela noite…
- Você.
- Voltar à infância só para poder pisar na lama com o pé descalço e sentir a lama fazer “squish” entre os dedos ?
- Você, lógico.
- A Sharon Stone telefona e diz que é ela ou eu…
- Que dúvida. Você.
- Cheiro de livro novo. Solo de saxofone. Criança distraída. Canetinha japonesa. Bateria de escola de samba. Lençol recém-lavado. Hora no dentista cancelada. Filme com escadaria curva. Letra do Aldir Blanc. Pastel de rodoviária…
- Você, você, você, você, você, você, você, você, você e você,
respectivamente.
- A Sharon Stone telefona novamente e diz que se você se livrar de mim ela já vem sem calcinha…
- Desligo o telefone
-Fama e fortuna. A explicação do universo e do mercado de commodities, com exclusividade. A vida eterna e um cartão de crédito que nunca expira…
- Prefiro você!
- Uma cerveja geladinha. A garrafa chega estalando. No copo, fica com um quarto de espuma firme. O resto é ela, só ela, dizendo: "Vem...me beba...."
- Hummmmmmmm
- Como, hummm? Ela ou eu?...
(Silêncio de 5 segundos...)
- Qual é a marca?
- SEU CRETINO !!!

Obs. Homem assim não existe, é pura ficção.
Mas mulher assim EXISTE !!!

Gostaria de vos presentear com a canção “O amor é cego e vê”…não sei porquê… na voz de Tomaz Alcaide. Foi-me de todo impossível consegui-lo. Em sua substituição, vejam “ Gosto de ti” – também fala de amor.

E não esqueçam: o amor é lindo e eterno…enquanto dura.
Por isso, à noite junte-se a Roberta Flack e Peabo Bryson, e celebre o amor!

TOMAZ ALCAIDE "GOSTO DE TI" 1936




Peabo Bryson & Roberta Flack - Tonight I Celebrate My Love

quinta-feira, 5 de junho de 2008

POETAS AFRICANOS – 3

Com este título – “Poetas Africanos” - apresentei dois poetas moçambicanos, pouco conhecidos do público em geral – Juvenal Bucuane e Francisco Xavier Guita Júnior (Guita Jr).

Hoje cabe a vez a um escritor cuja poesia é também pouco divulgada. Publicou apenas um livro de poemas, em 1983. A sua notoriedade deve –se à sua escrita em prosa, tendo publicado vários livros de contos e romances.

Trata-se de Mia Couto, natural de Moçambique, filho de emigrante português, também ele poeta e jornalista. Cursou medicina, acabando por formar-se em biologia. É como biólogo que, actualmente, exerce a profissão de professor universitário.



Oportunamente publicarei aqui alguns dos seus poemas. Hoje prefiro apresentar um excerto de um conto que faz parte do livro «Cada homem é uma raça».

“Sidney Poitier na barbearia de Firipe Beruberu” - conto

A barbearia do Firipe Beruberu ficava debaixo da grande árvore, no bazar do Maquinino. O tecto era a sombra da maçaniqueira
(árvore da maçanica, conhecida por maçã-da-índia).
Paredes não havia: assim ventava mais fresco na cadeira onde Firipe sentava os clientes Uma tabuleta no tronco mostrava o custo dos serviços. Estava escrito: «cada cabeça 7$50». Com o crescer da vida, Firipe emendou a inscrição: «cada cabeça 20$00».
E para os clientes que adormeciam na cadeira, acrescentou «Cabeçada com dormida – mais 5 escudos»
… O barbeiro distribuía boas disposições, dákámaus( apertos de mão) . Quem passeasse seus ouvidos por ali só ouvia conversa sorridente. Propaganda do serviço. Firipe não demorava:

- Estou-vos a dizer: sou mestre dos barbeiros, eu. Podem andar aí, em toda a volta, procurar nos bairros: todos vão dizer que Firipe Beruberu é o maior.

Alguns clientes toleravam, pacientes. Mas outros lhe provocavam, fingindo contrariar:
- Boa propaganda, mesire(tratamento de respeito) Firipe.
- Chii, propaganda? Realidade! Se até cabelo fino de branco já cortei.
- O quê? Não diga que um branco já chegou nessa barbearia…
- Eu não disse que chegou aqui um branco. Disse que cortei cabelo dele. E cortei, palavra da minha honra.
- Explique lá, ó Firipe, Se o branco não chegou até aqui, como é que lhe cortou?
- É que fui chamado lá na casa dele. Cortei dele, cortei dos filhos também. Razão que eles tinham vergonha de sentar aqui, nessa cadeira. Só mais nada.
- Desculpa, mesire.Mas esse não era branco-mezungo(branco, senhor). Era um xikaka(colono, português de categoria social dita inferior).

Firipe fazia cantar a tesoura enquanto a mão esquerda puxava da carteira
- Uáá! Vocês? Sempre duvidam, desconfiam. Já mostro prova da verdade. Espera aí, onde é que…? Ah!, está aqui.

Com mil cuidados desembrulhava um postal colorido de Sidney Poitier.

- Olhem essa foto. Estão a ver esse gajo? Apreciam o cabelo dele: foi cortado aqui, com essas mãos. Tesourei-lhe sem saber qual era a importância do tipo. Só vi que falava inglês.

Os fregueses faziam crescer as suas dúvidas. Firipe respondia:
- Estou-vos a dizer : esse gajo trouxe a cabeça dele desde lááá, da América até aqui na minha barbearia…

… Mas um homem rico como aquele, estrangeiro ainda mais, havia de ir no salão dos brancos. Não sentava aqui, mesire. Nunca!

O barbeiro fingia-se ofendido. A sua palavra não podia ser posta em dúvida. Ele então usava o seu derradeiro recurso:
- Tem dúvida? Então vou apresentar testemunha. Vocês vão ver, esperem lá.

…O barbeiro não tinha ido longe. Afastara-se apenas uns tantos passos para conferenciar com um velho vendedor de folha de tabaco. Regressavam os dois, o Firipe e o velho.
- Está aqui o velho Jaimão.
E virando-se para o vendedor, Firipe ordenava:
- Fala lá você, ó Jaimão.
O velho tossia toda a rouquidão antes de confirmar.
- Sim. Na realmente, vi o homem da foto. Foi cortado o cabelo dele aqui. Sou custumunha.
E choviam as perguntas dos clientes…

…Uááá, não é mentira. Até me lembro: foi um sábudu.

… Foi num dia. A barbearia continuava seu sonolento serviço, e essa manhã, como todas as outras, se sucediam as doces conversas.
…Foi então que apareceram dois estranhos. Só um entrou na sombra. Era um mulato, quase branco. As conversas desmaiaram ao peso do medo. O mulato se dirigiu ao barbeiro e ordenou que mostrasse os documentos:
- Porquê, os documentos? Eu, Firipe Beruberu, sou duvidado?
Um dos clientes aproximou-se de Firipe e segredou-lhe:
- Firipe, é melhor você obedecer. Esse homem é o Pide.
O barbeiro baixou-se sobre o caixote e retirou os documentos:
- Estão aqui os meus plásticos.
O homem passou em revista a carteira. Depois amarrotou-a e atirou-a para o chão.
- falta uma coisa nesta carteira, ó barbeiro.
- Falta alguma coisa, como? Se todos os documentos já entreguei.
- Onde está a fotografia do estrangeiro?
- Estrangeiro?
- Sim, desse estrangeiro que você recebeu aqui na barbearia.

O Firipe duvida primeiro, depois sorri. Entendera a confusão e prontificava-se a explicar:
- Mas senhor agente, isso do estrangeiro é história que inventei, brincadeira…

O mulato empurra-o, fazendo-lhe calar.
- Brincadeira, vamos ver. Nós sabemos muito bem que vêm subversivos da Tanzânia, da Zâmbia, de onde. Turras! Deve ser um desses que recebeste aqui.
- Mas receber, como? Eu não recebo ninguém, não mexo com política.
O agente vai inspeccionando o lugar, desouvindo. Pára em frente da tabuleta e soletra em surdina:
- Não recebes? Então explica lá o que é isto aqui: «Cabeçada com dormida: mais 5 escudos». Explica lá o que é essa dormida.
- Isso é por causa de alguns clientes que dormecem na cadeira.

O polícia já cresce na sua fúria.
- Dá-me a foto.
O barbeiro retira o postal do bolso. O polícia interrompe o gesto, arrancando-lhe a fotografia com tal força que a rasga.
- Este aqui também adormeceu na cadeira, hein?
- Mas esse nunca esteve aqui, juro. Fé – de - Cristo, senhor agente. Essa foto é do artista do cinema. Nunca viu nos filmes, desses dos americanos?
- Americanos, então? Está visto. Deve ser companheiro do outro, o tal Mondlane que veio da América. Então este também veio de lá?
- Mas esse não veio de nenhuma parte. Isso tudo é mentira, propaganda.
- Propaganda? Então deves ser tu o responsável da propaganda da organização…

O agente sacode o barbeiro pela bata, os botões caem. Vivito (1) tenta apanhá-los, mas o mulato dá-lhe um pontapé.
- Para trás, sacana. Ainda vai é tudo preso.

O mulato chama o outro agente e fala-lhe ao ouvido. O outro parte pelo atalho e regressa, minutos depois, trazendo o velho Jaimão.
- Já interrogámos este velho. Ele confirma que recebeste aqui o tal americano da fotografia.
Firipe, de sorriso frouxo, quase nem tem força para se explicar.
- Vê, senhor agente, outra confusão. Eu que paguei ao Jaimão para ele servir de testemunha da minha mentira. Jaimão está combinado comigo.
- Está combinado, está.
- Ó jaimão diz lá: não foi uma maneira que combinámos?

O pobre velho, desentendido, rodava dentro do seu casaco esfarrapado.
- Sim. Na realmente eu vi o cujo homem. Estava aqui, nessa cadeira.

O agente empurrou o velho, amarrando os seus braços aos do barbeiro, Olhou em volta, com vistas de abutre magro. Enfrentava a pequena multidão que assistia a tudo silenciosamente. Deu um pontapé na cadeira, partiu o espelho, rasgou o cartaz. Foi então que Vivito se meteu, gritando. O aleijado segurou o braço do mulato mas cedo se desequilibrou, caindo de joelhos.
- E este quem é? Que língua é que ele fala? Também é estrangeiro?
- Esse rapaz é meu ajudante.
- Ajudante? Então também vai dentro. Pronto, vamos embora! Tu, o velho e este macaco dançarino, tudo a andar à minha frente.
- Mas o Vivito…
- Cala-te barbeiro, já acabou o tempo das conversas. Vais ver que, lá na prisão, há um barbeiro especial para te cortar o cabelo a ti e aos teus amiguinhos.

E, perante o espanto do bazar inteiro, Firipe Beruberu, vestido de sua imaculada bata, tesoura e pente no bolso esquerdo, seguiu o último caminho na areia do Maquinino. Atrás, com sua antiga dignidade, o velho Jaimão. Seguia-se-lhe o Vivito de passo bêbado. Fechando o cortejo, vinham os dois agentes, vaidosos da sua caçada. Calaram-se então os pequenos milandos (brigas, discussões) do quanto custa, o mercado rendeu-se à mais funda melancolia.
Na semana seguinte vieram dois cipaios. Arrancaram a tabuleta da barbearia. Mas, olhando o lugar, eles muito se admiraram: ninguém tinha tocado em nenhuma coisa. Ferramentas, toalhas, o rádio e até a caixa de trocos continuavam como foram deixados, à espera do regresso do Firipe Beruberu, mestre dos barbeiros de Maquinino.

(1) – Vivito , o ajudante do barbeiro era aleijado, as pernas bambas, a cabeça pequenita coxeava sobre os ombros. Babava-se nas palavras, salivando nas vogais, cuspindo nas consoantes…

Mia Couto in «Cada homem é uma Raça»

terça-feira, 3 de junho de 2008

OS DIREITOS DA CRIANÇA

No último post publicado, com o título “Dia Mundial da Criança” prometi voltar a este tema.
Por motivos que me ultrapassam (uma ligeira indisposição de saúde) não foi possível “trabalhar” o assunto como desejaria e planeara.
Assim sendo, vou apenas transcrever os “Direitos da Criança” – que todos conhecem mas continuam a ser ignorados pelos grandes responsáveis pelo seu cumprimento.
(Re)lembre-os, e de seguida veja o vídeo.

Artigo 1º

Toda criança será beneficiada por estes direitos, sem nenhuma discriminação de raça, cor, sexo, língua, religião, país de origem, classe social ou situação económica. Toda e qualquer criança do mundo deve ter seus direitos respeitados!

Artigo 2º

Todas as crianças têm direito a protecção especial e a todas as facilidades e oportunidades para se desenvolver plenamente, com liberdade e dignidade. As leis deverão ter em conta os melhores interesses da criança.

Artigo 3º

Desde o dia em que nasce, toda a criança tem direito a um nome e uma nacionalidade, ou seja, ser cidadão de um país.

Artigo 4º

As crianças têm direito a crescer e criar-se com saúde. Para isso, as futuras mães também têm direito a cuidados especiais, para que seus filhos possam nascer saudáveis. Todas as crianças têm também direito a alimentação, habitação, recreação e assistência médica.

Artigo 5º

Crianças com deficiência física ou mental devem receber educação e cuidados especiais exigidos pela sua condição particular. Porque elas merecem respeito como qualquer criança.

Artigo 6º

Toda a criança deve crescer num ambiente de amor, segurança e compreensão. As crianças devem ser criadas sob o cuidado dos pais, e as mais pequenas jamais deverão separar-se da mãe, a menos que seja necessário (para bem da criança). O governo e a sociedade têm a obrigação de fornecer cuidados especiais para as crianças que não têm família nem dinheiro para viver decentemente.

Artigo 7º

Toda a criança tem direito a receber educação primária gratuita, e também de qualidade, para que possa ter oportunidades iguais para desenvolver as suas habilidades.
E como brincar também é uma boa maneira de aprender, as crianças também têm todo o direito de brincar e de se divertir!

Artigo 8º

Seja numa emergência ou acidente, ou em qualquer outro caso, a criança deverá ser a primeira a receber protecção e socorro dos adultos.

Artigo 9º

Nenhuma criança deverá sofrer por negligência (maus cuidados ou falta deles) dos responsáveis ou do governo, nem por crueldade e exploração. Não será nunca objecto de tráfico (tirada dos pais e vendida e comprada por outras pessoas).
Nenhuma criança deverá trabalhar antes da idade mínima, nem deverá ser obrigada a fazer actividades que prejudiquem sua saúde, educação e desenvolvimento.

Artigo 10º

A criança deverá ser protegida contra qualquer tipo de preconceito, seja de raça, religião ou posição social. Toda criança deverá crescer num ambiente de compreensão, tolerância e amizade, de paz e de fraternidade universal.

Se tudo isto for cumprido, no futuro as crianças poderão viver em sociedade como bons adultos e contribuir para que outras crianças também vivam felizes!


Acerca do vídeo permito-me prestar alguns esclarecimentos:

Declan John Galbraith, jovem cantor britânico, nasceu Kent, em Dezembro de 1991.



“Following the tsunami disaster and the earthquakes and floods which have devastated many parts of the world, I have dedicated my songs that where specially written for me, not only to all those who died or are still suffering from those unavoidable disasters, but also to all those, suffering because of other peoples greed, cruelty, hatred or intolerance.
Declan’s Dedication “

“For who I’ve weeping everyday and night, who may sick and hunger, who may fear and feeling scare, and one, who still living or in ways to heaven
Lord, I couldn’t help my self begging to you, in the name of love, and peace, with gracious bless and pray from all of my heart in weakness I plead you to save our children I’ll not stop loving you, dear lord and my children”

E, finalmente, o vídeo

This version contains ADDITIONAL images children at war where the original edit has too much blank-black spaces. This images are real and happen across the world.

Declan - Tell Me Why - a children's tribute


domingo, 1 de junho de 2008

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

Ao contrário da maioria dos “Dias Mundiais”, que têm raízes muito antigas, alguns baseando-se em costume da antiga Roma ou até anteriores, o Dia Mundial da Criança só começou a comemorar-se em 1950.




Depois da 2ª.Guerra Mundial, em 1945, muitos países entraram em crise, debatendo-se com grandes dificuldades de sobrevivência.
Com a escassez de alimentos existente os adultos preocupavam-se, naturalmente, em suprir essa falta, em detrimento da educação e outros cuidados com as crianças, muitas delas sem pais, vitimados pela guerra.

Com os recursos reduzidos ao mínimo, muitos pais retiravam os filhos das escolas, pondo-os, desde muito cedo, a trabalhar, como forma de ajuda ao sustento da família. Por vezes esses trabalhos prolongavam-se por várias horas, e em condições bastante duras.

Chegou-se, assim, a uma situação em que cerca de metade das crianças era analfabeta, e vivia em péssimas condições físicas, pondo em sério risco a sua saúde.

Cerca de um ano mais tarde, em 1946, um grupo de países da ONU (Organização das Nações Unidas) começou a tentar resolver o problema. E assim nasceu a UNICEF.

Não foi um processo fácil, na medida em que nem todos os países do mundo se interessavam pelo assunto. Só em 1950 a Federação Internacional das Mulheres apresentou às Nações Unidas uma proposta para que fosse criado um dia dedicado às crianças de todo o mundo.

E assim nasceu o Dia Mundial da Criança, que se comemorou a primeira vez nesse mesmo ano, no dia 1 de Junho.
No seguimento da criação deste dia, as Nações Unidas reconheceram às crianças, independentemente da sua raça, cor, sexo, religião, origem nacional ou social, o direito a:
- Afecto, amor e compreensão;
- Alimentação adequada;
- Cuidados médicos;
- Educação gratuita;
- Protecção contra todas as formas de exploração;
- Crescer num clima de Paz e Fraternidade universais.

Mas só nove anos mais tarde, a 20 de Novembro de 1959, é que vários países da ONU aprovaram a “Declaração dos Direitos da Criança”, que consta de 10 princípios fundamentais.
Se estes princípios fossem cumpridos em todo o mundo, as crianças teriam uma vida feliz e digna.
Nem todos os países comemoram o “Dia da Criança” no mesmo dia do ano. Na Índia é a 15 de Novembro; na China e Japão, a 5 de Maio.
No Brasil festeja-se no dia 12 de Outubro.
Tal como em Portugal também em Moçambique se comemora a 1 de Junho.


Em Portugal, embora desde sempre se apoiasse a “Declaração”, nada se fez para que fossem cumpridos os seus princípios. Só depois do 25 de Abril de 1974 as crianças mereceram alguma atenção por parte dos governantes, que criaram algumas leis para a sua protecção.
Consignadas na Constituição da República, visam, essencialmente, educação, saúde e família.

A 21 de Setembro de 1990, após a “Convenção dos Direitos da Criança” que internacionalizou esses mesmos direitos, Portugal ratificou o documento, comprometendo-se, assim, a cumprir as leis (universais) ali discriminadas.

Apesar de todos as leis criadas, de todos os apelos frequentemente feitos a todos os níveis, muitas crianças, em todo o mundo, continuam a ser vítimas de maus tratos, trabalho escravo e má alimentação, e a não ter acesso à educação.


O Dia Mundial da Criança é, sem dúvida, um dia muito importante.
Na sociedade evoluída em que vivemos, as nossas crianças habituaram-se a ser particularmente acarinhadas e presenteadas neste dia.

Mimemos as crianças, sim!
Mas não esqueçamos os milhares de crianças que vivem num mundo injusto e hostil, que não têm “um dia” seu ao longo de todo o ano, de todos os anos.
E, sobretudo, lembremos às nossas crianças que “essas outras crianças “existem, que continuam a sofrer maus tratos, doenças, fome e discriminações.

É urgente criar uma corrente de força à volta do mundo para que, pelo menos, sejam amenizadas as injustiças de que são vítimas tantas e tantas crianças.

Durante a próxima semana tentaremos voltar a este apaixonante tema.

Entretanto, e porque o dia de hoje é de festa, veja o vídeo que se segue.

raices elenco infantil
(acá están los niños haciendo de las suyas pronto un video de las niñas grandes)



quinta-feira, 29 de maio de 2008

OLHA O OLHO DA MENINA

Com o aproximar do Dia Mundial da Criança, a 01 de Junho, proponho um aperitivo.
Com um texto leve, até jovial, mas de grande profundidade, Marisa Prado aponta-nos algumas dificuldades, não só do cescimento, mas também do “ser adulto”.

OLHA O OLHO DA MENINA
Menina crescia escutando que não adiantava mentir porque mãe sempre sabia



Mãe dizia que lia na testa da Menina, e que só Mãe sabia ler testa.




Menina tentava tapar a testa com a mão na hora de mentir.

Mãe achava graça. Muita graça. E continuava lendo assim mesmo.

Menina precisava entender como essa coisa misteriosa acontecia.
No espelho do banheiro, mentia muito, em silêncio.
E na testa, nada escrito!





Aí, Menina descobriu que Mãe também mentia.
E que então não era testa - era o olho, com um brilho diferente - que entregava a mentira.

Menina então tentava fechar o olho com força, para esconder a Mentira.



Mas nem isso resolvia, pois Mãe sempre adivinhava.

Menina tinha era que aprender a fingir, de olho aberto, que mentira era verdade.
Menina tentou, tentou... e aprendeu.
Era essa a solução.

Mas de noite Menina ficava apertada por dentro.
Assim meio sufocada, não podia nem piscar.
Com o olho muito aberto, não conseguia dormir.



Faltava ar pra Menina.
Igual quando a gente fica quase sem respirar, rindo de uma cosquinha.
Só que não tinha graça.

Menina - sem querer - tinha descoberto a Consciência, uma coisa que toma conta da gente mesmo quando Mãe não está lendo testa,
nem adivinhando olho.



Menina tinha aprendido que ter que fingir doía.
E que, desse jeito, ia ficar muito sem graça ser gente grande.
Menina desistiu de crescer.

Mas não adiantava.
Menina via que agora já estava quase da altura do móvel da sala da vovó.



E ficava muito triste, o aperto apertando mais.

E de tanto que o aperto apertava, Menina achou que fingir só podia doer tanto porque era dor sozinha.

Menina teve uma idéia, e ainda não sabia se era idéia brilhante.
Mas sabia - isso sim - que precisava testar, pra conseguir descobrir.



A idéia da Menina foi dizer para Mãe que era difícil fingir.
Menina achava ruim aprender montes de coisas sem dividir com ninguém.

Menina falou pra Mãe que era muito complicado, e que não era nada bom, ter que crescer sozinha.

Mãe abraçou muito apertado a Menina.
E no colo tão esperado Menina estava sendo mãe da Mãe.




Menina sentiu que Mãe estava chorando.
E que Mãe ainda não tinha aprendido tudo.

Mãe não falava nada
Mas uma e outra sabiam naquele abraço apertado que em Mãe também doía ser gente grande sozinha.



Nessa hora Menina entendeu tudinho.
Descobriu que só carinho é que espanta a solidão.
E que dor, se dividida, fica dor menos doída.

E que aí, dá até vontade de continuar a crescer pra descobrir
o resto das coisas.




Autores:
Texto – Marisa Prado
Imagens - Ziraldo

domingo, 25 de maio de 2008

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE – FALAR PORTUGUÊS


(No meu jardim)


FALAR PORTUGUÊS - Nós é que os ensinámos

Uns dias melhor, outros pior, o tempo vai-se passando, nesta cidade que poderia ser o paraíso.
Há até um simpático impala que diversas vezes vem visitar o meu jardim. Caminha calmamente. Através da janela aberta olha para dentro da sala. Em seguida examina o jardim. Terminada a inspecção retira-se tão tranquilamente como chegou.
Contudo, temos sempre presente o que se passa lá para o norte, na chamada «zona de intervenção».
Mas, entre um e outro sobressalto, a vida continua, e todos temos deveres a cumprir.
Lá mais para o sul há empregadas domésticas, mulheres que vão trabalhar às casas dos “brancos”
Aqui, não. São homens que fazem esses serviços. A troco de um salário estabelecido e comida, às vezes também dormida, executam as tarefas domésticas que normalmente são atribuídas às mulheres: cozinham, lavam e engomam a roupa, limpam a casa.
São homens adultos, muitas vezes casados, ou jovens que rondam os vinte anos.
Há casos em que se tem um adulto para cozinhar e tratar das roupas, e um mais jovem para limpar a casa.
Há ainda uns garotos, (normalmente rapazes, embora por vezes apareçam meninas), que muitas vezes nos batem à porta perguntando:
Senhora precisa miúdo?
São meninos pobres que não têm o que comer em suas casas, e bem cedo começam a lutar pela subsistência.
Dá-se-lhes comida, dormida e roupas (geralmente só têm a que trazem no corpo, e em muito mau estado), e, em troca, eles brincam com as nossas crianças, vigiando para que nada de mal lhes aconteça. São crianças sombras de crianças. Só se vão deitar depois que os meninos vão para a cama, o que, aqui, acontece bastante cedo.
Todos falam português. Os “miúdos”, por vezes não sabem muito, mas é o bastante para se fazerem entender. E como a linguagem das crianças é universal, conseguem estabelecer longas conversas com as nossas crianças, nas suas brincadeiras.
Na minha casa, para além do miúdo, há um cozinheiro e um rapaz, o Albino, que trata da limpeza da casa.
Não sei bem a idade de um e de outro. Não é nada fácil calcular. (Tratando-se de pessoas bem avançadas na idade, já de carapinha branca, torna-se ainda mais difícil. E se perguntamos a uma dessas pessoas quantos anos tem, a resposta é sempre:
Não sei, senhora. Tenho muitos!)
O Albino aparenta dezoito a vinte anos. É um rapaz já com prática de trabalho, que me foi recomendado por uma amiga.
Cumpridor dos seus deveres, pouco falador, vai desempenhando bem as suas funções.
Embora fale o indispensável de português para se fazer entender, por vezes não compreende muito bem o que se lhe diz.
Há dias estávamos a almoçar e eu pedi-lhe que fosse buscar água ao frigorífico, pois tinha-se esquecido de a pôr mesa. Dirigiu-se à cozinha, ouvi-o abrir a porta do frigorífico, mas não aparecia com a água. Depois de esperar uns minutos, chamei-o. Apresentou-se sem nada nas mãos. Perguntei-lhe:
Então???
Respondeu-me: não encontro, senhora.
Não encontras o quê???
Não sabe, senhora…
Calculo que fosse bastante difícil encontrar uma coisa que ele próprio não sabia o que era !...

Cenas como esta acontecem de vez em quando. Nós ensinámos-lhes a nossa língua, mas não todas as palavras, com certeza. No entanto há certos vocábulos que toda a gente aprende muito facilmente.
Todos os dias, a meio da manhã, o Albino me pede para ir tratar das suas necessidades fisiológicas.
Senhora, pode ir no mato?
Podes sim, vai lá no mato.
E ele vai. E volta.
Um dia o Albino “foi no mato” mas, contra o costume, demorou-se muito tempo. Eu já pensava: encontrou algum conhecido e ficou à conversa. Quando finalmente apareceu, achei que deveria fazer-lhe um reparo:
Meu Deus, Albino, demoraste tanto tempo para ir no mato!
Resposta pronta:
Senhora, não pode ir ca**r aqui no pé de casa !
Engoli em seco, e dei a conversa por terminada.

Quando o Albino veio para minha casa eu não sabia praticamente nada a seu respeito, a não ser que era de confiança. E tanto me bastava. Cerca de um mês depois de estar ao meu serviço, um dia resolvi meter conversa com ele, e perguntei-lhe:
Albino, tu és casado?
Não, senhora, ainda sou menino.
E porque não te casas?
Porque as mulheres da cidade são todas p****.

Também desta vez engoli em seco, e encerrei o assunto.
E jurei a mim mesma não voltar a fazer perguntas indiscretas!

Eles apenas repetem as palavras que lhes ensinámos.

Este é mais um dos apontamentos que temos vindo e continuaremos a apresentar, subordinados ao mesmo tema – África
Não seguem qualquer ordem cronológica. Não estarão situados no tempo nem no espaço.
O tempo é relativo. E as memórias afluem sem hora marcada.

POETAS AFRICANOS – 2

No post com este mesmo título, em 24 de Fevereiro, apresentei o poeta Juvenal Bucuane, natural de Moçambique.

Para assinalar o “Dia de África”, que hoje se comemora, dou-vos a conhecer Francisco Xavier Guita Júnior (Guita Jr)


Nascido em Inhambane, Moçambique, a 14 de Março de 1964, publicou os seus primeiros poemas em 1987, na sua terra natal, onde exerce a profissão de professor de português.

De sua autoria, estes dois poemas:



NO JARDIM DA NOITE COM ESTRELAS DE VERÃO

(página 26)

Agora órfão ou castrado
perdoadas estão as naus de da Gama
e contemplo só estrelas e flores onde tragava
a humilhação e o chicote do patrão.

Vasculho as ruas da cidade
na procura do subterfúgio a nu.
É inevitável o retorno,
haverá fantasmas em meu redor.
Há micaias em meu corpo
que deflagram como minas
cansadas dos silêncios

Quando sonho alegrias
acendo uma vela no peito
sobre o castiçal do coração
e volto a desaguar na escuridão
e apalpo e amarfanho a agonia
no dorso da noite.
Porém não tenho armas
para falar de amor.

É esta a loucura da minha intenção




POR UMA SEREIA DE TREVA

(página 16)

Sem segredos, melhor que nós
ninguém sabe a morte a dois.
E como heróis subterrâneos que somos
procuramos a vida por entre as trevas
navegamos algas ao amanhecer
para encontrar um irmão pelas mãos

Empresta-me a tua máscara, quero saborear
esta melodia, ter nos olhos a cor.
E antes que o dilúvio se propague
nademos nas profundezas do asco;
talvez surja uma sereia de treva
onde possamos pousar o coração
que em fragmentos se dissolve no iodo
da atmosfera que transportamos às costas

Sem segredos, melhor que nós
ninguém por entre a fresta da porta
da noite apalpa este enigma:
prestar contas ao silêncio dos olhos
e conter a náusea por um instante
ultrapassando o passado hóspede da masmorra
da presente folia ardente transeunte.


Do livro “O agora e o depois das coisas” (1990-1992), publicado em 1997 – edição da AEMO

quinta-feira, 22 de maio de 2008

DIA DA ASCENSÃO

Dia da Ascensão, do Corpo de Deus ou Quinta feira da Espiga, três nomes diferentes para o mesmo dia, que se celebra na quinta feira a seguir ao Domingo de Pentecostes.
Segundo a religião católica o Dia da Ascensão comemora a ascensão de Jesus ao céu, depois de ter sido crucificado e ter ressuscitado, o que se celebra na Páscoa. Encerra-se assim um ciclo de quarenta dias.
Também para os católicos, a festa mundial do Corpo de Deus, para celebrar a Ressurreição, foi decretada em 1264, pelo papa Urbano IV.
A procissão do Corpo de Deus teve início em Colónia, Alemanha, em 1270, e mantém-se até aos dias de hoje.



(Procissão do Corpo de Deus, Alemanha, 2005)

Sendo Portugal um país tradicionalmente católico, nos dias de hoje não é dado grande relevo a esta procissão, excepção feita a uma freguesia de Póvoa de Varzim, Rates, em que assumem particular importância os tapetes de flores que ornamentam as ruas e atraiem a curiosidade de turistas.



(Tapete de flores em Rates, Póvoa de Varzim)

Neste dia celebra-se igualmente o Dia da Espiga ou Quinta feira da Espiga.
Acredita-se que esta celebração terá tido origem num antigo ritual cristão, que consistia na bênção dos primeiros frutos. Há, porém, quem defenda que remonta a tempos ainda mais antigos, em que se realizavam festas pagãs em honra da deusa Flora, os quais ocorriam no início da Primavera.
Em Portugal cada dia se torna mais raro o bonito ritual em que os rapazes e as raparigas iam para o campo apanhar a espiga e flores campestres, com as quais formavam ramos que depois eram oferecidos e conservados em casa até ao ano seguinte.
Esses ramos, obrigatoriamente, deveriam conter:
- A espiga – para que haja pão, o que significa comida em abundância
- Oliveira – símbolo de paz
- Flores – pelas suas cores simbolizando alegria e também:
Malmequer, que traz ouro e prata,
Papoila, amor e vida,
Alecrim, saúde e força.

Hoje em dia, principalmente nas grandes cidades, as pessoas já não vão colher o Ramo da Espiga, optando por comprá-lo.
Deste modo o negócio vai ajudando a manter e preservar a tradição.




Na Ilha Terceira, Açores, decorrem, durante o mês de Maio, as festas do Senhor Santo Cristo, nas quais está também incluída a celebração do Corpo de Deus.
Uma nota marcante destes festejos são as célebres «largadas de toiros à corda», um dos maiores atractivos para a população local e turistas, que a elas acorrem em grande número.
O ambiente é festivo, e as cenas que frequentemente se verificam , bastante cómicas, não se revestem de grande perigo, dada a mansidão dos toiros.
Não há notícia de que alguma vez tenha ocorrido algum acidente grave; apenas uma ou outra cornada.
Divirta-se com estas pequenas amostras.







domingo, 18 de maio de 2008

GENERALIZAR A AVALIAÇÃO

Ontem os professores foram de novo para a rua. O número de pessoas a manifestar-se não foi significativo, se comparado com a última manifestação, que envolveu cerca de 100 mil.
Serviu, no entanto, para chamar a atenção do público em geral para o facto de os seus problemas continuarem sem solução.
Os próprios sindicatos reconhecem que o Acordo assinada entre eles e o ministério foi apenas uma pequenina gota de água no oceano.
Os menos atentos ou “menos bem” informados poderão pensar que o que está em causa é apenas a questão da Avaliação.
Após a “grande manifestação” ouvi várias opiniões de que a mesma se deveria ter realizado quando saiu o novo Estatuto da Carreira Docente.
E aí é que está, de facto, a razão das verdadeiras reivindicações.
Mas por agora vamos deixar de parte estes considerandos, e limitar-nos a apreciar o que, a respeito da Avaliação, pensa alguém que quis manter o anonimato.
Recebi por email, com pedido de publicação.

GENERALIZAR A AVALIAÇÃO

Segundo notícias que ontem mesmo ouvi na TV, esperam-se novas acções dos profissionais da Educação. Convém analisar o assunto sob todas as vertentes.

Já que muitos jornalistas e comentadores defendem e compreendem o modelo proposto para a avaliação dos docentes, estranho que, por analogia, não tenham pensado aplicá-lo também a outras profissões (médicos, enfermeiros, juízes, etc.).
Se é suposto compreenderem o que está em causa e as outras virtualidades deste modelo, vamos imaginar a sua aplicação a uma outra profissão: os médicos.
A carreira seria dividida em duas: médico titular (a que apenas um terço dos profissionais poderia aspirar) e médico.
A avaliação seria feita pelos pares e pelo director de serviços. Assim, o médico titular teria de assistir a três sessões de consultas, por ano, dos seus subordinados, verificar o diagnóstico, tratamento e prescrição de todos os pacientes observados. Avaliaria também um portefólio com o registo de todos os doentes a cargo do médico a avaliar, com todos os planos de acção, tratamentos e respectiva análise relativa aos pacientes.
O médico teria de estabelecer, anualmente, os seus objectivos: doentes a tratar, a curar, etc. A morte de qualquer paciente, ainda que por razões alheias à acção médica, seria penalizadora para o clínico, bem como todos os casos de insucesso na cura, ainda que grande parte dos doentes sofresse de doença incurável ou terminal. Seriam avaliados da mesma forma todos os clínicos, quer a sua especialidade fosse oncologia, nefrologia ou cirurgia estética.
Poder-se-ia estabelecer a analogia completa, mas penso que os nossos “especialistas” na área da educação não terão dificuldade em levar o exercício até ao fim.
A questão é saber se consideram aceitável o modelo.
Caso a resposta seja afirmativa, então porque não aplicar o mesmo, tão virtuoso, a todas as profissões?

Sem autoria atribuída

Veja, a seguir, a opinião de Fernanda Velez


E porque é Domingo, terminemos com uma bela canção




quinta-feira, 15 de maio de 2008

A NUDEZ

Num dia chuvoso como o de hoje, que não favorece a imaginação de quem, como eu, ama o sol e dias luminosos, resolvi provocar a musa inspiradora, remexendo em velhos arquivos.
Foi assim que me deparei com um apontamento sobre o fotógrafo Spencer Tunic, americano, natural de Nova Iorque.
Depois de se formar em Belas Artes especializou-se em fotografar grandes grupos de pessoas nuas, a que dá o nome de «paisagens de corpos».
Realizou trabalhos em várias partes do mundo; mas foi em Barcelona que reuniu o maior número de pessoas que se despiram para o artista – 7.000 pessoas.
Em 18 de Agosto de 2007, no seu último trabalho, fotografou 600 pessoas nos Alpes suíços, a pedido do grupo ambientalista internacional Greenpeace, para uma campanha de consciencialização sobre o aquecimento global



Achei extraordinária esta ideia do Greenpeace de associar um grupo de pessoas nuas ao grave problema do aquecimento global, que exige tomada de medidas urgentes.

A utilização da nudez como forma de atingir um determinado objectivo não é inédita.
Já no século XI uma mulher usou a sua nudez com um intuito altruísta - ajudar o seu povo a livrar-se de insuportáveis impostos.
É o caso de Lady Godiva.

Mas…será verdade que existiu uma Lady Godiva?
E será verdade que cavalgou nua pelas ruas de Coventry?


Lady Godiva de John Collier, ca 1897

Existiu, sem margem para dúvidas, uma Lady Godiva, casada com Leofric, um barão que viveu durante os reinados de Canuto e Eduardo, o Confessor, no século XI.
Os corpos de Lady Godiva e de Leofric encontram-se sepultados na Igreja da Abadia de Coventry, na Grã-Bretanha.

Segundo dados históricos, Leofric lançou um pesado imposto à cidade, que até a própria esposa considerou elevado.
Resolvendo interceder pelo povo, ela pediu-lhe para o retirar.
Considerando a ideia absurda, Leofric gracejou, respondendo que o faria quando ela cavalgasse nua pelas ruas da cidade.
Lady Godiva aceitou o desafio.
Tendo tomado disto conhecimento, todos os habitantes da cidade se recolheram a suas casas, em sinal de respeito. Desse modo ninguém viu Lady Godiva no seu passeio.
Houve, contudo, uma excepção: um homem chamado Peeping Tom aguardou a p assagem de Lady Godiva.
Como consequência desse acto irreflectido, por intervenção celestial, ficou cego para o resto da vida.

Embora não existam fundamentos sólidos que confirmem esta história, também não h á bases que permitam negá-la.
A lenda foi contada, pela primeira vez, pelo Prior de Wendover, célebre cronista inglês, falecido em 1236.
Alguns historiadores defendem que o prior interpretou mal a história, e que a alusão à nudez de Lady Godiva se referia a ela ter-se despojado dos seus bens.
Outros, interpretam essa nudez como a falta de adereços e jóias preciosas, marca d a nobreza à qual pertencia.
Outros ainda pensam que quem estava nu era o cavalo que ela montava, que se teria apresentado desprovido de todos os panejamentos, atributos da classe a que ela pertencia, que assim se humilhava, levando-a a ganhar a aposta que Leofric lhe lançara.

Na história inicial não existe qualquer referência ao personagem Peeping Tom. Este só foi introduzido vários séculos mais tarde .

O certo é que ainda hoje há uma celebração em honra de Lady Godiva, que foi instituída no dia 31 de Maio de 1678.
De 1980 em diante, Pru Poretta, uma habitante de Coventry City, figura como Lady Godiva, para atrair turistas às festas do Município.
Desde 2005 Poretta mantém o status de “embaixadora não oficial” de Coventry, liderando uma marcha a favor da paz mundial e da união dos povos.




Estátua de Lady Godiva no centro de Coventry


Celebração em honra de Lady Godiva, em Coventry City

Lady Godiva foi imortalizada num poema de Lord Tennyson, cuja poesia, na sua grande parte, se reporta a temas mitológicos.

terça-feira, 13 de maio de 2008

EDIÇÃO EXTRA – AS ROSAS E OS CARDOS DA MINISTRA DA EDUCAÇÃO

Contrariando a rotina das postagens apenas à Quinta Feira e ao Domingo, não resisto a publicar este texto que hoje recebi por email.
Não vou tecer comentários. Apenas vos convido a ler o que escreveu a Professora Cecília Honório, a propósito da entrevista dada na televisão pela Ministra da Educação.

As rosas e os cardos da Ministra da Educação

07-Mai-2008
A Ministra da Educação foi à televisão ajudar a lavar o negócio das políticas sociais de Sócrates. Bordou o autoritarismo, abriu o seu peito de esquerda, mas a realidade não deixa de ser o que é só porque as eleições espreitam.
1. Chumbos. Andamos há muito a dizê-lo e a ministra tem razão: o chumbo é arma de uma escola elitista, custa caro aos contribuintes e, ainda por cima, reproduz o insucesso escolar (ao contrário das línguas aziagas do rigor, os dados mostram que as crianças e os jovens não aprendem mais por ficarem retidos).
Mas os chumbos vão acabar? Não, disse a ministra. E à pergunta: então, a saída para os jovens que chumbam é a formação profissional? Não, disse a ministra. E não podia, porque a realidade é o que é. O que se oferece hoje aos jovens com longa história de insucesso (rapazes, sobretudo) são os famosos cursos de formação para conclusão da escolaridade obrigatória, nichos de enjeitados anos a fio a fazerem de conta, eles e os professores, que vão ser, um dia, jardineiros. Às perguntas que interessam (o que foi e o que vai ser feito para combater os custos sociais dos chumbos?) seguiu-se retórica para três anos perdidos, porque as respostas são caras.
Não há equipas multidisciplinares nas escolas, não há mediadores, não há psicólogos, não há horas para programas de tutorias, não há horas para apoios específicos, não há turmas mais pequenas onde é necessário, não há responsabilização das escolas que fazem turmas de "bons" e de "maus", não há salas de aula dignas e equipadas. Não há nada a não ser a boa vontade e o empenho de professores, e de poucos profissionais que resistem à sangria da poupança, para os meninos e meninas que não correspondem ao formato médio, que não têm livros em casa, que não têm mãe escolarizada e pai bem sucedido profissionalmente, que não têm, muitas vezes, dinheiro para comer, e que até vivem desse monstro irresistível que é o da caridade das escolas.
Diz ainda a ministra que o problema não está nos programas, "acessíveis" aliás, e é mentira. Os programas e a disciplinarização nos 2º e 3º ciclos são esmagadores para os jovens que passam os dias amestrados em aulas, sem tempo para viver. É a realidade diária deles.
2. Professores. Acenar com o bife da equiparação no topo entre professores e carreira técnica é esquecer os muitos milhares que nunca lá chegarão, é cuspir para o lado aos preços da formação e a uma avaliação punitiva e infernal (que ainda terá um director para jogar com afilhados e afilhadas com as quotas da excelência, que, aliás, exigiam uma avaliação externa de todas as escolas, e a ministra diz que a coisa vai pelas 400...).
A realidade do próximo ano nas escolas portuguesas será a do inferno sem purgatório. Na instabilidade para os alunos, no perigo do sucesso administrativo não pensa a Ministra. E cada professor e professora só desejará, nos melhores dias, ver a ministra e os seus secretários avaliados com as suas fichas. Uma qualquer ficha de sete páginas para observação de aulas e portefólio, cada item desmembrado em vinte, cada um deles classificado de 1 a 5, mais a ficha feita pelo conselho executivo, onde o "excelente" corresponde ao sobre-humano, e eles não passam.
E, ao menos, aqueles cotados conselheiros científicos que a Ministra arranjou não são capazes de operacionalizar as fichinhas e de lhes dar uniformidade para minimizar a selva que aí vem?
Esta equipa ministerial foi chumbada no dia 8 de Março. Vai custar muito caro ao país retê-los mais um ano (e eles nem vão aprender mais por isso). Entretanto, as escolas vão rebentar com a avaliação, novos capatazes surgirão para tornar inquestionável a cadeia de comando, e o desafio será maior do que nunca: mostrar que este modelo de avaliação não serve, que a avaliação é das escolas e para preservar e aprofundar o trabalho cooperativo; será ano de não deixar passar esta espécie de "luta de classes" dentro da classe, de combater a autofagia, mantendo relações de cooperação e solidariedade, senão eles passam administrativamente...
Cecília Honório