Foi precisamente no dia 9 de Maio de 1950 que, em Paris, Robert Schuman, ministro dos Negócios Estrangeiros de França, fez uma declaração à imprensa realçando a necessidade da criação duma federação europeia, indispensável à preservação da paz.
Pairava no ar a ameaça de uma Terceira Guerra Mundial, quando ainda estavam bem presentes na memória de todos os horrores da Segunda Guerra Mundial, opondo países que se destruíram mutuamente, causando inúmeros prejuízos, não só materiais mas sobretudo morais: ódios, rancores e preconceitos.
Na sua longa história o «Velho Continente» conta, sem dúvida, momentos de glória, mas também episódios trágicos, de uma desumanidade total. É o caso do HOLOCAUSTO, um dos acontecimentos mais negros da história da humanidade.
É precisamente nas maiores adversidades que se revelam os verdadeiros heróis.
Eis a história duma HEROÍNA.
A mãe das crianças do Holocausto
Enquanto a figura de Óscar Schindler era aclamada pelo mundo graças a Steven Spielberg, que se inspirou nele para rodar a película que conseguiria sete Óscares em 1993, narrando a vida deste industrial alemão que evitou a morte de 1.000 judeus nos campos de concentração, Irena Sendler continuava a ser uma heroína desconhecida fora da Polónia e apenas reconhecida no seu país por alguns historiadores, já que nos anos de obscurantismo comunista, tinham apagado a sua façanha dos livros oficiais de história.
Além disso, ela nunca contou a ninguém nada da sua vida durante aqueles anos. Contudo, em 1999 a sua história começou a ser conhecida, curiosamente, graças a um grupo de alunos de um instituto do Kansas e ao seu trabalho de final de curso sobre os heróis do Holocausto.
Na sua investigação conseguiram muito poucas referências sobre Irena. Só tinham um dado surpreendente: tinha salvo a vida de 2.500 crianças.
Como era possível que houvesse tão escassa informação sobre uma pessoa assim? A grande surpresa chegou quando, depois de procurar o lugar do túmulo de Irena, descobriram que a mesma não existia porque ela ainda vivia…e de facto ainda vive…
Hoje é uma anciã de 98 anos (nascida em 15 de Fevereiro de 1910), que reside num asilo do centro de Varsóvia, num quarto onde nunca faltam ramos de flores e cartas de agradecimento procedentes do mundo inteiro.
Quando a Alemanha invadiu o país em 1939, Irena era enfermeira no Departamento de Bem estar Social de Varsóvia, o qual administrava as cozinhas sociais comunitárias da cidade.
Em 1942 os nazis criaram um ghetto em Varsóvia. Irena, horrorizada pelas condições em que se vivia ali, uniu-se ao Conselho para Ajuda de Judeus. Conseguiu identificação da repartição de saúde, de cujas tarefas consistia a luta contra as doenças contagiosas.
Como os alemães invasores tinham medo de uma possível epidemia de tifo, permitiam que os polacos controlassem o recinto.
De imediato se pôs em contacto com as famílias, às quais ofereceu levar os filhos para fora do ghetto. Mas não lhes podia dar garantias de êxito. Era um momento horroroso - devia convencer os pais a que lhe entregassem os seus filhos, e eles perguntavam-lhe: “Podes prometer-me que o meu filho viverá…?”
Mas como podia alguém prometer, quando nem sequer se sabia se conseguiriam sair do ghetto? A única certeza era que as crianças morreriam se permanecessem nele.
As mães e as avós não queriam separar-se dos filhos e netos.
Irena entendia-as muito bem, pois ela mesma era mãe, e sabia perfeitamente que, de todo o processo que ela levava a cabo com as crianças, o momento mais duro era o da separação.
Começou a tirá-las em ambulâncias como vítimas de tifo, mas de imediato se valeu de tudo o que estava ao seu alcance para escondê-las e tirá-las dali: caixotes de lixo, caixas de ferramentas, carregamentos de mercadorias, sacos de batatas, ataúdes…Nas suas mãos qualquer elemento se transformava numa via de escape.
Conseguiu recrutar pelo menos uma pessoa de cada um dos dez centros do Departamento de Bem estar Social. Com essa ajuda elaborou centenas de documentos falsos com assinaturas falsificadas, dando identidades temporárias às crianças judias.
Irena vivia os tempos da guerra pensando nos tempos de paz. Por isso não lhe bastava somente manter essas crianças com vida. Queria que um dia pudessem recuperar os seus verdadeiros nomes, a sua identidade, as suas histórias pessoais, as suas famílias.
Então idealizou um arquivo que registava os nomes das crianças e das suas novas identidades. Anotava os dados em pequenos pedaços de papel e guardava-os dentro de frascos de conserva, que depois enterrava debaixo de uma macieira, no jardim da sua vizinha.
Ali guardou, sem que ninguém o suspeitasse, o passado de 2.500 crianças, até que os nazis se foram embora.
Mas um dia os nazis souberam das suas actividades. Em 20 de Outubro de 1943, Irena Sendler foi detida pela Gestapo, e levada para a prisão de Pawiak, onde foi brutalmente torturada.
Num colchão de palha da sua cela encontrou uma estampa de Jesus Cristo. Conservou-a como o resultado de um acaso milagroso naqueles duros momentos da sua vida, até ao ano de 1979, em que se desfez dela e a ofereceu a João Paulo II.
Irena era a única que sabia os nomes e as direcções das famílias que albergavam as crianças judias. Suportou a tortura e recusou-se a atraiçoar os seus colaboradores ou qualquer das crianças ocultas. Quebraram-lhe os pés e as pernas, além de lhe imporem inumeráveis torturas. No entanto ninguém pôde domar a sua vontade.
Assim, foi sentenciada à morte. Uma sentença que nunca se cumpriu porque, a caminho do lugar da execução, o soldado que a levava deixou-a escapar. A Resistência tinha-o subornado porque não queriam que Irena morresse com o segredo da localização das crianças. Oficialmente figurava nas listas dos executados, daí que, a partir de então, Irena continuou a trabalhar, mas com uma identidade falsa.
Ao findar a guerra, ela mesma desenterrou os frascos e utilizou as notas para encontrar as 2.500 crianças que colocara em famílias adoptivas.
Reuniu-as aos seus parentes disseminados por toda a Europa, mas a maioria tinha perdido os seus familiares nos campos de concentração nazis.
As crianças só a conheciam pelo seu nome de código: Jolanta.
Anos mais tarde, a sua história apareceu num jornal, acompanhada de fotos suas da época. Várias pessoas começaram a telefonar para dizer-lhe: “Recordo a tua cara…sou uma dessas crianças, devo-te a minha vida, o meu futuro, e gostaria de ver-te…”
Irena tem no seu quarto centenas de fotos com algumas daquelas crianças sobreviventes ou com filhos delas.
O seu pai, um médico que faleceu de tifo, quando ela era ainda pequena, inculcou-lhe o seguinte: “Ajuda sempre o que se está a afogar, sem levar em conta a sua religião ou nacionalidade. Ajudar cada dia alguém, tem que ser uma necessidade que saia do coração”.
Há muitos anos que Irena Sendler está presa a uma cadeira de rodas, devido às lesões provocadas pelas torturas sofridas às mãos da Gestapo.
Não se considera uma heroína.
Nunca se atribuiu crédito algum pelas suas acções.
Sempre que a interrogam sobre o assunto, Irena diz: “Poderia ter feito mais, e este lamento continuará comigo até ao dia em que eu morrer”
“Não se plantam sementes de comida. Plantam-se sementes de bondades.
Tratem de fazer um círculo de bondades, estas vos rodearão e vos farão crescer mais e mais”.
Irena Sendler
Em Novembro de 2003 o Presidente da República, Aleksander Kwasniewski, outorgou-lhe a mais alta distinção civil da Polónia – a Ordem da Águia Branca.


















