ANITA – EPISÓDIO XXIX
(Ficção baseada em factos reais)
…
Lembrava-se de como o seu próprio pai procedera com Tiaguinho, quando ele era bebé – os mesmos gestos, o mesmo sorriso enternecido, o mesmo ar de encantamento…
Por vezes Anita punha – se a pensar se Vicente saberia quem era o pai de Eduarda. Porém nunca conseguiu chegar a uma conclusão. Se Vicente sabia, ou mesmo se desconfiava, nunca o demonstrou, tratando sempre o padre João com respeito e deferência, sem nunca mostrar aborrecimento com as idas do padre a sua casa, para “visitar a sua comadre Anita e dar um beijo na afilhada”.
Até ao fim dos seus dias Vicente jamais revelou o mínimo indício que pudesse levar a supor ser ele conhecedor da verdade.
Eduarda tinha dois meses quando, finalmente, Humberto apareceu na ilha.
Por muito magoado que estivesse não pôde evitar a comoção ao envolver Anita num forte abraço, enquanto uma lágrima traiçoeira assomava aos seus olhos.
Anita sentiu-se no céu, ao sentir os braços de Humberto envolvendo-a com tanto carinho. Não pôde nem tentou reprimir as lágrimas, deixando-as rolar livremente pelo rosto. Nunca um abraço de Humberto a fizera tão feliz!
Vicente observava-os em silêncio, com um sorriso contrafeito; e quando o filho se lhe dirigiu, abraçou-o, comovido, o que muito poucas vezes fizera na sua vida..
Humberto não pôde deixar de pensar que o pai estava mesmo a envelhecer. Aliás já o pensara quando Anita lhe contara a forma como reagira à notícia da sua gravidez.
Depois de passada a comoção dos primeiros momentos, Humberto disse:
- Onde está a princesa? Estou ansioso por conhecê-la.
Anita foi buscar o carrinho de Eduarda, que entretanto acordara. Levantando-a, entregou-a a Humberto, de braços estendidos para a receber.
Estreitando-a de encontro ao peito, novamente sentiu que as lágrimas queriam assomar-lhe aos olhos. Reprimindo-as, apertava Eduarda de encontro a si, enquanto pensava:
- Devias ser minha filha. Eu, sim, eu, é que devia ser o teu pai.
De olhos fechados tentava transportar para a bebé todo o amor que sentia por Anita.
Durante a semana que passou na ilha Anita pô-lo ao corrente do estado de saúde do pai. Nada lhe contara por carta, para não o afligir, mas agora sentia que o devia pôr a par de tudo.
Vicente estava doente, não se sabendo exactamente qual a sua doença.
Ia fazendo uma vida mais ou menos normal à custa de muita medicação, que o mantinha de pé, e também devido à vigilância de Anita, que não o deixava cometer excessos.
Nunca o impedia de sair, pois sabia que o marido precisava ausentar-se de casa, não só por causa dos seus negócios, mas também para ir visitar a amante.
Mas recomendava-lhe sempre que levasse os medicamentos e não se esquecesse de os tomar.
Algumas vezes Vicente dormia fora; quando regressava, Anita cuidava para que nada lhe faltasse, ajeitando-lhe as almofadas no sofá para onde ele se dirigia logo que entrava em casa.
Humberto observava tudo em silêncio, sentindo uma estranha gratidão pela forma como Anita estava tratando o seu pai.
Pensava, consternado, que o pai envelhecera muito nos quase dois anos em que o não vira. E perguntava a si mesmo quanto tempo lhe restaria de vida.
- Será que volto a vê-lo vivo? – pensava, com uma certa amargura.
Não lembrava, ou, pelo menos, tentava esquecer, todos os agravos que o pai lhe infligira ao longo dos anos. Sentia que o momento era de perdão, de esquecer possíveis rancores escondidos no fundo do seu sentir.
Rapidamente se esgotaram os dias que destinara para passar na ilha.
Sentia uma dor muito funda por ter de, mais uma vez, separar-se de Anita; mas ao mesmo tempo via a sua partida com um certo alívio.
Afastando-se era mais fácil não pensar tanto no seu amor por Anita; não vendo Eduarda não era forçado a lembrar-se que ela era fruto do amor de Anita por outro homem.
Foi, pois, com um misto de vários sentimentos que regressou a Inglaterra, onde acabou por começar a trabalhar no local onde fizera o seu estágio, e onde se conservou largos anos sem regressar à ilha.
FIM DO EPISÓDIO XXIX
(Ficção baseada em factos reais)
…
Lembrava-se de como o seu próprio pai procedera com Tiaguinho, quando ele era bebé – os mesmos gestos, o mesmo sorriso enternecido, o mesmo ar de encantamento…
FIM DO.EPISÓDIO XXVIII
EPISÓDIO XXIXPor vezes Anita punha – se a pensar se Vicente saberia quem era o pai de Eduarda. Porém nunca conseguiu chegar a uma conclusão. Se Vicente sabia, ou mesmo se desconfiava, nunca o demonstrou, tratando sempre o padre João com respeito e deferência, sem nunca mostrar aborrecimento com as idas do padre a sua casa, para “visitar a sua comadre Anita e dar um beijo na afilhada”.
Até ao fim dos seus dias Vicente jamais revelou o mínimo indício que pudesse levar a supor ser ele conhecedor da verdade.
Eduarda tinha dois meses quando, finalmente, Humberto apareceu na ilha.
Por muito magoado que estivesse não pôde evitar a comoção ao envolver Anita num forte abraço, enquanto uma lágrima traiçoeira assomava aos seus olhos.
Anita sentiu-se no céu, ao sentir os braços de Humberto envolvendo-a com tanto carinho. Não pôde nem tentou reprimir as lágrimas, deixando-as rolar livremente pelo rosto. Nunca um abraço de Humberto a fizera tão feliz!
Vicente observava-os em silêncio, com um sorriso contrafeito; e quando o filho se lhe dirigiu, abraçou-o, comovido, o que muito poucas vezes fizera na sua vida..
Humberto não pôde deixar de pensar que o pai estava mesmo a envelhecer. Aliás já o pensara quando Anita lhe contara a forma como reagira à notícia da sua gravidez.
Depois de passada a comoção dos primeiros momentos, Humberto disse:
- Onde está a princesa? Estou ansioso por conhecê-la.
Anita foi buscar o carrinho de Eduarda, que entretanto acordara. Levantando-a, entregou-a a Humberto, de braços estendidos para a receber.
Estreitando-a de encontro ao peito, novamente sentiu que as lágrimas queriam assomar-lhe aos olhos. Reprimindo-as, apertava Eduarda de encontro a si, enquanto pensava:
- Devias ser minha filha. Eu, sim, eu, é que devia ser o teu pai.
De olhos fechados tentava transportar para a bebé todo o amor que sentia por Anita.
Durante a semana que passou na ilha Anita pô-lo ao corrente do estado de saúde do pai. Nada lhe contara por carta, para não o afligir, mas agora sentia que o devia pôr a par de tudo.
Vicente estava doente, não se sabendo exactamente qual a sua doença.
Ia fazendo uma vida mais ou menos normal à custa de muita medicação, que o mantinha de pé, e também devido à vigilância de Anita, que não o deixava cometer excessos.
Nunca o impedia de sair, pois sabia que o marido precisava ausentar-se de casa, não só por causa dos seus negócios, mas também para ir visitar a amante.
Mas recomendava-lhe sempre que levasse os medicamentos e não se esquecesse de os tomar.
Algumas vezes Vicente dormia fora; quando regressava, Anita cuidava para que nada lhe faltasse, ajeitando-lhe as almofadas no sofá para onde ele se dirigia logo que entrava em casa.
Humberto observava tudo em silêncio, sentindo uma estranha gratidão pela forma como Anita estava tratando o seu pai.
Pensava, consternado, que o pai envelhecera muito nos quase dois anos em que o não vira. E perguntava a si mesmo quanto tempo lhe restaria de vida.
- Será que volto a vê-lo vivo? – pensava, com uma certa amargura.
Não lembrava, ou, pelo menos, tentava esquecer, todos os agravos que o pai lhe infligira ao longo dos anos. Sentia que o momento era de perdão, de esquecer possíveis rancores escondidos no fundo do seu sentir.
Rapidamente se esgotaram os dias que destinara para passar na ilha.
Sentia uma dor muito funda por ter de, mais uma vez, separar-se de Anita; mas ao mesmo tempo via a sua partida com um certo alívio.
Afastando-se era mais fácil não pensar tanto no seu amor por Anita; não vendo Eduarda não era forçado a lembrar-se que ela era fruto do amor de Anita por outro homem.
Foi, pois, com um misto de vários sentimentos que regressou a Inglaterra, onde acabou por começar a trabalhar no local onde fizera o seu estágio, e onde se conservou largos anos sem regressar à ilha.
Mantinha com Anita correspondência frequente, e assim se inteirava de tudo o que se ia passando.
FIM DO EPISÓDIO XXIX








