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domingo, 5 de julho de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXIX

(Ficção baseada em factos reais)

Lembrava-se de como o seu próprio pai procedera com Tiaguinho, quando ele era bebé – os mesmos gestos, o mesmo sorriso enternecido, o mesmo ar de encantamento…

FIM DO.EPISÓDIO XXVIII
EPISÓDIO XXIX

Por vezes Anita punha – se a pensar se Vicente saberia quem era o pai de Eduarda. Porém nunca conseguiu chegar a uma conclusão. Se Vicente sabia, ou mesmo se desconfiava, nunca o demonstrou, tratando sempre o padre João com respeito e deferência, sem nunca mostrar aborrecimento com as idas do padre a sua casa, para “visitar a sua comadre Anita e dar um beijo na afilhada”.
Até ao fim dos seus dias Vicente jamais revelou o mínimo indício que pudesse levar a supor ser ele conhecedor da verdade.

Eduarda tinha dois meses quando, finalmente, Humberto apareceu na ilha.
Por muito magoado que estivesse não pôde evitar a comoção ao envolver Anita num forte abraço, enquanto uma lágrima traiçoeira assomava aos seus olhos.
Anita sentiu-se no céu, ao sentir os braços de Humberto envolvendo-a com tanto carinho. Não pôde nem tentou reprimir as lágrimas, deixando-as rolar livremente pelo rosto. Nunca um abraço de Humberto a fizera tão feliz!

Vicente observava-os em silêncio, com um sorriso contrafeito; e quando o filho se lhe dirigiu, abraçou-o, comovido, o que muito poucas vezes fizera na sua vida..

Humberto não pôde deixar de pensar que o pai estava mesmo a envelhecer. Aliás já o pensara quando Anita lhe contara a forma como reagira à notícia da sua gravidez.

Depois de passada a comoção dos primeiros momentos, Humberto disse:
- Onde está a princesa? Estou ansioso por conhecê-la.
Anita foi buscar o carrinho de Eduarda, que entretanto acordara. Levantando-a, entregou-a a Humberto, de braços estendidos para a receber.
Estreitando-a de encontro ao peito, novamente sentiu que as lágrimas queriam assomar-lhe aos olhos. Reprimindo-as, apertava Eduarda de encontro a si, enquanto pensava:
- Devias ser minha filha. Eu, sim, eu, é que devia ser o teu pai.

De olhos fechados tentava transportar para a bebé todo o amor que sentia por Anita.

Durante a semana que passou na ilha Anita pô-lo ao corrente do estado de saúde do pai. Nada lhe contara por carta, para não o afligir, mas agora sentia que o devia pôr a par de tudo.
Vicente estava doente, não se sabendo exactamente qual a sua doença.
Ia fazendo uma vida mais ou menos normal à custa de muita medicação, que o mantinha de pé, e também devido à vigilância de Anita, que não o deixava cometer excessos.
Nunca o impedia de sair, pois sabia que o marido precisava ausentar-se de casa, não só por causa dos seus negócios, mas também para ir visitar a amante.
Mas recomendava-lhe sempre que levasse os medicamentos e não se esquecesse de os tomar.
Algumas vezes Vicente dormia fora; quando regressava, Anita cuidava para que nada lhe faltasse, ajeitando-lhe as almofadas no sofá para onde ele se dirigia logo que entrava em casa.

Humberto observava tudo em silêncio, sentindo uma estranha gratidão pela forma como Anita estava tratando o seu pai.
Pensava, consternado, que o pai envelhecera muito nos quase dois anos em que o não vira. E perguntava a si mesmo quanto tempo lhe restaria de vida.
- Será que volto a vê-lo vivo? – pensava, com uma certa amargura.
Não lembrava, ou, pelo menos, tentava esquecer, todos os agravos que o pai lhe infligira ao longo dos anos. Sentia que o momento era de perdão, de esquecer possíveis rancores escondidos no fundo do seu sentir.

Rapidamente se esgotaram os dias que destinara para passar na ilha.
Sentia uma dor muito funda por ter de, mais uma vez, separar-se de Anita; mas ao mesmo tempo via a sua partida com um certo alívio.
Afastando-se era mais fácil não pensar tanto no seu amor por Anita; não vendo Eduarda não era forçado a lembrar-se que ela era fruto do amor de Anita por outro homem.
Foi, pois, com um misto de vários sentimentos que regressou a Inglaterra, onde acabou por começar a trabalhar no local onde fizera o seu estágio, e onde se conservou largos anos sem regressar à ilha.
Mantinha com Anita correspondência frequente, e assim se inteirava de tudo o que se ia passando.

FIM DO EPISÓDIO XXIX

domingo, 28 de junho de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXVIII
(Ficção baseada em factos reais)

… Mas sabes uma coisa? Não tenho passado tão bem como da primeira vez. E, quando vinha a caminho de casa, surgiu-me uma ideia:
Que tal se fôssemos à capital consular um especialista? Que te parece?

FIM DO.EPISÓDIO XXVII
EPISÓDIO XXVIII

Vicente esboçou um ligeiro sorriso.
- Se achas que é uma boa ideia, se vais ficar mais descansada, podes ir. Talvez a tua mãe te possa acompanhar…
- Não, Vicente, a minha mãe não, A minha ideia era tu ires comigo…
- Estás a esquecer-te de um pormenor muito importante: eu não posso sair daqui, esqueceste-te? Não me digas que não sabias…
- Sabia, sim, claro! Como toda a gente soube quando vieste para cá. Eu era ainda uma criança, por isso estava a esquecer-me…
E se fôssemos a Inglaterra?
- Anita, eu não estou proibido de ir à capital; estou proibido de sair da ilha. Não posso ausentar-me daqui até ao fim dos meus dias.
E, não indo comigo, parece-me mais fácil ires ao Continente do que a Inglaterra. Não te parece?
- Talvez tenhas razão. Tenho que pensar bem no assunto.
E rapidamente mudou o rumo à conversa.
Esquecera-se completamente que Vicente não podia sair dali. E não era por ela que falara em consultar um médico na capital; era apenas um pretexto de que se lembrara para obrigar o marido a fazer os exames que na ilha não seria possível realizar.

Alguns dias depois Anita escreveu a Humberto. Nunca sentira tanta dificuldade em contar-lhe qualquer coisa. Não encontrava as palavras certas para lha falar na sua gravidez. Parecia-lhe, desde a última carta que recebera de Humberto, que alguma coisa se quebrara entre eles, qualquer coisa que não conseguia definir, mas que a magoava muito. Era como que um espinho que se tivesse colocado entre ambos.

Depois de muito hesitar e rodear, escreveu de repente:
-Estou grávida!
E, repetindo o que dissera na carta anterior, pedia-lhe que não a condenasse por ser feliz.
Depois de descrever a conversa que tivera com o marido, e a sua reacção, terminava dizendo-lhe:
- Talvez esta notícia, de início, seja um choque para ti. Mas tenho a certeza que, depois de veres como sou feliz, de como o padre João me ama, e, principalmente depois de conheceres o novo membro da família, quando ele chegar, dentro de seis meses, mudarás de opinião.
E a carta segui o seu destino.

Tudo entrou na normalidade, e pouco antes das férias lectivas, Anita foi para o Hospital, onde deu à luz uma linda e perfeita menina.

Foi registada com o nome de Eduarda, filha de Anita e Vicente.
Na impossibilidade de a registar como sua filha, o padre João manifestou a Anita o desejo de, pelo menos, ser seu padrinho.
Conversando com o marido, Anita transmitiu-lhe o desejo do padre.

Vicente não manifestou surpresa nem qualquer desagrado. Respondendo que achava uma boa ideia, prontificou-se a mandar a sua lancha, que fazia a ligação com terra dos navios que não podiam acostar ao pequeno cais, buscar o padre da ilha mais próxima, seu conhecido de longa data.

O baptizado realizou-se em ambiente festivo, ainda que restrito apenas a familiares.
Anita sentia um grande desgosto ensombrar a sua felicidade – a ausência de Humberto.
Embora estando em plena época de férias escolares, Humberto comunicara que não podia ausentar-se do local onde exercia o seu estágio, e por esse motivo viria mais tarde, apenas por uma semana.

Anita ficou com a sensação de que se tratava de uma desculpa, mas não se atreveu a fazer qualquer insinuação. Limitou-se a manifestar a sua tristeza pela ausência do enteado, acrescentando que ficava ansiosa pela sua vinda, ainda que por tão poucos dias.

Anita revia-se na sua linda menina. O padre João vinha todos os dias visitar a sua afilhada. Vicente, que agora se mantinha em casa por largos períodos, passava com Eduarda muito mais tempo do que dispensara ao próprio filho, Tiaguinho.
Observando-os, Anita pensava:
- Parecem mesmo avô e neta!
Lembrava-se de como o seu próprio pai procedera com Tiaguinho, quando ele era bebé – os mesmos gestos, o mesmo sorriso enternecido, o mesmo ar de encantamento…

domingo, 21 de junho de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXVII

(Ficção baseada em factos reais)

Não quero que te preocupes, que não é caso para isso. Apenas tenho vindo a sentir umas ligeiras tonturas, de vez em quando, e na minha idade – sabes que já não sou um jovem – achei melhor ir ver o que se passava. O médico mandou-me fazer análises, mas acha, também ele, que não é nada de cuidado.

FIM DO.EPISÓDIO XXVI

EPISÓDIO XXVII

Entretanto receitou-me uns medicamentos para me ajudarem a sentir-me melhor. E já estou quase bom! – acrescentou, com fingido entusiasmo.

Anita olhou para o marido com uma atenção com que nunca o olhara, e quase estremeceu ao verificar como Vicente estava envelhecido.
Sempre vira o marido como um homem mais velho do que ela, mas só agora se apercebia da verdadeira diferença de idades entre ambos: Vicente era quase um velho! Ou seria que estava realmente doente, e não queria dizer-lhe a verdade?
Resolveu não fazer perguntas. Em breve iria ao médico e aí tentaria saber tudo.

A partir do momento em que estava assente que Anita continuaria em casa e que o marido assumiria o seu filho, era altura de comunicar aos pais que estava novamente grávida, e dizer ao Tiaguinho que ia ter um irmãozinho ou irmãzinha.

Os pais manifestaram uma certa surpresa ao receber a notícia.
Imaginavam, instintivamente, que o relacionamento entre o casal não seria dos melhores, dadas as frequentas vezes em que Vicente era visto fora de casa a horas em que qualquer marido normal estaria junto da família.
Ficaram, talvez por isso, extremamente felizes ao saberem da gravidez de Anita.
Pensaram que o pior teria passado e eles, finalmente, teriam chegado a bom entendimento.
Anita nada disse para os desiludir. Aliás, era-lhe bastante conveniente esta convicção dos pais, especialmente porque, ao darem a notícia aos familiares e amigos, fá-lo-iam muito mais convictos da “boa nova”.

Como seria de esperar, Tiaguinho exultou com a notícia de que em breve haveria um bebé na família, que ele se propunha acarinhar e até trocar as fraldas, como via fazer aos mais pequeninos, na creche.

Chegou o dia em que Anita foi consultar o médico.
Vicente propunha-se acompanhá-la, mas rapidamente Anita o dissuadiu, dizendo que tinha pedido à mãe para ir com ela. Vicente não insistiu.
Passava agora mais tempo em casa, sentado no sofá, na sala, e muitas vezes indo deitar-se no quarto de hóspedes.
Depois de ter feito a sua consulta Anita perguntou ao médico, velho amigo da família, qual era o estado de saúde do marido.
O médico pareceu hesitar, mas Anita apressou-se a dizer:
- Pode dizer-me a verdade, doutor. O Vicente já me disse que está doente e que fez uns exames nada simples; e eu noto que ele está a decair de dia para dia.
O médico permaneceu uns momentos silencioso. Anita começava a ficar nervosa. Até que o médico falou:
- A verdade, Anita, é que eu não sei exactamente o que o teu marido tem. Os resultados das primeiras análises não me deixaram nada tranquilo, por isso mandei repetir, acrescentando umas outras mais complexas.
Vamos aguardar. Mas se os resultados não forem concludentes, teremos que pensar em levá-lo à capital. Como sabes, lá há recursos de que aqui não dispomos…
Entretanto, o que há a fazer é tomar os medicamentos que lhe receitei – os valores de colesterol e trigliceridos estavam alterados. Além disso deve descansar bastante, alimentar-se bem, e procurar manter-se tranquilo. Achei-o bastante agitado, por isso lhe receitei também um calmante leve.
E por agora não podemos fazer mais nada. Temos que aguardar.

De regresso a casa Anita encontrou Vicente adormecido no sofá da sala.
Sentou-se e pôs-se a observá-lo em silêncio.
O marido apresentava as faces um pouco encovadas, e uma cor amarelada, doentia.
Como se sentisse o olhar sobre ele, Vicente abriu os olhos, sorrindo para Anita.
- Então, o que disse o médico? Estava tudo bem?
- Sim, aparentemente está tudo bem. Mandou-me fazer as análises habituais.
Mas sabes uma coisa? Não tenho passado tão bem como da primeira vez. E, quando vinha a caminho de casa, surgiu-me uma ideia:
Que tal se fôssemos à capital consultar um especialista? Que te parece?

FIM DO EPISÓDIO XXVII

domingo, 14 de junho de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXVI

(Ficção baseada em factos reais)


O relógio da sala, tocando as dez horas, veio lembrar-lhe que tinha prometido à mãe ir almoçar a casa dela e passar lá a tarde.
Foi para a cozinha preparar uma surpresa para o lanche, que sabia ser a preferida da mãe e do Tiaguinho – bolinhos de chuva.
Justificar completamente
FIM DO EPISÓDIO XXV
EPISÓDIO XXVI

Do dia seguinte, domingo, foi à missa, como sempre, e depois do ofício divino trocou algumas palavras com o padre João, conseguindo avisá-lo de que de tarde passaria por lá para conversarem.

Quando Anita lhe contou o sucedido com o marido, o padre João não teve reacção imediata. Dir-se-ia que tinha sido fulminado por um raio, tal era o seu espanto. Passada a surpresa, olhou para Anita sem saber o que dizer.
Finalmente conseguiu encontrar as palavras necessárias para lhe transmitir o seu espanto, e perguntar-lhe o que fariam a seguir.
Anita respondeu que também não sabia; o melhor seria deixar que os acontecimentos fluíssem naturalmente.
- Tudo bem, Anita, faremos o que tu achares melhor.
Mas quero dizer-te que, por muito que me custe não registar o bebé com o meu nome, não posso deixar de considerar muito generosa a oferta do teu marido para o reconhecer como filho, pois tenho a certeza que não é em nove meses que se resolverá a minha situação.
Muito em breve escreverei ao meu superior directo a pedir-lhe informações acerca do que necessito fazer para pedir a exoneração dos meus votos.
Como nunca estive nesta situação, nem conheço ninguém que tenha passado por isso, não faço a menor ideia dos trâmites necessários para chegar a bom termo.
Logo que ele me informe começarei a tratar de tudo. E depois regularizaremos a nossa situação e do nosso filho.
O teu marido, que se mostrou tão compreensivo e benevolente, há-de acabar por compreender, também, que nos amamos e temos direito a viver a nossa vida.
Entretanto, continuares na tua casa, aceitando a sugestão do teu marido, parece-me uma óptima ideia. A alternativa seria ires para casa dos teus pais, o que implicaria teres que lhes contar, já, o que se está passando.
Sem dúvida que o teu marido pensou em tudo, mostrando uma nobreza de carácter muito grande. É digno de toda a minha admiração.
Minha querida, isto é o que eu penso. Contudo, a última palavra é tua. Serás tu a decidir.
Se quiseres sair de tua casa, terás todo o meu apoio, em tudo.
Pensa bem no que queres fazer, no que achas que será melhor para ti, que eu aceitarei o que decidires.

Anita sentia-se nas nuvens. Depois da atitude do marido, que agora via com mais clareza ser de uma grande bondade, as palavras do padre João tornavam-na totalmente feliz.
Agora acreditava firmemente que o seu sonho iria tornar-se realidade, que a felicidade, finalmente, lhe batera à porta.

Alguns dias depois Vicente perguntou-lhe se já tinha decidido o que iria fazer. Anita respondeu que resolvera aceitar a sua proposta, continuando a viver lá em casa, pelo menos por enquanto.
- Só por enquanto? – perguntou Vicente, com uma certa mágoa e desilusão na voz.
- Não façamos planos a longo prazo, Vicente. O melhor que temos a fazer é irmos vivendo um dia de cada vez, conforme se nos forem apresentando…
- Como queiras, querida.
Já agora aproveito para te dizer que fui ao médico.
- Foste ao médico porquê? Não te sentes bem? O que é que se passa? – perguntou Anita, denunciando uma certa preocupação na voz.
- Calma, não se passa nada de grave. Só quis dizer-te antes que soubesses por outra pessoa. Sei como são as línguas nesta cidade. Além disso, no teu estado, vais ter que ser acompanhada pelo médico; portanto era natural que ele mesmo te dissesse que eu o tinha consultado.
Não quero que te preocupes, que não é caso para isso. Apenas tenho vindo a sentir umas ligeiras tonturas, de vez em quando, e na minha idade – sabes que já não sou um jovem – achei melhor ir ver o que se passava. O médico mandou-me fazer análises, mas acha, também ele, que não é nada de cuidado.

FIM DO EPISÓDIO XXVI

domingo, 31 de maio de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXV

(Ficção baseada em factos reais)


- Vicente, preciso falar contigo
- Agora vou tomar um banho. Podemos conversar depois?
- Com certeza. Eu aguardo.

FIM DO.EPISÓDIO XXIV

EPISÓDIO XXV

E aguardou, pacientemente, que o marido tratasse da sua higiene.
Quando ele regressou e se mostrou disponível para conversar, Anita disse rapidamente:
- Vicente, estou grávida.

O marido estremeceu ligeiramente. Recompondo-se, respondeu:
- Eu sabia que, mais tarde ou mais cedo, me darias essa notícia. E não te censuro. Reconheço que não tenho esse direito.

Anita nem queria acreditar no que estava ouvindo. Tinha imaginado várias reacções possíveis por parte do marido, mas nunca lhe passara pela cabeça que Vicente aceitasse calmamente uma tal revelação.
Não sabia como reagir.
Imaginara ter que defender-se de acusações e críticas severas, de ameaças físicas, até, embora Vicente nunca se tivesse mostrado violento. Afinal, o marido parecia aceitar a situação com toda a naturalidade…

Depois de um breve silêncio, Vicente continuou:
- Anita, há apenas uma coisa que te quero pedir. É que não queiras separar-te de mim, sair desta casa, abandonar o teu lar.
- Mas…Vicente…
- Por favor. Não me interrompas.
Sei muito bem que não tenho sido um bom marido. Já há um certo tempo reconheci que o nosso casamento foi um erro.
Sei que nunca me tiveste amor, e sei que, até certo ponto, foste forçada a aceitar casar comigo. Na altura eu estava cego, e não compreendi que tu não eras mulher para mim. Fiquei ofuscado com a tua beleza e juventude, e nada mais me interessou.
Além disso, havia outra mulher na minha vida, que, aliás, já existia no tempo em que a minha primeira mulher era viva.
Não consegui, nunca, abandonar esta mulher, por quem me apaixonei há muitos anos, mas que nunca pude assumir, casando-me com ela.
É de condição social muito inferior à minha. O casamento não seria bom, nem para mim nem para ela, que não saberia conviver nos meios em que tenho que me mover, por causa dos negócios.
Para além disso, os meus filhos nunca a aceitariam, e, se a conhecessem, fariam um grande escândalo
O amor que nos une é muito forte e tem resistido a todos os revezes.
Nunca consegui nem conseguirei separar-me dela.
Mas como a nossa relação é praticamente secreta, conhecida apenas de dois bons amigos, eu gostaria de pedir-te que me ajudes a que se mantenha assim, continuando tu, Anita, a viver nesta casa que é tua, mantendo, oficialmente, o nosso casamento.

Anita sentia-se completamente atordoada. Nunca lhe passaria pela cabeça que o marido pudesse reagir dessa maneira. Estava sem saber que atitude tomar. Abriu a boca para dizer qualquer coisa, mas Vicente interrompeu-a de novo.

- Desculpa, Anita, mas ainda não acabei. Há mais uma coisa que te quero pedir: Nunca me digas quem é o pai dessa criança. Prefiro não o saber. Para todos os efeitos, inclusive de herança, será meu filho. No seu registo de nascimento o meu nome constará como sendo seu pai.

Anita ia balbuciar umas palavras, mas Vicente mais uma vez não a deixou falar.

- Não, Anita, não digas nada por agora. Pensa na minha proposta. Não tenhas pressa em me responder. O assunto é bastante grave, tem que ser analisado com calma. Podes até querer aconselhar-te…
Quando tiveres tomado uma decisão, avisa-me.

E, dando o assunto por encerrado, levantou-se. Anita notou que Vicente teve um pequeno desequilíbrio ao pôr-se de pé. Por um breve momento apoiou-se às costas da cadeira; mas rapidamente se recompôs e, com um simples “até logo”, afastou-se.
Anita deixou-se abater sobre o sofá, completamente desnorteada com o que acabara de se passar. Custava-lhe a crer que tudo não passara de um sonho.
O relógio da sala, tocando as dez horas, veio lembrar-lhe que tinha prometido à mãe ir almoçar a casa dela e passar lá a tarde.
Foi para a cozinha preparar uma surpresa para o lanche, que sabia ser a preferida da mãe e do Tiaguinho – bolinhos de chuva.

FIM DO EPISÓDIO XXV

domingo, 24 de maio de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXIV

(Ficção baseada em factos reais)

E foi assim que Tiaguinho passou a ir à sexta-feira dormir a casa dos avós, e Anita pôde alimentar o seu amor.
Finalmente chegou a tão esperada carta de Humberto.

FIM DO.EPISÓDIO XXIII

EPISÓDIO XXIV

Com o coração alvoroçado, Anita foi para o seu quarto para ler a carta sossegadamente.
Ficou decepcionada ao abrir o envelope e ver apenas umas linhas que pareciam escritas à pressa.
Humberto declarava-se muito preocupado com as notícias que recebera, manifestando o seu receio de que Anita viesse a ter alguma desilusão e consequente desgosto, pois que lhe parecia que o seu futuro estava bastante nebuloso.
Terminava dizendo que tinha o tempo muito ocupado, pois arranjara um local de trabalho onde podia ir aperfeiçoando, com a prática, os conhecimentos adquiridos no curso; e que, por esse motivo, as suas cartas, daí em diante, seriam, forçosamente, menos longas.

Quando terminou a leitura Anita sentiu-se desconsolada.
A carta de Humberto não trazia as habituais palavras de carinho, nem a descrição do seu dia-a-dia, como as anteriores.
Sentiu-se subitamente muito triste, ao pensar que, por causa do seu amor, poderia perder a amizade de Humberto, que para ela era tão importante.

Contrariando um impulso inicial, decidiu que esperaria alguns dias antes de escrever a Humberto. Precisava pôr as ideias em ordem, e só depois tentar fazer-lhe sentir como era feliz, e tinha esperança no futuro.

Um dia, ao levantar-se, Anita sentiu uma forte tontura e náuseas.
Lembrou-se que, na noite anterior, quase não tocara no jantar, porque se sentia sem apetite. Atribuiu esse mal-estar ao facto de ter o estômago vazio. Dirigiu-se à sala de jantar, mas, à vista da comida, o estômago revolveu-se-lhe, obrigando-a a ir vomitar.

De repente, uma ideia acudiu ao seu pensamento: estou grávida!
– Não, não pode ser; alguma coisa eu comi que me fez mal. Quando chegar à creche, as colegas vão queixar-se do mesmo, com certeza.
Mas não; ninguém tinha passado mal, toda a gente estava de perfeita saúde. Anita começou a ficar preocupada.

Nos dias que se seguiram, contudo, não voltou a ter qualquer indisposição. Convenceu-se, então, de que tivera mesmo qualquer pequeno problema de digestão.
À medida que o tempo foi passando começou a notar alterações no seu físico – sentia a roupa mais apertada, uma enorme sonolência e uma vez por outra davam-lhe tonturas que a obrigavam a sentar-se, para não cair.
Dois meses depois acabou por se convencer da sua gravidez.

Na sexta-feira seguinte, na casa paroquial, comunicou ao padre João que tinha um assunto muito sério para tratar com ele.
Aparentando uma calma que não sentia, falou-lhe das suas desconfianças, quase certezas. E, ao contrário do que esperava, ele ouviu-a tranquilamente, sem manifestar espanto ou desagrado.
Por fim abraçou-a, carinhosamente, e só depois levantou uma dúvida:

- E como fazemos com o teu marido? Ele precisa saber a verdade, quanto antes. Não podemos esperar que se note, ou que ele venha a saber por outras pessoas. Temos que lhe dizer.

Anita sentiu-se estranhamente calma perante esta reacção inesperada.
Tinha imaginado que ele, pelo menos, se mostrasse preocupado, desorientado, mesmo, e afinal isso não acontecera. Respondeu:

- João, se não te importas prefiro tratar disso sozinha. Hoje mesmo, ou amanhã, o mais tardar, falarei com Vicente.
- Tu sabes muito melhor do que eu o que é melhor. Mas quero que saibas que tens todo o meu apoio, E, se mudares de ideias, é só dizeres-me, que estarei presente quando falares com ele.

Anita estava-lhe tão agradecida interiormente que lhe pareceu que o seu amor tinha redobrado.
Nessa noite amaram-se com uma intensidade renovada. Anita sentia-se a mulher mais feliz do mundo.

No dia seguinte, aproveitando o facto de ser sábado e Tiaguinho estar em casa dos avós, regressou a sua casa mais cedo do que nas vezes anteriores, com a intenção de falar com o marido.

Vendo-o entrar em casa de manhã, interpelou-o:
- Vicente, preciso falar contigo

- Agora vou tomar um banho. Podemos conversar depois?
- Com certeza. Eu aguardo.

FIM DO EPISÓDIO XXIV

quinta-feira, 14 de maio de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXIII

(Ficção baseada em factos reais)

O Amor nunca pode ser um erro. E eu amo-te muito, Anita; tanto que, ainda que tu não sentisses nada por mim, só o meu Amor chegaria para nós dois.

FIM DO.EPISÓDIO XXII

EPISÓDIO XXIII

E com estas palavras o Amor de ambos foi consumado.

Como Tiaguinho estava em casa dos avós, Anita não se preocupou em ir para sua casa, o que fez apenas no dia seguinte.

Durante o trajecto estranhou que tudo estivesse exactamente igual, que nada tivesse mudado; e ao entrar em sua casa, encontrou-a arrumada da mesma maneira de sempre.

Isto causou-lhe uma certa estranheza. Parecia-lhe que tudo deveria ter mudado, mas afinal nada de estranho acontecera. A mudança ocorrera apenas dentro de si. Sentia que era uma outra mulher.

O dia decorreu normalmente, apenas com a diferença da ausência de Tiaguinho, que lhe custou a suportar. À tarde resolveu ir a casa da mãe, onde encontrou avós e neto felizes e contentes, à mesa de um apetitoso lanche. Conservou-se ali até ao anoitecer; nessa altura regressou a sua casa, sozinha, já que tinha prometido ao filho deixá-lo passar na casa dos avós o fim-de-semana completo.

Ao entrar em casa sentiu o peso da solidão.

Como era já habitual, Vicente não se encontrava em casa.
Teve que fazer um esforço grande para não ceder à tentação de ir ao encontro do padre João.
Sentiu uma saudade muito viva de Humberto, e lamentou, mais do que nunca, não ter o amigo junto de si. Quando terminou de jantar resolveu escrever-lhe.
A vontade de contar ao enteado tudo o que lhe acontecera era enorme. Mas, por maior à vontade que tivesse com ele, hesitou muitas vezes, sem encontrar a melhor forma de relatar o sucedido.
Por fim respirou fundo, soltou um suspiro, e, com determinação, começou a escrever. A partir desse momento as palavras fluíam sem dificuldade, e nada ficou esquecido. Terminava dizendo:

- Só te peço que não me condenes, nem a mim nem ao João, pois o que fizemos não foi uma acção leviana; é apenas a sequência lógica do nosso amor. Eu amo-o, Humberto, tenho a certeza, e sei que ele também me ama. Sei que vais considerar o que nos une como “amor impossível”, mas até isso vai ser ultrapassado, porque nós conversamos, e o João considera a hipótese de abandonar o sacerdócio. E a partir daí tudo será fácil. Divorcio-me do teu Pai e irei viver com o João, casados ou não, não importa. Diz que me apoias, meu querido Humberto; que me compreendes, que queres que eu seja feliz, e que estarás sempre do meu lado. Tu fazes parte da minha felicidade, sabes isso…
E terminava com as despedidas habituais.

Quando Humberto leu esta carta sentiu o mundo desmoronar-se à sua volta. Leu-a e releu-a vezes sem conta, na esperança de que não tivesse entendido bem o que lá estava escrito.
Quando se convenceu de que era mesmo verdade o que os seus olhos lhe mostravam, grossas lágrimas rolaram pelo seu rosto. Nada fez para as reprimir; ao contrário, deixou-as deslizar, pensando que ajudariam a lavar o seu enorme desgosto.

Durante umas semanas não arranjou coragem para responder a Anita.

Entretanto, na ilha tudo decorria dentro da calma habitual.
Anita continuava a ir todos os dias para a creche, onde cumpria as suas obrigações, como se nada se tivesse alterado na sua vida.
O padre João aparecia à hora do almoço e à tarde, pontualmente; sempre que podia, trocava olhares apaixonados com Anita. Quando havia papeis a entregar, arranjavam maneira de as suas mãos se tocarem, o que lhes provocava arrepios de prazer.
Ansiavam por se encontrar de novo, mas as oportunidades não eram muitas.

Tiaguinho, que tinha adorado o fim-de-semana que passara com os avós, todos os dias pedia à mãe que o deixasse ir novamente dormir lá.
Anita viu aí a oportunidade que faltava ao seu amor.

A meio da semana, à saída da creche, em vez de ir para sua casa foi visitar a mãe. Como era de esperar, Tiaguinho dependurou-se no pescoço da avó, a pedir-lhe para dormir lá em casa.
Anita fingiu-se contrariada, e, para não levantar suspeitas respondeu que só no fim-de-semana, se entretanto ele se portasse bem.

E foi assim que Tiaguinho passou a ir à sexta-feira dormir a casa dos avós, e Anita pôde alimentar o seu amor.

Finalmente chegou a tão esperada carta de Humberto.

FIM DO EPISÓDIO XXIII

quarta-feira, 6 de maio de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXII

(Ficção baseada em factos reais)

Alguns dias mais tarde, e antes que chegasse carta de Humberto, sucedeu o que seria de esperar.

FIM DO EPISÓDIO XXI
EPISÓDIO XXII

Era uma sexta-feira. Anita encontrava-se na sala, rodeada de crianças, a quem, pacientemente, ensinava uma nova lengalenga.
Eulália apareceu à porta da sala, e imediatamente Tiaguinho correu para os seus braços. E foi logo perguntando:
- É hoje, vó? É hoje que vou dormir na tua casa?
Apertando-o nos braços, e olhando de lado para Anita, respondeu:
- É hoje, sim, meu amor, é hoje. Não é, Mamã? – continuou, dirigindo-se a Anita.

Anita compreendeu que não podia continuar a recusar o pedido de avó e neto. Ainda tentou falar na falta de roupa de Tiaguinho, tendo perfeita noção de que era apenas uma desculpa, já que o filho tinha algumas roupas na casa dos avós.
Acabou por concordar, não sem que pelos seus olhos perpassasse uma ligeira nuvem de tristeza.
E, como que para se habituar à ideia, insistiu para que Tiaguinho ficasse até à hora normal da saída.

Quando o padre chegou notou que Anita estava um pouco tensa, e perguntou se havia algum problema especial.
- Não, não há problema algum; apenas uma mãe que, pela primeira vez, se separa do filho, e que não imaginava como isso pode ser doloroso.
- Quem foi a mãe que se separou do filho?
- Eu mesma, que autorizei o Tiaguinho a dormir em casa dos avós.
- Mas…por favor! Isso não é uma separação. São apenas algumas horas…
- Eu sei, e não é propriamente ficar sem o meu filho por umas horas que me preocupa, mas o que isso significa: ele está a ganhar asas, e em breve poderá voar sozinho. É isso que dói.
- Mas essa é a ordem natural da vida. As crianças crescem, e aos pais compete acompanhá-los no seu voo, não cortar-lhes as asas para que não voem…
- Eu seu que é assim que tem que ser. Mas o saber isso não me ajuda a não ficar triste com a ideia.

Entretanto todos se tinham retirado com desejos de bom fim-de-semana. De súbito aperceberam-se de que estavam sozinhos.
O padre João estendeu as mãos segurando as de Anita, que tremiam ligeiramente. Desde o primeiro beijo nunca mais tinham estado a sós. Havia um certo constrangimento entre eles.
Sem largar as mãos de Anita, o padre falou:
- Sinto que estás muito nervosa, Anita. Vamos até à minha casa, bebemos um refresco, tu acalmas-te, e podemos, se quiseres, continuar a conversa que estávamos tendo, sobre a educação a dar aos filhos…
Anita sentiu uma tentação enorme de o acompanhar, de prolongar um pouco mais a sua companhia, de não ter que ir enfrentar a solidão da sua casa, onde nem Tiaguinho estaria para a distrair.
Contudo, hesitou:
- E se alguém nos vê, o que irá pensar?
- E quem poderá ver-nos? É só atravessar este caminhito, e estamos lá. E ainda que vissem, que mal é que tem? Recebo em minha casa muitas paroquianas e paroquianos…
Anita anuiu, dirigindo-se à porta.

No momento seguinte encontravam-se na casa paroquial, que Anita já conhecia, de ter lá ido muitas vezes nos tempos do pároco velho, que falecera.
Mas, ao contrário do que acontecera de todas as outras vezes, agora não se sentia à vontade.
Para disfarçar o seu nervosismo começou a falar das mudanças que notava na casa., mas o padre João interrompeu-a com um beijo.
Anita rendeu-se. Só quando, alguns momentos depois ele a encaminhava para o quarto, ela objectou:

- João, tens a certeza que não é errado o que vamos fazer?

- Deus, pela boca de Seu amado Filho, pregou o Amor, e não lhe impôs limites nem condições. “Amai-vos uns aos outros” foram as Suas palavras. O Amor nunca pode ser um erro. E eu amo-te muito, Anita; tanto que, ainda que tu não sentisses nada por mim, só o meu Amor chegaria para nós dois.

FIM DO EPISÓDIO XXII

quinta-feira, 30 de abril de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XXI

(Ficção baseada em factos reais)

Anita olhou atentamente para a mãe, pensando:
- A minha mãe é tão inteligente, tão conhecedora da vida, e quando mais precisei dela, quando estava apaixonada por Arnaldo, falhou-me.

FIM DO EPISÓDIO XX



EPISÓDIO XXI

E de repente apercebeu-se de que tinha pensado na sua paixão por Arnaldo…como uma coisa passada.
Sentiu-se completamente confusa quanto aos seus sentimentos.
Disse:

- A mãe deve ter razão. Afinal, tem mais experiência do que eu. Já passou por isso, quando eu tinha a idade do Tiaguinho.
Vou ter que me habituar à ideia de que ele está a crescer, e a não precisar tanto de mim…
Mas de qualquer maneira hoje ele não dorme cá. Nem sequer trouxe pijama…
- Não seja por isso. Há cá roupas dele…
- Deixe, mãe. É melhor assim. Outro dia ele vem já preparado para ficar – respondeu Anita, já com uma certa mágoa na voz.

Decorreram alguns dias, até que chegou carta de Humberto, respondendo àquela onde Anita relatara o “quase abraço” do padre João.
Com enorme prudência o enteado aconselhava-a a ter muito cuidado para evitar situações que pudessem tornar-se comprometedoras, o que acabaria por ser desagradável, tanto para ela própria como para o pároco.
E terminava a sua longa missiva, dizendo:

- Por favor, Anita, promete-me que vais ser muito prudente quanto a este assunto. Ainda faltam uns meses para eu regressar e podermos falar de viva voz. Portanto, tens que me prometer o que te estou a pedir. Conta-me tudo o que for acontecendo. Sabes como vivo preocupado contigo, não sabes?
Anita, não te esqueças que só te tenho a ti e ao Tiaguinho neste mundo. Sim, porque para o meu pai…basta-lhe pagar-me os estudos e a estadia aqui para sentir a consciência tranquila.
Anita, confio em ti.

Anita sentiu um aperto na garganta e uma enorme vontade de chorar ao ler a carta do enteado.

Como se apegara a Humberto, a ponto de sentir tanta dificuldade em relatar-lhe o que entretanto sucedera!
Não podia esconder-lhe nada. Isso não! Mas sabia que, ao contar-lhe que beijara o padre, e que isso a fizera muito feliz, ia fazer com que Humberto ficasse ainda mais preocupado, e não queria que isso acontecesse…
Mas como poderia evitá-lo? Se Humberto estivesse ali seria tudo muito mais fácil. Não teria nenhuma dificuldade em contar-lhe, e ele, vendo-a tão feliz, iria deixar de se preocupar e ficar muito contente por ela.

Enchendo-se de coragem, escreveu ao enteado relatando-lhe tudo, com o maior número de pormenores de que se lembrava.
E rematava:

- Não quero que fiques preocupado comigo, meu querido enteado. Isto pode parecer-te uma loucura, e o mais certo é até ser, mas não quero, por agora, pensar em nada.
Desde há muito tempo que não me sentia assim.
Deixa-me viver a minha loucura. Deixa-me não ser ajuizada nem convencional uma vez na vida.
Sempre obedeci a tudo e a todos, calcando os meus sentimentos bem fundo. Agora vou viver este sonho.
Sim, eu sei que é um sonho, apenas, que não passa disso. Mas sonhar faz parte da vida, e os meus sonhos há muito que me tinham abandonado. Cortaram-mos, impediram-me de os realizar. Este também não vai realizar-se, eu sei, mas enquanto durar vou ser feliz.
Deixa-me ser feliz, meu querido Humberto, e sê tu também feliz, por mim.

Os dias decorriam calmamente, Anita indo para a creche de manhã, com Tiaguinho pela mão, e regressando à tardinha para casa.

Como sempre, sem alteração, o padre ia todas as tardes receber de Anita o relatório do dia, trocando com ela, a medo, olhares carregados de amor, sentindo um frémito de desejo quando, por acaso, ou propositadamente, as suas mãos se tocavam ao entregar os papeis.

E, também como sempre, desde há muito tempo, Anita encontrava, ao chegar a casa, apenas as empregadas.
Vicente agora raramente aparecia antes de jantar, e, quando o fazia, era por breves momentos, para ir buscar alguma coisa que lhe fazia falta.

Dava um beijo de fugida em Anita e no filho, e nem perdia tempo com qualquer explicação.

Saía novamente, para aparecer no dia seguinte, muitas vezes já depois de Anita ter saído de casa. Passavam-se dias que mal trocavam meia dúzia de palavras.
Anita não se sentia nada incomodada com isso, pelo contrário, até agradecia que assim fosse, dado que não tinha qualquer interesse em conversar com o marido.

Alguns dias mais tarde, e antes que chegasse carta de Humberto, sucedeu o que seria de esperar.


FIM DO EPISÓDIO XXI

quarta-feira, 22 de abril de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XX

(Ficção baseada em factos reais)

Mantiveram-se assim por um momento, em suspenso, olhando-se nos olhos, sem saber que atitude tomar.

FIM DO EPISÓDIO IXX
div style="text-align: justify;">Obs.
Receio que, daqui em diante, o relato da vida de Anita possa ferir algumas susceptibilidades, dado que trata do amor entre ela e um padre.
Como tenho o cuidado de mencionar sempre, no início dos episódios, esta história é baseada em factos reais. Não posso, portanto, omitir estas passagens, aliás das mais importantes na vida de Anita.
Pensei na hipótese de interromper a publicação. Pareceu-me, no entanto, que não seria muito correcto para com os leitores interessados na continuação.
A quem sentir que o relato vai colidir com os seus princípios ou sentimentos, ou a sua maneira de pensar, aconselho não continuar a acompanhar a história.
Pessoalmente devo dizer que este tema (o amor entre uma mulher e um padre) não me perturba minimamente. São apenas dois seres humanos que se amam – o padre não deixa de ser homem quando faz os seus votos, estando, por isso, sujeito às tentações da carne como qualquer outra pessoa.
Não tenho qualquer preconceito em relação a isso. Mas, como respeito todas as opiniões…fica o aviso feito.

EPISÓDIO XX

Lentamente, o padre João segurou o rosto de Anita e beijou-lhe levemente os lábios, com uma ternura contida.
Anita sentiu-se desfalecer, não opondo resistência.
Ajudando-a a pôr-se de pé, o padre João envolveu-a num abraço ansioso, esforçando-se por se acalmar e não deixar extravasar a sua ânsia de a apertar nos braços, apaixonadamente.
Anita deixou-se envolver, retribuindo com a mesma intensidade. Deixou de pensar no que estavam fazendo, não lhe interessando nada além do momento maravilhoso que estava vivendo.

Pouco depois, Anita sentiu se ruborizar ao ouvir o padre João dizer, num tom emocionado:

- Anita, eu lutei com todas as minhas forças. Deus é testemunha do quanto eu Lhe pedi que me ajudasse a arrancar-te do meu peito. Mas foi tudo em vão.
Há muito tempo que te amo, Anita; penso mesmo que comecei a amar-te a primeira vez que te vi…porque desde esse dia muitas vezes me surpreendia a pensar em ti e a desejar que aparecesses.

Enquanto pronunciava estas palavras, o padre olhava Anita nos olhos, segurando o seu rosto entre as mãos, docemente.
Anita sentia-se incapaz de pronunciar uma palavra. Estava demasiado emocionada e feliz; queria apenas viver em pleno o momento presente, sem pensar no certo e no errado.
Isso surgiria mais tarde.

Estendendo os lábios beijou ao de leve a boca do padre João e desprendeu o rosto das suas mãos, afastando-se em seguida.

- É muito tarde, tenho que ir para casa…

O padre não tentou retê-la, concordando que era, de facto, tarde, e o atraso de Anita poderia suscitar suspeitas em casa.

Depois de ter jantado sozinha, Anita dirigiu-se a casa dos pais para ir buscar Tiaguinho.

Encontrou-o felicíssimo, brincando com o avô, trocando “figurinhas”.
Quando a mãe lhe lembrou que eram horas de ir para a caminha, Tiaguinho pediu:

- Mãe, posso dormir aqui em casa dos vôs?
- Claro que não, Tiaguinho. Mas que ideia é essa agora?
- A vó disse que tem muitas saudades minhas, que só o jantar não chega, precisa mais tempo para matar as saudades…

Anita voltou-se para Eulália:

- O que é que a mãe anda a meter-lhe na cabeça? Que disparate é esse de dormir cá em casa?
- Não é disparate nenhum. Até parece que não tens confiança em mim para tomar conta do teu filho… - retorquiu Eulália, em tom de amuo.

- Oh mãe! Claro que tenho em si toda a confiança do mundo! Não é nada disso, é que não estava nada à espera dum pedido destes… Apanhou-me mesmo de surpresa…
- Eu entendo-te muito bem, minha filha. Estás a passar pelo mesmo que eu passei: o teu filho está a crescer, a querer ganhar asas, e tu não estás preparada para isso. Mas tens que te habituar.

Quando perguntei ao Tiaguinho se ele queria dormir cá, porque eu tinha muitas saudades, ele pôs-se aos saltos e disse logo que sim.
Se lhe tivesse feito a mesma pergunta há tempos atrás, possivelmente pensaria numa desculpa para recusar. Vinha logo com a conversa de que não queria deixar-te sozinha, ou qualquer outra coisa que não me magoasse. Sempre foi um menino muito amoroso.

Anita olhou atentamente para a mãe, pensando:

- A minha mãe é tão inteligente, tão conhecedora da vida, e quando mais precisei dela, quando estava apaixonada por Arnaldo, falhou-me.

FIM DO EPISÓDIO XX

quinta-feira, 16 de abril de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO IXX

(Ficção baseada em factos reais)

- Porquê nos afastamos precipitadamente, como se o contacto mútuo pudesse queimar-nos?
- Porquê? Porquê? Porquê?

FIM DO.EPISÓDIO XVIII

EPISÓDIO IXX

Como uma luz que, de repente, se acende na escuridão, Anita lembrou-se de Arnaldo.
- Não, não pode ser! Eu não estou a apaixonar-me pelo padre João!

Pôs rapidamente no chão a criança que tinha no colo, e levantando-se precipitadamente, gritou: NÃO!
Todas as cabeças se voltaram para ela.
Balbuciou um rápido “desculpem, preciso ir já a casa, não me demoro”, - e saiu quase a correr para a rua.

Por cerca de meia hora caminhou sem destino, tentando acalmar aquela verdade que lhe martelava o cérebro: estou apaixonada!

Não queria acreditar, mas a sensação que tinha era exactamente igual à dos tempos em que amara Arnaldo.
Sentiu-se horrorizada.

Encaminhou-se para a Igreja, que não distava muito da creche, ajoelhou-se e, com os olhos fechados e as mãos apertadas convulsivamente, apenas conseguiu murmurar:



- Meu Deus, por favor! Faz com que isto não seja verdade. Isto não pode acontecer. Ajuda-me, Senhor!

Silenciosamente engoliu as lágrimas que teimavam em assomar aos seus olhos. Manteve-se assim uns minutos.
Mais calma dirigiu-se à creche, onde se notava uma ligeira agitação, motivada pela sua saída intempestiva.

À hora da saída não esperou a habitual chegada do padre. Pediu a dona Teresinha que a desculpasse junto dele por não lhe fazer o habitual relatório do dia, mas tinha urgência em sair.
- Amanhã falarei com ele - rematou.

Em casa voltou a sentir-se muito angustiada, e lamentou não ter Humberto junto de si, para poder desabafar e aconselhar-se.
Depois de jantar resolveu escrever-lhe.
Contou-lhe o sucedido nessa manhã; falou da desconfiança acerca dos seus próprios sentimentos, ao mesmo tempo que os repudiava; jurava que não queria apaixonar-se, e muito menos por um padre.

Toda a carta era um grito, um pedido de socorro!

Nos dias que se seguiram, Anita tentou proceder com naturalidade.
Com grande esforço conseguia, todas as tarde, esperar pelo padre, a quem fazia, como sempre, o relatório do dia. Mas agora tinha o cuidado de conservar Tiaguinho junto de si, ao contrário do que acontecia anteriormente. O menino começara por refilar mas, habituado a obedecer às ordens da mãe, rapidamente se aquietara.

Uma semana mais tarde Eulália apareceu na creche. Precisava falar com o padre – na realidade ia apenas entregar-lhe uma contribuição para as suas obras – e lembrara-se de passar por ali para ver a filha e o netinho.
Tiaguinho adorava a avó, que lhe fazia todas as vontades.
Logo que a viu atirou-se-lhe ao pescoço, beijocando-a, e pedindo: vovó, quero ir jantar contigo e com o vô.
Eulália olhou interrogativamente para Anita que, sorrindo, aquiesceu.

À hora habitual apareceu o padre João que se dirigiu a Eulália com o melhor dos sorrisos.
Chamando-o um pouco à parte, entregou-lhe o envelope que o marido mandara.
Dirigindo-se a Tiaguinho, segurou a sua mãozinha e encaminhou-se para a saída. Rapidamente Anita disse:

- Minha mãe, espere um pouco. Vou só apresentar o relatório ao padre João, e saio já convosco.

- Não, minha filha. Tenho que ir já para ultimar o jantar. Com o Tiaguinho lá preciso fazer aquela sobremesa que ele adora…

Anita foi, assim, forçada a aceitar a resposta da mãe.

Todos tinham saído. Anita encontrava-se, pela primeira vez desde há uma semana, a sós com o padre João.

Este sentia-se tão pouco à vontade e contraído quanto Anita que, falando precipitadamente, começou a contar-lhe como tinha decorrido o dia, ao mesmo tempo que lhe mostrava as facturas das contas para pagar, que o carteiro havia trazido naquele dia.

As suas mãos tremiam de tal modo que deixou cair ao chão parte dos papéis. Ambos se baixaram ao mesmo tempo para os apanhar, e, nesse movimento, ficaram muito próximos um do outro, quase a tocarem-se, e as mãos tão próximas que sentiam o calor dumas nas outras.
Mantiveram-se assim por um momento, em suspenso, olhando-se nos olhos, sem saberem que atitude tomar.

FIM DO EPISÓDIO IXX

quinta-feira, 9 de abril de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XVIII

(Ficção baseada em factos reais)

Sem que nenhum deles se apercebesse estava surgindo uma grande cumplicidade entre ambos, e, a cada dia que passava, tornavam-se mais agradáveis os momentos que passavam juntos, os quais, inconscientemente, tentavam prolongar o mais possível.

FIM DO.EPISÓDIO XVII

EPISÓDIO XVIII

Anita continuava a manter a mesma correspondência de sempre com Humberto, a quem relatava tudo o que ia acontecendo.
O enteado respondia-lhe com a regularidade habitual, manifestando o seu contentamento por ver como Anita se sentia feliz e quase realizada.
Notava, contudo, nas entrelinhas, que havia momentos em que o espinho chamado Arnaldo ainda a magoava.

De facto, ultimamente, nas suas cartas, Anita aludia muitas vezes, embora de forma velada, ao que fora o grande amor da sua vida.

Isto devia-se ao facto de, nos últimos tempos, especialmente depois das conversas com o pároco, ela se lembrar de Arnaldo com mais frequência.
Quando chegou o final do ano escolar Humberto regressou à sua ilha, e, como de todas as vezes, ele e Anita uniram-se num forte abraço, cheio de ternura.

Como na época de verão havia menos crianças na creche porque as mães gozavam as suas licenças e ficavam com os filhos em casa, Anita e as duas companheiras dividiam os dias de forma a poderem, também elas, terem os seus dias de férias.

Não recebendo qualquer remuneração pelo seu trabalho, Anita não queria, contudo, gozar de qualquer privilégio, e assim, o seu período de férias era igual ao das suas duas companheiras.

Como acontecera no ano anterior, quando Humberto viera passar as suas férias escolares à ilha, também agora davam belos passeios, sempre na companhia de Tiaguinho.
Anita sentia-se verdadeiramente feliz, como não o era desde há muitos anos.

Humberto achou-a diferente, mais madura, mais segura de si, ao mesmo tempo que sentia que Anita, por vezes, se alheava enquanto conversavam. Ao fazer-lho notar, apercebeu-se de um ligeiro rubor na sua face, e um certo constrangimento ao responder:

- Não sei porque dizes isso…Eu ouço-te com a mesma atenção de sempre.
O que notas é talvez um certo cansaço. Bem sabes que eu não estava habituada a trabalhar ao ritmo a que trabalho agora. E ao fim do ano escolar todos os professores, e também os alunos, se sentem cansados. Não se passa o mesmo contigo?

Humberto, olhando-a muito sério, retorquiu:

- Anita, sabes que a minha amizade por ti não me deixa mentir-te. O que noto em ti não tem nada a ver com cansaço. Tu estás diferente;
sinto-te distante, como se alguma coisa se nos tivesse entreposto, causando-te um certo afastamento…
Por favor, confia em mim, como sempre fizeste. Diz-me o que se está passando.

- Mas o que queres que te diga? A sério, não se passa nada de especial. Sinto-me muito bem, realizada, agora que estou ajudando a construir um futuro melhor para aquelas crianças e as suas mães…
Acredita que não tenho nada, apenas me sinto um pouco cansada.
Eu não me tinha apercebido, mas estava mesmo a precisar de férias.

Humberto não insistiu, mas todo o tempo que esteve na ilha não serviu para dissipar a preocupação que manifestara à madrasta.
E regressou a Inglaterra convicto de que Anita estava a esconder-lhe algo.

Quando Anita retornou ao trabalho sentiu que, à medida que se aproximava da creche, o seu coração batia a um ritmo cada vez mais acelerado, e pensou consigo mesma:
- Mas que disparate. Pareço uma menina de 15 anos, que vai encontrar-se com o namoradinho. Tem juízo, Anita! És uma mulher com vinte e seis anos, casada, com um filho… porquê todo esse alvoroço? Vais apenas retomar o teu trabalho, nada mais.

Mas de nada valeu a auto admoestação. Com Tiaguinho pela mão, sentia-se a tremer interiormente, com as pernas a fraquejar. Resolveu sentar-se uns momentos no banco do jardim que havia perto da creche.
Foi Tiaguinho que a obrigou a levantar-se, puxando-a pela mão, excitado com a ideia de ir encontrar-se com os seus coleguinhas.
Ao aproximar-se viu que o padre João já a aguardava, junto à porta.

Sem pensar, encaminharam-se ambos para um abraço, que interromperam, contrafeitos, ao aperceberem-se de que não seria um procedimento muito correcto.
Ficaram ambos sem saber o que dizer, até que Tiaguinho salvou a situação, chamando a mãe para entrarem.

Anita passou todo o dia ansiosa e preocupada com o que acontecera nessa manhã.
Os seus sentimentos estavam num verdadeiro torvelinho; sentia-se incapaz de entender o se passava consigo.
Pensava, angustiada:
- Porquê me perturbou tanto a aproximação do padre João?
- Porquê não demos naturalmente um abraço como dois bons amigos que estiveram uma temporada sem se ver?
- Porquê nos afastamos precipitadamente, como se o contacto mútuo pudesse queimar-nos?
- Porquê? Porquê? Porquê?

FIM DO EPISÓDIO XVIII


quinta-feira, 2 de abril de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XVII

(Ficção baseada em factos reais)

Lá fora respirou fundo. Sentia o coração a transbordar de amor por Anita, e não queria que ela se apercebesse.
Pouco tempo depois regressou, já calmo, para passar o serão com a madrasta.

FIM DO.EPISÓDIO XVI

EPISÓDIO XVII

No dia seguinte Anita comunicou a Vicente o que planeara fazer relativamente à creche da igreja.
Falou num tom aparentemente seguro e convicto, disfarçando o receio que sentia pela reacção que ele poderia ter.
Mas, contra as suas expectativas, Vicente apoiou a ideia, até com certo entusiasmo, acrescentando:

- Acho que é uma óptima ideia. E podes dizer ao padre João que ajudarei em tudo o que for necessário. É urgente a abertura dessa tão prometida creche. A cidade ficará beneficiada, e as mães trabalhadoras poderão dedicar-se mais ao trabalho, sabendo que seus filhos estão bem entregues, e em segurança. O padre que me diga depois o que é que precisa.

E dando um beijo ao de leve na mulher, foi, como sempre, tratar dos seus negócios.

Anita, exultando de alegria, dirigiu-se de imediato à Igreja, para comunicar ao padre tudo o que seu marido dissera, expondo-lhe o seu plano para trabalhar na creche.

O padre, mal podendo acreditar no que ouvia, exultou, de alegria.

Cheios de entusiasmo começaram logo a traçar planos, anotando todos os materiais necessários para que, sem perda de tempo, pudessem começar as obras no edifício que viria a ser a creche, e que ficava em frente da casa paroquial, apenas separada por um estreito caminho.

Ao tomar conhecimento das decisões do pai, Humberto partilhou da alegria de Anita, e enquanto duraram as férias, empregou grande parte do seu tempo ajudando no que era possível.
Isso não os impediu de darem grandes e agradáveis passeios, sempre acompanhados por Tiaguinho, que crescia forte e saudável.

Mais rapidamente do que desejavam as férias chegaram ao fim, e impunha-se o regresso de Humberto a Inglaterra.
Mais uma triste despedida na vida de Anita!
Contudo, desta vez, o adeus foi menos doloroso, dado o entusiasmo com que via progredirem as obras da creche.

Em breve começou a comprar o mobiliário – alguns berços e caminhas, mesas, cadeiras, enfim, tudo o que era necessário para tornar confortável aquele que seria o espaço onde muitas crianças iriam passar a maior parte das horas do dia.
O pároco já conseguira contratar outra senhora para tomar conta das crianças que, juntamente com D. Teresinha e Anita, constituiriam o “corpo docente” da creche.

Finalmente, no início de Outubro, procedeu-se à inauguração.

O padre João, depois da missa na igreja, dirigiu-se para a creche, onde o aguardavam cerca de trinta crianças acompanhadas das mães e alguns, poucos, pais, que se notava serem-no pela primeira vez.
Depois duma breve bênção ao edifício, foram abertas as portas. Na sala encontrava-se uma mesa posta com pequenos bolos e copos de leite e café para oferecer às mães das crianças.
E assim, com uma cerimónia bem simples mas cheia de significado, foi inaugurada a creche paroquial.

A partir desse dia a vida de Anita adquiriu um novo colorido.
Acompanhada de Tiaguinho, todas as manhãs se dirigia para a creche, onde passava o dia tomando conta das crianças, nas quais se incluía o seu filho.

Era um trabalho que a encantava. Normalmente as suas companheiras tomavam à sua conta as crianças mais pequeninas, ficando à sua guarda as maiorzinhas, entre os três e os cinco anos.
Anita começava a orientá-las para as primeiras letras, dando, assim, uso aos ensinamentos que colhera no seu curso de professora.

Com danças de roda, cantiguinhas e lengalengas, os dias corriam serenos e felizes.
Podia dizer-se que Anita vivia para a creche e os seus meninos e meninas, que a adoravam.
Sem falhar um dia, à hora do almoço e ao fim do dia, o padre João passava pela creche.
Anita punha-o ao corrente de tudo o que acontecia com as crianças, transmitindo-lhe alguma chamada de atenção que fosse necessário dirigir aos paroquianos, principalmente quando se verificava alguma quebra nas habituais ajudas.

Talvez por haver um grande entendimento entre ambos, tudo funcionava lindamente.

Muitas vezes, depois de tratados os assuntos da creche, ficavam a conversar sobre os mais variados temas, esquecendo-se das horas que passavam. Aconteceu algumas vezes Tiaguinho “reclamar” que tinha fome, para se aperceberem de que eram horas de cada um seguir para sua casa.

Sem que nenhum deles se apercebesse estava surgindo uma grande cumplicidade entre ambos, e, a cada dia que passava, tornavam-se mais agradáveis os momentos que passavam juntos, os quais, inconscientemente, tentavam prolongar o mais possível.

FIM DO.EPISÓDIO XVII

quinta-feira, 26 de março de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XVI

(Ficção baseada em factos reais)
...
- Padre, o senhor já esteve noutras paróquias onde havia creches. Deve ter uma ideia de quantas pessoas são precisas para pôr a funcionar esta que vai abrir…

FIM DO.EPISÓDIO XV

EPISÓDIO XVI

- É verdade, Dona Anita, todas as paróquias por onde passei tinham creches. E posso dizer-lhe que o ideal é que uma senhora não fique com mais de dez crianças a seu cargo.
Sabe que algumas ainda são bebés, é preciso dar o biberão, trocar as fraldas…
- Eu sei, padre João, ainda há pouco tempo passei por isso, com o Tiaguinho.
Mas eu estava aqui a pensar que talvez eu mesma pudesse dar uma ajuda…
Deixe-me pensar melhor no assunto, e talvez amanhã já possa dizer-lhe alguma coisa.
- Isso seria bom demais, Dona Anita. Todas as ajudas que recebermos serão bem vindas.

Despediram-se do padre e, em vez de se dirigir na direcção do colégio, Anita voltou-se para regressar a casa.
Eulália, estranhando, perguntou:
- Então, minha filha, já não queres ir hoje ao colégio?
- Não, minha mãe. Enquanto ouvia o padre João surgiu-me uma ideia que me parece muito boa, mas preciso amadurecê-la…
- Sim? E posso saber que ideia é essa?
- Claro que pode, minha mãe, mas só depois de eu decidir se vou pô-la em prática.
Esboçando um sorriso, fez uma ligeira festa no rosto da mãe, e não acrescentou mais nada.

Eulália, conhecendo Anita, sabia que ela não adiantaria mais nada sobre o assunto.
Propôs-lhe irem até ao parque, onde respirariam ar fresco.
Tiaguinho aproveitou para exercitar as pernitas ainda pouco habituadas a andar.

Nesse mesmo dia, ao jantar, Anita disse a Humberto:
- Tenho uma coisa para te contar…
- É relacionada com a tua ida ao colégio?
- É e não é…Eu não fui ao colégio.
- Não??? E porquê? Desististe da ideia de dar aulas?
- Não, de modo algum! Apenas alterei um pouco as minhas intenções. Ora escuta:

O padre João vai abrir uma creche, mas está lutando com grandes dificuldades. O número de crianças previsto deve rondar as trinta, e ele tem apenas uma pessoa para tomar conta delas.
Pela experiência que ele tem, sabe que precisa de três pessoas.
O problema que se levanta é que a paróquia não tem recursos para pagar a três pessoas; com esforço, poderá pagar a duas. Mas, nessas condições, ficariam muito sobrecarregadas de trabalho, o que se iria reflectir no tratamento e atenção a dar às crianças.
Então eu pensei assim:

Em vez de ir dar aulas para o colégio – o que poderia não acontecer, pelo menos este ano – vou para a creche.
Como sabes, o meu interesse em arranjar emprego não é para ganhar dinheiro, que não preciso, mas sim para estar ocupada.

Trabalhando na creche, sem receber ordenado, ficam todos a ganhar.
Em primeiro lugar as mães, que mais depressa podem lá pôr os seus filhos; depois o padre, que pode concretizar mais rapidamente o seu sonho; e finalmente eu – a principal beneficiada – porque não vou ter que me separar do Tiaguinho.
Embora fosse só uma parte do dia, enquanto estivesse a dar aulas no colégio, sei que me ia custar bastante, até me habituar. E o Tiaguinho também ia sofrer ao ver-se afastado de mim…

Humberto não a interrompeu. Limitou-se a ouvi-la, em silêncio, apreciando, deliciado, o calor com que ela falava à medida que explanava a sua ideia. E sentiu crescer, dentro de si, o amor e admiração que sentia pela madrasta.
Tentando disfarçar a comoção, falou, finalmente, em tom meio brincalhão:
- Tu és única, mãezinha. Não há ninguém igual a ti!

E dando-lhe um pequeno piparote no nariz, voltou-se para a janela, parecendo muito interessado na escuridão que estava lá fora. Disse:
- Vou sair por uns minutos. Prometi ao meu amigo Joaquim levar-lhe uns panfletos que trouxe da Inglaterra.
Mas não me demoro, prometo.

Passou pelo seu quarto a buscar uns papéis e saiu.
Lá fora respirou fundo. Sentia o coração a transbordar de amor por Anita, e não queria que ela se apercebesse.
Pouco tempo depois regressou, já calmo, para passar o serão com a madrasta.

FIM DO EPISÓDIO XVI

domingo, 22 de março de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XV

(Ficção baseada em factos reais)

- Ele acaba por se habituar…e olhe que para mim também não vai ser fácil estar sem ele umas horas. Sei que ao princípio me vai custar, mas tem que ser! – acrescentou Anita, resolutamente.

FIM DO.EPISÓDIO XIV
EPISÓDIO XV

E continuou:
-O que eu pretendo é ir dar aulas no colégio. A mãe podia vir comigo falar com a directora…que acha? Ou parece-lhe melhor eu ir com o pai?
- Não me importo de ir contigo, e não vejo interesse em que seja o teu pai a acompanhar-te. Afinal, num primeiro contacto, apenas vais informar-te da possibilidade de lá dares aulas, não é? Pode não haver vaga…sei lá!

Anita sentiu-se invadir por um certo desânimo. No meio de todo o seu entusiasmo nem se lembrara da hipótese de não haver vaga no colégio.
Ao ver o seu ar decepcionado, Eulália acrescentou, rapidamente:

- Mas de qualquer modo vamos lá. Não se perde nada por isso. E, se não houver vaga, podes lá deixar a indicação de que pretendes leccionar, e no próximo ano lectivo talvez já consigas…
Deixa-me ir calçar uns sapatos, e vamos lá já. Até porque quero passar primeiro pela Igreja, para entregar umas roupas ao padre. Amanhã é dia de distribuição aos pobres, e ele, coitado, nunca tem que chegue para as necessidades…

Alguns minutos depois estavam a caminho da igreja.
O padre recebeu-as com um sorriso, cumprimentou-as, e logo se voltou para a cadeirinha de Tiago, ao qual fez uma festa no rosto.
- Como este menino é bonito! E como cresceu desde o baptizado!...
- É verdade, padre. Tem-se desenvolvido muito bem, e felizmente é muito saudável…- respondeu Anita.
Eulália, olhando enternecida para o neto, acrescentou:
- Com a graça de Deus, este meu netinho não tem dado preocupações à mãe. Tem tido sempre saúde, sempre comeu muito bem, e tem sempre um sorrisinho nesta carinha bonita…
Mas, padre, falemos doutra coisa. Trouxe aqui estas roupas para os seus pobrezinhos, e deixei separadas, em casa, umas mercearias, que mais logo a empregada vem cá trazer.
Mas diga-me: como vai o projecto da sua creche?
- Vai devagarinho, dona Eulália, vai devagarinho. As dificuldades são muitas…O espaço eu já consegui arranjar, e material também já tenho prometida uma grande parte. Estou a contar com a boa vontade de muitas paroquianas para fornecerem o leite, o pão, umas bolachas…enfim, o que for necessário para alimentar as crianças enquanto cá estiverem.
O senhor António, da mercearia, prometeu dar uma ajuda diária, e o senhor Francisco, da pastelaria, também...logo que a creche comece a funcionar.
- Então, padre, o que lhe falta para abrir essa bendita creche? Olhe que é uma grande melhoria para a cidade, e as mães não vêem a hora de trazerem para cá os seus meninos…
- O que falta, dona Eulália? Falta quem prepare o espaço, porque precisa ser tudo pintado, madeiras arranjadas, alguns vidros estão partidos…
- Ora, padre, isso não vai custar nenhuma fortuna. Vou falar com o meu marido, a Anita fala com o marido dela, e com mais algumas ajudas depressa se junta o dinheiro para fazer esses arranjos.
- Ó dona Eulália, eu nem sei como lhe agradecer.
Sendo assim, depois só fica a faltar arranjar alguém que queira vir tomar conta das crianças. É porque a dona Teresinha, que é a única que pode vir para cá, não consegue, sozinha, tomar conta de tantas crianças.
- Mas são assim tantas, padre?
- As mães que se mostraram interessadas, já passam de vinte, é capaz até de chegar às trinta. Para elas a creche é uma coisa muito boa, podem ir trabalhar descansadas…Há muitas senhoras que não gostam que elas levem as crianças para o trabalho…
Já vê, uma pessoa só, não dá…e o problema para arranjar mais pessoas é que o ordenado não poder ser muito grande…a paróquia tem poucos recursos…

Anita assistia à conversa, em silêncio, com um ar pensativo.
Imaginava uma sala bem arejada, limpa, com muita luz e cores bem alegres, cheia de crianças de tenra idade, algumas ainda bebés, outras gatinhando, outras ainda, cambaleantes, ensaiando os primeiros passos…
Era uma visão enternecedora.
Voltando-se para o padre, disse:
- Padre, o senhor já esteve noutras paróquias onde havia creches. Deve ter uma ideia de quantas pessoas são precisas para pôr a funcionar esta que vai abrir…

FIM DO EPISÓDIO XV

quinta-feira, 12 de março de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XIV

(Ficção baseada em factos reais)

Mas para isso não é necessário um curso, a própria vida o ensina…
Achas que tenho razão para me sentir vazia, ou isto é puro egoísmo?

FIM DO.EPISÓDIO XIII
EPISÓDIO XIV

Humberto envolveu-a num terno abraço, respondendo:
- Claro que não é egoísmo, Anita. Eu entendo-te muito melhor do que possas imaginar. Já atravessei um período em que me sentia exactamente assim.

Curiosamente, depois que te casaste com o meu pai e vieste viver para esta casa, esse mau estar foi desaparecendo, até deixar de existir.

Quando penso no percurso que fiz, desde o teu casamento até hoje…Agora já sorrio interiormente. Quando formos os dois bem velhinhos havemos de voltar a falar nisto. Por agora vamos apenas pensar em ti, e tentar levantar esse teu moral.

Vejamos, tu já pensaste em leccionar? Tens o curso de professora, podes dedicar-te ao ensino. Ou não gostavas?...

- Claro que gostava, e muito! Tirei exactamente o curso que queria tirar, com a finalidade de ensinar as crianças. Sabes como gosto delas. Mas essa hipótese só seria viável daqui por mais de um ano, pois já não estou a tempo de concorrer à escola, para este ano lectivo.
E como hei-de aguentar mais um ano?

- Estás a esquecer-te do colégio. Para lá não precisas concorrer. O meu pai pode dar uma ajuda, falando com a directora. Como sabes, ele tem dado para lá subsídios; certamente atendem um pedido que ele faça…

-Preferia não meter o teu pai nisto. Vou antes falar com os meus pais. A directora certamente também atenderá um pedido do meu pai.

- Sim, talvez seja uma boa ideia…

- Ai, Humberto, nem sabes o alívio que sinto! Para te dizer a verdade, eu já tinha pensado nisso, mas achei que era um disparate.
Agora, a ideia partindo de ti, já me parece muito mais razoável.
Amanhã mesmo vou falar com a minha mãe.

- Calma! Tens quase dois meses à tua frente. Para quê essa pressa toda?

- Pois tu não entendes, Humberto? Eu sinto-me leve, quase a voar!
Não quero que nada possa impedir este plano que acabamos de idealizar. Quanto mais depressa se falar com a directora do colégio, mais hipóteses tenho de ser aceite.

- Tens razão, como sempre.
Amanhã, enquanto vais falar com os teus pais, vou encontrar-me com uns amigos, e depois, se quiseres, podemos ir almoçar juntos. Que te parece?

- Parece-me uma ideia excelente! Aliás, da maneira como me sinto, tudo o que possas dizer só pode ser excelente.
E, lançando os braços à volta do pescoço de Humberto deu-lhe dois sonoros beijos.

Nessa noite Anita mal conseguiu conciliar o sono, tão grande era a sua excitação.
Levantou-se ao raiar do dia, e quando se apresentou na sala para tomar o pequeno-almoço, já estava pronta para sair de casa.

Empurrando a cadeirinha de Tiago dirigiu-se a casa dos pais. O pai já tinha saído para o escritório, por isso expôs à mãe os seus planos.
A mãe ouviu-a atentamente, e no fim, observou:

- Eu compreendo-te muito bem, minha filha. Também comigo aconteceu, algumas vezes, desejar não ser apenas mãe e dona de casa.
Mas nunca pude passar disso, não tinha habilitações para mais.
Tu tens o teu curso, podes fazer uso dele. Mas, não podes esquecer uma coisa. O Tiaguinho ainda é muito pequenino, precisa de ti.
Vais ter que esperar que ele cresça um pouco, e depois poderás, então, pensar em dar aulas.

- Não, minha mãe, não vou esperar que o Tiaguinho cresça. Ele já não é assim tão pequenino. Já fez um ano, já dá uns passinhos, já não o amamento…portanto posso dispor de algumas horas longe dele.

- E achas que ele não vai sentir a tua falta? Ele está muito agarrado a ti. Não vês que até para ficar comigo, se precisas ir a algum lado sem ele, começa sempre por fazer beicinho?

- Ele acaba por se habituar…e olhe que para mim também não vai ser fácil estar sem ele umas horas. Sei que ao princípio me vai custar, mas tem que ser! – acrescentou Anita, resolutamente.

FIM DO EPISÓDIO XIV

quinta-feira, 5 de março de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XIII

(Ficção baseada em factos reais)

Duas semanas depois do baptizado de Tiago, Humberto partiu para Inglaterra.

FIM DO.EPISÓDIO XII
EPISÓDIO XIII



A despedida foi dolorosa para ambos.
Anita não se preocupou em ocultar as lágrimas, deixando-as deslizar livremente pelo rosto.

Havia bastante tempo que deixara de se preocupar com o que Vicente poderia pensar da sua amizade com Humberto.
Sentia uma grande mágoa pela partida do enteado, e manifestava-a abertamente.

Os dias seguintes foram difíceis de passar, pois sentia-se muito sozinha.
Vicente continuava a sair todas as noites, não se incomodando por saber que agora Anita nem tinha a companhia do enteado.

Depois de jantar sozinha, apenas com Tiago por companhia, deitado no seu carrinho, Anita escrevia a Humberto. Era uma espécie de diário, onde ela descrevia como passara o dia, os seus pensamentos, as preocupações, as “gracinhas” de Tiago…

Uma vez por semana fazia a carta seguir para o correio, e recebia uma de Humberto, do mesmo género das que ela escrevia.

Lentamente foi criando novas rotinas.
Saía de casa empurrando o carrinho de Tiago, e ia a casa da mãe, que morava a uma certa distância; aproveitava, assim, para fazer um pouco de exercício, agora que se sentia completamente recuperada.
No regresso passava pela Igreja. Ajoelhava-se, rezava as suas orações, e saía com a alma mais tranquila e fortalecida.
Algumas vezes cruzava-se com o pároco, demorando-se um pouco em amena conversa.

Os meses sucederam-se rapidamente; chegou o tempo de férias escolares, e com ele o regresso de Humberto.
Anita não cabia em si de contente ao receber o enteado num forte abraço.

Humberto maravilhou-se com o desenvolvimento do seu afilhado, que já ensaiava os primeiros passos.
Recomeçaram as longas conversas ao serão. Humberto falava dos seus estudos, do dia a dia em Inglaterra, das amizades que por lá fizera…

Ao ouvi-lo, Anita sentia uma ligeira ponta de ciúme. Sentia que Humberto vivia uma vida em pleno, longe dela; e se, por um lado, isso a alegrava, por outro não podia deixar de comparar o que ele, entusiasticamente lhe descrevia, com a sua própria existência. Começava a sentir um grande vazio.
Um dia desabafou com o enteado.
- Sabes, Humberto, sinto que estou a viver uma vida sem sentido. Não saio nunca desta rotina, de fazer todos os dias a mesma coisa…
- Mas nas cartas que trocamos nunca mo deste a entender…Parecias feliz, tratando do Tiaguinho, visitando a tua mãe, conversando com o novo padre…Pareceu-me, até, que estava a despontar uma certa amizade entre ti e o pároco…
O que se passa, “mãezinha”? E acrescentou com ar brincalhão – alguma crise existencial?
- Tu não me levas a sério, nunca ninguém me levou a sério…- e uma lagrimita começou a bailar-lhe nos olhos.

Humberto apercebeu-se de que o assunto era mesmo sério. Abandonou o seu ar brincalhão, pegou-lhe nas mãos, e dando-lhe um beijo rápido na face, disse:
- Não quero voltar a ver esse ar triste no teu rosto. Vamos lá conversar calmamente. Quero que me digas tudo o que te preocupa. Não te esqueças que sou o teu melhor amigo, que podes confiar em mim inteiramente. Não sei eu todos os teus segredos?
Abre o teu coraçãozinho – acrescentou com um sorriso, tentando não parecer demasiado solene.

Anita respirou fundo, e, após uma ligeira pausa, desabafou:
- Sinto-me muito mal, Humberto. Uma verdadeira inútil. Ainda agora, ouvindo-te falar na vida que levas em Inglaterra, lembrei-me dos meus tempos de estudante.
Humberto franziu levemente o sobrolho, ao pensar: ainda gosta dele…

Indiferente aos pensamentos de Humberto, Anita continuou:
- Afinal, andei tantos anos a estudar, para quê?
Para orientar uma casa, onde o marido raramente põe os pés, e tratar duma criança?
Eu adoro o meu filho, e nada me dá mais prazer do que tratar dele, tu sabes…
Mas para isso não é necessário um curso, a própria vida o ensina…
Achas que tenho razão para me sentir vazia, ou isto é puro egoísmo?

FIM DO EPISÓDIO XIII

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XII

(Ficção baseada em factos reais)

-Não, ele não merecia ser pai do meu filho. Nada fez para me libertar do compromisso que me obrigaram a manter, contra minha vontade.

FIM DO.EPISÓDIO XI
EPISÓDIO XII

Como era de esperar, um dia chegou à Ilha um padre, que vinha substituir o velho pároco que falecera.
Era um homem novo, simpático, que depressa conquistou as boas graças dos paroquianos. Fez especial sucesso junto ao elemento feminino…

Vicente conversou com Anita para que fossem cumprimentar o novo padre e convidá-lo para sua casa. Afinal, sempre tinham mantido um estreito relacionamento com a Igreja…e o bebé precisava ser baptizado.

Anita aquiesceu, satisfeita com a ideia de voltar a frequentar a Igreja.
Agora, com o filho para cuidar,

não sentia tanto a falta das suas idas lá; mas já era tempo de pensar no baptizado.
Foi, pois, com grande satisfação, que acompanhou o marido à casa paroquial.

Ambos acharam o padre encantador, educado, instruído, muito diferente do velho pároco que viera substituir.
Agradecendo a visita e o convite para os visitar brevemente e com eles jantar, o padre prometeu-lhes um lindo baptizado para o menino.

À noite, depois do jantar, de novo sozinha com Humberto, Anita perguntou:
- Já conheces o padre João?
- Sim, cruzei-me com ele, há dias. Achei-o simpático. Cumprimentou-me com uma ligeira vénia, e um sorridente “Bom dia!”.
- Eu e o teu pai fomos visitá-lo. Convidamo-lo para vir jantar connosco, para combinarmos o baptizado do Tiaguinho.
- Ainda bem! Se continuas a querer-me para padrinho, terás que te apressar.
- E porquê? Corro o risco de mudares de ideia? – perguntou Anita, sorrindo.
- Sabes que nada me poderá dar mais prazer do que ser padrinho do Tiago. Mas já recebi a resposta à minha inscrição na Universidade, em Inglaterra, e falta pouco tempo para as aulas começarem…-disse, com uma sombra de tristeza no olhar.
Anita pôs-se igualmente séria, os olhos brilhantes, uma lágrima prestes a rolar pela face.
- Tenho tentado não pensar nesse assunto, mas isso não impediu que a notícia chegasse… Sei que é egoísmo da minha parte falar assim…afinal trata-se do teu futuro. Eu também fiz o mesmo, fui estudar para fora e afinal para nada…
- Por que falas assim? Pelo menos criaste novos horizontes…
- Sim, e ilusões também. - lembrou-se momentaneamente de Arnaldo -
Mas, como vês, não me serviu para nada estudar. Nunca exerci a minha profissão.
- Pois não, mas porque te casaste logo que acabaste o curso; a seguir veio a gravidez, o Tiaguinho…tiveste compensações…

Anita ficou em silêncio. Aquela conversa trouxera à sua memória o amor que, embora adormecido, ainda continuava vivo dentro de si. Não esquecera Arnaldo, apenas pensava muito pouco nele.
Mas agora, o motivo do seu silêncio magoado era outro. Pensava na partida e na falta que lhe iria fazer Humberto, o enteado que acabara por se tornar no seu querido companheiro de todas as horas, boas e más…

Poucos dias depois realizou-se o jantar oferecido ao pároco, e Vicente nem reagiu quando ouviu Anita dizer:
- Humberto, espero que não tenhas nenhum compromisso para hoje à noite…Quero que estejas presente no jantar com o padre que irá baptizar o teu afilhado…
Humberto limitou-se a enviar-lhe um sorriso cúmplice, não lhe passando despercebido o ligeiro tom de autoridade e segurança que acompanhou as palavras de Anita.
De resto, já tinha notado que, ultimamente, ela se mostrava mais independente, manifestando claramente a sua vontade própria quando discutia com o marido.
Isto agradava-lhe sobremaneira, pois, sendo tão seu amigo, temia que a madrasta mergulhasse em grande desânimo quando ele tivesse que se ausentar.

Duas semanas depois do baptizado de Tiago, Humberto partiu para Inglaterra.

FIM DO EPISÓDIO XII


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

ANITA

ANITA – EPISÓDIO XI

(Ficção baseada em factos reais)
...
Imaginou quanto Humberto deveria ter sofrido com a rejeição do pai. E entendeu, então, porque Vicente não gostava que Humberto estivesse presente nos jantares que ofereciam em casa.

FIM DO.EPISÓDIO X

EPISÓDIO XI

Com um terno sorriso estendeu-lhe a mão, que ele segurou entre as suas, silenciosamente.
A partir dessa noite passou a haver uma grande cumplicidade entre ambos. Humberto foi o primeiro a sentir os “pontapés” do bebé, quando este começou a mexer-se.

Com o ventre cada vez maior, Anita começou a ter dificuldade em mover-se com a agilidade habitual, começando a espaçar as suas visitas à Igreja. Por outro lado, o velho pároco andava bastante adoentado, deslocando-se menos vezes a casa de Anita, para os lanchinhos que ele tanto apreciava.
Todos insistiam para que fosse ao médico, mas ele opunha-se, resmungando:
- Não estou doente, estou apenas um pouco cansado. Os anos pesam, mas a idade não é doença. Não preciso de nenhum médico.

O próprio clínico, no fundo, dava-lhe razão. Com os seus quase oitenta anos, tendo levado sempre uma vida sacrificada em prol dos mais desfavorecidos, não admirava que o seu organismo estivesse cansado e falho de forças.
Na verdade, nenhum remédio poderia alterar estes factos.

Um dia… deu-se o inevitável: o velho pároco entregou a alma ao Criador!
A cidade, em peso, lamentou a sua morte, e acompanhou-o à última morada.
Especialmente entre os mais pobres viam-se muitos rostos cobertos de copiosas lágrimas. Haviam perdido um grande amigo e protector.
Anita ficou inconsolável. Recriminava-se a si própria por não ter insistido mais para que o padre cuidasse da sua saúde.

Valeu-lhe, nessa hora terrivelmente difícil, a amizade de Humberto, que a rodeou de todo o carinho, confortando-a, preocupado com o seu estado de avançada gravidez.




Também Vicente se mostrou particularmente compreensivo e cuidadoso com o estado de Anita, lamentando a morte do pároco, por quem nutria uma amizade respeitosa.

Talvez a forte emoção tenha acelerado um pouco a hora de Anita dar à luz; contudo, a gravidez encontrava-se praticamente no seu término, e assim ela teve um parto perfeitamente normal, embora bastante demorado.

Dois dias passados no hospital e Anita regressou, feliz, a sua casa, ao lado do seu marido, trazendo nos braços um lindo e forte menino.
Nunca se sentira tão feliz na sua vida!
Aguardava-a Humberto, radiante e ansioso por pegar no colo o seu irmão.
A casa ressumava felicidade.

Vicente, contrariamente ao que vinha acontecendo nos últimos meses, compareceu aos jantares durante uma semana, todos os dias.
Mostrava-se atencioso com Anita, interessando-se pelo bebé: como tinha passado o dia, se tinha mamado bem, se não tinha chorado…

Humberto, embora tivesse preferido passar os serões sozinho com Anita, sentia-se feliz por ver que o pai parecia ter esquecido as noites de “esbórnia”, e acompanhava Anita, que se sentia ainda bastante fragilizada,
no momento em que ela mais precisava,
Mas tudo isto foi de curta duração, pois, pouco mais de uma semana depois do nascimento do bebé, Vicente retomou as suas saídas nocturnas, a princípio após o jantar, alegando encontros de negócios, e em breve indo mesmo jantar fora de casa.

Com o decorrer dos dias tudo voltou a ser como anteriormente.
Vicente regressava do trabalho, à tarde, dava um beijo distraído à mulher, lançava um rápido olhar ao bebé, mudava de roupa e saía, aparecendo apenas no dia seguinte de manhã.

Anita não se preocupava nada com o procedimento do marido, tratando-o, como sempre, com mal disfarçada indiferença. Aliás, até lhe agradava que assim fosse – seria uma garantia de que o marido não a procuraria para que cumprisse os seus deveres matrimoniais.

Dedicava-se ao seu filho, que crescia forte e saudável. Conversava com Humberto, após o jantar, ambos vigiando o sono do bebé.
A sua vida decorria calma, quase feliz. Apenas uma dor muito fina ainda acordava no seu peito sempre que se lembrava de Arnaldo. Mas rapidamente o afastava do pensamento:
- Não, ele não merecia ser pai do meu filho. Nada fez para me libertar do compromisso que assumiram em meu nome e me obrigaram a manter, contra minha vontade.

FIM DO EPISÓDIO XI