sexta-feira, 1 de novembro de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XIV

SEGREDOS – CAPÍTULO XIV


SEGREDOS – CAPÍTULO XIII
“…Um dia, inesperadamente, já que, durante o dia, Alessandro não telefonava, Nanda olha para o visor do telemóvel que começara a tocar e vê, algo apreensiva, que quem lhe estava ligando era o seu namorado…”

SEGREDOS – CAPÍTULO XIV
Falando apressadamente Alessandro pediu-lhe que fosse ter com ele à porta da Faculdade de Ciências, onde ele trabalhava, pois precisava falar com ela urgentemente.
Nanda, com o coração apertado, dirigiu-se o mais depressa que pôde para o local indicado. Ele já a esperava, e mal a viu apertou-a com uma força inabitual.
- Amore mio, tenho uma notícia muito triste para te dar… - pronunciou estas palavras em voz entrecortada, mantendo-a apertada nos braços.
Nanda afastou-o suavemente e com voz trémula perguntou:
- O que se passa? Estás a deixar-me nervosa.
- Amore, ligaram-me de Milão. Tenho de lá ir imediatamente. Não percebi muito bem… mas parece que acabaram de fazer uma descoberta relacionada com a minha investigação aqui… e precisam que eu vá ver e colaborar na continuação dos trabalhos.
- E sabes, ao menos, por quanto tempo vais lá estar? – Nanda gaguejou a pergunta.
- Também não sei, amore mio, mas quando lá chegar e souber, informo-te imediatamente – havia lágrimas escondidas na voz de Alessandro.
Nanda encostou-se de novo ao corpo do namorado e deixou as lágrimas correrem-lhe pela face. Não conseguia pronunciar uma palavra. Estava em choque. Como poderia continuar a viver sem as tardes que passavam juntos, quer no Ap. quer passeando à beira rio? Rapidamente pensou na hipótese de ir com ele. Mas imediatamente pôs a ideia de parte. As aulas tinham começado há duas semanas, não podia ausentar-se agora. Se ainda estivesse de férias… arranjaria uma mentirinha qualquer para dizer aos pais…
Alessandro interrompeu-lhe os pensamentos:
- Amore mio, o que vais fazer agora?
- Ainda tenho uma aula hoje…
- E tens mesmo de ir? Não queres ajudar-me a fazer a mala? O avião é amanhã de manhã, e já arrumei tudo no trabalho…
Nanda não hesitou um segundo:
- É claro que te vou ajudar! As aulas estão no início, praticamente não damos matéria. Vou contigo, sim. E depois, se quiseres, podemos ir jantar a qualquer lado – insinuou.
- É uma ideia excelente! É o nosso jantar de despedida – acrescentou ele, com voz triste.
- Deixa-me só avisar a minha Mãe de que vou chegar mais tarde.
Nanda ligou à mãe e, para além de lhe dizer que não chegaria a horas do jantar porque ia para casa duma colega passar a limpo apontamentos das aulas, ainda acrescentou que, se acabassem muito tarde, dormiria lá. A mãe não se opôs minimamente.
Depois do telefonema puseram-se a caminho do apartamento de Alessandro…
***
O dia ia declinando e aproximando-se da noite. A casa estava limpa. Havia que tratar do Tejo. Pôs-lhe a coleira e saiu para o habitual passeio daquela hora, o último do dia.
- Aproveita para fazer o chichi todo, que só amanhã voltas à rua – disse, dirigindo-se ao cachorro. Ele pareceu entender as palavras da dona e alçou a perna mais uma vez.
Ao regressar encontrou no hall de entrada a amiga Amélia, a vizinha do 1º. andar esquerdo, que tinha acabado de levar à rua a sua cadelinha Diana, a namorada do Tejo. Estava à conversa com Carla, que fora buscar os gémeos ao infantário. Nanda juntou-se-lhes para dois dedos de conversa, enquanto Diana e Tejo aproveitavam para matar saudades, lambendo-se mutuamente.
- Estava aqui a dizer à doutora Carla que o meu vizinho de cima, o António, está cada vez pior – comentou Amélia.
- Ai, ai, ai que me vou zangar, Amélia – atalhou Carla. Quantas vezes tenho de lhe dizer que não quero que me trate por doutora? Somos ou não somos vizinhas e, espero que também amigas…? E, para além disso, eu agora nem estou a exercer, sou uma simples dona de casa e mãe de dois gémeos – acrescentou com um sorriso.
- Não leve a mal, doutô… desculpe, Carla! É falta de hábito… por a termos cá há pouco tempo… Voltando-se para Nanda, acrescentou:
- Mas é como estava dizendo à… Carla – sorriu. O António está cada vez mais insuportável. Parece que está à espreita a ver quando eu chego para me vir atezanar a cabeça.
Nanda deu uma gargalhada.
- Ó Amélia, será que não consegue perceber o que se passa? Estou farta de lhe dizer! Aquilo é amor recolhido! – e continuava a rir.
Carla olhava para ambas com um meio sorriso, sem entender o que motivava tal galhofa.
Nanda tentou esclarecê-la:
- O vizinho do 2º. Direito, o António, tem uma paixão assolapada pela Amélia, mas como ela não lhe dá trela… passa a vida a chamar-lhe a atenção.
- Qual paixão qual quê? – respondeu Amélia. Se isso fosse verdade eu até nem me importava, porque jeitoso é ele – e deu uma gargalhada.
Mas não, Nanda, não é nada disso. É mesmo um velho rezingão, é o que ele é.
- Mas afinal o que é que ele faz, para a deixar assim irritada? – perguntou Carla.
- Faz-me a vida num inferno, se quer saber. Sempre a refilar contra o barulho que eu faço em casa. Onde é que se viu no andar de cima ouvir-se o barulho do andar de baixo? O contrário é que é verdade… Por exemplo, a Nanda, que mora por baixo de mim é que podia queixar-se…
- Podia – respondeu Nanda – mas não tenho razão para isso. O pouco rumor que ouço não me incomoda nada. Afinal… na sua casa não funciona nenhuma escola… Tem quantas alunas? Duas…três…? Que barulho é que podem fazer tão poucas pessoas? Na verdade não me incomodam nada.
- Ah! A Adélia tem alunas? -perguntou Carla. E dá aulas em casa? Então somos colegas… Não fazia ideia…
Amélia olhou para Nanda como que a pedir socorro, e respondeu, meio constrangida:
- Bem, não é exactamente a mesma coisa. A Carla é professora de alemão… eu ensino dança no varão…
- Ah! Mas que interessante – atalhou Carla - Não fazia a mínima ideia… Desculpe, Amélia, mas tem que me deixar assistir. E… se não se importar… eu até gostava de experimentar, e se vir que tenho jeito… até me faço sua aluna. Se concordar, é claro!
Quase se pôde ouvir um suspiro de alívio de Amélia ao ver a reacção de Carla. Sentia-se pouco à vontade sempre que se falava na dança do varão, pois receava que as pessoas a julgassem erradamente.
Aprendera a dançar no varão num período da sua vida em que atravessou grandes dificuldades económicas e teve que suplementar o mísero ordenado que ganhava como caixa numa loja, com o trabalho num bar, frequentado pela “alta finança” – o que lhe valia gordas gratificações, normalmente acompanhadas de convites para “um particular”.
Amélia aceitava as gorjetas, agradecia, e declinava os convites. Limitava-se a fazer o seu número de dança e ia-se embora.
O gerente, seu amigo, persuadia os clientes a não insistirem. “Afinal, ela não era a única dançarina lá no bar. Embora fosse a melhor, as outras também eram bastante boas…E assim convencia os clientes.
Logo que arranjou emprego como recepcionista num consultório médico, largou o bar. Conseguia conciliar o novo trabalho com o de caixa na loja, e assim a sua situação económica melhorou substancialmente.
Perante a reacção de Carla ao saber da sua ocupação ficou radiante e de imediato respondeu que teria nisso o maior prazer.
- Quando a Carla quiser… é só dizer. De momento tenho só duas alunas. Costumo ter três, mas uma, estudante, foi fazer um estágio ao estrangeiro e só regressa daqui por alguns meses.
- Fica combinado. Vou falar com o meu marido. Tenho a certeza que ele não se vai opor, mas preciso que esteja cedo em casa para ficar com os gémeos enquanto eu for à escola de dança – disse, sorrindo alegremente.
Nanda resolveu espicaçar Amélia:
- Parece-me que toda essa conversa acerca da dança foi só pretexto para desviar o assunto dos amores de António e Amélia – riram todas.
- Ai, Nanda, que se o amor é isto o que não será o ódio – respondeu Amélia, aderindo à brincadeira.
- Minha amiga, não se esqueça que o amor e o ódio andam muito perto um do outro, de tal modo que, às vezes, até se confundem…
Carla interveio:
- Vocês não imaginam a curiosidade que me despertaram. Eu preciso conhecer esse apaixonado da Amélia!
- A Carla já o deve ter visto – respondeu Nanda. É um homem muito bem parecido, gentil e simpático. Menos para a Amélia – acrescentou, em tom de brincadeira.
- É mesmo isso! Muito boa figura, alto, e, apesar dos seus 60 anos, (é mais ou menos essa a idade que ele aparenta) não se lhe nota uma gordurinha fora do sítio – respondeu Amélia, em tom sério. E, segundo consta, até tem uma boa situação financeira. Só é pena aquele feitio azedo… Mas eu sei que é só comigo, porque já o tenho observado sem ele ver, e é todo salamaleques com as outras pessoas…
- Acredite no que lhe digo, Amélia. Aquela é a forma que ele arranjou para disfarçar o amor que sente por si. Eu bem vejo a maneira como ele olha para si nas reuniões de condóminos, quando pensa que ninguém o está a observar – respondeu Nanda, em tom sério.
- Não brinque comigo! Se isso fosse verdade – e olhe que eu até nem desgostava da ideia – para que é que ele anda sempre a embirrar comigo?
- É como eu lhe disse, o homem é tímido, tem receio de mostrar os seus sentimentos e não ser correspondido…
- Ai é? Querem ver que eu tenho de lhe tirar a timidez? – riu Amélia.
- Parece-me que é o melhor que tem a fazer! Quanto a si, Carla, na próxima reunião de condóminos apresento-lho. É um homem muito educado.
E agora, minhas queridas amigas, vou entrar e tentar descansar porque amanhã é um dia grande para mim – rematou, com um ar feliz.
- Dia grande? - perguntaram Amélia e Carla, quase em uníssono. E pode-se saber porquê?
- Claro que sim. Amanhã vou ter a última entrevista com o engenheiro Carvalho Araújo, meu futuro patrão. Por isso vou fazer o meu sono de beleza, e depois arrumar uma roupa bem bonita, para me apresentar toda charmosa – respondeu, tentando disfarçar o nervosismo que, na realidade, sentia. Sabia que aquele emprego era muito importante para a sua vida, e precisava dar tudo por tudo para conseguir chegar a acordo com o engenheiro.
- Sono de beleza? Roupa bonita? – Amélia falava num tom duvidoso. Como se fosse preciso… Linda e elegante como a Nanda é, não precisa desses sonos… e qualquer trapinho lhe fica bem.
- Concordo com a Amélia – acrescentou Carla.
- Vocês são muito simpáticas, agradeço muito, mas prefiro tomar as minhas providências. Vamos, Tejo! 
Nanda abriu a porta da sua casa e despediu-se com um “até amanhã”.

Maria Caiano Azevedo

terça-feira, 1 de outubro de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XIII

SEGREDOS – CAPÍTULO XIII
 
 SEGREDOS – CAPÍTULO XII
 “… Imersa nestes pensamentos Nanda nem se tinha apercebido de que chegara ao supermercado. Só quando a voz do “segurança” disse, alegremente: Bom dia, dona Nanda! – é que ela “desceu à terra” e apressou-se a ir fazer as compras.
Quando regressava, com um saco em cada mão, ouviu o telefone tocar. Como era complicado, com os sacos das compras, atender, deixou-o tocar, pensando: “Quando chegar a casa vejo quem ligou e retorno a chamada” …”

SEGREDOS – CAPÍTULO XIII
Liberta dos sacos das compras Nanda olhou para o visor do telemóvel verificando, com algum alvoroço, que fora Carvalho Araújo quem lhe ligara.
Depois de uns minutos em que tentou acalmar a ansiedade marcou o número e, passados poucos segundos ouviu a voz do “futuro patrão”:
- Nanda? Liguei-lhe há pouco…
- Sim, Araújo, eu sei, mas não pude atender, peço desculpa…
- Não tem importância. Eu gostava de falar consigo pessoalmente para acertarmos os últimos pormenores. Finalmente tudo está concluído e, neste momento posso dizer que a Ourivesaria Orvalho de Prata me pertence.
- Isso quer dizer que o dono aceitou vender-lhe só essa, separadamente da outra?...
- Exactamente! E ainda bem, sabe?, porque o outro negócio que eu tinha em vista para o caso de este falhar não me agradava tanto.
- Só por curiosidade – posso saber de que se tratava?
- Com certeza! Era ligado ao ramo da restauração.
- Ah! Ainda bem que não precisou recorrer a isso… - comentou Nanda.
- Por acaso eu também concordo… Mas a Nanda tem alguma coisa contra a restauração?
- Não exactamente… mas passei por uma pequena experiência pouco agradável, relacionada com farturas – respondeu Nanda, sorrindo levemente à lembrança do Chico das Farturas.
- Bom, se foi desagradável não vou pedir que me conte. Voltando ao nosso assunto, quando e onde poderemos encontrar-nos?
- Como hoje já é um pouco tarde… talvez amanhã de manhã, no Café Estrela, este que fica perto da minha casa…
- Perfeito! Encontramo-nos lá, então. Até amanhã.
- Até amanhã – respondeu Nanda, desligando o telemóvel.
Excitadíssima com a perspectiva de que muito brevemente começaria a trabalhar, ligou ao Tó Zé.
- Eu cá tenho as minhas razões para acalentar esperanças – ouviu-o dizer, em voz carinhosa.
- O quê? Não estou a perceber nada! Isso é alguma forma nova de atender o telefone?
- Sim, mas só quando fores tu a ligar, não é norma geral para toda a gente.
- Tu e as tuas conversas – replicou Nanda, que ainda não acalmara a sua excitação. Quando começas a falar por enigmas ninguém te endente…
- Não é nenhum enigma, só que, quando me ligas, renasce em mim a esperança de voltar a ter-te nos braços – respondeu Tó Zé com a voz carregada de mel.
Nanda ficou calada por uns momentos, em parte por não saber o que responder, mas especialmente para acalmar o coração que lhe saltava no peito. E pensou: “Eu estou mesmo carente! Porque é que este fulano agora mexe tanto comigo? Tenho que ser forte e não me deixar enredar.”
- Pois bem podes esperar sentado – conseguiu, por fim, responder. E, apressadamente acrescentou:
- Eu só te liguei para saber o que é que combinaste com o nosso filho sobre a vinda deles para cima. Ele hoje ainda não me ligou nem eu a ele, e tanto quanto sei havia a dúvida se tu ias buscá-los ou se era o sogro que os trazia…
- Tens razão, havia a hipótese de ser o pai da Catarina, a nossa nora, a trazê-los…
Nanda reparou no tom quase orgulhoso com que Tó Zé pronunciava “nossa nora”, como se fosse mais um elo a ligá-los.
- Entretanto – continuou o seu ex – ontem à noite falei com o Luís e combinámos ir eu buscá-los porque o sogro só podia vir daqui por uns dias. E, já que as acomodações para eles estão prontas… não vale a pena estar a atrasar a vinda, não concordas? Eu estou ansioso por conhecer o nosso neto, e penso que contigo se passa o mesmo…
Novamente aquele tom de voz acariciador, quase íntimo. Nanda sentia-se cada vez mais insegura, o que, ao mesmo tempo que lhe aquecia o coração, a irritava, pois não queria deixar-se envolver. Tó Zé pertencia ao passado e era lá que devia permanecer.
Foi, por isso, com voz firme que respondeu:
- Claro que se passa o mesmo. Tu deves saber que, para as avós, o nascimento de um neto é tanto ou mais importante do que o de um filho. Avó é mãe duas vezes!
- Vendo as coisas por esse prisma… avô também é pai duas vezes – rematou ele, esquecendo-se de que não fora um pai muito presente.
Nanda decidiu não pensar nisso, e terminou a conversa pedindo-lhe que fosse dando notícias quando iniciasse a viagem de regresso. 
Terminado o telefonema com o Tó Zé decidiu ir terminar a limpeza da casa que iniciara no dia anterior já que, no dia seguinte, iria encontrar-se com Carvalho Araújo e estava esperançada em começar a trabalhar muito em breve.
Foi buscar o material necessário e pôs-se ao trabalho. As mãos iam limpando o pó enquanto a cabeça lhe recordava a conversa que acabara de ter com o seu ex-marido.
Ficava sempre um pouco perturbada depois de falar com ele, o que atribuía ao facto de há cerca de um ano não ter um namorado para se distrair. Tinha urgentemente de combinar uma saída à noite com a Bela, pois os pretendentes não caíam do céu. “Tenho que ir à caça…” – e sorriu à ideia.
Sentia-se feliz. Parece que, finalmente, a sua vida estava a tomar um bom rumo.
As perspectivas de ir trabalhar com o Araújo faziam-lhe crer que iria ter um bom ordenado; o filho Luís estava prestes a vir morar para perto de si, e a lembrança de poder ter o netinho nos braças fazia-a sorrir de enlevo; o filho Miguel também lhe dissera que não tardava a vir de férias.  Tudo se conjugava para ela viver dias risonhos.
Assim pensando lembrou-se de novo de Tó Zé e de como ele estava diferente desde que soubera que ia ser avô.
A verdade é que ambos tinham vivido alguns anos felizes, e ela não podia esquecer que lhe devia muito. Não, Nanda não era ingrata, e sempre reconhecera que a atitude que ele tivera há trinta anos fora prova de grande nobreza de carácter – para além de lhe demonstrar que, de facto, a amava sem reservas.
Como era de esperar o seu pensamento voou para Alessandro, no fundo o grande responsável do seu casamento com Tó Zé…
***
No início do namoro Bela acompanhava-os, mas como depois teve de se ausentar com a mãe, eles passaram a andar sozinhos, o que lhes agradava muito mais.
 Os pais de Nanda davam-lhe liberdade para um namoro que imaginavam “à moda antiga”, em que os pares passeavam de mãos dadas, trocando juras de amor.
Ela saía todas as tardes para ir encontrar-se com o namorado, o que eles achavam perfeitamente normal visto Nanda já ter completado os 18 anos. Como sempre tinha sido uma menina entregue aos estudos, “com a cabeça no lugar” e sem pensar em namoricos como a maioria das jovens da sua idade, não lhe punham quaisquer restrições, confiando nela plenamente.
Como era tempo de férias Nanda dispunha de muito tempo, o que não se passava com Alessandro, que tinha de trabalhar na pesquisa para a qual fora enviado para Lisboa. Contudo, a necessidade de estar com Nanda era tão premente que algumas vezes descurava os seus afazeres, e só as chamadas de atenção de Milão o faziam descer à terra. Apercebendo-se do que se passava, e não querendo causar-lhe problemas, Nanda tomou a iniciativa de criar regras para os encontros, que passaram a ocorrer só a partir das cinco da tarde, quando ele encerrava o trabalho do dia.
Como resultado da restrição de tempo em que estavam juntos, o amor eclodiu como um vulcão. Cada vez a ligação entre eles era mais forte, criando laços muito apertadas, difíceis de desatar.
Jovens, viviam uma paixão sem algemas, tão forte que às vezes parecia irreal. Queriam abarcar o mundo que lhes parecia só seu.
Depois do primeiro beijo no bar da praia no dia do aniversário de Nanda, tímido e como que a medo, procuravam agora os lugares mais solitários para se beijarem com sofreguidão. Neste clima que cada vez se tornava mais intenso, sentiam crescer em si o desejo de se entregarem um ao outro, de satisfazerem o que começava a tornar-se insuportável.
Na cidade universitária, logo que Alessandro saía do trabalho e estando Nanda à sua espera no passeio em frente, procuravam os recantos mais isolados e aí se entregavam às suas manifestações amorosas que a cada dia se tornavam mais ousadas. Os beijos arrebatadores já não os satisfaziam, os corpos, jovens e sedentos, exigiam algo mais.
Naquele dia Nanda avisara a Mãe de que iam ao cinema, à sessão das seis e meia, e depois iriam comer qualquer coisa, pelo que chegaria um pouco mais tarde e não jantaria em casa. Sentia-se portanto perfeitamente à vontade, sem a pressão das horas para regressar.
Nas várias deambulações que todos os dias faziam à procura do “melhor lugar” acabaram por encontrar um local verdadeiramente isolado, longe de todos os olhares indiscretos, e onde se sentiam totalmente tranquilos.
É sábado, a universidade sem qualquer movimento, o dia chegando ao fim. Já se vêem no céu os tons avermelhados do anoitecer. Nanda e Alessandro sem qualquer vontade de se separar, continuam acariciando-se mutuamente, murmurando palavras quase sem nexo, apenas com o intuito de continuarem juntos.
Alessandro ousa um gesto mais íntimo e Nanda retrai-se. A severa educação que recebeu não a deixa desinibir-se por completo. O assédio de que fora vítima também a condicionava um pouco.
Com palavras em que tenta dissimular a excitação Alessandro murmura na sua voz doce, que o sotaque italiano torna ainda mais sedutora:
- Porque me afastas, amore mio? Eu penso em ti a todos os momentos, e isto faz-me sentir tão bem! Quero que sejas muito feliz.
Nanda encostou o seu corpo ao dele, e Alessandro pode sentir como ela tinha a pele arrepiada, no seu top de alcinhas. Rapidamente, num gesto de carinho, tapou-a com o blazer que colocara sobre os seus ombros quando saíra do trabalho. Ao mesmo tempo, segurando-a fortemente contra si, fê-la recostar-se de modo a ficar com as costas sobre as folhas caídas sobre a relva. Nanda deixou de oferecer resistência.
 A noite ia baixando. Já toda a gente tinha abandonado as proximidades. Encontravam-se sozinhos. Subitamente, puxando-a para si beijou-a sofregamente.
O jogo amoroso iniciava-se. Os sentimentos de ambos, tanto tempo recalcados, extravasaram. Entravam numa espiral sem retorno.
Lentamente, Alessandro foi lhe descendo as alças do top, acariciando os seios que, jovens e firmes, se lhe ofereciam como num altar. Como que em “slow motion” foram retirando as roupas um ao outro, entregando-se assim, sem reservas, àquela paixão que os enlouquecia.
O desejo de ambos passou a ser incontrolável e no chão, ao lado da roupa retirada dos corpos, consumaram, numa loucura frenética, a paixão que tinham acumulada.
Parecia-lhes ouvir ao longe uma música suave, embalando-os e transportando-os para outro universo.
Exaustos pela força com que se amaram, repousam agora, felizes.
Os corpos nus, transpirados, são percorridos por um leve arrepio. Apesar da temperatura anormalmente elevada daquele dia - o Verão estava a chegar ao fim - a noite refrescara um pouco.
Recompuseram-se a custo. Os corpos suados pareciam não querer separar-se. Mas o tempo não pára, e Nanda tinha de regressar rapidamente para evitar alguma reprimenda ou, na pior das hipóteses, alguma proibição de sair tantas vezes de casa.
A partir desse dia a vontade de se encontrarem a sós cresceu assustadoramente.
Depois do arrebatamento da primeira vez, já mais calmos, compreenderam o risco que corriam ao exporem-se num local público, por muito recatado e longe de olhares indiscreto que ele fosse.
Alessandro propôs, e Nanda imediatamente aceitou, que passassem a encontrar-se no T1 que ele alugara à chegada a Lisboa. E assim passou a ser.
Passaram então a viver dias de perfeita loucura. Completamente à vontade, entregavam-se àquele amor que os enlouquecia como se não houvesse amanhã.
Alessandro não se cansava de acariciar a curvatura do pescoço de Nanda, a macieza da sua pele, a beleza dos seios que ele beijava ao de leve, demorando-se em cada gesto como se quisesse eternizá-lo.
Nanda, de olhos fechados, sentia a leveza das suas mão a acariciá-la, num enlevo que a transportava como se viajasse num veleiro para outros mundos, onde a felicidade não tinha fim.
Uma vez por outra, de mãos dadas, passeavam à beira rio, vagarosamente, aspirando o ar de fim de Verão, serenos e felizes. Beijando-se meiga e suavemente, apreciavam os veleiros do Tejo com as velas brancas enfunadas, deslisando sobre as águas, levados pela leve brisa do anoitecer.
Os olhos de ambos apenas viam o lado belo da vida.  Riam de tudo e de nada, só por estarem juntos e se sentirem felizes.
E assim decorreram três semanas que, a seus olhos, pareciam minutos.
Por norma, Alessandro não telefonava durante as horas de trabalho. Um dia, inesperadamente, Nanda olha para o visor do telemóvel que começara a tocar e vê que quem lhe estava ligando era o seu namorado.
Sem saber explicar porquê sentiu um arrepio…
  
Maria Caiano Azevedo

terça-feira, 3 de setembro de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XII

SEGREDOS – CAPÍTULO XII

Regressei de férias ontem e um dos meus primeiros contactos foi com a Nanda.
Achei-a bastante melancólica, o que não me causou estranheza, pois regressar de férias provoca sempre uma certa nostalgia.
Comentando isso mesmo com ela respondeu-me que não ia a pensar em férias, mas sim a lembrar-se do seu passado e eu interrompera-a.
Murmurei uma desculpa rápida, e mais rápido ainda, afastei-me, deixando-a entregue às suas recordações…

CAPÍTULO XI
“… Nanda olhou para o visor onde estava a indicação de “número desconhecido”. Pensou:
“Será ele? Ou algum daqueles chatos a fazer publicidade que não interessa a ninguém?”
Decidiu atender. O seu coração teve um sobressalto quando reconheceu a voz do desconhecido dessa manhã.
- Alô! – ouviu do outro lado. Como estás, cara mia?
Nanda ficou tão emocionada que nem conseguia falar. Afinal, ele tinha ligado…”

CAPÍTULO XII
Depois de vários “alôs” do outro lado Nanda conseguiu acalmar-se e, tentando não deixar transparecer a sua perturbação, respondeu, com uma inocente mentira:
- Alô! Desculpa a demora em atender, mas estava tão absorvida pelos estudos, que demorei um pouco a desligar do que estava a ler.
- Não tem importância – a voz de Alessandro denotava grande alívio.  E continuou: Avevo solo paura che non mi avresti parlato – e acrescentou rapidamente – Oh, scusa, eu quis dizer que apenas estava com medo de que não quisesses falar comigo.
Nanda continuava muito agitada. Ela que, normalmente, “tinha a resposta na ponta da
língua”, agora não lhe ocorria nada para dizer. Por sorte ele continuou a conversar, dispensando-a de ter de responder.
Contou-lhe que desde o encontro dessa manhã não deixara de pensar nela, que tinha absoluta necessidade de voltar a vê-la, que se isso não acontecesse ele iria … “perdi la testa, entendes, perder a cabeça, enlouquecer, como vocês dizem…”.
E continuou verbalizando, no seu português um tanto arrevesado, a atracção irresistível que sentia por ela. Nanda limitava-se a ouvir, pensando que com ela se estava passando o mesmo, o que a deixava desorientada.
“Eu sou uma pessoa com os pés bem assentes na terra, não me deixo influenciar facilmente, não sou dada a namoricos como a maior parte das raparigas da minha idade…  não compreendo o que me está a acontecer…”
Acabou cedendo àquela voz que tanto a transtornava, dizendo-lhe que amanhã o informaria  da sua disponibilidade. “O final do ano está à porta e todo o tempo é pouco para estudar. Mas vou arranjar um tempinho para ti” – e rematou assim a conversa.
A mãe já viera duas vezes perguntar-lhe se queria um chá e umas bolachas, e vira que ela estava a conversar ao telemóvel. Não podia prolongar muito mais tempo o telefonema sem correr o risco de ter de dar explicações à Mãe – o que ela não queria, de modo algum, fazer.
Teve grande dificuldade em voltar a concentrar-se nos livros. Só a sua enorme força de vontade e o pensar que dos bons resultados escolares dependia a sua festa de anos a ajudou.
Depois de uma noite agitadíssima, em que acordou imensas vezes e sempre com os olhos no relógio, a madrugada acabou por chegar. Rapidamente se preparou para sair, mal tocando no pequeno almoço. Foi bastante difícil, nas aulas, não deixar o pensamento voar para Alessandro, com quem combinara almoçar. Como chegou bastante cedo à escola teve tempo para lhe mandar uma mensagem marcando o encontro num “snack” não muito perto, para não correr o risco de ser vista por Bela ou qualquer outra colega.
Esse primeiro encontro não foi exactamente como eles esperavam. Ambos estavam bastante tensos; parecia que nenhum tinha nada para dizer, mas quando Nanda ia falar Alessandro começava também a pronunciar uma palavra, atropelando-se um ao outro, acabando a rir nervosamente.
Ele ainda conseguiu dizer-lhe que se encontrava em Lisboa a colher elementos para uma investigação que se estava a realizar num laboratório situado nos arredores de Milão, na qual ele colaborava.  Com a mesma finalidade fora inicialmente para o Porto, onde se mantivera por cerca de um ano, e donde regressara havia apenas duas semanas.
De pouco mais conversaram, até porque não dispunham de muito tempo. Talvez por isso - mas não só - a vontade de voltarem a ver-se apresentava-se premente, urgente, como algo que os subjugava.
Nanda tinha noção de que não podia perder tempo, todos os minutos contavam para os seus estudos, agora que se encontrava na recta final; Alessandro não podia descurar o seu trabalho, pois o seu director, lá de Itália, não lhe dava tréguas.
Apesar disso… passaram a encontrar-se todos os dias. Como seria de esperar aquela ligação ia criando laços muito fortes que, a cada dia que passava, mais os uniam.
Bela estranhava que a amiga, ultimamente, andasse sempre ocupada, com “n” afazeres nos intervalos das aulas, e que sempre que a interrogava, Nanda arranjasse desculpas esfarrapadas, assumindo um ar comprometido. Até que um dia acabou por confessar que conhecera “alguém” que a atraía mas, não querendo precipitar-se, preferia manter segredo até ter formado uma opinião.
Bela mostrou-se felicíssima com a notícia, mas não deixou de lhe fazer sentir que lamentava que não tivesse confiado nela.
- Afinal, parece que não sou a tua melhor amiga – murmurou, fazendo beicinho.
- Não sejas parva! Quantas vezes preciso repetir que és, sim, a minha melhor amiga? Só que, neste caso, como não tenho ainda certezas de nada, achei preferível aguardar…
- Tu e a tua eterna prudência! Alguma vez irás “atirar-te de olhos fechados” seja para o que for? Vive o amor, minha querida, as consequências não podem ser assim tão más…
- Eu com a minha prudência – que tu consideras excessiva – e tu com a tua alegre leviandade – respondeu Nanda, a rir.
- Os extremos tocam-se – Bela entrou na brincadeira, bem-disposta, já esquecido o amuo anterior. A tua prudência e a minha leviandade complementam-se, e é por isso que nos damos tão bem… Mas… não podes dar-me só uma dica acerca dele?
- A única coisa que posso dizer-te é que se trata daquele rapaz que quase me deitou ao chão no dia em que fomos falar sobre a minha festa de anos – disse Nanda, querendo pôr um ponto final no assunto.
 - O tal dos olhos incandescentes? – brincou Bela. Eu sabia que ele tinha mexido contigo…Ah! mas tens de mo apresentar…
- Claro que sim, se tudo der certo. Por enquanto estamos apenas a conhecer-nos. Depois, estou a pensar convidá-lo para o meu aniversário…
- Ah! Assim está bem, não vou ter de esperar muito. Na próxima semana acabam as aulas, e logo de seguida é a tua festa de anos.     
Desde o final do ano e a perspectiva da entrada na Faculdade até o aniversário decorreram apenas três semanas, que as duas amigas dedicaram à preparação da festa de anos.
Finalmente chegou o grande dia! No meio de toda aquela agitação Nanda foi apresentando Alessandro como o seu mais recente amigo. Quando chegou a vez de o apresentar à sua amiga Bela, esta mal pode olhá-lo e pronunciar um rápido “olá, tudo bem?”, pois foi imediatamente arrebatada pelo seu último admirador, que não queria perder um minuto da sua atenção.
Quando, por fim, terminou a parte “obrigatória” de festejar com a família e puderam seguir para a praia onde o dono de um bar conhecido de Bela reservara o espaço para a festa, Nanda sentia-se nas nuvens. Finalmente podia estar bem perto de Alessandro, com os corpos colados a pretexto de dançarem.
Foi uma noite inolvidável que terminou com o primeiro beijo. Até aí, embora muitas vezes o desejo de o fazer fosse quase incontrolável, tinham conseguido evitar grandes intimidades. Nanda não era de facilitar as coisas…
Os tempos que se seguiram foram de verdadeira euforia. Nanda, com boas perspectivas de entrar na Faculdade, dado os bons resultados que obtivera na escola, de férias e já com os seus 18 anos completos, sentia da parte dos pais uma grande complacência.
Tinham conhecido Alessandro, na festa de aniversário, como amigo. Agora Nanda achou que era altura de lhes confessar que eram namorados. Saíam juntos, iam à praia, ao cinema, enfim, viviam intensamente o seu amor.
Com esta necessidade quase obsessiva de se encontrarem Alessandro estava descurando um pouco a investigação para a qual tinha sido destacado, o que lhe estava a valer algumas chamadas de atenção por parte da sede, em Milão.
No início do namoro Bela acompanhava-os; mas cerca de três semanas depois teve de partir com os pais para a quinta, onde se demorou muito mais tempo do que o habitual.
Nanda lembrava-se que, na altura, Bela alegara uma qualquer doença da mãe, qualquer coisa a nível psicológico, e que ela tinha de a acompanhar. Pelo que conseguia recordar – “mas já passaram tantos anos que a memória pode estar a atraiçoar-me… “- teria havido problemas entre o casal e a mãe achara melhor estarem um tempo afastados, pelo que foram, mãe e filha, para o estrangeiro.

***
Imersa nestes pensamentos Nanda nem se tinha apercebido de que já chegara ao supermercado.  Só quando a voz do “segurança” disse, alegremente – Bom dia, dona Nanda! – é que ela “desceu à terra” e apressou-se a ir fazer as compras.
Quando regressava, com um saco em cada mão, ouviu o telefone tocar. Como era complicado, com os sacos das compras, atender, deixou-o tocar, pensando:
- “Quando chegar a casa vejo quem ligou e retorno a chamada”.

Maria Caiano Azevedo

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

UM CONTO

O AMOR É ETERNO
 

Como não tive oportunidade de ouvir as confidências da Nanda (e que, como boa coscuvilheira que sou, logo venho partilhar convosco…) fui procurar no meu baú e descobri um conto que escrevi há pouco tempo, e de que gosto particularmente.
Para substituir as ditas confidências (ou inconfidências, melhor dizendo) submeto-o à vossa apreciação.
Espero não vos defraudar com a troca.
O AMOR É ETERNO
Marta caminhava lentamente em direcção à sala. Parou à entrada, olhando tristemente para o sofá de dois lugares, agora vazio. Quantas horas felizes ali passara, ao lado do grande amor da sua vida, que a acompanhara por mais de quarenta anos…
Não pôde deixar de lembrar o que acontecia neste dia, o do seu aniversário. Quando ali chegava já encontrava, sobre a sua cadeira, um lindo ramo de rosas vermelhas. Este ritual cumpriu-se, ano após ano, ao longo da sua vida de casada. Luís, o marido, estava escondido atrás da porta, mostrando-se apenas quando ela pegava nas flores. Pé ante pé aproximava-se por detrás, enlaçando-a pela cintura. Ela voltava-se e, com um terno beijo, agradecia-lhe aquele gesto de carinho. Só depois de as rosas terem sido depositada s numa linda jarra de cristal, enchendo a sala com o seu intenso perfume, é que Luís lhe entregava a prenda de anos. E o cuidado com que ele a escolhia! Sabia adivinhar-lhe os desejos, que ela nunca revelava; ele parecia ter um sexto sentido que lhe indicava as coisas que ela mais desejava.
Este era o seu primeiro aniversário em que o lugar dele no sofá estava vazio. Partira há cinco meses, deixando um vazio impossível de preencher. Sentia uma saudade enorme dos serões que ali haviam passado, de mãos dadas, conversando sobre os acontecimentos do dia, ouvindo música ou vendo televisão.
Cerca das dez horas cumpria-se o ritual do chá. Ela levantava-se e, sem nada dizer, dirigia-se à cozinha. Pouco depois sentia-se no ar um agradável aroma a hortelã, ou erva príncipe, ou limão… por vezes camomila.
Voltava da cozinha com um tabuleiro onde colocara uma pequena taça com saborosos biscoitos de canela, ou de manteiga… às vezes de amêndoa…  que fizera à tarde, o bule do chá e duas chávenas de porcelana. A sala ficava impregnada do odor que saía pelo bico do bule.
Invariavelmente Luís comentava, fosse qual fosse o chá que ela tivesse feito:
- Como foi que adivinhaste que era exactamente esse o chá que me estava a apetecer hoje?
Ela sorria e, invariavelmente também, respondia, interiormente feliz pela subtileza com que ele sabia agradecer:
- Tu sabes que eu tenho um dedo que adivinha…
E sorriam ambos, felizes.
Não tiveram filhos. Não sabiam se a dificuldade dela em engravidar se devia a algum problema seu ou dele. Nunca o quiseram saber. Deixavam o tempo passar, sempre com a esperança de que um dia acontecesse serem surpreendidos com a vinda de um bebé. Tal não aconteceu. E à medida que o tempo foi passando aceitaram esse facto sem amargura ou desconforto. Viviam um para o outro; ele trabalhando num escritório de advocacia, ela cuidando do lar e do pequeno jardim em frente à casa onde moravam.
Tinham amigos com quem conviviam sempre que se proporcionava, embora gostassem muito de estar os dois sozinhos. Tinham-se dedicado inteiramente um ao outro…
Interrompendo os seus pensamentos o toque da campainha da porta fê-la estremecer.
Levemente contrariada dirigiu-se ao hall de entrada. À porta encontravam-se dois estafetas. Um deles empunhava uma caixa de cartão rectangular, com cerca de 40 centímetros de lado e furos na parte superior; o outro segurava cuidadosamente um ramo de perfumadas rosas vermelhas.
Marta sentiu um aperto no coração. Não, não era possível As rosas vermelhas sempre lhe tinham sido oferecidas pelo marido, ao longo dos seus 43 anos de casada.
Fazendo um esforço enorme para disfarçar a sua consternação, disse:
- Com certeza os senhores enganaram-se na morada… Eu não encomendei nada, e não existe qualquer outra pessoa cá em casa…
- Não, não há engano, é mesmo esta a direcção – responderam, quase em uníssono, os dois estafetas.
- Desculpem, mas isto só pode ser uma brincadeira de mau gosto… - insistiu ela.
- Não, minha senhora, não é nenhuma brincadeira – respondeu o rapaz que empunhava as rosas, estendendo-lhas. E continuou:
- Estas rosas foram encomendadas por um senhor há seis meses, com a indicação expressa de que deveriam ser entregues neste dia, sem falta. Repare que até tem um cartãozinho escrito, que o senhor lá deixou, recomendando que o juntássemos às flores…
Marta, dominando a sua enorme comoção, segurou as flores e abriu o pequeno envelope, retirando dele um cartão onde, reconhecendo a letra de Luís,  pôde ler:
- Com o meu eterno Amor.
Dificilmente conseguia controlar-se. Foi a vez do outro estafeta se lhe dirigir:
- Connosco passou-se exactamente o mesmo, minha senhora. Há seis meses foi à nossa loja um senhor fazer esta encomenda, com a mesma recomendação: “Que fosse entregue hoje, sem falta”. E também deixou um cartão…
Marta sentia que o coração ia explodir-lhe no peito. O que poderia estar dentro daquela caixa? Começou por ler o cartão, que dizia:
- Com todo o meu Amor, para te fazer companhia nas longas noites de Inverno.
Tremendo, foi colocar as rosas na sala, voltando para receber a caixa. Segurando-a com cuidado percebeu que, no seu interior, alguma coisa se mexia. Abriu-a sem demora. Lá de dentro saltou uma pequena bola de pêlo branco que imediatamente correu para a sala, indo sentar-se no sofá, no lugar que sempre fora ocupado pelo marido.
Marta ficou paralisada. Mesmo encontrando-se do outro lado da vida, Luís adivinhara o que ela teria desejado que ele lhe oferecesse naquele aniversário – um cãozinho!
Dirigindo-se ao sofá sentou-se ao lado da prenda acabada de receber. Fez-lhe uma festinha na cabeça. O pequeno animal agradeceu lambendo-lhe a mão.
Marta sentiu o coração apaziguado como há muito tempo não acreditava ser possível…
E dirigindo-se ao seu novo amigo, murmurou, pensativamente:
- Como havemos de te chamar? Talvez… Luisinho… Gostas?

Maria Caiano Azevedo
 25/03/20019