terça-feira, 30 de setembro de 2014

MOMENTO DE POESIA - NO DIA EM QUE NASCESTE

FIM DE FÉRIAS – NOVO CICLO

Tal como acontece na vida, em que há sempre um começo e um fim, também as férias terminam, têm o seu fim, e dão começo a um novo ciclo dos nossos dias, que compreendem vários períodos.
Este, o período das férias, geralmente corresponde a um tempo que aproveitamos para espairecer, sair do ambiente em que vivemos o resto do ano, descansar… enfim, quebrar a rotina de todos os dias.
Por agora não vou falar das minha férias. Vou deixar o tema para o próximo post, a publicar no próximo dia 14/11.


Como tenho dedicado o último dia do mês a “Momento de Poesia, convido-vos a partilharem comigo um poema que representa um  novo ciclo o começo de uma vida – que escrevi e dediquei à minha primeira neta pouco depois do seu nascimento.

  NO DIA EM QUE NASCESTE


No dia em que nasceste,
Meu amor,
Eu renasci!
O sol brilhou
 Com nova intensidade.
Nas árvores, cobertas de verdes folhas,
Os pássaros entoaram canções,
Duma outra felicidade.
 
Houve alegria no céu.
Os Anjos todos, reunidos,
Desejaram boa viagem
Ao companheiro que partia
Para habitar o teu corpo,
Que na terra aparecia.
Vieste bem de mansinho
Para o lar que te acolheu.
Trouxeste alegria infinda.
Só podias vir do céu.

Ao ver-te, meu amor, eu murmurei
Mil promessas de carinho,
Que, uma a uma, cumprirei.
Enfeitarei o teu caminho
Com belas flores perfumadas.

Milhares de estrelas
Reluzentes, coloridas,
Colocarei
Em todas as estradas
Que os teus pés irão pisar.
E uma fonte de água cristalina
Se ouvirá cantar
Quando passares.
O ar vais perfumar;
Com as mais lindas cores o vais pintar.
E o céu vai-se alegrar
Com teu cantar.
E quando forças mais já não tiver,
Meu amor,
 Continuarás a ver
Através do meu olhar cansado,
Que apenas para ti estará voltado.


Mariazita





 

Um “Muito obrigada!” a quantos vieram visitar-me na minha ausência.
A todos retribuirei tão depressa quanto a disponibilidade de tempo o permitir.
BEM HAJAM!

quinta-feira, 31 de julho de 2014

MOMENTO DE POESIA - A NEVE CAIU

A NEVE CAÍA...
(1957- Serra da Estrela)
(1977 – Serra da Estrela)
A NEVE CAIU
A senhora gorda, de negro vestida,
Os braços roliços, de branco despidos,
Murmurou tranquila: vai nevar!
E nevou.
O vento uivando,
As frinchas forçando,
Meu corpo gelou.
A neve caía,
Branca, tão branca!
Fria, tão fria!
Meu corpo tremia.
Oh! Meu amor
O teu corpo perto
Falta me fazia
Mas longe o sentia
De braços roliços, da alvura da neve,
A senhora gorda
Decerto dormia…
(1997 – Serra da Estrela - Filha e Mãe)
Mariazita

VOU AUSENTAR-ME NO PRÓXIMO DIA 4 DE AGOSTO. REGRESSAREI EM FINS DE SETEMBRO.
DESDE JÁ AGRADEÇO TODAS AS VISITAS QUE ME FIZEREM, QUE RETRIBUIREI QUANDO REGRESSAR.
DEIXO VOTOS DE DIAS FELIZES.
BEIJINHOS

segunda-feira, 14 de julho de 2014

VAMOS FALAR DE AMOR

VAMOS FALAR DE AMOR
 
 
Parece que, finalmente, chegou o bom tempo!
A temperatura amena não amolece só a manteiga, mas também os corações.
Talvez por isso, hoje apetece-me falar de amor.
Amor, esse sentimento que muitos apelidam de “o mais nobre sentimento”.
Concordo! Tudo o que o ser humano sente e realiza de bom, tem, por base, o amor.
 
Analisando esse “sentimento maior” verificamos que muito tem sido dito, falado e escrito, ao longo dos tempos.
De Tristão e Isolda a Romeu e Julieta, de Abelardo e Heloísa a Cleópatra e Marco António, sempre os grandes amores inspiraram escritores, poetas, dramaturgos.
Platão debruçou-se sobre o tema, e das suas conclusões nasceu, supostamente, o “amor platónico”. Camões classificou-o como «fogo que arde sem se ver».
Camilo Castelo Branco disse, do amor: «é uma luz que não deixa escurecer a vida».
 
Também as belas vozes se ergueram inúmeras vezes para cantar o amor.
O saudoso e grande tenor português Tomaz Alcaide exaltou-o com a canção «O amor é cego», de que, infelizmente, não há registo disponível.
Mais recentemente, o também saudoso fadista Carlos Ramos, cantava, como só ele sabia «O amor é louco».
 
Não caberia num “Tratado” tudo o que se pode dizer acerca do Amor; muito menos no post dum blogue.
Qualquer das citações atrás referidas merecia, em meu entender, um maior desenvolvimento.
Hoje, aqui, não é possível fazê-lo. Mas como é um tema que me agrada muito, pensarei em criar um “Ciclo do Amor”.
 
O amor, apesar de ser um sentimento tão nobre, não está isento de egoísmo, de exigências ao ser amado.
Veja a importância de fazer amor:
Sabia que, pela pele, podemos determinar se uma pessoa é sexualmente activa ou não?
 
FAZER AMOR É UM TRATAMENTO DE BELEZA - Testes científicos demonstraram que as mulheres, quando têm relações sexuais, produzem um grande número de hormónio Estrogénio. Esse hormónio torna os cabelos brilhantes e a pele macia.
 
LENTAMENTE, AS RELAÇÕES SEXUAIS REDUZEM A HIPÓTESE DE SE SOFRER DE DERMATITES, COCEIRAS E IMPERFEIÇÕES CUTÂNEAS – A transpiração limpa os poros e torna a pele resplandecente.
 
FAZER AMOR FAZ QUEIMAR TODAS AS CALORIAS GANHAS DURANTE O JANTAR ROMÂNTICO - Fazer amor é um dos desportos mais seguros que você pode praticar. Alonga e tonifica todos os músculos do corpo. E é muito mais agradável do que nadar 20 piscinas.
 
FAZER AMOR É UMA CURA INSTANTÂNEA PARA PEQUENAS DEPRESSÕES – Faz circular endorfinas no sistema sanguíneo produzindo uma sensação de euforia, e deixa uma grande sensação de bem estar. Quanto mais amor fizer, mais vai pedir. O corpo sexualmente activo elimina um grande número de toxinas chamadas ferormónios. Esse perfume sexual deixa o seu parceiro completamente maluco.
 
FAZER AMOR É O MAIS SEGURO DOS TRANQUILIZANTES DO MUNDO! É 10 VEZES MAIS EFICAZ DO QUE O VALIUM - Beijar todos os dias evita ir ao dentista. Beijar aumenta a quantidade de saliva que lubrifica a boca, reduz a taxa do ácido que provoca a cárie, e previne a produção da placa dentária.
 
FAZER AMOR ALIVIA AS DORES DE CABEÇA - A relação sexual pode reduzir a tensão dos vasos sanguíneos do cérebro.
 
FAZER AMOR PODE DESENTUPIR O NARIZ - É um natural anti-histamínico. Combate a asma e a sinusite.
 
FAÇA AMOR!  É MUITO GOSTOSO E BOM PARA A SAÚDE!

segunda-feira, 30 de junho de 2014

MOMENTO DE POESIA - SE QUERES NAMORAR COMIGO

SE QUERES NAMORAR COMIGO

(Na nossa Quinta do Sol - arredores de Barcelos)

Se queres namorar comigo
Tens que dizer que me amas
Vem ter comigo ao postigo
Cuidado com as más famas
É que nos becos da rua
Eu não quero namorar
Porque o olhar da lua
Passa a vida a espreitar.
Linguareira como ela
Não conheço outra igual
E quando a noite é mais bela
A lua tem ar real.
Que protege os namorados
Dizem alguns. Mas que tolos!
Só mesmo os enamorados
P’ra imaginarem tais dolos
A noite está p’ra acabar
E tu não mais apareces
Vou-me embora, vou deitar
De mim não contes com preces.
Vou rezar ao Pai do Céu
Por coisa que valha a pena
Contigo deu o que deu…
Lá se foi a noite amena.
Adeus amigo do peito
Um dia te encontrarei
E se tiveres outro jeito
No teu caso eu pensarei.
(No jardim da nossa QUINTA DO SOL - arredores de Barcelos)
Mariazita

UM AGRADECIMENTO ESPECIAL À TARECA E À CANDUXA QUE, NOS COMENTÁRIOS, INICIARAM "VERSOS AO DESAFIO".
SE QUISER PARTICIPAR... ESTEJA À VONTADE.

sábado, 14 de junho de 2014

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE - MOÇAMBIQUE

  EM VIAGEM

 À chegada ao segundo ponto de paragem da nossa viagem

(Nampula) 

a estação fervilhava de gente, pessoas que chegavam e já tinham descido das carruagens, outras que as aguardavam, e se manifestavam ruidosamente…
… chamámos um táxi e dissemos-lhe que seguisse para um hotel que não fosse muito caro. O motorista informou-nos que apenas havia um. Para lá seguimos.
… Era caríssimo. Mas, como não havia alternativa, teríamos que ficar ali mesmo.

… Uns colegas do marido, que estavam colocados na cidade …disponibilizaram logo a sua casa para nos instalarmos lá os dias que teríamos que ficar na cidade. É que não havia, para já, ligação de transporte para o nosso destino final, e assim teríamos que permanecer na cidade por dois ou três dias.

… Começamos então a planear a nossa partida lá para o norte, ponto final do nosso destino. As perspectivas não eram nada agradáveis.
Teríamos transporte daí a dois dias…
… quatro ou cinco horas num comboio misto, de carga e passageiros, daqueles que param em todas as estações e apeadeiros… /ou uma viagem de tantas ou mais horas de machimbombo… por uma picada… cheia de buracos e pó, debaixo dum sol escaldante, respirando o odor de todos aqueles corpos transpirados misturado com a poeira que entrava pelas janelas abertas.
… Por muita força e coragem que a juventude de então nos desse, esta perspectiva era arrasadora.
Reunidos todos os tostõezinhos restantes optamos por alugar um táxi aéreo… um aviãozinho particular que fazia serviço de táxi, fazendo-se pagar bastante bem.
… Chegados ao nosso destino, o piloto sobrevoou o local onde iríamos viver por tempo indeterminado…
… Alguns minutos depois apareceu um jipe para nos levar para casa.
Mais tarde soube que era procedimento habitual… porque, muitas vezes, o piloto levava correspondência para os habitantes do povoado, que era sempre ansiosamente esperada.
seguimos o conselho do nosso companheiro de viagem, que conhecêramos no navio, e decidimos recorrer ao médico ali destacado.
… De facto tratava-se dum homem extremamente simpático, solteiro,
… imediatamente disponibilizou o melhor quarto da casa, uma divisão enorme onde cabíamos perfeitamente.
Acabamos por nos adaptar e aprender a viver com as poucas comodidades que a casa oferecia.
 
 (Marrupa)
Havia calor humano, que nos compensava de todo o desconforto.

 
ENQUANTO OS DIAS PASSAM…
 
É bom viver nesta cidade, a terceira deste vasto território que, dentro de duas décadas, será um país independente. Ainda ninguém sabe, mas vai acontecer num futuro não muito distante. 

Não fora o espectro da guerra que lavra lá para o Norte, e teríamos, aqui, uma vida perfeita.

A cidade é bonita. Na zona central existem largas avenidas, de sentido único, com separadores ao meio, ajardinados. Há lojas bem fornecidas, onde se encontra tudo o que é necessário para o dia-a-dia; um grande mercado, com frutas variadas e legumes frescos, talho e peixaria; livrarias onde se podem encontrar os últimos livros publicados.

Esta vida fácil nem sempre é calma. De vez em quando – com demasiada frequência – recebemos notícias que nos abalam muito:

- A do soldado que, tendo terminado a sua comissão, regressava do mato a caminho desta cidade, onde faria escala para seguir para Lourenço Marques, e daí para a sua terra natal.

Em pleno voo, o pequeno avião em que vinha, sofreu uma avaria, despenhou-se, e aqui apenas chegaram os restos mortais, dentro de um caixão.

- Ou a notícia do acidente que sofreu o segundo comandante da base aérea.

Acompanhou, voluntariamente, uma missão, onde acabou por perder a vida.

Era uma pessoa muito estimada por todos, incluindo civis, entre os quais contava muitos amigos.

A cidade inteira, em peso, acompanhou-o ao cemitério, para um último e forte abraço.

O corpo foi aí depositado, e mais tarde trasladado para o local do seu descanso eterno.

Foi uma cerimónia muito comovente. O capelão militar proferiu a alocução apropriada, terminando com um “Até sempre, Tó”.

São apenas dois exemplos dos muitos a que vimos assistindo.

 Foi este clima que me levou a decidir aceitar a proposta para produzir um programa, na rádio onde trabalho, dedicado aos soldados em combate.
 
 (Fazendo locução no E.R.N.)
É um trabalho fascinante. Como, diariamente, faço locução cinco horas, repartidas ao longo do dia, aproveito os tempos livres para preparar o programa que é transmitido uma vez por semana.

Encontra-se aqui na cidade, em comissão militar, um locutor do Rádio Clube Português, de Lisboa, que, gentilmente, “cedeu” a voz para a abertura do programa, dizendo:

“O Emissor Regional do Norte… apresenta (uma ligeira pausa) Mensagem ao soldado!um programa dedicado aos militares em serviço no norte de Moçambique”

É a minha deixa. Com voz que tento seja suave, digo:

“É para ti, soldado, que as minhas palavras e o meu pensamento vão, neste momento. Sim, para ti, exactamente para ti”.

O começo, gravado, é sempre igual. Daí por diante o programa prossegue por minha conta e risco.

Segue-se conversa, respondendo às dezenas, se não centenas de cartas que recebo semanalmente.

Sei que o programa é muito bem acolhido, e à hora em que é transmitido, todos que podem ligam os rádios para ouvir. É o elo que os liga à vida normal. Sei que, ao ouvir-me, eles sentem como se eu falasse para cada um deles em particular. Ao responder às suas cartas é isso mesmo que faço.
 

 (Participação do E.R.N. na festa de aniversário do Clube do Niassa)


 
O capelão, que regressou há pouco, confidenciou-me que este programa é um incentivo e até lenitivo para eles.
É gratificante saber que estamos ajudando alguém a ultrapassar momentos tão difíceis como estes.
As cartas que escrevem são enternecedoras. Transparecem as saudades imensas que sentem da família, da vida que deixaram tão longe, ao mesmo tempo que mostram confiança na vitória e no regresso tão desejado.
Termino o programa com a sensação de “dever cumprido”.
Regresso a casa para uma noite de descanso.
Amanhã, às 7 horas, cá estarei novamente.
 
(Excerto de dois capítulos da 2ª.parte, respeitante a Moçambique, do livro que estou escrevendo.)

sábado, 31 de maio de 2014

MOMENTO DE POESIA - Pede-me


PEDE-ME
   
  
Pede-me tudo o que quiseres ter.
Queres a lua?
Num céu profundamente azul
Rodeada de estrelas mil,
 Brilhantes,
A lua será tua, meu amor,
A lua dos amantes

 
Queres o sol?
Envolto em neblina
Para teus olhos proteger,
Sobre um glorioso mar,
De brancas ondas de espuma,
Para o teu corpo dourar
O sol será teu, meu amor.
O sol te vou ofertar
Queres a floresta?
Os rios?
O mar?
O céu azul em festa?
 Um corcel alado montarei
Por entre as nuvens voarei,
Numa bandeja de prata
O céu azul colocarei
E a teus pés o deporei.

Tudo o que quiseres ter
Meu amor
Eu te darei

 Pede-me tudo o que quiseres ter.
Só não me peças para te esquecer.

Mariazita

quarta-feira, 14 de maio de 2014

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE - CABO VERDE

CHEGADA À “LUA”
… e três meses depois da chegada ao Continente, regressados de Moçambique, embarcamos rumo a Cabo Verde.
Após uma viagem num “mar de azeite”, como dizem os marinheiros,
 

aproximamo-nos do nosso destino.
Ao longe, apenas se vislumbravam umas sombras esfumadas no horizonte.
Agora, que estamos relativamente perto, a paisagem torna-se nítida – montes escalvados, de cor avermelhada, sem vestígios de vegetação… uma verdadeira paisagem lunar.
Temos a sensação de que estamos a chegar à lua!

 Depois das manobras habituais, que nos parecem infindáveis, o navio encosta ao cais.
Com a bagagem de camarote há muito preparada e as três crianças controladas, apressamo-nos a descer o portaló.
O cais fervilha de gente, na sua maioria naturais da terra, táxis buzinando, um burburinho tremendo.
Finalmente pomos pé em terra.
Após beijos e abraços efusivos - que as saudades já eram muitas – aguardamos o carro que nos transportará para casa.

Ao meu lado um autóctone vê, de repente, um carro passar muito perto, chegando mesmo a roçar-lhe o corpo. Recuando de um salto, com receio de que o pneu lhe passe por cima do pé descalço, grita, assustado:- Ai nha pé!
Este é o meu primeiro contacto com a linguagem local, o crioulo cabo-verdiano.
 O “nha”, que significa meu ou minha (nha pai, nha mãe) irá fazer parte do meu dia-a-dia durante os próximos dois anos.
Vamos então p’ra nha casa!
 
Situada num ponto elevado, a moradia, acompanhada à esquerda e à direita por outras casas igualmente independentes, tem na parte da frente um arremedo de jardim, com uma ou outra planta enfezada, que, durante os dois anos da minha permanência aqui, irei, teimosamente, tentar recuperar.
Luta inglória! O ar é extremamente seco, com ventos fortes nove meses por ano, a falta de água é enorme; mesmo regando-a todos os dias, a terra absorve completamente a água muito para além de onde as raízes a possam alcançar.
Apesar de todos os esforços, o meu jardim nunca deixará de ter este aspecto desértico.
Mas, por agora, há que nos instalarmos na que vai ser a nossa moradia durante os próximos dois anos.
Não se trata de nenhum palácio, mas, depois de arrumada a nosso gosto, ornamentada com alguns objectos que nos acompanharam, torna-se bastante confortável.
Da porta de casa, à qual se acede subindo três degraus de pedra, depois de atravessar o “jardim”, avista-se, não muito ao longe, o mar, vindo do qual se pode sentir, em certos dias, o cheiro a maresia.
 
Em frente, do lado de lá da estrada, há um vasto espaço coberto de terra vermelha, que termina num declive em direcção ao mar.
Algum tempo depois de aqui estar irei assistir a verdadeiras batalhas campais travadas entre grupos de cães, provavelmente inimigos, nesse espaço existente em frente à casa.
Sem qualquer aviso prévio, uns chegam da direita, outros aproximam-se pela esquerda, acabando por encontrar-se frente a frente, no centro do terreno.
Entre ladridos e rosnares, engalfinham-se ferozmente, levantando incríveis nuvens de poeira vermelha que chega a escurecer o céu.
Depois de alguns minutos de luta abandonam o campo de batalha, retrocedendo cada grupo pelo mesmo caminho por onde chegara.
Da refrega, felizmente, não resultam mortos; apenas alguns ferimentos se revelam nas pernas que vão manquitando no regresso ao lar.
Nunca conseguirei descobrir por que razão, de tempos a tempos, se envolvem em contenda.
Certo é que, chegará o dia em que também eu regressarei ao local de partida, sem que eles tenham resolvido os seus diferendos.
 
 
Nada faz prever que aqui se venha a desenvolver alguma guerra, tão pouco qualquer convulsão social.
Tudo leva a crer que os dois anos que vamos permanecer por cá serão passados em perfeita e serena paz, perspectiva por demais atraente para quem viveu os últimos cinco anos em Angola e Moçambique, em clima de guerra, num constante sobressalto, que não nos deixava prever o dia de amanhã.
Temos esperança de que a permanência nestas terras crioulas nos traga a tranquilidade de espírito de que tanto necessitamos.
 
 
 
(Excerto do primeiro capítulo da terceira parte do livro que estou escrevendo.)

quarta-feira, 30 de abril de 2014

MOMENTO DE POESIA - Carta à minha Mãe

Porque hoje é o último dia do mês, deveria publicar aqui um poema, cumprindo o que vos prometi.
Mas, como no próximo Domingo, dia 4 de Maio, se celebra em Portugal o “Dia da Mãe”, decidi debruçar-me sobre esse tema, homenageando, pela primeira vez nesta «CASA», a MINHA MÃE, escrevendo-lhe uma carta, que partilho convosco.


CARTA À MINHA MÃE

Mamã,

Hoje vou elevar para ti um pensamento muito especial, mais intenso.

Sabes que te recordo todos os dias.

Deixaste-me há tantos anos, mas na minha memória, que já não tem a vivacidade de outros tempos, continuas tão nítida como nos dias em que eu te tinha junto de mim.

 Não há um só pormenor que eu não recorde dos últimos momentos que passámos juntas.

Depois de tratar da tua higiene (ficaste tão linda, tão fresca!) recostei-te na almofada para te dar o pequeno-almoço.

Como de costume não quiseste comer nada, apenas bebeste um pouco de leite. Ainda insisti, sabendo, de antemão, que irias recusar:

- Por favor, mamã, come só uma torradinha pequenina, faço-ta num instante.

Com aquele sorriso lindo que conservaste até ao fim, respondeste-me:

- Não, minha filha, não consigo.

Sentias calor. Com a minha mão esquerda segurando a tua mão esquerda, apanhei o leque que estava sempre em cima da mesinha, e, suavemente, comecei a agitá-lo, para te refrescar.

Não sei quanto tempo estivemos assim. Esse é o único pormenor que esqueci: quanto tempo estive segurando a tua mão.

Estavas tão frágil! Parecias transparente. Como uma flor murchando lentamente, uma vela perdendo a intensidade do seu brilho, a qual um ligeiro sopro faria apagar.

Assim te vinhas mantendo nos últimos tempos: quase sem te alimentares, a voz cada dia mais fraca, os gestos mais lentos, os cabelos embranquecendo até ficarem alvos de neve…

Naquele dia, recostada na almofada, de olhos semicerrados, parecias irradiar uma luz especial.

Numa comunhão perfeita entre nós duas, abriste os olhos, olhaste-me com um ligeiro sorriso e um carinho imenso que me inundou o coração, ao mesmo tempo que me provocava um estranho estremecimento.

Depois, lentamente, muito lentamente, levantaste a mão direita e esboçaste um ligeiro aceno, que mais tarde interpretei como um adeus.

Pousei o leque e segurei a tua mão entre as minhas. Um suspiro profundo indicou-me que acabavas de partir.

Continuei assim não sei por quanto tempo, sem um grito, um lamento… apenas deixando as lágrimas deslisarem-me pelo rosto.

Partiste tão serena como viveste, pelo menos o último ano da tua vida.

Sei que estás num lugar especial, que foste merecendo ao longo dos teus dias neste mundo, por onde passaste praticando sempre o bem.

Foi este pensamento que me fez aceitar a tua partida com resignação, e me leva a pensar em ti todos os dias com um imenso carinho.

Até um dia, mamã. Sei que voltaremos a ver-nos.


segunda-feira, 14 de abril de 2014

UM OLHAR SOBRE O PASSADO

UM OLHAR SOBRE O PASSADO
 

Aproxima-se o dia 25 de Abril, data em que se comemora o 40º.aniversário da “Revolução dos Cravos”, que pôs fim à Ditadura Salazarista, período também chamado de “salazarismo”, e que permaneceu em Portugal durante 41 anos (1933-1968).
Nos anos que se seguiram, e até Abril de 1974, o País foi governado por Marcelo Caetano, um eremita austero “casado com a Nação”, ideologista com forte componente católica, que, através de uma Concordata, concedeu à igreja vastos privilégios, associando-a ao regime.

Talvez o facto de a TV noticiar, com grande relevo, as comemorações “em agenda”, que este ano parecem anunciar-se não totalmente pacíficas, fez-me lembrar como eram diferentes os usos e costumes uns 20 anos antes da Revolução.
Quem viveu esses tempos e/ou leu sobre o assunto sabe que houve um período muito triste, uma verdadeira mancha na história da humanidade, que decorreu durante a 2ª.Guerra Mundial, e nos anos que lhe sucederam.
Enquanto fora das nossas fronteiras, no “pós guerra” 1939/1945, se assistia a uma explosão de acontecimentos, nós, portugueses, ficávamos parados no tempo.
Para além das enormes dificuldades que se viviam, especialmente com a subida ao poder de Salazar, e a implantação do Estado Novo, a censura actuava severamente, e as proibições surgiam como cogumelos.
- Quem não se lembra que era proibido dar um beijo em público?
- Que era proibido a uma mulher casada viajar para o estrangeiro sem a devida autorização, por escrito, do seu marido?
- Que era proibido vestir mini-saia?
Usar biquíni na praia? Nem pensar! O fato de banho era uma peça única, não muito cavado nas pernas e sem exagerar no decote.
 


Barriguinhas à mostra…proibidíssimo!
 
Contava-se uma história, que acredito fosse anedota, de uma turista inglesa que, numa praia portuguesa, se passeava de biquíni, deliciando-se com o sol de Portugal.
Nada que se compare aos biquínis de hoje. Calção subido até à cintura e sutiã bem recatado, que pouco expunha aos olhos cobiçosos.
Foi interpelada por um cabo-de-mar (polícia marítimo) que, no seu inglês macarrónico, aprendido no Cais do Sodré, entre palavras e sinais, tentava fazer-lhe saber que não podia andar assim vestida (ou despida).
Como a inglesa parecia não dar sinais de compreensão, o polícia conseguiu soletrar, apontando para o biquíni:
- Just one piece!
Percebendo, finalmente, a inglesa respondeu, no seu português também macarrónico:
– Ou! Só um peça? Eu escolher a de baixo, ok? E retirou o sutiã.
A história que ouvi contar acabava aqui. Não sei qual o seguimento, mas imagino que tenha sido a esquadra de polícia mais próxima.

Muitos escritores e músicos viram as suas obras censuradas e retiradas de circulação.
Durante o regime Salazar/Caetano foram proibidas cerca de 3300 obras.
Nos guiões para cinema e peças de teatro a tesoura da censura cortava sem contemplações.
Algumas músicas e muitos livros ouviam-se e liam-se apenas na intimidade do lar, ou em círculos muito restritos e de extrema confiança, não fosse alguém descobrir e contar à PIDE. (inicialmente PVDE [na gíria “pevide”]– Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, depois PIDE – Polícia Internacional de Defesa do Estado, e finalmente DGS – Direcção Geral de Segurança)
Muitos intelectuais portugueses deslocavam-se a Paris onde podiam discutir à vontade sobre obras proibidas em Portugal, e, nalguns casos até, publicá-las em França.

Dá para acreditar que tudo isto se passava há, APENAS, cinquenta anos atrás?

O regime acabou por “cair” graças à acção de uma conspiração militar dirigida pelo Movimento das Forças Armadas, em 25 de Abril de 1974.

Para o bem e para o mal a Revolução fez-se. No início viveram-se tempos bastante conturbados, a que assisti de muito perto, sentindo por vezes na pele os efeitos de tomadas de posição duma ou doutra facção.
Como em todas as circunstâncias há contentes e descontentes, tal como houve vantagens e desvantagens.
Pessoalmente considero que os benefícios ultrapassam largamente os prejuízos.
Não podemos esquecer que a “Revolução dos Cravos” nos trouxe um bem há muitos anos perdido - A LIBERDADE!

Nem que fosse só por isso, já se justificaria dizer:
VALEU A PENA!