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domingo, 25 de setembro de 2011

A COR DA LÁGRIMA

(Alguém disse: “A lágrima é o sumo de um coração espremido”.)


A COR DA LÁGRIMA


Por que a lágrima não tem cor?
Enquanto chorava, me pus a pensar.
Se fosse vermelha como sangue,
as minhas vestes poderiam manchar.

Se a lágrima fosse amarela,
a cor da alegria,
expressar tristeza
jamais poderia.

Se fosse azul,
a cor da serenidade,
eu não choraria jamais.
Seria só tranqüilidade.

Se fosse branca
como pétalas de rosas,
não seriam lágrimas...
Mas pérolas preciosas

Ainda mais uma vez
fiquei me questionando...
Por que a lágrima não tem cor?
Se ela fosse preta,
só expressaria o horror?
Por que será que a lágrima não tem cor?

A lágrima não tem cor...
Porque nem sempre exprime dor.
E se ela fosse roxa, como poderia
expressar a alegria?

As lágrimas não têm cor
porque são expressões da alma.
Quando o espírito está chorando,
o coração diz: tenha calma!

Se a lágrima tivesse cor
deveria ter a cor do amor.
Ou mesmo a cor da paixão,
que as vezes invade o coração.

Ou talvez a cor da tristeza
que abala a alma e tira a calma,
mas faz em meu ser uma limpeza.

A lágrima não tem cor,
porque ela nos aproxima do nosso Criador.
Se a lágrima tivesse cor,
eu só iria chorar de alegria.

Mas, e a lágrima da saudade?
De que cor ela seria?
E a lágrima da decepção,
de que cor seria então?

Se a lágrima tivesse cor
deveria ter a cor de um brilhante.
Como a lágrima é preciosa,
Deus deu-lhe a cor do diamante.

Wayne W. Dyer



Dr. Wayne W. Dyer nasceu a 10 de Maio de 1940, em Detroit, Michigan, USA, é professor e escritor.
Autor de livros de auto ajuda, passou grande parte da sua adolescência num orfanato de Detroit.
Psicoterapeuta, Wayne tem um doutorado em aconselhamento educacional da Wayne State University e foi professor associado da Universidade St. John, em Nova York.
De renome internacional e palestrante na área de auto-desenvolvimento, é autor de 30 livros, criou inúmeros programas de áudio e vídeos, e já apareceu em milhares de programas de televisão e rádio.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

POEMA DO MENINO JESUS


A poesia de Fernando Pessoa ou de qualquer dos seus heterónimos dispensa apresentações.
Deste poema que convosco partilho, de Alberto Caeiro, direi apenas que é um excerto do oitavo poema de «O Guardador de Rebanhos», que na íntegra possui mais de 150 versos.


Ligue o vídeo abaixo e acompanhe o poema impecavelmente declamado por Maria Betânia.




POEMA DO MENINO JESUS

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.

Depois fugiu para o Sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Que levam as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as cores que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos os dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos às cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um perigo muito grande
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios


Depois ele adormece e eu
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o na minha cama,
despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sonho.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
E deita-me na tua cama.
Despe o meu ser cansado e humano
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar

Alberto Caeiro

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

NATAL DE QUEM?


NATAL DE QUEM?

João Coelho dos Santos

Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau,
Do peru, das rabanadas.

- Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!

- Está bem, eu sei!

- E as garrafas de vinho?

- Já vão a caminho!

- Oh mãe, estou pr'a ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?

- Não sei, não sei...

Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:

- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

Senta-se a família
À volta da mesa.

Não há sinal da cruz,

Nem oração ou reza.

Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente!

Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papeis
Sem regras nem leis.
E Cristo Menino
A fazer beicinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração.
A noite vai terminar
E o Menino, quase a chorar:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!

Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:

- Foi este o Natal de Jesus?!!!

João Coelho dos Santos
(in Lágrima do Mar - 1996)
O meu mais belo poema de Natal


João Coelho dos Santos



João Coelho dos Santos
Poeta e historiador
Autor de, entre outros livros, “História e Poesia de Portugal”

terça-feira, 14 de abril de 2009

BEIJOS

Porque hoje é o dia Nacional do Beijo, no Brasil, apresento-vos um poema do meu amigo poeta brasileiro Humberto-Poeta



domingo, 18 de janeiro de 2009

POESIA EM TEMPO DE GUERRA

Costumo dizer que cada um deve lutar com as armas de que dispõe.
Quem faz das letras ofício é delas que deve servir-se para defender os seus ideais, e expressar a sua revolta sempre que ocorram factos contrários aos seus sentimentos.

Tenho recebido, através de amigos ou directamente dos próprios autores, muitos poemas repudiando a actual guerra que se vive no Médio Oriente.

De entre vários escolhi, para partilhar convosco, dois poemas de dois poetas brasileiros.
O primeiro, do poeta J.J.Oliveira Gonçalves, que assina como JJotaPoeta.


A Guerra!

A guerra dói... destrói... avilta... mata!
E ao próprio Deus inflige Sofrimento!
No coração da mãe: luto, lamento!
Que à Alma materna acerba Dor maltrata!

A guerra afia as garras... e sua boca
Escancara e devora a Humanidade!
Nódoa, crime, ambição, calamidade!
Mata Amores e Sonhos – fera e louca!

E vai, segue o bicho-homem – deletério
Edificando o Caos dentre os destroços:
Rega fantasmas a sangue! Colhe ossos!

Vertiginoso o mundo – fria Babel
Caminha para o Nada! E em seu papel
A guerra faz da Terra cemitério!

JJotaPoeta


O segundo poema é do meu grande amigo Humberto Rodrigues Neto, que assina como Humberto-Poeta.


GAZA! QUEM É O CULPADO?

Culpados são os padres e pastores
e rabinos, também, e aiatolás
pregando deuses maus e vingadores,
a fomentar o ódio em vez da paz!

Ao se suporem do universo o centro,
fazem do engodo seus apostolados,
sempre a empurrar-nos, tímpanos a dentro,
falsos mitos de credos superados!

Da Igreja nunca mais será esquecida
a sua mais hórrida e venal tragédia:
os mártires aos quais ceifou a vida
nos fogareiros vis da idade média!

Protestantes, judeus e muçulmanos
sofreram as torturas mais horríveis,
enquanto os cardeais, nédios e ufanos,
às súplicas sorriam-se impassíveis!


Aos rabinos, versados no Talmude,
do qual supõem ter desvendado os lacres,
pouco importa se a mosaica juventude
se dê à carnificina dos massacres!

Aos muçulmanos a morte é um pretexto
que afirmam registrado no Alcorão!
Mentira, pois Alá, em nenhum texto,
pede a alguém p’ra matar um pobre irmão!

Toda essa mocidade promissora
que Deus fadou aos mais fraternos atos,
fica à mercê da sanha destruidora
dessa grei de assassinos e insensatos!

Assim age o que engendra atrocidades
e instrumento se faz de tal sandice:
mascara os livros sacros de inverdades
dizendo coisas que Deus nunca disse!

Mas quem da Bíblia e do Alcorão faz messes
das mais diabólicas cavilações,
precisa muito mais das nossas preces
que das nossas acerbas maldições!

Humberto-Poeta

domingo, 28 de dezembro de 2008

PUXA... DEUS...

Puxa, meu Deus... por que é que a gente sofre tanto?
...por que é que o pranto chega sem ser convidado?
Por que é que a vida é feita de desencanto?
Por que o encanto mostra sempre o outro lado?

Puxa, meu Deus, por que é que o sonho se dissipa?
... por que é que a dor se antecipa ao sorriso ?
Por que é, Senhor, que o nosso amor não participa
Da emoção de um coração tão... indeciso?

Puxa, meu Deus, há tanto sonho em cada peito
Insatisfeito, procurando a alegria
Da emoção de ser feliz, quando é desfeito
Todo o desejo de dar vida à fantasia...

Puxa, meu Deus, se a verdade é tão cruel,
Que a gente minta a solidão e, nos espelhos,
A gente veja um anjo vindo lá do céu
E nunca um homem solitário... de joelhos.

Puxa, meu Deus, é muito triste ser adulto
E ver o sonho envelhecer dentro de nós...
Ver os desejos transformarem-se no vulto
Da solidão humanamente tão atroz...

Puxa, meu Deus, há um milagre em cada prece
Que arrefece quando a angústia é poderosa,
Mas teu amor supera a dor que entristece
O nosso amor, quando a tristeza é mais teimosa.

E se o milagre improvável acontece,
Puxa, meu Deus, a sensação que nos invade
É tão bonita que cativa e enternece
O coração com a mais subtil felicidade...

Por isso, Deus... faz com que a gente realize
Nossos desejos de maneira natural
E que o amor que há em ti nos tranquilize
Quando a angústia nos trouxer a dor e o mal.

Que o teu milagre surja sempre em cada irmão
Que nos ensine até mesmo sem querer
Que é no pulsar do mais tristonho coração
Que cada sonho faz o amor sobreviver.

Que cada amigo, cada irmão, cada pessoa
Nos surpreenda e nos faça acreditar,
Que cada sonho é uma alma que voa
Quando a intenção de ser irmão nos faz voar.


Luiz Poeta
Às 19 h e 25 min do dia 25 de Fevereiro de 2007


Luiz Gilberto de Barros – Luiz Poeta - é Director Cultural da Associação Cultural Encontros Musicais, Quinto Académico da Academia Virtual Luso Brasileira de Letras.

Membro da União Brasileira de Trovadores e filiado à Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Música ( sbacem-rj ), é poeta, trovador, cronista, contista, artista plástico, compositor, intérprete, violonista e guitarrista, sendo também Professor de Literatura, Língua Portuguesa e Produção de Textos, leccionando actualmente na Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro.

Considera-se um poeta compulsivo, possuindo um acervo literário pessoal de mais de dez mil trabalhos diversificados, incluindo textos em prosa e poesias, tendo sido premiado com a publicação de várias antologias.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

POETAS AFRICANOS – 3

Com este título – “Poetas Africanos” - apresentei dois poetas moçambicanos, pouco conhecidos do público em geral – Juvenal Bucuane e Francisco Xavier Guita Júnior (Guita Jr).

Hoje cabe a vez a um escritor cuja poesia é também pouco divulgada. Publicou apenas um livro de poemas, em 1983. A sua notoriedade deve –se à sua escrita em prosa, tendo publicado vários livros de contos e romances.

Trata-se de Mia Couto, natural de Moçambique, filho de emigrante português, também ele poeta e jornalista. Cursou medicina, acabando por formar-se em biologia. É como biólogo que, actualmente, exerce a profissão de professor universitário.



Oportunamente publicarei aqui alguns dos seus poemas. Hoje prefiro apresentar um excerto de um conto que faz parte do livro «Cada homem é uma raça».

“Sidney Poitier na barbearia de Firipe Beruberu” - conto

A barbearia do Firipe Beruberu ficava debaixo da grande árvore, no bazar do Maquinino. O tecto era a sombra da maçaniqueira
(árvore da maçanica, conhecida por maçã-da-índia).
Paredes não havia: assim ventava mais fresco na cadeira onde Firipe sentava os clientes Uma tabuleta no tronco mostrava o custo dos serviços. Estava escrito: «cada cabeça 7$50». Com o crescer da vida, Firipe emendou a inscrição: «cada cabeça 20$00».
E para os clientes que adormeciam na cadeira, acrescentou «Cabeçada com dormida – mais 5 escudos»
… O barbeiro distribuía boas disposições, dákámaus( apertos de mão) . Quem passeasse seus ouvidos por ali só ouvia conversa sorridente. Propaganda do serviço. Firipe não demorava:

- Estou-vos a dizer: sou mestre dos barbeiros, eu. Podem andar aí, em toda a volta, procurar nos bairros: todos vão dizer que Firipe Beruberu é o maior.

Alguns clientes toleravam, pacientes. Mas outros lhe provocavam, fingindo contrariar:
- Boa propaganda, mesire(tratamento de respeito) Firipe.
- Chii, propaganda? Realidade! Se até cabelo fino de branco já cortei.
- O quê? Não diga que um branco já chegou nessa barbearia…
- Eu não disse que chegou aqui um branco. Disse que cortei cabelo dele. E cortei, palavra da minha honra.
- Explique lá, ó Firipe, Se o branco não chegou até aqui, como é que lhe cortou?
- É que fui chamado lá na casa dele. Cortei dele, cortei dos filhos também. Razão que eles tinham vergonha de sentar aqui, nessa cadeira. Só mais nada.
- Desculpa, mesire.Mas esse não era branco-mezungo(branco, senhor). Era um xikaka(colono, português de categoria social dita inferior).

Firipe fazia cantar a tesoura enquanto a mão esquerda puxava da carteira
- Uáá! Vocês? Sempre duvidam, desconfiam. Já mostro prova da verdade. Espera aí, onde é que…? Ah!, está aqui.

Com mil cuidados desembrulhava um postal colorido de Sidney Poitier.

- Olhem essa foto. Estão a ver esse gajo? Apreciam o cabelo dele: foi cortado aqui, com essas mãos. Tesourei-lhe sem saber qual era a importância do tipo. Só vi que falava inglês.

Os fregueses faziam crescer as suas dúvidas. Firipe respondia:
- Estou-vos a dizer : esse gajo trouxe a cabeça dele desde lááá, da América até aqui na minha barbearia…

… Mas um homem rico como aquele, estrangeiro ainda mais, havia de ir no salão dos brancos. Não sentava aqui, mesire. Nunca!

O barbeiro fingia-se ofendido. A sua palavra não podia ser posta em dúvida. Ele então usava o seu derradeiro recurso:
- Tem dúvida? Então vou apresentar testemunha. Vocês vão ver, esperem lá.

…O barbeiro não tinha ido longe. Afastara-se apenas uns tantos passos para conferenciar com um velho vendedor de folha de tabaco. Regressavam os dois, o Firipe e o velho.
- Está aqui o velho Jaimão.
E virando-se para o vendedor, Firipe ordenava:
- Fala lá você, ó Jaimão.
O velho tossia toda a rouquidão antes de confirmar.
- Sim. Na realmente, vi o homem da foto. Foi cortado o cabelo dele aqui. Sou custumunha.
E choviam as perguntas dos clientes…

…Uááá, não é mentira. Até me lembro: foi um sábudu.

… Foi num dia. A barbearia continuava seu sonolento serviço, e essa manhã, como todas as outras, se sucediam as doces conversas.
…Foi então que apareceram dois estranhos. Só um entrou na sombra. Era um mulato, quase branco. As conversas desmaiaram ao peso do medo. O mulato se dirigiu ao barbeiro e ordenou que mostrasse os documentos:
- Porquê, os documentos? Eu, Firipe Beruberu, sou duvidado?
Um dos clientes aproximou-se de Firipe e segredou-lhe:
- Firipe, é melhor você obedecer. Esse homem é o Pide.
O barbeiro baixou-se sobre o caixote e retirou os documentos:
- Estão aqui os meus plásticos.
O homem passou em revista a carteira. Depois amarrotou-a e atirou-a para o chão.
- falta uma coisa nesta carteira, ó barbeiro.
- Falta alguma coisa, como? Se todos os documentos já entreguei.
- Onde está a fotografia do estrangeiro?
- Estrangeiro?
- Sim, desse estrangeiro que você recebeu aqui na barbearia.

O Firipe duvida primeiro, depois sorri. Entendera a confusão e prontificava-se a explicar:
- Mas senhor agente, isso do estrangeiro é história que inventei, brincadeira…

O mulato empurra-o, fazendo-lhe calar.
- Brincadeira, vamos ver. Nós sabemos muito bem que vêm subversivos da Tanzânia, da Zâmbia, de onde. Turras! Deve ser um desses que recebeste aqui.
- Mas receber, como? Eu não recebo ninguém, não mexo com política.
O agente vai inspeccionando o lugar, desouvindo. Pára em frente da tabuleta e soletra em surdina:
- Não recebes? Então explica lá o que é isto aqui: «Cabeçada com dormida: mais 5 escudos». Explica lá o que é essa dormida.
- Isso é por causa de alguns clientes que dormecem na cadeira.

O polícia já cresce na sua fúria.
- Dá-me a foto.
O barbeiro retira o postal do bolso. O polícia interrompe o gesto, arrancando-lhe a fotografia com tal força que a rasga.
- Este aqui também adormeceu na cadeira, hein?
- Mas esse nunca esteve aqui, juro. Fé – de - Cristo, senhor agente. Essa foto é do artista do cinema. Nunca viu nos filmes, desses dos americanos?
- Americanos, então? Está visto. Deve ser companheiro do outro, o tal Mondlane que veio da América. Então este também veio de lá?
- Mas esse não veio de nenhuma parte. Isso tudo é mentira, propaganda.
- Propaganda? Então deves ser tu o responsável da propaganda da organização…

O agente sacode o barbeiro pela bata, os botões caem. Vivito (1) tenta apanhá-los, mas o mulato dá-lhe um pontapé.
- Para trás, sacana. Ainda vai é tudo preso.

O mulato chama o outro agente e fala-lhe ao ouvido. O outro parte pelo atalho e regressa, minutos depois, trazendo o velho Jaimão.
- Já interrogámos este velho. Ele confirma que recebeste aqui o tal americano da fotografia.
Firipe, de sorriso frouxo, quase nem tem força para se explicar.
- Vê, senhor agente, outra confusão. Eu que paguei ao Jaimão para ele servir de testemunha da minha mentira. Jaimão está combinado comigo.
- Está combinado, está.
- Ó jaimão diz lá: não foi uma maneira que combinámos?

O pobre velho, desentendido, rodava dentro do seu casaco esfarrapado.
- Sim. Na realmente eu vi o cujo homem. Estava aqui, nessa cadeira.

O agente empurrou o velho, amarrando os seus braços aos do barbeiro, Olhou em volta, com vistas de abutre magro. Enfrentava a pequena multidão que assistia a tudo silenciosamente. Deu um pontapé na cadeira, partiu o espelho, rasgou o cartaz. Foi então que Vivito se meteu, gritando. O aleijado segurou o braço do mulato mas cedo se desequilibrou, caindo de joelhos.
- E este quem é? Que língua é que ele fala? Também é estrangeiro?
- Esse rapaz é meu ajudante.
- Ajudante? Então também vai dentro. Pronto, vamos embora! Tu, o velho e este macaco dançarino, tudo a andar à minha frente.
- Mas o Vivito…
- Cala-te barbeiro, já acabou o tempo das conversas. Vais ver que, lá na prisão, há um barbeiro especial para te cortar o cabelo a ti e aos teus amiguinhos.

E, perante o espanto do bazar inteiro, Firipe Beruberu, vestido de sua imaculada bata, tesoura e pente no bolso esquerdo, seguiu o último caminho na areia do Maquinino. Atrás, com sua antiga dignidade, o velho Jaimão. Seguia-se-lhe o Vivito de passo bêbado. Fechando o cortejo, vinham os dois agentes, vaidosos da sua caçada. Calaram-se então os pequenos milandos (brigas, discussões) do quanto custa, o mercado rendeu-se à mais funda melancolia.
Na semana seguinte vieram dois cipaios. Arrancaram a tabuleta da barbearia. Mas, olhando o lugar, eles muito se admiraram: ninguém tinha tocado em nenhuma coisa. Ferramentas, toalhas, o rádio e até a caixa de trocos continuavam como foram deixados, à espera do regresso do Firipe Beruberu, mestre dos barbeiros de Maquinino.

(1) – Vivito , o ajudante do barbeiro era aleijado, as pernas bambas, a cabeça pequenita coxeava sobre os ombros. Babava-se nas palavras, salivando nas vogais, cuspindo nas consoantes…

Mia Couto in «Cada homem é uma Raça»

domingo, 25 de maio de 2008

POETAS AFRICANOS – 2

No post com este mesmo título, em 24 de Fevereiro, apresentei o poeta Juvenal Bucuane, natural de Moçambique.

Para assinalar o “Dia de África”, que hoje se comemora, dou-vos a conhecer Francisco Xavier Guita Júnior (Guita Jr)


Nascido em Inhambane, Moçambique, a 14 de Março de 1964, publicou os seus primeiros poemas em 1987, na sua terra natal, onde exerce a profissão de professor de português.

De sua autoria, estes dois poemas:



NO JARDIM DA NOITE COM ESTRELAS DE VERÃO

(página 26)

Agora órfão ou castrado
perdoadas estão as naus de da Gama
e contemplo só estrelas e flores onde tragava
a humilhação e o chicote do patrão.

Vasculho as ruas da cidade
na procura do subterfúgio a nu.
É inevitável o retorno,
haverá fantasmas em meu redor.
Há micaias em meu corpo
que deflagram como minas
cansadas dos silêncios

Quando sonho alegrias
acendo uma vela no peito
sobre o castiçal do coração
e volto a desaguar na escuridão
e apalpo e amarfanho a agonia
no dorso da noite.
Porém não tenho armas
para falar de amor.

É esta a loucura da minha intenção




POR UMA SEREIA DE TREVA

(página 16)

Sem segredos, melhor que nós
ninguém sabe a morte a dois.
E como heróis subterrâneos que somos
procuramos a vida por entre as trevas
navegamos algas ao amanhecer
para encontrar um irmão pelas mãos

Empresta-me a tua máscara, quero saborear
esta melodia, ter nos olhos a cor.
E antes que o dilúvio se propague
nademos nas profundezas do asco;
talvez surja uma sereia de treva
onde possamos pousar o coração
que em fragmentos se dissolve no iodo
da atmosfera que transportamos às costas

Sem segredos, melhor que nós
ninguém por entre a fresta da porta
da noite apalpa este enigma:
prestar contas ao silêncio dos olhos
e conter a náusea por um instante
ultrapassando o passado hóspede da masmorra
da presente folia ardente transeunte.


Do livro “O agora e o depois das coisas” (1990-1992), publicado em 1997 – edição da AEMO

domingo, 6 de abril de 2008

NÃO SOMOS POLÍTICOS

O post “Um bom exemplo” sugere-me dizer o seguinte:

Neste blog não há políticos. Não fazemos política nem crítica político/social. Para tanto nos falta “engenho e arte”.
Deixamos isso para os espaços especializados, como por exemplo, “Do Mirante” ou “Do Miradouro”, ambos do amigo João Soares, que tão condignamente o faz.
Mas uma “bicadinha”, de vez em quando, especialmente em forma de poema, não perdoamos.
Não resisto a publicar este, da autoria do meu amigo Humberto Rodrigues Neto – poeta brasileiro - que assina como «Humberto – Poeta»

HIPÓCRITAS!

Parlamentar venal que tens um posto
no congresso, por erros de quem vota,
és cópia exata desse vil idiota
que pela fraude tem teu mesmo gosto!

Do roubo e do conchavo a fazer rota,
e às vis cavilações sempre disposto,
és do país o carcinoma exposto
que os frágeis órgãos da nação esgota!

Fraudando as verbas que o teu bolso come,
pouco te importa morra o povo à fome,
alheio a esse mandato que avacalhas!

Que venha o relho, a ditadura, enfim,
varrer esses patifes, pondo um fim
nessa imunda caterva de canalhas!

Humberto – Poeta

E AINDA...

Dentro do contexto do poema anterior não poderia ficar esquecido o nosso saudoso Zeca Afonso.





OS VAMPIROS

No céu cinzento sob o astro morno
Batendo as asas p’la noite calada
Vêm em bandos com pés de veludo
Chupar o sangue fresco da manada.

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

A toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios, poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas.

São os mordomos do Universo todo
Senhores à força, mandadores sem lei,
Enchem as tulhas, bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei

Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos na noite abafada,
Jazem no fosso vítimas dum credo
E não se esgota o sangue da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo, eles comem tudo,
Eles comem tudo, eles comem tudo,
Eles comem tudo e não deixam nada!



Não esqueça que somos apolíticos!
Mas isso não impede que sejamos pela Liberdade e pela Justiça.






domingo, 24 de fevereiro de 2008

POETAS AFRICANOS - 1

Domingo, 24 de Fevereiro de 2008


POETAS AFRICANOS

Deixem-me apresentar-vos o poeta moçambicano Juvenal Bucuane, com o seu poema «Húmus de Amanhã»


Humus de Amanhã
Não quero que vejas nem sintas a dor que me amargura;
Não quero que vejas nem vertas as lágrimas do meu pranto.
Deixa que eu chore as mágoas e as desilusões;
deixa que eu deambule;
deixa que eu pise a calidez do chão desta terra
e o regue até com o meu suor;
deixa que me toste sob este sol inóspito
que me dardeja o lombo sempre arqueado...
Este penar é o resgate da esperança que em ti alço!
Este penar é a certeza do amanhã
que vislumbro na tua ainda incipiente idade!
Não quero que vejas
nem sintas
meu tormento
ele é o húmus do Homem Novo.