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domingo, 10 de abril de 2011

FUGA DO PARAÍSO

Há dois ou três anos, encontrando-me de férias em Espanha, ao folhear uma revista espanhola do hotel, li uma reportagem que achei extraordinária.


Ainda tentei comprar uma revista igual mas não consegui encontrar. Decidi então tomar apontamentos, o mais detalhadamente possível, e trouxe-os comigo. Esqueci por completo o assunto.
Há dias, ao mexer numas papeladas, encontrei-os. Procurei e descobri fotos na Net, para documentar, e compus a história. Partilho-a convosco.


Em 20 de Março de 1991 largava de uma base aérea cubana o comandante Orestes Lorenzo




num “caça MIG-23”, o avião mais moderno da Força Aérea Cubana.
A toda a velocidade e a baixa altitude atravessou, em menos de 10 minutos, os 150 quilómetros que separam Cuba dos Estados Unidos.

Como voava quase rente à água nem os radares cubanos nem os norte americanos se aperceberam da sua presença.

Orestes pode aterrar sem problemas na base aeronaval de Boca Chica, na Florida. Ali pediu asilo político e, depois de submetido a interrogatórios, recebeu o estatuto de refugiado político.

A deserção de Orestes Lorenzo foi uma bofetada no regime castrista. O comandante Lorenzo era um dos pilotos de elite da Força Aérea. Veterano da Guerra de Angola, tinha efectuado dois períodos de treinamento na União Soviética.
Foi durante o último destes períodos, já com a “perestroika” de Gorbachov em marcha, que Orestes começou a questionar o regime comunista e a sua vida em Cuba. Na União Soviética começavam a soprar os ventos da Liberdade.
No regresso começou a planear a sua deserção com a esperança de que, uma vez nos Estados Unidos, a sua mulher, Victória, e os seus dois filhos pudessem juntar-se a ele.
Depois da fuga no avião, e na qualidade de refugiado, pediu a saída da sua família da ilha, mas deparou-se com a recusa de Raul Castro, à data Comandante das Forças Armadas.
Castro de maneira nenhuma permitiria a saída de Cuba da família dum militar de elite que havia atraiçoado a confiança que nele tinham depositado, e havia posto a ridículo o regime.


Orestes recorreu à Comissão de Direitos Humanos da ONU, sem qualquer resultado. Coincidindo com a cimeira ibero-americana celebrada em Madrid em 1992, com a presença de Fidel Castro, começou um protesto às portas do Parque del Retiro.
A rainha Sofia




empenhou-se pessoalmente, junto de Fidel, para conseguir a saída de Victória e seus filhos de Cuba. Inclusivamente, o assunto foi a despacho a Mijaíl Gorbachov.
Tudo foi em vão. Raul Castro, por intermédio de seu ajudante pessoal, fez chegar a sua resposta a Victória:
- Diga ao seu marido que, se teve cojones para desviar um avião, que os tenha também para vir buscar-vos pessoalmente.
Orestes chegou a publicar uma “carta aberta” a Fidel Castro no "Wall Street Journal", na qual se propunha apresentar-se em tribunal em Cuba se ele permitisse que a sua mulher e os seus filhos viajassem para os Estados Unidos. Não obteve resposta.

Ante as escassas perspectivas das demarches internacionais, o ex militar cubano começou a entrar em desespero.
Decidiu então que, se não obtinha êxito a bem iria ele mesmo buscar a sua família a Cuba.
Conhecia os aviões russos, mas tinha que treinar-se nos modelos convencionais ocidentais.



Em pouco tempo conseguiu o brevet de piloto desportivo e, com 30.000 dólares emprestados por uma organização humanitária de exilados cubanos, comprou uma velha avioneta bimotor “Cessna 310” em bom estado.
Por intermédio de duas amigas mexicanas que foram a Cuba, fez chegar secretamente à sua família a data, o lugar e a hora exacta onde deviam esperá-lo para o resgate que tinha planeado.
O dia escolhido foi 19 de Dezembro às cinco da tarde.
Largou de um pequeno aeroclube nos arredores de Miami, advertindo que, se não regressasse no prazo de duas horas, o considerassem morto.
Voando a muito baixa altitude (2 metros sobre o oceano) para evitar os radares, a avioneta aproximou-se da ilha ao entardecer e dirigiu-se à estreita estrada em frente à praia El Mamey, muito perto de Varadero, a cerca de 150 quilómetros a Este de Havana.

Imediatamente a sua mulher e filhos, que esperavam na estrada, conforme combinado, escutaram o ronco do motor e viram o aparelho.

O que Lorenzo não tinha previsto, no seu minucioso plano, era que a estrada, àquela hora, estivesse com trânsito. O cenário não podia ser pior: no troço escolhido para a aterragem circulavam um carro, um tractor, um autocarro com turistas, e uma gigantesca pedra encontrava-se no meio da via.
Balançando as asas o piloto quase roçou o tecto do automóvel, tocou em terra e deteve-se a uns 8 metros do autocarro com turistas, petrificados nos seus assentos e com os olhos a ponto de lhes saírem das órbitas.

Quase dois anos depois da separação Lorenzo viu aparecer a sua família correndo em frente ao avião.

Na estrada, Alexandre, o menino mais novo, perdeu um sapato. Para evitar um acidente com as hélices e preparar a descolagem, Orestes inverteu a direcção do avião e abriu a portinhola da cabine. Tudo em menos de um minuto.
Orestes conseguiu descolar, mas dentro do avião o medo paralisava os seus ocupantes.

Victória não despegava os olhos do céu, temendo que aparecessem os caças cubanos. Rezava.
Os meninos estavam assustados, confusos, choravam.
Só quando a avioneta ultrapassou o paralelo 24, limite do espaço aéreo de Cuba, a tensão baixou.
Quase uma hora mais tarde a avioneta aterrava de volta à Florida.




O alvoroço mediático que causou a façanha de Orestes foi tremendo, já que, pela segunda vez, tinha ridicularizado o regime castrista.
Na primeira conferência de imprensa disse:
- Digam a Raul castro que lhe peguei na palavra e fui pessoalmente buscar a minha família.



Presentemente Orestes é um próspero empresário que dirige a sua própria empresa de construção em Miami, algo que em Cuba jamais poderia ter feito.

domingo, 18 de julho de 2010

CARTA PARA JOSEFA

Completa-se hoje, dia 18 de Julho, um mês sobre a morte de José Saramago.
À data do seu falecimento abstive-me de publicar qualquer notícia sobre o Nobel da Literatura Português. Muitos blogs o fizeram, muitos foram os comentários que fiz nalguns desses mesmos blogs.
Passados estes trinta dias apraz-me relembrar aquele que é considerado um dos maiores, senão o maior, escritor de língua portuguesa.
Nesse sentido lembrei-me de partilhar convosco um texto, talvez dos menos conhecidos de Saramago, que tem por título

“Carta a Josefa, minha avó”

Avó Josefa e Avô Jerónimo, no dia do nascimento do seu neto mais novo, José Saramago



Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.

José Saramago, in “Deste Mundo e do Outro”


Saramago, aos 76 anos de idade, recebe o Prêmio Nobel das mãos do rei da Suécia.
Estocolmo, 1998

domingo, 18 de abril de 2010

LUZ E ESCURIDÃO

O MENINO QUE TROUXE LUZ AO MUNDO DA ESCURIDÃO

Um dia um menino de três anos estava na oficina do Pai vendo-o fazer arreios e selas. Quando crescesse queria ser igual ao Pai.
Tentando imitá-lo, agarrou um instrumento pontiagudo e começou a bater numa tira de couro.
O instrumento escapou da pequena mão, atingindo-o no olho esquerdo.
Logo de seguida uma infecção atingiu o olho direito, e o menino ficou totalmente cego.
Com o passar do tempo, embora se esforçasse para se lembrar, as imagens foram gradualmente desaparecendo, e em breve ele não se lembrava mais das cores.
Aprendeu a ajudar o Pai na oficina, trazendo ferramentas e peças de couro.
Ia para a escola e todos se admiravam da sua memória.
Na verdade ele não estava feliz com os seus estudos. Queria ler livros, escrever cartas, como os seus colegas.
Um dia ouviu falar de uma escola para cegos.
Aos dez anos Louis chegou a Paris levado pelo Pai, e matriculou-se no Instituto Nacional para crianças cegas.
Ali havia livros com letras grandes, em relevo.
Os estudantes sentiam, pelo tacto, as formas das letras, e aprendiam as palavras e frases.
Logo o jovem Louis descobriu que era um método limitado. As letras eram muito grandes. Uma história curta enchia muitas páginas.
O processo de leitura era muito demorado.
A impressão de tais volumes era muito cara.
Em pouco tempo o menino tinha lido tudo o que havia na biblioteca. Queria mais.
Como adorava música tornou-se estudante de piano e violoncelo.
O amor à música aguçou o seu desejo pela leitura. Queria ler também notas musicais.
Passava noites acordado, pensando em como resolver o problema.
Ouviu falar de um capitão do exército que tinha desenvolvido um método para ler mensagens no escuro.
A escrita nocturna consistia em conjuntos de pontos e traços em relevo no papel.

Os soldados podiam, correndo os dedos sobre os códigos, ler sem precisar de luz.
Ora, se os soldados podiam, os cegos também podiam – pensou o garoto.
Procurou o capitão Barbier que lhe mostrou como funcionava o método:
Fez uma série de furinhos numa folha de papel com um furador semelhante ao que cegara o pequeno Louis.
Noite após noite e dia após dia Louis trabalhou no sistema de Barbier, fazendo adaptações e aperfeiçoando-o. Suportou muita resistência.
Os donos do Instituto tinham gasto uma fortuna na impressão dos livros com as letras em relevo. Não queriam que tudo fosse por água abaixo.
Com persistência, Louis Braille foi mostrando o seu método. Os meninos do Instituto interessavam-se. À noite, às escondidas, iam ao seu quarto para aprender.
Finalmente, aos vinte anos de idade, Louis chegou a um alfabeto legível, com combinações variadas, de um a seis pontos.
O método Braille estava pronto.
O sistema permitia também ler e escrever música.
A ideia acabou por encontrar aceitação.
Semanas antes de morrer, no leito do hospital Louis disse a um amigo:
- Tenho a certeza que a minha missão na terra terminou.
Louis Braille faleceu dois dias depois de completar 43 anos.

Nos anos seguintes à sua morte o método espalhou-se por vários países.
Finalmente foi aceite como método oficial de leitura e escrita para invisuais.
Assim, os livros puderam passar a fazer parte da vida dos cegos.
Tudo graças a um menino imerso em trevas, que dedicou a sua vida a fazer luz para enriquecer a sua vida e a de todos que se encontram privados da visão.

Há quem use as suas limitações como desculpa para nada fazer.

Louis Braille nasceu a 4 de Janeiro de 1809, em Coupvray, França; faleceu a 6 de Janeiro de 1852.


Autor: William J. Bennett – Livro das Virtudes II, Capítulo “O menino que trouxe luz ao mundo da escuridão”
William J. Bennett

William John Bennett, (nasceu dia 31 de julho de 1943 - ), político estadunidense, foi Secretário de Educação dos Estados Unidos da América, entre 1985 a 1988.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

VÍTIMA DO TERRAMOTO DE HAITI

Viveu como santa, morreu como mártir

Fundadora da Pastoral da Criança, a médica Zilda Arns dedicou a existência a minorar o sofrimento dos despossuídos e a evitar o desperdício da vida. Até o último minuto.

A ÚLTIMA PREGAÇÃO
Escombros da Igreja Sacré Coeur de Tugeau, em cuja casa paroquial
Zilda Arns proferiu uma palestra antes de morrer

Montagem sobre fotos de Rodolfo Buhrer e Yhony Belizaire/AFP

Nascer mulher em Forquilhinha, Santa Catarina, nas primeiras décadas do século passado significava ser, no futuro, professora ou religiosa.
Zilda Arns, 13ª filha de uma família descendente de alemães, contrariou esse destino por amor. Aos 21 anos de idade, apaixonou-se pelo futuro marido, o então marceneiro Aloysio Neumann, que, chamado para um conserto na casa dos Arns, encantou-se com a jovem que viu na sala tocando piano.
Foi também em nome de outra forma de amor, aquele mais sublime que se devota ao próximo, que Zilda enfrentou a resistência paterna e insistiu em estudar medicina, num tempo em que ser doutor era coisa de homem.
O apoio do irmão, o hoje arcebispo emérito de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, foi fundamental para dobrar a família. "Ele havia estudado na Sorbonne e convenceu o pai de que estavam começando a formar mulheres médicas lá fora", conta Rogerio Arns Neumann, de 39 anos, um dos seis filhos que Zilda teve com Neumann, morto em um acidente no mar aos 46 anos de idade.
Desde que alterou o curso do próprio destino, Zilda Arns não parou mais de mudar o dos outros, a começar por aqueles que a miséria e a ignorância haviam fadado a ter curta duração.
Nos anos 80, por sugestão de dom Paulo, a pediatra e sanitarista aceitou formular um projeto para disseminar o uso do recém-criado soro caseiro, aproveitando a imensa influência da Igreja Católica entre os pobres, e com isso combater o flagelo da mortalidade infantil.
Assim nasceu a Pastoral da Criança, um projeto tão singelo na sua concepção quanto na execução. Consistia em identificar, nas paróquias e comunidades católicas, lideranças que treinariam voluntárias para ensinar mães pobres a adotar o soro. Essa e outras medidas igualmente simples ajudariam a evitar que seus filhos morressem de diarreia, desidratação, contaminação e outros males fáceis de vencer com quase nada de dinheiro e um pouco de informação.
O local escolhido para iniciar o trabalho foi a pequena Florestópolis, no Paraná. Lá, a mortalidade infantil era tão alta que, no único cemitério existente, o número de cruzes de tamanho pequeno, que sinalizavam os túmulos de crianças, superava em muito o de cruzes grandes. Depois do trabalho da Pastoral, a taxa de mortalidade baixou de 127 óbitos em cada 1 000 crianças nascidas vivas para 28. A partir daí, o programa foi sendo exponencialmente replicado até alcançar 72% do território nacional, além de vinte países na América Latina, África e Ásia.
Ao longo dos 25 anos em que esteve à frente da Pastoral da Criança, Zilda Arns visitou os cantos mais remotos do Brasil. Aterrissou em um sem-fim de aeroportos, fez travessias em barcos precários e sacolejou de ônibus por estradas que eram mais buraco do que chão.
Seus olhinhos azuis, sempre radiantes, se acostumaram a ver a pobreza extrema, e seu corpo forte se habituou à contenção e à precariedade.
Três meses atrás, ela esteve no Timor Leste, um dos países em que a Pastoral fincou suas bases e onde auxilia cerca de 6 000 crianças. Lá, como quase sempre, faltava quase tudo, incluindo água corrente na casa em que Zilda se hospedou com Rúbia Pappini, voluntária da Pastoral há vinte anos.
- "Para lavar os cabelos, mergulhávamos a cabeça debaixo da pia e reaproveitávamos a água que escorria para tomar banho de caneca", lembra Rúbia.

Na noite do último domingo, Zilda Arns interrompeu as férias de família para começar mais um pinga-pinga por aeroportos. De Curitiba, onde morava, fez escala em São Paulo e, da capital paulista, seguiu para Miami, nos Estados Unidos, onde pegou outro avião que a levou até o Haiti.
Chegou a Porto Príncipe ao meio-dia da segunda-feira.

No dia seguinte, ela faria uma palestra sobre o trabalho da Pastoral para um grupo de religiosos haitianos, num edifício de três andares em frente à igreja Sacré Coeur de Tugeau.
Foi ao fim dessa palestra que se deu o terremoto. Quem descreve o ocorrido é o tenente Paulo Cézar Acebedo Strapazzon, que havia sido convocado para traduzir para o francês a fala da médica, esperada no 3º andar do prédio por 120 sacerdotes.
Zilda chegou com quarenta minutos de atraso por causa de um engarrafamento no trânsito. A tradução acabou sendo feita por um civil haitiano que viera com o tenente e falava o crioulo, dialeto local, de compreensão mais fácil para a plateia.
Faltavam quinze minutos para as 5 horas quando a médica terminou sua palestra. A plateia deixou a sala, mas alguns padres se aproximaram de Zilda para fazer-lhe perguntas. Nesse momento, o tenente perguntou à médica se ainda poderia ser úti. Ela respondeu que mais tarde precisaria de ajuda para traduzir alguns manuais.
Strapazzon desceu os lances de escada até o térreo, entrou em seu jipe, deu a partida, e então viu todos os prédios desabar ao seu redor. Os três andares do prédio transformaram-se em um amontoado de pedras e vigas de metal.
Zilda Arns morreu na hora, atingida na cabeça por uma viga do teto que desabou. Outros quinze religiosos que estavam na sala morreram também.
O corpo da médica chegou na sexta-feira a Curitiba, onde foi transportado em carro aberto – e aplaudido por pedestres que paravam à sua passagem.

DESPEDIDA DA MISSIONÁRIA

O velório de Zilda Arns em Curitiba (no centro, o arcebispo de Salvador, dom Geraldo Majella): seu trabalho mudou o destino de milhões de crianças.

Zilda Arns tinha 75 anos, um terço dos quais consagrados aos despossuídos e à tarefa de celebrar o caráter sagrado da vida – o que ela fez em cada uma das infinitas vezes em que ajudou a evitar seu desperdício.
Com gestos miúdos, persistência de formiga e fé colossal, construiu uma epopeia silenciosa que mudou a face do Brasil e o destino de milhões de pessoas. Sua vida teve a grandeza da de uma santa – e à sua obra pode-se dar o nome de milagre.


quinta-feira, 4 de junho de 2009

UM VERDADEIRO HERÓI

STEPHEN HAWKING
Seus pais viviam em Londres e foi nessa cidade que seu pai se dedicou à investigação médica. Durante a Segunda Guerra Mundial Londres era um lugar perigoso, e a mãe de Stephen foi enviada para a cidade de Oxford, onde ele nasceu.
Logo a família regressou a Highgate, ao norte de Londres, onde Stephen iniciou os seus estudos.
Em 1950 o seu pai mudou-se para o Instituto de Investigação médica de Mill Hill.
Stephen estudou no Instituto para meninas de St.Albans (que admitia meninos até aos 10 anos de idade) e aos 11 anos mudou para o colégio com o mesmo nome.
Seu pai queria que ele concorresse a uma bolsa de estudos para ir para a Escola Pública de Westminster, apesar de Stphen estar doente durante o período de exames.
Em Março de 1959 Hawking concorreu a uma bolsa de estudos com o propósito de estudar Ciências Naturais em Oxforf.
Conseguiu uma bolsa, e licenciou-se em Física, em 1962. De Oxford, Hawking mudou-se para Cambridge para iniciar investigação em relatividade geral e cosmologia, áreas difíceis para alguém com poucas bases em matemática.
Naquela altura Hawking tinha notado que se tinha tornado fisicamente débil, e no Natal de 1962 sua mãe convenceu-o a ir ao médico.
Nos princípios de 1963, passou duas semanas fazendo exames no hospital, onde lhe diagnosticaram uma doença neurológica motora – ou doença de Lou Gehrig. (famoso jogador de basebol americano, falecido em 1941, portador da mesma doença)
O seu estado deteriorou-se rapidamente, e os médicos prognosticaram que não viveria o suficiente para acabar o seu doutoramento.
Apesar disso, Hawking escreveu:
“Mesmo havendo uma nuvem sobre o meu futuro, descobri, para minha surpresa, que estava desfrutando a vida, no presente, mais do que o havia feito antes. Comecei a avançar na minha investigação”.

Seguiu a sua investigação porque encontrou estímulo ao conhecer uma rapariga com quem queria casar-se,



e deu-se conta de que tinha que acabar o seu doutoramento para conseguir um trabalho melhor.

“Portanto, comecei a trabalhar pela primeira vez na vida. Para minha surpresa, descobri que gostava”
Stephen Hawking está gravemente incapacitado por causa da sua doença, a esclerose lateral amiotrófica (ELA), a qual não o impede de manter a sua alta actividade científica e pública.
Os primeiros sintomas da doença apareceram durante a sua estada em Oxford, e finalmente diagnosticaram-lha aos 21 anos, exactamente antes do seu primeiro matrimónio. Nessa altura os médicos prognosticaram que não viveria mais de 2 ou 3 anos (tempo de sobrevivência normal nessa enfermidade) mas, por motivos desconhecidos, é das poucas pessoas que sobreviveram muito mais anos, ainda que sofrendo o progressivo avanço da incapacidade.
Em 1985 foi sujeito a uma traqueotomia, e desde então utiliza um sintetizador de voz para comunicar. Lentamente tem vindo a perder o uso das suas extremidades, assim como o resto da musculatura voluntária, incluindo a força do pescoço para manter a cabeça direita; com tudo isto a sua mobilidade é praticamente nula. A cadeira de rodas que utiliza em público é controlada por um ordenador que maneja através de leves movimentos de cabeça e olhos, e que também lhe permite seleccionar palavras e frases no seu sintetizador de voz.



Stephen William Hawking, nascido em Oxford a 8 de Janeiro de 1942, doutorado em Cosmologia, é um dos mais consagrados físicos teóricos do mundo.
É professor lucasiano de Matemática na Universidade de Cambridge – lugar que foi ocupado por Isaac Newton.
(Professor lucasiano é o nome que se dá a uma cátedra de Matemática da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. É atualmente ocupado por Stephen Hawking.) – inf. Wikipedia.
Em 9 de Janeiro de 1986 foi nomeado, pelo Papa João Paulo II, membro da Pontifícia Academia das Ciências.
Com variadíssimos prémios, títulos e medalhas atribuídos, Hawking tem várias obras publicadas; “Brevíssima História do Tempo” é a última publicada em Portugal, em 2007.

Se quiser veja agora o poema que lhe dedicou Victória Lúcia Arstizábal

HEROES
©Victoria Lucia Aristizábal©

Aprende de estas vidas, aprende
que son ellos los que nos demuestran
que solo a la bondad y a Dios se atiende
y como se construye en medio del dolor
que no hay nadie que lo impida
el cielo es "el infinito con amor"

por sus venas recorre sangre de valor
no pierden tiempo, saben de que depende
su vida que comprometida a Dios ofrenda
cosecheros solo de luz y de sabiduría
comunican al mundo su heroicidad

con la humildad que el dolor caracteriza
sabiendo que la libertad es una contienda
de un hacer constante y no de afrentas
dispuestos a triunfar nunca desisten
se saben de Dios protegidos e iluminados
no le niegan porque le ven y a El abocados

entregan su saber en aras de mostrar
que siempre con amor y coraje se puede
que no hay comparación, ni apegos, solo fe
como la certeza de saber que hacer
ricos espiritualmente en los brazos de Dios
con su alma a El elevada nos dicen adiós


quinta-feira, 28 de maio de 2009

OS JUMENTINHOS

No corrente ano de 2009 comemora-se o centenário do nascimento de Dom Hélder Câmara, bispo católico e arcebispo de Olinda e Recife – BRASIL

Por se tratar de uma pessoa que merece ser recordada, irei publicando, de vez em quando, crónicas ou apontamentos que foram por ele escritas.

É de sua autoria o texto que hoje vos apresento.


OS JUMENTINHOS

Os jumentinhos, os jegues eram, são e serão imagem viva dos nordestinos...

Eles passavam — e nas cidades pequenas ainda passam — carregando lenha



para as casas sem fogão elétrico e sem fogão a gás.

Eles passavam — e nas cidades pequenascontinuam passando — carregando água




onde não há água encanada e onde falta, por vezes, até um poço, com motor e com torneira comunitária.

Eles passavam — e nas cidades pequenas sempre passarão — carregando carvão, carregando estrume, carregando tudo o que for preciso carregar.

Quando a seca aperta e falta capim, e falta milho, até com papel ele se alimenta.

Quando a família tem de partir, ele carrega a mãe de família e a criança de peito como fez com Nossa Senhora e o Menino Deus na fuga para o Egito. (São José caminhava a pé.)



Pensam que ele reclama quando inventaram agora que carne de jumento
dá dinheiro no estrangeiro?
De modo algum — ele não se julga melhor do que boi, nem vaca, nem bode, nem carneiro, nem ovelha, nem porco...

Ele só não quer ficar vivo longe do Ceará.
Fica doido quando chega a notícia de chuva e ele está longe.

Perguntei a um jumentinho se ele trocava o Ceará pelo Céu, caso Nossa Senhora, em agradecimento pela fuga para o Egito, obtivesse de seu filho e filho de Deus que um jumentinho tivesse entrada no Céu.
Ele me matou de vergonha, perguntando:
“Mas só gente e jumento no céu? E os outros animais, que todos, todos
foram criados por Deus?”
Foi mais longe e disse:
“Depois, mesmo com a seca, O Ceará parece um pedaço do céu”.


O destaque desta meditação, é a resposta do jumentinho, que não aceita injustiça de ele ter o privilégio de ser o único animal no céu...

Cuidado em não pensar só em si, esquecendo os outros.


Dom Héder Câmara
Do livro Um olhar sobre a cidade
JF, 19/08/1976


Dom Héder Câmara



Dom Hélder Pessoa Câmara nasceu em Fortaleza a 7 de Fevereiro de 1909, e faleceu em Recife, a 27 de Agosto de 1999.

Foi um grande defensor dos direitos humanos durante o regime militar brasileiro; defendia uma igreja simples voltada para os pobres, e a não-violência.

Recebeu vários prémios nacionais e internacionais, e foi o único brasileiro a ser indicado quatro vezes para o Prémio Nobel da Paz

domingo, 29 de março de 2009

CARTA DE CAMINHA



Paul d’Angelo, de seu verdadeiro nome Paul Murphy, advogado, exerceu, durante 10 anos, a sua profissão como advogado de defesa criminal em tribunais dos arredores de Boston.
Ao mesmo tempo, sob o pseudónimo de Paul d’Angelo, trabalhou como comediante.
Durante 6 meses actuou em diversos clubes, fazendo a apresentação e introdução de vários actores/comediantes; após este período de tempo passou a ter o seu próprio programa.
Viveu algum tempo em Hollywood, onde actuou em diversos clubes, com reconhecidos comediantes como Jay Leno, Ray Romano, Howie Mandel, entre outros.
É considerado “um grande talento” entre actores de comédia, e todos os seus shows são sempre excelentes, provocando fortes gargalhadas entre a assistência.
O jornal “Los Angeles Time” apelidou-o de “o actor mais cómico que já se viu e ouviu”.

É autor da “Carta de Caminha” onde é satirizada “A carta, de Pêro Vaz de Caminha”.

Pêro Vaz de Caminha começa assim:

Senhor,
posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer!

Veja, agora, como Paul d’Angelo a (re)escreveu:

Olá meu amado Rei, aqui quem fala é o Pêro Vaz. Está me ouvindo bem? Peguei emprestado o celular de um nativo aqui da nova terra. Tudo bem, o Capitão Pedro está lhe mandando um abraço. Chegamos na terça, 21 de Abril, mas deixei para ligar no Domingo porque a ligação é mais barata. É aqui tem dessas coisas.

E continua:

Os nativos ficaram espantados com a nossa chegada por mar, não achavam que éramos Deuses, Majestade. Acharam que éramos loucos de pisar em um mar tão sujo. A ligação está boa? Pois é, essa terra é engraçada. Tem telefonia celular digital, automóveis importados, acesso gratuito à Internet mas ainda tem gente que morre de malária e está cheia de criança barriguda de tanto verme. É meio complicado explicar.

Se já encontrámos o chefe?
Olha Rei, tá meio complicado. Aqui tem muito cacique para pouco índio. Logo que chegamos a Porto Seguro tinha um cacique lá que dizia que fazia chover, que mandava prender e soltar quem ele quisesse. É, um cacique bravo mesmo... Mais para o Sul encontramos outra tribo, uma aldeia maravilhosa e muito festiva, com lindas nativas quase nuas. Seguindo em direcção ao Sul, saímos do litoral e adentramos-nos ao planalto.

Lá encontramos uma tribo muito grande. A dos índios Sampa. Conhecemos o seu cacique, que tinha apito mas que não apitava nada, coitado. Dizem até que ele apanha da mulher. O senhor está rindo, Majestade? Juro que é verdadeiro o meu relato. Como vossa Majestade pode perceber, é uma terra fácil de se colonizar, pois os nativos não falam a mesma língua.

Sim, são pacíficos sim. É só verem um coco no chão para eles começarem a chutá-lo e esquecerem da vida. Sabem, sabem ler, mas não todos. A maioria lê muito mal e acredita em tudo que é escrito. Vai ser moleza, fica frio. Parece que há um "Cacicão Geral", mas ele quase não é visto. O homem viaja muito. Dizem que se a intenção for evitar encontrá-lo, é só
ficar sentado no trono dele.

Engraçado mesmo é que a "indiaiada" trabalha a troco de banana. É banana!!! Todo mês eles recebem no mínimo 151 bananas. Não é piada, Majestade!! É sério!! Só vindo aqui p’ra ver. Olha, preciso desligar. O rapaz que me emprestou o telefone celular precisa fazer uma ligação. Ele é comerciante. Disse que precisa avisar ao povo que chegou um novo carregamento de farinha. Engraçado... eles ficam tão contentes em trabalhar... A cada mercadoria que chega, eles sobem o morro e soltam rojões.

É uma terra muito rica, Majestade. Acho que desta vez acertamos em cheio. Isso aqui ainda vai ser o país do futuro...

Paul D'Angelo


Autor: Paul D'Angelo, publicitário, reescreveu a Carta de Caminha e ganhou o concurso "Crónica do Ouvinte" promovido pela Rádio Bandeirantes.

domingo, 12 de outubro de 2008

RECORDANDO UMA ESTRELA

Passaram-se 20 anos desde que se apagou mais uma estrela no firmamento musical português – Carlos Paião.
Foi no dia 26 de Agosto de 1988 que uma “das maiores e mais queridas estrelas do mundo da música portuguesa” nos deixou para sempre.

Dirigia-se para Leiria, onde iria actuar num espectáculo, quando foi surpreendido pela morte, num violento acidente de viação.

Noticia da Morte de Carlos Paião RTP Jornal de Sabado 1988



Em breve se gerou em torno da sua figura o boato de que não estaria morto na altura do seu funeral, mas sim em coma. A verdade é que a violência do acidente não permitiria a sobrevivência fosse de quem fosse, mas o boato mantém-se extremamente arreigado até aos dias de hoje.

Nascido em Coimbra a 1 de Novembro de 1957 passou a maior parte da sua juventude entre Ílhavo e Lisboa, tendo-se licenciou em Medicina pela Universidade de Lisboa, em 1983.

Pouco depois decidiu dedicar-se exclusivamente à música, para a qual, desde muito jovem, mostrava particular aptidão. Com apenas 23 anos de idade tinha já composto mais de 200 canções.

Em 1981, Carlos Paião decidiu enviar algumas delas ao Festival RTP da Canção, numa altura em que este certame representava uma plataforma para o sucesso e a fama no mundo da música portuguesa.
"Play-Back", a canção seleccionada, ganhou o Festival RTP da Canção, com a esmagadora pontuação de 203 pontos, deixando para trás concorrentes tão fortes como as Doce, já na altura muito populares em Portugal.
A canção, uma crítica divertida, mas contundente, aos artistas que cantam em play-back, ficou em penúltimo lugar no Festival da Eurovisão, que se realizou nesse ano em Dublin, na República da Irlanda.

Carlos Paião - Play-Back Eurovisão 1981



Compositor, intérprete e instrumentista, Carlos Paião produziu mais de quinhentas canções, tendo sido homenageado em 2003, com um CD comemorativo dos 15 anos da sua morte.

Muitas são as canções que perduram na nossa memória.
Por exemplo «Pó de Arroz», composta em 1981

Carlos Paião | Pó de Arroz



ou a posterior «Cinderela»

Carlos Paião – Cinderela



A editora Valentim de Carvalho chegou a encomendar a Carlos Paião canções para outros intérpretes, entre eles Amália Rodrigues, para quem compôs, em 1982, «O Senhor Extra Terrestre», cuja letra chegou mesmo a constar dum manual para alunos da escola primária.

Carlos Paião partiu, mas perdura na nossa memória.
Saudades!... Grande Carlos! Que estejas sempre em paz!
Obrigado por tudo o que nos deixaste!!!

Deixo aqui, para quem quiser ler, a letra da canção «O Senhor Extra Terrestre»

Vou contar-vos um história
que não me sai da memória,
foi p’ra mim uma vitória
nesta era espacial.
Noutro dia estremeci
quando abri a porta e vi
um grandessíssimo ovni
pousado no meu quintal.
Fui logo bater à porta,
veio uma figura torta,
eu disse: se não se importa
poderia ir-se embora,
tenho esta roupa a secar
e ainda se vai sujar
se essa coisa aí ficar
a deitar fumo p’ra fora.
E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá o botãozinho
e pôde contar-me então
que tinha sido multado
por o terem apanhado
sem carta de condução.

O senhor desculpe lá,
não quero passar por má,
pois você onde está
não me adianta nem me atrasa.
O pior é que a vizinha
que parece que adivinha
quando vir que estou sozinha
com um estranho em minha casa.
Mas já que está aí de pé
venha tomar um café,
faz-me pena, pois você
nem tem cara de ser mau
e eu queria saber também
se na terra donde vem
não conhece lá ninguém
que me arranje bacalhau.
E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho,
disse para me pôr a pau,
pois na terra donde vinha
nem há cheiro de sardinha
quanto mais de bacalhau.

Conte agora novidades:
É casado? Tem saudades?
Já tem filhos? De que idades?
Só um? A quem é que sai?
Tem retratos com certeza,
mostre lá? Ai que riqueza,
não é mesmo uma beleza,
tão verdinho? sai ao pai.
Já está de chaves na mão?
Vai voltar p’ro avião?
Espere, que já ali estão
umas sandes p’ra viagem
e vista também aquela
camisinha de flanela
p’ra quando abrir a janela
não se constipar co’a aragem.
E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho
e pôde-me então dizer
que quer que eu vá visitá-lo,
que acha graça quando eu falo
ou ao menos p’ra escrever.

E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho
só p’ra dizer: Deus lhe pague.
Eu dei-lhe um copo de vinho
e lá foi no seu caminho
que era um pouco em ziguezague

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

UM ESTILO DIFERENTE

Quem, a partir de terça-feira, dia 2,visitou o blog SEMPRE JOVENS ,
sabe que regressei de férias.
Retomei, lá, as minhas actividades “bloguistícas “, precisamente com o post «Regresso de férias».
Esta última fase das minhas férias deste ano excedeu as minhas expectativas. Foram, de facto, muito boas.
Uma praia com vinte ou trinta quilómetros de extensão, a água do mar com a temperatura certa – aquela que nos permite mergulhar sem o mais leve arrepio – tempo para descansar e fazer o que apetece!

Foi neste ambiente tranquilo que tive oportunidade de ler uma reportagem acerca duma cantora que - confesso a minha ignorância - eu desconhecia completamente – Loreena McKennitt.

Fiquei fascinada com o que li. Quando regressei procurei a sua música, de que gostei imenso, e complementei a informação da reportagem.
Loreena é uma cantora e compositora canadense, que dirige a sua própria gravadora, de renome internacional. É aplaudida pelos críticos não só no Canadá mas também nos Estados Unidos, Espanha, França, Itália, Alemanha…
Pelas elevadas vendas dos seus discos têm-lhe sido atribuídos inúmeros prémios – discos de ouro e platina – em todo o mundo.
A sua música tem sido utilizada como trilha sonora em vários filmes e séries de TV, no Canadá, Estados Unidos e Venezuela.

Fundou e supervisiona importantes campanhas a favor da protecção das águas e de serviços de apoio a famílias e crianças necessitadas.

“…em 1998 eu fundei a «The Cook-Rees Memorial» quando três pessoas muito queridas morreram num acidente de barco não muito longe de onde eu moro. Graças à generosidade de amigos e famílias, no Canadá e ao redor do mundo, tornamo-nos capazes de criar iniciativas envolvendo o ensino sobre a segurança com a água, bem como os exercícios com a busca, salvamento e recuperação…”

Fundou, entre outras, a «The Three Oaks Foundation», uma instituição beneficente que proporciona fundos para grupos com finalidades culturais, ambientais, históricas e sociais.

Foram-lhe outorgados títulos honorários de “Doutora em Direito” e “Doutora em Letras” por diversas Universidades, o último dos quais em Outubro de 2005, pela Universidade de Queens.

Segundo as suas próprias palavras, em finais dos anos 70, Loreena ficou impressionada com o que hoje é designado por música céltica, mas só em 1991, depois de assistir a uma exposição de artesanato celta, em Veneza, se sentiu verdadeiramente atraída pela geografia e propagação histórica do povo celta.

“O meu ponto de partida é a convicção de que, de uma forma ou outra, somos todos uma extensão da história de cada um de nós. A vontade de aprender mais sobre os nossos semelhantes é também um desejo de aprender mais sobre nós mesmos. Eu simplesmente escolhi o povo céltico para fazer isso”
“… eu fico admirada com a capacidade exclusiva da música em induzir e realçar o astral e os estados psicológicos, e a ligação forte que a mesma exerce sobre a fisiologia…” “…estou interessada profundamente nessas conexões entre a nossa fisiologia e a essência espiritual e psicológica, e vários eventos e experiências que nos inspiram”.

Toda a sua música está impregnada dum certo misticismo que revela a sua maneira de ser e estar na vida.
Foi em «A Divina Comédia», de Dante, que Loreena se inspirou para compor “Dante’s Prayer”.
Em « A Divina Comédia » Dante descreve uma viagem dele próprio, acompanhado pelo escritor romano Virgílio, através do Inferno e do Purgatório.

(Dante e Virgílio – óleo de Delacrois)

Em “Dante’s Prayer” Loreena combina o Hino de Páscoa Ortodoxo Russo
com a sua própria música e a letra imaginária da prece que Dante teria proferido depois que ele e Virgílio, tendo partido do centro gelado do Inferno, viajavam no limiar entre o Inferno e o Purgatório.

Ouça e veja o vídeo que escolhi.

Dante's Prayer - Loreena McKennitt







quinta-feira, 24 de julho de 2008

MAIS UMA ESTRELA SE APAGOU

Desapareceu mais um astro do firmamento cinematográfico – Mel Ferrer.
O falecimento ocorreu no passado dia 2 de Junho, em Santa Bárbara, Califórnia, USA.



De acordo com o que foi noticiado nos Estados Unidos, o actor, de 90 anos de idade, encontrava-se rodeado de familiares e amigos. Terminou os seus dias em paz.
Os mais jovens, provavelmente, não conhecem nem o nome, nunca ouviram falar. Os menos jovens de idade, nos quais me incluo, lembram, certamente, o actor.
Na realidade, Mel Ferrer tornou-se conhecido especialmente como actor. Protagonizou mais de cem filmes ao longo da sua carreira, o último dos quais em 1998.
Actor principal em filmes famosos como Scaramouche, Lili, O Dia Mais Longo, o que o tornou mais conhecido e famoso foi, sem dúvida, o grandioso “Guerra e Paz”, realizado em 1956.





Como acontece com um grande número de pessoas, também Mel Ferrer não realizou o sonho da sua vida - exercer a profissão de que mais gostava – realizador de cinema.
Ainda fez uma incursão nesse campo, realizando alguns filmes. Mas o seu destino era ser actor. Os grandes cineastas requisitavam-no, os seus filmes garantiam sucesso de bilh eteira, e assim acabou por abandonar definitivamente o campo da realização.
Durante as gravações de “Os cavaleiros da Távola Redonda”, em Londres, conheceu a lindíssima Haudrey Hepburn,



com quem se casou em 1954, na cidade de Lausanne, Suíça.




O casamento durou 14 anos, e terminou em 1964.

Homem discreto, sempre pautou a sua vida por uma atitude correcta. Nunca se lhe conheceram escândalos, tão comuns no meio cinematográfico, e a que muitos actores e actrizes devem, em parte, a sua fama.

Partiu um grande actor e, tanto quanto se sabe, um homem de bem.
Por isso lhe presto, aqui, esta singela homenagem.




domingo, 11 de maio de 2008

UM BOM EXEMPLO - IRENA SINDLER

Há dois dias, a 9 de Maio, comemorou-se o Dia Europeu, ou Dia da Europa.
Na Cimeira de Milão de 1985 os chefes de Estado decidiram celebrar o dia 9 de Maio como Dia da Europa, baseados na declaração feita em Paris, 35 anos antes.



Foi precisamente no dia 9 de Maio de 1950 que, em Paris, Robert Schuman, ministro dos Negócios Estrangeiros de França, fez uma declaração à imprensa realçando a necessidade da criação duma federação europeia, indispensável à preservação da paz.

Pairava no ar a ameaça de uma Terceira Guerra Mundial, quando ainda estavam bem presentes na memória de todos os horrores da Segunda Guerra Mundial, opondo países que se destruíram mutuamente, causando inúmeros prejuízos, não só materiais mas sobretudo morais: ódios, rancores e preconceitos.

Na sua longa história o «Velho Continente» conta, sem dúvida, momentos de glória, mas também episódios trágicos, de uma desumanidade total. É o caso do HOLOCAUSTO, um dos acontecimentos mais negros da história da humanidade.
É precisamente nas maiores adversidades que se revelam os verdadeiros heróis.
Eis a história duma HEROÍNA.

Irena Sendler

A mãe das crianças do Holocausto

Enquanto a figura de Óscar Schindler era aclamada pelo mundo graças a Steven Spielberg, que se inspirou nele para rodar a película que conseguiria sete Óscares em 1993, narrando a vida deste industrial alemão que evitou a morte de 1.000 judeus nos campos de concentração, Irena Sendler continuava a ser uma heroína desconhecida fora da Polónia e apenas reconhecida no seu país por alguns historiadores, já que nos anos de obscurantismo comunista, tinham apagado a sua façanha dos livros oficiais de história.
Além disso, ela nunca contou a ninguém nada da sua vida durante aqueles anos. Contudo, em 1999 a sua história começou a ser conhecida, curiosamente, graças a um grupo de alunos de um instituto do Kansas e ao seu trabalho de final de curso sobre os heróis do Holocausto.
Na sua investigação conseguiram muito poucas referências sobre Irena. Só tinham um dado surpreendente: tinha salvo a vida de 2.500 crianças.

Como era possível que houvesse tão escassa informação sobre uma pessoa assim? A grande surpresa chegou quando, depois de procurar o lugar do túmulo de Irena, descobriram que a mesma não existia porque ela ainda vivia…e de facto ainda vive…
Hoje é uma anciã de 98 anos (nascida em 15 de Fevereiro de 1910), que reside num asilo do centro de Varsóvia, num quarto onde nunca faltam ramos de flores e cartas de agradecimento procedentes do mundo inteiro.
Quando a Alemanha invadiu o país em 1939, Irena era enfermeira no Departamento de Bem estar Social de Varsóvia, o qual administrava as cozinhas sociais comunitárias da cidade.
Em 1942 os nazis criaram um ghetto em Varsóvia. Irena, horrorizada pelas condições em que se vivia ali, uniu-se ao Conselho para Ajuda de Judeus. Conseguiu identificação da repartição de saúde, de cujas tarefas consistia a luta contra as doenças contagiosas.
Como os alemães invasores tinham medo de uma possível epidemia de tifo, permitiam que os polacos controlassem o recinto.
De imediato se pôs em contacto com as famílias, às quais ofereceu levar os filhos para fora do ghetto. Mas não lhes podia dar garantias de êxito. Era um momento horroroso - devia convencer os pais a que lhe entregassem os seus filhos, e eles perguntavam-lhe: “Podes prometer-me que o meu filho viverá…?”
Mas como podia alguém prometer, quando nem sequer se sabia se conseguiriam sair do ghetto? A única certeza era que as crianças morreriam se permanecessem nele.
As mães e as avós não queriam separar-se dos filhos e netos.
Irena entendia-as muito bem, pois ela mesma era mãe, e sabia perfeitamente que, de todo o processo que ela levava a cabo com as crianças, o momento mais duro era o da separação.
Algumas vezes, quando Irena ou as suas ajudantes voltavam para visitar as famílias e tentar fazê-las mudar de opinião, descobriam que todos tinham sido levados de comboio para os campos de morte.
Cada vez que lhe acontecia algo deste género, lutava com mais força para salvar mais crianças.
Começou a tirá-las em ambulâncias como vítimas de tifo, mas de imediato se valeu de tudo o que estava ao seu alcance para escondê-las e tirá-las dali: caixotes de lixo, caixas de ferramentas, carregamentos de mercadorias, sacos de batatas, ataúdes…Nas suas mãos qualquer elemento se transformava numa via de escape.
Conseguiu recrutar pelo menos uma pessoa de cada um dos dez centros do Departamento de Bem estar Social. Com essa ajuda elaborou centenas de documentos falsos com assinaturas falsificadas, dando identidades temporárias às crianças judias.
Irena vivia os tempos da guerra pensando nos tempos de paz. Por isso não lhe bastava somente manter essas crianças com vida. Queria que um dia pudessem recuperar os seus verdadeiros nomes, a sua identidade, as suas histórias pessoais, as suas famílias.
Então idealizou um arquivo que registava os nomes das crianças e das suas novas identidades. Anotava os dados em pequenos pedaços de papel e guardava-os dentro de frascos de conserva, que depois enterrava debaixo de uma macieira, no jardim da sua vizinha.
Ali guardou, sem que ninguém o suspeitasse, o passado de 2.500 crianças, até que os nazis se foram embora.
Mas um dia os nazis souberam das suas actividades. Em 20 de Outubro de 1943, Irena Sendler foi detida pela Gestapo, e levada para a prisão de Pawiak, onde foi brutalmente torturada.
Num colchão de palha da sua cela encontrou uma estampa de Jesus Cristo. Conservou-a como o resultado de um acaso milagroso naqueles duros momentos da sua vida, até ao ano de 1979, em que se desfez dela e a ofereceu a João Paulo II.
Irena era a única que sabia os nomes e as direcções das famílias que albergavam as crianças judias. Suportou a tortura e recusou-se a atraiçoar os seus colaboradores ou qualquer das crianças ocultas. Quebraram-lhe os pés e as pernas, além de lhe imporem inumeráveis torturas. No entanto ninguém pôde domar a sua vontade.
Assim, foi sentenciada à morte. Uma sentença que nunca se cumpriu porque, a caminho do lugar da execução, o soldado que a levava deixou-a escapar. A Resistência tinha-o subornado porque não queriam que Irena morresse com o segredo da localização das crianças. Oficialmente figurava nas listas dos executados, daí que, a partir de então, Irena continuou a trabalhar, mas com uma identidade falsa.
Ao findar a guerra, ela mesma desenterrou os frascos e utilizou as notas para encontrar as 2.500 crianças que colocara em famílias adoptivas.
Reuniu-as aos seus parentes disseminados por toda a Europa, mas a maioria tinha perdido os seus familiares nos campos de concentração nazis.
As crianças só a conheciam pelo seu nome de código: Jolanta.
Anos mais tarde, a sua história apareceu num jornal, acompanhada de fotos suas da época. Várias pessoas começaram a telefonar para dizer-lhe: “Recordo a tua cara…sou uma dessas crianças, devo-te a minha vida, o meu futuro, e gostaria de ver-te…”
Irena tem no seu quarto centenas de fotos com algumas daquelas crianças sobreviventes ou com filhos delas.
O seu pai, um médico que faleceu de tifo, quando ela era ainda pequena, inculcou-lhe o seguinte: “Ajuda sempre o que se está a afogar, sem levar em conta a sua religião ou nacionalidade. Ajudar cada dia alguém, tem que ser uma necessidade que saia do coração”.
Há muitos anos que Irena Sendler está presa a uma cadeira de rodas, devido às lesões provocadas pelas torturas sofridas às mãos da Gestapo.
Não se considera uma heroína.
Nunca se atribuiu crédito algum pelas suas acções.
Sempre que a interrogam sobre o assunto, Irena diz: “Poderia ter feito mais, e este lamento continuará comigo até ao dia em que eu morrer”

“Não se plantam sementes de comida. Plantam-se sementes de bondades.
Tratem de fazer um círculo de bondades, estas vos rodearão e vos farão crescer mais e mais”.

Irena Sendler


Em Novembro de 2003 o Presidente da República, Aleksander Kwasniewski, outorgou-lhe a mais alta distinção civil da Polónia – a Ordem da Águia Branca.
Irena foi acompanhada por familiares e por uma das meninas salvas.

domingo, 6 de abril de 2008

UM BOM EXEMPLO - ENZO ROSSI

Num dos meus habituais giros pela Net encontrei, na revista “Veja online”, o relato de uma entrevista feita pelo seu repórter Fábio Portela ao empresário italiano Enzo Rossi, que achei muito interessante.
Não vou fazer comentários à atitude tomada pelo empresário, a não ser tecer-lhe um grande elogio.
Mas não pude deixar de pensar na analogia entre esta experiência e o que se passa no nosso País, mas com sinal contrário.
Os nossos governantes estão a sujeitar-nos a viver com salários que mal chegam ao dia 20.
Até quando durará a experiência? Até que nos aconteça o mesmo que aconteceu ao burro do inglês ???
Já era altura de a experiência mudar de cobaia, e serem eles a tentar viver com os salários que pagam.
Penso que nenhum de nós se importaria de se “governar” com os seus ordenados chorudos…

Mas vamos à entrevista:

O empresário italiano Enzo Rossi ganhou as páginas de jornais europeus depois de fazer uma experiência curiosa.
Dono do pastifício La Campofilone, que factura 1,6 milhões de euros por ano, ele decidiu passar um mês inteiro com a quantia que paga aos seus operários. Foram 1.000 euros para si próprio e 1.000 euros para sua mulher, que também trabalha na empresa (no total, o equivalente a 5.400 reais). O dinheiro acabou em vinte dias. Rossi, então, deu um aumento a todos os funcionários do pastifício. Ele falou ao repórter Fábio Portela.

POR QUE O SENHOR DECIDIU VIVER UM MÊS COM O SALÁRIO DE UM OPERÁRIO?

Achei que seria educativo para minhas filhas. Tenho duas meninas, de 14 e 15 anos, que, como todos os jovens, sempre pedem mais do que precisam. Queria que elas soubessem como é a vida das pessoas mais pobres. Achei que seria pedagógico para as meninas, aprender a controlar um pouco as despesas. Por isso, combinamos que viveríamos durante um mês com o salário dos operários do pastifício. Foram 1.000 para mim e 1.000 euros para minha mulher, que trabalha comigo na empresa.

QUAL FOI O RESULTADO?

Tenho vergonha de confessar, mas a verdade é que não cheguei nem perto do fim do mês. Apesar de toda a economia que fizemos, o dinheiro acabou no dia 20. O meu, o da minha mulher, tudo. Faltavam dez dias para o mês terminar, e eu não tinha mais 1 euro no bolso. Encerrei a experiência e decidi dar um aumento de 200 euros aos meus funcionários. Percebi que, se o dinheiro acabava para mim, também não dava para eles. Como eles se viravam do dia 20 ao dia 30? Era impossível viver com o salário que eu pagava.

O SENHOR SUGERE QUE OUTROS EMPRESÁRIOS SIGAM O EXEMPLO?

Cada um tem a sua própria ética e deve fazer da sua vida o que achar melhor. Mas, seguramente, para mim valeu a pena reduzir um pouco a mais-valia e repartir os lucros com quem trabalha para mim. Gosto de ver os funcionários mais tranquilos e felizes.

MAIS-VALIA? POR ACASO O SENHOR É MARXISTA?

De jeito nenhum. Sou apolítico. Aliás, a única categoria ideológica na qual me encaixo é a de egoísta. O fato de ter dado o aumento aos empregados é a prova cabal de que sou um grandessíssimo egoísta.

QUAL É A RELAÇÃO ENTRE UMA COISA E OUTRA?

Simples: se o salário é insuficiente, os funcionários vivem sob stress psicológico, porque não sabem se conseguirão chegar com dinheiro ao fim do mês. A mãe que precisa pagar a escola do filho, o rapaz que quer levar a namorada para comer uma pizza no fim de semana: se eles não têm dinheiro para isso, o que farão? Eles ficarão instáveis do ponto de vista emocional e, consequentemente, trabalharão mal. Quero que eles estejam bem para aumentar meus lucros. Por isso, posso dizer tranquilamente que sou um egoísta.

O STRESS DIMINUI A QUALIDADE DA MASSA?

Fabrico um produto de altíssima qualidade e alto valor agregado, que é – não que eu queira fazer publicidade – o maccheroncino de Campofilone, um tipo de macarrão finíssimo, muito tradicional na Itália. Não é qualquer mão que é capaz de transformar a farinha de trigo e os ovos em uma massa tão delicada. Se o funcionário trabalha feliz, o meu maccheroncino sem dúvida fica melhor – e vende mais.

MAS, NA PONTA DO LÁPIS, O SENHOR JÁ TEVE RETORNO FINANCEIRO?

Ainda não, mas isso não vai demorar a acontecer. Já no fim do ano, vou sair ganhando com o aumento que dei aos meus funcionários. Sabe porquê? Em nossa cidade, as festas de Natal e Ano Novo têm no seu cardápio tradicional os maccheroncini. Com a renda extra, os meus funcionários comprarão mais da massa que fabricam. As vendas vão disparar…

Publicado na revista “Veja”

quinta-feira, 6 de março de 2008

PORTUGAL NO SEU MELHOR

QUINTA-FEIRA, 6 DE MARÇO DE 2008


As coisas más todos nós as sabemos. A comunicação social se encarrega de repetir, até à exaustão, tudo que de mal acontece neste país. E não só.
Acontecimentos ou factos louváveis, por norma, merecem apenas uma breve nota de roda pé, que rapidamente é esquecida.

Vejamos : Quem, de entre nós, ouviu falar no trabalho meritório que é feito nalguns hospitais deste país, nomeadamente no Hospital de S. João, no Porto ?

No campo de “Pele e tecido celular subcutâneo”, “Doenças cardíacas e vasculares”, “Doenças musculosqueléticas”…e tantas outras, operam-se ali verdadeiros milagres.

É o que pensa Amyas John Symington, inglês, de 76 anos de idade.

No dia 6 de Novembro de 2006, na sua casa, em Londres, tropeçou, caiu, e ficou cheio de dores. Transportado de ambulância à urgência dum hospital, foi observado, medicado com analgésicos, e mandado para casa. Regressou de táxi.
A situação agravou-se. Nos dois dias seguintes voltou ao hospital, com novas queixas. Foi submetido a exames de Raios X. Concluíram não haver fractura, acrescentando que podia viajar para Portugal. Ligado ao negócio dos Vinhos do Porto, com residência no nosso país, o sr.Amyas tinha necessidade de regressar, com urgência.
Aguentou a viagem para Portugal. Mas, em casa, nessa noite, não conseguiu deitar-se; teve que dormir sentado. Visto pelo médico de família foi aconselhado a ir ao Hospital, onde lhe fizeram uma TAC. Foi detectada uma fractura na coluna !
Que os médicos britânicos não tinham conseguido ver !
Encaminhado para o Hospital de S. João, no Porto, ainda mexia as pernas mas já não controlava a bexiga. Para além disto, ele tinha outras complicações de saúde que tornavam a operação extremamente perigosa. Sabia que corria um grande risco de ficar paralítico. Decidiu arriscar. A cirurgia durou três horas.
Ficou duas semanas nos Cuidados Intensivos. Só em Janeiro de 2007 pôde ter alta. Em casa recebeu ajuda de enfermeiros e fisioterapeutas que o ajudaram a recuperar. Passou por várias fases. Em Outubro já fazia caminhadas de meia hora, apoiado apenas a uma bengala.
Ligado aos Vinhos do Porto, Amyas Symington reside em Portugal, deslocando-se a Londres três a quatro vezes por ano para ver a família – filhos e netos.

“Podia ter ficado paralítico. Sobrevivi graças aos médicos e aos hospitais portugueses. Parabéns a estes profissionais! Eu não vou a outro país para ser operado".

Tinha conhecimento disto ?
Ouviu a comunicação social falar no assunto ?
Eu também não. Tive a sorte de o ler numa revista, e senti vontade de lho dar a conhecer.

Façamos votos para que o Hospital de Santo António não seja, também, fechado!

Publicada por a casa da mariquinhas em 13:13
2 comentários:
A. João Soares disse...
Cara Amiga Mariazita,
Parabéns por aqui trazer um caso tão significativo. É preciso estimular a auto-estima dos portugueses.
Tenho trazido ao Do Miradouro vários casos de cientistas e estudantes que recebem prémios internacionais, que se destacam perante júris do Mundo, mas que internamente são ignorados. Eles não são premiados nas cerimónias do 25 de Abril, nem no 10 de Junho, onde são substituídos por atletas e músicos de duvidoso valor.
Como Português peço-lhe que traga aqui mais casos que nos orgulhem da nossa nacionalidade.
Beijos
João
6 de Março de 2008 17:21
a casa da mariquinhas disse...
Meu caro amigo
A verdade é que nós, portugueses, damos pouco valor aos valores que temos - perdoe-me a redundância.
Felizmente, como no seu caso em Do Miradouro, há quem os faça lembrar.
Eu ainda sou pequenina, não completei um mês...mas estarei atenta!
Até sempre. Beijos
Mariazita
9 de Março de 2008 18:44