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sexta-feira, 1 de novembro de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XIV

SEGREDOS – CAPÍTULO XIV


SEGREDOS – CAPÍTULO XIII
“…Um dia, inesperadamente, já que, durante o dia, Alessandro não telefonava, Nanda olha para o visor do telemóvel que começara a tocar e vê, algo apreensiva, que quem lhe estava ligando era o seu namorado…”

SEGREDOS – CAPÍTULO XIV
Falando apressadamente Alessandro pediu-lhe que fosse ter com ele à porta da Faculdade de Ciências, onde ele trabalhava, pois precisava falar com ela urgentemente.
Nanda, com o coração apertado, dirigiu-se o mais depressa que pôde para o local indicado. Ele já a esperava, e mal a viu apertou-a com uma força inabitual.
- Amore mio, tenho uma notícia muito triste para te dar… - pronunciou estas palavras em voz entrecortada, mantendo-a apertada nos braços.
Nanda afastou-o suavemente e com voz trémula perguntou:
- O que se passa? Estás a deixar-me nervosa.
- Amore, ligaram-me de Milão. Tenho de lá ir imediatamente. Não percebi muito bem… mas parece que acabaram de fazer uma descoberta relacionada com a minha investigação aqui… e precisam que eu vá ver e colaborar na continuação dos trabalhos.
- E sabes, ao menos, por quanto tempo vais lá estar? – Nanda gaguejou a pergunta.
- Também não sei, amore mio, mas quando lá chegar e souber, informo-te imediatamente – havia lágrimas escondidas na voz de Alessandro.
Nanda encostou-se de novo ao corpo do namorado e deixou as lágrimas correrem-lhe pela face. Não conseguia pronunciar uma palavra. Estava em choque. Como poderia continuar a viver sem as tardes que passavam juntos, quer no Ap. quer passeando à beira rio? Rapidamente pensou na hipótese de ir com ele. Mas imediatamente pôs a ideia de parte. As aulas tinham começado há duas semanas, não podia ausentar-se agora. Se ainda estivesse de férias… arranjaria uma mentirinha qualquer para dizer aos pais…
Alessandro interrompeu-lhe os pensamentos:
- Amore mio, o que vais fazer agora?
- Ainda tenho uma aula hoje…
- E tens mesmo de ir? Não queres ajudar-me a fazer a mala? O avião é amanhã de manhã, e já arrumei tudo no trabalho…
Nanda não hesitou um segundo:
- É claro que te vou ajudar! As aulas estão no início, praticamente não damos matéria. Vou contigo, sim. E depois, se quiseres, podemos ir jantar a qualquer lado – insinuou.
- É uma ideia excelente! É o nosso jantar de despedida – acrescentou ele, com voz triste.
- Deixa-me só avisar a minha Mãe de que vou chegar mais tarde.
Nanda ligou à mãe e, para além de lhe dizer que não chegaria a horas do jantar porque ia para casa duma colega passar a limpo apontamentos das aulas, ainda acrescentou que, se acabassem muito tarde, dormiria lá. A mãe não se opôs minimamente.
Depois do telefonema puseram-se a caminho do apartamento de Alessandro…
***
O dia ia declinando e aproximando-se da noite. A casa estava limpa. Havia que tratar do Tejo. Pôs-lhe a coleira e saiu para o habitual passeio daquela hora, o último do dia.
- Aproveita para fazer o chichi todo, que só amanhã voltas à rua – disse, dirigindo-se ao cachorro. Ele pareceu entender as palavras da dona e alçou a perna mais uma vez.
Ao regressar encontrou no hall de entrada a amiga Amélia, a vizinha do 1º. andar esquerdo, que tinha acabado de levar à rua a sua cadelinha Diana, a namorada do Tejo. Estava à conversa com Carla, que fora buscar os gémeos ao infantário. Nanda juntou-se-lhes para dois dedos de conversa, enquanto Diana e Tejo aproveitavam para matar saudades, lambendo-se mutuamente.
- Estava aqui a dizer à doutora Carla que o meu vizinho de cima, o António, está cada vez pior – comentou Amélia.
- Ai, ai, ai que me vou zangar, Amélia – atalhou Carla. Quantas vezes tenho de lhe dizer que não quero que me trate por doutora? Somos ou não somos vizinhas e, espero que também amigas…? E, para além disso, eu agora nem estou a exercer, sou uma simples dona de casa e mãe de dois gémeos – acrescentou com um sorriso.
- Não leve a mal, doutô… desculpe, Carla! É falta de hábito… por a termos cá há pouco tempo… Voltando-se para Nanda, acrescentou:
- Mas é como estava dizendo à… Carla – sorriu. O António está cada vez mais insuportável. Parece que está à espreita a ver quando eu chego para me vir atezanar a cabeça.
Nanda deu uma gargalhada.
- Ó Amélia, será que não consegue perceber o que se passa? Estou farta de lhe dizer! Aquilo é amor recolhido! – e continuava a rir.
Carla olhava para ambas com um meio sorriso, sem entender o que motivava tal galhofa.
Nanda tentou esclarecê-la:
- O vizinho do 2º. Direito, o António, tem uma paixão assolapada pela Amélia, mas como ela não lhe dá trela… passa a vida a chamar-lhe a atenção.
- Qual paixão qual quê? – respondeu Amélia. Se isso fosse verdade eu até nem me importava, porque jeitoso é ele – e deu uma gargalhada.
Mas não, Nanda, não é nada disso. É mesmo um velho rezingão, é o que ele é.
- Mas afinal o que é que ele faz, para a deixar assim irritada? – perguntou Carla.
- Faz-me a vida num inferno, se quer saber. Sempre a refilar contra o barulho que eu faço em casa. Onde é que se viu no andar de cima ouvir-se o barulho do andar de baixo? O contrário é que é verdade… Por exemplo, a Nanda, que mora por baixo de mim é que podia queixar-se…
- Podia – respondeu Nanda – mas não tenho razão para isso. O pouco rumor que ouço não me incomoda nada. Afinal… na sua casa não funciona nenhuma escola… Tem quantas alunas? Duas…três…? Que barulho é que podem fazer tão poucas pessoas? Na verdade não me incomodam nada.
- Ah! A Adélia tem alunas? -perguntou Carla. E dá aulas em casa? Então somos colegas… Não fazia ideia…
Amélia olhou para Nanda como que a pedir socorro, e respondeu, meio constrangida:
- Bem, não é exactamente a mesma coisa. A Carla é professora de alemão… eu ensino dança no varão…
- Ah! Mas que interessante – atalhou Carla - Não fazia a mínima ideia… Desculpe, Amélia, mas tem que me deixar assistir. E… se não se importar… eu até gostava de experimentar, e se vir que tenho jeito… até me faço sua aluna. Se concordar, é claro!
Quase se pôde ouvir um suspiro de alívio de Amélia ao ver a reacção de Carla. Sentia-se pouco à vontade sempre que se falava na dança do varão, pois receava que as pessoas a julgassem erradamente.
Aprendera a dançar no varão num período da sua vida em que atravessou grandes dificuldades económicas e teve que suplementar o mísero ordenado que ganhava como caixa numa loja, com o trabalho num bar, frequentado pela “alta finança” – o que lhe valia gordas gratificações, normalmente acompanhadas de convites para “um particular”.
Amélia aceitava as gorjetas, agradecia, e declinava os convites. Limitava-se a fazer o seu número de dança e ia-se embora.
O gerente, seu amigo, persuadia os clientes a não insistirem. “Afinal, ela não era a única dançarina lá no bar. Embora fosse a melhor, as outras também eram bastante boas…E assim convencia os clientes.
Logo que arranjou emprego como recepcionista num consultório médico, largou o bar. Conseguia conciliar o novo trabalho com o de caixa na loja, e assim a sua situação económica melhorou substancialmente.
Perante a reacção de Carla ao saber da sua ocupação ficou radiante e de imediato respondeu que teria nisso o maior prazer.
- Quando a Carla quiser… é só dizer. De momento tenho só duas alunas. Costumo ter três, mas uma, estudante, foi fazer um estágio ao estrangeiro e só regressa daqui por alguns meses.
- Fica combinado. Vou falar com o meu marido. Tenho a certeza que ele não se vai opor, mas preciso que esteja cedo em casa para ficar com os gémeos enquanto eu for à escola de dança – disse, sorrindo alegremente.
Nanda resolveu espicaçar Amélia:
- Parece-me que toda essa conversa acerca da dança foi só pretexto para desviar o assunto dos amores de António e Amélia – riram todas.
- Ai, Nanda, que se o amor é isto o que não será o ódio – respondeu Amélia, aderindo à brincadeira.
- Minha amiga, não se esqueça que o amor e o ódio andam muito perto um do outro, de tal modo que, às vezes, até se confundem…
Carla interveio:
- Vocês não imaginam a curiosidade que me despertaram. Eu preciso conhecer esse apaixonado da Amélia!
- A Carla já o deve ter visto – respondeu Nanda. É um homem muito bem parecido, gentil e simpático. Menos para a Amélia – acrescentou, em tom de brincadeira.
- É mesmo isso! Muito boa figura, alto, e, apesar dos seus 60 anos, (é mais ou menos essa a idade que ele aparenta) não se lhe nota uma gordurinha fora do sítio – respondeu Amélia, em tom sério. E, segundo consta, até tem uma boa situação financeira. Só é pena aquele feitio azedo… Mas eu sei que é só comigo, porque já o tenho observado sem ele ver, e é todo salamaleques com as outras pessoas…
- Acredite no que lhe digo, Amélia. Aquela é a forma que ele arranjou para disfarçar o amor que sente por si. Eu bem vejo a maneira como ele olha para si nas reuniões de condóminos, quando pensa que ninguém o está a observar – respondeu Nanda, em tom sério.
- Não brinque comigo! Se isso fosse verdade – e olhe que eu até nem desgostava da ideia – para que é que ele anda sempre a embirrar comigo?
- É como eu lhe disse, o homem é tímido, tem receio de mostrar os seus sentimentos e não ser correspondido…
- Ai é? Querem ver que eu tenho de lhe tirar a timidez? – riu Amélia.
- Parece-me que é o melhor que tem a fazer! Quanto a si, Carla, na próxima reunião de condóminos apresento-lho. É um homem muito educado.
E agora, minhas queridas amigas, vou entrar e tentar descansar porque amanhã é um dia grande para mim – rematou, com um ar feliz.
- Dia grande? - perguntaram Amélia e Carla, quase em uníssono. E pode-se saber porquê?
- Claro que sim. Amanhã vou ter a última entrevista com o engenheiro Carvalho Araújo, meu futuro patrão. Por isso vou fazer o meu sono de beleza, e depois arrumar uma roupa bem bonita, para me apresentar toda charmosa – respondeu, tentando disfarçar o nervosismo que, na realidade, sentia. Sabia que aquele emprego era muito importante para a sua vida, e precisava dar tudo por tudo para conseguir chegar a acordo com o engenheiro.
- Sono de beleza? Roupa bonita? – Amélia falava num tom duvidoso. Como se fosse preciso… Linda e elegante como a Nanda é, não precisa desses sonos… e qualquer trapinho lhe fica bem.
- Concordo com a Amélia – acrescentou Carla.
- Vocês são muito simpáticas, agradeço muito, mas prefiro tomar as minhas providências. Vamos, Tejo! 
Nanda abriu a porta da sua casa e despediu-se com um “até amanhã”.

Maria Caiano Azevedo

terça-feira, 1 de outubro de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XIII

SEGREDOS – CAPÍTULO XIII
 
 SEGREDOS – CAPÍTULO XII
 “… Imersa nestes pensamentos Nanda nem se tinha apercebido de que chegara ao supermercado. Só quando a voz do “segurança” disse, alegremente: Bom dia, dona Nanda! – é que ela “desceu à terra” e apressou-se a ir fazer as compras.
Quando regressava, com um saco em cada mão, ouviu o telefone tocar. Como era complicado, com os sacos das compras, atender, deixou-o tocar, pensando: “Quando chegar a casa vejo quem ligou e retorno a chamada” …”

SEGREDOS – CAPÍTULO XIII
Liberta dos sacos das compras Nanda olhou para o visor do telemóvel verificando, com algum alvoroço, que fora Carvalho Araújo quem lhe ligara.
Depois de uns minutos em que tentou acalmar a ansiedade marcou o número e, passados poucos segundos ouviu a voz do “futuro patrão”:
- Nanda? Liguei-lhe há pouco…
- Sim, Araújo, eu sei, mas não pude atender, peço desculpa…
- Não tem importância. Eu gostava de falar consigo pessoalmente para acertarmos os últimos pormenores. Finalmente tudo está concluído e, neste momento posso dizer que a Ourivesaria Orvalho de Prata me pertence.
- Isso quer dizer que o dono aceitou vender-lhe só essa, separadamente da outra?...
- Exactamente! E ainda bem, sabe?, porque o outro negócio que eu tinha em vista para o caso de este falhar não me agradava tanto.
- Só por curiosidade – posso saber de que se tratava?
- Com certeza! Era ligado ao ramo da restauração.
- Ah! Ainda bem que não precisou recorrer a isso… - comentou Nanda.
- Por acaso eu também concordo… Mas a Nanda tem alguma coisa contra a restauração?
- Não exactamente… mas passei por uma pequena experiência pouco agradável, relacionada com farturas – respondeu Nanda, sorrindo levemente à lembrança do Chico das Farturas.
- Bom, se foi desagradável não vou pedir que me conte. Voltando ao nosso assunto, quando e onde poderemos encontrar-nos?
- Como hoje já é um pouco tarde… talvez amanhã de manhã, no Café Estrela, este que fica perto da minha casa…
- Perfeito! Encontramo-nos lá, então. Até amanhã.
- Até amanhã – respondeu Nanda, desligando o telemóvel.
Excitadíssima com a perspectiva de que muito brevemente começaria a trabalhar, ligou ao Tó Zé.
- Eu cá tenho as minhas razões para acalentar esperanças – ouviu-o dizer, em voz carinhosa.
- O quê? Não estou a perceber nada! Isso é alguma forma nova de atender o telefone?
- Sim, mas só quando fores tu a ligar, não é norma geral para toda a gente.
- Tu e as tuas conversas – replicou Nanda, que ainda não acalmara a sua excitação. Quando começas a falar por enigmas ninguém te endente…
- Não é nenhum enigma, só que, quando me ligas, renasce em mim a esperança de voltar a ter-te nos braços – respondeu Tó Zé com a voz carregada de mel.
Nanda ficou calada por uns momentos, em parte por não saber o que responder, mas especialmente para acalmar o coração que lhe saltava no peito. E pensou: “Eu estou mesmo carente! Porque é que este fulano agora mexe tanto comigo? Tenho que ser forte e não me deixar enredar.”
- Pois bem podes esperar sentado – conseguiu, por fim, responder. E, apressadamente acrescentou:
- Eu só te liguei para saber o que é que combinaste com o nosso filho sobre a vinda deles para cima. Ele hoje ainda não me ligou nem eu a ele, e tanto quanto sei havia a dúvida se tu ias buscá-los ou se era o sogro que os trazia…
- Tens razão, havia a hipótese de ser o pai da Catarina, a nossa nora, a trazê-los…
Nanda reparou no tom quase orgulhoso com que Tó Zé pronunciava “nossa nora”, como se fosse mais um elo a ligá-los.
- Entretanto – continuou o seu ex – ontem à noite falei com o Luís e combinámos ir eu buscá-los porque o sogro só podia vir daqui por uns dias. E, já que as acomodações para eles estão prontas… não vale a pena estar a atrasar a vinda, não concordas? Eu estou ansioso por conhecer o nosso neto, e penso que contigo se passa o mesmo…
Novamente aquele tom de voz acariciador, quase íntimo. Nanda sentia-se cada vez mais insegura, o que, ao mesmo tempo que lhe aquecia o coração, a irritava, pois não queria deixar-se envolver. Tó Zé pertencia ao passado e era lá que devia permanecer.
Foi, por isso, com voz firme que respondeu:
- Claro que se passa o mesmo. Tu deves saber que, para as avós, o nascimento de um neto é tanto ou mais importante do que o de um filho. Avó é mãe duas vezes!
- Vendo as coisas por esse prisma… avô também é pai duas vezes – rematou ele, esquecendo-se de que não fora um pai muito presente.
Nanda decidiu não pensar nisso, e terminou a conversa pedindo-lhe que fosse dando notícias quando iniciasse a viagem de regresso. 
Terminado o telefonema com o Tó Zé decidiu ir terminar a limpeza da casa que iniciara no dia anterior já que, no dia seguinte, iria encontrar-se com Carvalho Araújo e estava esperançada em começar a trabalhar muito em breve.
Foi buscar o material necessário e pôs-se ao trabalho. As mãos iam limpando o pó enquanto a cabeça lhe recordava a conversa que acabara de ter com o seu ex-marido.
Ficava sempre um pouco perturbada depois de falar com ele, o que atribuía ao facto de há cerca de um ano não ter um namorado para se distrair. Tinha urgentemente de combinar uma saída à noite com a Bela, pois os pretendentes não caíam do céu. “Tenho que ir à caça…” – e sorriu à ideia.
Sentia-se feliz. Parece que, finalmente, a sua vida estava a tomar um bom rumo.
As perspectivas de ir trabalhar com o Araújo faziam-lhe crer que iria ter um bom ordenado; o filho Luís estava prestes a vir morar para perto de si, e a lembrança de poder ter o netinho nos braças fazia-a sorrir de enlevo; o filho Miguel também lhe dissera que não tardava a vir de férias.  Tudo se conjugava para ela viver dias risonhos.
Assim pensando lembrou-se de novo de Tó Zé e de como ele estava diferente desde que soubera que ia ser avô.
A verdade é que ambos tinham vivido alguns anos felizes, e ela não podia esquecer que lhe devia muito. Não, Nanda não era ingrata, e sempre reconhecera que a atitude que ele tivera há trinta anos fora prova de grande nobreza de carácter – para além de lhe demonstrar que, de facto, a amava sem reservas.
Como era de esperar o seu pensamento voou para Alessandro, no fundo o grande responsável do seu casamento com Tó Zé…
***
No início do namoro Bela acompanhava-os, mas como depois teve de se ausentar com a mãe, eles passaram a andar sozinhos, o que lhes agradava muito mais.
 Os pais de Nanda davam-lhe liberdade para um namoro que imaginavam “à moda antiga”, em que os pares passeavam de mãos dadas, trocando juras de amor.
Ela saía todas as tardes para ir encontrar-se com o namorado, o que eles achavam perfeitamente normal visto Nanda já ter completado os 18 anos. Como sempre tinha sido uma menina entregue aos estudos, “com a cabeça no lugar” e sem pensar em namoricos como a maioria das jovens da sua idade, não lhe punham quaisquer restrições, confiando nela plenamente.
Como era tempo de férias Nanda dispunha de muito tempo, o que não se passava com Alessandro, que tinha de trabalhar na pesquisa para a qual fora enviado para Lisboa. Contudo, a necessidade de estar com Nanda era tão premente que algumas vezes descurava os seus afazeres, e só as chamadas de atenção de Milão o faziam descer à terra. Apercebendo-se do que se passava, e não querendo causar-lhe problemas, Nanda tomou a iniciativa de criar regras para os encontros, que passaram a ocorrer só a partir das cinco da tarde, quando ele encerrava o trabalho do dia.
Como resultado da restrição de tempo em que estavam juntos, o amor eclodiu como um vulcão. Cada vez a ligação entre eles era mais forte, criando laços muito apertadas, difíceis de desatar.
Jovens, viviam uma paixão sem algemas, tão forte que às vezes parecia irreal. Queriam abarcar o mundo que lhes parecia só seu.
Depois do primeiro beijo no bar da praia no dia do aniversário de Nanda, tímido e como que a medo, procuravam agora os lugares mais solitários para se beijarem com sofreguidão. Neste clima que cada vez se tornava mais intenso, sentiam crescer em si o desejo de se entregarem um ao outro, de satisfazerem o que começava a tornar-se insuportável.
Na cidade universitária, logo que Alessandro saía do trabalho e estando Nanda à sua espera no passeio em frente, procuravam os recantos mais isolados e aí se entregavam às suas manifestações amorosas que a cada dia se tornavam mais ousadas. Os beijos arrebatadores já não os satisfaziam, os corpos, jovens e sedentos, exigiam algo mais.
Naquele dia Nanda avisara a Mãe de que iam ao cinema, à sessão das seis e meia, e depois iriam comer qualquer coisa, pelo que chegaria um pouco mais tarde e não jantaria em casa. Sentia-se portanto perfeitamente à vontade, sem a pressão das horas para regressar.
Nas várias deambulações que todos os dias faziam à procura do “melhor lugar” acabaram por encontrar um local verdadeiramente isolado, longe de todos os olhares indiscretos, e onde se sentiam totalmente tranquilos.
É sábado, a universidade sem qualquer movimento, o dia chegando ao fim. Já se vêem no céu os tons avermelhados do anoitecer. Nanda e Alessandro sem qualquer vontade de se separar, continuam acariciando-se mutuamente, murmurando palavras quase sem nexo, apenas com o intuito de continuarem juntos.
Alessandro ousa um gesto mais íntimo e Nanda retrai-se. A severa educação que recebeu não a deixa desinibir-se por completo. O assédio de que fora vítima também a condicionava um pouco.
Com palavras em que tenta dissimular a excitação Alessandro murmura na sua voz doce, que o sotaque italiano torna ainda mais sedutora:
- Porque me afastas, amore mio? Eu penso em ti a todos os momentos, e isto faz-me sentir tão bem! Quero que sejas muito feliz.
Nanda encostou o seu corpo ao dele, e Alessandro pode sentir como ela tinha a pele arrepiada, no seu top de alcinhas. Rapidamente, num gesto de carinho, tapou-a com o blazer que colocara sobre os seus ombros quando saíra do trabalho. Ao mesmo tempo, segurando-a fortemente contra si, fê-la recostar-se de modo a ficar com as costas sobre as folhas caídas sobre a relva. Nanda deixou de oferecer resistência.
 A noite ia baixando. Já toda a gente tinha abandonado as proximidades. Encontravam-se sozinhos. Subitamente, puxando-a para si beijou-a sofregamente.
O jogo amoroso iniciava-se. Os sentimentos de ambos, tanto tempo recalcados, extravasaram. Entravam numa espiral sem retorno.
Lentamente, Alessandro foi lhe descendo as alças do top, acariciando os seios que, jovens e firmes, se lhe ofereciam como num altar. Como que em “slow motion” foram retirando as roupas um ao outro, entregando-se assim, sem reservas, àquela paixão que os enlouquecia.
O desejo de ambos passou a ser incontrolável e no chão, ao lado da roupa retirada dos corpos, consumaram, numa loucura frenética, a paixão que tinham acumulada.
Parecia-lhes ouvir ao longe uma música suave, embalando-os e transportando-os para outro universo.
Exaustos pela força com que se amaram, repousam agora, felizes.
Os corpos nus, transpirados, são percorridos por um leve arrepio. Apesar da temperatura anormalmente elevada daquele dia - o Verão estava a chegar ao fim - a noite refrescara um pouco.
Recompuseram-se a custo. Os corpos suados pareciam não querer separar-se. Mas o tempo não pára, e Nanda tinha de regressar rapidamente para evitar alguma reprimenda ou, na pior das hipóteses, alguma proibição de sair tantas vezes de casa.
A partir desse dia a vontade de se encontrarem a sós cresceu assustadoramente.
Depois do arrebatamento da primeira vez, já mais calmos, compreenderam o risco que corriam ao exporem-se num local público, por muito recatado e longe de olhares indiscreto que ele fosse.
Alessandro propôs, e Nanda imediatamente aceitou, que passassem a encontrar-se no T1 que ele alugara à chegada a Lisboa. E assim passou a ser.
Passaram então a viver dias de perfeita loucura. Completamente à vontade, entregavam-se àquele amor que os enlouquecia como se não houvesse amanhã.
Alessandro não se cansava de acariciar a curvatura do pescoço de Nanda, a macieza da sua pele, a beleza dos seios que ele beijava ao de leve, demorando-se em cada gesto como se quisesse eternizá-lo.
Nanda, de olhos fechados, sentia a leveza das suas mão a acariciá-la, num enlevo que a transportava como se viajasse num veleiro para outros mundos, onde a felicidade não tinha fim.
Uma vez por outra, de mãos dadas, passeavam à beira rio, vagarosamente, aspirando o ar de fim de Verão, serenos e felizes. Beijando-se meiga e suavemente, apreciavam os veleiros do Tejo com as velas brancas enfunadas, deslisando sobre as águas, levados pela leve brisa do anoitecer.
Os olhos de ambos apenas viam o lado belo da vida.  Riam de tudo e de nada, só por estarem juntos e se sentirem felizes.
E assim decorreram três semanas que, a seus olhos, pareciam minutos.
Por norma, Alessandro não telefonava durante as horas de trabalho. Um dia, inesperadamente, Nanda olha para o visor do telemóvel que começara a tocar e vê que quem lhe estava ligando era o seu namorado.
Sem saber explicar porquê sentiu um arrepio…
  
Maria Caiano Azevedo

terça-feira, 3 de setembro de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XII

SEGREDOS – CAPÍTULO XII

Regressei de férias ontem e um dos meus primeiros contactos foi com a Nanda.
Achei-a bastante melancólica, o que não me causou estranheza, pois regressar de férias provoca sempre uma certa nostalgia.
Comentando isso mesmo com ela respondeu-me que não ia a pensar em férias, mas sim a lembrar-se do seu passado e eu interrompera-a.
Murmurei uma desculpa rápida, e mais rápido ainda, afastei-me, deixando-a entregue às suas recordações…

CAPÍTULO XI
“… Nanda olhou para o visor onde estava a indicação de “número desconhecido”. Pensou:
“Será ele? Ou algum daqueles chatos a fazer publicidade que não interessa a ninguém?”
Decidiu atender. O seu coração teve um sobressalto quando reconheceu a voz do desconhecido dessa manhã.
- Alô! – ouviu do outro lado. Como estás, cara mia?
Nanda ficou tão emocionada que nem conseguia falar. Afinal, ele tinha ligado…”

CAPÍTULO XII
Depois de vários “alôs” do outro lado Nanda conseguiu acalmar-se e, tentando não deixar transparecer a sua perturbação, respondeu, com uma inocente mentira:
- Alô! Desculpa a demora em atender, mas estava tão absorvida pelos estudos, que demorei um pouco a desligar do que estava a ler.
- Não tem importância – a voz de Alessandro denotava grande alívio.  E continuou: Avevo solo paura che non mi avresti parlato – e acrescentou rapidamente – Oh, scusa, eu quis dizer que apenas estava com medo de que não quisesses falar comigo.
Nanda continuava muito agitada. Ela que, normalmente, “tinha a resposta na ponta da
língua”, agora não lhe ocorria nada para dizer. Por sorte ele continuou a conversar, dispensando-a de ter de responder.
Contou-lhe que desde o encontro dessa manhã não deixara de pensar nela, que tinha absoluta necessidade de voltar a vê-la, que se isso não acontecesse ele iria … “perdi la testa, entendes, perder a cabeça, enlouquecer, como vocês dizem…”.
E continuou verbalizando, no seu português um tanto arrevesado, a atracção irresistível que sentia por ela. Nanda limitava-se a ouvir, pensando que com ela se estava passando o mesmo, o que a deixava desorientada.
“Eu sou uma pessoa com os pés bem assentes na terra, não me deixo influenciar facilmente, não sou dada a namoricos como a maior parte das raparigas da minha idade…  não compreendo o que me está a acontecer…”
Acabou cedendo àquela voz que tanto a transtornava, dizendo-lhe que amanhã o informaria  da sua disponibilidade. “O final do ano está à porta e todo o tempo é pouco para estudar. Mas vou arranjar um tempinho para ti” – e rematou assim a conversa.
A mãe já viera duas vezes perguntar-lhe se queria um chá e umas bolachas, e vira que ela estava a conversar ao telemóvel. Não podia prolongar muito mais tempo o telefonema sem correr o risco de ter de dar explicações à Mãe – o que ela não queria, de modo algum, fazer.
Teve grande dificuldade em voltar a concentrar-se nos livros. Só a sua enorme força de vontade e o pensar que dos bons resultados escolares dependia a sua festa de anos a ajudou.
Depois de uma noite agitadíssima, em que acordou imensas vezes e sempre com os olhos no relógio, a madrugada acabou por chegar. Rapidamente se preparou para sair, mal tocando no pequeno almoço. Foi bastante difícil, nas aulas, não deixar o pensamento voar para Alessandro, com quem combinara almoçar. Como chegou bastante cedo à escola teve tempo para lhe mandar uma mensagem marcando o encontro num “snack” não muito perto, para não correr o risco de ser vista por Bela ou qualquer outra colega.
Esse primeiro encontro não foi exactamente como eles esperavam. Ambos estavam bastante tensos; parecia que nenhum tinha nada para dizer, mas quando Nanda ia falar Alessandro começava também a pronunciar uma palavra, atropelando-se um ao outro, acabando a rir nervosamente.
Ele ainda conseguiu dizer-lhe que se encontrava em Lisboa a colher elementos para uma investigação que se estava a realizar num laboratório situado nos arredores de Milão, na qual ele colaborava.  Com a mesma finalidade fora inicialmente para o Porto, onde se mantivera por cerca de um ano, e donde regressara havia apenas duas semanas.
De pouco mais conversaram, até porque não dispunham de muito tempo. Talvez por isso - mas não só - a vontade de voltarem a ver-se apresentava-se premente, urgente, como algo que os subjugava.
Nanda tinha noção de que não podia perder tempo, todos os minutos contavam para os seus estudos, agora que se encontrava na recta final; Alessandro não podia descurar o seu trabalho, pois o seu director, lá de Itália, não lhe dava tréguas.
Apesar disso… passaram a encontrar-se todos os dias. Como seria de esperar aquela ligação ia criando laços muito fortes que, a cada dia que passava, mais os uniam.
Bela estranhava que a amiga, ultimamente, andasse sempre ocupada, com “n” afazeres nos intervalos das aulas, e que sempre que a interrogava, Nanda arranjasse desculpas esfarrapadas, assumindo um ar comprometido. Até que um dia acabou por confessar que conhecera “alguém” que a atraía mas, não querendo precipitar-se, preferia manter segredo até ter formado uma opinião.
Bela mostrou-se felicíssima com a notícia, mas não deixou de lhe fazer sentir que lamentava que não tivesse confiado nela.
- Afinal, parece que não sou a tua melhor amiga – murmurou, fazendo beicinho.
- Não sejas parva! Quantas vezes preciso repetir que és, sim, a minha melhor amiga? Só que, neste caso, como não tenho ainda certezas de nada, achei preferível aguardar…
- Tu e a tua eterna prudência! Alguma vez irás “atirar-te de olhos fechados” seja para o que for? Vive o amor, minha querida, as consequências não podem ser assim tão más…
- Eu com a minha prudência – que tu consideras excessiva – e tu com a tua alegre leviandade – respondeu Nanda, a rir.
- Os extremos tocam-se – Bela entrou na brincadeira, bem-disposta, já esquecido o amuo anterior. A tua prudência e a minha leviandade complementam-se, e é por isso que nos damos tão bem… Mas… não podes dar-me só uma dica acerca dele?
- A única coisa que posso dizer-te é que se trata daquele rapaz que quase me deitou ao chão no dia em que fomos falar sobre a minha festa de anos – disse Nanda, querendo pôr um ponto final no assunto.
 - O tal dos olhos incandescentes? – brincou Bela. Eu sabia que ele tinha mexido contigo…Ah! mas tens de mo apresentar…
- Claro que sim, se tudo der certo. Por enquanto estamos apenas a conhecer-nos. Depois, estou a pensar convidá-lo para o meu aniversário…
- Ah! Assim está bem, não vou ter de esperar muito. Na próxima semana acabam as aulas, e logo de seguida é a tua festa de anos.     
Desde o final do ano e a perspectiva da entrada na Faculdade até o aniversário decorreram apenas três semanas, que as duas amigas dedicaram à preparação da festa de anos.
Finalmente chegou o grande dia! No meio de toda aquela agitação Nanda foi apresentando Alessandro como o seu mais recente amigo. Quando chegou a vez de o apresentar à sua amiga Bela, esta mal pode olhá-lo e pronunciar um rápido “olá, tudo bem?”, pois foi imediatamente arrebatada pelo seu último admirador, que não queria perder um minuto da sua atenção.
Quando, por fim, terminou a parte “obrigatória” de festejar com a família e puderam seguir para a praia onde o dono de um bar conhecido de Bela reservara o espaço para a festa, Nanda sentia-se nas nuvens. Finalmente podia estar bem perto de Alessandro, com os corpos colados a pretexto de dançarem.
Foi uma noite inolvidável que terminou com o primeiro beijo. Até aí, embora muitas vezes o desejo de o fazer fosse quase incontrolável, tinham conseguido evitar grandes intimidades. Nanda não era de facilitar as coisas…
Os tempos que se seguiram foram de verdadeira euforia. Nanda, com boas perspectivas de entrar na Faculdade, dado os bons resultados que obtivera na escola, de férias e já com os seus 18 anos completos, sentia da parte dos pais uma grande complacência.
Tinham conhecido Alessandro, na festa de aniversário, como amigo. Agora Nanda achou que era altura de lhes confessar que eram namorados. Saíam juntos, iam à praia, ao cinema, enfim, viviam intensamente o seu amor.
Com esta necessidade quase obsessiva de se encontrarem Alessandro estava descurando um pouco a investigação para a qual tinha sido destacado, o que lhe estava a valer algumas chamadas de atenção por parte da sede, em Milão.
No início do namoro Bela acompanhava-os; mas cerca de três semanas depois teve de partir com os pais para a quinta, onde se demorou muito mais tempo do que o habitual.
Nanda lembrava-se que, na altura, Bela alegara uma qualquer doença da mãe, qualquer coisa a nível psicológico, e que ela tinha de a acompanhar. Pelo que conseguia recordar – “mas já passaram tantos anos que a memória pode estar a atraiçoar-me… “- teria havido problemas entre o casal e a mãe achara melhor estarem um tempo afastados, pelo que foram, mãe e filha, para o estrangeiro.

***
Imersa nestes pensamentos Nanda nem se tinha apercebido de que já chegara ao supermercado.  Só quando a voz do “segurança” disse, alegremente – Bom dia, dona Nanda! – é que ela “desceu à terra” e apressou-se a ir fazer as compras.
Quando regressava, com um saco em cada mão, ouviu o telefone tocar. Como era complicado, com os sacos das compras, atender, deixou-o tocar, pensando:
- “Quando chegar a casa vejo quem ligou e retorno a chamada”.

Maria Caiano Azevedo

terça-feira, 2 de julho de 2019

LIVRO EM CONSTRUÇÃO - SEGREDOS XI

ADENDA
Queridas Amigas e queridos Amigos
Por lapso não incluí, no final deste Capítulo, a seguinte informação:
NO DIA 10 DESTE MÊS DE JULHO VOU AUSENTAR-ME DO PAÍS, POR DUAS SEMANAS, PARA O MEU PRIMEIRO PERÍODO DE FÉRIAS (O SEGUNDO SERÁ NA SEGUNDA QUINZENA DE AGOSTO).
POR ESSE MOTIVO SÓ QUANDO REGRESSAR PODEREI RETRIBUIR AS VISITAS QUE ME FIZEREM, E QUE DESDE JÁ AGRADEÇO.

Beijinhos e abraços a toda(o)s.

SEGREDOS – CAPÍTULO XI


 CAPÍTULO X
“…O toque do telefone interrompeu os seus pensamentos. Contrariada, Nanda levantou-se e viu, no visor, que a chamada era do Tó Zé. Naquele momento teria preferido continuar a recordar o passado tão distante. Já haviam decorrido 30 anos! Mas na sua memória tudo continuava muito nítido, como se o estivesse vivendo de novo…
Clicou no “atender” e ouviu do outro lado a voz inconfundível do seu ex-marido:
- Por onde anda a flor mais linda do meu jardim, que demorou tanto tempo a atender?
Nanda sentiu um friozinho na barriga ao ouvir aquela voz carregada de mel…”

CAPÍTULO XI
Tentando controlar-se para não deixar transparecer o quanto aquela voz mexia consigo, Nanda respondeu, no tom mais indiferente que lhe foi possível:
- O teu jardim continua repleto de flores?
- Tem algumas, sim, mas nenhuma tão bonita como tu…
- Conversa não te falta… Mas afinal, foi para falar de flores que me ligaste?
- E se fosse? Não é uma conversa bonita? E perfumada – acrescentou, bem-disposto. Mas não, não foi para falar de flores, mas dum botão de rosa – o nosso neto.
- O que tem o nosso neto? – a voz de Nanda denotava preocupação. Aconteceu alguma coisa que eu não sei?
- Não fiques aflita, minha querida – Nanda estremeceu. Aquele “minha querida” era sempre dito num tom que lhe fazia lembrar que houve um tempo em que eles tinham conseguido ser felizes, apesar de tudo.
O que acontece é que, finalmente, consegui arrumar acomodações para o nosso filho. E como tu gostas sempre de lhe dar este tipo de novidades… não sou eu que te vou roubar esse prazer… Quando quiseres liga-lhe a dar a notícia, e aproveita para lhe perguntar se precisa que eu vá lá abaixo buscá-los. Posso ir com a carrinha e trazer tudo o que for preciso.
- Ora aí está uma excelente notícia! – respondeu Nanda, encantada. E não queres contar-me como conseguiste esse milagre?
- Evidentemente que sim. Sabes que para ti não tenho segredos – Tó Zé falou com o tom mais doce possível.
- Eu vou fazer de conta que acredito – respondeu Nanda, tentando falar rispidamente, mas com o coração acelerado.
- Acredita que é verdade. Lembras-te daquele armazém enorme que em tempos aluguei, com vista a diversificar o negócio? – continuou ele. Acabou por ficar para ali, sem qualquer utilidade. Mantive-o porque o aluguer era baixo, quase de graça. E foi o melhor que fiz. Com a ajuda de uns amigos construí lá, numa parte do espaço, um belíssimo apartamento. Só tem um quarto, mas para já não é preciso mais. Depois, com tempo, posso construir outro.
- E o nosso neto vai ficar confinado a um quarto? – perguntou Nanda, com espanto.
- Que disparate! Claro que não. Tem um quarto, uma sala – não muito grande, é certo – uma cozinha e instalações sanitárias. Quando quiseres podes ir lá ver. Tenho a certeza que vais gostar. Já está pronto há três ou quatro dias, mas não te disse nada porque era preciso deixar sair o cheiro das tintas.
- Estou espantada, e deveras satisfeita. Vamos fazer assim: Eu telefono ao Luís a dar-lhe a novidade. Sei que vai ficar radiante porque todos os dias me tem falado no assunto.
- Todos os dias? – perguntou Tó Zé, admirado.
- Sim, todos os dias, qual é o espanto? Sabes que nós falamos todos os dias…
- Pois… - Nanda notou um certo tom de tristeza na voz do ex-marido – tu e eu também falamos todos os dias – ou quase… - e tu não me dizes tudo…
- Isso agora não interessa para nada! Vamos aos planos. Daqui a pouco ligo ao Luís e vejo como havemos de fazer para eles virem para cima. E fica descansado que vou dizer-lhe que te ofereceste para os ires buscar – acrescentou, sorridente.
- Obrigado, minha querida. Tu consegues ser sempre atenciosa, seja em que circunstância for…
Nanda engoliu em seco, sem palavras para responder. E de novo aquele “minha querida”…
Não sabia explicar porque é que essas duas palavras, ditas naquele tom, a sobressaltavam tanto.
A verdade é que ela nunca fora apaixonada pelo Tó Zé. Ele, sim, ele adorava-a, e ela… deixava-se amar.
Passados quase trinta anos ainda se lembrava bem de como eram as suas conversas. Viam-se e falavam todos os dias. Depois de jantar ela ia até ao portão do jardim da sua casa e aí se encontravam. O que chegasse primeiro esperava pelo outro. E as conversas entre eles pareciam não ter fim. Algumas vezes a Mãe tinha de a chamar para ir deitar-se, porque eles perdiam a noção do tempo.
Nanda considerava Tó Zé como o seu melhor amigo, tal como Bela era a sua melhor amiga. Entre eles quase não havia segredos. Nanda guardava consigo o segredo do assédio de que fora vítima por parte do pai de Bela, e nunca o revelou a ninguém, até ao fim da sua vida. Mas esse segredo era a única excepção…  

Foi com enorme alegria e excitação que Nanda ligou para Luís a dar-lhe a novidade. Como era de esperar, o filho ficou em grande alvoroço e, em altos brados, transmitiu a notícia a Catarina. Combinaram que Luís falaria com o sogro, que já se oferecera para os vir trazer a Lisboa, e não queria magoá-lo.
Enquanto se dirigia ao supermercado para fazer umas pequenas compras – como eram coisas de pouco peso decidiu não levar o carro e ir a pé – voltou-lhe ao pensamento o assunto em que pensava quando fora interrompida pelo telefonema de Tó Zé…
***
[Depois do encontro (ou encontrão…) de Nanda e Alessandro, as duas amigas, conversando alegremente e caminhando num passo estugado, em breve chegaram ao restaurante. Sentaram-se, fizeram o pedido, e começaram logo a falar do assunto que as levara a almoçar juntas...
- Então conta-me lá, que espécie de festa estás a pensar fazer? – perguntou Bela.
- Eu estava a pensar numa coisa simples, para reunir as amigas e os amigos, nada do género da que tu fizeste quando completaste os teus 18 anos, claro! Que te parece?
- Por mim acho a ideia excelente. E como ainda faltam três meses, não vais ter dificuldade em reservar um local para a noite … concordou Bela.
- Pois por isso mesmo é que eu quis tratar das coisas com antecedência e poder escolher um espaço que não seja muito caro.
- Tenho a certeza que vais conseguir. Bem basta o que aconteceu comigo… - Bela mostrava-se meio tristonha ao recordar a sua festa de anos.
- Sim, mas tu sabes bem porque é que as coisas não correram como tu querias e imaginavas… Essa ideia dos teus pais de irem fazer a festa na quinta… - murmurou Nanda.
- Uma ideia completamente disparatada. Como sempre, estavam a pensar mais em exibir-se do que em festejarem os meus 18 anos – Bela falava com irritação. – Sendo assim, como foram eles a organizar tudo, a maioria das minhas amigas e amigos não estariam presentes. Só os riquinhos lá iriam pôr os pés. Olha tu, por exemplo: afirmaste logo, a pés juntos, que não irias… Logo tu, a minha melhor amiga!
- Não vale a pena estarmos a falar nisso agora – Nanda esquivava-se ao assunto. Nem queria pensar no verdadeiro motivo que a levara a recusar o convite da sua melhor amiga. Desde aquele dia fatídico evitava ao máximo qualquer contacto mais próximo com aquela família.
- Tens razão, querida. Não vale a pena continuar a lamentar o que se passou. Mas a verdade é que eu pensava que iria recordar para sempre, com saudades, a minha festa dos 18 anos. Afinal, é um marco na nossa vida… - comentou Bela, com ar tristemente pensativo.
E lembrou-se da ansiedade com que esperara pela sua festa de aniversário dos 18 anos. Imaginara tudo tão diferente do que acontecera… Os pais disseram-lhe que não queriam contar-lhe nada, porque iam fazer-lhe uma grande surpresa. E nisso não se enganaram. Foi mesmo uma surpresa enorme!
Nesse dia, logo a seguir ao almoço, meteram-na no carro e, entre risadas de boa disposição, vendaram-lhe os olhos, dizendo-lhe que não valia a pena ela fazer perguntas pois só quando chegassem ao destino veria a surpresa. A Mãe aconselhou-a a recostar-se e tentar fazer um pequeno sono de beleza, para estar linda para a sua festa…
Cerca de uma hora depois o pai parou o carro, ajudaram-na a sair e a venda foi retirada. Com espanto, Bela verificou que se encontrava na quinta, onde era aguardada por um número enorme de convidados, amigos dos seus pais e os seus descendentes, todos vestidos como para uma festa de gala.
Não, decididamente não era nada disto que Bela imaginara.  Na verdade, os pais não a conheciam, não sabiam os seus verdadeiros gostos, para além de só pensarem em si mesmos e                               na imagem que queriam transmitir, de pessoas da alta sociedade.
A Mãe levou Bela para o seu quarto, onde a esperava um magnífico vestido que ela usaria para a festa – por sua vontade vestiria apenas umas jeans e uma t-shirt. Fez a vontade à Mãe, pois sabia que de nada valeria tentar contrariá-la.
Como não viu entre os convidados a sua melhor amiga perguntou à Mãe se não se tinha lembrado de convidar Nanda. Ela respondeu que não se esquecera – de maneira nenhuma! – mas que, apesar da muita insistência, a amiga lhe repondera que não podia ir.
Bela correu para o telefone e ligou a Nanda. Entre lágrimas descreveu-lhe, resumidamente, a “surpresa” que os pais lhe haviam preparado, e implorou à amiga que fosse para a quinta, que mandaria o motorista buscá-la.  Nanda recusou, meiga mas firmemente:
- “Sabes que te amo como a uma irmã, mas não me peças o impossível. A minha Mãe está com uma fortíssima crise de enxaqueca e não tenho coragem de a deixar sozinha nestas condições. Sabes como ela fica quando tem estas crises…”
Depois de todos os convidados terem partido, os pais disseram-lhe que no dia seguinte iriam levar a casa a tia Natércia – irmã da mãe, que vivia no Porto e viera à festa do seu aniversário – e que Bela poderia ficar lá uns dias, se quisesse.  Tinham-se apercebido de que a surpresa que haviam preparado para a filha em nada lhe tinha agradado, e pensavam compensá-la concedendo-lhe uns dias de liberdade.
Foi a melhor notícia que Bela recebeu nesse dia. A perspectiva de ir passar uns dias com a prima Filipa, filha da tia Natércia, de quem gostava muito, deu-lhe um novo ânimo.
Foram uns dias inesquecíveis.
No dia da chegada, Filipa convidou umas amigas para jantarem lá em casa. Foi uma reunião muito agradável e alegre. As amigas da prima eram muito simpáticas e acolhedoras, e logo ali combinaram fazer uma festa no dia seguinte na casa de uma delas, cujos pais se encontravam no Algarve.
Na noite seguinte lá estavam elas na casa da amiga, prontas para uma noite de farra. A casa, situada nos arredores, era enorme, com muitos quartos, salas, salinhas e saletas… Notava-se, à distância, que os donos da casa eram pessoas bem colocadas na vida, nada abaixo do nível dos pais de Bela.
Amigas e amigos começaram a chegar e em breve a sala estava repleta de jovens. Dançaram, cantaram, saltaram, comeram – havia, numa das salas, uma mesa posta com sandes e bolos, onde não faltavam bebidas alcoólicas.
A noite ia avançada quando alguém começou a distribuir uns “charros”, a que se seguiram outras drogas leves. Bela nunca tinha experimentado e não estava nada interessada. Na escola, desde os doze anos, sempre aparecia alguém a querer influenciá-la e iniciá-la nesse mundo que ela temia acima de tudo. Sempre resistira, e até àquela noite sempre tinha conseguido manter-se afastada.
Agora… a tentação era maior que nunca. Toda a gente eufórica, fumando e “cheirando”, com álcool à mistura… e ela ali, isolada, a sentir-se um ET. Filipa insistia:
- Vá lá, Bela, não sejas desmancha prazeres, é só hoje. Olha para mim, pensas que eu faço isto todos os dias? Nem pensar, é só muito raramente. Assim não se corre o risco de ficar viciado…
Bela acabou por ceder… e de pouco mais se lembra nitidamente. Recorda-se que todos acabaram espalhados pelos vários quartos. Ela própria acordou de madrugada ao lado de um jovem de que mal recorda as feições porque, ao reparar na cama desfeita, não teve dúvidas do que acontecera entre eles. E sentiu-se tão envergonhada que mal conseguiu balbuciar o seu nome – Bela – quando ele quis apresentar-se dizendo:
- Io sono Alessandro. E tu?...
Todos começaram a levantar-se e retirar-se, e em breve as duas primas ficaram sozinhas com a dona da casa, grande amiga de Filipa. Passaram o dia as três juntas. Bela não se sentia muito bem – as drogas que consumira, ainda que leves, provocaram-lhe um mal-estar geral. Acharam preferível só regressar a casa mais tarde, dando tempo a que se dissipassem os efeitos da noitada, e evitar preocupar a prima Natércia.
Mas as verdadeiras consequências de toda a irresponsabilidade dessa noite não se fizeram esperar. Pouco tempo depois…

Nanda reparou no ar ausente da amiga e perguntou:
- Vamos tratar da minha festa ou não?
- Claro que vamos. Portanto… fazes um lanche ajantarado… - sugeriu Bela
-Sim, mas uma coisa bem simples, e tem de ser em casa. Sabes que os meus pais não são ricos… não quero fazê-los gastar muito dinheiro. – apressou-se a esclarecer Nanda.
- Se tu não fosses teimosa… aceitavas que eu te oferecesse a festa como prenda de anos… - aventurou Bela – Gostava tanto!
- Não venhas de novo com essa conversa. Eu nem sequer me atreveria a dizer tal coisa aos meus pais. Acho que eles me mandavam internar – respondeu Nanda em tom alegre, tentando desviar o assunto.
- Eu entendo, por isso não vou insistir – respondeu Bela.
-Fazemos assim: um lanche ajantarado lá na garagem, com a presença dos amigos dos meus pais; a seguir a juventude segue para a discoteca, e os cotas continuam a festejar na garagem – disse Nanda com uma gargalhada. - Agora só falta pensar no que se há-de servir para o lanche. Como sabes a minha Mãe não tem prática dessas coisasna cabeça dela o que mais importa é o voluntariado. Não que eu tenha alguma coisa contra, nem pensar; mas às vezes até parece que para ela são mais importantes as pessoas a quem presta apoio do que eu ou o meu Pai… murmurou Nanda

- Não penses assim, querida. A tua Mãe é uma excelente pessoa, bondosa como poucas. É só olhar para as pessoas que ela visita, pessoas de condição muito baixa, verdadeiramente necessitadas. Algumas amigas da minha Mãe enchem a boca com essa cena do voluntariado, e vais ver quem elas visitam…  A tal da pobreza envergonhada, pessoas que já estiveram muito bem na vida e agora estão na mó de baixo… Mas diz-lhes para irem dar apoio a pessoas de condição mais humilde e logo vês a resposta que te dão – “não têm tempo”, “já visitam muita gente”, “não podem chegar a todo o lado”…
Digo-te, honestamente, gosto muito mais da acção da tua Mãe. – rematou Bela
- Eu sei, eu sei, só que às vezes nós sentimos um pouco a falta dela, entendes?
Bom, mas nós não viemos aqui para falar das boas acções das nossas Mães, certo? Então, continuemos…
- Claro! - Apressou-se Bela a concordar.
– Tu já sabes que podes contar comigo para tudo. Portanto, com o lanche não te preocupes. Entre nós todas, e com a ajuda da criada lá de casa (tu sabes que ela te adora…) não vai haver problemas.  Depois é só conseguir que o dono da discoteca reserve um espaço para nós. Afinal, ainda somos bastantes… talvez uns vinte, não?
- Ah, sim, à volta disso. Entre colegas e amigos lá da rua… deve ser mais ou menos esse número. A propósito, não me posso esquecer do Tó Zé, ainda não lhe falei no assunto… Sabes o que eu gostava mesmo? É que fosse num bar de praia… mas não sei se vamos conseguir…
- Vais ver que sim. Lembra-te que ainda faltam três meses, portanto temos tempo bastante para tratar do assunto. E talvez até seja mais fácil do que um espaço reservado numa discoteca… E… muito mais giro! Só pensar em estar a ouvir o barulho das ondas já me faz gostar da ideia. E depois… são os teus 18 anos, tem de correr tudo muito bem! – disse Bela, em tom confiante.
- É uma data histórica – riu Nanda. É já o princípio da maioridade.
E riram ambas alegremente.
Terminado o almoço combinaram encontrar-se brevemente e separaram-se com um apertado abraço.
A caminho de casa Nanda não parava de pensar no desconhecido com quem se cruzara.
“Que lindos olhos ele tem! Aliás… todo ele tem boa figura; mas os olhos chamam logo a atenção. Será que ele vai telefonar? O mais certo é que não o faça. Afinal, foi apenas um simples encontro… Um encontrão, melhor dizendo…Para além da “agressão física” - sorriu a este pensamento - nada mais houve digno de registo…”
Chegando a casa, depois de pôr a Mãe ao corrente do que tinha combinada com a Bela, foi agarrar-se aos livros. O fim do ano estava à porta e não queria dar à Mãe o menor motivo para que ela pusesse entraves à sua festa de aniversário.
Porém, não conseguia concentrar-se. O desconhecido de olhos azuis interpunha-se aos estudos, levando-a a olhar constantemente para o telemóvel, que se mantinha mudo.
Às cinco horas e cinco minutos Nanda deu um salto na cadeira ao ouvir o toque que já tinha desesperado de escutar.
Ficou paralisada, a olhar para o aparelho sem se mover, ouvindo-o tocar. Passados uns momentos o toque parou. Pouco depois tocou de novo.
Nanda olhou para o visor onde estava a indicação de “número desconhecido”. Pensou:
“Será ele? Ou algum daqueles chatos a fazer publicidade que não interessa a ninguém?”
Decidiu atender. O seu coração teve um sobressalto quando reconheceu a voz do desconhecido dessa manhã.
- Alô! – ouviu do outro lado. Como estás, cara mia?
Nanda ficou tão emocionada que nem conseguia falar. Afinal, ele tinha ligado…


Maria Caiano Azevedo