Mostrar mensagens com a etiqueta OS MEUS RABISCOS/FONTES DE REFLEXÃO. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta OS MEUS RABISCOS/FONTES DE REFLEXÃO. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de maio de 2018

RETIRO DE SILÊNCIO

“O SILÊNCIO É UM AMIGO QUE NUNCA TRAI” – Confúcio



Há dias encontrei a minha amiga Márcia, que já não via há duas semanas, e com quem me detive a conversar.
Ao princípio achei-a diferente. Não sabia dizer em quê, mas depois de quase duas horas de conversa, percebi – a Marta estava muito mais calma, aparentava, e transmitia, uma paz interior e uma serenidade que eu não lhe conhecia.
- Tenho uma coisa para te contar – disse ela depois dos efusivos abraços e beijos, próprios de quem é bastante expansivo, como a minha amiga.
- Estou ansiosa por ouvir – respondi. Pensei que, com o que tinha para me confidenciar, eu iria entender a razão das mudanças que lhe notara.
- Acabei de passar por uma experiência maravilhosa – começou Marta. Estive no que se pode chamar um Retiro Espiritual de Silêncio.
Eu apenas esbocei um sorriso céptico. A minha amiga, de vez em quando, tinha destas coisas… apetecia-lhe afastar-se de tudo e de todos, na convicção de que o recolhimento lhe faria bem ao espírito e lhe restituiria a calma necessária para enfrentar o dia-a-dia.
- Conta! Quero saber tudo – respondi, com muitas reticências interiores.
- Conto, sim, até porque sinto que me fez muito bem e penso que te faria bem a ti, também…
Já tinha ouvido falar nos benefícios da meditação, e eu própria já tinha tido uma breve experiência, de apenas um fim-de-semana e numas condições mais ou menos precárias, nada de muito sério.
Desta vez foi diferente, e para melhor, muito melhor…
O “programa” decorre, durante o Inverno, de sexta a sexta, das 13H às 13H. No Verão é diferente… Mas deixemos de parte esses pormenores.
À chegada fomos recebidos amavelmente pela equipa de serviço. Perguntaram onde queríamos ficar instalados. Como a resolução de irmos para lá foi tomada em cima da hora, fomos um pouco à aventura, sem reserva, acreditando que, pelo facto de estarmos no Inverno, a afluência não ia ser muito grande. O nosso “feeling” estava certo. De facto o grupo dessa semana era pequeno, apenas umas 15 pessoas, mais ou menos.
Depois de dizermos que queríamos um quarto, e informarmos que nunca tínhamos estado lá anteriormente, acompanharam-nos numa pequena visita guiada para conhecermos as instalações. Ficámos a saber que também há bangalows, que, neste tempo, são pouco requisitados e, quem quiser, pode levar tendas de campismo. Seguiu-se uma pequena reunião de esclarecimento onde nos disseram que iríamos passar ali uma semana em completo isolamento do mundo exterior, sendo-nos sugerido, gentilmente, tirar o relógio, desligar o telemóvel, evitar o contacto com o exterior e respeitar o silêncio o mais possível. Até à hora do jantar, que é servido às 19 horas, pudemos passear pelos jardins e mata. O silêncio que ali se vive é quase palpável e transmite uma paz indescritível.
Mas não será silêncio a mais? – atrevi-me a perguntar.
- Nem pensar! Os dias que se seguiram, ainda que obedecendo a uma certa rotina, foram todos diferentes. Não é preciso ter experiência prévia de meditação, nem obedecer a qualquer critério de fé. Seja qual for a religião ou credo todos são tratados de igual modo. Aliás, nunca ninguém nos perguntou se éramos ou não crentes ou praticantes fosse do que fosse.
Como tivemos a sorte de apanhar um dia de sol brilhante e temperatura amena, pudemos passar pela experiência de praticar exercícios que se assemelham bastante ao ioga, que são realizados no exterior, de pés descalços sobre um aconchegante relvado. Alguns destes exercícios são executados em posição fixa, imóvel; outros em movimentos muito lentos, quase etéreos, ao som de música muito suave, relaxante.
Com esta e todas as outras práticas pretende-se pôr de lado as nossas rotinas, o “mesmismo” do quotidiano, que tantas vezes se torna fastidioso. A intenção final é encontrar a fonte de paz e alegria profunda que reside no nosso íntimo, lá bem no fundo do nosso ser. Como criaturas da Natureza, devemos cultivar uma comunhão absoluta com ela, o que se consegue através da meditação nos espaços verdejantes, em silêncio absoluto, “ouvindo” apenas o respirar do “verde” que nos rodeia.

Eu estava verdadeiramente impressionada com a calma e placidez que a minha amiga Marta ostentava, pelo menos aparentemente. Sabendo eu como ela é uma pessoa nervosa, ainda que se esforce por ocultar essa sua peculiaridade… sentia-me tentada a acreditar em milagres… Agora não tinha a menor dúvida de que o tal Retiro lhe fizera muito bem. Só me falta saber se os efeitos vão ser duradouros…

Parecendo adivinhar os meus pensamentos, Marta interrompeu-os, continuando:
- Sinto-me tão bem que tu nem podes imaginar! É como se tivesse encontrado um novo equilíbrio; sinto-me em sintonia com o que me rodeia, mais próxima dos outros e da Natureza… É como se estivesse a descobrir aspectos da vida que me eram desconhecidos, como se estivesse a vê-los pela primeira vez.
Sei que não consegui um estado de alma tão elevado como algumas das pessoas que lá estavam. Creio que, em parte, isso se deve à minha maneira de ser – nada fácil, como sabes – mas também porque foi a primeira vez, era tudo, praticamente, novo para mim… Sei também que me é muito difícil uma concentração absoluta, sou bastante dispersa, o meu pensamento não pára sossegado, anda sempre a divagar… (nesta altura esboçou um leve sorriso cúmplice) e só com grande esforço consigo concentrar-me numa só coisa. E essa concentração é um ponto essencial para a meditação.
- Pois, eu conheço-te há tempo suficiente para saber que tu andas sempre a mil… Por isso, se me dissesses que tencionavas ir para o tal Retiro… eu poria muitas reticências sobre os benefícios que irias colher. Mas agora tenho que admitir que estás diferente… ou, pelo menos, assim parece… - mais uma vez a interrompi, com o que Marta não se incomodou minimamente.
- Eu sei. E não és só tu, qualquer outra pessoa diria o mesmo; excepto uma, que me conhece melhor do que eu própria, me aconselhou a fazê-lo.
As duas sessões diárias de meditação, uma de manhã e outra à tarde, eram sempre precedidas de uma breve alocução que funcionava como que um ensinamento. A própria voz do “acompanhante” era baixa, suave como um calmante. Aprendíamos, primeiro, como relaxar o corpo e aquietar a mente. Quando a voz ia baixando de tom até se tornar num murmúrio, e apenas ouvíamos o silêncio… o nosso espírito já tinha subido para outro nível. Nos noventa minutos que se seguiam sentíamo-nos conectados com a magia da vida.
A meditação era seguida de um passeio pela mata, sempre que o tempo o permitia – o que aconteceu a maior parte dos dias, apesar de a temperatura não ser muito amena. Como tínhamos ido prevenidos com agasalhos, não houve problemas de frio.
Antecipadamente tínhamos sabido que era aconselhável levar roupa e sapatos práticos (fatos de treino e ténis); toalha e chinelos de banho; casaco e chapéu (ou boné) e um bloco de notas.
Estranhámos a indicação do bloco de notas que, afinal, veio a revelar-se muito útil. Nas pequenas reuniões que havia a seguir ao pequeno-almoço (servido às 9 horas) podíamos tomar os apontamentos que quiséssemos. Nós fizemos imensas anotações – em qualquer altura ou momento de dúvida, podemos sempres consultá-las e trocar impressões.
Levantávamo-nos às 7 horas, tratávamos da nossa higiene e quase sempre dávamos um pequeno passeio ou simplesmente olhávamos a paisagem ao longe, até à hora do pequeno-almoço.
As manhãs eram ocupadas com a meditação e o passeio pela mata, este também em silêncio (aliás, o silêncio predominava todo o tempo).
Às 13 horas era servido o almoço. A alimentação era ovo-lacto vegetariana, muito bem confeccionada, com produtos biológicos criados na quinta a que pertence o “Retiro”. Mas quem quisesse podia optar por comida vegetariana pura.
Como sabes não tenho problemas, e até gosto, da comida vegetariana, por isso a alimentação agradou-me.
As tardes eram passadas na meditação, de que já te falei, em passeios, observação da Natureza, e palestras de orientação, onde era permitido fazer perguntas e esclarecer dúvidas.
Às 19 horas serviam o jantar, que era sempre acompanhado de música ambiente relaxante, num tom bastante baixo.
Este prolongava-se sempre para além das 20 horas porque tudo se passava dentro duma grande calma e placidez, como se se tratasse de uma preparação para noites repousantes (pensámos que era mesmo essa a intenção).
Das 20,30 até às 22 podíamos assistir a uma espécie de danças em que se misturavam posições de ioga com passos orientais, ao som de música de flauta tocada ao vivo.
Quem não quisesse assistir podia entreter-se a ler ou escrever, ou como melhor entendesse. O recolher era às 22 horas.
- Com uma explicação tão pormenorizada e exaustiva, até me fizeste ter vontade de seguir o teu exemplo e fazer essa experiência – disse eu, num tom um pouco sonhador.
- E tu pensas que eu estive para aqui a falar, contando-te todos estes pormenores só para me ouvir a mim mesma? Não, minha querida, o meu relato não foi inocente… A minha intenção era exactamente essa – convencer-te a experimentar o que, a mim, me fez tão feliz.
Danadinha, a minha amiga Márcia!

segunda-feira, 18 de julho de 2016

VOCÊ PRECISA DE ESTÍMULO?

Tenho duas plantas de flores de cera. Conhecem? São lindíssimas.
Hoya carnosa – seu nome técnico – faz-nos lembrar que a sua folhagem é, de facto, carnuda, sem qualquer atractivo especial além daquele que possuem todas as plantas, para quem gosta de plantas.
A grande beleza reside nas flores.
É muito interessante acompanhar o ciclo da sua floração, desde que aparecem os pequeninos cachos de pecíolos com botões, 

até que se apresentam em todo o seu esplendor, lembrando guarda-chuvas floridos.


São flores que se mantêm viçosas durante bastantes dias; quando começa a aproximar-se o fim, formam, a partir do centro, umas gotas de um líquido transparente, semelhantes a lágrimas, que escorrem depois pelas pétalas e caiem para o chão.
Disse-me a minha empregada, Lina, que na terra dela lhes chamam “lágrimas de Nossa Senhora”. 

Eu tinha apenas uma destas plantas.
Trouxe-a para casa – comprei-a num horto – há já uns anos, não posso precisar quantos.
Pelo aspecto viçoso das folhas e pequena estatura – teria uns trinta cinco a quarenta centímetros de altura – via-se que era uma planta muito jovem.
Adaptou-se lindamente à sua nova casa, e a breve trecho erguia os ramos em direcção ao céu. Era altura de começar a guiá-la por um fio que lá coloquei para o efeito.
Prontamente iniciou o seu ciclo de floração, mimoseando-me com flores belíssimas.

Esta orgia de flores manteve-se por alguns anos.
A determinada altura comecei a notar a sua falta de flores. Pura e simplesmente tinha desistido de me brindar com a sua linda prole.
Continuava com as folhas viçosas, em nada denunciando a sua provecta idade, excepto na falta de procriação.
Continuei a tratá-la com o carinho de sempre, conformada com a sua aposentadoria.
Um belo dia a Lina trouxe-me uma planta de flor de cera que ela reproduzira a partir de outra que tinha em casa.
Colocámo-la ao lado da antiga, distanciada cerca de 40 centímetros. Mais ou menos  um mês depois a segunda planta, perfeitamente adaptada ao novo lar, começou a florir.
Surpreendi esta conversa da Lina com as plantas:
- "Vês? Não quiseste dar mais flores e a tua mamã arranjou outra para o teu lugar."

Deduzi que ela falava com a planta mais velha.
Não denunciei a minha presença, mas fiquei a saber que ela também falava com as plantas. Afinal não era só eu…
Senti-me um pouco mais “normal”.
Tenho por hábito todas as manhãs ir à varanda visitar as minhas plantas, regá-las se têm falta de água, retirar alguma folha seca e, confesso, também converso com elas. Até lhes acaricio levemente as folhas, enquanto converso.
Alguns dias passados a Lina foi à varanda e chamou-me, toda alvoroçada:
- "Senhora! vem cá ver uma coisa."
Lá fui, e vi que a velha planta de cera estava em flor. Fiquei admirada, pois estava convencida que o seu período de floração havia terminado irremediavelmente. Senti-me muito feliz. A minha velha plantinha, afinal, ainda conseguia brindar-me com as suas lindas flores.
Acariciei-a ao de leve e agradeci-lhe a alegria que acabava de me proporcionar.
Do alto da sua sabedoria singela, a Lina falou:
- "Sabe, senhora, no outro dia eu estive a envergonhá-la; disse-lhe que a senhora agora ia gostar mais da nova do que dela. De certeza ela entendeu, e com medo que a senhora a deitasse fora resolveu dar flores outra vez."
Será que foi isso mesmo que aconteceu?
As pessoas mais simples, por vezes, têm percepções que escapam ao mais comum dos mortais.
Será que, tal como acontece com algumas pessoas, também as plantas precisam de estímulo?

Há pessoas que, face a contrariedades que surgem, entregam-se ao desânimo e levam uma vida tristonha, sem objectivos…
Todos sabemos que, com algumas pessoas, isto é assim mesmo, precisam ser estimuladas para mostrarem do que são capazes.
Precisam ser incentivadas, ‘espicaçadas’, “metidas em brios”, para reagirem e voltarem a ter fé nas suas capacidades.
Acredito na necessidade objectiva do estímulo. Ele é, muitas vezes, a mola impulsionadora fundamental para ultrapassar a inércia.
Um exercício simples, que pode ajudar muito, é tentar fazer o que tivermos medo de fazer. Vencer essa resistência torna-nos mais fortes, conduz-nos à vitória.
É necessário ter um ideal na vida, um sonho, e para realizá-lo é preciso conservar os olhos fixos nele, lutar sempre pelo que se deseja, e acreditar que isso é possível - só quem luta merece recompensa, e dos fracos não reza a História.
A Esperança prova que há um sentido oculto na Existência. A Vida é demasiado importante para que não tentemos enfrentar os seus obstáculos, pois eles não têm metade da força que aparentam ter.
Deixemos que a nossa luz interior nos conduza, pois todos temos uma boa estrela a guiar-nos e a ajudar-nos nas adversidades.

PS – A Amiga Nina Filipe gentilmente chamou-me a atenção para um pormenor que me falhou: o aroma da flor de cera.
De facto esqueci-me de referir essa particularidade.
A flor de cera tem um perfume diferente das outras flores, muito forte, semelhante, talvez, ao perfume de jasmim…, que se faz sentir sobretudo de noite.
O meu quarto de dormir comunica directamente, por uma porta envidraçada, com a varanda onde tenho as flores de cera. Mantenho essa porta aberta, mesmo durante a noite, principalmente no Verão.
Quando a flor de cera está em flor, à noite tenho que fechar a porta - o perfume da flor de cera é de tal modo intenso que me custa respirar.
Um “Obrigada!” à Amiga Nina Filipe pela chamada de atenção.