ANITA – EPISÓDIO XLVII
ÚLTIMO EPISÓDIO
(Ficção baseada em factos reais)
…
- Já estou pronta para passar cá a noite. Agora podes ir tu tomar banho e fazer o tal telefonema. Eu faço companhia à Mãe. Humberto depositou um beijo na testa de Anita, e com um “até já”, retirou-se.
Chegado a casa imediatamente fez a ligação para o escritório, na Inglaterra, onde o irmão o aguardava, ansioso e preocupado.
Lançou um grito de dor quando Humberto o pôs a par da situação:
- Não pode ser! Tem que haver algum engano. A minha Mãe não pode estar correndo perigo de vida! Por favor, Humberto, diz-me que isso não é verdade.
- Bem que eu gostaria de te dizer que era uma brincadeira de mau gosto! Mas infelizmente é verdade. A Eduarda ainda está com esperança na operação, que está programada para amanhã. Mas, a mim, o médico disse-me claramente que só um milagre poderá salvar Anita. A ti, como homem, acho que não devo esconder nada. Mas aviso-te que vais precisar de muita coragem. Vem o mais rapidamente possível, para poderes vê-la ainda com vida – acrescentou Humberto.
- Vou só passar por casa, agarrar uma maleta e sigo para o aeroporto. E de lá não saio a não ser para entrar no avião. E Tiago desligou o telefone.
No aeroporto tentou todas as companhias, com ou sem escala, pediu, implorou, suplicou, até que conseguiu lugar num avião que iria sair de Londres por volta das 23 horas. Cerca de uma hora e meia depois aterrava em Lisboa.
Com uma leve pancada na porta, e sem esperar resposta, Tiago entrou no quarto da Mãe, passava já das duas da manhã.
Deparou-se com um quadro que, noutras circunstâncias, lhe pareceria enternecedor: a Mãe recostada em almofadas, na cama, Eduarda, vestida, estendida no divã, e Humberto reclinado no sofá. Todos pareciam dormir tranquilamente.
Pé ante pé dirigiu-se à cama de Anita. Esta, pressentindo-o, abriu os olhos. Um sorriso iluminou-lhe o rosto. Sem uma palavra estendeu-lhe os braços, onde Tiago se acolheu.
Reprimindo as lágrimas, murmurou-lhe ao ouvido:
- Mãe, Mãezinha querida… Amo-te tanto, minha Mãe!
Anita apertou-o nos braços com a força que ainda lhe restava. Em seguida chegou-se para um lado da cama, convidando o filho, com um gesto, a deitar-se a seu lado. Passando-lhe um braço por baixo do pescoço, aconchegou-o como fazia quando ele era pequeno.
Tiago deixou-se embalar por aquela sensação tão doce, que o fazia sentir-se uma criança nos braços da Mãe.
Em breve adormeceram ambos, abraçados.
Às sete da manhã a enfermeira dirigiu-se ao quarto de Anita a fim de colocar-lhe o soro, primeira medida preparativa para a cirurgia que iria decorrer dentro de poucas horas.
Abriu a porta sem ruído, e em silêncio encaminhou-se para a cama.
Parou, gelada. Anita encontrava-se com a cabeça ligeiramente descaída para o lado. Pálida, duma palidez mortal, notava-se-lhe no pescoço uma mancha arroxeada, que partia, provavelmente, da nuca. Ao seu lado, com a cabeça sobre o seu braço, Tiago dormia tranquilamente.
Num gesto profissional a enfermeira tomou o pulso de Anita, confirmando o que já sabia: Anita tinha falecido. Pela temperatura do corpo ainda morno, a morte não deveria ter ocorrido há muito tempo.
Mais tarde o médico escreveria na certidão de óbito: causa da morte – rompimento de aneurisma cerebral.
Tratados todos os trâmites legais, o funeral realizou-se no dia seguinte.
Para além do seu grupo de amigas e de Arnaldo, compareceram outros colegas do colégio, muitos dos seus alunos e vários conhecidos e amigos de Vicente.
Tiago e Eduarda, desfigurados pela dor, e Humberto mal conseguindo manter-se de pé, seguiram o caixão de perto.
O sacerdote que acompanhara o féretro procedeu às exéquias fúnebres.
Tudo estava consumado.
Os três “irmãos” dirigiam-se juntos para a porta do cemitério, quando Eduarda estacou, de repente, olhando em frente, em direcção a um mausoléu. Os dois homens pararam também, seguindo-lhe o olhar.
Eduarda murmurou:
- Aquele homem…acolá…não estão a ver?
- Eu não estou a ver ninguém – mentiu Humberto.
- Eu podia jurar que era o meu padrinho, o padre João… – insistiu Eduarda
- Confusão tua, minha querida. Estás muito cansada, é o que é… – respondeu Humberto.
- Não creio que tenha feito confusão. Se não era ele…voltou a insistir Eduarda.
- Fizeste confusão, sim, maninha. Estás a esquecer-te que o padre João está numa Missão em África?
ÚLTIMO EPISÓDIO
(Ficção baseada em factos reais)
…
- Já estou pronta para passar cá a noite. Agora podes ir tu tomar banho e fazer o tal telefonema. Eu faço companhia à Mãe. Humberto depositou um beijo na testa de Anita, e com um “até já”, retirou-se.
FIM DO EPISÓDIO XLVI
EPISÓDIO XLVIIChegado a casa imediatamente fez a ligação para o escritório, na Inglaterra, onde o irmão o aguardava, ansioso e preocupado.
Lançou um grito de dor quando Humberto o pôs a par da situação:
- Não pode ser! Tem que haver algum engano. A minha Mãe não pode estar correndo perigo de vida! Por favor, Humberto, diz-me que isso não é verdade.
- Bem que eu gostaria de te dizer que era uma brincadeira de mau gosto! Mas infelizmente é verdade. A Eduarda ainda está com esperança na operação, que está programada para amanhã. Mas, a mim, o médico disse-me claramente que só um milagre poderá salvar Anita. A ti, como homem, acho que não devo esconder nada. Mas aviso-te que vais precisar de muita coragem. Vem o mais rapidamente possível, para poderes vê-la ainda com vida – acrescentou Humberto.
- Vou só passar por casa, agarrar uma maleta e sigo para o aeroporto. E de lá não saio a não ser para entrar no avião. E Tiago desligou o telefone.
No aeroporto tentou todas as companhias, com ou sem escala, pediu, implorou, suplicou, até que conseguiu lugar num avião que iria sair de Londres por volta das 23 horas. Cerca de uma hora e meia depois aterrava em Lisboa.
Com uma leve pancada na porta, e sem esperar resposta, Tiago entrou no quarto da Mãe, passava já das duas da manhã.
Deparou-se com um quadro que, noutras circunstâncias, lhe pareceria enternecedor: a Mãe recostada em almofadas, na cama, Eduarda, vestida, estendida no divã, e Humberto reclinado no sofá. Todos pareciam dormir tranquilamente.
Pé ante pé dirigiu-se à cama de Anita. Esta, pressentindo-o, abriu os olhos. Um sorriso iluminou-lhe o rosto. Sem uma palavra estendeu-lhe os braços, onde Tiago se acolheu.
Reprimindo as lágrimas, murmurou-lhe ao ouvido:
- Mãe, Mãezinha querida… Amo-te tanto, minha Mãe!
Anita apertou-o nos braços com a força que ainda lhe restava. Em seguida chegou-se para um lado da cama, convidando o filho, com um gesto, a deitar-se a seu lado. Passando-lhe um braço por baixo do pescoço, aconchegou-o como fazia quando ele era pequeno.
Tiago deixou-se embalar por aquela sensação tão doce, que o fazia sentir-se uma criança nos braços da Mãe.
Em breve adormeceram ambos, abraçados.
Às sete da manhã a enfermeira dirigiu-se ao quarto de Anita a fim de colocar-lhe o soro, primeira medida preparativa para a cirurgia que iria decorrer dentro de poucas horas.Parou, gelada. Anita encontrava-se com a cabeça ligeiramente descaída para o lado. Pálida, duma palidez mortal, notava-se-lhe no pescoço uma mancha arroxeada, que partia, provavelmente, da nuca. Ao seu lado, com a cabeça sobre o seu braço, Tiago dormia tranquilamente.
Num gesto profissional a enfermeira tomou o pulso de Anita, confirmando o que já sabia: Anita tinha falecido. Pela temperatura do corpo ainda morno, a morte não deveria ter ocorrido há muito tempo.
Mais tarde o médico escreveria na certidão de óbito: causa da morte – rompimento de aneurisma cerebral.
Tratados todos os trâmites legais, o funeral realizou-se no dia seguinte.
Para além do seu grupo de amigas e de Arnaldo, compareceram outros colegas do colégio, muitos dos seus alunos e vários conhecidos e amigos de Vicente.
Tiago e Eduarda, desfigurados pela dor, e Humberto mal conseguindo manter-se de pé, seguiram o caixão de perto.
O sacerdote que acompanhara o féretro procedeu às exéquias fúnebres.
Tudo estava consumado.
Os três “irmãos” dirigiam-se juntos para a porta do cemitério, quando Eduarda estacou, de repente, olhando em frente, em direcção a um mausoléu. Os dois homens pararam também, seguindo-lhe o olhar.
Eduarda murmurou:
- Aquele homem…acolá…não estão a ver?
- Eu não estou a ver ninguém – mentiu Humberto.
- Eu podia jurar que era o meu padrinho, o padre João… – insistiu Eduarda
- Confusão tua, minha querida. Estás muito cansada, é o que é… – respondeu Humberto.
- Não creio que tenha feito confusão. Se não era ele…voltou a insistir Eduarda.
- Fizeste confusão, sim, maninha. Estás a esquecer-te que o padre João está numa Missão em África?














