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domingo, 14 de março de 2010

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE (2/01)


DESEMBARQUE INESQUECÍVEL

Naquele tempo, princípio dos anos 60 do século passado, não havia ali porto de mar. Do navio os passageiros eram transportados, em lanchas, para a ilha, e desta para o continente, em barcos que faziam a travessia, transportando pessoas e bagagens.
O marido tinha formalidades a cumprir no Comando, onde deveria apresentar-se.

Por isso eu esperei, na praça, com os dois filhos pequenos: o mais velho ainda não completara os três anos e a mais nova tinha apenas um ano e uns dias.
De súbito, sem qualquer aviso prévio, começou a chover. O céu havia-se toldado, ficando completamente encoberto. E de seguida surgiu a chuva, que caía em bátegas fortes, formando verdadeiros rios que corriam pelas pedras mal alinhadas das ruas.
Sem local à vista onde pudesse refugiar-me, segurando os filhos pela mão, ‘enfiei-me’ rapidamente pela primeira porta que encontrei aberta. Tratava-se do armazém onde eram guardadas as bagagens descarregadas dos barcos, que ali aguardavam envio para o seu destino.
Era um espaço enorme, todo amplo, onde fardos, caixotes e outros tipos de embalagens eram empilhados pelos indígenas que as traziam do cais, num constante vaivém, de dentro para fora e de fora para dentro.
Se lá fora chovia a cântaros cá dentro o calor era infernal. Sem lugar para me sentar, encostei-me a uns caixotes para descansar um pouco as pernas cansadas de tantas horas em pé. As crianças agitavam-se, inquietas, queixavam-se com fome e com sede.
Procurar um café, se é que o havia, com aquela chuva, estava fora de questão. Vasculhei na minha bolsa e encontrei algumas bolachas, meio partidas, que sempre transportava comigo para uma emergência. Distribuí-as pelos filhos; quanto à sede é que nada podia fazer, pois naquele tempo não havia garrafas de água como hoje se encontram em qualquer estabelecimento. Fiz um esforço para distrai-los. Eu própria sentia uma sede enorme, mas não o podia confessar.
E o marido que não aparecia! As horas passavam, uma, duas, três, e ele continuava ausente. Apareceu, por fim, já escurecia lá fora. Entretanto parara de chover.
A ligação da Ilha ao Continente era assegurada por lanchas, com horário regular. A hora da última lancha já passara, pelo que não havia transporte. Na Ilha não havia hotel onde se pudesse passar a noite.
Começávamos a desesperar sem saber como resolver aquele problema quando apareceu um homem que se tinha apercebido do que se passava, e nos disse que ele ia alugar uma lancha para o transportar para o Continente; “se quiserem, podemos ‘rachar’ a despesa e vêm comigo”.
Foi como se um milagre tivesse acontecido. Agradecemos calorosamente, arranjamos um carregador para levar as bagagens para a lancha, e fizemos a travessia.
Chegados ao continente dirigimo-nos ao hotel onde queriamos pernoitar, para no dia seguinte continuarmos viagem de comboio para o nosso destino.
O hotel estava lotado. Não havia um único quarto vago. Entramos novamente em desespero.
O marido insiste: “que lhe arranjem um cantinho qualquer onde possa pernoitar com a mulher e os filhos, um sofá serve, qualquer coisa onde possam sentar-se e descansar um pouco, não podem ficar na rua com as crianças…”
O recepcionista do hotel de repente teve uma ideia: o dono do hotel tinha ido para a ilha e ainda não regressara. Às vezes ele dormia na Ilha, numa casa de praia que tinha lá…
Telefonou para o patrão que o informou que, nessa noite, ficaria na Ilha, e que “podia dispensar o seu quarto ao senhor capitão e família”.
Um novo milagre acontecera!
Acabamos por ficar instalados no melhor quarto do hotel e passamos uma noite finalmente tranquila.
No dia seguinte de manhã dirigimo-nos à estação do caminho-de-ferro.
Ao chegar ao cais da estação tive uma visão assombrosa, que quase me pregou um susto: as mulheres autóctones tinham o rosto negro e o pescoço cobertos duma pasta branca.

Mais tarde vim a saber tratar-se de uma máscara de beleza, feita com farinha misturada com outros ingredientes que só elas conhecem.

Metemo-nos no comboio que nos levaria para mais uma etapa antes do nosso destino final.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE (1/1)

Há cerca de dois anos (02.03.08) publiquei o post que hoje vos proponho recordar, e ao qual apenas retoquei o visual… (novas imagens).
Como tenciono retomar o tema “SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE”, entretanto abandonado, decidi começar pelo princípio, partilhando convosco este apontamento que marca o início das minhas passagens por África.


O EQUÍVOCO

Jovem, casada há pouco menos de um ano,

surge a notícia. O marido vai embarcar dentro de um mês !
Embora já esperada, nem por isso a má nova causa menos dano.
E surgem as lágrimas, das saudades que estão para vir. Com uma gravidez de sete meses, a sensibilidade à flor da pele, sinto-me desesperar. Os dias passam a correr.
E, de repente, chega a hora da separação.
Aguento firme. Interiormente, consolo-me com a ideia de que, em breve, farei o mesmo percurso.
Ignoro todos os conselhos de familiares e até do médico.
- Quem, em seu perfeito juízo, arrisca fazer uma viagem destas, num tão adiantado estado de gravidez ???
- Quem se lembra de ir para uma terra estranha, longe de todos os parentes, onde não há as mínimas condições para dar à luz uma criança?
Obstinada, respondo – eu vou !
E pensava – quero que o meu filho nasça junto do pai.
E fui.
À chegada tudo é estranho. Uma cidade não muito grande, cheia de refugiados do país vizinho, que recentemente declarara a independência; gente diferente da que estava habituada a ver…
Tudo é ultrapassado. A alegria de me reunir ao marido sobrepõe-se a todas as dificuldades iniciais, incluindo a do alojamento.
Começamos pelo apart-hotel, dispendioso, mas a única solução.
Decorrido um mês, instalados num apartamento de um prédio ainda não totalmente construído, com os apetrechos indispensáveis - e possíveis – estamos preparados para viver os próximos dois anos.
A gravidez chegara ao seu termo. O bebé começa a dar sinais de que é chegada a hora de aparecer. Contudo, a espera vai ser longa.
Depois de uma noite sem poder descansar, logo pela manhã é chamada a parteira, que declara, peremptória – temos muitas horas pela frente !
Informado do que se passava, o médico, pessoa maravilhosa e amiga, apareceu. Depois de dizer - “ minha filha, o primeiro filho é sempre demorado; está tudo bem, mas vai ter que esperar com calma” – avisou a parteira e uma amiga presente de que gostaria de assistir ao parto.
Entre gemidos e lamentos, passou-se o dia e mais uma longa noite.
Logo pela manhã as coisas precipitaram-se, e o bebé apressou-se a ver a luz do dia.
A parteira atarefada, a amiga dando apoio, a jovem mãe esforçando-se, já sem forças, a criança aparece. Linda ! Um menino !

Um grande abraço da amiga, que chora de alegria!
É então que a parteira se lembra do médico, e do pedido que ele tinha feito para o chamarem quando chegasse a hora. Pede à amiga que vá à sala avisar o marido, que espera em ânsias, para chamar o médico.
Este, ignorando a recomendação que o médico havia feito, e vendo a amiga aparecer lavada em lágrimas, que eram de pura emoção, apanhou um tremendo susto. A custo balbuciou:
– Há algum problema ?
- Não, está tudo bem, já cá tem um menino. Mas vá depressa chamar o médico, por favor.
Só ouviu – chamar o médico. À velocidade que lhe permitia o coração disparado pela ansiedade, corre em direcção ao hospital. Regressa com o médico, que pelo caminho lhe conta o pedido que fizera à parteira.

Em casa, depois de ter visto o seu filho – o mais bonito do mundo ! – e desfeitas todas as dúvidas, pôde, finalmente, sossegar.
Desabou, literalmente, sobre uma cadeira, e deixou que as lágrimas de alegria lhe corressem livremente pelo rosto.

domingo, 23 de novembro de 2008

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE – O FRANCISCO

Após uma viagem num “mar de azeite”, como dizem os marinheiros, aproximamo-nos do nosso destino.

Ao longe, apenas se vislumbravam umas sombras esfumadas no horizonte.
Agora, que estamos relativamente perto, a paisagem torna-se nítida – montes escalvados, de cor avermelhada, sem vestígios de vegetação, uma verdadeira paisagem lunar.



Temos a sensação de que estamos a chegar à lua!

Depois das manobras habituais, que nos parecem infindáveis, finalmente o barco encosta ao cais.
Com a bagagem de camarote há muito preparada, as crianças controladas, apressamo-nos a descer o portaló.

O cais fervilha de gente, na sua maioria naturais da terra, táxis buzinando, um burburinho tremendo.
Finalmente pomos pé em terra.

Após beijos e abraços efusivos, - que as saudades já eram muitas – aguardamos o carro que nos transportará para casa.

Ao meu lado, um autóctone, de pé, vê de repente um carro passar muito perto, chegando mesmo a roçar-lhe o corpo. Recuando de um salto, grita, assustado:
- Ai a nha pé!

Este é o meu primeiro contacto com a linguagem local.

O “nha”, que significa meu ou minha - algumas vezes precedido de “a” para dar mais ênfase (quer se trate de feminino ou masculino – nha pai, nha mãe) - irá fazer parte do meu dia-a-dia durante os próximos dois anos.
Vamos então p’ra nha casa!

Situada numa elevação, acompanhada à esquerda e à direita por outras casas igualmente independentes, tem na parte da frente um arremedo de jardim, com uma ou outra planta enfezada, que irei, teimosamente, tentar recuperar.

Luta inglória! O ar é extremamente seco, a falta de água enorme, e, mesmo regando-as todos os dias, a terra absorve completamente a água muito para além se onde as raízes alcançam.
O meu jardim nunca deixou de ter este aspecto desértico.

Em frente, do lado de lá da estrada, há um vasto espaço coberto de terra, que termina num declive em direcção ao mar, que se avista da porta de casa, à qual se acede subindo três degraus de pedra.

Algum tempo depois de aqui estar irei assistir a verdadeiras batalhas campais travadas entre grupos de cães, provavelmente inimigos.
Sem qualquer aviso prévio, uns chegam da direita, outros aproximam-se pela esquerda, acabando por juntar-se no centro do terreno.
Entre ladridos e rosnares, engalfinham-se ferozmente, levantando incríveis nuvens de poeira vermelha que chega a escurecer o céu.
Depois de alguns minutos de luta abandonam o campo de batalha, retrocedendo cada grupo pelo mesmo caminho por onde chegara.


Nunca consegui descobrir por que razão, de tempos a tempos, se envolviam em contenda.
Certo é que, chegará o dia em que também eu regressarei ao local de partida, sem que eles tenham resolvido os seus diferendos.

Mas, por agora, há que nos instalarmos na que vai ser a nossa moradia durante os próximos dois anos.
Não se trata de nenhum palácio, mas, depois de arrumada a nosso gosto, ornamentada com objectos que nos acompanharam, torna-se bastante confortável.

Aqui são as mulheres que trabalham nas casas dos “continentais”.
Parecendo fazer parte da mobília, já se encontrava na casa uma cozinheira, uma mulher simpática, que, vim a descobrir, tinha um coração do tamanho do mundo.
Bondosa, extremamente carinhosa com as crianças, gostava muito de animais. Em pouco tempo me trouxe para casa um cachorro, ainda pequeno.
Quando regressei levou-o para sua casa.

Nas traseiras havia um pátio murado, com umas casotas onde se podiam criar animais – galinhas, patos, talvez coelhos.
Luísa, a cozinheira, pediu-me para criar galinhas. Algum tempo depois havia uma quantidade de pintainhos, parecendo novelos de algodão, passeando pelo pátio, acompanhados da mãe galinha.

Crescem depressa, estes animaizinhos. Duas ou três semanas depois já não havia novelos de algodão, mas uns frangotes de pernas exageradamente altas para o corpo, onde despontavam penas de cores variadas.
Um dia a Luísa apareceu-me com um frangote nas mãos, dizendo:
- Senhora, este está doente, vai morrer.
- Mas que doença é que ele tem? – perguntei.
- Não sei como se chama a doença, mas é devida ao frio; quando eles a apanham não se aguentam em pé.
E, dizendo isto, colocou o animal no chão. De imediato ele dobrou as pernas pelo meio, quase como se ficasse sentado com as pernas para a frente. Não conseguia manter-se de pé.
Agarrei-o, e senti-o frio.
- Coitadinho! Mas ele está mesmo gelado!

Eu costumava usar em casa umas saias com uns bolsos grandes, que serviam para ir guardando pequenas peças dos brinquedos que as crianças deixavam caídas aqui e ali.
Meti o franguinho dentro do bolso, encostado ao meu corpo. Algum tempo depois já não estava tão frio.
À noite meti-o dentro duma caixa pequena, aconchegado num pano quente.

Apliquei-lhe este “tratamento” uma semana, talvez um pouco mais: de dia no meu bolso, à noite na caixa.

E o milagre (do calor, penso eu) aconteceu: o franguinho recuperou a saúde e tinha as pernas mais fortes de todos.

Entretanto tinha-o “baptizado” de Francisco.
Acreditem, se quiserem. Depois que saiu do meu bolso, o Francisco passou a seguir os meus passos por toda a casa, e à noite encaminhava-se prontamente para a sua cama.

Fez-se um galo lindo, o Francisco! Com penas lustrosas, que pareciam envernizadas, um ar altaneiro, era mesmo o rei da capoeira!

Quando regressei ofereci-o à Luísa.

Este é mais um dos apontamentos que aqui apresentaremos, subordinados ao mesmo tema. Não seguem qualquer ordem cronológica. Não estarão situados no tempo, nem no espaço. O tempo é relativo. E as memórias afluem sem hora marcada.

domingo, 25 de maio de 2008

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE – FALAR PORTUGUÊS


(No meu jardim)


FALAR PORTUGUÊS - Nós é que os ensinámos

Uns dias melhor, outros pior, o tempo vai-se passando, nesta cidade que poderia ser o paraíso.
Há até um simpático impala que diversas vezes vem visitar o meu jardim. Caminha calmamente. Através da janela aberta olha para dentro da sala. Em seguida examina o jardim. Terminada a inspecção retira-se tão tranquilamente como chegou.
Contudo, temos sempre presente o que se passa lá para o norte, na chamada «zona de intervenção».
Mas, entre um e outro sobressalto, a vida continua, e todos temos deveres a cumprir.
Lá mais para o sul há empregadas domésticas, mulheres que vão trabalhar às casas dos “brancos”
Aqui, não. São homens que fazem esses serviços. A troco de um salário estabelecido e comida, às vezes também dormida, executam as tarefas domésticas que normalmente são atribuídas às mulheres: cozinham, lavam e engomam a roupa, limpam a casa.
São homens adultos, muitas vezes casados, ou jovens que rondam os vinte anos.
Há casos em que se tem um adulto para cozinhar e tratar das roupas, e um mais jovem para limpar a casa.
Há ainda uns garotos, (normalmente rapazes, embora por vezes apareçam meninas), que muitas vezes nos batem à porta perguntando:
Senhora precisa miúdo?
São meninos pobres que não têm o que comer em suas casas, e bem cedo começam a lutar pela subsistência.
Dá-se-lhes comida, dormida e roupas (geralmente só têm a que trazem no corpo, e em muito mau estado), e, em troca, eles brincam com as nossas crianças, vigiando para que nada de mal lhes aconteça. São crianças sombras de crianças. Só se vão deitar depois que os meninos vão para a cama, o que, aqui, acontece bastante cedo.
Todos falam português. Os “miúdos”, por vezes não sabem muito, mas é o bastante para se fazerem entender. E como a linguagem das crianças é universal, conseguem estabelecer longas conversas com as nossas crianças, nas suas brincadeiras.
Na minha casa, para além do miúdo, há um cozinheiro e um rapaz, o Albino, que trata da limpeza da casa.
Não sei bem a idade de um e de outro. Não é nada fácil calcular. (Tratando-se de pessoas bem avançadas na idade, já de carapinha branca, torna-se ainda mais difícil. E se perguntamos a uma dessas pessoas quantos anos tem, a resposta é sempre:
Não sei, senhora. Tenho muitos!)
O Albino aparenta dezoito a vinte anos. É um rapaz já com prática de trabalho, que me foi recomendado por uma amiga.
Cumpridor dos seus deveres, pouco falador, vai desempenhando bem as suas funções.
Embora fale o indispensável de português para se fazer entender, por vezes não compreende muito bem o que se lhe diz.
Há dias estávamos a almoçar e eu pedi-lhe que fosse buscar água ao frigorífico, pois tinha-se esquecido de a pôr mesa. Dirigiu-se à cozinha, ouvi-o abrir a porta do frigorífico, mas não aparecia com a água. Depois de esperar uns minutos, chamei-o. Apresentou-se sem nada nas mãos. Perguntei-lhe:
Então???
Respondeu-me: não encontro, senhora.
Não encontras o quê???
Não sabe, senhora…
Calculo que fosse bastante difícil encontrar uma coisa que ele próprio não sabia o que era !...

Cenas como esta acontecem de vez em quando. Nós ensinámos-lhes a nossa língua, mas não todas as palavras, com certeza. No entanto há certos vocábulos que toda a gente aprende muito facilmente.
Todos os dias, a meio da manhã, o Albino me pede para ir tratar das suas necessidades fisiológicas.
Senhora, pode ir no mato?
Podes sim, vai lá no mato.
E ele vai. E volta.
Um dia o Albino “foi no mato” mas, contra o costume, demorou-se muito tempo. Eu já pensava: encontrou algum conhecido e ficou à conversa. Quando finalmente apareceu, achei que deveria fazer-lhe um reparo:
Meu Deus, Albino, demoraste tanto tempo para ir no mato!
Resposta pronta:
Senhora, não pode ir ca**r aqui no pé de casa !
Engoli em seco, e dei a conversa por terminada.

Quando o Albino veio para minha casa eu não sabia praticamente nada a seu respeito, a não ser que era de confiança. E tanto me bastava. Cerca de um mês depois de estar ao meu serviço, um dia resolvi meter conversa com ele, e perguntei-lhe:
Albino, tu és casado?
Não, senhora, ainda sou menino.
E porque não te casas?
Porque as mulheres da cidade são todas p****.

Também desta vez engoli em seco, e encerrei o assunto.
E jurei a mim mesma não voltar a fazer perguntas indiscretas!

Eles apenas repetem as palavras que lhes ensinámos.

Este é mais um dos apontamentos que temos vindo e continuaremos a apresentar, subordinados ao mesmo tema – África
Não seguem qualquer ordem cronológica. Não estarão situados no tempo nem no espaço.
O tempo é relativo. E as memórias afluem sem hora marcada.

domingo, 30 de março de 2008

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE- ENQUANTO OS DIAS PASSAM



ENQUANTO OS DIAS PASSAM…

É bom viver nesta cidade, a terceira deste vasto território que, dentro de duas décadas, será um país independente. Ainda ninguém sabe, mas vai acontecer num futuro não muito distante...
Não fora o espectro da guerra que lavra lá para o Norte, e teríamos, aqui, uma vida perfeita.
A cidade é bonita. Na zona central existem largas avenidas, de sentido único, com separadores ao meio, ajardinados. Há lojas bem fornecidas, onde se encontra tudo o que é necessário para o dia a dia ; um grande mercado, com frutas variadas e legumes frescos, talho e peixaria; livrarias onde se podem encontrar os últimos livros publicados.
Esta vida fácil nem sempre é calma. De vez em quando –com demasiada frequência – recebemos notícias que nos abalam muito:
- A do soldado que, tendo terminado a sua comissão, regressava do mato a caminho desta cidade, onde faria escala para seguir para a capital, e daí para a sua terra natal. Em pleno voo, o pequeno avião em que vinha, sofreu uma avaria, despenhou-se, e aqui apenas chegaram os restos mortais, dentro de um caixão.
- Ou a notícia do acidente que sofreu o segundo comandante da base aérea. Acompanhou, voluntariamente, uma missão, onde acabou por perder a vida.
Era uma pessoa muito estimada por todos, incluindo civis, entre os quais contava muitos amigos.
A cidade inteira, em peso, acompanhou-o ao cemitério, para um último e forte abraço.
O corpo foi aí depositado, e mais tarde trasladado para o local do seu descanso eterno.
Foi uma cerimónia muito comovente. O capelão militar proferiu a alocução apropriada, terminando com um comovido “Até sempre, Tó”.
São apenas dois exemplos dos muitos a que vimos assistindo.

Foi este clima que me levou a decidir aceitar a proposta para produzir um programa, na rádio onde trabalho, dedicado aos soldados em combate.
É um trabalho fascinante. Como, diariamente, faço locução cinco horas, repartidas ao longo do dia, aproveito os tempos livres para preparar o programa que é transmitido uma vez por semana.
Começa com a voz de um locutor dizendo :
“O Emissor Regional do Norte do Rádio Clube de Moçambique apresenta (uma ligeira pausa)
Mensagem ao soldado ! –um programa dedicado aos militares em serviço no norte de Moçambique”
A frase "Mensagem ao Soldado" é proferida por um conhecido locutor do Rádio Clube Português, que aqui se encontra (mobilizado).
É a minha deixa. Com voz que tento seja suave, digo:


“É para ti, (ligeira pausa) soldado, (ligeira pausa) que as minhas palavras e o meu pensamento vão, neste momento. (pausa)Sim, para ti, (ligeira pausa) exactamente para ti .(pausa)
Não sei se és cabo, furriel, ou oficial. Sei apenas que és (ligeira pausa) UM SOLDADO QUE DEFENDE A PÁTRIA (destacado). E é nessa condição que hoje te dirijo a palavra.


O começo é sempre igual. Segue-se conversa, respondendo às dezenas, se não centenas de cartas que recebo semanalmente.


Sei que o programa é muito bem acolhido, e à hora em que é transmitido, todos que podem ligam os rádios para ouvir. É o elo que os liga à vida normal. Sei que, ao ouvir-me, eles sentem como se eu falasse para cada um deles em particular. Ao responder às suas cartas é isso mesmo que faço.


O capelão, que regressou há pouco, confidenciou-me que este programa é um incentivo e até lenitivo para eles.


É gratificante saber que estamos ajudando alguém a ultrapassar momentos tão difíceis como estes.


As cartas que escrevem são enternecedoras. Transparecem as saudades imensas que sentem da família, da vida que deixaram tão longe, ao mesmo tempo que mostram confiança na vitória e no regresso tão desejado.


Termino o programa com a sensação de “dever cumprido”.


Regresso a casa para uma noite de sono.


Amanhã, às 7 horas, cá estarei novamente.



Este é mais um dos apontamentos que aqui apresentaremos, subordinados ao mesmo tema.


Não seguem qualquer ordem cronológica. Não estarão situados no tempo, nem no espaço.


O tempo é relativo. E as memórias afluem sem hora marcada.

domingo, 2 de março de 2008

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE - O EQUÍVOCO




O EQUÍVOCO

Jovem, casada há pouco menos de um ano, surge a notícia. O marido vai embarcar dentro de um mês !
Embora já esperada, nem por isso a má nova causa menos dano.
E surgem as lágrimas, das saudades que estão para vir. Com uma gravidez de sete meses, a sensibilidade à flor da pele, sinto-me desesperar. Os dias passam a correr.
E, de repente, chega a hora da separação.
Aguento firme. Interiormente, consolo-me com a ideia de que, em breve, farei o mesmo percurso.
Ignoro todos os conselhos de familiares e até do médico.
- Quem, em seu perfeito juízo, arrisca fazer uma viagem destas, num tão adiantado estado de gravidez ???
- Quem se lembra de ir para uma terra estranha, longe de todos os parentes, onde não há as mínimas condições para dar à luz uma criança?
Obstinada, respondo – eu vou !
E pensava – quero que o meu filho nasça junto do pai.
E fui.
À chegada tudo é estranho. Uma cidade não muito grande, cheia de refugiados do país vizinho, que recentemente declarara a independência; gente diferente da que estava habituada a ver…
Tudo é ultrapassado. A alegria de me reunir ao marido sobrepõe-se a todas as dificuldades iniciais, incluindo a do alojamento.
Começamos pelo apart-hotel, dispendioso, mas a única solução.
Decorrido um mês, instalados num apartamento de um prédio ainda não totalmente construído, com os apetrechos indispensáveis - e possíveis – estamos preparados para viver os próximos dois anos.
A gravidez chegara ao seu termo. O bebé começa a dar sinais de que é chegada a hora de aparecer. Contudo, a espera vai ser longa.
Depois de uma noite sem poder descansar, logo pela manhã é chamada a parteira, que declara, peremptória – temos muitas horas pela frente !
Informado do que se passava, o médico, pessoa maravilhosa e amiga, apareceu. Depois de dizer - “ minha filha, o primeiro filho é sempre demorado; está tudo bem, mas vai ter que esperar com calma” – avisou a parteira e uma amiga presente de que gostaria de assistir ao parto.
Entre gemidos e lamentos, passou-se o dia e mais uma longa noite.
Logo pela manhã as coisas precipitaram-se, e o bebé apressou-se a ver a luz do dia.
A parteira atarefada, a amiga dando apoio, a jovem mãe esforçando-se, já sem forças, a criança aparece. Linda ! Um menino !
Um grande abraço da amiga, que chora de alegria!
É então que a parteira se lembra do médico, e do pedido que ele tinha feito para o chamarem quando chegasse a hora. Pede à amiga que vá à sala avisar o marido, que espera em ânsias, para chamar o médico.
Este, ignorando a recomendação que o médico havia feito, e vendo a amiga aparecer lavada em lágrimas, que eram de pura emoção, apanhou um tremendo susto. A custo balbuciou:
– Há algum problema ?
- Não, está tudo bem, já cá tem um menino. Mas vá depressa chamar o médico, por favor.
Só ouviu – chamar o médico. À velocidade que lhe permitia o coração disparado pela ansiedade, corre em direcção ao hospital. Regressa com o médico, que pelo caminho lhe conta o pedido que fizera à parteira.

Em casa, depois de ter visto o seu filho – o mais bonito do mundo ! – e desfeitas todas as dúvidas, pôde, finalmente, sossegar.
Desabou, literalmente, sobre uma cadeira, e deixou que as lágrimas de alegria lhe corressem livremente pelo rosto.


Este é o segundo de uns quantos apontamentos que aqui apresentaremos, subordinados ao mesmo tema.
Não seguem qualquer ordem cronológica. Não estarão situados no tempo, nem no espaço.
O tempo é relativo. E as memórias afluem sem hora marcada.



publicado por mariazita às 18:19
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Comentários:
De Maria Lúcia Vítor a 3 de Março de 2008 às 18:12
Querida Mariazita,

Seu blog está cada vez mais sensacional. Adorei as novidades.
Beijos da amiga brasileira,
Maria Lucia


responder a comentário discussão


De mariazita a 4 de Março de 2008 às 22:14
Querida Maria Lúcia
Muito obrigada por mais esta sua visita.
As novidades vão continuar, sempre diferentes.
Por isso...volte sempre.
Sabe que gosto de a "ver" por cá.
Beijos
Mariazita


responder a comentário início da discussão


De Zirita a 5 de Março de 2008 às 00:33
Oie Mariazita ... estou me sentindo muito bem na casa da Mariquinhas... além de muito espirituosa, tb muito graciosa... enfim ... Estou muito á vontade aquí .. Parabéns... bjs ... Zirit@


responder a comentário discussão


De mariazita a 6 de Março de 2008 às 16:49
Querida Zirita
Que bom que você gostou da nossa casinha!
Viu como é fácil entrar??? A porta está sempre aberta para as amigas e os amigos.
Obrigada por ter vindo.
Espero que volte, e que continue a sentir-se bem cá dentro.
Beijinhos
Mariazita



responder a comentário início da discussão

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE - O CHEIRO DE ÁFRICA


O CHEIRO DE ÁFRICA

O meu olhar vagueia pela lonjura da planície.
Rodo, olhando em volta. Descrevo um ângulo de 360 graus. Até onde a vista alcança apenas mato se vislumbra.
Giro de novo. A paisagem mantém-se inalterável. Numa extensão de quilómetros estou rodeada de mato. Salpicado, aqui e ali, de árvores de pequeno porte. São poucas, as árvores, e de aspecto raquítico
A casa, ao estilo bem colonial, tem um alpendre de um dos lados, a todo o comprimento.
Aí se encontram uns cadeirões de braços, em madeira, com almofadas gastas pelo tempo, desbotadas pelo sol, com um ou outro rasgão, como que a dizer: terminou o nosso prazo de validade.
Não primam pela macieza, as almofadas, mas tornam os cadeirões um pouco menos desconfortáveis.
Herdei-as, como tudo o resto, dos antigos moradores.
Detenho-me um momento a pensar – precisam de ser substituídas.
Encosto-me ao varandim, e aspiro o ar fresco da manhã.
Que paz. Que tranquilidade !
E que cheiro! Sobretudo o cheiro…
(Em nenhum lugar do mundo se pode sentir o cheiro de África. É o que melhor retenho na memória. Por vezes ainda consigo senti-lo).
Quem já cheirou África nunca mais esquece.
O sol começa a levantar-se no horizonte. A temperatura depressa subirá; o calor vai apertar.
Mas a casa mantém-se fresca. Já se ouvem os rumores dos criados preparando a mesa para o mata-bicho.
Aqui as mulheres não trabalham para os “brancos”. Mantêm-se nas suas palhotas, cuidam dos filhos, tratam da machamba, vendem no mercado os produtos que cultivam.
Só os homens vêm para nossas casas, por vezes com dormida incluída, visitando a família aos fins de semana. Executam todo o trabalho doméstico, como cozinhar, tratar das roupas, limpar…
À senhora da casa compete ensinar, orientar, fiscalizar… Os tempos de lazer ocupa-os com o que lhe dá prazer – cuidar dos filhos, se os tem, ler, ouvir música…tudo o que possa contribuir para afastar a sensação de isolamento em que vive.
O isolamento, por vezes, custa a suportar, prega as suas partidas.

A alguns quilómetros daqui há um pequeno destacamento, cujo “responsável” é substituído de duas em duas semanas.
Um desses jovens é particularmente sensível à solidão que o oprime. Quando se sente sufocar, sobe a um morro ali existente, e grita a plenos pulmões tudo o que lhe vem à cabeça. Em resposta ouve o eco das suas próprias palavras. E sente-se reconfortado…
Foi a forma que encontrou para aguentar o tempo de espera até ser substituído.

Começo a sentir o perfume do café acabadinho de fazer. Não consigo habituar-me ao tradicional mata-bicho de África – uma refeição de garfo, completíssima. Mantenho-me fiel ao café com leite (em pó – não há outro), e as torradas com manteiga (em lata, importada da África do Sul).
Mais um dia se passou. À noite sentamo-nos no alpendre, nos cadeirões com almofadas rasgadas – precisam mesmo ser substituídas…
Assim nos protegemos do cacimbo que sempre aparece pela noite.
À nossa volta tudo é silêncio, escuridão, tranquilidade.
Mas não estamos tranquilos.
Sabemos que essa paz não reinará para sempre. Na realidade tem apenas dois ou três meses de vida…
Sabemos que estamos a viver sobre um barril de pólvora.


Este é o primeiro de uns quantos apontamentos que aqui apresentaremos, subordinados ao mesmo tema.
Não seguem qualquer ordem cronológica. Não estarão situados no tempo, nem no espaço.
O tempo é relativo. E as memórias afluem sem hora marcada.

publicado por mariazita às 11:31