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sábado, 14 de junho de 2014

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE - MOÇAMBIQUE

  EM VIAGEM

 À chegada ao segundo ponto de paragem da nossa viagem

(Nampula) 

a estação fervilhava de gente, pessoas que chegavam e já tinham descido das carruagens, outras que as aguardavam, e se manifestavam ruidosamente…
… chamámos um táxi e dissemos-lhe que seguisse para um hotel que não fosse muito caro. O motorista informou-nos que apenas havia um. Para lá seguimos.
… Era caríssimo. Mas, como não havia alternativa, teríamos que ficar ali mesmo.

… Uns colegas do marido, que estavam colocados na cidade …disponibilizaram logo a sua casa para nos instalarmos lá os dias que teríamos que ficar na cidade. É que não havia, para já, ligação de transporte para o nosso destino final, e assim teríamos que permanecer na cidade por dois ou três dias.

… Começamos então a planear a nossa partida lá para o norte, ponto final do nosso destino. As perspectivas não eram nada agradáveis.
Teríamos transporte daí a dois dias…
… quatro ou cinco horas num comboio misto, de carga e passageiros, daqueles que param em todas as estações e apeadeiros… /ou uma viagem de tantas ou mais horas de machimbombo… por uma picada… cheia de buracos e pó, debaixo dum sol escaldante, respirando o odor de todos aqueles corpos transpirados misturado com a poeira que entrava pelas janelas abertas.
… Por muita força e coragem que a juventude de então nos desse, esta perspectiva era arrasadora.
Reunidos todos os tostõezinhos restantes optamos por alugar um táxi aéreo… um aviãozinho particular que fazia serviço de táxi, fazendo-se pagar bastante bem.
… Chegados ao nosso destino, o piloto sobrevoou o local onde iríamos viver por tempo indeterminado…
… Alguns minutos depois apareceu um jipe para nos levar para casa.
Mais tarde soube que era procedimento habitual… porque, muitas vezes, o piloto levava correspondência para os habitantes do povoado, que era sempre ansiosamente esperada.
seguimos o conselho do nosso companheiro de viagem, que conhecêramos no navio, e decidimos recorrer ao médico ali destacado.
… De facto tratava-se dum homem extremamente simpático, solteiro,
… imediatamente disponibilizou o melhor quarto da casa, uma divisão enorme onde cabíamos perfeitamente.
Acabamos por nos adaptar e aprender a viver com as poucas comodidades que a casa oferecia.
 
 (Marrupa)
Havia calor humano, que nos compensava de todo o desconforto.

 
ENQUANTO OS DIAS PASSAM…
 
É bom viver nesta cidade, a terceira deste vasto território que, dentro de duas décadas, será um país independente. Ainda ninguém sabe, mas vai acontecer num futuro não muito distante. 

Não fora o espectro da guerra que lavra lá para o Norte, e teríamos, aqui, uma vida perfeita.

A cidade é bonita. Na zona central existem largas avenidas, de sentido único, com separadores ao meio, ajardinados. Há lojas bem fornecidas, onde se encontra tudo o que é necessário para o dia-a-dia; um grande mercado, com frutas variadas e legumes frescos, talho e peixaria; livrarias onde se podem encontrar os últimos livros publicados.

Esta vida fácil nem sempre é calma. De vez em quando – com demasiada frequência – recebemos notícias que nos abalam muito:

- A do soldado que, tendo terminado a sua comissão, regressava do mato a caminho desta cidade, onde faria escala para seguir para Lourenço Marques, e daí para a sua terra natal.

Em pleno voo, o pequeno avião em que vinha, sofreu uma avaria, despenhou-se, e aqui apenas chegaram os restos mortais, dentro de um caixão.

- Ou a notícia do acidente que sofreu o segundo comandante da base aérea.

Acompanhou, voluntariamente, uma missão, onde acabou por perder a vida.

Era uma pessoa muito estimada por todos, incluindo civis, entre os quais contava muitos amigos.

A cidade inteira, em peso, acompanhou-o ao cemitério, para um último e forte abraço.

O corpo foi aí depositado, e mais tarde trasladado para o local do seu descanso eterno.

Foi uma cerimónia muito comovente. O capelão militar proferiu a alocução apropriada, terminando com um “Até sempre, Tó”.

São apenas dois exemplos dos muitos a que vimos assistindo.

 Foi este clima que me levou a decidir aceitar a proposta para produzir um programa, na rádio onde trabalho, dedicado aos soldados em combate.
 
 (Fazendo locução no E.R.N.)
É um trabalho fascinante. Como, diariamente, faço locução cinco horas, repartidas ao longo do dia, aproveito os tempos livres para preparar o programa que é transmitido uma vez por semana.

Encontra-se aqui na cidade, em comissão militar, um locutor do Rádio Clube Português, de Lisboa, que, gentilmente, “cedeu” a voz para a abertura do programa, dizendo:

“O Emissor Regional do Norte… apresenta (uma ligeira pausa) Mensagem ao soldado!um programa dedicado aos militares em serviço no norte de Moçambique”

É a minha deixa. Com voz que tento seja suave, digo:

“É para ti, soldado, que as minhas palavras e o meu pensamento vão, neste momento. Sim, para ti, exactamente para ti”.

O começo, gravado, é sempre igual. Daí por diante o programa prossegue por minha conta e risco.

Segue-se conversa, respondendo às dezenas, se não centenas de cartas que recebo semanalmente.

Sei que o programa é muito bem acolhido, e à hora em que é transmitido, todos que podem ligam os rádios para ouvir. É o elo que os liga à vida normal. Sei que, ao ouvir-me, eles sentem como se eu falasse para cada um deles em particular. Ao responder às suas cartas é isso mesmo que faço.
 

 (Participação do E.R.N. na festa de aniversário do Clube do Niassa)


 
O capelão, que regressou há pouco, confidenciou-me que este programa é um incentivo e até lenitivo para eles.
É gratificante saber que estamos ajudando alguém a ultrapassar momentos tão difíceis como estes.
As cartas que escrevem são enternecedoras. Transparecem as saudades imensas que sentem da família, da vida que deixaram tão longe, ao mesmo tempo que mostram confiança na vitória e no regresso tão desejado.
Termino o programa com a sensação de “dever cumprido”.
Regresso a casa para uma noite de descanso.
Amanhã, às 7 horas, cá estarei novamente.
 
(Excerto de dois capítulos da 2ª.parte, respeitante a Moçambique, do livro que estou escrevendo.)

quarta-feira, 14 de maio de 2014

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE - CABO VERDE

CHEGADA À “LUA”
… e três meses depois da chegada ao Continente, regressados de Moçambique, embarcamos rumo a Cabo Verde.
Após uma viagem num “mar de azeite”, como dizem os marinheiros,
 

aproximamo-nos do nosso destino.
Ao longe, apenas se vislumbravam umas sombras esfumadas no horizonte.
Agora, que estamos relativamente perto, a paisagem torna-se nítida – montes escalvados, de cor avermelhada, sem vestígios de vegetação… uma verdadeira paisagem lunar.
Temos a sensação de que estamos a chegar à lua!

 Depois das manobras habituais, que nos parecem infindáveis, o navio encosta ao cais.
Com a bagagem de camarote há muito preparada e as três crianças controladas, apressamo-nos a descer o portaló.
O cais fervilha de gente, na sua maioria naturais da terra, táxis buzinando, um burburinho tremendo.
Finalmente pomos pé em terra.
Após beijos e abraços efusivos - que as saudades já eram muitas – aguardamos o carro que nos transportará para casa.

Ao meu lado um autóctone vê, de repente, um carro passar muito perto, chegando mesmo a roçar-lhe o corpo. Recuando de um salto, com receio de que o pneu lhe passe por cima do pé descalço, grita, assustado:- Ai nha pé!
Este é o meu primeiro contacto com a linguagem local, o crioulo cabo-verdiano.
 O “nha”, que significa meu ou minha (nha pai, nha mãe) irá fazer parte do meu dia-a-dia durante os próximos dois anos.
Vamos então p’ra nha casa!
 
Situada num ponto elevado, a moradia, acompanhada à esquerda e à direita por outras casas igualmente independentes, tem na parte da frente um arremedo de jardim, com uma ou outra planta enfezada, que, durante os dois anos da minha permanência aqui, irei, teimosamente, tentar recuperar.
Luta inglória! O ar é extremamente seco, com ventos fortes nove meses por ano, a falta de água é enorme; mesmo regando-a todos os dias, a terra absorve completamente a água muito para além de onde as raízes a possam alcançar.
Apesar de todos os esforços, o meu jardim nunca deixará de ter este aspecto desértico.
Mas, por agora, há que nos instalarmos na que vai ser a nossa moradia durante os próximos dois anos.
Não se trata de nenhum palácio, mas, depois de arrumada a nosso gosto, ornamentada com alguns objectos que nos acompanharam, torna-se bastante confortável.
Da porta de casa, à qual se acede subindo três degraus de pedra, depois de atravessar o “jardim”, avista-se, não muito ao longe, o mar, vindo do qual se pode sentir, em certos dias, o cheiro a maresia.
 
Em frente, do lado de lá da estrada, há um vasto espaço coberto de terra vermelha, que termina num declive em direcção ao mar.
Algum tempo depois de aqui estar irei assistir a verdadeiras batalhas campais travadas entre grupos de cães, provavelmente inimigos, nesse espaço existente em frente à casa.
Sem qualquer aviso prévio, uns chegam da direita, outros aproximam-se pela esquerda, acabando por encontrar-se frente a frente, no centro do terreno.
Entre ladridos e rosnares, engalfinham-se ferozmente, levantando incríveis nuvens de poeira vermelha que chega a escurecer o céu.
Depois de alguns minutos de luta abandonam o campo de batalha, retrocedendo cada grupo pelo mesmo caminho por onde chegara.
Da refrega, felizmente, não resultam mortos; apenas alguns ferimentos se revelam nas pernas que vão manquitando no regresso ao lar.
Nunca conseguirei descobrir por que razão, de tempos a tempos, se envolvem em contenda.
Certo é que, chegará o dia em que também eu regressarei ao local de partida, sem que eles tenham resolvido os seus diferendos.
 
 
Nada faz prever que aqui se venha a desenvolver alguma guerra, tão pouco qualquer convulsão social.
Tudo leva a crer que os dois anos que vamos permanecer por cá serão passados em perfeita e serena paz, perspectiva por demais atraente para quem viveu os últimos cinco anos em Angola e Moçambique, em clima de guerra, num constante sobressalto, que não nos deixava prever o dia de amanhã.
Temos esperança de que a permanência nestas terras crioulas nos traga a tranquilidade de espírito de que tanto necessitamos.
 
 
 
(Excerto do primeiro capítulo da terceira parte do livro que estou escrevendo.)

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE

Hoje vou partilhar convosco um resumo de excertos do livro que estou (continuo…) a escrever.

Tinha pensado publicá-lo no próximo mês. Desisti da ideia, preferindo fazê-lo hoje. Dezembro é uma época em que as recordações se tornam mais presentes e sentidas. E o trecho que vou mostrar-vos passa-se no Natal…

APROXIMA-SE O NATAL / DO NATAL AO ANO NOVO
 
(Encontramo-nos em Moçambique).
… Não há ainda data prevista para o regresso dos maridos… (foram para o Norte, para a zona de intervenção).
As saudades são cada vez maiores e, com a aproximação da época natalícia, sentimos ainda mais a sua ausência.
Os dias vão passando, e falta apenas uma semana para o Natal.

Fala-se, à boca pequena, que as tropas não virão para baixo antes dessa data.
E, repentinamente, surge a notícia:
“O comandante… resolveu disponibilizar um avião militar para transportar as famílias que quiserem ir passar o Natal ao Norte”.
... Todas as mulheres se apressaram a inscrever-se, assim como aos respectivos filhos. Resultado: um avião não chegaria para o transporte de tantas pessoas… havia que arranjar outra solução, que surgiu de maneira airosa mas pouco satisfatória:
“As crianças não poderiam acompanhar as suas mães ao Norte dado que se tratava de uma zona de intervenção e, portanto, pouco segura”… Automaticamente as inscrições baixaram para menos de um terço… restaram apenas aquelas que não tinham filhos, e ainda as poucas que, tendo-os, podiam deixá-los com pessoa de sua inteira confiança.
Eu faço parte destas últimas. A minha irmã encontra-se em férias escolares, na minha casa, e prontifica-se a ficar com as crianças. Aceito, mas de coração dividido – para passar o Natal com o marido não poderei estar junto dos meus filhos. A saudade acaba por falar mais alto, e resolvo ir para junto do marido.
… À chegada a Mocímboa da Praia, local do nosso destino, multiplicam-se os abraços e beijos, entremeados de lágrimas de felicidade. Pode-se, finalmente, dar vazão a tantas saudades reprimidas.
… Depois de jantar vamos fazer planos para o jantar do dia seguinte, 24, noite de Consoada. …
(Na noite de 24)
...Não faltaram os tradicionais doces – rabanadas, sonhos, formigos, etc., etc., etc. acompanhados de vinho do Porto.
Foi um jantar muito agradável, prolongado por alegres conversas, onde, a certa altura, se fez uma pequena pausa para recordar os entes queridos que, que por força das circunstâncias, não estavam presentes. Foi o momento de uma lagrimazita rebelde assomar aos nossos olhos.
… No dia 26 tivemos uma surpresa maravilhosa.
…o comandante regional tinha conseguido uma segunda viagem aérea para as famílias que quisessem ir juntar-se aos maridos, podendo, desta vez, levar as crianças.
A minha irmã prontificou-se a viajar com os meus filhos; assim, embora não tenhamos passado o dia de Natal todos juntos, reunimo-nos dois dias depois, o que foi muito bom…
…Até ao fim do ano os dias sucederam-se quase sem darmos por isso. Passamos lá uma semana inesquecível. Todos os dias eu, a minha irmã e os meninos, íamos à praia, que ficava relativamente perto.

 
… No dia 31 tivemos um jantar “melhorado”…
 
…Depois do café e digestivos as senhoras foram preparar a mesa, com alguns doces, as indispensáveis passas de uva, e as taças para o champanhe. Ficou tudo pronto para festejarmos a passagem do ano.
Subimos então ao primeiro andar e sentámo-nos na varanda, a aguardar a aproximação da meia-noite…
… No meio da conversa começámos a ouvir, ao longe, o ribombar de trovões. Nesta época do ano são muito frequentes as tempestades, nem sempre acompanhadas de chuva.
Alguém comentou:
- Aproxima-se uma grande trovoada.
Mal estas palavras foram pronunciadas apareceu a toda a velocidade um jipe… Imediatamente um soldado saltou do jipe dizendo:
- Meu comandante, precisa vir imediatamente. Temos problemas. …
Na varanda ficaram apenas as mulheres… intrigadas e preocupadas, sem sabermos o que se estava a passar, mas calculando que não seria nada de bom.
Alguns minutos depois começaram a passar jipes, na estrada, em grande velocidade.
… o que pensámos ser trovoada ao longe era, na realidade, o som de tiros, a cerca de 10 quilómetros de distância.
E assim essa passagem de ano foi feita sem os maridos, que se encontravam em combate.
…Continuámos na varanda, conversando para passar o tempo, esperando os maridos que só regressaram de madrugada, felizmente sem baixas.
 
PS - VOU AUSENTAR-ME POR UMA SEMANA, MAS, LOGO QUE REGRESSE, AGRADECEREI TODAS AS VISITAS RECEBIDAS.
ATÉ LÁ, TUDO DE BOM PARA VÓS.
BEIJINHOS

domingo, 14 de outubro de 2012

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE

 
 
 O INÍCIO DAS HOSTILIDADES
 
Quando, há meses, viemos para esta “pretensa” messe foi-nos facultado um jipe para as necessárias idas ao centro da cidade.
Num raio de uns cinco quilómetros do local onde nos encon
tramos não existe uma única casa, e, para ir ao centro da cidade, a pé, demora-se entre 20 a 30 minutos.
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 … Quando chegamos à cidade (centro) sentimo-nos umas aves raras. Os homens que lá se encontram olham-nos como se fossemos almas do outro mundo.
O que acontece é que a cidade está, praticamente, despida de mulheres.
Todas as que tiveram possibilidade, por lá terem família, foram para o sul, e as mais abonadas embarcaram mesmo para o continente.
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… a situação tem vindo a agravar-se de dia para dia, receando-se o que possa acontecer a qualquer momento. Por uma questão de prudência interrompemos as nossas idas às senzalas para visitar os doentes e necessitados.
Podemos dizer que estamos num estado de alerta.
Os nossos maridos vêm almoçar vestidos com os camuflados e armados até aos dentes.
Como sabem que nos irrita solenemente ouvir esta frase, logo que estamos todos sentados, dizem, em coro:
- Vamos a ela (refeição) porque pode ser que seja a última…
E riem-se, como se tivessem muita graça. Claro que nós sabemos que é, para eles, uma espécie de escape, uma forma de aliviar a tensão em que vivem.

E, de repente, aconteceu!
Depois do pequeno-almoço os homens dirigem-se, como habitualmente, para os seus postos, despedindo-se de nós até à hora do almoço. Mas, regressam passada meia hora. Apressados, rostos alterados, vêm preparar-se para sair. Rapidamente estão equipados e prontos. Despedem-se, e caminham apressados rumo ao seu destino. Não sabemos quando voltam, nem se voltam…
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...O marido da Natércia foi ao quartel mas não os acompanhou - pertence a um serviço não operacional. Está connosco, comentando o sucedido. Quando a Madalena se afasta, conta-nos, num sussurro, que a coluna comandada pelo marido dela, que saíra numa patrulha normal, fora atacada,

(foto da Net)

 não se sabendo exactamente quais os danos sofridos. Por enquanto é melhor não lhe dizer nada.
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        … Finalmente sabe-se que o marido da Madalena está são e salvo, o mesmo não acontecendo a dois dos seus homens, que foram feridos, um deles com gravidade. Já estão de regresso.
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        … Cerca de uma hora mais tarde chega a coluna que foi atacada. Imediatamente é pedido auxílio aéreo para evacuar os feridos. Entretanto são-lhes ministrados os cuidados médicos possíveis. Infelizmente um deles, o ferido com maior gravidade, não aguenta o período de espera do avião que os haveria de transportar para a capital da província, e falece.
É um choque terrível para todos nós, este primeiro morto, vítima de emboscada.
Não sei se é medo o sentimento que nos domina. Pânico talvez seja a palavra mais apropriada.
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… Das outras patrulhas que saíram logo cedo não há notícias de ataques, pelo que mantemos a esperança de que não haja motivo para preocupação de maior. O dia decorre numa aparente calma.
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… A meio da tarde tomamos conhecimento de que uma fragata,


que se encontrava ao largo, tinha acostado e desembarcado os fuzileiros navais, que vieram dar apoio aos combatentes de terra. A sua missão é tomar conta da cidade. Aquartelamento, central eléctrica e campo de aviação são os pontos sensíveis.
A noite aproxima-se...
A NOITE

A noite aproxima-se e os maridos sem regressarem. O comandante vem informar que não dispõe de meios suficientes para montar guarda à “messe”. Aconselha, por isso, a que nos reunamos na sua casa, que é bastante grande, para lá passarmos a noite.
A nossa maior preocupação é acomodar as crianças, o que conseguimos deitando três e quatro na mesma cama.
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… No meio de tudo, a maior dificuldade surge com o mais pequeno. O meu bebé, com sete meses, não pode ser “enfiado” no meio dos outros – corria o risco de ser esborrachado… Alguém tem uma ideia luminosa. No quarto de casal há um roupeiro grande, que tem um “gavetão”, onde são guardados os lençóis. Retirados estes, coloca-se no fundo um cobertor, e assim se improvisa uma cama para o bebé.
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...procuramos descansar um pouco distribuindo-nos pelos sofás. E assim vamos passando pelo sono, provocado, em especial, pelo dia de enorme tensão que vivemos.
Cerca da meia-noite vêm pedir-nos para prepararmos umas sandes e refrescos para os fuzileiros que iam chegando, de regresso das suas missões.
E, entre dormitar e fazer sandes e refrescos, se passou uma longa noite.
Por volta das seis ou sete da manhã começaram a chegar os maridos. Cobertos de pó, irreconhecíveis, mas VIVOS!
Foram recebidos com a emoção que se pode imaginar, e algumas lágrimas que não pudemos reprimir.
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...Mas, aparte o incidente da madrugada, com os dois feridos, nada mais houve a lamentar (naquele dia).
.............................
Como quem recolhe um rebanho de cabritinhos fomos reunindo as crianças e, finalmente, pudemos dirigir-nos à “messe”.
Depois dos maridos se tornarem apresentáveis com um bem merecido banho, fomos todos para a sala tomar o pequeno almoço.
Esse dia decorreu relativamente calmo, mas a vida nunca mais foi a mesma enquanto lá estivemos.

(Excertos de dois capítulos do livro que estou escrevendo - elaborados com o apoio do meu marido para os aspectos "técnicos")

domingo, 24 de julho de 2011

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE



A FEBRE E A FOTO DO TOMÁS

A FEBRE

Aqui só os homens nativos trabalham na casa dos brancos. As mulheres autóctones permanecem nas senzalas, tratam dos filhos e cultivam a machamba cujos produtos vão vender ao mercado.
Os nossos criados são, portanto, autótones, conhecidos por mainatos.
Embora, em rigor, mainato seja a pessoa que trata das roupas, no nosso caso eles tratam também da limpeza dos quartos e, por vezes, se não têm mais o que fazer, brincam com as crianças.
Cada casal tem o seu próprio mainato pago do seu bolso. Como vivem aqui cinco casais juntam-se aqui cinco mainatos.
Já que têm hora de entrada ao serviço e hora de saída, e a maior parte dos dias acabam o serviço antes da hora de sair, é vê-los todos felizes a brincar com as crianças.
O meu mainato chama-se Tomás; adora o meu filho, que conheceu com três mesitos, e o bebé tem verdadeira paixão pelo “Tmá”, que ele aprendeu rapidamente a chamar pelo nome (mais ou menos…).
A maior alegria que posso dar ao Tomás é deixá-lo cuidar do bebé. Às vezes faço-lhe a vontade, sob a minha supervisão. Lembro-me do dia em que consenti que ele desse a papa ao bebé. Ele já me tinha pedido inúmeras vezes para o fazer, até que um dia decidi experimentar.
O Tomás quase chorava de alegria!
Senti uma espécie de ciúmes pela forma como ele deu a papa ao bebé, que irradiava felicidade por ter ali tão perto o seu querido “Tmá”.
A verdade é que os negros têm pelas crianças, especialmente se são pequeninas, um carinho tão grande que é algo raro e lindo de se ver.

Os mainatos vêm para o trabalho de bicicleta, pois as povoações onde moram são um pouco distantes.
De manhã dá gosto vê-los chegar, de calça preta e camisa branca, impecavelmente limpa e passada a ferro. E de sapatos pretos!
Mas antes de começarem a trabalhar vão trocar essa roupa por outra. Aparecem então com uns calções rotos e camisas esfarrapadas, embora limpas.
A minha amiga Natércia passa tempos infinitos a explicar ao seu mainato que não deve passar a ferro alguma peça de roupa que esteja rota ou descosida. Ele diz sempre que sim, mas na prática parece não entender as explicações pois frequentemente ela encontra, no tabuleiro para guardar, roupa já passada a ferro que precisa ser cosida.
Há dias ela estava a lastimar-se dizendo que já não sabia como havia de lhe explicar que “roupa rota não se passa a ferro sem ser cosida”, porque ele não compreendia. Foi aí que o marido da Natércia disse:
- Tu não entendes que a noção de roto para ti é muito diferente do que é para ele?
Era exactamente aí que estava o problema. Para ele, roto devia ser “em farrapos” 

O Tomás é um trabalhador impecável. Para além da limpeza do quarto, cujo chão é lavado todos os dias já que é de tijoleira, lava e passa a ferro muito bem. Tem apenas um defeito: à segunda feira quase não trabalha, está de ressaca.
Eu faço-me desentendida, e pergunto-lhe o que tem.
- Está muito doente, senhora.
- Sim, mas o que é que você tem?
- Tem febre no corpo todo.
Decido abrir o jogo, e digo-lhe que o que ele sente é motivado por ter bebido demais no dia anterior. Concorda. Então eu sugiro:
- O Tomás vai passar a beber ao sábado; no domingo cura a febre, e na segunda feira já está bom.
- Não pode, senhora – responde-me.
- Não pode porquê?
- Não vai beber sozinho… e no sábado não tem amigo para beber. Está todo no trabalho dele, só não trabalha no domingo, que é quando nós bebe…

Se os amigos do Tomás não trabalhassem ao sábado, ele não teria febre no corpo todo à segunda feira.
Ora aqui está um inconveniente de alguns trabalhadores não terem “semana inglesa”.


A FOTO

Há dias tive uma ideia luminosa.
Já que o Tomás gosta tanto do bebé vou tirar uma foto aos dois. Ofereço-lhe uma cópia, com o que, por certo, vai ficar muito feliz. Para o meu bebé será, mais tarde, uma linda recordação.
Escolhi o local, entre umas árvores que me pareceram bonitas, e aí vamos nós: o Tomás, que vestiu a camisa branca com que vem para o trabalho, com o bebé ao colo, eu de máquina em punho.
O Tomás, apesar da sua camisa branca, conservava os calções de trabalho, todos esfarrapados nas pernas. Foquei de modo a não apanhar a parte rota dos calções.


Como estamos nos anos 60 não há ainda máquinas digitais. Vamos ter que esperar muitos anos até que elas apareçam.
Assim, tenho que acabar de gastar o rolo e depois levá-lo ao fotógrafo para revelar e fazer as fotos.
Finalmente, as fotos ficaram prontas.
Peguei na que se destinava ao Tomás, chamei-o, e entreguei-lha.
Ele segurou-a entre os dedos, olhou-a longamente, e, com lágrimas nos olhos, disse-me:
- Muito obrigado, senhora. Este retrato vai andar sempre comigo. Aqui, junto do meu coração. - E apontou para o bolso da camisa rasgada.
Voltou a mirar a foto, enlevado.
O mainato da Natércia pôs-se atrás dele e, espreitando por cima do ombro, com inveja disse, despeitado:
- Ora, senhora cortou pernas…
O Tomás olhou para ele muito sério, e respondeu:
- Ainda bem que senhora cortou pernas porque naquele dia eu estava sem sapato!

É esta singeleza, esta ingenuidade sem mácula, que me faz adorar viver aqui.
Que importância têm umas pernas cortadas comparadas com uns pés sem sapato???

domingo, 3 de abril de 2011

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE



(Este texto foi publicado há três anos; é, portanto, uma reedição [com ligeiras alterações] )

FALAR PORTUGUÊS

NÓS É QUE OS ENSINÁMOS

Uns dias melhor, outros pior, o tempo vai-se passando, nesta cidade que poderia ser o paraíso.
Há até um simpático impala que diversas vezes vem visitar o meu jardim. Caminha calmamente. Através da janela aberta olha para dentro da sala. Em seguida examina o jardim. Terminada a inspecção retira-se tão tranquilamente como chegou.


(Foto minha - no meu jardim)

Contudo, temos sempre presente o que se passa lá para o norte, na chamada «zona de intervenção».
Mas, entre um e outro sobressalto, a vida continua, e todos temos deveres a cumprir.
Lá mais para o sul há empregadas domésticas, mulheres que vão trabalhar às casas dos “brancos”
Aqui, não. São homens que fazem esses serviços. A troco de um salário estabelecido e comida, às vezes também dormida, executam as tarefas domésticas que normalmente são atribuídas às mulheres: cozinham, lavam e engomam a roupa, limpam a casa.
São homens, adultos, muitas vezes casados, ou jovens que rondam os vinte anos.
Há casos em que se tem um adulto para cozinhar e tratar das roupas, e um mais jovem para limpar a casa.
Há ainda uns garotos, (normalmente rapazes, embora por vezes apareçam meninas), que muitas vezes nos batem à porta perguntando:
Senhora precisa miúdo?
São meninos pobres que não têm o que comer em suas casas, e bem cedo começam a lutar pela subsistência.
Dá-se-lhes comida, dormida e roupas (geralmente só têm a que trazem no corpo, e em muito mau estado), e, em troca, eles brincam com as nossas crianças, vigiando para que nada de mal lhes aconteça.


São crianças sombras de crianças. Só se vão deitar depois que os meninos vão para a cama, o que, aqui, acontece bastante cedo.
Todos falam português. Os “miúdos”, por vezes não sabem muito, mas é o bastante para se fazerem entender. E como a linguagem das crianças é universal, conseguem estabelecer longas conversas com as nossas crianças, nas suas brincadeiras.
Na minha casa, para além do miúdo, há um cozinheiro e um rapaz, o Albino, que trata da limpeza da casa e serve à mesa.
Não sei bem a idade de um e de outro. Não é nada fácil calcular. (Tratando-se de pessoas bem avançadas na idade, já de carapinha branca, torna-se ainda mais difícil. E se perguntamos a uma dessas pessoas quantos anos tem, a resposta é sempre: - Não sei, senhora. Tenho muitos!)
O Albino aparenta dezoito a vinte anos. É um rapaz já com prática de trabalho, que me foi recomendado por uma amiga.
Cumpridor dos seus deveres, pouco falador, vai desempenhando bem as suas funções.
Embora fale o indispensável de português para se fazer entender, por vezes não compreende muito bem o que se lhe diz.
Há dias estávamos a almoçar e eu pedi-lhe que fosse buscar água ao frigorífico, pois tinha-se esquecido de a pôr na mesa. Dirigiu-se à cozinha, ouvi-o abrir a porta do frigorífico, mas não aparecia com a água. Depois de esperar uns minutos, chamei-o. Apresentou-se sem nada nas mãos. Perguntei-lhe:
- Então???
Respondeu-me:
- Não encontro, senhora.
- Não encontras o quê???
- Não sabe, senhora…
Calculo que fosse bastante difícil encontrar uma coisa que ele próprio não sabia o que era!...

Cenas como esta acontecem de vez em quando. Nós ensinámos-lhes a nossa língua, mas não todas as palavras, com certeza. No entanto há certos vocábulos que toda a gente aprende muito facilmente.
Todos os dias, a meio da manhã, o Albino pede me para ir tratar das suas necessidades fisiológicas.
- Senhora, pode ir no mato?
- Podes sim, vai lá no mato.
E ele vai. E volta.
Um dia o Albino “foi no mato” mas, contra o costume, demorou-se muito tempo. Eu já pensava: encontrou algum conhecido e ficou à conversa. Quando finalmente apareceu, achei que deveria fazer-lhe um reparo:
- Meu Deus, Albino, demoraste tanto tempo para ir no mato!
Resposta pronta:
- Senhora, não pode ir ca**r aqui no pé de casa !
Engoli em seco, e dei a conversa por terminada.

Quando o Albino veio para minha casa eu não sabia praticamente nada a seu respeito, a não ser que era de confiança. E tanto me bastava. Cerca de um mês depois de estar ao meu serviço, um dia resolvi meter conversa com ele, e perguntei-lhe:
- Albino, tu és casado?
- Não, senhora, ainda sou menino.
- E porque não te casas?
- Porque as mulheres da cidade são todas p*t**.

Também desta vez engoli em seco, e encerrei o assunto.
E jurei a mim mesma não voltar a fazer perguntas indiscretas!

Eles apenas repetem as palavras que lhes ensinámos.

domingo, 6 de março de 2011

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE

O CHEIRO DE ÁFRICA
O meu olhar vagueia pela lonjura da planície. Rodo, olhando em volta. Descrevo um ângulo de 360 graus. Até onde a vista alcança apenas mato se vislumbra. Giro de novo. A paisagem mantém-se inalterável. Numa extensão de quilómetros estou rodeada de mato. Salpicado, aqui e ali, de árvores de pequeno porte. São poucas, as árvores, e de aspecto raquítico. A casa, ao estilo bem colonial, tem um alpendre de um dos lados, a todo o comprimento. Aí se encontram uns cadeirões de braços, em madeira, com almofadas gastas pelo tempo, desbotadas pelo sol, com um ou outro rasgão, como que a dizer: terminou o nosso prazo de validade. Não primam pela macieza, as almofadas, mas tornam os cadeirões um pouco menos desconfortáveis. Herdei-as, como tudo o resto, dos antigos moradores. Detenho-me um momento a pensar – precisam de ser substituídas. Encosto-me ao varandim, e aspiro o ar fresco da manhã. Que paz. Que tranquilidade ! E que cheiro! Sobretudo o cheiro… (Em nenhum lugar do mundo se pode sentir o cheiro de África. É o que melhor retenho na memória. Por vezes ainda consigo senti-lo). Quem já cheirou África nunca mais esquece. O sol começa a levantar-se no horizonte. A temperatura depressa subirá; o calor vai apertar. Mas a casa mantém-se fresca. Já se ouvem os rumores dos criados preparando a mesa para o mata-bicho. Aqui as mulheres não trabalham para os “brancos”. Mantêm-se nas suas palhotas, cuidam dos filhos, tratam da machamba, vendem no mercado os produtos que cultivam. Só os homens vêm para nossas casas, por vezes com dormida incluída, visitando a família aos fins de semana. Executam todo o trabalho doméstico, como cozinhar, tratar das roupas, limpar… À senhora da casa compete ensinar, orientar, fiscalizar… Os tempos de lazer ocupa-os com o que lhe dá prazer – cuidar dos filhos, se os tem, ler, ouvir música…tudo o que possa contribuir para afastar a sensação de isolamento em que vive. O isolamento, por vezes, custa a suportar, prega as suas partidas. A alguns quilómetros daqui há um pequeno destacamento, cujo “responsável” é substituído de duas em duas semanas. Um desses jovens é particularmente sensível à solidão que o oprime. Quando se sente sufocar, sobe a um morro ali existente, e grita a plenos pulmões tudo o que lhe vem à cabeça. Em resposta ouve o eco das suas próprias palavras. E sente-se reconfortado… Foi a forma que encontrou para aguentar o tempo de espera até ser substituído. Começo a sentir o perfume do café acabadinho de fazer. Não consigo habituar-me ao tradicional mata-bicho de África – uma refeição de garfo, completíssima. Mantenho-me fiel ao café com leite (em pó – não há outro), e as torradas com manteiga (em lata, importada da África do Sul). Mais um dia se passou. À noite sentamo-nos no alpendre, nos cadeirões com almofadas rasgadas – precisam mesmo ser substituídas… Assim nos protegemos do cacimbo que sempre aparece pela noite. À nossa volta tudo é silêncio, escuridão, tranquilidade. Mas não estamos tranquilos. Sabemos que essa paz não reinará para sempre. Na realidade tem apenas dois ou três meses de vida… Sabemos que estamos a viver sobre um barril de pólvora. E porque terça feira é o Dia Internacional da Mulher deixo-vos com alguns pensamentos relativos à Mulher (por ordem cronológica do nascimento dos autores): A natureza deu tanto poder à mulher que a lei, por prudência, deu-lhe pouco. Autor: Samuel Johnson Escritor - Inglaterra [1709-1784] A mulher é a mais bela metade do mundo. Autor: Rousseau - Jean Jacques Rousseau Filósofo, Escritor - França [1712-1778] Sinto-me feliz por não ser homem, porque, se o fosse, teria de casar com uma mulher. Autor: Madame de Stael - Anne Louise Gemaine Necker Escritora - França [1766-1817] Tirai do mundo a mulher e a ambição desaparecerá de todas as almas generosas. Autor: Alexandre Herculano Escritor - Portugal [1810-1877] Difícil é amar uma mulher e simultaneamente fazer alguma coisa com juízo. Autor: Léon Tolstoi Escritor - Russia [1828-1910] A mulher alimenta-se de carícias, como a abelha das flores. Autor: Anatole France Crítico, Escritor - França [1844-1924] As mulheres existem para que as amemos, e não para que as compreendamos. Autor: Oscar Wilde - Oscar Fingall O'Flahertie Wills Wilde Escritor/Poeta/Dramaturgo/Ensaísta - Irlanda [1854-1900] Ser mulher é algo difícil, já que consiste basicamente em lidar com homens. Autor: Joseph Conrad Escritor - Inglaterra [1857-1924] A mulher deve ser lentamente decifrada, como o enigma que é: encanto a encanto. Autor: Coelho Neto - Henrique Maximiano Coelho Neto Escritor, político e professor - Brasil [1864-1934] Do amor para com a mulher, nasceu tudo o que há de mais belo no mundo. Autor: Máximo Gorky - Aleksei Maksimovitch Pechkov Escritor - Russia [1868-1936] A mulher existe para que o homem se torne inteligente graças a ela. Autor: Karl Kraus Escritor - Austria [1874-1936] Somente a mulher sabe do que a mulher é capaz. Autor: William Maugham - William Somerset Maugham Escritor – Inglaterra [1874-1965] E terminou com chave d’ouro – o que considero “o melhor de todos” (fora da ordem cronológica...) Frequentemente a mulher tem medo de um rato, mas sobe ao patíbulo heroicamente; grita ao ver uma cobra, mas lança-se nas chamas para salvar um filho. Autor: Paolo Mantegazza Antropólogo/Fisiologista - Itália [1831-1910]


domingo, 25 de julho de 2010

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE – (3/02)

O Francisco

Em frente à nossa casa, do lado de lá da estrada, a seguir ao “campo de batalha” dos cães, há um declive que termina junto ao mar.
Ali existe a “pomposamente” chamada Praia da Matiota.
Na realidade não há qualquer porção de areia, o que se pressupõe quando se usa o termo “praia”. Há apenas uns quantos rochedos com acesso ao mar, no qual, em dias de semana, damos agradáveis mergulhos.
Esta é a nossa praia de semana.

Estendemos as toalhas sobre os penedos e aí tomamos o nosso banho de sol.

Temos outra praia, muito boa, para os domingos… a Baía das Gatas. Noutra altura falaremos dela.

Aqui são as mulheres que trabalham nas casas dos “senhores do continente”.
Parecendo fazer parte da mobília, já se encontrava na casa uma cozinheira, uma mulher simpática, que, vim a descobrir, tinha um coração do tamanho do mundo.
Bondosa, extremamente carinhosa com as crianças, gostava muito de animais. Em pouco tempo trouxe-me para casa um cachorro, ainda pequeno, que conservei até regressar.
Nessa altura levou-o para sua casa. Com aquele enorme coração tinha mesmo que o adoptar, não o podia abandonar.

Nas traseiras havia um pátio murado, com umas casotas onde se podiam criar animais – galinhas, patos, talvez coelhos.
Luísa, a cozinheira, pediu-me para criar galinhas. Algum tempo depois havia uma quantidade de pintainhos, parecendo novelos de algodão, passeando pelo pátio, acompanhados da mãe galinha.

Crescem depressa, estes animaizinhos. Duas ou três semanas depois já não havia novelos de algodão, mas uns frangotes de pernas exageradamente altas para o corpo, onde despontavam penas de cores variadas.
Um dia a Luísa apareceu-me com um frangote nas mãos, dizendo:
- Senhora, este está doente, vai morrer.
- Mas que doença é que ele tem? – perguntei.
- Não sei como se chama a doença, mas é devida ao frio; quando eles a apanham não se aguentam em pé.
E, dizendo isto, colocou o animal no chão. De imediato ele dobrou as pernas pelo meio, quase como se ficasse sentado com as pernas para a frente. Não conseguia manter-se de pé.
Agarrei-o, e senti-o frio.
- Coitadinho! Mas ele está mesmo gelado!

Eu costumava usar em casa umas saias com uns bolsos grandes, que serviam para ir guardando pequenas peças dos brinquedos que as crianças deixavam caídas aqui e ali.
Meti o franguinho dentro do bolso, encostado ao meu corpo. Algum tempo depois já não estava tão frio.
À noite meti-o dentro duma caixa pequena, aconchegado num pano quente.

Apliquei-lhe este “tratamento” uma semana, talvez um pouco mais: de dia no meu bolso, à noite na caixa.

E o milagre (do calor, penso eu) aconteceu: o franguinho recuperou a saúde e tinha as pernas mais fortes de todos.

Entretanto tinha-o “baptizado” de Francisco.
Acreditem, se quiserem. Depois que saiu do meu bolso, o Francisco passou a seguir os meus passos por toda a casa, e à noite encaminhava-se prontamente para a sua “cama”, que estava, naturalmente, no meu quarto.

Fez-se um galo lindo, o Francisco! Com penas lustrosas, que pareciam envernizadas, um ar altaneiro, era mesmo o rei da capoeira!

Quando regressei ofereci-o à Luísa.

domingo, 27 de junho de 2010

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE (1/03)


ACÇÃO SOCIAL

Poucos meses depois de aqui chegarmos consegue-se uma casa com meia dúzia de quartos para onde se mudam as famílias. Funciona como messe.
A cada casal é atribuído um quarto, maior ou menor consoante o número de filhos.
Uma pequena cozinha serve apenas para preparar comida para os mais pequeninos.
As refeições são tomadas numa sala separada da casa, que tem as paredes de rede por causa dos mosquitos e outros insectos que, à noite, aparecem aos milhares, atraídos pela luz.
Aqui comem não só as famílias mas também os solteiros. É uma sala espaçosa que comunica, por um passadiço coberto, com uma enorme tenda onde funciona a cozinha. Aí, um cozinheiro e dois ajudantes, preparam a comida para vinte ou trinta pessoas.
Estamos bem situados. A uns quinhentos ou seiscentos metros encontra-se a praia. Atravessamos um capinzal, e deparamo-nos com um areal extenso, de areia branca e fina, e uma água maravilhosa, de temperatura agradável, onde mergulhamos uma e outra vez,



e as crianças se divertem em segurança.



Com os homens todo o dia ocupados nas suas acções, as mulheres passam os dias cuidando dos filhos. Dos trabalhos domésticos, que se resumem a pouco mais do que tratar das roupas, já que vivemos numa espécie de comunidade, tratam os criados.
Deste modo, temos muito tempo livre – tratar das crianças não ocupa o dia todo.
Há dias estávamos a conversar e surgiu-nos a ideia de fazer como que um complemento à acção dos homens – prestar assistência aos necessitados.
Perante alguma surpresa nossa, os homens concordam com a ideia.
Recorremos a quem de direito para nos arranjar transporte a fim de visitarmos as senzalas. Foi posto à nossa disposição um jipe com motorista, que, nas picadas esburacadas, nos faz bater com a cabeça na capota.



Mas, todas jovens e imbuídas duma enorme vontade de colaborar, não são uns miseráveis buracos que nos vão fazer desistir.
A primeira coisa a fazer é tentar arranjar ajuda, de preferência em dinheiro, para comprar o necessário (mantimentos, medicamentos, eventualmente roupa para os bebés) para distribuir pelos necessitados.
Esta é a parte mais difícil e custosa, e só o nosso espírito de jovens com grande vontade de socorrer quem precisa nos dá força para a enfrentar.
Percorremos as ruas da cidade batendo às portas das casas, explicando ao que vamos, qual o nosso propósito, pedindo, enfim, uma ajuda.
Se há pessoas, (a maioria, felizmente) que nos recebem bem, compreendem os nossos motivos e nos dão o que podem ou querem, outras há que chegam a ser malcriadas. Houve um homem que foi especialmente mal-educado, dizendo-nos que “fôssemos mas é para casa cuidar dos maridos”, e “esses madraços (referia-se aos pretos) que vão mas é trabalhar”.
No final, o saldo é positivo.
Depois de nos abastecermos do que sabíamos que eles mais apreciavam – sal, por exemplo, que eles têm dificuldade em conseguir – percorremos as senzalas, vendo quem é mais pobre e precisa de auxílio, assim como verificando se há doentes.
Uma das componentes do grupo é enfermeira e sabe, melhor do que nós, detectar a doença e calcular a sua gravidade.
Levamos connosco aqueles medicamentos mais básicos, como aspirina ou qualquer outro analgésico. Para os outros casos falamos depois com o médico, explicando os sintomas, e no dia seguinte levamos os medicamentos que ele indica. Em casos mais graves, raros, levamos o doente para o hospital, cujo director faz o favor de apoiar a nossa causa.
Um dia encontramos um homem doente, já velhote, com cabelos brancos, a quem perguntamos quantos anos tem:
- Não sabe, senhora. Tem muitosssssssss!
De seguida pedimos que nos diga o que sente, o que o incomoda, e ele lá explica o melhor que sabe. É um dos tais casos que teremos que relatar ao médico. Este aconselha um medicamento em supositórios que, no dia seguinte, levamos à palhota.
E agora, como explicar ao homem como tomar, ou antes, não tomar ;) os supositórios? Foi complicado. Empurramos umas para as outras, até que decidimos, por unanimidade, eleger a enfermeira para executar essa tarefa.
Ela procurou escusar-se mas por fim teve que o fazer. Experimentou mil gestos, mas o velhote não dava sinais de estar a compreender. Foi salva por uma criancinha pequena que apareceu. Agarrou-a rapidamente, pô-la sobre os joelhos com o rabito voltado para cima, e indicou ao velhote onde deveria colocar o supositório.
Mas não se esqueceu de frisar que não era na criança, mas sim nele, que os devia aplicar.
O velhote abriu a boca desdentada numa enorme gargalhada.
Acabámos todas a rir.

domingo, 9 de maio de 2010

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE (1/02)

O INCONVENIENTE DE SE FALAR FRANCÊS

Quando cheguei tinha acontecido, poucos dias antes, a independência do Congo Belga. A cidade estava repleta de refugiados que tinham vindo acolher-se num sítio para eles seguro, dado que, após a independência, o vizinho Congo Belga viveu tempos muito conturbados.
Da varanda do apart-hotel onde eu me encontrava, e onde permaneci por cerca de um mês, podia vê-los, com enormes túnicas brancas contrastando com o negro da pele. Para quem, como eu, não estava habituada a vê-los em tão grande número e em tais roupagens, era um pouco assustador. Quase não me atrevia a sair à rua, a não ser acompanhada, o que só podia acontecer ao final do dia, quando o marido regressava dos seus afazeres.
A primeira semana foi um pouco complicada. O marido encontrava-se destacado numa povoação a alguns quilómetros de distância, e só regressou uma semana depois. Fez-me companhia no dia da chegada e no dia seguinte, mas logo a seguir voltou para o seu posto.
Acho que foi a semana mais comprida da minha vida, mas chegou ao seu termo, como tudo…
Decorrido cerca de um mês conseguimos alugar um apartamento num prédio que ainda estava em construção. O construtor deu prioridade aos dois apartamentos do rés-do-chão – esquerdo e direito – onde se instalaram duas famílias nossas conhecidas, e ao primeiro andar direito, para onde nós fomos viver.
Como o dia em África começa muito cedo, quando dei à luz, às nove horas da manhã, os trabalhos decorriam a ritmo acelerado nos andares de cima. As marteladas ouviam-se a distância e faziam estremecer o prédio. E foi no meio de toda esta algazarra que o meu bebé tomou contacto com o mundo pela primeira vez.
Os dias que se seguiram não foram mais silenciosos; só quando as obras foram subindo de patamar é que o barulho se começou a ouvir mais ao longe.
Ainda hoje me espanta como é que o meu filho consegue ser uma pessoa tão calma e serena tendo nascido no meio de tanta barulheira.
A casa onde morávamos era bastante espaçosa. Para além duma sala grande que funcionava como sala de estar e de jantar, tinha dois quartos, e as restantes divisões normais numa casa.
Cerca de um mês depois de lá estarmos a minha cunhada foi juntar-se a nós,

e aí permaneceu até que o marido, colocado mais ao norte, conseguiu reunir condições para ter a família junto de si. Vinha à cidade apenas aos fins-de-semana gozar a companhia da mulher e dos dois filhitos pequenos.
Tínhamos um criado que passava a ferro e cozinhava divinalmente. Lembro-me que lhe lia receitas do meu livro de cozinha que me tinha acompanhado – inexperiente como eu era não sabia cozinhar e tinha que me valer do livro de receitas, gentil oferta do marido no primeiro Natal que passamos casados !!!
O Francisco, assim se chamava o criado – pelo menos dava por esse nome – ouvia a receita uma vez apenas e reproduzia os cozinhados quantas vezes quiséssemos, com mão de mestre.
Era um homem alto, bonito, de pele excepcionalmente escura, quase azulada, com um semblante impenetrável.
Naturalmente educado, cortês, de poucas falas mas atencioso, levava-nos a pensar que teria ascendência de elite.
Um dia em que eu e minha cunhada nos encontrávamos na sala, cuidando dos bebés, o Francisco encontrava-se lá também, a passar a ferro.
A minha cunhada dirigiu-se-me:
- Mariazita, já reparaste como “ele” passa tão bem a ferro?
Para que ele não percebesse, ela tinha falado em francês, e dito “ele” em vez de “Francisco”.
Já anteriormente tínhamos usado este estratagema quando queríamos dizer alguma coisa que preferíamos que ele não percebesse.
Antes que eu respondesse à minha cunhada, o Francisco disse, em português:
- Aprendi com a minha mãe, senhora. Era ela que cuidava pessoalmente dos fatos do meu pai.
Apanhadas de surpresa, a nossa reacção imediata foi de estranheza, que lhe fizemos sentir:
- Ah! Então o Francisco sabe falar francês?
- Sim, senhora, melhor do que português, porque eu sou do Congo Francês.
Àquela data, depois da independência do Congo Belga e consequentes distúrbios, havia uma atenção especial à fronteira, a norte, com o Congo Francês – Ponta Negra – que viria a tornar-se independente pouco tempo depois.
Postos ao corrente deste “incidente” com o Francisco, devido ao clima instável que se vivia no Congo Francês, os maridos acharam mais prudente “dispensá-lo” do serviço.
Apanhámos um pequeno (…) susto, mas, no fundo, o que mais nos custou foi perdermos os belíssimos cozinhados do Francisco.
E tudo isto por nos termos lembrado de falar em francês!

domingo, 11 de abril de 2010

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE (3/01)

CHEGADA À "LUA"

Após uma viagem de uma semana num “mar de azeite”, como dizem os marinheiros, aproximamo-nos do nosso destino.

Ao longe, apenas se vislumbravam umas sombras esfumadas no horizonte.
Agora, que estamos relativamente perto, a paisagem torna-se nítida – montes escalvados, de cor avermelhada, sem vestígios de vegetação, uma verdadeira paisagem lunar.

Temos a sensação de que estamos a chegar à lua!

Depois das manobras habituais, que nos parecem infindáveis, finalmente o navio encosta ao cais.
Com a bagagem de camarote há muito preparada, as três crianças controladas, apressamo-nos a descer o portaló.

O cais fervilha de gente, na sua maioria naturais da terra, táxis buzinando, um burburinho tremendo.
Finalmente pomos pé em terra.

Após beijos e abraços efusivos, - que as saudades já eram muitas – aguardamos o carro que nos transportará para casa.

Ao meu lado, um autóctone, de pé, vê de repente um carro passar muito perto, chegando mesmo a roçar-lhe o corpo. Recuando de um salto, com receio de que o pneu lhe passasse em cima do pé descalço, grita, assustado:
- Ai nha pé!
Este é o meu primeiro contacto com a linguagem local.

O “nha”, que significa meu ou minha ( nha pai, nha mãe) irá fazer parte do meu dia-a-dia durante os próximos dois anos.

Vamos então p’ra nha casa!

Situada num ponto elevado, a moradia, acompanhada à esquerda e à direita por outras casas igualmente independentes, tem na parte da frente um arremedo de jardim, com uma ou outra planta enfezada, que, durante os dois anos da minha permanência aqui, irei, teimosamente, tentar recuperar.
Luta inglória! O ar é extremamente seco, com ventos fortes nove meses por ano, a falta de água é enorme; mesmo regando-as todos os dias, a terra absorve completamente a água muito para além se onde as raízes a possam alcançar.
Apesar de todos os esforços, o meu jardim nunca deixou de ter este aspecto desértico.

Em frente, do lado de lá da estrada, há um vasto espaço coberto de terra vermelha, que termina num declive em direcção ao mar.

Da porta de casa, à qual se acede subindo três degraus de pedra, avista-se, não muito ao longe, o mar, vindo do qual se pode sentir, em certos dias, o cheiro a maresia.

Algum tempo depois de aqui estar irei assistir a verdadeiras batalhas campais travadas entre grupos de cães, provavelmente inimigos, nesse espaço existente em frente à casa.
Sem qualquer aviso prévio, uns chegam da direita, outros aproximam-se pela esquerda, acabando por juntar-se no centro do terreno.
Entre ladridos e rosnares, engalfinham-se ferozmente, levantando incríveis nuvens de poeira vermelha que chega a escurecer o céu.
Depois de alguns minutos de luta abandonam o campo de batalha, retrocedendo cada grupo pelo mesmo caminho por onde chegara.
Da refrega, felizmente, não resultam mortos; apenas alguns ferimentos se revelam nas pernas que vão manquitando no regresso ao lar.

Nunca consegui descobrir por que razão, de tempos a tempos, se envolviam em contenda.
Certo é que, chegará o dia em que também eu regressarei ao local de partida, sem que eles tenham resolvido os seus diferendos.

Mas, por agora, há que nos instalarmos na que vai ser a nossa moradia durante os próximos dois anos.
Não se trata de nenhum palácio, mas, depois de arrumada a nosso gosto, ornamentada com objectos que nos acompanharam, torna-se bastante confortável.

Tudo leva a crer que, aqui, pelo menos, viveremos em paz, perspectiva por demais aliciante para quem passou os últimos cinco anos em clima de guerra.